quarta-feira, 18 de julho de 2018

É possível abstrair-se da política?: Lendo As meninas, de Lygia Fagundes Telles


Não saberia dizer se As meninas - passados 45 anos de seu lançamento - é um livro ao qual os leitores têm retornado (pois talvez seja considerado uma obra datada). Mas acho que deveriam.

É um escrito ambicioso, muito embora não se divise a sua ambição à primeira vista. Tratemos, pois, de evidenciá-la.

Lygia Fagundes Telles lançou mão de um formato narrativo não empregado em nenhum de seus dois romances até então publicados (Ciranda de Pedra e Verão no aquário), nem em nenhum de seus contos (até onde sei). A adoção do discurso indireto livre e a utilização do fluxo de consciência não eram novidades em sua prosa; entretanto, a escritora procurou ser, digamos, um pouco mais experimental do que vinha sendo. Isso pode ser verificado com facilidade nas passagens em que a voz narradora cabe a Ana Clara. Observemos o seguinte excerto ¹ , tirado do oitavo capítulo:

"Viro na boca a garrafa e meus poros se abrem e meu peito se abre. Vidão. Não fosse esse negro aí berrando não gosto mesmo de negro. Nem de branco. Não gosto de ninguém. Todos uns bons sacanas que não perdem a chance de mijar na cabeça da gente. Agora quem vai mijar sou eu! grito e fico rindo de feliz. Max eu te amo eu te amo eu te amo. Beijo seu sapato que está em cima do meu biquíni. O sapato. Amo o sapato dele amo tudo mas tenho que ir tenho que ir. Quando me desbloquear a gente vai rolar de gozo. Beijo meu Agnus Dei que prendi no biquíni amo meu Agnus Dei amo Madre Alix minha santa não fique triste que em janeiro minha santa santa. E minhas roupas pomba? Sumiu tudo. Queria ser invisível e sair como o cara dos quadrinhos como era o nome dele. Ele sai e entra e ninguém vê".

No esquema de As meninas, o tema do amor (e da expectativa em torno do sexo) é explorado, sobretudo, em Lorena; Lia retrata, na maior parte das vezes, a militância ideológica e a oposição à ditadura; Ana Clara, por sua vez, sintetiza, principalmente, o tópico do abuso e da dependência no consumo de drogas. Não é de se surpreender, portanto, que as passagens narradas por Ana Clara sejam aquelas com maior incidência de dizeres fragmentários, com rupturas bruscas no encadeamento das sentenças e das frases (efeitos perceptíveis graças a ausência de determinados sinais de pontuação) ². Atenção para este outro excerto, de um capítulo bem anterior:

"Meu joelho está molhado. Uísque? Uísque é evidente. Como pode ser baba? Teria que ser um crocodilo. Abro os braços de alegria ah aquela estrada. Falar. É preciso falar tudo é ir falando o tempo todo deixar correr a confissão como vai correndo o mijo. Quero mijar vou de rastros até o banheiro agora sou vegetal se alastrando. Trono alto tenho que fazer na banheira levantar a perna como o Lulu. Vou ter daqueles cachorros bacanérrimos com pintinhas pretas e olho azul como é o nome? Aquele. Mas também quero um vagabundo com a cara do Lulu. A única coisa decente que tive a única que me amou vem Lulu eu chamava".

Vamos nos deter um pouco no trecho "É preciso falar tudo e ir falando o tempo todo deixar correr a confissão como vai correndo o mijo". Das três personagens centrais, Ana Clara é a única a se submeter a sessões de psicanálise, custeadas por Madre Alix, a freira que dirige o pensionato N.S.F. (Nossa Senhora de Fátima, talvez?) onde elas moram. É propício fazer notar que foi nos anos 1960-70 que o Brasil experimentou o boom das terapias dessa natureza entre os ricos e parte da classe média. Ao longo de As meninas, encontrar-se-ão várias outras referências à psicanálise, bem como a seus praticantes (destaco, a esse respeito, o capítulo 10, quando Lia, involuntariamente, fica na posição de "analista" da mãe de Lorena). Isso demonstra a preocupação de Telles em contextualizar, da melhor maneira, o período histórico no qual o romance está inserido. Outro exemplo simples, mas ilustrativo: o gato de estimação de Lorena chamava-se Astronauta, óbvia alusão às então recentes missões espaciais da NASA. As menções a determinados músicos (Jimi Hendrix, Caetano Veloso, Gilberto Gil) e até a determinadas marcas de automóvel fazem parte do mesmo expediente de contextualização. Nesse sentido, deve-se também destacar a questão da linguagem, intimamente relacionada com a questão do foco narrativo discutida acima. Numa entrevista a Edla van Steen ³, Telles declarou:
"Em As meninas quis dar às minhas personagens toda a liberdade. À medida que elas iam vivendo, o enredo ia se modificando, soltei as rédeas, confesso que em determinado momento não conduzi mais, fui conduzida: sim, houve muito de imprevisível, deixei as meninas na sua exaltação para me concentrar na linguagem. A pesquisa era na direção da linguagem. Da revolução dessa linguagem. Alguns críticos sentiram minha ânsia de renovar, e foi essa a recompensa para tanto trabalho e aflição: reescrevi o livro três vezes, tomada pelo demônio da insatisfação".
A autora incluiu gírias e coloquialismos da época, sem receio - afinal, tínhamos que ter acesso (da forma mais vívida possível) à corrente de pensamentos (intensos e passionais, muitas vezes) de três jovens universitárias, bem diferentes entre si, vivendo na maior cidade brasileira, entre os anos 1960-70 e em meio a um golpe militar. Sabemos, contudo, que são os registros idiomáticos os principais "culpados" pela "datação" de um texto literário. O risco, porém, valeu a pena.

Entretanto, creio que As meninas notabiliza-se, principalmente, por seu dimensionamento político. E aqui cabe uma reflexão.

Noutra entrevista, concedida ao programa Roda Viva em outubro de 1996 (disponível aqui), Lygia Fagundes Telles diz a certa altura: "O bom escritor, sem arrogância eu digo isso, está naturalmente
engajado na política [...] Nós nos comprometemos, nós somos escritores comprometidos com a política". Pessoalmente, não consigo (com poucas exceções) ter grande disposição de leitura quando percebo que determinado texto literário adota um tom supostamente isento, evitando comprometer-se com os problemas de seu tempo ou ignorando fenômenos sociais - e isso vale também para gêneros erroneamente considerados imunes à política, como a ficção científica e a fantasia. Por isso, concordo com a autora. Para muitos(as) bons(boas) escritores(as), não dá pra esquecer a política, abstrair-se dela e simplesmente escrever uma história neutra. Significaria uma falta de compromisso consigo mesmos(as). NOTA: Até textos mergulhados no subjetivismo ou com arrojados projetos estetizantes, não raro, presumem o cenário sociopolítico. É possível que as duas atitudes representem inclusive reações a esse cenário.

Quanto a Telles, o que podemos dizer?

Obviamente, falando de As meninas, a ditadura é o dado histórico que salta aos olhos. Enquanto a rica Lorena fica em sua "concha" (segundo suas próprias palavras) e Ana Clara, de infância miserável e embrutecida, busca refúgio no torpor das drogas e no sonho delirante do casamento milionário, Lia integra uma das muitas células de resistência ao regime. E embora a personagem por vezes seja mais uma caricatura dos jovens de esquerda na segunda metade do século XX do que qualquer outra coisa, é através dela que a contestação à ditadura pode ganhar corpo dentro do livro (não custa lembrar que As meninas foi publicado em 1973, com os militares ainda no poder e a censura em plena vigência). E muito embora Lia não aja ("[...]ah, tão longe a fala do ato. Se eu não falasse tanto em fazer amor, se Ana Clara não falasse tanto em enriquecer, se Lião não falasse noite em dia em revolução", pensa Lorena em dada passagem), é numa conversa entre ela e Madre Alix, por exemplo, que a autora aproveita para escrever um depoimento no qual a prática da tortura é descrita com toda a sua crueldade e torpeza (capítulo 6).

Mas a palavra política, sabemos, tem um significado mais amplo, ligado às relações humanas em geral. E nesse ponto o romance de Lygia Fagundes Telles é valioso, ao promover a abordagem de questões fundamentais para aquele período (a liberação sexual, por exemplo) e algumas primordiais até hoje (a desigualdade).

Antes de encerrar, gostaria de reproduzir um trecho do terceiro capítulo. A voz narradora é de Lorena:

"Nasci num tempo de violência. Orfeu chegou a comover as feras com sua lira e eu não consegui comover nem o Astronauta. Enfim, um gato é um gato mas como gostaria de mandar minha palavra de equilíbrio, de amor ao mundo mas sem entrar nele, é lógico [...] Bom é ficar olhando a sala iluminada de um apartamento lá adiante, as pessoas tão inofensivas na rotina. Comem e não vejo o que comem. Falam e não ouço o que dizem, harmonia total sem barulho e sem braveza. Um pouco que alguém se aproxime e já sente odores. Vozes. Um pouco mais e já nem é espectador, vira testemunha. Se abre o bico para dizer boa-noite passa de testemunha para participante. E não adianta fazer aquela cara de nuvem se diluindo ao largo porque nessa altura já puxaram a nuvem para dentro e a janela-guilhotina fechou rápida. Eram laços frouxos? Viraram tentáculos. Ah, que alegria quando fico aqui sozinha. Sozinha".

Será que "entrar no mundo" nunca será algo desejável de se fazer? Preferiremos (falo por mim e a personagem) ficar sempre numa distância supostamente segura, recusando-nos a ser testemunhas (que dirá participantes)? E, portanto, a satisfação só se dá no isolamento?

Na próxima postagem, tratarei da biografia de Lima Barreto escrita pela antropóloga/historiadora Lilia Moritz Schwarcz.

¹ TELLES, Lygia Fagundes. As meninas. 16 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira: 1985

² Outro exemplo da nova técnica narrativa empregada pela escritora no romance está nesta passagem (a voz agora é de Lia):
" ' Se você acredita no homem você acredita em Deus', disse Madre Alix. Não sei explicar mas o que quero dizer é que acreditar nessas histórias absurdas que os homem contam. Quanto mais simples e inocentes forem mais me envolvem com suas façanhas de heróis e santos, vem, mãe, vem me encher de superstições que não entram na minha rotina mas também não esqueço, vem de noite me coçar as costas e depois abrir meu cabelo, a Ivanilda, aquela porcalhona passou piolho pra classe inteira. O avental cor de café-com-leite tinha um sabiá no bolso".  
³ TELLES, Lygia Fagundes. Entrevista concedida a Edla van Steen e publicada em VAN STEEN, Edla. Viver e escrever: volume 3. 2 ed. Porto Alegre: L&PM, 2008. p. 146-160

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O Colonized?, meu outro blog, escrito em inglês, também voltou a ser atualizado. Não dei a devida atenção a ele no ano passado, mas tentarei remediar as coisas agora. Como já disse noutra oportunidade, os textos de lá não são nada parecidos com os daqui, pois meu objetivo é apenas me exercitar num idioma que não é o meu. Caso esteja interessado(a), eventual leitor(a), o endereço é https://lousantino.blogspot.com . 
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BG de Hoje

Eu ia incluir essa canção como BG numa postagem sobre Verão no aquário, um outro romance de L. F. Telles. Mas acabei desistindo daquele texto (decidi, pelo menos por um tempo, trazer aqui para o blog apenas os livros de que gosto. E como não sou um grande fã de Verão no aquário...). De todo modo, Princesa (Torta de maçã), do SCATOLOVE, precisava aparecer por aqui, de um jeito ou de outro, simplesmente porque adoro essa canção. Então, lá vai.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Pelo menos sei de Olanna, Odenigbo, Ugwu, Richard, Kainene...


Poucos acontecimentos podem degradar tanto os seres humanos quanto a guerra.

Não obstante, parece que nossa espécie nunca se livrará desse flagelo. A guerra, praticada desde os primeiros esboços de civilização, provavelmente acompanhará a humanidade até... até... a sua extinção (que, sabemos, pode inclusive ser propiciada por uma conflagração nuclear global).

Segundo a organização não-governamental IRIN, há, hoje, mais de 30 conflitos armados, de média e larga escala, em andamento pelo planeta (entre guerras civis, lutas separatistas e tomadas/domínio de território por potentados ou chefões do tráfico de drogas), acarretando a morte de milhares de pessoas diariamente - seja por ataques diretos, seja por impedir o acesso dos indivíduos a alimentos ou cuidados médicos.

Não é segredo para ninguém que uma grande parte dos confrontos bélicos não recebe a devida atenção dos veículos de comunicação (sobretudo por acontecerem no antes chamado Terceiro Mundo) e, pensando naqueles já encerrados (alguns há bem poucas décadas), quase nada se ouve, se lê ou se aprende a respeito desses confrontos. É o caso da guerra civil da Nigéria, também conhecida como Guerra de Biafra, ocorrida entre 1967 e 1970. Resultando em mais de um milhão de pessoas mortas (algumas fontes falam em até três milhões), vítimas, principalmente, da fome e da falta de medicamentos causadas por bloqueios militares, esse conflito é retratado no livro Meio sol amarelo, de Chimamanda Ngozi Adichie¹.

Importante ressaltar, contudo, que não se trata aqui de um relato preso à mera concatenação de fatos do passado, como se fosse uma espécie de acerto de contas com a história recente do país. Não. Estamos diante de um empreendimento literário (um ótimo empreendimento, diga-se de passagem). Por isso, julgo adequado fazer algumas considerações antes de falar propriamente da narrativa em questão.

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 No célebre ensaio A personagem do romance ², Antonio Candido escreve:

"Portanto, os três elementos centrais dum desenvolvimento novelístico (o enredo e a personagem, que representam a sua matéria; as 'ideias', que representam o seu significado, - e que são no conjunto elaborados pela técnica), estes três elementos só existem intimamente ligados, inseparáveis, nos romances bem realizados. No meio deles, avulta a personagem, que representa a possibilidade de adesão afetiva e intelectual do leitor, pelos mecanismos de identificações, projeção, transferência etc. A personagem vive o enredo e as ideias, e os torna vivos. Eis uma imagem feliz de [André] Gide: 'Tento enrolar os fios variados do enredo e a complexidade de meus pensamentos em torno destas pequenas bobinas vivas que são cada uma das minhas personagens' ".

No parágrafo seguinte de seu texto, Candido fará questão de salientar que "a construção estrutural é a maior responsável pela força e eficácia de um romance", admitindo, porém, que a leitura deste depende "basicamente da aceitação da verdade da personagem por parte do leitor". Se, como escreveu o ensaísta, apenas o amálgama dos três elementos - ideias (isto é, os intuitos, significados e valores que o texto veicula), enredo e personagens - poderá fornecer a estrutura apropriada para um bom livro, é difícil não conceder, porém, que o último componente é preponderante na maneira como nós, fruidores modernos de literatura, assimilamos as narrativas ficcionais nos dias de hoje. Se, de fato, os personagens não podem existir sem uma urdidura textual e uma cosmovisão que os sustenha, é preciso reconhecer (e assim o faz o falecido e saudoso crítico), que os/as personagens são "o elemento mais atuante, mais comunicativo da arte novelística moderna, como se configurou nos séculos XVIII, XIX e começo do XX".

Pois bem. À medida que vamos avançando pelas páginas de Meio sol amarelo, nos damos conta de que seus/suas personagens, tanto os/as centrais quanto os/as secundários(as), constituem, indiscutivelmente, as peças mais importantes do livro. São eles/elas que nos dão, como diria Antonio Candido, a "impressão de vida" do livro.

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O romance de Chimamanda Ngozi Adichie se divide em quatro partes (alternando entre o início dos anos 1960, pré-guerra, e o final desta mesma década, com o confronto em curso), totalizando 37 capítulos. Apesar do registro em 3ª pessoa, a narração privilegia o olhar das situações tal como essas são vivenciadas por:

  • Ugwu, rapaz egresso do interior da Nigéria e que vai trabalhar como serviçal na casa de um professor, na pequena cidade-universitária de Nsukka; 
  • Richard, cidadão britânico, aspirante a jornalista/escritor, fascinado pela arte antiga local; 
  • E, sobretudo, por Olanna, jovem nascida na elite nigeriana, formada em Londres, que decide trabalhar na Universidade de Nsukka, para onde segue, acompanhando seu companheiro, Odenigbo (o professor anteriormente mencionado).

No encerramento de alguns capítulos, paralelamente à história que vai sendo contada, aparece o esquema de um outro livro - O mundo estava calado quando nós morremos (e cuja autoria é revelada perto do final). É neste que se encontra a seguinte observação: "Em 1960, na época de sua Independência, a Nigéria era um conjunto de fragmentos presos por um frágil fecho".

É oportuno lembrar que a ação imperialista/colonialista efetuada pela Europa no continente africano, intensificada a partir da Conferência de Berlim (1884-85), produziu impactos cujas consequências, graves, perduram até hoje na região. Como afirma a professora Leila Leite Hernandez (Universidade de São Paulo) ³,

"A carta geopolítica da África [estabelecida nas últimas décadas do século XIX] estava basicamente pronta, sendo boa parte das fronteiras conservada, no seu conjunto, até os dias atuais. Com isso foram desconsiderados os direitos dos povos africanos e as suas especificidades históricas, religiosas e linguísticas. Em outras palavras, as fronteiras da nova carta geopolítica da África, aprovada na Conferência de Berlim, raramente coincidiram com as da África pré-colonial"

Em razão de demarcações que atendiam exclusivamente às conveniências do expansionismo europeu, povos com grande identidade cultural foram separados, enquanto outros, consideravelmente diferentes uns dos outros, forçados a conviver dentro de um mesmo país recém-inventado. Hernandez acrescenta:

"Assim, confirmados pelos Estados nacionais, os traçados das fronteiras coloniais permanecem, no seu conjunto, até os dias de hoje, por vezes potencializando uma série de conflitos de intensidade variável que, rompendo os limites territoriais de cada país, encontram condições propícias para se regionalizar. É preciso sublinhar que a 'questão étnica' apontada como causa de praticamente todas as 'guerras internas' na África é fruto da manipulação política, em grande parte das vezes, segundo interesses econômicos e políticos de alguns setores das elites africanas associadas às empresas europeias e norte-americanas"

A Nigéria, nação cuja independência deu-se apenas em 1960, experimentou - e experimenta ainda hoje - muitos dos problemas decorrentes desse período de sistemática dominação/exploração por parte dos pretensos países desenvolvidos. Odenigbo, numa passagem de Meio sol amarelo diz: "a grande tragédia do mundo pós-colonial não é não ter dado à maior parte a chance de dizer se queria ou não esse novo mundo; a grande tragédia é que a maioria não recebeu as ferramentas para negociar nesse novo mundo".

Voltemos ao livro de Chimamanda Adichie.

Como defendemos acima, Meio sol amarelo é um livro tão vívido porque apresenta um convincente conjunto de seres fictícios, ou seja, seus personagens. O evento histórico no qual se assenta em nada limita a inventividade da autora. Na nota adicionada ao final da narrativa, Adichie faz questão de registrar que, a despeito de se basear na guerra Nigéria-Biafra, "algumas liberdades foram tomadas, em nome da ficção". O que me remete a outra passagem do texto de Antonio Candido anteriormente citado. Escreve o ensaísta:

"O romancista é incapaz de reproduzir a vida, seja na singularidade dos indivíduos, seja na coletividade dos grupos. Ele começa por isolar o indivíduo no grupo e, depois, a paixão no indivíduo. Na medida em que quiser ser igual à realidade, o romance será um fracasso; a necessidade de selecionar afasta dela e leva o romancista a criar um mundo próprio, acima e além da ilusão de fidelidade".

Ainda que a existência concreta sirva de parâmetro, romancistas, enquanto artistas, não devem forçar seus escritos a coincidirem rigorosamente com o mundo real, se quiserem fazer um bom trabalho. Romances são um objeto estético: importa antes (falando sobretudo dos personagens) produzir uma caracterização que resulte de uma "escolha e distribuição conveniente de traços limitados e expressivos, que se entrosem na composição geral e sugiram a totalidade dum modo-de-ser, duma existência", sublinha Candido.

Na mesma nota final da qual falávamos, a escritora deixa claro que sua intenção é retratar suas "próprias verdades imaginadas e não os fatos da guerra. Ainda que alguns personagens tenham como base uma pessoa real, seus retratos são fictícios, assim como os eventos dos quais fazem parte".

E esses seres e episódios imaginários nos atingem em cheio.

Adichie, nas partes do livro que tratam do período pré-guerra, habilmente faz com que o leitor se torne íntimo dos personagens, para que, nas partes que descrevem os horrores do conflito, vislumbremos suas emoções (e dores e sofrimentos) com uma assombrosa sensação de proximidade. Esse artifício também permite que não percamos de vista uma questão, sempre trazida à tona nas histórias de guerra: como preservar a própria dignidade e manter-se íntegro em cenários de violência, penúria e medo? A esse respeito, há uma frase bem significativa de Kainene, a irmã gêmea de Olanna: "Estamos todos nessa guerra e cabe a nós decidir se vamos nos tornar outra pessoa ou não"A escritora, porém, é atenta para não transformar personagens em reservas de magnanimidade. Em resenha publicada no New York Times no mesmo ano de lançamento de Meio sol amarelo (2006), o professor Rob Nixon (University of Wisconsin - Madison) chamou atenção para "o tom de empatia [exibido pelo livro] que nunca sucumbe aos impulsos simplificadores, heroicos ou demoníacos, da literatura em defesa de uma causa". Ele observa que "mesmo os mais honrados de seus personagens têm falhas humanizadoras". Esse desejo de olhar para o(s) tema(s) sem reducionismos pode ser verificado em muitos momentos.

Num deles, Olanna, que aderiu de corpo e alma à causa biafrense, diz, num dos capítulos finais: " 'Eles venceram, mas nós fizemos isso' [...] e percebeu como era esquisito dizer eles venceram, dar voz a uma derrota na qual não acreditava. Seu sentimento não era o de ter sido derrotada; era o de ter sido enganada". Guerras (e isso é ainda mais patente nos séculos XX e XXI) são conduzidas a partir de decisões tomadas seguindo a orientação de poderosos interesses - políticos e principalmente econômicos - bastante localizados. Além disso, a propaganda circulante em meio ao conflito (inclusive a do lado que julgamos certo) é um recurso que se vale, quase sempre, da mistificação. Nesse aspecto, combatentes e civis (os que sangram, matam e morrem) acabam se tornando, absurdamente, a parte menos importante. Talvez seja disso que Olanna tenha se dado conta.

Noutra passagem, também nas páginas de encerramento, Richard está junto a algumas pessoas pelas quais não tem muita afeição (sendo que a uma delas dedica forte inimizade). Além do mais, a perda de uma pessoa muita querida durante a guerra o abalara muito. É quando se lê: "Não sabia muito bem se queria entrar numa daquelas conversas que quase todo biafrense tratava agora, passando grãos de culpa para os outros e besuntando a própria cara com o valor que nunca tiveram".

Já comentei aqui no blog sobre aquela famosa fala de Chimamanda Ngozi Adichie na primeira das suas TED Talks - "Histórias importam. Muitas histórias importam". Diversos ocorridos, assuntos, lugares e culturas possivelmente não chegariam ao conhecimento de muitos de nós não fossem por obras ficcionais que os têm como temas principais ou ancilares. Portanto, contar essas histórias é fundamental, mesmo que algumas sejam dolorosas às vezes. No 34º capítulo de Meio sol amarelo alguns personagens tentam lidar com a lembrança do que testemunharam e viveram durante a guerra. Olanna, numa ocasião, fugindo de Kano (cidade localizada no Norte do país e um dos primeiros focos do conflito), viajou num trem abarrotado ao lado de uma mulher que carregava a cabeça cortada da filha dentro de uma sacola. Em meio a todo o horror daquilo, contudo, ela reparara no penteado da cabeça. Ugwu, nessa altura da narrativa, prestes a iniciar sua vida adulta, faz anotações nos papéis que consegue encontrar. Atenção para este impressionante trecho:
" ' E como eram as tranças?' , perguntou Ugwu.
De início Olanna se espantou com a pergunta, depois percebeu que lembrava perfeitamente como o cabelo fora trançado, e começou a descrever o estilo do penteado, com algumas trancinhas caindo pela testa. Depois descreveu a cabeça, os olhos abertos, o acinzentado da pele. Ugwu escrevia, enquanto Olanna falava, e o fato de ele escrever, a sinceridade de seu interesse, de repente fez sua história adquirir importância, a fez servir a um propósito maior, que nem mesmo Olanna sabia bem qual era -e então contou tudo o que se lembrava sobre o trem cheio de gente chorando, gritando e urinando"

Há quem diga (e não são poucos, infelizmente) que poemas, contos e romances não passam de exercícios supérfluos, que nada se aprende com a criação literária. Este blogueiro, claro, discorda veementemente. Personagens como Olanna, Odenigbo, Ugwu, Richard, Kainene, Arize e outros ensinaram-me tanto quanto (ou mais do que) a leitura de um texto não-ficcional poderia fazê-lo. É como disse Adichie na TED Talk mencionada acima: "Histórias foram usadas para despojar e difamar, mas histórias também podem ser usadas para empoderar e humanizar. Histórias podem partir a dignidade de um povo, mas histórias também podem reparar essa dignidade partida".

¹ ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Meio sol amarelo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008 [Tradução de Beth Vieira]

² CANDIDO, Antonio. O personagem do romance. In: ____________.(et al) A personagem de ficção. 9 ed. São Paulo: Perspectiva, 1992. p. 51-80

³ HERNANDEZ, Leila Maria Gonçalves Leite. A África na sala de aula: visita à história contemporânea. São Paulo: Selo Negro, 2005



P. S. Meio sol amarelo também foi adaptado para o cinema, num filme lançado em 2013, com Thandie Newton, Chiwetel Ejiofor e John Boyega no elenco. Aqui você pode ver o trailer.



BG de Hoje

Os paranaenses do MACHETE BOMB não escondem sua principal influência: a banda norte-americana Rage Against the Machine. Lançando mão de - como o nome do grupo já indica -  instrumentos e levadas típicas do samba (pra quem não sabe, o cavaquinho também já foi chamado de machete), eles dão uma outra cara ao estilo rap-rock desenvolvido por Tom Morello & Cia. Confira na pulsante faixa Fatcap.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Falou e disse...

VENDO POESIA *


Para quem gosta
Poesia nada custa
Poesia nada gasta
Bastam os olhos da cara


* CUNHA, Leo. Vendo poesia. In: _________. Vendo Poesia. São Paulo: FTD, 2010. p.9

terça-feira, 8 de maio de 2018

Parada por tempo indeterminado


Ao(à) eventual leitor(a):



Tentei. Mas não dá.

Ando com a cabeça e o espírito *  em estado de quase completo embotamento.

Por isso vou dar um tempo por aqui. Se insistisse em continuar escrevendo, as postagens (que já não são lá essas coisas) resultariam em textos piores do que o que eu poderia considerar aceitável.

Não quero acabar com o blog (como já fiz com o Ração das Letras e o Sinistras Bibliotecas, precursores deste Besta Quadrada). Afinal, lá se vai um punhado de tempo e empenho nessa atividade não-remunerada de blogueiro e tive (mesmo que poucos) momentos de satisfação, ora essa!

Contudo, no momento, considero melhor uma interrupção.

Volto quando estiver menos quebrantado.

Inté.

__________
Apesar de minha discordância em relação a muitos posicionamentos do filósofo francês André Comte-Sponville, quando uso o termo espírito tenho em mente algo parecido com o que ele escreveu em seu livro O espírito do ateísmo (Editora Martins Fontes, 2007):

"O espírito não é uma substância; é uma função, é um poder, é um ato (o ato de pensar, de querer, de imaginar, de fazer humor...), e esse ato, pelo menos, é incontestável - já que toda contestação o supõe.
[...]
"[...] Toda religião pertence, ao menos em parte, à espiritualidade; mas nem toda espiritualidade é necessariamente religiosa. Quer você acredite ou não em Deus, no sobrenatural ou no sagrado, de qualquer modo você se verá confrontado com o infinito, a eternidade, o absoluto - e com você mesmo. Para isso, basta a natureza. Para isso, basta a verdade. Nossa própria finitude transitória e relativa basta. Não poderíamos de outro modo nos pensar como relativos, nem como efêmeros, nem como finitos.
                                                                                                  [...]
Falar de uma espiritualidade sem Deus não é, por conseguinte, nada contraditório. No Ocidente, isso às vezes surpreende. Como a única espiritualidade socialmente observável em nossos países, foi durante séculos uma religião (o cristianismo), acabou-se acreditando que "religião" e "espiritualidade" eram sinônimos. Nada disso! Basta recuar um pouco, tanto no tempo (especialmente para a época das sabedorias gregas) como no espaço (por exemplo, na direção do Oriente budista ou taoísta), para descobrir que existiram, que existem ainda, imensas espiritualidades que não eram ou não são religiões, em todo caso não no sentido ocidental do termo (como crença num ou em vários deuses), nem, talvez, inclusive em seu sentido mais geral (como crença no sagrado ou no sobrenatural). Se tudo é imanente, o espírito também é. Se tudo é natural, a espiritualidade também é. Isso, longe de vedar a vida espiritual, torna-a possível. Estamos no mundo: o espírito faz parte da natureza".


terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Destino de abelha


Não, não é cansaço.

É verdade que muitos de nós, aqui, no país do golpe, estamos cansados. Contudo, dizer-se cansado - por mais sincero que seja - não descreve muita coisa.

Esmorecimento. É, acho que é isso. Sinto-me esmorecido.

Li pelo menos quatro bons livros nas últimas semanas. Deveria escrever sobre eles - afinal, minha atividade de blogueiro baseia-se nisso, escrever sobre outros textos. Mas simplesmente não consigo. Tô seco. Não há qualquer  resquício de entusiasmo. Nada.

Vazio. Solidão. Angústia.

(Lidava bem com essas coisas antes. Hoje, nem tanto. É uma merda! Já não posso contar com meu corpo; agora, pelo visto, minha mente também começará a me deixar na mão).

Tô vivendo apenas por inércia. Que grande e miserável covarde!

Falei, na postagem anterior, sobre o livro A elegância do ouriço, da francesa Muriel Barbery. Mencionei que duas narradoras conduzem a história e uma delas é apenas uma adolescente de 12 anos. Observei, naquela ocasião, que a escritora lançou mão de um artifício bem inteligente. Paloma Josse - essa menina superdotada, pensativa e severa, com vocação para a filosofia - tem a saudável afoiteza dos jovens para dizer lugares-comuns como se se tratasse de pensamentos inéditos. É tocante! (além do mais, quem consegue se livrar dos lugares-comuns?).

Pois bem. Há uma passagem em A elegância do ouriço que vai ao encontro do que estou pensando neste exato momento. A irmã mais velha de Paloma - a superficial Colombe - resolve falar com ela sobre a fecundação das abelhas: seu intuito era encabular a garota. Os zangões, cuja única função é fecundar a abelha-rainha, morrem após a cópula (assim que esta termina, os órgãos genitais dos machos são arrancados junto com os intestinos). Aqueles que não participam da fecundação, por serem mais lentos ou mais fracos, são expulsos (e não resistem as condições fora da colmeia) ou mortos pelas operárias, já que não têm qualquer outra utilidade para a vida em comunidade: não são capazes de coletar néctar, nem de fazer mel.

(Mas, penso eu, se considerarmos que o tempo de vida médio de uma abelha operária é de 32 a 45 dias apenas, pra que tanto trabalho? E, por favor, eventual leitor(a), estou sendo sarcástico.)

Pouco interessada no que a irmã chata está dizendo, Paloma, entretanto, chega à seguinte conclusão:

 "Mas não vejo nada de chocante ou de safado no voo nupcial das rainhas e no destino dos falsos zangões porque me sinto profundamente parecida com todos esses bichos, mesmo se meus costumes são diferentes. Viver, se alimentar, se reproduzir, realizar a tarefa para a qual nascemos e morrer: isso não tem sentido, é verdade, mas é assim que as coisas são. Essa arrogância dos homens de pensar que podem forçar a natureza, escapar de seu destino de pequenas coisas biológicas... e essa cegueira que têm para a crueldade ou a violência de suas próprias maneiras de viver, de amar, de se reproduzir e de fazer a guerra a seus semelhantes...

Acho que só há uma coisa para fazer: encontrar a tarefa para a qual nascemos e realizá-la o melhor possível, com todas as nossas forças, sem complicar as coisas e sem acreditar que há um lado divino na nossa natureza animal. Só assim é que teremos a sensação de estar fazendo algo construtivo no momento em que a morte nos pegar. A liberdade, a decisão, a vontade, tudo isso são quimeras. Acreditamos que podemos fazer mel sem partilhar o destino das abelhas; mas nós também não somos mais que pobres abelhas fadadas a cumprir sua tarefa e depois morrer".

A falta de sentido da existência, o delírio do ser humano crendo ser algo mais do que um mero primata falante, a ilusão da liberdade e da escolha: tudo isso já foi matéria da reflexão filosófica de grandes e pequenos pensadores. Não faz mal. Paloma dá tratos à bola assim mesmo porque são temas inescapáveis. E sua sugestão, mesmo que trivial, não é fácil de empreender. Muito do meu esmorecimento deriva disso.

Qual seria a minha tarefa? O que me daria "a sensação de estar fazendo algo construtivo no momento em que a morte [me] pegar"?

Eu não sei. E, pior, acho que nunca vou saber que papel interpretar na grande colmeia humana.

. . . . . . .

Ah, quero assinalar uma coisa, antes que me esqueça.

Estou cheio de ouvir pessoas me dizendo: "Você devia procurar (psico)terapia!". Dá vontade de rir... Como se esse tipo de serviço fosse ace$$ível a qualquer um...

Além disso, por mais que eu possa achar interessante ter uma pessoa remunerada (e bem remunerada!) pra ficar ouvindo as miudezas pessoais de alguém - afinal, escutar outro indivíduo não parece ser algo que nossa espécie gosta de fazer -, duvido bastante da eficácia de tratamentos desse tipo. E aí que me lembro daquela passagem memorável de Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar (e que não canso de repetir), quando André, a certa altura do diálogo (falho e inútil) com o pai, atira:

"- Já disse que não acredito na discussão dos meus problemas, estou convencido também de que é muito perigoso quebrar a intimidade, a larva só me parece sábia enquanto se guarda no seu núcleo, e não descubro de onde tira sua força quando rompe a resistência do casulo; contorce-se com certeza, passa por metamorfoses, e tanto esforço só para expor ao mundo sua fragilidade".

. . . . . . .

O Besta Quadrada interromperá suas atividades até fevereiro do ano que vem. Muito obrigado a quem prestigiou o blog nesta temporada. Que o(a) eventual leitor(a) procure se divertir nas festas e comemorações típicas dessa época. Como não espero que o próximo ano seja minimamente feliz (basta acompanhar essa retrospectiva, apenas falando do campo da "justiça", para projetar um tenebroso 2018), poupo você daquela frase batida, comum em finais de dezembro. Inté.

BG de Hoje

Embora o single Human tenha sido lançado em 2016, foi somente neste ano que fui prestar atenção no musicaço do RAG'N'BONE MAN. Posso dizer sem pestanejar que foi minha trilha sonora durante todo este maldito 2017: me peguei várias vezes cantarolando-a no caminho pro trabalho ou dentro de casa ouvindo rádio. Ajudou bem a suportar a barra.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Os pensamentos de Renée e Paloma


Um tempinho atrás estava lendo a postagem de um blog cuja autora mencionara o filme Le hérisson. Achei tão cativante a ponto de, mesmo não compreendendo patavina de francês (pelo menos não ainda), ficar com muita vontade de assisti-lo. Até o momento não tive oportunidade.

Felizmente, porém, consegui chegar ao romance ¹ (traduzido no Brasil) em que se baseia o longa-metragem. E, a propósito, A elegância do ouriço, de Muriel Barbery, é um romance muito bom.

São duas narradoras, alternando-se ao longo do livro: Renée Michel e Paloma Josse. A primeira é a concierge (ou, simplesmente, a zeladora) de um prédio de apartamentos em Paris; a segunda é uma estudante de colégio, filha de um político importante e moradora desse edifício habitado por endinheirados. Renée tem 54 anos, sempre foi pobre e, segundo sua própria avaliação, feia e sem atrativos. Apesar de sua função humilde e insignificante e de corresponder "tão bem ao que a crença social associou ao paradigma da concierge" - na aparência e no modo como, dissimuladamente, relaciona-se com seus patrões -, guarda uma inteligência rara e é muito culta. Por sua vez, Paloma, adolescente de 12 anos, apesar de viver em meio a privilégios, toma uma decisão dramática: suicidar-se antes de seu próximo aniversário. Superdotada, mas retraída e discreta, ela supõe-se um fruto da contradição, "porque, por uma razão desconhecida, [é] hipersensível a tudo o que é dissonante, como se tivesse um tipo de ouvido absoluto para as fífias, para as contradições".

As duas personagens têm em comum o pendor para a filosofia; o modo severo como examinam os outros (sobretudo os moradores do prédio) e a si mesmas; a constatação da falta de sentido da vida e do absurdo inerente ao existir, um fascínio pelo Japão (a adolescente, por causa dos mangás; a mulher madura, por causa do cinema de Yasujiro Ozu); a aversão, ora pela fatuidade, ora pelo materialismo bruto dos ricos (no caso de Paloma, dirigida até contra sua família); e, por fim, a estima e a consideração especiais pela arte, conjugada a um olhar estetizante sobre o mundo. A aproximação entre elas, contudo, leva páginas e páginas para acontecer, proporcionada em grande medida pela chegada de um novo morador ao prédio. Já falo disso.

A autora de A elegância do ouriço, Muriel Barbery, é professora universitária de filosofia, o que, naturalmente, leva suas narradoras a carregar de reflexões "cabeça" os diários que escrevem, sem comprometer, contudo, o ritmo da narrativa. Reflexões magníficas como esta, de Renée:

"Nesses dias, em que soçobram no altar de nossa natureza profunda todas as crenças românticas, políticas, intelectuais, metafísicas e morais que os anos de instrução e educação tentaram imprimir em nós, a sociedade, campo territorial cruzado por grandes ondas hierárquicas, afunda no nada do Sentido. Acabam-se os ricos e os pobres, os pensadores, os pesquisadores, os gestores, os escravos, os gentis e os malvados, os criativos e os conscienciosos, os sindicalistas e os individualistas, os progressistas e os conservadores; não são mais que hominídeos primitivos, e suas caretas e risos, seus comportamentos e enfeites, sua linguagem e seus códigos, inscritos na carta genética do primata médio, significam apenas isto: manter o próprio nível ou morrer.

Nesses dias, precisamos desesperadamente da Arte. Aspiramos ardentemente a retomar nossa ilusão espiritual, desejamos apaixonadamente que algo nos salve dos destinos biológicos para que toda poesia e toda grandeza não sejam excluídas deste mundo.

Então tomamos uma xícara de chá ou assistimos a um filme de Ozu, para nos retirarmos da ronda das justas e batalhas que são os costumes reservados de nossa espécie dominadora, e darmos a esse teatro patético a marca da Arte e de suas obras maiores"

Ou esta outra, também estupenda, de Paloma:

"Eu, ao olhar aquela haste e aquele botão, intuí num milésimo de segundo a essência da Beleza. Sim, eu, uma pirralha de doze anos e meio, tive essa chance inacreditável porque, hoje de manhã, todas as condições estavam reunidas: mente vazia, casa calma, lindas rosas, queda de um botão. E foi por isso que pensei em Ronsard, sem muito compreender no início: porque é uma questão de tempo e de rosas. Porque o que é bonito é o que captamos enquanto passa. É a configuração efêmera das coisas no momento em que vemos ao mesmo tempo a beleza e a morte.

Ai, ai, ai, pensei, será que isso quer dizer que é assim que temos de viver a vida? Sempre em equilíbrio entre a beleza e a morte, o movimento e seu desaparecimento?

Estar vivo talvez seja isto: espreitar os instantes que morrem".

Muriel Barbery foi muito sagaz assentando como condutoras da história uma autodidata com mais de 50 anos e uma adolescente tão circunspecta quanto inteligente. A visão de mundo melancólica e pé-no-chão de quem já viveu bastante (Renée), associada ao aprendizado feito por conta própria, livra a voz narrativa da esterilidade e da aridez da filosofia de cunho mais acadêmico. E o destemor típico dos muito jovens (mesmo numa garota pouco expansiva como Paloma) faz com que afirmações um tanto grandiloquentes sejam "perdoadas" pelo leitor e não pareçam antipáticas e afetadas.

A narrativa ganha outro andamento (e até uns toques de humor) quando um novo personagem passa a residir no prédio. Um senhor japonês de quem Renée e Paloma ficarão amigas. É, aliás, numa conversa com ele que a adolescente elabora uma bela analogia, propiciando, inclusive, o título do livro.

Tenho mais a dizer sobre A elegância do ouriço. Farei-o, todavia, noutras ocasiões. Por ora, encerro a postagem com esta demolidora reflexão de Renée:

"Qual é essa guerra que travamos, na evidência de nossa derrota? Manhã após manhã, já exaustos com todas essas batalhas que vêm, reconduzimos o pavor do cotidiano, esse corredor sem fim que, nas derradeiras horas, valerá como destino por ter sido tão longamente percorrido. Sim, meu anjo, eis o cotidiano: enfadonho, vazio e submerso em tristezas. As alamedas do inferno não são estranhas a isso; lá caímos um dia por termos ficado ali muito tempo. De um corredor às alamedas: então se dá a queda, sem choque nem surpresa. Cada dia reatamos com a tristeza do corredor e, passo após passo, executamos o caminho da nossa sombria danação".
__________
¹ BARBERY, Muriel. A elegância do ouriço. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. [Tradução de Rosa Freire d'Aguiar]

BG de Hoje

Lançado neste ano mesmo, o álbum French Touch, de CARLA BRUNI, reúne 11 covers de hits cantados em inglês. Ouvi algumas das faixas. Não gostei de sua versão para Highway to Hell (AC/DC), nem a feita para The Winner Takes It All (ABBA). Por outro lado, adorei Enjoy The Silence (Depeche Mode) e, principalmente, a vibração diferente imprimida em Miss you (The Rolling Stones). Ouça e depois me fale.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Antídotos contra o fanatismo (e contra outros males parecidos)



"A essência do fanatismo reside no desejo de forçar outras pessoas a mudar".

Amós Oz - Como curar um fanático

Sentir-se impelido a opinar sobre qualquer coisa que aconteça sob o sol (e, às vezes, até além dele) não me parece ter nada de particularmente excitante ou minimamente proveitoso. Entretanto, deve ser do gosto de muita gente, pois é mania disseminada de alto a baixo.

Seja estabelecer a melhor maneira de assar costela, seja como cobrir de opróbrio celebridades acusadas de má conduta, há sempre centenas, milhares (não raro, milhões) de pessoas diligentemente a postos para dividir conosco seus inestimáveis pareceres... E não pense que assuntos mais complexos possam intimidá-las: não é preciso procurar muito para encontrar indivíduos, do alto da sua condição de completos leigos, dando palpite até sobre matérias relacionadas a campos muito especializados, tanto nas ditas ciências exatas quanto nas chamadas humanas. NOTA: Não é minha intenção aqui endossar a ideologia do discurso competente, aquele típico dos tecnocratas, um discurso hierarquizador, acionado para desautorizar e silenciar as vozes das pessoas que não se encaixam no pensamento instituído dominante, brilhantemente criticado por Marilena Chauí num de seus mais célebres textos ¹. Por outro lado, acho que muitos de nós - e sejamos honestos - não temos dificuldade para identificar, em meio à discussão de um determinado tema, os interlocutores cujas ideias e propostas pouco ou nada ajudariam na resolução de um dado problema (os leigos aos quais me refiro), em razão de seu pouco entendimento (e até de seu total desconhecimento) em relação ao que está sendo debatido. Em muitas oportunidades, não é complicado apontar quando alguém está tentando tapear, simulando "uma ciência que está longe de trazer arraigada no cérebro" - como disse o salafrário Brás Cubas, de Machado de Assis.

E quando o assunto é geopolítica e relações internacionais? Caramba! Qualquer um parece ter o remédio perfeito para neutralizar Kim Jong-un e conter os surtos beligerantes da Coreia do Norte, livrar-se do intervencionismo incessante do Tio Sam ou encontrar o melhor caminho para o impasse Catalunha-Espanha. E as saídas imaginadas são simples e infalíveis (como é que ninguém nunca tinha pensado nisso?...). Sem falar nas tensões e confrontos do Oriente Médio, mormente a discórdia entre Israel e Palestina: os "opinadores" de plantão têm uma solução prontinha na ponta da língua.

Como muitos indivíduos neste planeta, para tentar (eu disse apenas tentar) compreender conflitos internacionais, suas motivações e implicações, preciso recorrer ao trabalho de empresas jornalísticas. E todos sabemos que a cobertura da imprensa pode ser não só incompleta como também enviesada em muitos casos. Ainda assim, só tenho essa possibilidade, caso queira inteirar-me do que ocorre noutras partes do mundo ². Por esse motivo - e sabendo de antemão que um(a) eventual leitor(a) "pró-Palestina" detestará o que vou escrever - não tenho opinião formada sobre Israel e suas desavenças com as nações vizinhas. E, mais importante, não me sinto obrigado a ter. Mesmo se estivesse na mesa do boteco (onde se pontifica sobre tudo), após duas doses de cachaça, preferiria não palpitar. Em primeiro lugar, obviamente, porque dane-se minha opinião sobre isso (ou sobre inumeráveis outros assuntos com os quais não tenho nenhuma familiaridade)! - quem se importa?. E em segundo, há componentes nessa história, em meu (curto) alcance, que vão além de um simplificado esquema opressor X oprimido. É recomendável entender melhor esses elementos antes de tascar qualquer juízo peremptório.

Por isso, quando topei com o livro Como curar um fanático ³, de Amós Oz - pequenininho, pouco mais de 100 páginas -, fiz questão de ler. O opúsculo apresenta uma palestra (Em louvor às penínsulas) feita em Amsterdã, no ano de 2015, logo após aqueles ataques terroristas em Paris cujos alvos incluíam a revista satírica Charlie Hebdo; dois discursos (Como curar um fanático e Entre o certo e o certo) proferidos na Alemanha em 2002; além de uma entrevista, concedida em 2012.

O romancista israelense diz (Entre o certo e o certo) que "o conflito israelo-palestino não é um filme do Velho Oeste. Não é a luta do bem contra o mal, é antes uma tragédia no mais antigo e mais preciso sentido da palavra: um choque entre o certo e o certo, um embate entre uma reivindicação muito poderosa, profunda e convincente, e outra muito diferente mas não menos convincente, não menos poderosa, não menos humana".

Há algum tempo Amós Oz vem defendendo a "solução de dois Estados" para o conflito. Ele já esteve no campo de batalha por duas vezes (em 1967 e 1973) e faz questão de enfatizar que sua proposição não resulta de uma visão histórica privilegiada, nem da "astúcia dos políticos", nem da "expertise de um cientista político".

"Não tenho nenhuma dessas qualidades" - escreve Oz (Em louvor das penínsulas) -; "tenho apenas curiosidade e imaginação. Desde a minha infância em Jerusalém, tenho me perguntado como seria ser um palestino, refugiado ou não. Como seria viver na pele de um palestino. Abrigar as memórias de um palestino. Sonhar os sonhos palestinos. 
Enquanto faço essas perguntas, continuo a ser um judeu israelense. Isso não me tornou um palestino, ou me fez adotar a narrativa palestina, e me sujeitar a toda exigência palestina. Nem me fez oferecer a outra face. Mas me inspirou a buscar um acordo baseado em concessões mútuas, um acordo de compromisso"

A dificuldade que temos em firmar compromissos e, principalmente, nossa incapacidade de estabelecer e aceitar concessões mútuas têm contribuído decisivamente para o aumento do fanatismo ao redor do mundo, tanto em contextos não bélicos e menos agressivos quanto em situações envolvendo combatentes armados e grande hostilidade, como na desavença entre Israel e Palestina.

Segundo Amós Oz, as lideranças de ambos os lados fizeram um péssimo trabalho ao longo dos anos:

"[...] na maior parte das vezes tenho feito críticas ao movimento nacional palestino por ter fracassado ao não se dar conta de quão autêntica é a conexão judaica com a terra de Israel. Fracassado por não se dar conta de que Israel moderno não é um produto de um empreendimento colonialista, ou ao menos fracassado por não dizer isso a seu próprio povo. Devo lhes dizer que sou igualmente crítico a gerações de sionistas israelenses que foram incapazes de imaginar a existência de um povo palestino, um povo real, com direitos reais e legítimos. Assim, ambas as lideranças - do passado e também do presente - são culpadas ou de não ter compreendido a tragédia ou de não ter ao menos contado aos seus pares".

E acrescenta:


"[...] A liderança palestina por sua vez deve se dirigir ao seu próprio povo e dizer finalmente, em alto e bom som, algo que nunca conseguiu pronunciar, que Israel não é um acidente da história, que Israel não é uma intrusão, que Israel é a pátria dos judeus israelenses, não importa quão doloroso isso seja para os palestinos. Assim como nós, judeus israelenses, temos de dizer em alto e bom som que a Palestina é a pátria do povo palestino, por mais inconveniente que nos pareça".

Se esse tema interessa a você, eventual leitor(a), creio que vale a pena ao menos conhecer as observações de Oz, para quem o confronto Israel-Palestina, "basicamente, não é mais que um conflito territorial quanto à dolorosa questão 'de quem é a terra?'. É um embate entre o certo e o certo, entre duas poderosas, muito convincentes reivindicações do mesmo e pequeno país. Não uma guerra religiosa, nem uma guerra de culturas, nem uma discordância entre duas tradições, mas apenas uma disputa imobiliária sobre a quem pertence essa casa. E eu acredito que isso possa ser resolvido".

Ninguém, obviamente, é obrigado a concordar com o romancista israelense nessa questão e, para falar a verdade, o que acabou me atraindo mais em Como curar um fanático nem está diretamente ligado à discussão do confronto Israel-Palestina. Esse tema penoso também serviu, felizmente, para que Amós Oz fizesse um brevíssimo, porém fabuloso, tratado sobre o fanatismo, tanto na versão "hard", também conhecida como extremismo, quanto na versão "soft", que é pouco discutida e, às vezes, difícil de detectar.

. . . . . . .

Como definir o fanatismo?

"Conformidade e uniformidade, a urgência de pertencer e a vontade de fazer com que todos os outros pertençam, podem ser as mais amplamente difundidas mas não as mais perigosas formas de fanatismo", afirma Oz. Exemplos? Organizações religiosas e torcidas de futebol. Fanáticos detestam o pensamento divergente, a ressalva da individualidade e o desejo de emancipação. "De fato, tendo dito que conformidade e uniformidade são formas amenas mas amplamente difundidas de fanatismo, devo acrescentar que com frequência o culto da personalidade, a idealização de líderes políticos ou religiosos, o culto de indivíduos carismáticos podem bem ser outra forma difundida de fanatismo". Isso é bastante perceptível atualmente, inclusive no Brasil, tanto à direita quanto à esquerda do espectro político.

Amós Oz, a meu ver, acerta em cheio ao realçar uma característica de nosso tempo que favorece tremendamente o fanatismo: a infantilização da humanidade. O século XX demoliu muitas de nossas certezas em relação à vida social e "espiritual" e

"A perda dessas certezas elementares pode ter sido a causa do meio século mais pesadamente ideológico, seguido do meio século mais furiosamente egoísta, hedonista, orientado para gadgets [os brinquedos dos adultos de hoje, acrescenta este blogueiro]. Nos movimentos ideológicos da primeira metade dos século passado, o mantra costumava ser 'amanhã será um dia melhor - façamos sacrifícios hoje'; vamos até mesmo impor sacrifícios a outras pessoas hoje, para que nossos filhos herdem um paraíso no futuro. Em algum momento em meados desse século, tal conceito foi substituído pelo conceito de felicidade instantânea, não somente o famoso direito de batalhar pela felicidade, mas a efetivamente difundida ilusão de que a felicidade está ali nas prateleiras e que tudo que se deve fazer é enriquecer o bastante para se permitir adquirir a felicidade usando a carteira".

Num caso ou no outro, segue-se a onda e os indivíduos comportam-se como
manadas: há pouco (ou nenhum) espaço para a reflexão e a imaginação. Como crianças, deixamos que outros (políticos, sacerdotes, homens de negócio e, mais recentemente, celebridades midiáticas) pensem e decidam por nós.

Dissemos acima que os fanáticos não toleram a divergência. E têm imensa dificuldade em respeitar a liberdade (de ser, de agir, de portar-se) do outro. Com a palavra - e com bom humor -, Amós Oz:

"A essência do fanatismo reside no desejo de forçar outras pessoas a mudar. A inclinação comum para fazer seu próximo melhorar, ou para corrigir sua esposa, ou para direcionar seu filho, ou para endireitar seu irmão, em vez de deixá-los serem como são. O fanático é a menos egoísta das criaturas. O fanático é um grande altruísta. Frequentemente o fanático está mais interessado em você do que nele mesmo. Ele quer salvar sua alma, quer te redimir, quer te livrar do pecado, do erro, de fumar, de sua fé ou de sua falta de fé, quer melhorar seus hábitos alimentares, ou te curar da bebida ou de sua preferência na hora de votar. O fanático se importa muito com você, ele está sempre pulando em seu pescoço porque te ama de verdade, ou então está em sua garganta caso demonstre ser irrecuperável. E seja qual for o caso, falando topograficamente, pular em seu pescoço e estar em sua garganta é quase o mesmo gesto".

. . . . . . .

Muitas pessoas reconhecem que vivemos hoje num mundo instável e complexo, propenso a alterações e rupturas inesperadas, incompatível com a rigidez de pensamento (por favor, não estou advogando aqui a volatilidade da consciência ao sabor de mudanças nos interesses econômicos ou nos detentores do poder). Infelizmente, porém, há também um imenso contingente de indivíduos incapazes de dar-se conta dessa complexidade:

"O crescimento do fanatismo" - diz Oz - "pode ter relação com o fato de que quanto mais complexas as questões se tornam, mais as pessoas anseiam por respostas simples. Fanatismo e fundamentalismo muitas vezes têm uma resposta com uma só sentença para todo o sofrimento humano. O fanático acredita que se alguma coisa for ruim, ela deve ser extinta, às vezes junto com seus vizinhos. O fanatismo é muito antigo. É mais velho que o Islã, o cristianismo e o judaísmo. Mais velho do que todas as ideologias. Infelizmente, penso que, assim como a violência, o fanatismo é um componente permanente da natureza humana, um 'gene ruim' que existe em quase todos nós. O fanatismo muitas vezes origina-se na vontade imperiosa de modificar os outros pelo próprio bem deles. 
[...] Pessoas que explodem clínicas de aborto na América, pessoas que decapitam presumíveis hereges no Oriente Médio, pessoas que queimam mesquitas e sinagogas na Europa e em Israel, pessoas que assassinam outras simplesmente porque as outras se recusaram a mudar, nascer de novo, ir embora ou se converter - todas elas compartilham o mesmo antigo gene. O fanatismo é um ponto de exclamação ambulante".

O escritor toma o cuidado de não sugerir que "todo aquele que eleva sua voz contra alguma coisa é um fanático. O sinal indicador do fanatismo não é o volume da sua voz, mas a atitude com as vozes dos outros". Há diversas causas transitando na arena política (muitas destas não só honrosas como cruciais para a dignidade de vários grupos humanos) cujos respectivos defensores esforçar-se-ão para serem ouvidos. Só é preciso cuidado para, nesse empenho, não pugnar pelo emudecimento dos outros - a menos que estes outros, penso eu, introduzam no debate o ódio e a violência.

E quais seriam os antídotos para o fanatismo?

Segundo o romancista israelense, um deles seria o senso de humor. Quem desenvolve a capacidade de rir de si mesmo aprende a se ver como os outros o veem em determinadas ocasiões, torna-se menos propenso a se considerar o dono da verdade. O outro contraveneno - e este me interessa mais de perto, por razões óbvias - é a literatura. Mas sua ação é limitada. Amós Oz defende que a curiosidade e o exercício da imaginação podem refrear nosso fanatismo, principalmente por nos educarem para a alteridade, levando-nos a nos colocar no lugar de outras pessoas - algo que as obras literárias nos incitam a fazer o tempo todo:

"A característica que define a boa literatura, ou arte, é a capacidade de fazer se abrir um terceiro olho em nossa testa. Que nos faça ver coisas antigas e batidas de um modo totalmente novo [...] A grande literatura tem se posto nos lugares e nas peles dos outros, estranhos, às vezes odiosos, seres humanos, Dom Quixotes, os Iagos, os Raskolnikovs deste mundo".
Não se trata, entretanto, de uma panaceia:

"Gostaria simplesmente de receitar: leia literatura e você vai se curar de seu fanatismo. Infelizmente, não é tão simples. Lamentavelmente, muitos poemas, muitas histórias e dramas através da história têm sido usadas para inflamar o ódio e inflamar uma autopercepção de sua suposta justiça nacionalista. No entanto, há certas obras literárias que, acredito, possam nos ajudar em certa medida. Elas não realizam milagres, mas são capazes de auxiliar".

Já é um alento.
__________
¹ CHAUÍ, Marilena. Cultura e democracia: o discurso competente e outras falas. 12 ed. São Paulo: Cortez, 2007

² Com o advento das mídias sociais ficou mais fácil ter acesso aos relatos de pessoas comuns, nos diversos países, ajudando a nos distanciar da tendenciosidade da imprensa. No entanto, esses relatos, como não poderia deixar de ser, contêm seus próprios vieses e, em muitos casos, são conduzidos pelas invencionices daquele que escreve, como pouco lastro na realidade. Moral da história: a confiança que se deposita numa narrativa nunca deve ser total.

³ OZ, Amós. Como curar um fanático: Israel e Palestina: entre o certo e o certo. São Paulo: Companhia das Letras, 2016 [Tradução de Paulo Geiger]

BG de Hoje

Fui sendo cativado pelas canções da cantora e compositora malinesa FATOUMATA DIAWARA pouco a pouco. Hoje, posso dizer que é das minhas artistas favoritas em se tratando de música. Entre as faixas preferidas está Sowa.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Falou e disse...

"O profissionalismo da filosofia, sua transformação em uma disciplina acadêmica, foi um mal necessário, mas que encorajou tentativas de tornar a filosofia uma quase-ciência autônoma. Essas tentativas deveriam ser combatidas. Quanto mais a filosofia interage com outras atividades humanas - não apenas com a ciência natural, mas também com a arte, a literatura, a religião e a política - mais relevante para a política cultural ela se torna - e, portanto, mais útil. Quanto mais ela luta por autonomia menos atenção ela merece".*

* RORTY, Richard. Filosofia como política cultural. São Paulo: Martins Fontes, 2009. p. 13 [Tradução de João Carlos Pijnappel]

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

"No fim das contas, quem está preocupado realmente com esse país?"

Este blog trata, na maior parte do tempo, de literatura. Há bastante espaço também para a música pop. E para a filosofia, claro.

São meus principais interesses.

Não significa, entretanto, que eu não me importe com outros assuntos. De vez em quando, só para exemplificar, trato aqui de educação e ensino. Outro tópico, a política - em seu sentido lato -, já perpassou muitas postagens também, embora raramente fosse o tema preponderante, devo dizer. E já que falei em política, esta, como sabemos, tem um outro sentido, mais reduzido, que é, porém, geralmente o primeiro a vir à cabeça das pessoas quando usam o termo, relacionado às organizações partidárias, à disputa eleitoral e aos profissionais que ascendem a cargos no poder público por meio do voto. Contudo, dadas a mesquinhez e as vilanias da maioria dos governantes, parlamentares e (é preciso hoje citá-los, mais do que nunca) magistrados brasileiros, nunca tive qualquer disposição para abordar o tópico nessa perspectiva restrita, pelo menos não aqui no Besta Quadrada

Só que o Brasil atravessa um momento, a meu ver, preocupante.

Por essa razão, em março deste ano, decidi republicar aqui (e não tenho o costume de reproduzir integralmente artigos de terceiros no blog) um texto escrito pelo filósofo e professor da USP Vladimir Safatle que capturava bem uma parte da minha apreensão. Hoje senti a mesma necessidade de republicação ao ler o que escreveu Tico Santa Cruz, frontman da banda Detonautas. As observações do cantor apareceram primeiro no seu perfil do Facebook, mas eu cheguei a elas através do Diário do Centro do Mundo.

Devo confessar que pouco ouvi as músicas do Detonautas, mas sempre estive familiarizado com o posicionamento político de Santa Cruz. No texto abaixo, de forma muito simples, direta, ele registra alguns pontos de vista com os quais tenho tanta concordância que não vi outra alternativa a não ser reproduzi-lo na íntegra (as únicas - pequenas - alterações que fiz foram na pontuação e na ortografia) .


"É verdade, sim, minhas opiniões políticas nessa página [do Facebook] importam mais do que o meu trabalho musical. A página do Detonautas Roque Clube tem mais de um milhão de seguidores e lá quem está, está apenas pela música.

Também é verdade, sim, que por conta da minha insistente defesa contra o impeachment, perdi muitos fãs, me tornei uma pessoa estigmatizada e até malquista por muitos. Mas também é verdade que passei a ser admirado por outros que jamais se interessaram por mim ou pelo meu trabalho musical e amado por gente que não sabia quem eu era .

Só que eu sou músico! Quem paga minhas contas é minha música! O que eu amo fazer está relacionado a arte e como existe uma imaturidade GIGANTESCA em relação ao discernimento entre minha pessoa pública – Tico Santa Cruz, artista e CIDADÃO – e Tico Santa Cruz, vocalista do Detonautas – quem acabou se prejudicando foi o Detonautas!

Não por falta de público! Ao contrário, nosso público aumentou – porque acumulou uma parcela nova de pessoas que passaram a me acompanhar por conta dos meus posicionamentos e mantivemos a maioria dos fãs que sempre gostaram de nossas canções! Mas é verdade, sim, que algumas portas foram fechadas, alguns contratantes passaram a evitar a banda por minha causa e alguns veículos de comunicação importantes passaram a ignorar nossas produções.

Mas fazer o quê?

Muitos artistas que se omitiram ou que foram favoráveis a todo esse processo absurdo que destruiu nossa democracia e criou essa legião de monstrinhos que andam pelas redes sociais ofendendo tudo e todos que não concordam com eles, tentando censurar museus, peças de teatro, atacando ícones da música popular brasileira, querendo associar a cultura à vagabundagem e a outros absurdos, invadindo palestras, queimando 'bruxas' e 'lutando pela moral, ética e pela família, em nome de Deus e para proteger 'nossas crianças' ', agora estão sentindo na pele o que foi abrir a Caixa de Pandora dessa nação.

Com esses seres, não há diálogo, não há conversa, não há nada que possa ser feito, porque foram tomados pelo pânico, pela histeria, pela hipnose de um perigoso comportamento que até a própria imprensa que participou e estimulou tudo isso que vivenciamos nos últimos anos já percebeu que algo saiu do controle. Essa gente… Esquece, precisam de intervenção psiquiátrica apenas.

Temos que evitar é que uma parte ainda grande da sociedade que consegue raciocinar o MÍNIMO [não siga esse rumo e que] perceba que estamos caminhando para um movimento perigoso. Alertá-los de que foram manipulados e que agora precisam garantir que o processo democrático brasileiro retorne no ano de 2018.

Essa pauta MORAL que estamos assistindo por nossas redes sociais é apenas uma maneira de convergir toda essa energia de ódio para um lugar qualquer, já que o papo da luta contra a corrupção FALIU.

Explico o porquê.

O MBL e adjacências são cúmplices desse governo bandido atual, então não vão liderar nenhuma manifestação contra todos os absurdos que estamos vendo, ouvindo e vivendo.

E ALGUNS setores, ligados principalmente ao PT, querem mais é que Temer acabe com o país para que o povo sinta na pele todo este retrocesso e então creia que a volta de Lula seja a solução.

Logo as massas – tanto de 'um lado' quando do 'outro lado' – não são mobilizadas para que as ruas sejam tomadas e esse governo seja derrubado.

A esta altura do campeonato, com Temer já desmoralizado, o PSDB – ator principal através de AÉCIO NEVES – que agora todos sabem quem é – se afogando junto com o PMDB nessa lama e a formação de uma nova conjuntura para 2018, para a classe política de modo geral, principalmente a quem almeja o poder, retirar um presidente já não faz mais sentido. Deixa o crápula lá e vamos costurar nossas alianças e possibilidades para tomarmos o poder em 2018!

No fim das contas, quem está preocupado realmente com esse país? Com as pessoas desamparadas? Com os desempregados? Com as famílias que estão se desfazendo em meio à crise? Com as pessoas que estão se suicidando em meio ao desespero? Com as facções criminosas que cada dia ganham mais poder e assustam os cidadãos e cidadãs brasileiras com o avanço na criminalidade? Com os hospitais caindo aos pedaços, médicos, professores, servidores públicos, um monte de gente sem receber salários enquanto AS LIDERANÇAS estão se articulando para lutar pelo poder nas próximas eleições!!!

O Brasil melhorou depois do impeachment?

O governo que assumiu e seus aliados – incluindo os partidos que perderam as eleições – conseguiram erguer nossa nação?

Os corruptos foram todos presos? A corrupção acabou ou ficou evidente que está cada vez mais descarada?

Essa sucessão de erros e manobras aos quais todos nós fomos submetidos no fim das contas serviu a quem?

Se você não foi contaminado completamente pelo ódio e consegue raciocinar o mínimo, mesmo que não concorde comigo na maioria das pautas, há de concordar que foi um FRACASSO COMPLETO todo esse movimento que foi perpetrado em nome da MENTIRA da 'luta contra a corrupção'!

Ah mas a Dilma, o PT, os 13 anos que ficou no poder….

É meu amigo, minha amiga… Enquanto você consumia, viajava, comprava carro, casa, melhorava de vida, não pensou em nada disso. Quando a economia começou a desandar e a brecha foi dada para que todo esse processo fosse iniciado, infelizmente esse Congresso NOJENTO, e toda essa irresponsabilidade com nossas famílias e nossa indignação com a impunidade acabaram sendo usadas para benefício daqueles que sempre comandaram esse país, inclusive quando o PT era governo.

Está na hora de começarmos a perceber que somos apenas peões nesse tabuleiro. Se quisermos mudar algo no ano que vem precisamos pensar seriamente em que TIPO de congresso vamos montar e, dessa gente que se apresentará como opção, quem realmente está mais preparado para reconduzir o Brasil para o crescimento.

Seja você de direita ou esquerda ou de nenhuma das duas, pense bem em qual será seu papel, para depois não ficar por aí histérico e cheio de medo!

Estou cada vez mais certo de que precisamos parar com essas discussões estéreis e rasas nas redes sociais e convergir para pessoas SÉRIAS – seja do espectro político a qual pertencem – e que queiram realmente trabalhar acima de tudo pelo desenvolvimento desse país e não só pelo PODER.

Uma vez por semana vou propor reflexões políticas; nos demais dias, vou trabalhar minha música e minha banda, que é o que realmente vim fazer nesse planeta!

Se você chegou até aqui, convido-o a estar comigo também para além da política!

Bom dia!"

BG de Hoje

Seria GABRIEL o PENSADOR um daqueles artistas do tipo "ame ou odeie"? Pergunto porque conheço tanto pessoas que execram seu trabalho quanto pessoas que adoram. Pessoalmente, não morro de amores pela sua música mas também não detesto (peraí, pra ser sincero, preciso admitir que, definitivamente, não suporto 2345meia78 e Festa da música tupiniquim). Uma de suas melhores faixas, penso eu, é Até quando?. Letra direta, bem construída, criticando a apatia que parece estar inscrita no nosso DNA de brasileiro. A pegada mais rock também merece ser destacada; há uma levada que me lembra muito I'd love to change the world, do Ten Years After (não sei se foi algo intencional na gravação). E o clipe, de uma simplicidade tremenda, é muito bom.

sábado, 28 de outubro de 2017

Luis Fernando Verissimo e a sinceridade de um escritor profissional (II)


Na semana passada fiz uma mistureba daquelas aqui no Besta Quadrada.

Se o(a) eventual leitor(a) tiver a amabilidade de conferir a postagem anterior, verificará que iniciei o texto com duas citações do filósofo e crítico literário francês Maurice Blanchot (extraídas de um ensaio¹ publicado, creio eu, em 1949), nas quais há reflexões sobre a condição dos escritores (lá, na acepção de literatos). A seguir, mencionei uma entrevista de Luis Fernando Verissimo ao jornal Extra Classe e comentei o fato do autor gaúcho habitualmente ter aspirações modestas como artista, a despeito de seu talento. Ao enfatizar que Verissimo é reconhecido sobretudo por escrever crônicas, obstinei-me - não sei por que cargas d'água - em estabelecer se estas deveriam ou não ser consideradas literatura, o que me volveu para outra questão ainda mais ampla: afinal, que diabos seria a própria literatura? Retornei, então, a Maurice Blanchot e ao seu ensaio A literatura e o direito à morte, observando que o crítico francês, influenciado por Martin Heidegger, acreditava que o ideal da escrita literária é "nada dizer, falar para nada dizer" - expressar, pois, um vazio. Assim sendo, como localizar a literariedade de um texto, se é que isso existe? Como detectá-la nas crônicas? Por que, para muitos, a crônica teria menos "investidura" literária do que outros gêneros? Como se vê, as perguntas assomam. Porém, ao invés de respondê-las, fui citar outro trecho da entrevista de Luis Fernando Verissimo, no qual ele afirma nunca escrever para si, querendo dizer com isso que trabalha seu texto visando o público leitor. Algo execrado por Maurice Blanchot: segundo ele, as obras feitas para serem lidas acabam não sendo lidas por ninguém. Mas, quando paramos para pensar, percebemos que esse ninguém a quem o afetado pensador francês se refere são aquelas raras (e privilegiadas) pessoas que tiveram uma educação literária como a dele ou que compartilharam do mesmo substrato cultural no qual ele cresceu. Senti que precisava desvencilhar-me do enfoque excludente de Blanchot.

E aqui estamos. 

Meu objetivo hoje é apresentar um outro conceito de literatura, para, a partir deste, defender o genuíno lugarzinho da crônica junto aos demais gêneros literários. Mantenho também, desde a postagem anterior, a intenção de desmitificar um pouco o ofício dos(as) escritores(as) e, para isso, as declarações de um autor nada deslumbrado como Luis Fernando Verissimo serão muito oportunas.

. . . . . . .

No ótimo livro Teoria da Literatura: uma introdução ², de Terry Eagleton, encontramos a seguinte passagem:

"John M. Ellis [atualmente professor de Literatura Alemã na University of California, Santa Cruz] argumentou que a palavra 'literatura' funciona como a palavra 'mato': o mato não é um tipo específico de planta, mas qualquer planta que por uma razão ou outra, o jardineiro não quer no seu jardim. 'Literatura' talvez signifique exatamente o oposto: qualquer tipo de escrita que, por alguma razão, seja altamente valorizada. Como os filósofos diriam, 'literatura' e 'mato' são termos antes funcionais do que ontológicos: falam do que fazemos, não do estado fixo das coisas. Eles nos falam do papel de um texto ou de um cardo num contexto social, suas relações com o ambiente e suas diferenças com esse mesmo ambiente, a maneira pela qual se comporta, as finalidades que lhe podem ser dadas e as práticas humanas que se acumularam à sua volta. 'Literatura' é, nesse sentido, uma definição puramente formal, vazia. Mesmo se pretendermos que ela seja um tratamento não-pragmático da linguagem, ainda assim não teremos chegado a uma 'essência' da literatura, porque isso também acontece com outras práticas linguísticas, como as piadas".

A literatura não é uma coisa - não é um ente com a mesma, digamos, "densidade" ontológica das rochas ou das células do nosso corpo, por exemplo. Também não seria o caso de classificá-la como algo etéreo, inefável. É claro que o literário se dá por meio da linguagem, sendo os diversos idiomas do mundo o seu sustentáculo. Muitos estudiosos, inclusive, entendem a literatura como uma forma peculiar no uso de um sistema linguístico (o tal "tratamento não-pragmático" mencionado acima), empregando propositalmente determinados artifícios e, com isso, transformando, intensificando ou mesmo deformando esse sistema (Terry Eagleton cita aquele famoso aforismo de Roman Jakobson, segundo o qual a literatura seria uma "violência organizada contra a fala comum"). No momento, interessa-nos mais de perto, porém, a sugestão de que um texto literário é aquele ao qual atribuímos um alto valor, distinguido-o do conjunto dos outros textos produzidos na sociedade. E isso gera "uma consequência bastante devastadora", segundo Terry Eagleton:

"Significa que podemos abandonar, de uma vez por todas, a ilusão de que a categoria 'literatura' é 'objetiva', no sentido de ser eterna e imutável. Qualquer coisa pode ser literatura, e qualquer coisa que é considerada literatura, inalterável e inquestionavelmente - Shakespeare, por exemplo - , pode deixar de sê-lo. Qualquer ideia de que o estudo da literatura é o estudo de uma entidade estável e bem definida, tal como a entomologia é o estudo dos insetos, pode ser abandonada como uma quimera. Alguns tipos de ficção são literatura, outros não; parte da literatura é ficcional, e parte não é; a literatura pode se preocupar consigo mesma no que tange ao aspecto verbal, mas muita retórica elaborada não é literatura. A literatura, no sentido de uma coleção de obras de valor real e inalterável, distinguida por certas propriedades comuns, não existe".

Importante: sendo um qualificativo um tanto flutuante, o adjetivo literário não deveria ser empregado de forma taxativa ³.

A literatura é, pois, uma modalidade de escrita à qual costumamos atribuir um alto valor e que não partilha da estabilidade de outros objetos de conhecimento/estudo (como as rochas e as células, por exemplo). Sua vicissitude "resulta do fato de serem notoriamente variáveis os juízos de valor". Uma obra pode receber (ou perder) o status de literatura com a passagem do tempo, mudar de classe. Além do mais, "pode variar o conceito do público sobre o tipo de escrita considerado como digno de valor". Os critérios para avaliar uma boa escrita literária modificam-se dentro de uma cultura - o que era aclamado em um texto no século XVIII pode não ter nenhum apelo para o leitor atual, do mesmo modo que técnicas de escritura e composição hoje em alta sejam desprezadas daqui a algumas décadas.

"Isso" - escreve Eagleton - "não significa necessariamente que venha a ser recusado o título de literatura a uma obra considerada menor: ela ainda pode ser chamada assim, no sentido de pertencer ao tipo de escrita geralmente considerada como de valor. Mas não significa que o chamado 'cânone literário', a 'grande tradição' inquestionada da 'literatura nacional', tenha de ser reconhecido como um construto modelado por determinadas pessoas, por motivos particulares, e num determinado momento. Não existe uma obra ou uma tradição literária que seja valiosa em si, a despeito do que se tenha dito, ou se venha a dizer, sobre isso. 'Valor' é um termo transitivo: significa tudo aquilo que é considerado como valioso por certas pessoas em situações específicas, de acordo com critérios específicos e à luz de determinados objetivos. Assim é possível que, ocorrendo uma transformação bastante profunda em nossa história, possamos no futuro produzir uma sociedade incapaz de atribuir qualquer valor a Shakespeare. Suas obras passariam a parecer absolutamente estranhas, impregnadas de modos de pensar e sentir que essa sociedade considerasse limitados ou irrelevantes. Em tal situação, Shakespeare não teria mais valor do que muitos grafitos de hoje. E embora para muitos essa condição social possa parecer tragicamente empobrecida, creio que seria dogmatismo não considerar a possibilidade de que ela resultasse de um enriquecimento humano em geral".

(Bem, como pessimista crônico, este blogueiro, apesar de concordar com o crítico literário britânico a respeito da transitividade da noção de valor, não crê que os seres humanos progridam como espécie ou sociedade e, portanto, não acredita na possibilidade de melhoria aventada acima)

Todavia, não pensemos que os valores são cambiantes simplesmente por causa da arbitrariedade e dos caprichos de nossas inclinações pessoais. Valores tem muito menos a ver com nossa subjetividade e são menos particulares do que costumamos supor. Como observa Terry Eagleton, "todas as nossas afirmações descritivas se fazem dentro de uma rede, frequentemente invisível, de categorias de valores; de fato, sem essas categorias nada teríamos a dizer uns aos outros". Além do mais, os juízos de valor "têm suas raízes em estruturas mais profundas de crenças, tão evidentes e inabaláveis quanto o edifício Empire State". Embora um pouco fora de moda hoje em dia, há uma palavra adequada para designar "essas estruturas mais profundas de crenças": ideologia.

. . . . . . .

A literariedade de um texto, como acabamos de ver, é um valor atribuído, escorado, em última análise, nas diversas ideologias em circulação. Creio não ser difícil imaginar aquele que lê - seja um acadêmico ou crítico experimentado, seja um diletante sem maiores credenciais do que seu interesse, curiosidade ou paixão - nesse papel atribuidor. Mas e quanto àquele que escreve? Suponho que boa parte dos(as) autores(as), ao elaborarem seus textos - sejam estes romances, poemas, contos ou crônicas (porque, a esta altura, já não temos dúvida de que a crônica é um gênero literário, não é mesmo?) -, agem, intencional e conscientemente, para que sua escrita exiba certos elementos e traços passíveis de serem valorizados (e isso diz respeito ao aspecto verbal/formal do texto) como literatura, do mesmo modo que o fazem outros artistas nos seus respectivos campos.

Imagino, porém, que os artistas, independentemente do talento individual, não são capazes de produzir obras-primas o tempo todo. Noutras vezes, aquilo que o artista considera um trabalho estupendo pode não ir ao encontro daquilo que os atribuidores de valor - crítica, academia, imprensa, público em geral - têm em mente. Convém também lembrar que os artistas, até segunda ordem, estão sujeitos ao implacável capitalismo, assim como você e eu. E é nesse ponto que entra o tema do escritor profissional.

Parece haver certa vergonha (ou pudor, sei lá) da parte de muitos autores(as) em se assumirem como profissionais. Certamente não é o caso de Luis Fernando Verissimo. Em diversas ocasiões, até mesmo em algumas de sua crônicas, ele trata sem melindres dessa questão.

Já fui, noutros tempos, dessas pessoas que concebem a atividade literária como compromisso puramente artístico, sem qualquer transigência de natureza comercial. E isso é uma tolice! Nem todo(a) escritor(a) que "vende" é, necessariamente, um(a) mal(má) escritor(a) - embora muitos(as) o sejam. E vários(as) autores(as) populares ou bem sucedidos(as) nas livrarias não deixam de estabelecer para si padrões de escrita que avaliaríamos como literários, caso usássemos os critérios empregados no julgamento de obras mais "respeitáveis". Luis Fernando Verissimo, penso eu, é um desses.

Antes de terminar, gostaria de lembrar uma resposta do cronista gaúcho na entrevista ao jornal Extra Classe mencionada lá no início da postagem. Ele dissera, a respeito dos romances de sua autoria, que não tem grandes pretensões literárias. O entrevistador, então, pergunta: "Por escrever entretenimento?". E Verissimo diz:

"É, acho que sim. No Brasil é uma literatura considerada não muito respeitável, por isso os autores relutam em se dedicar a ela. Como não busco respeito... (risos). Mas é um gênero que precisa existir, até para a sobrevivência do mercado editorial".

Nós que gostamos de literatura temos a mania de só pensar na sublimidade da arte e não costumamos dar a devida atenção à dimensão material e mercadológica dessa atividade cultural. Por isso é sempre bom ouvir o que tem a dizer sobre isso sujeitos lúcidos e sinceros (além de talentosos) como Luis Fernando Verissimo.
__________
¹ BLANCHOT, Maurice. A literatura e o direito à morte. In: __________. A parte do fogo. Rio de Janeiro: Rocco, 2011. p. 309-351 [Tradução de Ana Maria Scherer]

² EAGLETON, Terry. Teoria da Literatura: uma introdução. 6 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006 [Tradução de Waltensir Dutra]

³ "Quando, deste ponto em diante, eu utilizar as palavras 'literário' e 'literatura' neste livro, eu o farei com a reserva de que tais expressões não são de fato as melhores; mas não dispomos de outras no momento", registra Terry Eagleton em seu livro

Eagleton faz ainda um importante acréscimo: "Não entendo por 'ideologia' apenas as crenças que têm raízes profundas, e são muitas vezes inconscientes; considero-a, mais particularmente, como sendo os modos de sentir, avaliar, perceber e acreditar, que se relacionam de alguma forma com a manutenção e reprodução do poder social".

BG de Hoje

Tenho gostado muito do som da banda potiguar FAR FROM ALASKA. Ouvindo direto nos últimos dias, sobretudo a faixa Cobra.