sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Livros para autorreconciliação (II): O Senhor das Moscas



"É preciso mais coragem para examinar os cantos sombrios da própria alma 
do que para um soldado lutar no campo de batalha".

                                                                                                W. B. Yeats

 

Na introdução de um de seus textos na coluna que mantinha no jornal  Nexo  há alguns anos, a historiadora e antropóloga Lilia M. Schwarcz reclamou do problema que é conviver com um certo tipo de pessoa tóxica, aquela "que contamina a tudo com sua negatividade". Gente assim  "desautoriza, humilha, assedia e torna a vida de quem está ao lado um grande inferno". Tem mais:  "pessoas com esse tipo de atitude costumam complicar não apenas suas próprias existências, como também daquelas que a circundam". Ainda segundo Schwarcz,  "a postura não funciona, entretanto, como filosofia geral de vida ou gesto premeditado, independente do contexto em que se apresenta. Penso, inclusive, que não é necessário insistir nesse tema, uma vez que me parece existir um consenso nesse sentido. Negatividade tóxica não traz nada de bom". 

A ênfase da coluna, contudo, está no incômodo de Schwarcz com o outro lado dessa moeda: a  positividade tóxica.  Assim como eu, ela nunca gostou  "de frases prontas e animadas, que não passam de chavões quando usadas indiscriminadamente. Do tipo: 'Seja positivo!', 'Olhe pelo lado bom!' 'Supere isso', 'Vá em frente'…".  Ou seja, as expressões que caracterizam os discursos motivacionais, uma das maiores pragas da contemporaneidade. 

Se olharmos com atenção o mundo ao redor, é possível chegarmos à conclusão de que "o poço anda bem cheio para que adotemos o 'modo positividade a todo custo'. Simplesmente desconsiderar e fazer pouco de sentimentos negativos próprios e dos outros, sem nem ao menos permitir que se entre em contato com eles, não pode ser boa saída".

O blogueiro que vos escreve pode até não estar diligentemente propagando a negatividade tóxica (afinal, restrinjo minhas interações com outros seres humanos ao mínimo possível), mas certamente é um pessimista em tempo integral. Esse tipo de postura diante da existência, na opinião de muitos, também não é nada desejável. Cabe a pergunta, porém: observando as condições socioeonômicas  em que vivem grandes parcelas da população mundial, além de verificar o estado em que se encontra o meio ambiente do qual todos dependemos, existe justificativa para crenças otimistas  não mais que comedidas? Aliás, gostaria de lembrar que, a despeito da vacuidade  de quase todos os seus enunciados (úteis, no entanto, para o ajustamento do indivíduo ao credo neoliberal e à aceitação conformada de sua posição no vale-tudo do capitalismo tardio), a positividade tóxica acaba sendo uma forma de otimismo.

Estou tentando dizer, no final das contas, que arvorar-se otimista não é essa Brastemp toda não.

E quanto à prosa literária? Nesse universo, predominariam as obras alicerçadas na positividade e na esperança ou as que acentuam, durante a maior parte da narrativa, a torpeza, a crueldade e o sofrimento que também permeiam as vivências humanas? O que gera mais histórias: o otimismo ou o pessimismo?

Dada a astronômica quantidade de livros produzidos, creio não ser possível responder essa pergunta. Seja como for, minha inclinação, como deve estar claro a essa altura, é para a ficção que se constrói a partir da angústia, da fúria, do infortúnio.

O Senhor das Moscas  (anteriormente discutido no blog aqui e aqui) foi (e ainda é) uma das grandes histórias pessimistas que me marcaram intensamente.

Em nações de língua inglesa (principalmente na Grã-Bretanha, Austrália e Estados Unidos), o romance acabou adquirindo, para muitos, a pecha de  livro-que-se-lê-na-escola. Abordado com frequência no ensino médio desses países, reduziu-se, involuntariamente, a um instrumento didático. NOTA: É,  mutatis mutandis,  o que acontece aqui no Brasil com alguns de nossos clássicos (posso citar, apenas como exemplo, o  Macunaíma ). Nessa perspectiva, o texto acaba se transformando num requisito para a realização de tarefas escolares e sua relevância, como obra de arte, passa despercebida.

Uma das recriminações mais dirigidas a  O Senhor das Moscas  incide diretamente sobre a ideia central do romance. Ao especular que as crianças isoladas na ilha após a queda do avião seriam incapazes de cooperarem entre si e logo se lançariam na selvageria, sob o império da força bruta, devido à ausência de instâncias moralizadoras e sem os aparatos civilizacionais com os quais se acostumaram, o autor estaria errado. Aponta-se que, do ponto de vista antropológico e sociológico,  O Senhor das Moscas  é bastante falho. Num artigo que li há poucos dias, havia a afirmação de que o livro é uma mentira (ora, ora, que conclusão fantástica: descobre-se que uma NARRATIVA FICCIONAL É INVENÇÃO, com cenários, figuras e situações imaginárias ...). Ainda sobre esse ponto, o historiador neerlandês Rutger Bregman (cujas declarações públicas sobre desigualdade social costumam me interessar) bate de frente com a visão negativa dos humanos retratada no texto de Golding. Numa entrevista para a MSNBC em 2022, ele recordou a história (real) dos seis adolescentes de Tonga que foram parar numa ilha desabitada, entre junho de 1965 e setembro de 1966, após o barco em que navegavam ter ficado à deriva devido a uma tempestade. Ao contrário dos meninos em  O Senhor das Moscas,  os jovens tonganeses ajudaram-se mutuamente e mantiveram uma convivência amigável (Bregman deu destaque a esse caso em seu livro  Humanidade: uma história otimista do homem,  que ainda não li). 

O que posso dizer a esse respeito?

Golding era um professor de Inglês atuando na educação básica. Embora tenha estudado em Oxford, sua formação não lhe forneceu um conhecimento amplo na área das Ciências Sociais. Penso que seria equivocado da parte da crítica exigir,  de um trabalho artístico/imaginativo, correção acadêmica estrita no campo da antropologia. Uma de suas intenções era produzir uma variante cáustica de livros de aventura em ilhas remotas (que sempre foram bastante populares), especialmente o etnocêntrico  A Ilha de Coral.  Ele estava convencido da incapacidade humana de controlar e superar seus ímpetos primitivos de violência e agressão e quis manifestar tal convicção na sua escrita. A participação na Segunda Guerra Mundial (inclusive do Dia D, na Normandia)  consolidou seu juízo sobre a propensão humana para a barbárie. William Golding - que se considerava um  monstro  - não desconhecia o mal também dentro de si: aos 18 anos tentou estuprar uma amiga e lidou com o alcoolismo severo a maior parte de sua vida, suportando uma depressão profunda de longa duração.  

Ainda que o escritor destaque o pior dos humanos, enxergando-os com pouca benevolência, suas recriminações não são irrealistas. Pergunto a você, eventual leitor(a): podemos, como espécie, até ser gregários e auxiliarmo-nos em determinadas circunstâncias, mas você vai dormir sossegadamente deixando suas portas e janelas destrancadas? E como ter fé na humanidade quando sabemos das atrocidades no Sudão e em Gaza?

O Senhor das Moscas  é todo recheado com personagens-símbolos. Devido ao tom de desconsolo da narração e à predominante atmosfera de aflição a partir de determinado momento, aqueles que retratam a força e a violência (Jack e Roger) seriam os mais apropriados para se verificar o esforço de Golding na demonstração de seu argumento principal. Na postagem de hoje, porém, gostaria de me deter noutra figura.

Simon, para alguns analistas e resenhistas do romance, seria uma reminiscência de Jesus Cristo. Existe fundamento para essa avaliação, quando lembramos alguns aspectos da vida do  Filho de Deus  tal como seus adoradores costumam concebê-la: o garoto está sempre disposto a ajudar, principalmente os mais fracos (no caso, as crianças menores), fica parte do tempo isolado com seus pensamentos (como que  retirado no deserto ) e morre de forma injusta e violenta por um bando fora de si, incapaz de ouvir a comunicação importante que ele tinha para fazer a todos. O texto, como sabemos, abriga alusões e temas bíblicos às vezes bastante patentes, a começar pelo título:  Senhor das Moscas  é a tradução popularizada do nome cananita  Baal-zebub  - que, com o tempo, virou  Beelzebub,  depois  Beelzebul,  chegando ao português atual como  Belzebu. Ainda que não tenha sido um cristão devotado, Golding se considerava um homem religioso. Não custa lembrar também que a ideia de pecado original - ou seja, os seres humanos carregam dentro de si a semente da transgressão e da perversidade - é parte significativa da "tese" na qual a história se sustenta.

Contudo, não vou me embrenhar por esse caminho. Para mim, basta saber que Simon, a despeito de seu comportamento meio  místico, é o único que aparenta refletir antes de sair agindo às cegas dentro da narrativa, o único que se esforça por tentar atingir algum entendimento,  mínimo que seja, antes de ser contaminado pela agitação e o medo circundantes. Mesmo Piggy (Porquinho), o personagem que simboliza a inteligência, não se porta assim. NOTA 2: Para reforçar o pessimismo da história, tanto Piggy quanto Simon - a inteligência e o ânimo de buscar alguma compreensão - morrem brutalmente.

É Simon, no capítulo 5, que lança a conjectura de que o mal e o perigo que todos temiam talvez não fosse um bicho de carne e osso vagando pela ilha, mas sim o impulso bestial latente dentro dos seres humanos. Conjectura que se mostra acertada a seguir, no capítulo 8, quando ele "conversa" com o Senhor das Moscas (a cabeça de porco fincada na estaca pelos caçadores comandados por Jack) ¹: 

"- Que engraçado achar que o Bicho é algo que podem caçar e matar! - disse a cabeça. Por um instante, a floresta e todos os outros lugares indistintos ecoaram com a paródia de uma gargalhada. - Você sabe, não é? Sou parte de você? Quase, quase, quase! Sou a razão por que ninguém pode ir embora? Por que as coisas são o que são?".

A partir de seu assassinato - uma espécie de martírio, mas sem a entrega sacrificial -, não há mais expiação para as crianças da ilha. 

Diante do oficial da marinha britânica surgido na praia (um  deus ex machina  sobre o qual valeria a pena tratar noutra postagem), Ralph, o líder que não conseguiu impedir a ruína apesar de seu carisma,  finalmente  "chorou pelo fim da inocência, pela escuridão do coração humano" e pela morte de Piggy.

Já não era mais possível, para ele e para nenhum daqueles garotos, chorar por Simon. Indelevelmente marcados pelo mal.

. . . . . . . 

Como havia explicado na postagem anterior, estou recorrendo à releitura de determinadas criações literárias que conseguem me revigorar de alguma forma e me ajudam a não virar o leitor meia-boca que temo tanto. Elas ajudam, acredito, a vencer essa prostração na qual mergulhei de uns oito meses pra cá. Daí falar em livros para  autorreconciliação.  Foi assim com  O deserto dos tártaros  e também com o livro do qual acabamos de falar. 

_______________

¹ GOLDING, William. O Senhor da Moscas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006 [Tradução de Geraldo Galvão Ferraz] 

 

BG de Hoje

Sempre achei uma das coisas mais bacanas no funcionamento do FAR FROM ALASKA o trabalho do Rafael Brasil. Com os pedais e outros recursos que não sei descrever (porque, infelizmente, não sou musicista), ele reproduz tanto a sonoridade da guitarra quanto a do baixo no mesmo instrumento (algo parecido com o que faz o Mike Kerr, do Royal Blood). Todo o meu respeito a essa versão que fizeram de  Iron Lion Zion  (BOB MARLEY) há alguns anos, com a Emmily Barreto entregando tudo nos vocais, como sempre.

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Livros para autorreconciliação (I): O deserto dos tártaros

Dois romances marcantes do século passado, publicados com uma diferença de quatro décadas entre um e outro, conectam-se a um célebre poema do grego Konstantinos Kaváfis ¹.  À espera dos bárbaros  (no idioma original e em caracteres latinos,  Periménontas toủs Varvárous )  é de 1904. Faço notar desde já que, a despeito da conexão, esses dois romances estão longe de manifestar o tom irônico que perpassa todo o poema.

Reproduzo abaixo a conhecida tradução feita por José Paulo Paes ²: 

  

À ESPERA DOS BÁRBAROS


O que esperamos na ágora reunidos?

      É que os bárbaros chegam hoje.

Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?

      É que os bárbaros chegam hoje.
      Que leis hão de fazer os senadores?
      Os bárbaros que chegam as farão.

Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?

      É que os bárbaros chegam hoje.
      O nosso imperador conta saudar
      o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe
      um pergaminho no qual estão escritos
      muitos nomes e títulos.

Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
de ouro e prata finamente cravejados?

      É que os bárbaros chegam hoje,
      tais coisas os deslumbram.

Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?

      É que os bárbaros chegam hoje
      e aborrecem arengas, eloquências.

Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?

      Porque é já noite, os bárbaros não vêm
      e gente recém-chegada das fronteiras
      diz que não há mais bárbaros.

Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.

 

J. M. Coetzee é o autor de um dos romances aludidos no início da postagem (já escrevi brevemente sobre ele aqui). Seu livro apareceu em 1980, sendo homônimo do poema de Kaváfis. É principalmente uma história sobre o poder exercido com disciplinada violência e perversidade. 

O outro texto a que fiz menção acima, também relacionado ao poema, veio a público em 1940.  O deserto dos tártaros,  de Dino Buzzati, serviu de inspiração para  À espera dos bárbaros,  de Coetzee. 

É do trabalho do escritor italiano que trataremos hoje (abordei-o anteriormente, por falar nisso, aqui e aqui).

. . . . . . .

No ensaio  Quatro esperas  (segunda parte do livro  O discurso e a cidade ), Antonio Candido reforça o entendimento a que chegamos todos os leitores da obra-prima de Buzzati: essa narrativa  "pertence à lista dos romances do desencanto" .  

O personagem central de  O deserto dos tártaros  é Giovanni Drogo, jovem que acaba de obter o posto de tenente. O rapaz é designado para prestar serviço no forte Bastiani, localizado num ponto remoto, fronteiriço a outro Estado (o  Reino do Norte ). Inicialmente disposto a permanecer na instalação militar apenas durante os poucos meses tidos como necessários para cumprir certas formalidades, Drogo acaba conformando-se com os ritos burocráticos do lugar, habituando-se às suas características e rotinas, sempre aguardando uma  hora milagrosa  que por fim forneça a ele a grande meta de sua vida. Durante a leitura, acompanhamos a progressiva desilusão e resignação do protagonista, ao finalmente se dar conta de que, com a sucessão dos dias e contrariamente às aspirações da juventude, não há nada de especial à sua espera e que ele não passa de  "um homem comum, a quem por direito não cabe senão um destino medíocre" ³.

A  fuga do tempo  é um dos grandes temas da narrativa:  "O tempo entretanto corria, marcando cada vez mais precipitadamente a vida com sua batida silenciosa, não se pode parar um segundo sequer, nem mesmo para olhar para trás. 'Pare, pare!', se desejaria gritar, mas vê-se que é inútil. Tudo se esvai, os homens, as estações, as nuvens; e não adianta agarrar-se às pedras, resistir no topo de algum escolho, os dedos cansados se abrem, os braços se afrouxam, inertes, acaba-se arrastado pelo rio, que parece lento, mas não para nunca".  Um fluxo ininterrupto, fora do controle humano, levando ao envelhecimento, ao cansaço e à fraqueza. A metáfora fluvial aparece algumas vezes no texto de Buzzati:  " [...]  o rio da vida jogara-o agora para um lado, para os sorvedouros periféricos, embora no fundo ele não tivesse nem cinquenta anos".

Os inimigos que poderiam atacar o forte Bastiani - e imprimir um propósito maior na existência insossa do militar - só chegarão muitos anos mais tarde, quando Drogo mal se sustentava de pé. Tal como no poema de Kaváfis, os bárbaros não chegaram (pelo menos não da maneira pela qual ansiara o protagonista) e não trouxeram nenhuma solução.

Seguindo a inexpressiva vida de Giovanni Drogo, o leitor pode extrair a seguinte lição (sim, creio ser correto usar esse termo, talvez antiquado ou fora de lugar - lição): "o sentido da vida de cada um está na capacidade de resistir, de enfrentar o destino (totalmente 'absurdo') sem pensar no testemunho dos outros, nem no cenário dos atos, mas no modo de ser", como bem condensou Antonio Candido.

Nesta minha última releitura de  O deserto dos tártaros,  entretanto, fiquei a pensar mais detidamente na sina de dois personagens secundários - o soldado Lazzari e o tenente Angustina - e nas lições que também encerram.

. . . . . . . 

A monotonia do forte Bastiani não se alterava. Os homens passavam muito tempo olhando para a planície desolada e sem movimento. Entretanto, no capítulo XII, um cavalo é avistado por aqueles que estavam de guarda no Reduto Novo (uma guarnição mais afastada do corpo principal do forte), acontecimento suficiente para agitar um pouco a instalação. Há uma indecisão sobre qual atitude tomar, até que o soldado Giuseppe Lazzari, pensando ser o seu próprio cavalo que teria escapado, decide por conta própria ir buscar o animal.

Sem muito tempo de serviço, o soldado não cuidou que seria necessário informar a senha (que ele não sabia) para retornar ao Reduto. Mesmo sendo reconhecido pelo sentinela Moretto, acabou sendo alvejado e morto por este, a poucos metros da entrada, devido a rigidez do regulamento, constantemente reforçado pelo sargento Tronk, um caxias intransigente e obtuso, que observava a sentinela com olhar severo e desapiedado quando este apontava o fuzil para o incauto Lazzari.

O soldado foi morto por uma submissão ridícula à norma. Ele conhecia o atirador; eram amigos. Moretto foi impelido a fazer o que a regra determinava. Seu superior poderia simplesmente deixar passar, permitir o retorno de Lazzari sem a obrigação de dizer uma maldita senha - uma formalidade desnecessária, naquela circunstância -, mas não o fez. Esse episódio me faz pensar na insensibilidade e na indiferença como marcas de determinadas organizações dentro da sociedade, ancoradas em regulamentos que as eximem de fazer o que é moralmente certo.

Um pouco mais à frente, no capítulo XV, narra-se a expedição de um grupamento enviado para estabelecer uma área de fronteira ainda não oficialmente definida, uma vez que  os do Norte  fariam o mesmo, como já haviam se entendido os governantes dos dois Estados. Os oficiais no comando da tarefa eram o capitão Monti e o tenente Angustina.

Pietro Angustina era considerado esnobe e não demonstrava ter muito interesse pelos outros colegas de farda (talvez porque os considerasse inferiores). Apesar de não apresentar um bom quadro de saúde, insistia em permanecer no forte, mesmo tendo a possibilidade de ser transferido e voltar à cidade. De certo modo, ele também desejava sua  hora milagrosa.  Na partida da expedição, ao invés de proteger os pés com um calçado mais rústico adequado para o longo e acidentado percurso (como fizeram os soldados e o robusto capitão Monti), calçava botas elegantes.

Foram penosas, para Angustina, a caminhada e a pequena escalada no local da delimitação de fronteira. Monti forçava o ritmo do grupamento principalmente para espezinhar o outro oficial, com quem antipatizava. Ainda assim,  os do Norte  chegaram antes ao topo do terreno que ambos os exércitos almejavam. Começava a nevar fortemente, junto com a chegada da noite. Enervado, o capitão queria logo empreender a descida para fazer um contorno. O tenente ponderou que seria indigno, pois  os do Norte  já haviam realizado a "conquista". É nessa hora que Angustina propõe um jogo de cartas, um dos mais belos momentos do romance de Buzzati, no qual se mostra toda a força alegórica da narrativa, bem como seu sentido existencialista profundo. Chamo atenção para este trecho:

"Havia, numa sala do forte, um velho quadro representando o fim do príncipe Sebastião. Mortalmente ferido, o príncipe Sebastião jazia no coração da floresta, apoiando as costas num tronco, com a cabeça um pouco largada para um lado, a capa recaindo em harmoniosas pregas; nada havia na imagem da desagradável crueldade física da morte; e olhando-se para ele não era de admirar que o pintor tivesse conservado toda a sua nobreza e extrema elegância.

Agora Angustina, ah, não que estivesse pensando nisso, assemelhava-se ao príncipe Sebastião, ferido no coração da floresta; Angustina não tinha como ele a brilhante armadura, nem a seus pés jazia o elmo ensanguentado nem a espada partida; não apoiava as costas num tronco, mas numa dura pedra; nem o derradeiro raio de sol iluminava-lhe a fronte, mas apenas uma fraca lanterna. No entanto, parecia-se muito com ele, idêntica a posição dos membros, idêntico o drapejo da capa, idêntica a expressão de cansaço definitivo.

Então, naquele momento, comparados a Angustina, apesar de serem bem mais vigorosos e ousados, o capitão, o sargento e todos os demais soldados pareciam rudes camponeses. Monti sentiu, embora parecesse inverossímil, nascer dentro de si uma admiração invejosa. [...]"

Num lugar onde o heroísmo guerreiro não se materializava, Angustina conseguiu demonstrar bravura de uma outra forma, lidando de frente com a morte em meio a um jogo de cartas, ainda que postiço, numa noite tempestuosa de neve. A coragem e o senso de dignidade mostram-se em episódios inesperados e, no caso desse personagem, emanadas de um sujeito a princípio desagradável.

. . . . . . . 

Mais do que o habitual, sinto-me doente nos últimos meses. Mental e emocionalmente, sobretudo. Em períodos assim, retorno a certos livros que me absorvem completamente; livros que busco para tentar me reconciliar comigo mesmo e retomar minha condição de leitor verdadeiro. O magnífico trabalho de Buzzati é um deles. Devo falar de outro que tem uma importância parecida com a desse na próxima atualização.

___________________ 

¹ Encontro muitas vezes a grafia  Konstantinos Kaváfis  em textos em português relacionados a esse  autor. Mas também já vi  Constantino(s) Cavafis  ou Cavafe. Em material de língua inglesa, é comum encontrar a grafia  Constantine P. Cavafy  ou simplesmente  C. P. Cavafy.

² Infelizmente não tenho em mãos o livro Poemas, da Editora Nova Fronteira, no qual Paes publicou mais de 70 textos de Kavafis traduzidos (incluindo  À espera dos bárbaros ). Reproduzi o poema nesta postagem valendo-me de um breve artigo da professora Walnice Nogueira Galvão, disponível aqui: <https://jornalggn.com.br/cultura/a-espera-dos-barbaros-por-walnice-nogueira-galvao/>.   Acesso em 28/09/2026.

³ Todas as citações de O deserto dos tártaros incluídas nesta postagem são oriundas da tradução feita por Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade para a Editora Nova Fronteira (Rio de Janeiro, 2017, 6ª edição) 

 

BG de Hoje

Nos últimos dois meses, tenho ouvido este petardo dilacerante sempre que posso:  Blow Up The Outside World, do SOUNDGARDEN. Poucas canções têm conseguido me ajudar a suportar os dias de merda que ainda estão por vir.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Continuo estagnado


Neste espaço, como declarei noutras oportunidades, tento evitar ser excessivamente confessional. Por quê?

Tem a ver, em parte, com a modorra que a banalidade costuma me provocar. Um grande número de pessoas no mundo - falo de gente comum e que, oxalá, não esteja em zonas de guerra ou com dificuldade de acesso a alimentos e a condições materiais básicas de sobrevivência - experimenta quase as mesmíssimas situações dia após dia: passa por aborrecimentos no trabalho ou no trânsito; fica contente por ter comprado uma bugiganga qualquer ou por ter obtido um pequeno triunfo (como, sei lá, viajar para um destino turístico muito desejado, concluir um curso, etc.); gosta de contar coisas sobre os filhos, ou sobre a(o) parceira(o), ou simplesmente fofocar; aflige-se com variados problemas de saúde sobre os quais sente necessidade de falar a respeito às vezes, e por aí vai. Naturalmente, sou assim também. Mas não me sinto confortável com isso. Esse desconforto é uma das razões pelas quais tenho tanto interesse na ficção (sobretudo) literária, porque nela, graças à infusão do trabalho artístico, as miudezas da vida se transfiguram. Deixo de me sentir afogado no mundano (sem ter que fugir para o misticismo ou para a religião), pelo menos enquanto dura a fruição do texto (ou, noutras ocasiões, a fruição de um filme, de uma série). Por mais discrepante que pareça, não é raro que excelente literatura (a obra de Dalton Trevisan, de João Antonio e de Alice Munro, entre muitos outros, me vêm à memória agora) nasça daquilo que nada tem de épico ou extravagante. Só assim, filtrada pela arte, a banalidade torna-se apetecível para mim. No geral, detesto  "ser arrastado em minha imaginação para o mundo pegajoso da vida doméstica de algum ser humano próximo",  como escreveu certa vez o romancista Jonathan Franzen (e que já mencionei aqui). Não acho razoável, portanto, que uma outra pessoa - o(a) eventual leitor(a) - se afunde no meu lodo privado. Daí o pouco interesse em "me abrir".

A indisposição para escrever textos excessivamente confessionais tem a ver também com uma constatação feita já há bastante tempo: vivemos hoje em dia saturados com a exposição da privacidade/intimidade de trocentos indivíduos com os quais não temos nenhuma relação direta. As mídias (redes) sociais provocaram uma inundação de relatos pessoais, muitas vezes carregados de egolatria e autoindulgência, feitos tanto por celebridades de fama planetária quanto por reclusos  zé-ninguéns.  Esse "espírito" das mídias sociais extrapolou a internet e contamina quase tudo. Sendo curto e grosso: o que eu ganharia jogando um pouco mais de visco nesse imenso brejo da privacidade/intimidade (quase) ilimitadamente exposta?

Não estou sendo completamente sincero, porém. Ainda que na maioria das postagens publicadas no  Besta Quadrada  esteja tratando de literatura, música pop ou filosofia, no fundo, no fundo, acabo falando de mim mesmo. Posso ser indireto, maquiar a escrita dos mais variados jeitos, sapecar aqui e ali citações e excertos de livros (um expediente comum deste blog, como já expliquei, por exemplo, aqui), mas uma das intenções subjacentes ao ato de postar, talvez a principal, é pura e simplesmente me gabar, sem ter por onde - "olhe, eventual leitor(a), como sou intelectualizado e afável!" (pelo menos na superfície). 

Apesar dessa vaidade boba, até este momento, restava-me o consolo de não me exceder na pessoalidade. Restava. Tenho sentido nas últimas semanas muita necessidade de desabafar, de botar para fora minhas angústias e aflições íntimas, parte delas relacionadas ao nada auspicioso momento político em que vivemos, com a apavorante força que a extrema direita vem demonstrando no Brasil e no resto do mundo.

Mas partir, a essa altura do campeonato, para o puro desabafo comprometeria todo o esforço de anos que venho fazendo neste blog. 

Estou bastante perdido. Tentando recuperar o prumo.

Não sei mesmo o que fazer. 

A pausa vai continuar. Isso está acabando comigo.

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Falou e disse...

 "O reacionário é uma figura política radical que segue à risca a lógica que o nome aponta - ele vai reagir. Vive obcecado pelo propósito de executar uma ação destrutiva, violenta e robusta contra os perigos que ameaçam uma sociedade como consequência da manifesta tendência da vida moderna à democratização. Sua capacidade de mobilização é alta no ambiente político de uma comunidade em que cada indivíduo está por sua própria conta, não confia no outro e se apega exclusivamente aos pequenos núcleos de natureza privada, como os familiares ou religiosos. Nenhuma democracia resiste por muito tempo à perda generalizada do sentimento de confiança interpessoal e, nessa circunstância, o reacionarismo adquire uma potência de engajamento e mobilização surpreendente graças, sobretudo, ao uso de retórica e à moldagem de um conjunto de argumentos com aparência lógica fortíssima - mas fictícia". *

* STARLING, Heloisa Murgel. Brasil, país do passado. In: STARLING, Heloisa M.; LAGO, Miguel; BIGNOTTO, Newton. Linguagem da destruição: a democracia brasileira em crise. São Paulo: Companhia das Letras, 2022. p. 70-119 (o excerto acima está nas páginas 76-77) 

terça-feira, 30 de junho de 2026

Pausa (de novo)




A última vez foi em setembro de 2024.

Não estava conseguindo redigir nada minimamente passável para o  Besta Quadrada  e decidi, naquela ocasião, dar uma pausa na atividade  bloguística  (como já havia feito em setembro de 2021 e em maio de 2018). 

Agora, de novo, não vejo outra solução: é necessário parar.

Vem de longe a dificuldade para "administrar" minha depressão, acompanhada desse persistente sentimento de solidão e exílio. Para piorar, outra disfunção surgiu nos últimos dois anos - tenho passado um tempo excessivo e insalubre diante de telas (smartphone, computador, TV). Vício, não há outro termo. Está difícil escrever.

Preciso ganhar força, reunir disposição, desanuviar a mente. Enquanto isso não acontece, melhor fechar para balanço.

Espero voltar o mais breve possível.


BG de Hoje

O álbum  Such Pretty Forks in the Road,  de ALANIS MORISSETTE, foi lançado alguns meses após a OMS declarar a pandemia de COVID-19 em 2020. Devido às regras e protocolos de distanciamento social estabelecidos, a artista não conseguiu divulgar o trabalho pelos meios costumeiros (por exemplo, indo presencialmente a programas de TV). No entanto, uma performance da faixa  Ablaze,  que faz parte desse álbum, nunca vai sair da minha memória. Numa participação no  Tonight Show  de Jimmy Fallon, Morissette interpretou a canção diretamente de sua casa (junto com os integrantes de sua banda, cada um em seu respectivo local). Sua filha, Onyx (na época com apenas 4 anos), ficou o tempo todo em seu colo e a mãe, em alguns momentos, conversou carinhosamente com a criança, sem interromper a apresentação. Foi lindo (infelizmente, não consigo mais achar esse vídeo no Youtube).  Ablaze  é dedicada aos filhos de Morissette e mesmo um cara amargo e desesperançado como eu, que nunca se imaginou tendo as minhas próprias crianças, não fica indiferente à emoção emanada pela canção.

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Primeira leitura: Mulheres empilhadas, de Patrícia Melo


 

A jornalista e apresentadora de TV alemã Dunja Hayali relatou que ela e Dirk Peglow, chefe da Associação Federal dos Detetives Alemães, receberam ameaças após a grande repercussão de uma das falas do policial numa entrevista transmitida no mês passado pela TV pública ZDF, onde Hayali trabalha (veja matéria da  Deutsche Welle  a respeito).

"Agora há homens que não criticam o aumento da violência contra as mulheres, mas, em vez disso, expressam fantasias violentas e ameaças de violência contra meu entrevistado e contra mim", disse a jornalista noutro veículo de mídia germânico. 

Qual foi a declaração dada pelo detetive que provocou as reações hostis? 

Após ser perguntado por Hayali que conselho ele daria às mulheres diante do aumento de 8,5% verificado em 2025 nas ocorrências de estupro e agressões sexuais (resultando na morte da vítima em vários casos), Peglow respondeu: "Melhor não entrar num relacionamento com um homem".  E acrescentou:  "Se entrar, o risco é muito maior de se tornar vítima de violência física ou psicológica".

Mais tarde, procurado pelo popular tabloide  Bild,  o policial virou um sabonete: "Minha fala foi obviamente um exagero. Não significava um conselho a ser seguido literalmente. A maioria esmagadora dos homens não é violenta nem criminosa".

Não consigo deixar de notar como as pessoas estão perdendo a capacidade de lidar com usos indiretos (conotativos, irônicos ou metafóricos) da linguagem. A competência linguística das pessoas parece estar encurtando. A advertência e a provocação implicadas no conselho de Peglow ("vejam a que ponto as ações brutais de muitos homens estão chegando" ) não foram captadas  (o que explica, em parte, o rebuliço subsequente); muitos interpretaram-no como uma disposição de criminalização  in totum  dos homens, praticamente obrigando o detetive a "prestar esclarecimentos" no  Bild. Mais grave ainda, esse episódio também demonstra a permanência de uma apavorante recusa, por determinados grupos e por numerosos indivíduos, em sequer falar a respeito ou abordar (muito menos enfrentar de modo efetivo) a violência contra a mulher. As ameaças que se seguiram à entrevista expõem ainda mais a amplitude do problema.

De minha parte, muito antes de cruzar com essa notícia, já estava convencido há um certo tempo de que, diante de tantas ocorrências de assassinatos, abusos sexuais, agressões no ambiente doméstico, estelionatos sentimentais e outros crimes, as mulheres, para sua própria proteção, deveriam verdadeiramente evitar relacionamentos amorosos/íntimos com homens (este blogueiro não é exceção; embora não tenha cometido crime, já fiz merda e nada garante que não venha a fazer de novo). Grande parte dos espécimes masculinos humanos não é confiável. Pior, tende a cometer atrocidades. O conselho do detetive alemão - mesmo se interpretado sem a intenção provocativa - me parece bastante razoável.

Em  Mulheres alteradas, a promotora de justiça Carla Penteado fala algo nesse sentido, durante uma conversa com a narradora. Ela comenta que seu irmão, estudante de medicina, após um certo tempo frequentando as aulas de anatomia, passou a vomitar com frequência, provavelmente uma forma de reação ao contato repetitivo com os cadáveres e as partes seccionadas de seus corpos. Carla então diz ¹:

"De um jeito diferente  [...],  eu também tive o meu momento de vomitar a morte quando passei a trabalhar com esse monte de mulheres assassinadas. Porque é impressionante: isso aqui parece uma fábrica de pão quente. Morremos em escala industrial. Só que em vez de vomitar, como meu irmão, eu não conseguia mais me relacionar com homens. Homem para mim virou um negócio meio estranho, sabe? Tipo inimigo? Agora, depois de muito tempo, estou fazendo test-drive. Testo um, testo outro. Sempre com um pé atrás. Sempre com meu porrete do lado da cama. [...]  Melhor precaver".

Devido à premência de sua temática principal - ainda mais quando se constata que, no primeiro trimestre deste ano, a cada cinco horas e 25 minutos um feminicídio foi registrado no país -,  pode-se ter a impressão de que o romance de Patrícia Melo acabou de chegar às livrarias, mas seu lançamento, na verdade, se deu em fins de 2019. 

Trata-se de um trabalho ficcional daqueles que vão direto ao ponto. Um tanto doloroso em vários momentos. A romancista mais uma vez coloca sua literatura a serviço do destrinchamento da violência brasileira (além dos ataques dirigidos às mulheres, aborda-se também a opressão que aflige as comunidades indígenas). Em participação no   Paiol Literário  do jornal Rascunho  há poucos anos ², Melo observou:

"É muito difícil você entender o Brasil de hoje sem entender a violência. O Brasil é um país muito violento. Na Europa, quando você fala que o Brasil tem 60 mil homicídios por ano as pessoas não acreditam ³ .  É uma guerra civil. A gente mata mais do que determinados países em guerra. Essa sempre foi uma questão estrutural na minha literatura. Sempre me interessei pelo fenômeno da violência. Sempre tentei entender por que o Brasil se transformou em um país tão violento. Há muitas respostas para isso. Essas respostas não são conclusivas, são muito abertas e estão em todos os livros que tenho escrito". 

A narrativa de  Mulheres empilhadas  - conduzida por uma jovem advogada paulista que viajou até Cruzeiro do Sul (Acre) para acompanhar o julgamento de diversos casos de feminicídio - exprime-se por meio de três segmentações do texto ordenadas diferentemente e com algumas alterações gráficas: ora enumerando casos - reais - de assassinatos de mulheres noticiados pela imprensa (como o de Tatiane Spitzner e o de Engel Sofia Pironato ) ; ora desenvolvendo a trama que amarra todo o livro, grande parte dela estruturada em torno do crime que resulta na morte de Txupira, uma adolescente indígena; e, por fim, contando as alucinações da personagem central, após participar de rituais de ayahuasca, nas quais um grupo de guerreiras logra vingança contra os homens que ferem e matam. Agredida com um tapa por um (então) namorado, além de ter que lidar com a memória e os efeitos emocionais e psicológicos relacionados ao cruel acontecimento do passado que vitimou sua mãe, a narradora, após uma semana acompanhando os julgamentos no tribunal de Cruzeiro do Sul, conclui:

" [...] nós, mulheres, morremos como moscas. Vocês, homens, tomam porre e nos matam. Querem foder e nos matam. Descobrem nossos amantes e nos matam. São abandonados e nos matam. Arranjam uma amante e nos matam. São humilhados e nos matam. Voltam do trabalho cansados e nos matam.

E no tribunal, todos dizem que a culpa é nossa. Nós, mulheres, sabemos provocar. Sabemos infernizar. Sabemos destruir a vida de um cara. Somos infiéis. Vingativas. A culpa é nossa. Nós é que provocamos. Afinal, o que estávamos fazendo ali? Naquela festa? Àquela hora? Com aquela roupa? Por que afinal aceitamos a bebida que nos foi oferecida? Pior ainda: como não recusamos o convite de subir até aquele quarto de hotel? Com aquele brutamontes? Se não queríamos foder? E bem que fomos avisadas: não saia de casa. Muito menos à noite. Não fique bêbada. Não seja independente. Não passe daqui. Nem dali. Não trabalhe. Não vista essa saia. Nem esse decote. Mas quem disse que seguimos as regras? Vestimos minissaias. Decotes que vão até o umbigo. E shorts enfiados no cu. Abusamos. Entramos em becos escuros. Temos nossas bocetas ligadas na tomada. Extrapolamos. Trabalhamos o dia inteiro. Somos independentes. Temos amantes. Gargalhamos alto. Sustentamos a casa. Mandamos tudo para o caralho. O curioso é que não matamos. Incrível como matamos pouco. Deveríamos, dadas as estatísticas do quanto morremos, matar muito mais. Mas, por algum problema talvez glandular, talvez estrutural, talvez ético, talvez físico, preferimos não matar. E assim, acabamos jogadas num terreno baldio, como a Chirley. Por insubordinação. Somos picadas e enterradas, como Ketlen. No quintal. Por desobediência. É isso que eu vi naquela semana".

 

Na mesma conversa publicada no jornal  Rascunho,  a romancista falou a respeito de seus objetivos e intenção ao escrever o livro:


"Queria juntar essas notícias 
[de feminicídios e outras violências de gênero]  que estão fragmentadas  [nos veículos de mídia e mesmo através de relatos interpessoais]  e fazer uma coisa que fosse como uma punhalada, uma facada. Tinha esse projeto estético. Pensava como iria espetar o leitor. Até na busca das palavras, queria palavras pontudas. Queria um estilo meio facada".

Ela também declarou que a tarefa acabou adquirindo um contorno político:

"Você começa a ter toda essa informação  [sobre a violência contra a mulher e seus desdobramentos] nas pesquisas, então é claro que isso te pega racionalmente, emocionalmente, e se transforma em um projeto político. Em um ato de resistência. Não quis em nenhum momento ser panfletária, mas quis ser política. Quis berrar um problema na cara das pessoas. Não sei se consegui, mas minha intenção foi essa".

Penso que não haveria outra maneira de escrever um livro em torno de um tópico tão hediondo - assassinatos de mulheres, muitas vezes por motivos absolutamente vis e executados com acentuada selvageria - que não fosse obrigando o leitor a sentir-se desconfortável, berrando sobre o problema em sua cara.

Nos  Agradecimentos  ao final do volume, Patricia Melo revela que o romance partiu de um convite feito por suas editoras, solicitando uma história com protagonismo feminino. Ela cita diversas pessoas, com ocupações profissionais diferentes, que tiveram algum papel ou prestaram algum auxílio na realização de  Mulheres empilhadas. Não se tratou, portanto, de um empreendimento que dependeu apenas da imaginação da escritora. Já tendo publicado mais de uma dúzia de trabalhos (literatura e dramaturgia), além da considerável experiência como roteirista, Melo amarrou tudo satisfatoriamente, inclusive tornando possível a quem lê mover-se pela narrativa como numa história do tipo "como resolver o mistério?" (no caso, o esclarecimento das outras mortes que se seguiram ao estupro, tortura e assassinato de Txupira, bem como a explicação mais oculta para o seu homicídio). NOTA: Frequentemente definida como autora de romances policiais, Patrícia Melo costuma recusar esse rótulo.

 

Para terminar, sugiro ao(à) eventual leitor(a) o artigo Nova descida ao inferno: Patrícia Melo e as mulheres que matam, de Ieda Maria Magri, publicado na Revista de Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, da UnB (nº 62). Trata-se de uma análise bem mais severa e profunda do que minha postagem (afinal, a articulista, além de escritora e crítica literária, é também professora da UERJ). Vale a pena.

_______________

¹ MELO, Patrícia.  Mulheres empilhadas.  São Paulo: LeYa, 2019 

² Paiol Literário do jornal  Rascunho,  publicado na edição 260 (dezembro de 2021). Disponível em:  <https://rascunho.com.br/paiol-literario/patricia-melo/>. Acesso em: 29/04/2026. Há também o vídeo com a conversa completa no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=_TnSoEJ8-9E

³ Contudo, de acordo com dados do Ministério da Justiça, a quantidade de assassinatos, considerando todos os tipos em conjunto, tem caído; se em 2017, chegou-se a 60 mil, em 2025, foram cerca de 34 mil. De todo modo, ainda é um número bastante alto. Fica próximo ao  do México, por exemplo, um país em que se registram, com alguma frequência, diversos conflitos entre cartéis de narcotraficantes e entre estes e forças de segurança ou militares. Também é maior do que o número de civis mortos em quatro anos do confronto armado decorrente da invasão da Ucrânia  pela Rússia (estimativa da ONU) . 

BG de Hoje 

IZA pertence àquela categoria de cantoras que, aparentemente, não precisam fazer força alguma para nos arrebatar com um vozeirão impressionante. Eu digo isso desde a primeira vez que ouvi esta irretocável versão dela para  I Put a Spell on You.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

A esquisita noção de dever em Sargento Getúlio

 

Seria possível encontrar algum traço de virtude no personagem Sargento Getúlio?

Estou me referindo à sua índole, a despeito de se tratar de um ser ficcional - dos mais memoráveis, diga-se de passagem, da literatura brasileira produzida a partir da segunda metade do século passado, em minha opinião.

Eticamente falando, trata-se de um sujeito abominável. Sem exagero, um monstro.

Portanto, para responder a pergunta acima, será necessário antes examinar as noções de  virtude  que comumente aceitamos.

Consultando o  Dicionário Básico de Filosofia,  de Japiassú e Marcondes ¹, encontramos três acepções: 1)  "qualidade ou característica de algo, uma força ou potência que pertence à natureza de algo";  2)  "qualidade positiva que faz com que  [o indivíduo]  aja de forma a fazer o bem para si e para os outros"  (cita-se a diferença de concepção existente entre Platão e Aristóteles, pois o primeiro considerava-a uma faculdade inata e o segundo, um atributo que pode ser adquirido); 3)  "a força da alma ou do caráter",  na filosofia moderna.

Sobre essa ultima acepção, o verbete acrescenta:  "Nesse sentido moral,  [a virtude]  designa uma disposição moral para o bem: 'A virtude é a força de resolução que o homem revela na realização de seu dever' (Kant). As  virtudes  designam formas particulares dessa disposição para o bem: a coragem, a justiça, a lealdade".

As definições acima não estão muito distantes das que se encontram nos dicionários convencionais e nem batem de frente com nosso entendimento usual. A partir delas, concedemos que agir com virtude, agir virtuosamente, é praticar o bem. Contudo, nenhum leitor de  Sargento Getúlio  hesitaria em apontar a crueldade como uma das principais características do personagem-narrador. Teria cabimento, então, falarmos de  virtude  numa discussão sobre esse livro?

É, parece que não. Mas pretendo continuar insistindo, pensando sobretudo na primeira acepção reproduzida parágrafos acima - "qualidade ou característica de algo, uma força ou potência que pertence à natureza de algo".

No prólogo, composto por duas frases apenas, João Ubaldo Ribeiro escreveu ²:

"Nesta história, o Sargento Getúlio leva um preso de Paulo Afonso a Barra dos Coqueiros.
É uma históra de aretê".

O termo  aretê  (ou, noutros textos,  areté : a grafia em grego é ἀρετή) costuma ser traduzido como  virtude,  principalmente nas versões em língua portuguesa da obra de Aristóteles, se eu não estiver enganado. Seria essa a interpretação definitiva do vocábulo?

No artigo  Os conceitos de nobreza, riqueza e valor em Homero ³, Adriana Santos Tabosa, (hoje professora na Universidade Estadual de Feira de Santana) faz as seguintes observações:

"Segundo W. Jaeger, o conceito de  areté  não pode ser interpretado simplesmente como virtude. O sentido de virtude não comporta a ideia de  areté  dos antigos gregos. O sentido de  areté  para os antigos gregos compreendia, sobretudo, uma força, uma capacidade. O vigor e a saúde são a  areté  do corpo. A sagacidade e percepção são a  areté  do espírito. Não é possível conciliar estas concepções com o sentido usual de virtude. A segunda acepção de  areté  significa respeito e prestígio. Em seu sentido original, o termo designava um valor objetivo naquele que qualificava, uma força que lhe era própria, que constituía a sua perfeição.  Areté,  ainda segundo Jaeger, é o atributo próprio da nobreza. O homem comum não possui  areté. Se o escravo pertencesse a uma família de estirpe, Zeus tirava-lhe metade de sua  areté. Os antigos gregos consideravam a destreza e a força a base de qualquer posição dominante. Nobreza e  areté  eram inseparáveis. O termo em grego  aristocratía  é originário da mesma raiz de  areté ".

Espero que o(a) eventual leitor(a) tenha notado que o sentido de  areté  como sendo  "uma força, uma capacidade"  vai ao encontro da noção de virtude ressaltada por mim anteriormente como podendo ser  "uma força ou potência que pertence à natureza de algo".  Nesse caso, então, poder-se-ia tratar de um força, uma capacidade, uma potência  não necessariamente benévola.

Em determinado momento da sua longa falação, Getúlio proclama:

"Olhe, eu sou um homem diferente, mas não diferente do jeito que você pensa, mas eu sou diferente porque me sinto diferente, é uma coisa. Posso dizer uma coisa que pensei lá no padre, mas escute calada [a fala é direcionada para Luzinete, com quem se envolvera noutro tempo e em cuja moradia ele estava nesse momento da narrativa], porque, se der risada, eu lhe dou uma porrada: eu sou Getúlio Santos Bezerra e meu pai era brabo e meu avô era brabo e no sertão daqui não tem ninguém mais brabo do que eu. E eu dou murro na testa do carneiro que aparecer e o carneiro morre. E tem mais coisas, mas eu não digo agora. Essas coisas eu acho que não se fala, talvez. Hum, não adianta. Eu sou eu. Meu nome é um verso: Getúlio Santos Bezerra, e de vez em quando eu penso que, não tendo ninguém melhor do que eu, tudo que pode me acontecer é melhor do que os outros. Hum. Não sei, acho que eu penso demais, não adianta".

E acrescenta:

"Não tem ninguém por trás de mim, essas alturas. Mas sendo eu mais do que qualquer coisa, porque eu sou eu e fui criado assim, pode acontecer tudo, que esse traste eu levo para Aracaju arrastado. Eu disse que levava, e levo e tiro de eito tudo, estou lhe dizendo. Depois pode ser o que for, não é preciso cascavilhar esse Sergipe inteiro atrás de mim, que eu estou livre e homem e quero ver, porque o pior que pode me acontecer é eu morrer e isso não é o pior. Pior é ser pataqueiro em qualquer engenho. Pior é não ser ninguém, mas lá no padre eu vi, quando conversei com os homens e Amaro estava com aquela ferramenta apontada dentro da igreja, eu vi o que é que eu sou, e eu sou eu, e por isso que eu vou levar esse animal e ninguém me empata, que se me empata eu destruo".

O personagem enxerga a si mesmo como uma  bizarria,  uma singularidade (  "eu sou um homem diferente" ;   "eu sou eu";  "ninguém melhor do que eu"  ). Em certo sentido, um  aristos  (grosso modo, alguém "melhor do que os outros"), mesmo que não passe de um jagunço/capanga, miserável que usa a farda da Polícia Militar sergipana, simples peão no duro jogo político de seu meio e de sua época. Para Getúlio, duas coisas importam mais do que tudo: destacar-se como alguém destemido e cumprir a missão dada (nesse caso, após tê-lo capturado, entregar o preso, custe o que custar), uma vez que empenhou a palavra diante do chefe, Acrísio Antunes:

"Tinha minha missão, isso tinha. E fiz. Tinha minha vida, isso também, e vivi, e se me perguntasse quer viver uma vida comprida amofinado ou quer viver uma vida curta de macho, o que era que eu respondia? Eu respondia: quero viver uma vida curta de macho, sendo eu  e mais eu e respeitado nesse mundo e quando eu morrer se alembrem de mim assim: morreu o Dragão. Que trouxe mortandade para os inimigos, que não traiu nem amunhecou, que não teve melhor do que ele e que sangrou quem quis sangrar".

Se não é possível para Getúlio ombrear-se em tudo com os heróis das epopeias homéricas, pode-se ao menos reconhecer nele o mesmo desejo de uma vida breve mas glorificada por suas pelejas, lembrada mesmo após a morte (Aquiles, na Ilíada, não ansiava por outra coisa). 

Chegamos ao ponto de controvérsia desta postagem. 

Quero lembrar ao(à) eventual leitor(a) que estamos falando de uma criação literária.

Getúlio é extremamente violento, desapiedado, sem remorsos (assassinou à faca a própria companheira grávida porque não queria "ser corno"). Um bronco incapaz de debelar a própria ignorância (já ciente de que, por ordem, deveria libertar o preso, mas decidido a não fazê-lo, dispara:  "O que eu não entendo eu não gosto, me canso [...]  Não gosto que o mundo mude, me dá uma agonia, fico sem saber o que fazer"  ). Mas é forçoso reconhecer nele determinação (alguns talvez prefiram falar em teimosia), além de coragem e um esquisito senso do dever. Tudo isso compõe a sua aretê.

Acabei de escrever  "esquisito  senso do dever", mas não estou tão seguro assim de toda essa esquisitice.

Bem, se estivermos pensando no  dever  dentro de um concepção kantiana, como o grande fundamento da ação moral  -  "age somente de acordo com aquela máxima, pela qual possas ao mesmo tempo querer que ela se torne uma lei universal" / "age como se a máxima de tua ação devesse tornar-se mediante tua vontade a lei universal da natureza"  ⁴  -, o personagem em discussão passa longe. Muito longe.

Porém, quando levamos em conta códigos arcaicos vigentes em áreas interioranas do Brasil onde o coronelismo ainda grassava (convém mencionar que a história de  Sargento Getúlio,   embora tenha vindo a público em 1971, ambienta-se na década de 1950), baseados na palavra dada e na fidelidade canina de alguns sicários para com seus chefes (certamente Acrísio Antunes livrou Getúlio da cadeia e ainda colocou-o no serviço policial), o termo  dever,  um dos sinônimos de  obrigação,  não soa tão estapafúrdio assim. 

E, não há como negar, é a pequena odisseia no cumprimento desse dever que proporciona a matéria narrada dessa novela/romance.

_______________

¹ VIRTUDE. In: JAPIASSÚ, Hilton; MARCONDES, Danilo. Dicionário básico de filosofia. 4 ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2006. p. 278.

² RIBEIRO, João Ubaldo. Sargento Getúlio. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2021. 

³ TABOSA, Adriana Santos. Os conceitos de nobreza, riqueza e valor em Homero. Hypnos, São Paulo, n, 26, 1º semestre 2011, p. 160-169. Disponível em: <https://hypnos.org.br/index.php/hypnos/article/view/230>   Acesso em: 21/04/2026

⁴ Essas citações de Immanuel Kant foram extraídas do livro Textos básicos de filosofia, de Danilo Marcondes (Jorge Zahar Ed, 2007, 5ª edição)

 

BG de Hoje

Daria tudo para ver a reação de alguém que fez parte do PINK FLOYD (particularmente a de David Gilmour) assistindo ao vídeo abaixo! Esta interpretação de  Have a Cigar,  pelo grupo norte-americano THE MAIN SQUEEZE, é de cair o queixo! Na primeira vez que vi, admito, meus olhos ficaram cheios de lágrimas (não estou mentindo). Acrescentou-se à canção um pouco mais de groove, mas não houve um afastamento radical da versão original. Tudo perfeitamente azeitado. O solo final tocado pelo guitarrista Maximillian Newman, entretanto, transformou essa apresentação numa coisa de outro planeta. A esse respeito, reproduzo aqui um dos comentários feitos lá no Youtube: "I’ve watched this cover a billion times over the last few years. I can’t tell you how, but I almost cry everytime during the guitar solo. You think it’s gonna end then the energy just picks up even harder than before. Freakin sick".

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Como se fosse, mas não é.

Se tem uma coisa que pessoas bem de vida, isto é, pessoas sem aflições relacionadas à falta de recursos financeiros, evitam fazer ao máximo é se misturar com a gentalha, como sempre preconizou Dona Florinda (uma pobretona que não se enxerga, é bem verdade, mas isso não invalida minha proposição). As infames DCEs (dependências completas de empregada), existentes em milhares de residências consideradas de luxo, não me deixam mentir, bem como os elevadores de serviço, que, a despeito de algumas iniciativas legislativas para coibir atos discriminatórios, ainda são usados para separar a "ralé" dos patrões nalguns edifícios por aí, em áreas ditas nobres.

Talvez o(a) eventual leitor(a) se lembre. Em agosto de 2010, a  Folha de S. Paulo  reproduziu a fala de uma moradora de Higienópolis, bairro da capital paulista, a respeito da (então) possibilidade da construção de uma estação de metrô na avenida Angélica, uma das mais importantes naquela área. Segundo a reportagem, a cidadã dissera o seguinte:  "Eu não uso metrô e não usaria. Isso vai acabar com a tradição do bairro. Você já viu o tipo de gente que fica ao redor das estações do metrô? Drogados, mendigos, uma gente diferenciada...".  A declaração fez um certo rebuliço, inspirando até o nome de um protesto/evento marcado no Facebook, chamado "Churrascão da gente diferenciada", cujo objetivo era reclamar do cancelamento da obra na avenida Angélica, que havia sido anunciado pelo governo estadual na época. Procurada algum tempo depois, a moradora em questão alegou que o jornalista com quem conversara teria se enganado ao atribuir a ela a expressão  "gente diferenciada".

Em minha percepção, usa-se o adjetivo  diferenciado,  na maioria das vezes, como forma de elogiar algo ou alguém. No bate-papo futebolesco, por exemplo, ouve-se muito a expressão  jogador diferenciado,  querendo dizer com isso que se trata de um desportista acima da média, com características que o tornariam superior aos demais em certos aspectos. A moradora de Higienópolis, contudo, tinha em mente outros sentidos - também vigentes, mas não tão favoráveis - do adjetivo:  diferente, desigual, destoante. 

Destaquemos o último: destoante do quê?  

Ora, os indivíduos que, de acordo com a distinta senhora, ficam ao redor das estações de metrô ( drogados, mendigos  e outros) não estariam afinados com Higienópolis, bairro de casas e apartamentos caros, onde reside uma turminha com um bocado de grana, formada por indivíduos  não-diferenciados,  portanto, indivíduos que não destoam, não são diferentes, não são desiguais  em relação à  nobreza  do lugar (segundo deve pensar a moradora, especulo).  "Eu não uso metrô e não usaria" , enfatiza ela, de início, marcando a distância do populacho. Não importa o quanto a obra possa favorecer o deslocamento dos funcionários, prestadores de serviço, babás e diaristas que trabalham na região mas vivem noutros bairros da imensa metrópole que é São Paulo (incluindo os municípios adjacentes):  se eu e outros iguais a mim aqui em Higienópolis não fazemos uso,  consigo imaginar a sua lógica,  uma estação de metrô para quê?  Ah, o velho desprezo da burguesia (e suas classes-satélites) por tudo o que diz respeito à vida coletiva... 

Ao ler  Joias de família,  novela/romance ¹ de Zulmira Ribeiro Tavares (Editora Companhia das Letras, 2007), não pude deixar de recordar esse episódio da  gente diferenciada.

Graças à hábil construção dos dois parágrafos de abertura, o leitor consegue obter de imediato o delineamento da figura central da narrativa e do ambiente no qual esta se encontra instalada:

"Maria Bráulia Munhoz, no nono andar de seu apartamento no Itaim Bibi, prepara-se para o almoço. A mesa está posta para duas pessoas: ela e o sobrinho. A toalha sobre a mesa redonda, pequena, é de linho branco adamascado e no centro há um lago também redondo e pequeno, de espelho. Sobre a superfície do espelho pousa um cisne de Murano.

Maria Bráulia - de velhice definida mas idade não declarada, com movimentos seguros e rápidos, acompanhados de tapinhas, faz aderir ao rosto o seu segundo rosto, o 'social', de pele entre o rosa e o marfim, boca e face rosadas. Os cílios com rímel espevitam o azul dos olhos e atiçam o amarelo pintado dos cabelos. Com o rosto social mais uma vez encenado, o outro, o estritamente particular, recua, como acontece todas as manhãs, e é esquecido imediatamente por sua dona. Um rosto que de tão pouco visto por terceiros adquire a mesma modéstia do corpo murcho; e assim, trazê-lo à luz do dia, sustentá-lo sobre o pescoço como se fosse a coisa mais natural do mundo (o que vem aliás exatamente a ser), exibi-lo para  algum outro, ainda que muito íntimo, como o sobrinho, lhe pareceria um ato da mais absoluta e indesculpável falta de pudor".

Prenome (em geral, composto) imediatamente seguido de sobrenome: é assim que os  bem-de-vida  costumam se dar a conhecer - atestando a origem, a estirpe (embora, no caso de Maria Bráulia, seja possível  interpretar o sobrenome Munhoz  como uma espécie de downgrade, já que proveio do falecido marido, um "simples" juiz, nem de longe tão endinheirado quanto a família de nascimento dela). A residência é no Itaim Bibi: de acordo com matéria publicada pela  Forbes  no início deste ano, o terceiro m² mais valorizado do país (R$ 19.468, preço médio). Mencionar a pequena escultura do cisne de Murano não é fortuito: para além de ser mais um símbolo de status, a peça artesanal veneziana terá importante valor de representação no decorrer da trama.

A necessidade de se maquiar (mais como um  disfarce ), o apego ao  rosto "social",  mesmo dentro de sua residência e diante de um parente, são a primeira expressão de alguns dos temas centrais do livro: a impostura e a falsidade.

Certamente há muito a se dizer a respeito da protagonista, mas gostaria de destacar nesta postagem uma personagem secundária: uma outra Maria, a empregada doméstica.

Maria Firmina trabalha há anos para a família de Maria Bráulia, a Dona Brau, desde o tempo em que a proprietária do apartamento no Itaim Bibi morava com a mãe e a irmã noutro endereço. Um costume, resquício escravista - hoje menos disseminado, ainda bem - entre os ricos brasileiros: arranjar uma moça pobre, muitas vezes ainda na adolescência e quase sempre negra, para limpar, lavar e cozinhar em suas residências, pagando uma ninharia (o trabalho sem pagamento também ocorre). Entre tantas  Marias  (contando as patroas e outras empregadas), Firmina acabou virando a  Maria Preta, uma forma de diferenciação. É a própria doméstica que dá essa explicação (sem fazer conta do quão racista é a alcunha), em conversa com a sobrinha-neta e afilhada, que veio visitá-la, vindo de Santos: Benedita se prepara para fazer o vestibular e também trabalhar na casa de Maria Altina, a irmã de Dona Brau.

Reparemos este diálogo, após a visitante cumprimentar a patroa da tia-avó:

"- Meu Deus, Dita! Bene [Maria Preta havia contado à Maria Bráulia que a afilhada agora preferia o apelido Bene ]... o que houve com você? Mudou de cor?
- Deixei de tomar sol, dona Brau. Só isso.
- Quer ficar branca?
- Não tenho mais tempo de ir à praia, dona Brau. 
Maria Preta parece um pouco aflita. Fala um tanto apressadamente, de novo, engolindo as palavras, os olhos espertos, por trás dos óculos de aros dourados, de lá para cá:
- Não é mais aquela negrinha magricela que a senhora conheceu pequetita assim não é mesmo, dona Brau?
Maria Bráulia balança a cabeça divertida, muito, muito divertida:
- Não é mais magricela, não é mais negrinha, estou vendo. Você arrumou uma linda cor de caramelo Dita, Bene, Benedita. Tenha juízo heim? Vai fazer estragos em muitos corações.
Benedita permanece muda.
Quando Benedita de despede e lhe dá as costas de volta para a cozinha Maria Bráulia repara no seu traseiro duro e empinado, nas duas bolas que sobem e descem quando ela anda. 'Maria Altina vai ter que dar um jeito nisso', pensa. Isso é lá derrière que se apresente numa sala? Vai ter de lhe enfiar uma cinta, ou então um uniforme com saia larga, ou uma batinha sobre... O pensamento na sequência de operações necessárias para modificar a parte mais orgulhosa e independente de Benedita a reconforta muito".

Como as três personagens se colocam na situação? Benedita entra no modo  "poucas ideia" ; Maria Preta mal consegue disfarçar a intranquilidade; Maria Bráulia, aceitando a palavra da voz que narra, diverte-se. Por quê? Talvez esteja segura de que, mesmo com as mudanças vistas na jovem sobrinha-neta da empregada, cada uma vai continuar no seu quadrado: o lugar de cada uma dentro da estratificação social não mudará  (o de Maria Bráulia, uma pessoa branca ainda por cima, certamente não, no tempo que lhe restar de vida).

O humor e a ironia são um ponto a se destacar na prosa de Zulmira Ribeiro Tavares. Não se trata, é bom que se diga, de comicidade rasgada, piadista. A graça é sutil, mas nos pega de imediato, como, por exemplo, no ridículo ritual, mantido pela protagonista, de molhar as pontas dos dedos numa vasilha com água perfumada, coberta com uma pétala de rosa, ou no episódio em que nos é revelada a homossexualidade do juiz Munhoz. Na primeira parte da novela, encontramos outra dessas pinceladas sagazes:

"Maria Preta é discreta mas não é surda; e o apartamento é pequeno. Maria Preta é como se fosse da família. Em algumas circunstâncias isso quer dizer exatamente o que enuncia: que Maria Preta é como se fosse da família. Em outras, que Maria Preta não é como se fosse da família, uma vez que não é da família, é apenas 'como se fosse' ".

Mais uma vez, conto com a rememoração do(a) eventual leitor(a). Em 2023, veio a público um caso emblemático das barbaridades que ainda caracterizam parte do serviço doméstico no Brasil. Sônia Maria de Jesus foi resgatada após mais de 40 anos de trabalho análogo à escravidão - sem qualquer remuneração, recolhimento de contribuição previdenciária ou direito legal ao descanso (o STJ, contudo, acabou determinando que ela retornasse ao convívio de quem a explorou). Sônia saiu de casa aos nove anos de idade, indo viver, na época, com a mãe da atual patroa, que é casada com um desembargador (!) de Santa Catarina. A defesa deles alegou que havia um vínculo especial e era como se Sônia  "fosse da família"  (após a repercussão do caso, eles entraram com um pedido de paternidade socioafetiva). Os filhos biológicos do desembargador e sua esposa cursaram a escola regularmente, mas Sônia é analfabeta. Em vários períodos dormia e comia isolada numa instalação fora da residência principal. Não aparece nas comemorações nem nas fotos de eventos sociais com a família da qual supostamente é parte. Nunca lhe foi oferecida qualquer assistência pelo fato de ser surda (nunca aprendeu LIBRAS). Situações como a dessa mulher negra demonstram  "uma forma de exploração profundamente marcada pela herança escravista que desenhou o espaço doméstico brasileiro, e pela confusão entre afeto, favor e relação de trabalho", como observou a pesquisadora e professora de Direito do Trabalho Maria Carolina Fernandes de Oliveira (confira aqui).

Até onde o leitor pode chegar através do texto, seria falso dizer que a Maria Preta de  Joias de família  e Sônia Maria de Jesus têm a mesma trajetória. Mas há pontos em comum. Tanto no caso real quanto na construção ficcional, ninguém pode fugir do script. Maria Preta e Sônia nunca foram da família. É sempre  como se fosse. Dentro desta hierarquia social, para que tudo permaneça em "ordem", cada um precisa saber o seu lugar, tanto os privilegiados quanto os desfavorecidos. Aproveito a ocasião para sugerir ao(à) eventual leitor(a) revisitar aquela fantástica sequência da piscina envolvendo Jéssica, Val, Bárbara (a patroa) e o filho desta, Fabinho, no filme  Que horas ela volta?.

Claro que o componente racial não podia ficar de fora nessa necessidade de hierarquização e diferenciação. Em certo ponto da novela de Tavares, Maria Bráulia ouve um barulho de água caindo no piso de um dos cômodos próximos:

"Logo se dá conta: é aquela negrinha sonsa  [Benedita]  que só porque desbotou um pouco pensa que já é branca. Sempre que chega é o mesmo aguaceiro. Vai gastar toda a minha água da caixa com o tamanho desse banho".

Estou ciente que aspectos fundamentais de  Joias de família  ficaram de fora dessa minha abordagem (não fiz sequer uma alusão ao rubi sangue-de-pombo ou ao cabochão). A intenção, porém, era refletir sobre uma das formas como a hipocrisia é tratada no livro. E o enfoque na relação patroa-empregada me pareceu atrativo.

Talvez, noutra oportunidade, volte a essa narrativa.

Na próxima postagem, vou me ocupar de  Sargento Getúlio,  de João Ubaldo Ribeiro. 

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¹ Muitas vezes não é tão fácil, como pode parecer a princípio, classificar um texto como  novela  em vez de  romance  e vice-versa (a mesma dificuldade pode acontecer na hora de estabelecer se determinado trabalho seria um  conto  ou uma  novela ). Joias de família, lançado originalmente em 1990 pela Editora Brasiliense e republicado em 2007 pela Companhia das Letras, em geral, é classificado como romance. Pessoalmente - e peço perdão pela petulância -, entendo-o mais como uma novela. E não é pelos discutíveis critérios da extensão do texto ou do número de páginas do volume. A meu ver, o livro de Zulmira Ribeiro Tavares (autora falecida em 2018) não apresenta as ramificações narrativas que costumam caracterizar os romances. Nem preciso dizer que ser uma novela não significa, em termos de qualidade artística, ser menos que um romance (só para constar,  Joias de família  venceu o Prêmio Jabuti em sua categoria em 1991): estou aqui apenas conjecturando em relação às distinções de um gênero literário/narrativo em relação ao outro.


BG de Hoje 

Não costumo me orgulhar do Brasil ou de ser brasileiro (OK, podem me chamar de vira-lata; sem embaraço, visto a carapuça). Mas sinto uma pequena alegria, digamos, ufanista, toda vez que escuto uma das composições da dupla JOÃO BOSCO e ALDIR BLANC. A obra desses caras, tantas vezes, resume tão bem a cultura e a musicalidade brasileiras, além do uso que fazemos da língua portuguesa, de um jeito que outros artistas, igualmente talentosos, não conseguiriam fazer se tentassem. Constate-se, ouvindo  Boca de sapo.  Isso, sim, dá orgulho. OBS: A canção já foi interpretada por Clementina de Jesus e Zeca Pagodinho, boas versões, mas nenhuma, em minha opinião, é melhor do que a faixa cantada unicamente pelo próprio João Bosco, gravada no álbum  Linha de Passe  (1979).