sexta-feira, 22 de novembro de 2013

"A contenteza do triste"


Escreveria hoje sobre o romance São Bernardo, mas deixarei para semana que vem.

É que ontem foi impossível dormir. Minha saúde não está das melhores e o calor ultrapassou o limite do suportável. Não conseguia ler duas páginas seguidas de qualquer livro. Decidi então ouvir música e o primeiro CD escolhido foi o Voadeira, da Mônica Salmaso. Já o escutei dezenas de vezes, mas não sei por qual motivo, quando a sexta faixa terminou, senti-me invadido por uma sensação contrária ao mal-estar que me dominava. Tratava-se de Béradêro, canção composta por Chico César, presente também no disco de estréia do cantor e compositor paraibano (Aos vivos, 1995). Reproduzo, abaixo, a letra na íntegra:

"Os olhos tristes da fita
Rodando no gravador
Uma moça cosendo roupa
Com a linha do Equador
E a voz da santa dizendo:
O que é que eu tô fazendo
Cá em cima desse andor

A tinta pinta o asfalto
Enfeita a alma motorista
É cor na cor da cidade
Batom no lábio nortista
O olhar vê tons tão sudestes
E o beijo que vós me nordestes
Arranha céu da boca paulista

Cadeiras elétricas da baiana
sentença que o turista cheire
E os sem amor, os sem teto
Os sem paixão, sem alqueire
No peito dos sem peito uma seta
E a cigana analfabeta
Lendo a mão de Paulo Freire

A contenteza do triste
Tristezura do contente
Vozes de faca cortando
Como o riso da serpente
São sons de sim, não contudo
Pé quebrado, verso mudo
Grito no hospital da gente"

Uma junção de imagens literárias belíssimas ("Pé quebrado, verso mudo/Grito no hospital da gente"), jogos de palavras inesperados ("O olhar vê tons tão sudestes/E o beijo que vós me nordestes/Arranha céu da boca paulista"). Que belíssimo poema!

Pensei, enquanto ouvia a música (e penso nisso frequentemente): ah, se não fosse a atividade artística, como a nossa vida seria ainda mais ordinária e desagradável. 

Durante este dia (e como está sendo difícil levá-lo adiante), ficarei cantarolando essa canção, atrás da "contenteza do triste"

Na próxima semana, prometo trabalhar mais e retornarei a Graciliano Ramos.

BG de Hoje

Claro, só podia ser a interpretação de MÔNICA SALMASO para Beradêro.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

"Gracilianas" (IIIb) - Angústia


"Trancado num quarto, sapecando as pestanas em cima de um livro, como sou vaidoso e como sou besta! Caminhei tanto; e o que fiz foi mastigar papel impresso. Idiota".

Luis da Silva, personagem-narrador de Angústia - Graciliano Ramos

 
No ensaio O pobre diabo no romance brasileiro* (citado na postagem anterior), José Paulo Paes, entre outros expedientes, vale-se do clássico estudo A teoria do romance, de Georg Lukács, para analisar "o mais humilde dos papéis ficcionais", qual seja, o pobre diabo, tal como o Luis da Silva, de Angústia**.

Em seu trabalho, Lukács considera que o "herói problemático" surge nos romances modernos e estes podem ser divididos em duas categorias: o romance de formação, típico do período romântico, no qual há um herói disposto a modificar a realidade social, levando em conta seus íntimos ideais; e o romance da desilusão, que conta com um herói (ou melhor, anti-herói) descrente de qualquer ideal, acomodado ao status quo e imerso nas suas frustrações particulares.

Para Paes, "é fácil ver que o romance de pobre diabo está tão longe das esperanças, ainda que utópicas, do romance de formação, quanto perto está da desesperança do romance da desilusão. Melhor dizendo: representa a forma mais externada, mais radical deste último".

Luis da Silva é, em dúvida, um desiludido. É também um sujeito mesquinho e rancoroso. Um dos personagens de nossa Literatura com quem mais me identifiquei até hoje. Acerto de contas do escritor consigo mesmo? É possível defender tal interpretação. Prefiro, contudo, considerar o anti-herói de Angústia como um "monstro revoltado" - lançando mão da expressão usada por Otto Maria Carpeaux. Mas não é um monstro revolucionário (a despeito das convicções políticas do escritor à época), uma vez que, resignado, atola-se no conformismo.

. . . . . . .

Antes de encerrar, gostaria de destacar outro ponto que me interessa muito em Angústia: o desencanto com que a relação amorosa é tratada; melhor dizendo, no modo como se narra o encontro homem-mulher. Note, por exemplo, a lembrança residual do envolvimento do narrador com Marina:

"De todo aquele romance as particularidades que melhor guardei na memória foram os montes de cisco, a água empapando a terra, o cheiro dos monturos, urubus nos galhos da mangueira farejando ratos em decomposição".

Esse desencanto tornar-se-á mais explícito no encontro do protagonista com uma prostituta pobre e doente. Após pagar uma refeição simples para a mulher, Luis a acompanha até um "quartinho sujo". Fica sabendo que ela está "na vida" há quatro anos: "Quatro anos. E ali estava aquela carcaça comida pelo treponema. Panos caídos no chão, o irrigador com permanganato. Na mesinha de cabeceira, essências ordinárias disfarçavam um cheiro forte de esperma".

Os dois não fazem sexo, mas ao ir embora, Luis entrega dez mil-réis à prostituta, que recusa. Ele então diz:

"Não me faça cometer um desatino. A senhora é relógio para trabalhar de graça? A senhora tem obrigação de andar nua diante de mim? Duas horas de chateação, de conversa mole! A senhora é relógio? A senhora não é relógio".

Dignidade vale dez mil réis? Dignidade vale quanto?

Dias depois, descobre que "a mulher da Rua da Lama, a que eu encontrara uma noite no Helvética, andava caipora, no hospital, com doença do mundo".

Angústia é um livro de desalento. Estranhamente, contudo, sempre saio dele mais fortalecido, a cada nova leitura.

Na próxima postagem, falarei do São Bernardo.
__________
* PAES, José Paulo. O pobre diabo no romance brasileiro. In: ________. A aventura literária: ensaios sobre ficção e ficções. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p. 39-61

** RAMOS, Graciliano. Angústia. 32 ed. Rio de Janeiro: Record, 1986


BG de Hoje

Esta foi a primeira canção que ouvi do METALLICA, há bastante tempo, na casa de um ex-colega de escola: Fade To Black. A cada dia percebo que gosto muito das músicas desesperadas...

terça-feira, 12 de novembro de 2013

"Gracilianas" (IIIa) - Angústia


Referindo-se à obra de Graciliano Ramos, Otto Maria Carpeaux observou que

"Toda literatura pessimista encontra uma resistência fanática: leitores e críticos não gostam disso. Sentem vagamente que arte e pessimismo se contradizem. Mas em vez de estudarem esteticamente a possível contradição, entrincheiram-se em regiões fora da arte, na filosofia, na ética, para bombardear o romancista com censuras de 'pouca generosidade' ou de niilismo insaudável. Não admito preconceitos. O pessimismo não é nem uma moral nem uma filosofia. É um estado de alma".

Parece ser este o estado de alma predominante em quase toda a obra de Graciliano Ramos. E tal pessimismo é ainda mais perceptível naquele que considero o melhor livro do artista alagoano: Angústia*.

Escrito em primeira pessoa, Angústia depende inteiramente do que nos conta o personagem-narrador Luis da Silva. Sob esse aspecto, portanto, assemelha-se a São Bernardo. A diferença está nas personalidades dos protagonistas. Paulo Honório é um homem de ação decidido; não são seus "estados mentais", digamos assim, que traduzem a força do romance e sim seus atos. Por outro lado, em Angústia, o mais fundamental para o leitor é saber o que se passa na consciência do atormentado Luis da Silva. Mas, afinal, quem é esse sujeito?

Um "molambo que a cidade puiu demais e sujou", ele nos diz no início do livro. Empregado numa "ocupação estúpida e quinhentos mil-reis de ordenado", chega a manifestar algum inconformismo: "Não sou um rato, não quero ser um rato". Mas acaba assumindo-se como um "percevejo social", que se ressente dos "sujeitos remediados que me desprezam porque sou um pobre-diabo".

O termo pobre-diabo, a propósito, lembra-me um ótimo ensaio escrito por José Paulo Paes, intitulado justamente O pobre diabo no romance brasileiro**. Neste artigo, Paes analisa esse tipo de personagem a partir da sua presença em pelo menos quatro livros: Os ratos (Dionélio Machado), O Coruja (Aluísio Azevedo), Recordações do escrivão Isaías Caminha (Lima Barreto) e, naturalmente, o de Graciliano Ramos. O ensaísta busca estabelecer um conceito (de inspiração socioeconômica):

"Embora o pobre diabo se situe por definição num dos estratos inferiores da pirâmide social - sua pobreza o condena a eles - não pode pertencer nem ao proletariado nem ao lumpemproletariado". Acaba sendo um "patético pequeno-burguês quase sempre alistado nas hostes do funcionalismo público mais mal pago, vive a beira do naufrágio econômico que ameaça atirá-lo a todo instante à porta da fábrica ou ao desamparo da sarjeta, onde terá de abandonar os restos do seu orgulho de classe".


Uma abordagem bastante adequada para compreender o Luis da Silva de Angústia. Tentarei ampliá-la um pouquinho mais na próxima postagem.
__________
* RAMOS, Graciliano. Angústia. 32 ed. Rio de Janeiro: Record, 1986

** PAES, José Paulo. O pobre diabo no romance brasileiro. In: ________. A aventura literária: ensaios sobre ficção e ficções. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p. 39-61

BG de Hoje

Essa canção me intrigava muito quando eu era garoto. E até hoje me impressiona. Mal necessário, na interpretação de NEY MATOGROSSO.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

"Gracilianas" (II) - Infância



Infância foi publicado pela primeira vez em 1945. Nessa época, Graciliano Ramos já se tornara um escritor experiente, cioso de seu ofício. Arrisco dizer que Infância revela tanta qualidade expressiva, um artesanato (sem ornamentação, porém) tão apurado no uso da palavra escrita e na construção da frase que, nesse aspecto, iguala-se e até supera, nalguns momentos, Vidas Secas. Basta ler certos capítulos, como Um cinturão, por exemplo, e verificar*:

"As minhas primeiras relações com a justiça foram dolorosas e deixaram-me funda impressão. Eu devia ter quatro ou cinco anos, por aí, e figurei na qualidade de réu. Certamente já me haviam feito representar esse papel, mas ninguém me dera a entender que se tratava de julgamento. Batiam-me porque podiam bater-me, e isto era natural".


E também nessa descrição do livro escolar detestado (O Barão de Macaúbas):

"Um grosso volume escuro, cartonagem severa. Nas folhas delgadas, incontáveis, as letras fervilhavam, miúdas, e as ilustrações avultavam num papel brilhante como rasto de lesma ou catarro seco".


Mas o que me atrai mesmo nesse livro extraordinário é o modo como o narrador encara "os tempos de criança". E estes foram doloridos. Marcados pelo medo. Tristes. NOTA 1: Há uma tendência, mais ou menos generalizada mundo afora: olhar para a infância com uma nostalgia carinhosa e idílica ("bons tempos aqueles" ou "eu era feliz e não sabia"). Não há vestígio disso em Graciliano Ramos. Em determinada passagem, o narrador diz ter chegado a si "retalhos de felicidade". Essa sensação, contudo, é elemento escasso na narrativa.

Quais capítulos destacaria? O moleque José, no qual o narrador nos descreve sua vontade de executar, ainda que timidamente, um ato de crueldade; Leitura, sobre sua penosa experiência inicial de alfabetização; e A criança infeliz, que pode ser lido até como um conto autônomo. NOTA 2: O valor que atribuo a Infância não me impede, todavia, de rejeitar a maneira negativa e ofensiva como o escritor geralmente retrata pessoas negras dentro do livro.

No capítulo Um intervalo, o narrador nos fala de um momento de convivência com as filhas de Seu Nuno, moças que tinham a capacidade, segundo ele, de "afirmar o contrário do que desejavam". Elogiavam o "paletó cor de macaco" usado pelo menino, mas, no fundo, zombavam dele: "dissimulavam-se agora num jogo de palavras que encerrava malícia e bondade". O acontecido marcou Graciliano Ramos, que assim termina o capítulo:

"Guardei a lição, conservei longos anos esse paletó. Conformado, avaliei o forro, as dobras e os pospontos das minhas ações cor de macaco. Paciência, tinham de ser assim. Ainda hoje, se fingem tolerar-me um romance, observo-lhe cuidadoso as mangas, as costuras, e vejo-o como ele é realmente: chinfrim e cor de macaco".

A dureza autoavaliativa sempre acompanhou o escritor.

Na próxima semana, falarei do meu livro preferido dentro da obra de Graciliano Ramos: Angústia.
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* RAMOS, Graciliano. Infância. 22 ed. Rio de Janeiro: Record, 1986

BG de Hoje

Outro produto artístico que mira a infância com tristeza (horror, pra ser mais exato): a canção Jeremy, do primeiro disco do PEARL JAM.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

"Gracilianas" (I) - Cartas


Os dois escritores brasileiros que mais admiro são Lima Barreto e Graciliano Ramos. Já li toda a obra de ambos. Apesar disso, neste blog, só tratei do primeiro autor em duas ocasiões (Nocautes 3 e ...Revolução silenciosa chamada literatura). Ao segundo (mais grave ainda), não dediquei uma postagem sequer. Começo a remediar a falta imperdoável, a partir de hoje, com esta nova série de impressões de leitura, prevista para durar até o dia 12 de dezembro, quando o Besta Quadrada entrará em recesso. E começo com a reunião das Cartas*, que foram dadas à publicação em 1980 por Heloísa Ramos, viúva do escritor alagoano.

Destaco, entre os 112 escritos reunidos nesse volume, a carta 77, cuja data é 3 de abril de 1935. Graciliano Ramos encontrava-se em Maceió, ocupando o cargo de Diretor da Instrução Pública de Alagoas. A carta foi destinada a Heloísa, que, na época, estava no município de Palmeira dos Índios. A essa altura, Caetés e São Bernardo já circulavam nos meios literários.

Ramos relata ter escrito duas correspondências "a dois sujeitos de Minas" (Oscar Mendes e Jaime de Barros, articulistas na imprensa), cujo assunto principal era o livro São Bernardo. Os textos enviados, segundo o escritor, eram "umas cartas literárias, cheias de merda de galinha". E lamenta:

"Eu sou um literato horrível, e só dou para isso. Tenho procurado outras profissões. Tolice. Creio que meu pai e minha mãe me fizeram lendo o Alencar, que era o que havia no tempo deles. O Estado está pegando fogo, o Brasil se esculhamba, o mundo vai para uma guerra dos mil diabos, muito pior que a de 1914 - e eu só penso nos romances que poderão sair dessa fornalha em que vamos entrar".

Em cartas anteriores a essa, destinadas a uma das irmãs, ao pai e ao amigo de toda a vida, J. Pinto da Mota Lima Filho, o escritor havia revelado sua desconfiança e receio quanto a seu talento para persistir na carreira literária. Esses sentimentos não o abandonam, mesmo aos 43 anos, com dois romances publicados e um terceiro (Angústia) em fase final de elaboração.

Mas há um outro ponto essencial dessa carta que demonstra o modo como Graciliano Ramos compreendia a sua condição de escritor:

"Alagoas tem um milhão e duzentos mil habitantes [naquele tempo], mas na minha estatística há apenas uns três indivíduos, uns três e meio, quatro no máximo. Os que fazem política, os que vendem ou compram fazendas, os que plantam algodão e os que fabricam açúcar são de espécie diferente da minha".

Visão semelhante terá o Luís da Silva, personagem central de Angústia. Longe de se colocar num terreno exclusivista, reservado aos artística ou intelectualmente "superiores", Ramos indica, por meio de uma avaliação acerba, o que são os literatos (e, por consequência, o que são todos aqueles envolvidos e interessados pela Literatura):

"Somos uns animais diferentes dos outros, provavelmente inferiores aos outros, duma sensibilidade excessiva, duma vaidade imensa que nos afasta dos que não são doentes como nós. Mesmo os que são doentes, os degenerados que escrevem história fiada, nem sempre nos inspiram simpatia: é necessário que a doença que nos ataca atinja outros com igual intensidade para que vejamos nele um irmão e lhe mostremos as nossas chagas, isto é, os nossos manuscritos, as nossas misérias, que publicamos cauterizadas, alteradas em conformidade com a técnica. Tudo isto é muito pedante e muito besta, mas é continuação das cartas que escrevi ao Oscar Mendes e ao Jaime de Barros. Apenas suponho que esta vai saindo melhor, o que é ridículo".

Ao término da carta, responde à esposa sobre a possibilidade de voltar a viver em Palmeira dos Índios:

"É possível que nos metamos outra vez em Palmeira, que eu compre algodão e venda trapos, mas com certeza hei de comprar e vender muito mal. Comprando algodão ou vendendo fazenda, construindo o terrapleno da lagoa ou entregando os diplomas às normalistas [...], hei de fazer sempre romances. Não dou para outra coisa. Ora aqui [a capital Maceió] há uns dois ou três indivíduos que falam comigo. Aí não há nenhum. Estou, pois, com vontade de ir para Minas, onde há muitos leprosos. Talvez encontre outros doentes como eu".

O escritor, como é sabido, não veio para Minas. Mas certamente encontraria os "doentes" de que fala, caso viesse. "Doentes" como este blogueiro, que leem com dedicação a obra desse autor essencial.

Na próxima postagem, falarei sobre Infância.
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* RAMOS, Graciliano. Cartas. 6 ed. Rio de Janeiro: Record, 1986

[Atualização em 13/10/2016]: Após esta postagem, já escrevi outras três vezes sobre Lima Barreto: aqui, discutindo o romance Recordações do escrivão Isaías Caminha; e aqui e aqui, falando de aspectos biográficos do escritor carioca.

BG de Hoje

Entre tantas maravilhosas canções compostas por PAULINHO DA VIOLA, esta é das minhas prediletas: 14 anos.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Mais que comoventes


Um dos livros cuja leitura mais me emociona, até hoje, é Quando eu voltei, tive uma surpresa*, do historiador e escritor Joel Rufino dos Santos. Como se sabe, trata-se de uma reunião de cartas enviadas por ele a Nelson, seu filho (na época, um garoto de 8-9 anos), durante o período em que esteve detido no Presídio do Hipódromo (São Paulo). Joel Rufino integrou o ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros), na equipe de Nelson Werneck Sodré, responsável pela obra História nova do Brasil. Com a instalação da ditadura militar no país, a entidade é fechada. Opositor ao regime, o historiador acaba preso em 1972. As cartas enviadas ao filho e publicadas posteriormente vão de junho de 1973 a março de 1974.

A edição da Rocco reproduz os manuscritos originais (e um telegrama), guardados durante todo esse tempo por Teresa Garbayo dos Santos, esposa de Joel Rufino e mãe de Nelson. Nas cartas, o missivista usava canetinhas coloridas, fazia desenhos, dava mini-aulas de História (por exemplo, quando fala ao filho sobre Zumbi e o Quilombo dos Palmares, dividindo o assunto em partes) e - o que é precioso - conta pequenas histórias, muitas delas oriundas do folclore e da cultura popular. E chega até a fazer um reconto de O velho e o mar, de Hemingway. É comovente ler o modo como Joel Rufino, reiteradamente, demonstra seu amor por uma pessoa de quem ele gosta muito (as cartas são o tipo de texto que melhor permite isso) e só posso imaginar como deve ter sido difícil para o filho compreender porque o pai estava longe e dentro de uma prisão.

Mas essas cartas são mais do que comoventes. No prefácio, Teresa Garbayo diz que guardou as cartas "que chegaram" - pois, no regime ditatorial então em vigor, era de se esperar, infelizmente, que as correspondências fossem controladas e vigiadas. Há uma passagem numa delas em que Joel pede ao filho que informe na resposta "se as cartas que eu te escrevo estão indo direitinho". Ao decidir publicá-las, Teresa sabe que, além se serem "uma parte da história de vida" do seu filho, essas cartas também revelam um pouco da história "do país em que vivemos". E não deixa de ser perturbador olhar aquelas folhas - coloridas, desenhadas e destinadas a uma criança - com um carimbo em cima escrito PRESÍDIO DO HIPÓDROMO - DEIC (Departamento Estadual de Investigações Criminais).

É na primeira das correspondências que se encontra o título do livro (esta mesma carta também pode ser encontrada na ótima antologia Me escreva tão logo possa, organizada por Marcos Antonio de Moraes**):

"Quando eu voltei, tive uma surpresa. Fui convidado pelo governo a contar algumas coisas que eu fiz. Por exemplo: eu dei algumas aulas sobre coisas que o nosso governo não gosta: contei algumas histórias que o nosso governo não gosta que se conte; e, finalmente, escrevi alguns livros que o nosso governo também não gostou".

E ele se justifica:

"Eu acho que tenho razão. As aulas que eu dei, as histórias que eu contei e as coisas que eu escrevi nos meus livros e nos jornais - eu acho que são coisas certas. O governo não acha. O juiz é quem vai decidir. Agora, eu estou esperando ele me chamar para decidir. Isto demora um pouco, infelizmente. Tenho certeza de que o juiz vai dizer: ' Seu Joel, não tem mal algum o senhor ter as suas opiniões. Pode ir embora'. Ou então ' Seu Joel, o senhor já esperou muito tempo pela minha decisão. Pode ir embora' ".

Lamentavelmente, Joel só pode juntar-se ao filho quase um ano após o envio dessa carta.

Na próxima semana (e até o recesso de fim de ano do blog) escreverei sobre Graciliano Ramos.
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* SANTOS, Joel Rufino dos. Quando eu voltei, tive uma surpresa: cartas a Nelson. Rio de Janeiro: Rocco, 2000

** MORAES, Marcos Antônio de (Org.). Antologia da carta no Brasil: me escreva tão logo possa. São Paulo: Moderna, 2005

BG de Hoje

Marc Bolan (T-REX) não costuma figurar nas listas mais comuns dos grandes guitar heroes da história do rock. Deve ser porque suas composições e seu jeito de tocar eram mais despojados do que os dos outros guitarristas-compositores da época (a despeito da egolatria desse artista). Acho também que há uma certa dose de preconceito por causa da androginia de Bolan. De todo modo, dá uma sacada na irresistível canção The Motivator.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Ceticismo: um modo de olhar a realidade


No Dicionário de Filosofia*, logo nas definições iniciais do verbete ceticismo, lemos o seguinte:

"Com esse termo, que significa busca, entende-se a tese de que é impossível decidir sobre a verdade ou a falsidade de uma proposição qualquer. Ceticismo não tem nada a ver como relativismo ou com as doutrinas segundo as quais tudo é verdadeiro ou tudo é falso, uma vez que estas pretendem fornecer um critério de decisão que o ceticismo nega existir".

O cético, simplificadamente, é alguém que duvida das coisas. E muito. Se alguém truca, ele está pronto a berrar de volta (ou apenas sussurrar, na maior parte das vezes): "Seis!".

Resolvi falar sobre esse tema ao reler dias atrás um ensaio de que gosto muito - Ficção e ceticismo, de Gustavo Bernardo**. NOTA (1): Gustavo Bernardo Krause é professor de Teoria da Literatura na UERJ e também ficcionista, cujos trabalhos, sobretudo os voltados para o público juvenil, interessam-me bastante. Noutra oportunidade voltarei a estes.

Pois bem. A definição acima falava em busca. Ao encontro dessa noção, podemos ler em Ficção e ceticismo :

"[...] os céticos também são chamados de 'zetéticos', que significa: 'procuradores'. Ao desconfiar de dogmas, verdades definitivas ou afirmações peremptórias, os céticos se mantêm em constante estado de incerteza e investigação intelectual".


Gustavo Bernardo estabelece importantes distinções:

"enquanto os dogmáticos têm certeza de que só eles sabem alguma coisa e os niilistas têm certeza de que não se pode ter certeza de nada, os céticos duvidam de que se possa ter certeza de alguma coisa: enquanto os dogmáticos já acharam a resposta e os niilistas já pararam de procurar, a dúvida dos céticos os leva a continuar procurando a verdade".


NOTA (2): Se você, eventual leitor(a), por acaso me conhece, no plano pessoal, provavelmente suspeita - com bons motivos, aliás - que estou mais para o niilismo do que o ceticismo. Mas isso é assunto para outra cerveja...

Nesta postagem, estou particularmente interessado no que Gustavo Bernardo escreve quando procura analisar como a ficção, "a partir de algumas metáforas geradoras", pode ser importante para a discussão filosófica. O ensaísta, então, "aciona" obras - tais como Matrix, 1984, Neuromancer -, filósofos - tais como Bertrand Russell, René Descartes, Paul Kurtz, Hilton Jupiassu, Karl Popper -, e escritores - tais como Philip K. Dick, Fernando Pessoa e Luis Fernando Veríssimo - para afirmar, entre outras coisas, que "a literatura põe sob suspeição a realidade; por isso a refaz". Ou seja, o que chamamos de realidade, no fundo, pode ser  outra coisa bem distinta do que estamos tomando como o real e a ficção - literária, mas também a que se encontra em outras artes narrativas - nos permite especular em torno dessa questão por meio do discurso figurativo e inventivo que propõe.

Para terminar, uma ressalva. Se o ceticismo é "logicamente impecável", como diria Bertrand Russell, por outro lado, é "psicologicamente impossível". É provável que ninguém consiga ser cético o tempo todo, nem sequer a maior parte do tempo. O ceticismo deve ser usado com moderação, diria Paul Kurtz. Gustavo Bernardo acrescenta que "a pílula cética, se tomada em excesso, conduz à dúvida arrogante que acaba por não ser mais dúvida: adquire-se a certeza de que a realidade não é real".

Assim, o ceticismo "deve ser considerado como uma regra metodológica básica: sem ela, estamos prontos a despencar na desilusão complacente e, em consequência, no dogmatismo; com ela, se usada com prudência, avançamos nas fronteiras da investigação e tiramos benefícios para a vida prática" [grifos meus]

O ceticismo é, portanto, um modo - crítico e perquiridor - de olhar para a realidade. Vamos exercitá-lo?

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* CETICISMO. In: ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 5 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007. p. 151-153.

** BERNARDO, Gustavo. Ficção e ceticismo. In: _______. (Org.). .Literatura e ceticismo. São Paulo: Annablume, 2005. p. 89-112. OBS: Esse autor também assina seus escritos, sobretudo produção acadêmica, como Gustavo Bernardo KRAUSE; optei por Gustavo BERNARDO pois é assim que seu nome aparece na folha de rosto deste e de outros livros de sua autoria.

BG de Hoje

No último domingo estava assistindo ao (indispensável) programa Ensaio, da TV Cultura. A artista focalizada era DANIELA MERCURY, a quem sempre admirei. E olhando para minha modesta coleção de CD's, notei que não tenho nenhum disco dela (embora, noutra época, comprara dois álbuns da cantora baiana - em vinil, hoje sumidos por aí). Vou preencher essa lacuna o mais breve possível. Por enquanto, no BG, uma interpretação valiosa, das melhores de D. Mercury, para a canção Serrado, de Djavan.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

A megalópole e suas micro-histórias



"são paulo relâmpagos
(são paulo é o lá-fora? é o aqui dentro?)"


Luiz Ruffato - Eles eram muitos cavalos



A última Feira do Livro de Frankfurt (o mais tradicional evento do gênero no mundo) ocupou considerável espaço em alguns veículos de comunicação aqui no país (o Brasil foi a nação homenageada este ano). E para mim é bastante agradável quando as produções literárias e o mercado editorial tornam-se assuntos destacados na imprensa. Mas polêmica também não faltou nesses dias. Os organizadores do evento na Alemanha criticaram a reduzidíssima presença de escritores(as) negros(as) entre os artistas brasileiros enviados à Feira. Laurentino Gomes (autor da trilogia 1808, 1822 e 1889) atacou o grupo Procure Saber e a defesa que este faz da "biografia chapa-branca". O vice-presidente da República, Michel Temer, foi vaiado durante discurso de abertura. E falando nisso, Luiz Ruffato, cheio de razão, deixou em situação delicada outra representante do governo, a ministra da cultura Marta Suplicy, ao dizer, na fala inaugural da participação brasileira em Frankfurt, que o Brasil é palco de genocídio, impunidade, intolerância e de alta taxa de analfabetismo, acrescentando que a suposta democracia racial brasileira foi feita com estupros (discurso disponível na íntegra aqui).

Mesmo não conhecendo (ainda) toda a obra de Ruffato, já pude notar essa contundência de discurso demonstrada na Feira do Livro alemã em alguns de seus textos, como no prefácio da ótima antologia de contos (organizada por ele) Questão de pele: contos sobre preconceito racial. E também no livro que o projetou, nacional e internacionalmente, Eles eram muitos cavalos*, comprado há uns quatro anos, mas do qual resolvi falar só hoje.

Eles eram muitos cavalos, a meu ver, não é propriamente um romance (embora seja classificado assim, habitualmente). Não ocorre um entrelaçamento das diversas narrativas ali contidas (divididas em quase 70 seções/capítulos) para formar um enredo ou trama principal. Ainda assim, as micro-histórias existentes no livro, juntas, formam um painel a retratar um imenso centro urbano, nesse caso, a megalópole de São Paulo, numa terça-feira da semana do Dia das Mães; seus habitantes (os recém-chegados, os que sempre estiveram lá) são os personagens.

Eles eram muitos cavalos é duro, amargo; o bom humor é matéria ausente (o que me interessa, aliás). A forma como as narrativas são construídas, revelando uma expressividade às vezes mais próxima da poesia do que da prosa, alivia um pouco o peso dos dramas narrados.

Destacaria, entre as micro-histórias do livro, Chacina nº 41, na qual o crime é visto pelos olhos de um cachorro vira-lata; Nós poderíamos ter sido grandes amigos, um primor de construção narrativa; Uma copa, escrito a partir da descrição de um cômodo típico uma casa remediada brasileira; e Táxi, pois não poderia faltar um personagem tão representativo de uma grande cidade quanto o taxista.
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* RUFFATO, Luiz. Eles eram muitos cavalos. 6 ed. Rio de Janeiro: Record, 2007

BG de Hoje

A cidade de São Paulo é muito cantada, tanto ou mais do que Rio de Janeiro ou Salvador, locais também celebrados através da música popular. Uma das canções, falando sobre um ponto daquela cidade, de que mais gosto é Paulista, de Eduardo Gudin e J. C. Costa Netto, interpretada, abaixo, por VÂNIA BASTOS.


terça-feira, 15 de outubro de 2013

Em defesa da autoridade dos professores



"O problema da educação no mundo moderno está no fato de que, por sua natureza, não poder esta abrir mão nem da autoridade, nem da tradição, e ser obrigada, apesar disso, a caminhar em um mundo que não é estruturado nem pela autoridade nem tampouco mantido coeso pela tradição".

Hannah Arendt

 
No conto O professor de inglês*, Luiz Vilela nos mostra como a figura do educador pode perpetuar-se na memória dos educandos. E, no caso dessa narrativa, negativamente. O professor, "um sujeito pequeno, com alguns cabelos ralos na cabeça e uma cara de rato", realiza arguições constantes na classe, "tomando a leitura" de um e outro. Com sadismo, humilha e destrata os estudantes. A propósito: já fui aluno de um sujeito assim aos 11 anos. Só que a sua matéria era a matemática. Mas voltemos ao conto. Após a aula, uma dupla de alunos - veterano e novato - conversa. O primeiro diz que "a gente se acostuma" com a rispidez de Godofredo (o nome do professor de inglês). O outro retorque: "Eu nunca me acostumarei com isso" e acha que "Godofredo devia estar num hospital". O colega tenta amenizar: "um dia você vai achar graça disso". E a narrativa termina assim: "Eu nunca vou achar graça disso, nem vou esquecer. Eu nunca vou esquecer disso".

Os professores têm grande responsabilidade, mesmo que alguns não se deem conta dela. O modo como agem ou como se expressam ainda marca a vida de muitas crianças e jovens, com reflexos ulteriores na fase adulta desses indivíduos. No conto mencionado acima, a lembrança será péssima, mas, em inúmeras vezes, o traço deixado pelos professores é positivo (e indispensável), a despeito da desvalorização profissional e do desprestígio social que acometem esses trabalhadores, problemas particularmente agudos no caso da sociedade brasileira.

Os professores estão perdendo sua autoridade, lamentavelmente. Luiz Vilela retrata, com seu O professor de inglês, uma pessoa desejosa de exibir mando e controle sobre os outros. Mas não é disso que estou falando ao preocupar-me com a perda da autoridade dos professores. Penso, a esse respeito, em Hannah Arendt**. Para a filósofa teuto-americana, todos os adultos - e para os professores isso é ainda mais significativo - são representantes do mundo diante daqueles que a este acabaram de chegar, ou seja, as crianças. Assim, cada adulto, na condição de educador desse indivíduo recém-chegado, "deve assumir a responsabilidade [pelo mundo], embora não o tenha feito e ainda que secreta ou abertamente possa querer que ele fosse diferente do que é".

Com os professores, "essa responsabilidade pelo mundo assume a forma de autoridade"; esta não se confunde com as qualificações profissionais (embora sejam importantíssimas):

"A qualificação do professor consiste em conhecer o mundo e ser capaz de instruir os outros acerca deste, porém sua autoridade se assenta na responsabilidade que ele assume por este mundo. Face à criança, é como se ele fosse um representante de todos os habitantes adultos, apontando os detalhes e dizendo à criança - Isso é o nosso mundo".

Para Arendt (e concordo inteiramente com ela), na crise moderna da educação, o professor exerce o complicado "ofício de servir como mediador entre o velho e o novo, de tal modo que sua profissão lhe exige um respeito extraordinário pelo passado". Mas o diálogo se torna difícil com os estudantes, pois estes quase sempre estão voltados exclusivamene para o presente.

Se vivemos num mundo em que a autoridade e a tradição estão abaladas, "cumpre divorciarmos decisivamente" - diz a filósofa - "o âmbito da educação dos demais, e acima de tudo do âmbito da vida pública e política, para aplicar exclusivamente a ele um conceito de autoridade e uma atitude face ao passado que lhe são apropriados mas não possuem validade geral, não devendo reclamar uma aplicação generalizada no mundo dos adultos".

Com isso, Arendt propõe que exista uma autoridade própria à relação professor-aluno e que se esta não for preservada, a educação, como meio para conhecer e preservar o mundo, não acontecerá.

Por fim, distanciando-se de ralas ideias pedagógicas que assolam o ambiente educacional, declara que "a função da escola é ensinar às crianças como o mundo é, e não instruí-las na arte do viver. Dado que o mundo é velho, sempre mais que elas mesmas, a aprendizagem volta-se inevitavelmente para o passado, não importa o quanto a vida seja transcorrida no presente".

A minhas/meus colegas professoras/es e às/aos grandes mestras(es) das(os) quais tive o privilégio de ser aluno em outras épocas, feliz Dia do Professor.

Na próxima postagem, escreverei sobre Eles eram muitos cavalos, romance não-convencional de Luiz Ruffato.
__________
* VILELA, Luiz. O professor de inglês. In: MACEDO, Adriano (Org.). Retratos da escola. 2 ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2012. p. 27-35

** ARENDT, Hannah. A crise na educação. In: _________. Entre o passado e o futuro. 7 ed. São Paulo: Perspectiva, 2011. p. 221-247 [Tradição de Mauro W. Barbosa]

BG de Hoje

Hoje haverá show do BLACK SABBATH aqui em BH. Não irei assisti-lo. Espero que os presentes possam contar com uma boa apresentação do grupo inglês. E que se incluam, nas canções a serem tocadas, as melhores, mesmo que não tenham virado hits. Como After Forever, do (subestimado) álbum Master of Reality (1971).

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Tradições também podem ser estúpidas



Quem leu Abril despedaçado, de Ismail Kadaré* (ou viu a ótima adaptação cinematográfica desse livro realizada por Walter Salles e lançada em 2001) sabe que o protagonista fez o que fez - assassinou outro indivíduo - e está destinado a um fim lamentavelmente parecido por viver numa comunidade que segue um rígido código normativo, fixado pela tradição há muito tempo.

O protagonista do romance, Gjorg Berisha, não vê como se libertar "daqueles cânones":

"Seria inútil se enganar. O Kanun [o código a ser seguido] era mais poderoso do que parecia. Estendia-se por toda a parte, deslizava pelas terras, pelas bordas dos campos lavrados, penetrava nos alicerces das casas, nos túmulos, nas igrejas, ruas, feiras, festas de noivado, erguia-se até os cumes alpinos, talvez ainda mais alto, até o próprio céu, de onde caía em forma de chuva para encher os cursos de água [...]"

O rapaz pensa em escapar de tudo aquilo (talvez fugindo), mas não reúne a coragem suficiente. Olha as construções a seu redor e vê que "para tudo aquilo existiam regras multisseculares. Não havia como escapar delas". E se pergunta:

"Como tinham sido criadas normas tão completas e imperiosas? Por quem? Quando? Ninguém sabia dizer ao certo. Alguns evocavam antigos príncipes, outros teimavam que elas eram anteriores aos principados".

Ainda assim, mesmo sabendo-se condenado à morte por causa das regras do código, Gjorg sentia por dentro algo "a um só tempo belo e terrível". A tragédia de seu clã não o fazia mais tranquilo, mas, por outro lado, nas outras famílias isentas da "dívida de sangue", não percebia "nenhum indício especial de felicidade". Kadaré, habilmente, incute a dúvida na cabeça do personagem sobre qual espécie de vida preferir - a trágica ou a trivial - evitando fazer dele um "coitadinho".

A história paralela, contada no livro, envolvendo o escritor Bessian Vorps e sua esposa Diana (embora uma intercessão dessa trajetória com a de Gjorg Berisha acabará por acontecer no decorrer da narrativa), não é do interesse desta postagem. Contudo, durante a viagem do casal ao Rrafsh - a região do norte da Albânia submetida ao código do Kanun - Vorps faz um comentário que gostaria de destacar. Comparando as sucessivas vinganças previstas pelo código a grandes obras literárias, diz ele:


"E leve em conta que Hamlet foi incitado a matar por um motivo forte. Ao passo que ele [Gjorg Berisha, com quem tinham se cruzado casualmente] [...]  a máquina que o pôs em movimento é alheia a ele, às vezes alheia até ao tempo em que ele vive".


Todos nós - com maior ou menor intensidade - vamos sendo impelidos pela "máquina" das tradições que nos cercam. Entretanto, devo dizer que tenho certa antipatia pelos tradicionalismos porque, junto com o apego à tradição, vem o hábito (conservador) de não colocá-la em questão. E quando os usos  e respostas tradicionais revelam-se absurdos, ao invés de discuti-los (e, se for o caso, deixá-los de lado), muitos simplesmente declaram: "tradição é tradição: temos que obedecer". Que estupidez !

Claro que o romance trágico escrito por Ismail Kadaré tem muitos outros elementos e aspectos a serem ressaltados (e, obviamente, estou sugerindo à(ao) eventual leitor(a) que procure esse livro), mas sempre que me lembro dessa narrativa é para me espantar com o apego tantas vezes injustificado das pessoas pela tradição, seja no sertão nordestino ou nas montanhas albanesas.

* KADARÉ, Ismail. Abril despedaçado. São Paulo. Companhia das Letras, 2007 [Tradução de Bernardo Jofilly] 

BG de Hoje

Num tempo em que amigos têm me faltado, gosto de lembrar dessa canção do GONZAGUINHA, que costumo cantarolar bastante: Recado.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Aprimoramento intelectual e descrença religiosa



Em Deus, um delírio*, Richard Dawkins faz uma observação com a qual tenho forte concordância. Escreve o biólogo britânico:

"Como cientista, sou hostil à religião fundamentalista porque ela debocha ativamente do empreendimento científico. Ela nos ensina a não mudar de ideia, e a não querer saber de coisas emocionantes que estão aí para ser aprendidas. Ela subverte a ciência e mina o intelecto".

Obviamente, não sou cientista. Mas também penso que a religião (e, nalgumas vezes, não só a mais fundamentalista) "mina o intelecto". É claro que a condição humana reúne, em sua complexidade, uma quantidade de projetos de vida e ações coletivas (entre estes, a religião) cujos pontos de chegada não vão culminar no aumento do estoque de conhecimento científico nem o incremento da erudição em geral (artística ou filosófica). Não há problema nisso. Entretanto, não é difícil encontrar crentes** para os quais o desejo de aprimoramento intelectual - um projeto de vida legítimo como outros existentes por aí, portanto - é motivo de deboche e censura (esquecendo-se eles de que quando são a religião e/ou a fé os alvos do deboche e da censura, apressam-se a gritar e exigir respeito...). Convivi (e convivo) com muitas pessoas que desprezam outros livros (fontes de conhecimento), tendo em linha de conta somente aquele por elas considerado sagrado*** (no caso, a bíblia judaico-cristã).

Assumi minha condição de ateu por volta dos 13 ou 14 anos e, como se pode imaginar, a descrença religiosa consolidou-se progressivamente à medida que me fiz um leitor e estudioso mais exigente. Essa experiência pessoal nada tem de singular: é provável que a maioria dos ateus vivenciou algo semelhante. O que nos conduz à pergunta: existe relação entre aprimoramento intelectual e ateísmo?

O professor de psicologia israelense Benjamin Beit-Hallahmi, no ensaio Ateus: um retrato psicológico****, faz um apanhado de diversas pesquisas, publicadas principalmente nos EUA, sobre características e traços comportamentais das pessoas que se declaram ou são consideradas ateias. O levantamento vai de estudos realizados desde as primeiras décadas do século XX até os anos 1980-90. Sugiro sua leitura na íntegra, mas, para os objetivos desta postagem, vou me concentrar na análise feita sobre a relação entre intelectualidade e descrença religiosa. E é possível concluir que, a partir da análise, a relação é inversamente proporcional: ou seja, quanto mais instruídas e intelectualizadas são as pessoas, menos crentes são elas, tendencialmente.

O pesquisador israelense, em seu ensaio, considera que

"Além da inteligência, os acadêmicos e cientistas mais importantes exibem intelectualidade e intelectualismo, um comprometimento com a investigação. Num estudo de 2.842 estudantes de pós-graduação nos EUA, Stark (1963) descobriu que frequentar a igreja estava negativamente correlacionado com a auto-identificação como intelectual e com atitudes positivas perante a criatividade, a liberdade ocupacional e a ambição profissional. Assim, quem era religiosamente mais conformista parecia dar menos valor aos feitos intelectuais. Outros estudos mostram padrões bastante consistentes de menos envolvimento na religião institucional entre quem faz estudos pós-graduados, especialmente quem se identifica com o intelectualismo como valor".

E aqui reside o meu desagrado com o pensamento religioso. Para mim, o aprimoramento intelectual é um valor. Mas, como disse anteriormente, vários indivíduos a meu redor não compartilham desse valor, muito em virtude de suas crenças numa divindade.

Um outro ponto. Beit-Hallahmi cita outros dois estudos que mostram os pesquisadores das ciências sociais (humanas) como sendo mais descrentes que os pesquisadores das ciências da natureza (exatas). Ele arrisca uma explicação para isso:

"A razão, em termos psicológicos, é que as ciências da natureza aplicam critérios de pensamento crítico à natureza; as ciências humanas fazem perguntas críticas sobre a cultura, tradições e crenças. O mero fato de escolher a sociedade humana ou o comportamento como objeto de estudo reflete uma curiosidade sobre crenças e convenções sociais básicas e uma prontidão para as rejeitar. Os físicos, que estão a maior distância acadêmica [do estudo do comportamento ou da sociedade], podem conseguir isolar mais facilmente a sua ciência da religião".

Quero fazer notar ao(à) eventual leitor(a) que tomei o cuidado de não tentar relacionar inteligência e ateísmo (afinal, muitas pessoas inteligentes acreditam em divindades), preferindo vincular aprimoramento intelectual (uma escolha consciente do indivíduo) e descrença religiosa.
______________
* DAWKINS, Richard. Deus, um delírio. São Paulo: Companhia das Letras, 2007 [tradução de Fernanda Ravangnani]

** O termo crente está sendo usado nesta postagem com o significado de "aquele que acredita numa divindade", em oposição ao termo ateu ("aquele que não acredita em nenhuma"). Assim, crente, neste contexto, designa todos os que acreditam em Deus, independentemente da denominação religiosa da qual fazem parte.

*** É de se notar, contudo, que muitos crentes não são leitores habituais de seu livro sagrado.

**** BEIT-HALLAHMI, Benjamin. Ateus: um retrato psicológico. In: MARTIN, Michael (Org.). Um mundo sem Deus: ensaios sobre o ateísmo. Lisboa: Edições 70, 2010. p. 391-414 [Tradução de Desidério Murcho]

BG de Hoje

Dois dos filhos de CAETANO VELOSO são fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus. Ao que parece, todos têm um bom convívio (lembro que o compositor e cantor baiano é ateu). Isso demonstra que ninguém é obrigado a professar a fé (ou, nesse caso, a descrença) de seu(s) pai(s). No BG, a canção Diferentemente, em cujos versos há esse achado: "Diferentemente de Osama e Condoleezza/ Eu não acredito em Deus". (OBS: Desconsidere o slideshow ruim do vídeo abaixo)



quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Mas de que a-teísmo se está falando?



O termo ateísmo não é de definição simples e inequívoca, como pode parecer à primeira vista*. Geralmente, entende-se por ateu aquele indivíduo que não acredita na existência de deus(es). Desde aqui surge uma complicação: quase todos aqueles que têm uma religião ou creem numa divindade também não costumam crer na(s) divindade(s) pertencente(s)s a outras religiões que não a deles. Isso me lembra aquele inteligente cartaz usado pela ATEA (Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos) há algum tempo (imagem abaixo):


Mesmo que o conceito comporte variações, o ateísmo é uma negação. De quê? Do teísmo (daí, -teísmo). Mas de que teísmo se está falando? Para melhor compreender o posicionamento dos ateus seria adequado, então, compreender também o que eles recusam, ou seja, qual a doutrina subjacente à negação assumida. Este blogueiro, na condição de ateu, não crê em divindades, entidades místicas, "seres superiores" ou outras forças sobrenaturais, mas para que a discussão fique mais clara de agora em diante, terei em mente apenas o monoteísmo judaico-cristão, atualmente predominante na civilização ocidental e familiar a todos nós, sobretudo em suas ramificações católica e protestante/evangélica.

O pesquisador Gavin Hyman (senior lecture da Universidade de Lancaster, Reino Unido), no ótimo ensaio O ateísmo na história moderna**, procura expor qual é a concepção de Deus que é rejeitada pelo ateísmo nos tempos modernos.

Considerando que a modernidade, mais do que um período histórico, é antes um " 'modo de pensar' ou [uma] 'sensibilidade' ", o pesquisador britânico aponta o "desejo de um domínio omniabarcante da realidade por meios racionais e/ou científicos" como uma característica essencial do pensamento e da cultura "dominante a partir do século XVI e que permanece forte até cerca de meados do século XX, quando começam a insinuar-se sinais de uma crise na autoconfiança da modernidade".

Pois bem, qual é o teísmo moderno rejeitado pelos ateus? Hyman observa que a concepção moderna de Deus afasta - às vezes mais, às vezes menos - a característica que Tomás de Aquino julgava a mais essencial da divindade: a transcendência. Para aquele teólogo (e filósofo) pré-moderno, a racionalidade humana é limitada e nunca conseguiria aproximar-se da verdade divina (vale lembrar que, para o tomismo, Deus e verdade estão imbricados). Mas "à medida que a dignificação da linguagem precisa, unívoca e mecânica infiltrou tanto o pensamento filosófico como o teológico", Deus passou por uma "mudança qualitativa". A esse respeito, o ensaísta lembra a concepção de Henry More (teólogo inglês do século XVIII) segundo a qual existem no mundo corpos espirituais e corpos sólidos;

"[...] Deus é o espírito mais elevado, de modo que todos os outros espíritos dependem dele. Enquanto espírito, Deus tem extensão, mas a sua extensão é infinita; é o próprio espaço. O que há de significativo nisto é que Deus está aqui a ser concebido como algo que tem um lugar e função identificáveis no seio do mundo natural".

Esse Deus "parte da natureza" tornou-se mais fácil de ser descartado ao ser submetido ao crivo da racionalidade humana.

Observemos, contudo, outro ponto do ensaio para compreendermos isso um pouco melhor. Gavin Hyman manifesta um ponto de vista argumentativo (para mim, surpreendente) no qual afirma ter havido uma pequena "revolução" nos meios teológicos e que esta acabou por favorecer o ateísmo moderno, mais do que as críticas, diríamos, secularistas. Essa pequena "revolução" começaria no século XIV com o eminente teólogo escocês John Duns Scotus (ou João Duns Escoto, como é chamado em alguns textos em língua portuguesa). Ele foi o primeiro a rejeitar "explicitamente a diferença entre o ser divino e o ser humano". Scotus defendia que o finito (humano) e o infinito (Deus) partilhavam do mesmo ser, ou seja, não diferiam ontologicamente. Escreve Hyman:

"Dado que existe apenas um só nível de ontologia, Deus não pode ser visto como algo que transcende a ontologia deste mundo, tendo de algum modo de ser integrado - é preciso dar-lhe uma função e uma localização - na ontologia deste mundo. Como tal, Deus torna-se uma 'coisa' (apesar de ser uma 'coisa' suprema) entre as outras coisas deste mundo. Mas esse Deus corre o risco não apenas de parecer incrível ou inacreditável (uma 'coisa grande' que depressa se torna demasiado obviamente uma projeção das 'coisas comuns'), mas também, à medida que o mundo se torna mais capaz de se explicar a si mesmo e mais autossuficiente, cada vez mais supérfluo. Num tal mundo, o ateísmo torna-se quase irresistível".

Se a sensibilidade moderna é marcada pelo desejo de explicar racionalmente e/ou cientificamente a realidade em que vivemos, o ateísmo "casa-se" bastante bem com a modernidade. O teísmo moderno não pôde deixar de ser influenciado pelo racionalismo e pelo empirismo nas suas "versões" do século XVII. Ao propor a mudança qualitativa de Deus (em relação ao tomismo, pré-moderno), esse tipo de teísmo incorporou Deus à natureza, ao mundo físico/sensível, e o fez objeto da linguagem. É essa concepção de Deus negada pelo ateísmo moderno. Isso, claro, tem outros desdobramentos. Mas deixo-os para outra oportunidade.

Na próxima semana, falarei de um tema controverso: há relação entre aprimoramento intelectual/inteligência e ateísmo?

* Para os diversos conceitos de ateísmo sugiro a leitura da introdução geral de MARTIN, Michael (Org.). Um mundo sem Deus: ensaios sobre o ateísmo. Lisboa: Edições 70, 2010.

** HYMAN, Gavin. O ateísmo na história moderna. In: MARTIN, Michael (Org.). Um mundo sem Deus: ensaios sobre o ateísmo. Lisboa: Edições 70, 2010. p. 39-63

BG de Hoje

Canção de abertura de um dos mais importantes discos de rock da história - Exile on main street - que, na minha opinião, junto com o álbum gravado antes (Sticky fingers), inaugura a maturidade artística dos ROLLING STONES. Nome da faixa? Rocks off.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Velhice


"A velha era nada. E olhava para o ar como se olha para Deus. Ela era feita de Deus. Isto é: tudo ou nada".

Do conto A partida do trem - Clarice Lispector


Quando completei 41 anos não pude deixar de recordar aqueles famosos versos de Carlos Drummond de Andrade*:

"Há muito suspeitei o velho em mim
Ainda criança, já me atormentava.
Hoje estou só. Nenhum menino salta
de minha vida, para restaurá-la".

Para ser franco, desde que passei dos trinta, não mais me incomodo com esse velho dentro de mim; passei a aceitá-lo resignadamente. A "mão pesada" do tempo - lembrando agora outros versos daquele maravilhoso poema -, trazendo com ela as "rugas, [a ausência de] dentes, calva", não chegou a me surpreender quando o corpo, além da alma precocemente idosa, também começou a envelhecer. Caducidade, cá estou.

Mas não é sobre meu envelhecimento que desejo escrever hoje. Dias atrás estava lendo Onde estivestes de noite**, de Clarice Lispector, e chamou-me a atenção como se fala da velhice nalgumas das narrativas ali presentes. Irei me concentrar na primeira delas apenas.

Em A procura de uma dignidade, a personagem central (a Sra. Jorge B. Xavier) tem quase 70 anos e percebe que já "era tarde demais para ter um destino". Tem fantasias eróticas com Roberto Carlos (na época, um jovem ídolo televisivo). Pensando nelas,

"Examinou-se ao espelho para ver se o rosto se tornaria bestial sob a influência de seus sentimentos. Mas era um rosto quieto que já deixara há muito de representar o que sentia. Aliás, seu rosto nunca expressara senão boa educação. E agora era apenas a máscara de uma mulher de 70 anos. Então sua cara levemente maquilada pareceu-lhe a de um palhaço. A senhora forçou sem vontade um sorriso para ver se melhorava. Não melhorou".

Achando-se, externamente, "seca como um figo seco", não se considerava, contudo, "esturricada" por dentro: "pelo contrário" - e a comparação da narradora é amarga, mas extraordinária do ponto de vista literário - "parecia por dentro uma gengiva úmida, mole assim como gengiva desdentada".

Aos 70 anos, não perdera o desejo sexual. Mas como dar vazão a ele?

"Por que as outras velhas nunca lhe tinham avisado que até o fim isso podia acontecer? Nos homens velhos bem vira olhares lúbricos. Mas nas velhas não. Fora de estação. E ela viva como se ainda fosse alguém, ela que não era ninguém"

Em determinado momento, a Sra. Jorge B. Xavier se pergunta: "por acaso era nojento beijar boca de velha?". Ela "não estava habituada a ter quase 70 anos, faltava-lhe prática e não tinha a menor experiência". Mas, afinal de contas, quem está preparado para ser um velho? Essa parece ser uma das questões que emergem desse conto.

A velhice, tal como a pobreza, é caracterizada por renúncias; por pessoas, ações e coisas  das quais temos que desistir. Tanto a velhice quanto a pobreza são tristes. E muitos, como eu, estão condenados a ambas. Irremediavelmente, nos dois casos.
__________
* Estão no poema Versos à boca da noite

** LISPECTOR, Clarice. Onde estivestes de noite. 8 ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1997

BG de Hoje

Canção pra viajar (nos diversos sentidos desse verbo): SONIC YOUTH: Stones

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Lei 10.639 completa 10 anos. O que dizer?


Culminância de um intenso e contínuo empenho de lideranças negras, participantes ou não do Movimento Negro organizado - a lei 10.639 (janeiro de 2003) foi a primeira a ser promulgada no governo Lula, após aprovação no Congresso (sua redação ficou a cargo dos deputados Esther Grossi e Ben-Hur Ferreira). Vale lembrar que pouco menos de um ano antes, já se havia estabelecido o Programa Nacional de Ações Afirmativas. Nesses dez anos de vigência da lei, podemos dizer que houve avanços contundentes, dentro das escolas, em relação à abordagem da questão etnicorracial e da afrodescendência? Nesta postagem, ao responder a questão, destacarei matéria especial publicada na edição deste mês da revista Raça Brasil*. E a publicação "concluiu que a luta contra a discriminação ainda esbarra na intolerância das pessoas".

Antes da matéria, porém, gostaria de incluir aqui o posicionamento de Edimilson de Almeida Pereira** porque expressa, a meu ver, a defesa que muitos (inclusive este blogueiro) fazem da validade e da necessidade de uma lei como essa:

"A inclusão de temas referentes às culturas africanas e afro-brasileiras nos currículos escolares representa, em primeira instância, o estabelecimento de políticas afirmativas que permitem à sociedade brasileira reconhecer sua dívida para com os africanos e seus descendentes. Contudo, as disposições da Lei 10.639 vão além desse aspecto, ou seja, na medida em que ela se destina a promover a justiça social, demonstra que a sociedade e o Estado brasileiros iniciaram - ainda que com atraso - uma revisão profunda dos valores que elegeram como legitimadores de suas estruturas".

Os currículos escolares ainda são a "cartilha ideológica" que ocasiona "situações nas quais os afrodescendentes são constrangidos em função de sua procedência sociocultural". Ainda assim, prossegue Pereira, "a escola e os currículos apresentam instâncias propícias aos debates e às ações que poderão levar à superação das referidas situações de discriminação". Daí a importância da lei.

Voltemos agora à matéria da revista Raça Brasil. Nesta, há uma profusão de gráficos com dados estatísticos oriundos da PNAD (Pesquisa nacional por amostra de domicílios) e do Censo, ambos levantamentos feitos pelo IBGE. E o que os dados mostram?

A rede pública de ensino (básico) - na qual atua este blogueiro, a propósito - tem maior número de estudantes negros. Se no ensino fundamental a taxa de frequência entre brancos e negros é quase a mesma, ela cai significativamente no ensino médio (60% para brancos e 45,3% para negros) e, no ensino superior, a diferença é gritante (21% para brancos e 9,1% para negros). Ainda sobre o ensino superior: em 2005, 85% dos estudantes que frequentavam a pós-graduação eram brancos, enquanto apenas 15% eram negros, pardos ou indígenas.

Os dados mostram que a escola pública fundamental tem um alunado majoritariamente negro, mas nas passagens de um nível de ensino para outro, a frequência dos negros cai bastante. Temos ou não um sistema educacional excludente?

O que dizer sobre os 10 anos da Lei 10.639/03? A Lei parece ainda não ter "pegado", como se costuma dizer neste país. Tenho observado que a sua aplicação não foi encampada pelas unidades escolares como um componente imprescindível de seu projeto político-pedagógico. Para que o conteúdo da lei faça parte do cotidiano da escola, na maioria das vezes, há a dependência de que um ou mais indivíduos, pessoalmente envolvidos com a questão etnicorracial (por serem negros ou por outro motivo), mobilizem-se, tentando atrair outros profissionais ou membros da comunidade escolar. Quando não se conta com um indivíduo ou grupos de indivíduos assim, muitas escolas simplesmente deixam de cumprir a lei.

A matéria da revista Raça Brasil lembra que "o modelo atual de educação produziu uma sociedade que em 2006 tinha 74,5% de todos os cargos de gerência e direção ocupados por pessoas brancas, de acordo com a PNAD daquele ano". Para buscar corrigir desigualdades como essa é necessário fazer com que as escolas cumpram a Lei 10.639/03.

* Presença do negro na educação. Raça Brasil, São Paulo, ano XVII, n. 182, set. 2013. p. 36-45 [a matéria é assinada por Renato Bazan]

** PEREIRA, Edimilson de Almeida. Malungos na escola: questões sobre culturas afrodescendentes e educação. São Paulo: Paulinas, 2007.

BG de Hoje

Já me vali algumas vezes de canções para discutir aspectos da questão etnicorracial nas escolas em que trabalhei. Uma delas, de que gosto muito é  Todo camburão tem um pouco de navio negreiro, d' O RAPPA.