sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Anti-intelectualismo e o vozerio dentro deste bar


"Em meio à onda anti-intelectualista, não causa surpresa que a lógica do pensamento passa a trabalhar com categorias pré-modernas como o 'messianismo' e a 'peste'. O messianismo identifica-se com a construção de heróis e salvadores da pátria (seres diferenciados, bravos e destemidos, mas que não são necessariamente cultos ou inteligentes, nem corajosos, mas usam uma performance política em que gritar e esbravejar provocam efeitos populistas). A lógica da peste identifica cada um dos problemas brasileiros como um mal indeterminado, em sua extensão, em suas formas e em suas causas, mas tangível e mortal, contra o qual só Deus ou pessoas iluminadas podem resolver. Só há 'messianismo' e 'peste', fenômenos típicos de um conservadorismo carente de reflexão, onde desaparece o saber e a educação".

Marcia Tiburi e Rubens Casara - Ódio à inteligência: sobre o anti-intelectualismo



Uma das frases mais famosas de Jean-Jacques Rousseau é "prefiro ser um homem de paradoxos que um homem de preconceitos". Tenho que admitir: a máxima tem lá seu charme. Porém, quando olhada de pertinho... Pois para demonstrar um paradoxo, Rousseau, a meu ver, lançou mão de um preconceito no seu Discurso sobre as ciências e as artes.

Tentarei esclarecer isso logo, logo. No momento, contudo, gostaria de dividir com o(a) eventual leitor(a) a birra que me dá um certo cacoete hermenêutico, manifestado por um considerável número de comentadores e estudiosos, diante de textos filosóficos.

Pego para ler Obra aberta, de Umberto Eco, e A escritura e a diferença, de Jacques Derrida, por exemplo. Consigo compreender satisfatoriamente o primeiro livro; não entendo bulhufas do segundo. Derrida praticava uma escrita desnecessariamente hermética; Eco, não. Seja como for, se interpreto determinada sentença do pensador italiano seguindo diretamente o que está escrito - sentença esta bastante precisa, sintática e semanticamente -, corro o risco de topar com alguém que me advertirá: "Não foi isso que ele quis dizer". Como assim? Está lá escrito, qualquer um pode entender! Por outro lado, se tal situação acontecesse quando me arriscasse a decifrar algo produzido por uma figura como Derrida, eu aceitaria de bom grado a admoestação. Até agradeceria, se logo em seguida viesse a ajuda para sacar o que o filósofo franco-argelino está argumentando naquele seu aranzel.

Eis o busílis:

  • Muitas vezes, o filósofo não está interessado em complicar e só quis dizer aquilo mesmo que está lá no seu texto (sem mistério nenhum, sem nada de enigmático). Não é preciso uma super capacidade exegética para entender o sentido do que foi escrito.  (Isso vale para os autores que prezam a clareza do texto, não os Derridas da vida)
  • Todavia, muitas vezes também - porque se admira aquele pensador ou porque algumas de suas ideias são caras ao comentarista/estudioso -, toma-se um cuidado excessivo para "protegê-lo" das "más interpretações", não raro atribuindo maior profundidade ou complexidade a perspectivas do autor que nada têm de profundas ou complexas (e, olha lá, não estou afirmando que só tem valor o que é profundo e complexo...)

Veja o caso de Jean-Jacques Rousseau.

Está sempre cercado de "protetores" por ter sido um grande defensor da liberdade e, principalmente, da igualdade. É uma peça-chave na história do pensamento político ocidental e todos reconhecemos isso. Mas tem sempre alguém da turma do "não-foi-isso-o-que-ele-quis-dizer" para "corrigir" interpretações "erradas" das suas palavras, mesmo quando o sentido delas é cristalino.


Bem, para este blogueiro, é gritante a visão anti-intelectualista do escritor genebrino, sobretudo em seu primeiro grande trabalho, o Discurso sobre as ciências e as artes. Como o tema central da postagem de hoje é justamente o anti-intelectualismo, falar um pouquinho desse texto (elaborado em 1749) vale a pena. E se a maneira como julgo Rousseau é resultado de "má interpretação" de suas palavras, paciência.

Antes de mais nada, convém darmos uma definição de anti-intelectualismoNOTA: Talvez fosse oportuno distinguir irracionalismoanti-racionalismo e anti-intelectualismo; contudo, a tarefa tornaria a postagem muito longa (meus escritos já são habitualmente beeem compridos) e tiraria a ênfase que quero dar à atmosfera anti-intelectual na qual estamos imersos atualmente. Assim que possível, publicarei no blog um texto cujo único objetivo será fazer a distinção desses termos.

Utilizemos uma conceituação bem simples, disponível no verbete da Wikipédia:

"Anti-intelectualismo descreve um sentimento de hostilidade em relação a, ou suspeição de, intelectuais e seus objetos de pesquisa. Isto pode ser expresso de várias formas, tais como ataques aos méritos da ciência, educação, arte e literatura" 

Eu acrescentaria que a aversão se estende aos resultados da atividade intelectual, como por exemplo, livros, artigos científicos, programas de ensino, espetáculos musicais ou teatrais, obras de arte, etc.

"Entre as suas motivações mais comuns" - continua o verbete -, "podemos enumerar: ressentimento de pessoas pouco instruídas contra eruditos; hostilidade em relação ao trabalho realizado pelos intelectuais, como educação, pesquisa, crítica social e cultural, literatura; acusação de parasitismo social (os intelectuais não teriam uma 'função' econômica na sociedade, sendo esta última compreendida, portanto, de maneira organicista); acusações de subversão e morbidez".

Penso que o anti-intelectualismo tornou-se um forte traço de nossa época, não obstante os índices de escolaridade atuais, os mais altos da história. No Brasil, nesse gravíssimo momento de tensão política, as posturas anti-intelectuais são algo patente. Mas o anti-intelectualismo não é um evento novo. Periodicamente, o estatuto do intelectual e seu papel dentro da sociedade são alvo de ataque. Não é preciso recuar muito no tempo. Olhando apenas para o século passado, sabemos que a caça às bruxas macartista, realizada nos EUA no início da Guerra Fria, não poupou escritores e outros artistas, perseguidos com a desculpa de que "promoviam o comunismo". Notaremos também que muitos estudantes, após o Maio de 68, passaram a repudiar o saber teórico, visto por eles como inerentemente conservador e submisso ao poder. Ao anti-intelectualismo, acorreram, de tempos em tempos, tanto a direita quanto a esquerda. Entretanto, o fenômeno se torna particularmente funesto quando o identificamos como um dos elementos constituintes de influxos políticos de viés autoritário (e até mesmo totalitário). Convém lembrar que o fascismo e sua variante, o nazismo, eram fortemente anti-intelectualistas, assim como o stalinismo e o maoismo (sobretudo a partir da Revolução Cultural Chinesa).

Na definição da Wikipédia reproduzida acima, vimos que uma das acusações dirigidas aos intelectuais por parte de seus detratores é considerá-los parasitas da sociedade. A esse respeito, atentemos para esta passagem localizada na segunda parte do Discurso sobre as ciências e as artes ¹:

"Se nossas ciências são inúteis no objeto que se propõem [o encontro da verdade, de acordo com Rousseau], são ainda mais perigosas pelos efeitos que produzem. Nascidas da ociosidade, por seu turno a nutrem, e a irreparável perda de tempo é o primeiro prejuízo que determinam forçosamente na sociedade. Na política, como na moral, é um grande mal não se fazer de algum modo o bem e todo cidadão inútil pode ser considerado um homem pernicioso. [A seguir, Rousseau faz uma série de alusões a alguns pensadores e homens de ciência, entre estes Newton e Leibniz - importante notar que, no século XVIII, filosofia e ciência não eram ainda reconhecidos como ramos distintos do conhecimento e o termo filósofo designava também o que hoje chamamos de cientista] Respondei-me, pois, filósofos ilustres, vós por intermédio de quem sabemos por que razões os corpos se atraem no vácuo; quais são, nas revoluções dos planetas, as relações entre as áreas percorridas em tempos iguais; quais as curvas que têm pontos conjugados, pontos de inflexão e de retrocesso; como o homem vê tudo em Deus; como, sem comunicação, se correspondem a alma e o corpo, tal como o fariam dois relógios; quais os astros que podem ser habitados; quais os insetos que se reproduzem de modo extraordinário - respondei-me, repito, vós de quem recebemos tantos conhecimentos sublimes, se não nos tivésseis nunca ensinado tais coisas, seríamos com isso menos numerosos, menos bem governados, menos temíveis, menos florescentes, ou mais perversos? Reconhecei, pois, a pouca importância de vossas produções e, se o trabalho dos mais esclarecidos de nossos sábios e de nossos melhores cidadãos nos proporciona tão parca utilidade, dizei-nos o que devemos pensar dessa chusma de escritores obscuros e de letrados ociosos que, em pura perda, devoram a substância do Estado".

OK, OK. Sei que o próprio Jean-Jacques Rousseau admitia que o Discurso sobre as ciências e as artes foi mal escrito ². Sei também que ele não defendia o fechamento das universidades, nem acreditava que a ciência é uma maldição que se abateu sobre o planeta, nem pregava a morte a pauladas dos artistas e das pessoas cultas. Não obstante, acho difícil não atestar que o excerto acima está carregado do mais genuíno anti-intelectualismo. Para demonstrar um paradoxo - como o restabelecimento das ciências e das artes (durante o Iluminismo) não contribuiu para aprimorar os costumes -, o autor lançou mão de um preconceito - a contribuição não se deu porque, em geral, os praticantes das ciências e os artistas não têm como preocupação fundamental fomentar a virtude, dedicando-se a atividades supérfluas para a boa organização da sociedade. A passagem acima reproduzida serve para ilustrar um ponto de vista muito difundido em meio ao senso comum, tanto o da época quanto o de hoje, do qual Rousseau não conseguiu se desvencilhar.

A pressuposição de que a atividade intelectual e a criação artística são pura perda de tempo se não forem convertidas em algo "útil" acompanha a humanidade há milênios - com a ideia de utilidade variando de época para época, de cultura para cultura (no caso da nossa, útil será o mesmo que lucrativo). Do mesmo modo, é antiga a crença na futilidade da erudição, quando confrontada com a premência do trabalho que garante o sustento. Para o anti-intelectualista, de ontem e de hoje, os "letrados ociosos" que "devoram a substância do Estado" são um problema. Qual o corolário? Se ninguém precisa deles, diz o anti-intelectualista, não há necessidade de mantê-los.

Passemos a outro trecho do livro, agora retirado da primeira parte:

"Onde não existe nenhum efeito não há nenhuma causa a procurar; nesse ponto, porém, o efeito é certo, a depravação é real, e nossas almas se corromperam à medida que nossas ciências e nossas artes avançaram no sentido da perfeição. Dir-se-á ser uma infelicidade própria de nossa época? Não, senhores; os males causados por nossa vã curiosidade são tão velhos quanto o mundo. A elevação e o abaixamento cotidianos das águas do oceano não foram mais regularmente submetidos ao curso do astro que nos ilumina durante a noite quanto a sorte dos costumes e da probidade aos progressos das ciências e das artes. Viu-se a virtude fugir à medida que sua luz se elevava no nosso horizonte e observou-se o mesmo fenômeno em todos os tempos e em todos os lugares"

A virtude (ou seja, a retidão moral desejável nos "homens de bem", segundo Rousseau) é corrompida à medida que se avança intelectualmente. Importante notar que essa afirmação vai ao encontro da concepção de natureza humana defendida pelo pensador genebrino: o ser humano vai se degenerando à medida que se sociabiliza.  A visão preconceituosa do saber intelectualizado - essa "vã curiosidade" que causa "males" -  tem forte relação com a tradição cristã de considerar o orgulho do conhecimento a causa do pecado original. O anti-intelectualista dirá que o incremento científico e o apuro artístico provocam a fuga da virtude e, portanto, os intelectuais e os artistas são imorais.

Seria possível fazer desaparecer ou, ao menos, atenuar esse preconceito?

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Em um breve artigo publicado na revista CULT em outubro de 2016 (Ódio à inteligência: sobre o anti-intelectualismo), a filósofa Marcia Tiburi e o jurista Rubens Casara escreveram:

"Há, dividindo espaço com opressões próprias ao campo do saber, um estranho ódio ao saber em sua forma crítica e desconstrutiva. Um ódio que se relaciona com a ameaça libertária do saber, um saber capaz de desmistificar, de contrastar certezas e de desvelar a ignorância que serve de base para todos os preconceitos. O pensamento e a ousadia intelectual tornaram-se insuportáveis para muitas pessoas chegando a um nível institucional e, não raro, acabam excluídos ou mesmo criminalizados.
Diversos exemplos de anti-intelectualismo podem ser observados na sociedade brasileira. Desde a caricata presença do ator Alexandre Frota (menos pelo que ele é, mas sobretudo pelo que ele representa) como formulador de políticas públicas do Ministério da Educação [Frota foi recebido pelo então titular da pasta do MEC, Mendonça Filho, em 25/05/2016]  ao projeto repleto de ideologia (e mais precisamente: da ideologia, de viés autoritário, da 'negação do saber') da 'Escola sem partido'. Do silêncio em torno da exclusão de disciplinas (filosofia, sociologia, artes, etc.) do ensino médio (MP 746) à expressiva votação de candidatos que apostam no uso da força, em detrimento do conhecimento, como resposta aos mais variados problemas sociais. Do descaso com a educação (consagrado na PEC 241) [depois PEC 55, quando passou da Câmara dos Deputados para o Senado, e virou a Emenda Constitucional nº 95, estabelecendo um teto de gastos públicos para os próximos 20 anos, afetando áreas como saúde e educação] ao tratamento conferido aos professores em todo Brasil [...]".

Este blogueiro poderia dar outros exemplos, como o cancelamento de uma exposição de arte após protestos de fanáticos raivosos insuflados por uma milícia ou, recentemente, o pedido (da parte dos pais e mães) para proibir, em uma escola, a leitura de um livro infantojuvenil considerado "comunista". Importa destacar, contudo, que estamos correndo o risco, como acertadamente sugerem Tiburi e Casara, de que o anti-intelectualismo se torne institucionalmente cada vez mais aceito e praticado, quem sabe até incentivado por representantes do poder público. A agressividade obscurantista e, pior ainda, intimidatória de parte significativa dos apoiadores de Jair Bolsonaro, direcionada a jornalistas, literatos, artistas e professores universitários que têm posicionamento contrário ao deles, é bastante preocupante, dado que o deputado é favorito para vencer as eleições presidenciais neste segundo turno.

Tiburi e Casara observam que, na lógica limitada do anti-intelectualista, existe, de um lado, o "messias" (ou seja, o salvador da pátria infalível) e do outro, "a peste" (ou seja, processos, eventos, organismos e indivíduos que precisam ser combatidos, aniquilados, sem pestanejar ou parar para pensar). Dentro dessa lógica, não cabem a complexidade e as contradições inerentes ao real, tudo é preto no branco, não há espaço para a reflexão, os intelectuais são supérfluos, não têm lugar. E, mais grave: para os milhares de anti-intelectualistas que estão emergindo, os intelectuais, mesmo tão metidos a inteligentes, não sabem lidar com "a peste" (alguns, até, estão contaminados por ela...),

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Outro dia, num dos bares que frequento aqui em Belo Horizonte, ouvi invectivas a Paulo Freire na mesa ao lado. Serei franco com o(a) eventual leitor(a): pessoalmente, me desagrada uma certa hagiolatria que costuma cercar o educador recifense, expressa por alguns de seus estudiosos. Nem por isso contesto a grande relevância de sua obra para a pedagogia e para a filosofia.

Da mesa vinham frases como "Paulo Freire é que trouxe esse comunismo todo pra dentro das escolas"; "Tem muita escola aí que é pura doutrinação esquerdista. Culpa desse Paulo Freire". Não me dei ao trabalho de apurar quem eram (além do mais, seria bem grosseiro da minha parte me intrometer na conversa de estranhos). Sou capaz de apostar, porém, que não eram professores (se fossem, saberiam que dentro de uma escola há tantos embaraços e reveses mais urgentes para serem resolvidos que ninguém tem tempo para uma suposta doutrinação esquerdista). Também apostaria que jamais leram uma página sequer dos livros de Freire.

Falando nisso, nesse mesmo bar, algumas semanas depois, escutei declaração semelhante de um conhecido meu, curiosamente, filho de um professora (aposentada) de escola pública. Quando perguntei se já lera algo de Paulo Freire, a resposta oblíqua me fez ver que ele (tal como as pessoas do outro dia) apenas reproduzia a catilinária rasteira, baseada em memes de mídias sociais e posts de veracidade duvidosa do WhatsApp, empregada nas disputas ideológicas desse nosso mundinho digital contemporâneo.

Eu ainda bebo habitualmente nesse e em outros dois bares próximos ao lugar onde moro. A ar está pesado em todos eles, pelo menos para mim. Botequins, claro, nunca foram espaços de conferências acadêmicas. Mas já foram pelo menos mais acolhedores a quem, num bate-papo acompanhado de umas geladas, se dispunha a apresentar fatos, corrigir informações falsas. Também não havia tantos esgares e olhares de fastio ou raiva mal disfarçada quando se tentava levar a conversa para temas menos ordinários.

O que tenho escutado nos últimos meses é um vozerio de indivíduos sem qualquer disposição para ouvir o outro, a dizer (e, as vezes, berrar) que "o coro vai comer", "esse povo vai entrar na linha", repetindo bordões cujo teor é marcado por uma completa ausência de empatia, por uma falta de preocupação social e senso de coletividade, revelando uma incultura que não conhece limites, a exigir, entretanto, que lhes prestemos continência.

O escritor Isaac Asimov disse certa vez: "Anti-intellectualism has been a constant thread winding his way through our political and cultural life, nurtured by the false notion that democracy means that 'my ignorance is just as good as your knowledge' " ["o anti-intelectualismo tem sido uma corrente constante insinuando-se através de nossa vida política e cultural, alimentado pela falsa noção de que democracia significa que 'minha ignorância é simplesmente tão boa quanto o seu conhecimento' "].

Infelizmente, temo não se tratar mais de algo que se insinua, que se infiltra paulatinamente. Acho que os ignorantes assumiram o controle de vez.

E todos iremos perder.

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Antes de encerrar, gostaria de fazer notar ao(à) eventual leitor(a) que a candidatura Bolsonaro, pelo que representa de obscurantismo e de ameaça ao regime democrático e à liberdade (inclusive a de expressão), tem sido repelida por muitos intelectuais e pessoas ligadas ao objeto que melhor os representa - o livro.

Pode-se verificar o veto ao candidato do PSL na declaração dos escritores que representaram o Brasil na Feira de Frankfurt desse ano; no posicionamento de Luiz Schwarcz, presidente da Companhia das Letras, uma das mais prestigiadas e importantes empresas livreiras do país; e no Manifesto do Livro, assinado por diversos escritores e escritoras, editores e editoras.

[Update: 20/10/18]: Esqueci de citar aqui o sensacional texto-desabafo (Isto não é um poema) do cantor, compositor e poeta Arnaldo Antunes, também contrário à candidatura mencionada acima. Faço-o agora.


¹ ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre as ciências e as artes. 2 ed. São Paulo: Abril Cultural, 1978. p. 321-352. (Coleção Os pensadores) [Tradução de Lourdes Santos Machado]

² Na Advertência incluída numa das edições do texto, o escritor registrou: "Que será a celebridade? Eis a obra infeliz a que devo a minha. É certo que essa peça, que me valeu um prêmio e me deu nome, será, no máximo, medíocre e, ouso acrescentar, uma das menores deste repositório. Que abismo de misérias não teria evitado o autor, se esta primeira obra tivesse sido recebida como o merecia! Mas era preciso que um favor inicial injusto me trouxesse, aos poucos, uma severidade que ainda é mais injusta".

BG de Hoje

The same boy you've always known é uma canção para a qual não dei muita bola há alguns anos, quando adquiri White Blood Cells, dos WHITE STRIPES. Aos poucos, entretanto - e era inevitável -, acabei chegando a conclusão de que é uma das mais bonitas daquele álbum (senão uma das melhores em toda a carreira da dupla de Detroit). NOTA: Prefiro a versão em estúdio (sempre prefiro as versões em estúdio), mas achei que a apresentação abaixo ganhou um tom que não sei definir (bem-vindo, todavia), ausente na gravação incluída no disco lançado em 2001.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

A "hora milagrosa" nunca chegará


Já ouviu falar do Forte Bastiani?

Trata-se de uma "grande fortaleza, exemplo típico de engenharia militar, que guarda a única passagem entre o deserto dos tártaros e as encostas meridionais da cadeia de montanhas escarpada e ininterrupta que marca a fronteira entre os estados do Norte e os do Sul de um país sem nome", de acordo com o Dicionário de lugares imaginários, de Alberto Manguel e Gianni Guadalupi (Editora Companhia das Letras, 2003)

O Forte Bastiani, entretanto, tem um alcance simbólico bem maior - pelo menos na visão deste blogueiro e de outros milhares de leitores devotos deste livro sublime chamado O deserto dos tártaros (sobre o qual, aliás, já escrevi, de forma breve, anteriormente aqui no blog).

Já que mencionei Alberto Manguel poucas linhas acima, devo dizer que o ensaísta argentino-canadense é um desses leitores devotos do romance de Dino Buzzati, publicado pela primeira vez em 1940.

O forte, escreveu Manguel em Os livros e os dias ¹,  é "um lugar que parece impossível de deixar, mas também impossível de alcançar, tão ancorado em sua própria rotina que nada que venha do exterior pode atingi-lo".

Rotina... Até certa idade, pouca ou nenhuma atenção damos a essa palavra; não refletimos sobre o real significado dela, suas implicações. Como disse, só até certa idade. À medida que se envelhece, a maior parte de nós - cuja vida se resume a subsistir dentro das condições que nos são apresentadas e nada além disso - passa a compreender que uma porcentagem grande de nosso "ser no mundo" não passa de um amontoado de hábitos. Há um capítulo magistral em O deserto dos tártaros (o décimo), em que o narrador vai enumerando as "míseras coisas" que foram suficientes para amoldar o protagonista, tenente Giovanni Drogo, "ao monótono ritmo do serviço" ². Buzzati, habilidosamente, repete a palavra habito(s) entre as primeiras frases de seis parágrafos seguidos no capítulo X, levando o leitor a captar o "torpor" no qual se encontrava Drogo, já impregnado com "o amor doméstico pelos muros cotidianos", em apenas quatro meses de trabalho no forte. O militar, sonhando com atos guerreiros e heroicos, reduz-se a um burocrata.

Se o(a) eventual leitor(a) me permitir, desejo fazer uma digressão.

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Escrito na forma de diário, Os livros e os dias revela um pouco do que sentia seu autor no momento do registro, além de mostrar que nossas leituras são sempre influenciadas pelo contexto circundante, pelo momento histórico em que se está vivendo. Por exemplo, na parte referente a O deserto dos tártaros, Alberto Maguel encontrava-se em St. John's, cidade da ilha de Newfoundland (Canadá), entre o finalzinho de 2002 e as primeiras semanas de fevereiro de 2003. O mundo estava apreensivo com a possibilidade da invasão do Iraque por tropas norte-americanas e britânicas - o que acabou acontecendo daí a um mês. Por isso, o ensaísta anota: "A guerra iminente não tem nada de heroico; sabemos que os motivos que conduzem as forças anglo-americanas são menos humanitários que financeiros", acrescentando logo em seguida:

"Na história de Buzzati, por outro lado, o trágico sentimento de absurdo que subjuga o leitor brota em grande parte da completa futilidade da empresa heroica, Nenhuma razão humanitária ou financeira pode ser invocada. A fronteira não apresenta nenhum problema, o deserto dos tártaros não viu nenhum tártaro até onde a memória alcança, os heróis nunca têm a chance de ser heroicos".

E então Manguel cita um trecho do segundo capítulo, quando Drogo, encaminhando-se, muito jovem ainda, para servir no forte Bastiani pela primeira vez, conversa com o capitão Ortiz, a quem encontrara por acaso na estrada:

"- Então o forte nunca serviu para nada? 
- Para nada - disse o capitão".

Eu também, nessa minha última leitura de O deserto dos tártaros, acabei influenciado pela conjuntura a qual estou sujeito.

No Brasil (e acredito que em vários outros países), membros das forças armadas, embora sejam agentes do Estado, não são enquadrados na categoria de servidores públicos, até onde sei, mesmo que tanto os vencimentos destes quanto os daqueles sejam pagos pelo erário. Uma discrepância que acarreta problemas, como estamos carecas de saber... Das funções atribuídas às forças armadas, a mais notória é defender a pátria, comumente interpretado como proteger a nação de investidas provenientes de inimigos/agressores externos. Entretanto, quando não há necessidade dessa defesa, quando não se vê os invasores no horizonte,  quando os tártaros não vêm, o que esperar dos militares? Como devem se comportar?

A associação entre herói e soldado é, a meu ver, bastante discutível. Digo isso não só pelos vários crimes de guerra cometidos ao longo da história, mas porque a própria ideia de guerra em si não me predispõe a vinculá-la, automaticamente, ao heroísmo ³. De todo modo, soldados existem para guerrear. Mas vejamos a situação nas dezenas de nações pelo mundo afora que - felizmente, aliás - não têm invasores (refiro-me a outros exércitos) para combater. O Brasil, por exemplo. Seus militares, sobretudo oficiais, não acabam se convertendo em meros burocratas, aferrolhados a regulamentos, códigos e regras incompreensíveis para os "paisanos", tal como os personagens dentro do forte Bastiani? Há uma passagem no capítulo XIV de O desertos dos tártaros que vai bem ao encontro do que estou querendo dizer.

O comandante do forte, coronel Filimore, acaba de saber que a movimentação ocorrida no outro lado da fronteira é apenas um trabalho topográfico da parte do reino do Norte e não uma ameaça como chegaram a crer alguns de seus subordinados (e ele mesmo quase foi tomado pela esperança de entrar em combate, agir como guerreiro e tornar-se "herói"). Leiamos o último parágrafo do capítulo XIV:

"A mosca esvoaçava pela sala, a bandeira em cima do telhado do forte se afrouxara, o coronel falava em disciplina e regulamentos, na planície do norte avançavam fileiras de soldados, não mais inimigos ávidos de batalha, mas soldados inócuos como eles, não impelidos ao extermínio, porém enviados numa operação cadastral, e seus fuzis estavam descarregados, as adagas, sem fio. Pela planície do norte abaixo alastra-se aquele inofensivo simulacro de exército, e no forte tudo se estagna de novo no ritmo dos dias de sempre".

Penso que muitos militares (e aqui tenho em mente sobretudo o caso brasileiro) nunca encontraram (e nunca encontrarão) "inimigos ávidos de batalha". São "soldados inócuos". Por isso - e este é o grande perigo - podem acabar inventando adversários dentro do próprio país. E já que, na visão deles, trata-se de oponentes propensos à beligerância, precisam ser exterminados, pois é o que as forças armadas fazem: entram em guerra com o inimigo, buscando aniquilá-lo. Já foi assim durante a ditadura militar iniciada com o golpe de 1964. E nada garante que, a depender do resultado das eleições neste domingo (e seus desdobramentos), não volte a ser. Quem serão agora os indivíduos e grupos tachados como inimigos? Membros da sociedade civil - cidadãos e cidadãs cujas visões de mundo e ideário sejam distintos do que apregoa o mandatário de plantão - correm risco? Confesso que tenho muito receio e não estou tranquilo.

Voltemos, porém, à discussão do romance de Dino Buzzati.

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Há um personagem secundário em O deserto dos tártaros que nunca me sai da cabeça, malgrado sua insignificância. Falo do alfaiate Prosdocimo.

Ele é cheio de si, dá-se muita importância, mas vive nos porões do forte, esquecido. Afirma estar lá apenas em "caráter ab-so-lu-ta-men-te pro-vi-só-rio". E já faz 15 anos...

Prosdocimo representa, penso eu, a tendência negativa que muitos têm para se acomodar (sendo este blogueiro um desses muitos). O personagem aparece pela primeira vez no capítulo VII. Trabalha numa oficina, acompanhado de um velhinho (seu irmão) e mais três ajudantes (que riem dele disfarçadamente). Giovanni Drogo procura-o para encomendar uma capa. Ambos iniciam uma conversa, mas logo o alfaiate do regimento é chamado e sai. Nesse momento, o velhinho se aproxima de Drogo e faz um alerta: não fique no forte, saia enquanto é tempo, não faça como os outros, a esperar um evento que nunca acontece.

É quando o (então) jovem protagonista começa a dar-se conta de uma das maiores ilusões a vigorar no forte Bastiani: a esperança de cumprir um destino heroico.

Reproduzo a seguir os cinco últimos parágrafos do capítulo VII. Peço paciência ao(à) eventual leitor(a) - valerá a pena; a prosa de Dino Buzzati é muito bonita:

"Agora Drogo finalmente entendia. Fitava as sombras múltiplas dos uniformes pendurados, que tremulavam conforme oscilavam as luzes, e pensou que naquele exato momento o coronel, no recôndito de seu gabinete, abrira a janela para o norte. Estava certo: numa hora tão triste como aquela, pela escuridão e pelo outono, o comandante do forte olhava para o setentrião, para as voragens do vale. 
Do deserto do norte devia chegar a sorte, a aventura, a hora milagrosa, que, pelo menos uma vez, cabe a cada um. Para essa vaga eventualidade, que parecia tornar-se cada vez mais incerta com o tempo, os homens consumiam ali a melhor parte das suas vidas. 
Não haviam se adaptado à existência comum, as alegrias das pessoas comuns, ao destino medíocre; lado a lado, viviam com a mesma esperança, sem nunca mencioná-la, porque não se davam conta ou simplesmente porque eram soldados, com o pudor ciumento do próprio íntimo. 
Até Tronk, talvez. Tronk [o sargento-mor] seguia os itens do regulamento, a disciplina matemática, o orgulho da responsabilidade escrupulosa, e se iludia imaginando que aquilo lhe bastava. Mas se lhe tivessem dito: será sempre assim enquanto viver, tudo igual até o fim, também ele teria acordado. Impossível, teria dito. Alguma coisa diferente ainda deverá acontecer, alguma coisa de realmente digno, de que se possa dizer: agora, mesmo que tenha acabado, paciência. 
Drogo compreendera o fácil segredo deles, e com alívio pensou estar fora disso, espectador não contaminado. Dentro de quatro meses, graças a Deus, ele os deixaria para sempre. Os obscuros fascínios da velha construção tinham-se dissolvido, ridículos. Assim pensava. Mas por que o velhinho continuava a fitá-lo com aquela expressão ambígua? Por que Drogo sentia o desejo de assobiar um pouco, de tomar vinho, de sair ao ar livre? Quem sabe para demonstrar a si mesmo que estava realmente livre e tranquilo?"

Essa "hora  milagrosa, que, pelo menos uma vez, cabe a cada um" é raríssima, quase nunca surge. Mas a maioria de nós - pelo menos quando somos jovens - não consegue abandonar a crença de que algo grande nos aguarda, ainda que sejamos constituídos de pura mediocridade.

A esperança na "hora milagrosa" perdura, contudo. Segue-se com ela durante anos Até que, tardiamente, constata-se a fuga do tempo. E nada aconteceu. Os tártaros não vieram. Não se fez outra coisa além de aguardar. O que se ganhou com a espera?

O deserto dos tártaros pertence à categoria das narrativas que se escolhe ler pela vida inteira. Tenho certeza de que voltarei constantemente a esse livro. Saiba desde já o(a) eventual leitor(a) que tenho ainda muito a dizer sobre ele. Não faltará ocasião, espero.

Na próxima postagem, pretendo discutir o fenômeno do anti-intelectualismo, partindo, desabusadamente, do pensamento de Jean-Jacques Rousseau.


¹ MANGUEL, Alberto. Os livros e os dias: um ano de leituras prazerosas. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. [Tradução de José Geraldo Couto]

² BUZZATI, Dino. O deserto dos tártaros. 6 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2017 [Tradução de Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas]

³ Não estou alegando que não possa haver qualquer traço de heroísmo durante conflitos armados; a própria resistência ao fascismo e ao nazismo durante a 2ª Guerra Mundial é algo imensamente valoroso. O que estou dizendo é que a associação entre a figura do soldado e a figura do herói não é nem dada de antemão, nem imediata e muito menos óbvia per se.

BG de Hoje

Não sei por que até hoje nunca falei desta canção aqui no blog. Rocket Man foi lançada em 1972 (tem, portanto, a minha idade). Muitos críticos de música pop consideram-na uma das melhores composições de todos os tempos (eu concordo com essa avaliação). Na época do lançamento, ELTON JOHN contava com uma banda excelente. É a mesma que fez a gravação em estúdio, até onde sei, participando ativamente da elaboração dos arranjos (destaco o violão, o coro durante o refrão, a bateria suave - mas que se faz notar - e, claro, o piano do cantor-compositor britânico). Rocket Man também me fascina pela letra - triste e irônica ao mesmo tempo - falando de um sujeito que trabalha no espaço sideral (e que tipo de serviço poderia ser mais emocionante?), mas cumpre sua tarefa rotineiramente, sem qualquer sentimento especial, a não ser a saudade da esposa. Bernie Taupin, parceiro antigo de John, disse certa vez que, ao escrever a letra, foi inspirado, entre outras fontes, por um conto de Ray Bradbury, o autor de ficção científica mais poético que conheço. Abaixo, um vídeo lindo, dirigido por um cineasta iraniano (Majid Adin) e por um animador irlandês (Stephen McNaily), no qual a canção serve de trilha sonora para narrar o drama de um refugiado. Incluí também no BG uma versão feita pela desconhecida cantora Carol Kay, encontrada por acaso no Youtube, só voz e teclado, mas que achei muito bonita.

domingo, 23 de setembro de 2018

#DemocraciaSim #EleNão


Deixarei o texto sobre O deserto dos tártaros para mais adiante.

Quero, melhor dizendo, preciso abordar outro assunto.

Passei a última semana pensando muito na degradação pela qual passa a política brasileira. E confesso, tenho medo.

Um candidato completamente despreparado, racista, misógino, homofóbico, que faz apologia da violência e da tortura e apesar (ou justamente por causa) disso tudo passou a interessar a plutocracia nacional, ESSE indivíduo lidera as pesquisas de intenção de voto em 2018! Pode ganhar a próxima eleição presidencial! É assustador (mas não chega a ser surpreendente) saber que uma parcela enorme de brasileiros aderiu a essa calamidade. E, entre estes, estão indivíduos que, aproveitando o desencanto e a aflição experimentados pela população (e não tenho dúvida de que o farão de forma ostensiva caso seu candidato chegue ao poder), propagam e colocam em prática ideias e ações que devem ser chamadas pelo seu verdadeiro nome: nazi-fascistas.

Acabei de ler um manifesto com o qual tenho forte concordância. Por isso divulgarei o seu conteúdo na integra e o nome de seus principais signatários até agora. Este blogueiro também assinou-o e convida o(a) eventual leitor(a) a fazer o mesmo. Convém esclarecer que o manifesto apenas alerta para o risco da candidatura nazi-fascista, não sugerindo o nome de nenhum(a) outro(a) candidato(a) especificamente. Entre os signatários, o(a) eventual leitor(a) vai encontrar pessoas que estiveram em lados opostos na eleição de 2014. Gostaria de destacar dois nomes, por razões diferentes: Lilia Moritz Schwarcz, de quem falei nas duas últimas postagens aqui no blog, coerentemente com sua trajetória acadêmica e intelectual, assina o manifesto, o que muito me alegra; Miguel Reale Jr., um dos autores do pedido de impeachment da ex-presidenta Dima Rousseff (mesmo que ela não tenha cometido nenhum crime de responsabilidade!), parte do golpe que contribuiu enormemente para o atual miserável estado de coisas, também é um dos signatários, demonstrando o suprapartidarismo da iniciativa.

Ao texto, pois:

Pela Democracia, pelo Brasil


Somos diferentes. Temos trajetórias pessoais e públicas variadas. Votamos em pessoas e partidos diversos. Defendemos causas, ideias e projetos distintos para nosso país, muitas vezes antagônicos.

Mas temos em comum o compromisso com a democracia. Com a liberdade, a convivência plural e o respeito mútuo. E acreditamos no Brasil. Um Brasil formado por todos os seus cidadãos, ético, pacífico, dinâmico, livre de intolerância, preconceito e discriminação.

Como todos os brasileiros e brasileiras sabemos da profundidade dos desafios que nos convocam nesse momento. Mais além deles, do imperativo de superar o colapso do nosso sistema político, que está na raiz das crises múltiplas que vivemos nos últimos anos e que nos trazem ao presente de frustração e descrença.

Mas sabemos também dos perigos de pretender responder a isso com concessões ao autoritarismo, à erosão das instituições democráticas ou à desconstrução da nossa herança humanista primordial.

Podemos divergir intensamente sobre os rumos das políticas econômicas, sociais ou ambientais, a qualidade deste ou daquele ator político, o acerto do nosso sistema legal nos mais variados temas e dos processos e decisões judiciais para sua aplicação. Nisso, estamos no terreno da democracia, da disputa legítima de ideias e projetos no debate público.

Quando, no entanto, nos deparamos com projetos que negam a existência de um passado autoritário no Brasil, flertam explicitamente com conceitos como a produção de nova Constituição sem delegação popular, a manipulação do número de juízes nas cortes superiores ou recurso a autogolpes presidenciais, acumulam declarações francamente xenofóbicas e discriminatórias contra setores diversos da sociedade, refutam textualmente o princípio da proteção de minorias contra o arbítrio e lamentam o fato das forças do Estado terem historicamente matado menos dissidentes do que deveriam, temos a consciência inequívoca de estarmos lidando com algo maior, e anterior a todo dissenso democrático.

Conhecemos amplamente os resultados de processos históricos assim. Tivemos em Jânio e Collor outros pretensos heróis da pátria, aventureiros eleitos como supostos redentores da ética e da limpeza política, para nos levar ao desastre. Conhecemos 20 anos de sombras sob a ditadura, iniciados com o respaldo de não poucos atores na sociedade. Testemunhamos os ecos de experiências autoritárias pelo mundo, deflagradas pela expectativa de responder a crises ou superar impasses políticos, afundando seus países no isolamento, na violência e na ruína econômica. Nunca é demais lembrar, líderes fascistas, nazistas e diversos outros regimes autocráticos na história e no presente foram originalmente eleitos, com a promessa de resgatar a autoestima e a credibilidade de suas nações, antes de subordiná-las aos mais variados desmandos autoritários.

Em momento de crise, é preciso ter a clareza máxima da responsabilidade histórica das escolhas que fazemos.

Esta clareza nos move a esta manifestação conjunta, nesse momento do país. Para além de todas as diferenças, estivemos juntos na construção democrática no Brasil. E é preciso saber defendê-la assim agora.

É preciso dizer, mais que uma escolha política, a candidatura de Jair Bolsonaro representa uma ameaça franca ao nosso patrimônio civilizatório primordial. É preciso recusar sua normalização, e somar forças na defesa da liberdade, da tolerância e do destino coletivo entre nós.

Prezamos a democracia. A democracia que provê abertura, inclusão e prosperidade aos povos que a cultivam com solidez no mundo. Que nos trouxe nos últimos 30 anos a estabilidade econômica, o início da superação de desigualdades históricas e a expansão sem precedentes da cidadania entre nós. Não são, certamente, poucos os desafios para avançar por dentro dela, mas sabemos ser sempre o único e mais promissor caminho, sem ovos de serpente ou ilusões armadas.

Por isso, estamos preparados para estar juntos na sua defesa em qualquer situação, e nos reunimos aqui no chamado para que novas vozes possam convergir nisso. E para que possamos, na soma da nossa pluralidade e diversidade, refazer as bases da política e cidadania compartilhadas e retomar o curso da sociedade vibrante, plena e exitosa que precisamos e podemos ser.


Assinam este manifesto

Adriana Lisboa
Alê Youssef
Alessandra Negrini
Alessandra Orofino
Alexandre Brasil Fonseca
Alexandre Nero
Alexandre Schneider
Alice Braga
Amon Barros
Ana Carolina Evangelista
Ana Helena Altenfelder
Ana Moser
Ana Toni
André Corradi Moreira Luthier
Andre Degenszajn
André Fischer
André Pereira de Carvalho
Andre Perosa
André Vallias
Andrea Alvarez
Andrea Barata Ribeiro
Andrea Calabi
Andrea Magri
Andreia Horta
Anete Abramowicz
Anna Penido
Antonia Pelegrino
Antonio Grassi
Antônio Nóbrega
Antônio Prata
Ariovaldo Ramos
Arnaldo Antunes
Aron Zylberman
Ary Oswaldo Mattos Filho
Astrid Fontenelle de Brito
Aurea Vieira
Bárbara Musumeci Mourão
Beatriz Bracher
Bel Coelho
Bel Melo
Bela Gil
Belisario dos Santos Junior
Bernard Appy
Beto Vasconcelos
Beto Verissimo
Bia Barbosa
Binho Marques
Braulio Mantovani
Bruno Carazza dos Santos
Bruno Torturra
Cadão Volpato
Caetano Veloso
Caio Magri
Camila Pitanga
Carlos Mello
Carlos Nobre
Carlos Pitchu
Carolina Bueno
Carolina Kotscho
Cazé Pecini
Celia Cruz
Celso Athayde
Celso Lafer
Cesar Callegari
Chico Buarque
Cicero Araujo
Ciro Biderman
Claudia Abreu
Claudia Costin
Cláudio Couto
Clemente Ganz Lucio
Clemir Fernandes
Cléo Regina Todaro Santos de Miranda
Daniel Augusto
Daniel Cerqueira
Daniel De Bonis
Daniel Ganjaman
Daniela Bianchi
Daniela Di Bonito Mônaco de Moraes
Daniela Frozi
Daniela Gleiser
Danilo Miranda
Danilo Santos de Miranda
Dario Guarita Neto
Dario Menezes
Débora Lamm
Denis Mizne
Dira Paes
Doriam Borges
Drauzio Varella
Edson Fernando de Almeida
Eduardo Calil Ohana
Eduardo Marques
Eliane Dias
Eliane Giardini
Elisandro Lotin de Souza
Enrique Diaz
Estevão Ciavatta
Esther Solano
Eugenia Moreyra
Eugenio Bucci
Fabiana Luci de Oliveira
Fabiana Pereira
Fabio Feldman
Felipe Roseno
Fernand Alphen
Fernanda Abreu
Fernanda Thompson
Fernanda Torres
Fernando Abrucio
Fernando Burgos
Fernando Grostein Andrade
Fernando Meirelles
Fernando Morais
Flávia Gusmão Eid
Flávia Lacerda
Flávio Conrado
Flavio Tavares de Lyra
Floriano de Azevedo Marques Neto
Francisco Sandro Rodrigues Holanda
Franklin Feder
Gabriel Feltran
Galeno Amorim
George Avelino Filho
Gerorgiana Goes
Gilberto Dimenstein
Gisele Froes
Glória Kalil
Gregorio Duvivier
Gui Amabis
Guilherme Casarões
Guilherme Leal
Guilherme Werneck
Haroldo Torres
Heitor Dhalia
Helder Vasconcelos
Helio Santos
Helivete Ribeiro
Heloisa Buarque de Holanda
Heloísa Perisse
Henri Philippe Reichstul
Henrique Silveira
Hugo Possolo
Humberto Dantas
Ilona Szábo
Ilza Jorge
Inês Lafer
Ivam Cabral
Ivanir dos Santos
Jailson Silva
Joana Jabace
João Biehl
Joaquim Falcao
Joel Zeferino
Jorge Abrahao
Jorge Hage
Jorge Romano
Jorge Schwartz
José Marcelo Zacchi
Juana Kweitel
Juca Kfouri
Julia Michaels
Juliana Braga de Mattos
Juliana Sakai
Jurandir Freire Costa
Jussara Silveira
Karina Buhr
Karine Carvalho
Katia Maia
Laerte
Lauro Gonzales
Leandra Leal
Leonardo Letelier
Leticia Colin
Lilia Schwarcz
Luana Lobo
Luciana Guimarães
Lucio Maia
Luedji Luna
Luis Bolognesi
Luiz Armando Badin
Luiz Camillo Osorio
Luiz Eduardo Soares
Luiz Felipe de Alencastro
Luiz Nascimento
Luiz Ruffato
Luiza Lima
Lusmarina Campos Garcia
Malak Poppovic
Mano Brown
Manoela Miklos
Marcelo Behar
Marcelo Burgos Santos
Marcelo Furtado
Marcelo Issa
Marcelo Masagão
Marcelo Rubens Paiva
Marcia Pereira das Neves
Márcio Tavares Amaral
Marco Antônio Carvalho Teixeira
Marcos Cavalcanti
Marcos Fernandes
Marcos Flaksman
Marcos Fuchs
Marcos Joaquim Alves
Marcos Rolin
Marcus Vinícius Faustini
Maria Alice Setubal
Maria Arminda do Nascimento Arruda
Maria da Glória Bonelli
Maria de Medicis
Maria Filomena Gregori
Maria Gadu
Maria Ignez Barbosa
Maria Martha Cassiolato
Maria Stella Gregori
Maria Victoria Benevides
Mariana Lacorte Camponez do Brasil
Mariana Pamplona
Marília Librandi
Marina Dias Werneck
Marina Person
Mário Aquino Alves
Mário Monzoni
Marisa Moreira Salles
Mariza Abreu
Marta de Senna
Mary Camargo Neves Lafer
Mel Lisboa
Melina Risso
Michael Haradon
Miguel Lago
Miguel Reale Jr.
Milton Hatoum
Miriam Krenzinger
Monica Almeida
Monica Franco
Monique evelle
Myrian Porto
Naercio Menezes Filho
Natacha Costa
Numa Ciro
Oded Grajew
Oscar Vilhena
Otávio Dias
Pablo Nunes
Pally Siqueira
Paloma Duarte
Patrícia Pilar
Paula Lavigne
Paulinho Moska
Paulo André
Paulo Barreto
Paulo Borges
Paulo Furquim
Paulo Miklos
Pedro Abramovay
Pedro Meira Monteiro
Pedro Mendes da Rocha
Pedro Paulo Poppovic
Pedro Strozenberg
Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva
Philip Yang
Pierpaolo Bottini
Pilar Lacerda
Priscila Cruz
Rafael Alcadipani
Rafael Parente
Raul Santiago
Regina Braga
Renata Motta
Renato Janine Ribeiro
Renato Sergio de Lima
Rica Amabis
Ricardo Abramovay
Ricardo Borges Martins
Ricardo Chaves
Ricardo Henriques
Ricardo Lisias
Ricardo Sennes
Ricardo Teperman
Ricardo Young
Roberta Maiorana
Roberta Martinelli
Roberto Andres
Roberto Amorim
Roberto Waack
Rodrigo Martins Constante
Ronaldo Lemos
Rubens Barbosa
Rubens Naves
Rudi Rocha
Ruth Goldberg
Samira Bueno
Sarah Oliveira
Sergio Abranches
Sergio Leitão
Sergio Miletto
Silvia Noronha dos Santos
Silvia Ramos
Silvia Taques Bittencourt
Silvio Eid
Sueli Carneiro
Tadeu Jungle
Tadeu Valadares
Tainá Müller
Talita Todaro Santos de Miranda
Tasso Azevedo
Tati Bernardi
Theo Dias
Thiago Amparo
Thiago Lacerda
To Brandileone
Tulipa Ruiz
Valeria Macedo
Valerie Tomsic
Valmir Ortega
Valter Roberto Silverio
Valter Silvério
Vanessa Elias de Oliveira
Vera Iaconelli
Vítor Marchetti
Vítor Oliveira
Wagner Moura
Walter Casagrande Jr
Walter Salles
Washington Olivetto
Wilson Simoninha
Xis
Xixo Mauricio Piragino
Zeca Camargo
Zuza Homem de Mello


Você pode assinar o manifesto aqui.


domingo, 16 de setembro de 2018

O deslocamento de Lima Barreto (II)


"Além do mais, Lima foi daquelas testemunhas que suportam a solidão de uma responsabilidade e, ao mesmo tempo, assumem a responsabilidade de estar num lugar, no seu caso, muitas vezes repleto de solidão".


Lilia Moritz Schwarcz, partindo de uma noção de Hannah Arendt - Lima Barreto: triste visionário

Grande parte dos manuais e livros didáticos de Literatura classifica Lima Barreto como escritor pré-modernista (bem, falo dos manuais e livros didáticos do meu tempo de aluno do 2º Grau; pode ser diferente hoje em dia, no Ensino Médio). É assim, por exemplo, no título que tenho em mãos neste momento: Língua & Literatura, de Maria da Conceição Castro (volume 3, editora Saraiva), cuja primeira edição é de 1993. Curioso ver que a autora afirma ter sido Lima Barreto "valorizado pelos modernistas da Semana de 22 pela sua capacidade de introduzir na obra literária fatos, situações e linguagem do cotidiano". Há controvérsias, como se verá adiante.

Antes, vale refletir um pouco se o termo Pré-Modernismo é apropriado como designação de um período literário específico.

O prefixo pré-, junto com a acepção de anterioridade, carrega muitas vezes o sentido de "preparatório para algo que virá" - é o caso, por exemplo, em palavras como pré-universitário. O que um curso pré-universitário tenciona é aprontar seus frequentadores para que, futuramente, sejam admitidos ou sintam-se melhor aclimatados numa universidade. 

Pré- também costuma denotar uma espécie de quase. Quando se usava dizer pré-escola, queria-se designar um estabelecimento que é quase uma escola, mas ainda não é. Nesse sentido, a pré-escola seria considerada menos importante do que a escola propriamente dita, pois a primeira só existiria em função da segunda¹.

Creio que essas acepções do prefixo nos ajudam a entender por que o termo Pré-Modernismo é uma classificação ruim.

Em primeiro lugar, pode nos induzir a considerar o Modernismo como um estágio evolutivo "natural" e superior da produção literária nacional, um ideal estético que se desejava atingir previamente. Aqueles que escreviam antes do advento da Semana de Arte Moderna de 1922 estariam apenas "preparando o terreno" para os que viriam depois - estes, sim, autores inovadores e de talento... Em segundo, denominar um período como pré-modernista acaba, inadvertidamente, esvaziando de importância esse mesmo período, visto somente como um quase (já que a "meta ideal" não teria sido ainda alcançada).

Dito isso, quero deixar registrado que não me oponho às tradicionais classificações de períodos literários para fins didáticos. São válidas e úteis em muitas ocasiões. Mas não nessa.

Voltemos, contudo, ao primeiro parágrafo da postagem de hoje. Teria sido Lima Barreto realmente valorizado pela turma que organizou a Semana de 22?

Em Lima Barreto: triste visionário², biografia sobre a qual comecei a escrever na postagem anterior, Lilia Moritz Schwarcz observa que, embora "a nova agenda modernista [tivesse] pontos em comum com aquela de Lima", um episódio "marcaria a sorte" deste com o grupo paulista liderado por Mario e Oswald de Andrade.

Sérgio Buarque de Holanda, colaborador da revista Klaxon, um dos veículos de divulgação dos modernistas de São Paulo, entregou um exemplar da publicação para o escritor carioca. Era comum Lima Barreto tratar de novos autores nas muitas crônicas que produzia para a imprensa do Rio de Janeiro. No caso da Klaxon, nota Schwarcz, ele "reagiu de pronto, revelando seu célebre escárnio. Avaliou que a publicação devia muito ao futurismo italiano e, quem sabe, implicou com 'os rapazes', a quem provavelmente julgou burgueses e muito paulistas".

Ela acrescenta:

"História de 'se' não existe. Ou seja, se Lima tivesse juntado dois mais dois; se tivesse sido capaz de superar sua primeira opinião sobre a capa modernista da publicação dos paulistas; se tivesse conseguido reconhecer nas novas gerações anseios semelhantes, ou ao menos afinados, aos que ele descrevera em seu 'manifesto' de 1921 - intitulado 'O destino da literatura' -, talvez a história fosse outra. Mas não houve tempo, e o que ocorreu lembrou o estrondo e as consequências de uma trombada. 
Lima achou que os 'moços de São Paulo' tinham jeito de bovaristas [nesse contexto, encantados com o que vem do exterior, em detrimento do que se faz no próprio país] e que andavam animados demais com as ideias de Marinetti [o "pai" do Futurismo]. Já eles, na resposta divulgada no número seguinte da publicação, fizeram pouco-caso das avaliações do 'herbolário carioca'. Pensaram que só podia ser coisa de gente da capital [até 1960, o Rio de Janeiro foi o distrito federal]. Se 1922 deu a impressão de que iria se abrir como um ano de encontro, foi ano de fim".

De fato, não houve tempo para desfazer mal-entendidos e aparar arestas. Lima Barreto morreu justamente em 1922 (com apenas 41 anos) e não pôde ler, por exemplo, o Macunaíma, de Mario de Andrade (lançado em 1928), livro em que, acredito, ele identificaria um parentesco com sua concepção de fazer literário. Além do mais, a rusga surgida após o escarnecimento da Klaxon indispôs os modernistas de 22 para com uma obra em muitos aspectos próxima das intenções "anti-academicistas" defendidas pelo grupo de São Paulo.

O que foi dito até agora só reforça o deslocamento de Lima Barreto sobre o qual estamos falando desde a última postagem. Esse deslocamento ocorria tanto no plano pessoal (como espero ter demonstrado no texto anterior), quanto na sua dimensão pública de escritor e intelectual. O autor de Recordações do escrivão Isaías Caminha, mesmo depois de morto, também demorou a encontrar um lugar dentro da crítica e da história literária, em parte por causa do desentendimento mútuo entre ele e os modernistas de 22. A esse respeito, Lilia Schwarcz escreve:

"Lima também passava a ser assumido pela crítica como um autor 'entre': entre gerações, entre gêneros, entre grupos [...]. Se não se adequava aos padrões das gerações que imediatamente lhe antecederam, nem aos daquelas com as quais convivia , tampouco parecia coadunar-se com o estilo das novas vogas literárias, que faziam barulho entre os jovens paulistanos. O autor de Policarpo Quaresma considerava 'os moços de São Paulo' adeptos demais das vogas futuristas e legítimos representantes das novas elites burguesas e industriais. Já os modernistas paulistanos, ao menos nesse primeiro momento, reservavam a Lima o mesmo tipo de aversão que guardavam com relação ao grosso da produção literária que vinha do Rio de Janeiro, e o julgavam conservador demais. Um regressista que não admitia a entrada dos novos costumes, vogas artísticas e literárias ou hábitos urbanos".

Naquele Brasil da Primeira República, "Lima gostava de se definir como 'outro' - afirma a biógrafa -; "outro no jornalismo, outro em suas preferências políticas, outro ainda (e sobretudo) quando se referia ao funcionalismo público". Deslocado, "outro", avesso às pompas que cercavam muitos outros escritores de seu tempo, pobre, alinhado ao anarquismo e ao socialismo (num país em que a desigualdade faz parte do DNA da sociedade), negro (num país extremamente racista, poucas décadas após a Abolição), alcoólatra, duas vezes internado num hospício, o escritor, contudo, não parou de batalhar com os recursos que tinha, mesmo sem acreditar em si. Ou, talvez, acreditasse. No capítulo 11 (Fazendo crônicas, contos e virando Trite fim de Policarpo Quaresma), Lilia Moritz Schwarcz  assinala que:

"Com a publicação de Triste fim, a figura literária de Lima seria ainda mais lapidada. Ele era então caracterizado, e também gostava de se definir desta maneira, como um escritor boêmio, frequentador de botequins, realista por gosto, avesso ao jornalismo burguês e aos formalismos da literatura. Seus problemas na Politécnica [abandonou o curso de Engenharia] viravam virtudes, seu ir e vir nos subúrbios uma forma de existência. A despeito de tanta contraposição, Lima jamais negava seu sonho de viver das letras. Tanto que na mesma entrevista [concedida ao jornal A Época, em 1916], assim resumia sua 'missão': 'O fim da minha vida é as letras. Eu não peço delas senão aquilo que elas me podem dar: Glória! [...] Não quero ser deputado, não quero ser senador, não quero ser mais nada senão literato. Não peço às letras conquistas fáceis [...] peço-lhes coisa sólida e duradoura [...] Eu abandonei tudo por elas; e a minha esperança é que elas me vão dar muita coisa. É o que me faz viver mergulhado nos meus desgostos, nas minhas mágoas [...] Vamos beber cerveja' ".

. . . . . . .

Antes de terminar a postagem, não posso deixar de reconhecer o trabalho monumental feito por Lilia Moritz Schwarcz em Lima Barreto: triste visionário. É um livro de mais de 600 páginas, ressaltando diversos aspectos não só da vida e da obra do escritor, mas também do contexto sócio-histórico. A experiência da biógrafa como historiadora e antropóloga foi vital aqui. E mesmo que a profusão de notas possa retardar o ritmo da leitura em alguns momentos (para o leitor que vai conferi-las pelo menos em parte, como este blogueiro), o ganho informativo é tremendo.

Schwarcz também não se furtou a apresentar o lado antipático do biografado (como sua aversão ao feminismo ou o senso de superioridade evocado diante das outras pessoas de seu meio social, menos cultas do que ele), bem como salientou as ambiguidades que marcaram a sua trajetória pessoal e pública. Vale destacar o reconhecimento da autora ao trabalho de Francisco de Assis Barbosa, que, na década de 1950, não só produziu uma importante biografia, como foi fundamental para renovar o interesse pela obra do escritor, num esforço que incluiu o lançamento de inéditos e a republicação de diversos livros de Lima Barreto.

Na próxima postagem, falarei de um dos meus romances prediletos: O deserto dos tártaros, de Dino Buzzati


¹ A partir da segunda metade dos anos 1990, o termo pré-escola vai desaparecendo e sendo substituído pelo termo (mais adequado) educação infantil, pois amplia-se a compreensão de que o trabalho com crianças menores de seis anos não é menos educativo do que outros realizados noutras etapas.

² SCHWARCZ, Lilia Moritz. Lima Barreto: triste visionário. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

BG de Hoje

É meio complicado classificar, de primeira, o tipo de música feita pelo CRIOLO. Isso que é legal no som dele. Tem rap? Principalmente, claro. Mas também tem samba. E uma faixa singularíssima como Bogotá, com sua levada que remete o ouvinte a outras vertentes rítmicas latino-americanas.


sábado, 1 de setembro de 2018

O deslocamento de Lima Barreto (I)


Certas expressões viram moda num curto período de tempo. Passam a ser exaustiva e irritantemente repetidas. E tornam-se, por fim, clichês vazios.

A despeito do que acabei de escrever, vou usar uma dessas expressões. Porque ela, acho, não me soará oca ou desgastada - pelo menos, não nesse caso.

Lima Barreto me representa.

Vai além de nossa comum afrodescendência.

A vida de Lima Barreto foi marcada pelo deslocamento. Essa sensação é bastante familiar para mim. Ele era também alcoólatra - outra característica que compartilhamos.

Na volumosa biografia do escritor carioca lançada no ano passado ¹, Lilia Moritz Schwarcz escreveu:

"Ante os infortúnios, [Lima Barreto] bebia. Bebia por medo, pela falta de amigos, por não encontrar a rapariga certa, para fugir da 'desgraça doméstica', por causa de seu emprego. E bebia porque bebia, porque gostava de beber.

[...]

E justificava o vício: para não se aborrecer, para não ter de enfrentar o descompasso entre suas 'aptidões' e 'boas qualidades', assim como para poder lidar [com] (ou esquecer [de]) seus 'poderosos defeitos' e frustrações. Bebia chope, uísque, cachaça, para afastar o abismo que devia enxergar entre si e os amigos, os colegas de repartição, as mulheres, a família, os vizinhos.

[...]

Por essas e por outras, Lima se sentia e parecia cada vez mais deslocado. A roupa sempre manchada, o sapato desgastado, e placas de suor que lhe marcavam a camisa e colavam o cabelo à cabeça. Sofria com o tédio da repartição, com sua vida literária que não decolava, e com sua situação pessoal: poucos amigos, sem namoradas, e com a família que ele precisava prover. A bebida, para Lima, transformava-se ao mesmo tempo numa espécie de evasão para a sua profissão, que o entediava, e daquele mundo que insistia em não dar certo".

Destacar o alcoolismo do escritor não é tratar de tema supérfluo, nem cometer qualquer tipo de indiscrição perversa: é apresentar um fato relevante na vida de Lima Barreto, cujo impacto ultrapassou a esfera das relações pessoais, atingindo sua obra e a recepção crítica desta. Como qualquer outro ser humano, o autor de Triste fim de Policarpo Quaresma carregava suas inseguranças e (muitos) fracassos. E quando penso que se trata de uma pessoa negra, neto de uma escravizada, buscando, com as poucas armas de que dispunha, reconhecimento literário no início do século passado neste país (que foi, ainda é e, ao que tudo indica, sempre será) arcaico, racista e excludente, digo em pensamento: "É isso aí, Lima, beba. Só nos resta beber..."

"Pode-se dizer" - também escreveu a biógrafa - "que Lima se sentia 'estrangeiro' onde quer que estivesse" Como isso me é igualmente familiar! Schwarcz prossegue:

"Em primeiro lugar, seu grau de formação levava-o a se apartar dos vizinhos de Todos os Santos. O escritor gostava de reconhecer sua educação e dela se gabar, e assim guardava certa quilometragem dos personagens que tão bem descrevia. Em segundo lugar, na sua roda de amigos boêmios conservava uma separação cautelar, ainda mais quando se tratava de 'socializar com as moças'. Conhecia demais aquilo que chamava de 'limitações' trazidas pela cor que estampava em sua pele, ou ao menos mantinha esse tipo de obstáculo bem delineado quando tentava medir-se ou medir os outros".

O(A) eventual leitor(a) talvez se lembre de duas passagens do romance citado linhas acima ². A primeira encontra-se no capítulo 3. Numa pequena reunião festiva, alguns conhecidos de Policarpo Quaresma falam a respeito do major, motivados pela repercussão daquele desastroso requerimento escrito em tupi. A seguir, um trecho do diálogo:

"- Quem é? - perguntou Florêncio.
 - Aquele vizinho, empregado do arsenal, não conhece?
- Um baixo, de pince-nez?
- Esse mesmo - confirmou Caldas.
- Nem se podia esperar outra coisa - disse o doutor Florêncio - Aqueles livros, aquela mania de leitura...
- Pra que ele lia tanto? - indagou Caldas.
- Telha de menos - disse Florêncio.
Genelício atalhou com autoridade:
- Ele não era formado, para que meter-se em livros?
- É verdade - fez Florêncio.
- Isso de livros é bom para os sábios, para os doutores - observou Sigismundo.
- Devia até ser proibido - disse Genelício - a quem não possuísse um título acadêmico ter livros. Evitam-se assim essas desgraças [ele se refere à "loucura" de Quaresma]"

Na outra passagem, logo no capítulo seguinte, Policarpo volta pra casa abatido, após ser suspenso e levar uma descompostura do chefe (mais uma vez, consequência do requerimento em tupi despachado por engano). No bonde, encontra-se com o amigo Ricardo Coração dos Outros. Outro trecho de diálogo:

"- O major, hoje, parece que tem uma ideia, um pensamento muito forte.
- Tenho, filho, não de hoje, mas de há muito tempo.
- É bom pensar, sonhar consola.
- Consola, talvez; mas faz-nos também diferentes dos outros, cava abismos entre os homens..."

Os interessados na obra desse escritor sabem que muitos de seus personagens funcionam como disfarces do próprio autor, inteira ou parcialmente. Policarpo Quaresma - enquanto funcionário público medíocre de baixo escalão, leitor inveterado (mas sem diploma) e sujeito intelectualizado de forma diletante e errática - é Lima Barreto. E este blogueiro se identifica tanto com isso tudo...

Identifico-me também com a incapacidade de Lima Barreto em dar-se bem com amigos, vizinhos. colegas de trabalho. E com seus malogros em relação às mulheres. Diferimos, claro, no que se refere ao talento para a escrita (quem sou eu para sequer cogitar uma comparação nesse sentido). O ambiente em família também não é semelhante: o escritor precisou sustentar os mais novos durante anos; por meu turno, necessitei sempre ser ajudado por minhas irmãs e irmão, aos quais sempre serei grato.

Noutro trecho da biografia, Lilia Schwarcz reproduz uma passagem bem significativa do diário íntimo do autor:

"Novamente no seu Diário, em 1908, o sentimento de deslocamento manifesta-se: 'Mas de tudo isso, o que mais me amola é sentir que não sou inteligente. Mulato, desorganizado, incompreensível e incompreendido, era a única coisa que me encheria de satisfação, ser inteligente, muito e muito! A humanidade vive da inteligência, pela inteligência e para a inteligência, e eu, inteligente, entraria por força na humanidade, isto é, na grande Humanidade de que quero fazer parte [...] Abate-me também não ter amigos e ir perdendo os poucos que tinha. Santos está se afastando; Ribeiro e J. Luís também. Eram os melhores. Carneiro (o Otávio), o egoísta e frio Otávio, está fazendo a sua alta vida, a sua reputação, o seu halo grandioso, e é preciso não me preocupar mais. Eu esperava isso tudo; mas não pensei que fosse tão cedo. Resta-me o Pausílipo, este é o único que se parece comigo e que tem o meu fundo, que ele desconhece por completo [...] Eu fico só, só com os meus irmãos e o meu orgulho e as minhas falhas' ".

Não consigo deixar de ficar pasmado com a ingenuidade de Lima Barreto ao acreditar que "a humanidade vive da/pela/para a inteligência" (bem, era o início do século XX, o socialismo parecia alcançável, as duas grandes guerras mundiais ainda não tinham acontecido e mesmo o capitalismo, baseado fortemente na indústria e comércio - pois mal engatinhava a irrefreável especulação financeira transnacional -, apontava uma confiança otimista no engenho humano). O escritor, porém, não cria nele mesmo. Mas como crer, se não havia recompensa alguma?

Na próxima postagem, falo de um outro aspecto do deslocamento de Lima Barreto: a sua inadequação ao sistema literário então vigente.

¹ SCHWARCZ, Lilia Moritz. Lima Barreto: triste visionário. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

² BARRETO, Lima. Triste fim de Policarpo Quaresma. 21 ª ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 1998, 


BG de Hoje

Trata-se de uma gravação impecável. Tudo soa perfeito. As harmonizações vocais (a principal característica do MPB 4), o arranjo de Luiz Carlos Ramos, o violão de sete cordas imponente, a cuíca discretíssima, a entrada gloriosa do surdo. Mas o ingrediente principal está no tamborim excepcionalmente bem tocado. Não se pode deixar de mencionar a letra do Paulo César Pinheiro para a linda melodia do Miltinho. É por essas e outras que Cicatrizes é uma das faixas de disco mais bonitas que já ouvi.

domingo, 19 de agosto de 2018

Falou e disse...

NÃO HÁ PORQUE*   **

Não há porque fantasiar essa vida
Quem quiser discordar
Eu vou desconfiar
Quem vier debochar
Cuidado que o barco pode virar
 

No estádio esse meu time só me põe doente
Eu esbarro em minhas dívidas diariamente
Na esquina quero amor e vejo o mal presente
Só me esqueço quando tomo um
copo de aguardente
O escândalo se abafa, isso é prudente
Nas escadas o degrau não é pra toda gente
A estrada dessa vida é coisa pra valente
Do estado desse mundo Deus está ciente


Não há porque fantasiar essa vida
Quem quiser discordar
Eu vou desconfiar (pra valer)
Quem vier debochar
Cuidado que o barco pode virar
 

Na espreita sobrevivo até comicamente
Os efeitos vêm a público amargamente
Um estranho ao me ver percebe claramente
Nas entranhas uma dor que fere lentamente
O espanto me domina tão tragicamente
A espécie dessa vida é morte que se sente
A espera se renova em todo poente
Qual espuma vivo fraco, mas eu vou em frente


* Não há porque foi gravada em 1975, no álbum Chama Acesa. Esse samba primoroso composto por Ivan LINS recebeu uma letra não menos caprichada de Ronaldo MONTEIRO DE SOUZA. A propósito, no disco Chama Acesa há também uma faixa de que gosto muito, Palhaços e Reis, mais uma parceria entre Lins e Monteiro de Souza, já interpretada pelo MPB-4.

** Perdão pela minha gramatiquice, mas talvez fosse melhor se, em vez de "Não há porque", os autores tivessem escrito Não há POR QUE. De todo modo, sempre achei uma canção belíssima. Confira abaixo:

terça-feira, 7 de agosto de 2018

O tribunal da quinta-feira e o "mal-estar internético"


Iria escrever hoje sobre outro assunto. Vai ficar pra próxima, porque, felizmente, acabou chegando às minhas mãos um livro que eu queria muito ler, desde o ano passado.

É O tribunal da quinta-feira ¹, de Michel Laub.

Li-o numa tarde (são apenas 183 páginas). Matutei por um tempinho e o reli daí a dois dias. E se o(a) eventual leitor(a) me perguntasse, na lata, "Gostou ou não?", confesso que teria dificuldade para responder prontamente.

Antes de entrarmos no livro, acho conveniente destacar uma declaração do escritor gaúcho feita em entrevista para O Globo, publicada em novembro de 2016:

"Minha posição é a favor da liberdade do escritor de fazer o que quiser. O dia que abrirmos mão disso, acaba a literatura. Claro que o escritor paga o preço pelas suas escolhas, de acordo com os parâmetros de sua época. O que eu fiz pode desagradar a muitos leitores de hoje, mas é uma briga que vale a pena. No momento que passamos a discutir a legitimidade de um narrador de ficção, defender valores X ou Y, entramos num debate alheio aos mecanismos da arte. Ficção é empatia, e empatia é algo necessariamente difícil - se fosse para ver os nossos próprios valores confirmados no que lemos, melhor ficarmos com o discurso das redes sociais".

Creio não ser por acaso que Laub fale em "uma briga que vale a pena". O autor sabe, é claro, que seu livro não será discutido apenas tendo em mente os "mecanismos da arte". Parte significativa do interesse despertado por O tribunal da quinta-feira decorre, penso eu,  não de seus méritos estéticos/literários, mas sim da atualidade de alguns de seus temas - a privacidade em risco na era digital; o suposto cerceamento dos discursos em nome do chamado politicamente correto; o moralismo/puritanismo de parte dos usuários das mídias sociais. A "tese" principal do romance pode ser localizada mais nitidamente no capítulo 24.

Primeiro, alguns dados.

O narrador dessa ficção é José Victor, 43 anos, branco, heterossexual, publicitário relativamente bem-sucedido - ou seja, "um privilegiado do pênis que desde cedo colheu os devidos e respectivos privilégios", como ele diz de si próprio em determinada passagem. Um dia, parte de sua correspondência por e-mail é exposta pela ex-mulher, Teca. As mensagens trocadas entre o narrador e Walter (amigo de longa data, na mesma faixa etária, também publicitário, homo(bi?)ssexual, HIV positivo) são permeadas por um linguajar chulo e até cruel (mas cujas nuanças de conotação - uma espécie de humor interno - não podem ser alcançadas por outros que não os dois correspondentes). O conteúdo é vazado, circula pelo Facebook e em pouquíssimo tempo "uma multidão acima de qualquer pecado" desce a lenha, cheia de fúria santa, em José Victor, Walter e Dani, a namorada do narrador, 23 anos mais jovem do que ele.

A ex-mulher de José Victor, Teca, é arquiteta, filha de pais ricos também arquitetos, e, assim como suas amigas que vazaram o conteúdo dos e-mails, é culta, possui o que se chama hoje de sensibilidade social, tem consciência ambiental e engajamento feminista. Pessoas assim diferem muito, portanto, das turbas ignorantes, preconceituosas e coléricas que infestam e inviabilizam o debate nas seções de comentários dos sites/blogs e nas mídias sociais, certo? Não é bem assim - é o que nos diz o romance de Michel Laub.

Um considerável número de indivíduos usa a internet sobretudo para expor pontos de vista e opiniões, além de defender posicionamentos políticos/ideológicos, notadamente nas mídias sociais. À medida que muitos desses pontos de vista e desses posicionamentos podem ser agrupados em conjuntos maiores, não é descabido falar em campos opostos que se altercam, disputando corações e mentes. E de que lado estaria Teca? Vamos ler este excerto do capítulo 24:

"O lado correto desta briga. Teca pode ficar tranquila a respeito, não é o [lado] dos aposentados, pregadores religiosos e integrantes de torcidas organizadas que se manifestaram logo depois do vazamento. Foram dezenas, centenas deles. [...] É esse lado [o de Teca] que me trouxe ao tribunal. Todos imaginamos fazer parte dele, nós que somos a favor da tolerância, do equilíbrio, da solidariedade que é tão fácil declarar, então uma briga com quem fala em nome disso tudo não deixa de ser uma briga com você mesmo".

E o narrador complementa:

"Eu já criei anúncio de um banco que dizia, aproveite a vida, dinheiro não é a coisa mais importante. Já criei anúncios sobre peças de teatro, creches e espaços públicos de convivência cidadã financiados por fábricas de inseticidas e fomentadores de trabalho infantil. Cada vez que penso na reação de Teca às mensagens, e das amigas de Teca ao vazamento posterior, é como se elas e a internet inteira fossem locutoras de um desses textos. O importante é o tempo para você se dedicar à família e ir atrás dos seus sonhos. O importante é não fazer de sua passagem pelo nosso rico planeta uma aventura em vão. Mostre que a aventura nasceu com você e independe do conflito dos seus interesses com os de outras pessoas, sejam eles puros ou impuros, e não há em você resquício da ambição, inveja, competitividade, agressividade e hipocrisia que vemos no resto do mundo".

Um dos pontos altos de O tribunal da quinta-feira, a meu ver, é o modo como aborda a hipocrisia de determinados tipos de usuários da internet. Não é por acaso que o narrador trabalhe com publicidade. Publicitários não só precisam, por questões de ofício, produzir anúncios hipócritas, como também devem ser capazes de atenuar ou dissimular a falta de sinceridade de seus clientes perante o público. José Victor, ao longo da narrativa, é muitas vezes irônico e mordaz porque não tem dificuldade em detectar a hipocrisia contida em boa parte das falas de quem se perfila no "lado correto da briga".

Pregamos empatia, mas não fazemos questão nenhuma de ouvir com cuidado quem não pensa como nós. Defendemos tolerância, mas não demoramos a apontar dedos acusadores e a rotular outros indivíduos. Sim, uso a primeira pessoa do plural porque suponho estar do mesmo lado de Teca. E é por isso que o livro de Michel Laub me deixou tão desconfortável.

Por falar em desconforto, não sei se o(a) eventual leitor(a) costuma sentir, durante sua navegação na internet, algo que - na falta de uma expressão melhor - chamo de "mal-estar internético". Esse sentimento engloba, naturalmente, o dissabor e o asco experimentados, por exemplo, durante a leitura de um sem-número de comentários postados em portais de notícias, pejados de selvageria e ódio concentrado. O mal-estar de que estou falando, entretanto, abarca também uma desagradável sensação que surge quando me dou conta de que muitos usuários da internet - posicionados no "lado correto da briga", como este blogueiro imagina estar - acreditam ser dotados de uma superioridade moral incontestável. Ora, é relativamente fácil identificar o discurso intolerante e agressivo em estado puro e a ele se opor ou dele se distanciar. Outra coisa, contudo, é lidar com alguém que se julga moralmente superior, ou pelo menos virtuoso o suficiente para estabelecer, de acordo com a sua agenda (pois está do "lado certo da briga"), o que é ou não aceitável.

Noutra entrevista, desta vez publicada no El País, Michel Laub declarou:

"Todo mundo dá opinião sobre tudo hoje. Ao mesmo tempo, posso apostar que a maioria das pessoas cuida muito para dar certas opiniões. É um mundo contraditório e muito controlado. Existe muita liberdade, supostamente, mas muito puritanismo também. Acho que as coisas não estão bem postas, porque existe, de um lado, muito medo de pensar e, de outro, muita pressão para as pessoas pensarem. Só que o pensamento às vezes é amoral. Precisa testar hipóteses. Você vê uma notícia terrível na TV e se, por um minuto, ponderar, é massacrado. Essa certeza prévia que nos é cobrada é o contrário da ciência... Você não avança nada no conhecimento, na moral, na cultura e em lugar algum se você não puder testar hipóteses, mesmo as mais antipáticas a você".

De fato, aqui no Besta Quadrada, tenho tido muito cuidado antes de postar qualquer texto. Porém, pra deixar claro, não me sinto censurado ou tolhido pelo chamado politicamente correto (parte de minhas opiniões sobre o tema foram publicadas aqui). Simplesmente reconheço que o zeitgeist atual espera de nós outra postura discursiva (o que é positivo em muitos aspectos) e também constato que essa nova postura discursiva (favorecida pela moderna tecnologia de comunicação/informação) dá voz a pessoas e segmentos sociais historicamente silenciados e marginalizados (e isso também é positivo em muitos aspectos). Algumas vezes tenho notado que a grita contra o politicamente correto é mais uma tentativa de disfarçar certa incapacidade de adaptar-se ao atual cenário do que uma defesa da liberdade de expressão.

Nem tudo é positivo, porém.

Como escrevi acima, assim como a propagação do ódio concentrado daqueles que não estão do "lado certo da briga", causa-me tremendo mal-estar a jactância dos que se julgam moralmente superiores e infalíveis em muitas falas propagadas pela internet. Algo não só prepotente, como  - e às vezes de forma concomitante - hipócrita.

Numa outra passagem, já nos últimos capítulos, José Victor diz:
"Responderei a todas as pessoas que fizeram comentários ou enviaram mensagens. Entrarei em vinte, duzentos posts sobre o assunto, e darei um like irônico como resposta a quem é incapaz de entender ironia. Não adiantará coisa alguma, tudo continuará onde sempre esteve no debate público dos últimos tempos, a glória do próprio ego numa batalha inútil que ninguém é capaz de interromper, mas ao menos uma vez eles ouvirão algo distinto da própria voz de criança, as certezas de quem nunca saiu do próprio bairro mental".
Não dá pra negar que o debate público contemporâneo é dependente do que acontece nas mídias sociais. E penso que todos deveríamos nos perguntar se ele permanecerá "a glória do próprio ego numa batalha inútil" e onde chegaremos com isso.

Tenho mais coisas a dizer sobre o livro de Michel Laub, mas meu texto seguiu por um rumo não planejado antes e acabei me perdendo. Voltarei a O tribunal da quinta-feira assim que possível.

Na próxima postagem, finalmente, escreverei sobre a biografia de Lima Barreto, cuja autora é a antropóloga/historiadora Lilia Moritz Schwarcz.


¹ LAUB, Michel. O tribunal da quinta-feira. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

BG de Hoje

Quando Chris Cornell morreu no ano passado, alguns artistas homenagearam-no (merecidamente). Fiquei surpreso, por exemplo, com a singela interpretação da cantora/compositora/pianista Norah Jones para Black Hole Sun, pois a pegada do Soundgarden nada tem a ver com o tipo de música feito habitualmente por ela. Por falar nessa canção, o veterano PETER FRAMPTON arrebentou no programa Guitar Center Sessions, sete anos atrás. Sua versão instrumental do grande hit de Cornell & Cia. é esplêndida. Confira abaixo.
P. S. Não sou músico, portanto, me dê um desconto. Mas não consigo entender como Peter Frampton raramente é reverenciado como o grande guitarrista que é (e sempre foi). Por exemplo, ele não está na lista dos 100 maiores guitarristas de todos os tempos da revista Rolling Stone. Na minha opinião, injustiça.