quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Após uma leitura de 1984, matutando sobre memória, linguagem e (in)compreensão da realidade

Atualizado às 20h05 do dia 25/02/2026 ]


Todos que já leram (e muitos dos que apenas ouviram falar de)  1984  conhecem o termo  duplipensamento

Na criação literária de George Orwell, o Partido que tudo rege precisa forjar um passado conveniente ao seu sistema de dominação - "quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente controla o passado"  ¹ : eis o lema a ser seguido. Afirma-se que os fatos antigos  "não têm existência objetiva e que sobrevivem apenas em registros escritos e nas memórias humanas. O passado é tudo aquilo a respeito do que há coincidência entre registros e memórias". Cria-se, então, um corpo de funcionários, pertencentes ao Ministério da Verdade (onde, a propósito, trabalha Winston Smith, o protagonista do romance), cuja função é reescrever e falsificar a história.

Um dos objetivos dessas ações é preparar terreno para o duplipensamento :  

"Garantir que todos os registros escritos estão de acordo com a ortodoxia do momento é um mero ato mecânico. Mas é necessário  lembrar-se  que os fatos se passaram da maneira desejada. E caso seja necessário reorganizar nossas memórias ou alterar os registros escritos, também será necessário  esquecer  que o fizemos. O modo como se produz isso pode ser aprendido, como qualquer outra técnica mental. E ele  é  aprendido pela maioria dos membros do Partido: certamente por todos os que são ao mesmo tempo inteligentes e ortodoxos. Em Velhafala isso recebe o nome muito direto de 'controle da realidade'. Em Novafala é o  duplipensamento,  embora o termo  duplipensamento  também abranja muitas outras coisas.

Duplipensamento  significa a capacidade de abrigar simultaneamente na cabeça duas crenças contraditórias e acreditar em ambas".

Tem-se visto que é muito mais difícil manter grandes magotes de pessoas na rédea se apenas a violência física for empregada (isso não quer dizer, obviamente, que o chicote deixará de estalar, como demonstra o notável personagem O'Brein, no livro de Orwell, e como podemos perceber facilmente no mundo à nossa volta). Para alcançar uma submissão mais ampla, o opressor, além da força bruta, precisa agir também sobre a mente e a psique dos indivíduos, fazendo com que o jugo se dê cada vez mais "naturalmente", para que haja uma "aceitação" da parte do subjugado (a persuasão coercitiva - "lavagem cerebral", em termos mais toscos - pode ser um dos recursos utilizados, bem como estratégias de condicionamento). Em  1984,  o romancista enfatiza as ações da tirania sobre as  memórias, tanto as particulares, que dizem respeito a cada sujeito, quanto a supraindividual, ou seja, aquela memória resultante de uma construção social e coletiva do passado. O regime totalitário representado pelo Grande Irmão compreende perfeitamente a imperativa necessidade de agir sobre as produções que poderíamos chamar de receptáculos dessa memória:

"Esse processo de alteração contínua  [do que está registrado]  valia não apenas para jornais como também para livros, periódicos, panfletos, cartazes, folhetos, filmes, trilhas sonoras, desenhos animados, fotos - enfim, para todo tipo de literatura ou documentação que pudesse vir a ter algum significado político ou ideológico. Dia a dia e quase minuto a minuto o passado era atualizado. Desse modo era possível comprovar com evidências documentais que todas as previsões feitas pelo Partido haviam sido acertadas; sendo que, simultaneamente, todo vestígio de notícia ou manifestação de opinião conflitante com as necessidades do momento eram eliminados. A história não passava de um palimpsesto, raspado e reescrito tantas vezes quantas fosse necessário. Uma vez executado o serviço, era absolutamente impossível provar a ocorrência de qualquer tipo de falsificação".

O exercício contínuo e metódico para fraudar documentos e remodelar obras de arte visava corroer um dos principais meios para discernir a realidade. Embora, em  1984,  os membros do Partido fossem os mais diretamente afetados por essa contrafação, os assim chamados  proletas (no original, proles, redução de proletariat ) não experimentavam melhor sorte, atados à esfera de ignorância e distração destinada para estes, mesmo que parcialmente fora da implacável vigilância projetada para aqueles.

A tarefa de destruir a capacidade das pessoas de reconhecer e descrever o mundo real (e, portanto, também a destruição de sua capacidade para intervir nesse mesmo mundo) se completará com o embotamento da linguagem, convertendo-a numa funcionalidade comunicacional estreita e reducionista . 

Valorizo especialmente esse aspecto do romance de Orwell ²

No capítulo 5 da Parte 1, somos apresentados a um personagem que ilustra bem as intenções do Partido com a criação da Novafala  (ou  Novilíngua,  como se encontra em outras traduções) : um inteligente filólogo chamado Syme, que trabalhava no Departamento de Pesquisas.

"Que coisa bonita, a destruição de palavras!",  exclama ele, conversando com Winston durante o almoço no refeitório coletivo. Em sua explicação,   "Todo conceito de que pudermos necessitar será expresso por apenas  uma  palavra, com significado rigidamente definido, e todos os seus significados subsidiários serão eliminados e esquecidos", completando:  "Menos e menos palavras a cada ano que passa, e a consciência com um alcance cada vez menor"

Membro ortodoxo e dedicado do Partido, o estudioso da linguagem só consegue ver vantagem em tudo isso:

"Toda a literatura do passado terá sido destruída. Chaucer, Shakespeare, Milton, Byron existirão somente em suas versões em Novafala, em que, além de transformados em algo diferente, estarão transformados em algo contraditório com o que eram antes. A literatura do Partido será outra. Os slogans serão outros. [...]  Todo o clima de pensamento será diferente. Na realidade não haverá pensamento tal como entendemos hoje".

No refeitório, os dois acabam reparando num sujeito sentado na mesa ao lado, "falando sem dar trégua aos companheiros". Era "praticamente impossível distinguir uma só palavra na torrente de ruídos que jorrava da boca daquele homem". Ainda assim, dava para saber, por alto, o teor do que ele dizia: repetições de lugares-comuns do discurso habitual do Partido. Olhando para o sujeito, 

"Winston teve a estranha sensação de que aquele não era um ser humano de verdade, mas alguma espécie de simulacro. O que falava não era o cérebro do homem, era sua laringe. O material que ele produzia era formado por palavras, contudo não era fala no sentido lato: era um ruído emitido sem a participação da consciência, como o grasnado de um pato".

(Não é raro, no botequim que costumo frequentar, próximo à minha residência, deparar-me com alguns fregueses que agem da mesma maneira, ecoando ininterruptamente frases prontas a que foram submetidos diuturnamente, pelo '"Zap", como forma de reforçar suas visões de mundo...).

Dentro da Linguística contemporânea existe o entendimento de que a linguagem não tem apenas a função de descrever e espelhar o mundo: ela também constrói e confere sentido à realidade, ultrapassando o papel de mero instrumento de comunicação. Além disso, é possível perceber como a linguagem  molda  o pensamento humano (ainda que não o determine exclusivamente), bastando observar os diversos usos que fazemos dela. As reflexões de George Orwell estão em sintonia com essa convicção, sobretudo quando, no Apêndice de  1984,  ele deixa bem claro que "A Novafala foi concebida não para ampliar, e sim restringir os limites do pensamento  [...] "

Nesta terceira década do século XXI, olhamos ao nosso redor e constatamos que não é um grande regime totalitário de alcance internacional erigido em torno de uma única organização partidária que está colocando fatos históricos já consolidados em dúvida ou desbaratando a linguagem e, consequentemente, enfraquecendo, a cultura (aqui, como sinônimo de conhecimento). O duplipensamento e a novafala hoje são propagados de maneira difusa, recebendo um tremendo impulso graças às ações dos  "anjos tronchos do Vale do Silício",  como cantou o Caetano Veloso.  

O escritor norte-americano Thomas Pynchon escreveu um prefácio para uma edição especial de  1984,  que saiu em 2003 (esse texto foi incluído, agora como um dos posfácios, na edição brasileira de que me vali nesta postagem). Das análises da distopia orwelliana que já pude ler (não foram tantas assim), o texto de Pynchon é a melhor (a  Folha de S. Paulo publicou-a no extinto caderno  Mais!,  disponível aqui). Observemos o seguinte excerto:

"O que talvez seja mais importante - mais ainda, necessário - para um profeta é a capacidade de enxergar mais fundo na alma humana do que a maioria dos mortais. Em 1948  [ano de finalização do livro],  Orwell compreendeu que apesar da derrota do Eixo, a vontade fascista não havia desaparecido; que, longe de ter sido extinta, ela talvez estivesse apenas começando a se afirmar; que a corrupção do espírito e o irresistível vício do poder já estavam havia muito estabelecidos, constituindo aspectos bem conhecidos do Terceiro Reich e da União Soviética stalinista, até mesmo do Partido Trabalhista britânico  [da época de Orwell] - apenas rascunhos de um futuro terrível. O que poderia impedir que a mesma coisa acontecesse na Grã-Bretanha e nos EUA? A superioridade moral? As boas intenções? Uma vida pura?

O que foi melhorando progressiva e insidiosamente de lá para cá, tornando quase irrelevantes os argumentos humanistas, foi, é claro, a tecnologia. Pouco importa que sejam rudimentares os métodos de vigilância utilizados na era de Winston Smith. No nosso 1984, afinal, o circuito integrado ainda não tinha dez anos de idade e era de um primitivismo quase constrangedor se comparado com as maravilhas da tecnologia de informática de 2003, principalmente a internet, uma invenção que promete controle social numa escala que aqueles antiquados tiranos do século XX, com seus bigodes ridículos, nem sequer poderiam imaginar".

Presenciamos na atualidade, dentro da web, além do incessante vasculhamento por informações privadas e captação de dados pessoais, a perigosa equivalência dos discursos: dentro da lógica algorítmica orientada pelo lucro, a fala responsável de um especialista ou pesquisador ganha menos projeção que a estridência leviana de um bufão extremamente popular. É cada vez mais difícil construir consensos: afinal, para um contingente significativo de pessoas, só existem "narrativas", criadas para favorecer este ou aquele segmento e, portanto, vale tudo para fazer predominar os interesses particulares de ocasião. Num contexto de empobrecimento da linguagem, quem detém poder - sobretudo econômico - conseguirá manipular milhões de indivíduos e torná-los semelhantes àquele verborrágico sujeito que chamou a atenção de Winston e Syme no refeitório. Isso sem falar nos milhares de O'Breins treinados para manter essa disparidade (mas isso é assunto para uma outra postagem futura).

__________________ 

¹ Todas as citações de  1984  reproduzidas nesta postagem foram retiradas da tradução de Alexandre Hubner e Heloisa Jahn, publicada pela Editora Claro Enigma (um selo da Companhia das Letras) em 2010.

² Além desses dois aspectos - a adulteração das memórias e a formulação de uma linguagem regulamentada primária e estéril  -, o livro evidencia ainda a disposição daquele regime totalitário de exaurir o desejo sexual, mas discutirei esse aspecto noutra ocasião, ao incluir outros textos literários. 

BG de Hoje

Das grandes maravilhas possibilitadas pela internet, agrada-me, particularmente, o acesso quase ilimitado à produção musical pregressa. Quando eu era jovem, não havia chance de ouvir, satisfatoriamente e em número suficiente, os(as) cantores(as)/compositores(as)/bandas que aguçavam minha curiosidade ou aqueles(as) que eram reputados(as) como importantes influências para outros artistas: naquela época, era inimaginável comprar a quantidade de álbuns desejada e os meios difusores então disponíveis - rádio e TV, praticamente - concentravam-se naquilo que representava sucesso comercial garantido, com raras exceções (bem, para ser franco, as empresas voltadas para a comunicação de massa nunca deixaram de impingir a homogeneização do gosto, seja antes ou depois do advento da web). Atualmente, porém, consigo mergulhar com facilidade (e baixíssimo custo) na discografia de cantores(as)/compositores(as)/bandas cujo prestígio era a única coisa que havia chegado até mim, pois nunca tivera a oportunidade de escutá-los(as) pra valer. E há também o prazer de ouvir, como numa descoberta, artistas que apareceram décadas atrás, dos quais eu não tinha a menor noção de que existiam. Nos últimos dias, "descobri" o som do FANNY, um pioneiro grupo de hard rock integrado por quatro mulheres na cidade de Los Angeles, nos anos 1970. Abaixo,  Seven Roads, faixa de encerramento do primeiro disco da banda.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Abrir mão

Estava assistindo, há uns dias, um vídeo no Youtube sobre formatos de narrativas humorísticas e um dos comentários chamou atenção para algo que eu não estava mesmo me dando conta. Mais ou menos, dizia o seguinte (o comentário original estava escrito em inglês):  "Frequentemente nos esquecemos que Bill Watterson ainda está vivo.  Calvin e Haroldo  surgiram há 40 anos; não é uma coisa tão antiga assim". 

O quadrinista norte-americano completou 67 anos em 2025. Não é possível saber muito mais a respeito do que anda fazendo ou de seu estado de saúde porque Watterson, a despeito de ter se notabilizado por  tirinhas publicadas em jornais, sempre foi arisco em relação à imprensa e à mídia em geral. Após uma pausa de quase três décadas, ele lançou  em 2023  Os mistérios,  trabalho em parceria com outro ilustrador, John Kascht, uma graphic novel bem diferente de sua criação mais conhecida. Depois disso, voltou ao recolhimento na pequena cidade em Ohio onde vive.

Assim como um montão de gente mundo afora, adoro  Calvin e Haroldo  (pena que, na adaptação para o português brasileiro, o tigre perdeu o nome  Hobbes ). Poucas vezes um trabalho quadrinístico publicado para milhões de pessoas conseguiu atingir tal apuro, em proporções iguais, tanto no texto quanto na imagem (o desenho do Calvin correndo ou as caras de irritação de seus pais estão entre as coisas mais legais que já vi em quadrinhos). O escritor Nevin Martell, autor de um livro sobre a tirinha, não hesita em chamá-la de "uma das maiores obras da cultura popular do século XX". Concordo inteiramente.


Dias atrás tinha em mãos  Calvin e Haroldo: o livro do décimo aniversário  (Editora Conrad, 2013). Nessa coletânea, além da reprodução de diversas tirinhas feitas em épocas diferentes, encontramos vários comentários de Bill Watterson  sobre algumas delas e também observações suas sobre a composição dos quadrinhos, seu processo de criação e outros assuntos. É nessa coletânea também que o autor explica por que, a despeito do êxito nas páginas dos jornais e nos livros, nunca permitiu que seus personagens aparecessem em mercadorias variadas (peças de roupa, brinquedos, caixas de cereais, etc.) ou fossem adaptados para a televisão ou o cinema. Escreve ele: "Eu sou provavelmente o único quadrinista do mundo que lamenta o sucesso alcançado por seu trabalho. A maioria aceitaria de bom grado a exposição, o dinheiro e o prestígio associados ao licenciamento".
 
Qual o problema do licenciamento, de acordo com o artista?
 
"Quando o quadrinista licencia seus personagens, sua voz é cooptada pelos interesses de fabricantes de brinquedos, produtores de programas televisivos e publicitários. A função do quadrinista deixa de ser a de um pensador original - sua tarefa passa ser a manutenção de seus personagens como mercadorias lucrativas. Os personagens em si se tornam 'celebridades', vinculando sua imagem a empresas e produtos e evitam qualquer atitude controversa, dizendo apenas aquilo que é determinado por quem os paga. Quando chega a esse ponto, a tira perde sua alma. Com sua integridade perdida, esses quadrinhos perdem seu significado mais profundo".
 
Não sei você, eventual leitor(a), mas considero o posicionamento de Watterson muito surpreendente. E também algo para se admirar.
 
Uma imensidão de pessoas, principalmente nos EUA, país do quadrinista, crê que o acúmulo de recursos financeiros e a busca por lucro constante são a finalidade primordial, propósitos naturais e inquestionáveis, de qualquer ser humano na face da Terra. Essa crença, nem precisaria dizer, é essencial para a, digamos, doutrina  que rege as vidas de grande parte da população mundial há séculos. Decidir-se por não seguir o caminho do  dinheiro-acima-de-tudo  é quase sempre visto como coisa de maluco.
 
Estamos aqui falando de quadrinhos, uma forma de arte - assim como a fotografia e o cinema - nascida na era da reprodutibilidade técnica, para usarmos os termos de Walter Benjamin. Uma arte, portanto, endereçada para o consumo das massas. Colocada numa simples página de jornal (pensando no suporte tradicional da tirinha de quadrinhos), objeto do cotidiano facilmente descartável, muitos poderiam dizer, sem qualquer hesitação, que não haveria mesmo nenhum tipo de  aura  a ser postulada. O quadrinista, porém, está aqui defendendo sua obra como manifestação artística legítima. Não seria muita pretensão dele?,  alguém pode estar se perguntando.
 
Talvez por faltar-lhe o esnobismo que costuma revestir as artes plásticas, a música erudita e a literatura experimental/de vanguarda, os quadrinhos ainda têm dificuldade para superar a pecha de criação para consumo ligeiro e muitos enxergam a rápida comercialização como seu único valor. Talvez também por isso, muitos quadrinistas nunca viram problema em negociar a exploração comercial mais ampla de seus personagens; afinal, seria só mais um desdobramento (o mais lucrativo, aliás) de seu trabalho : Jim Davis, por exemplo, deve ter ganhado um bom dinheiro com os produtos licenciados de  Garfield  e até  Peanuts, de Charles Schulz (um dos trabalhos que influenciou Watterson, segundo ele próprio), estampa diversos produtos (anteontem vi uma moça segurando um caderno cuja capa mostrava um desenho de Snoopy e do Charlie Brown).
 
"Em uma era em que tudo é transformado em mercadoria, essas minhas objeções ao licenciamento não encontram muitos defensores", lê-se no livro que mencionei acima. Na recusa a tratar seu trabalho unicamente como objeto de comércio, contraria-se a lógica da sociedade de mercado, postura muito rara de se ver, tão acostumados estamos a não tentar outro caminho que não seja o do  dinheiro-acima-de-tudo (e, para ser honesto com o(a) eventual leitor(a), eu mesmo não paro de pensar em grana).
 
Há também o amor-próprio derivado da condição de artista: "Quando uma coisa divertida e mágica é transformada em mercadoria, o mundo fictício criado na tira só tem a perder. Calvin e Haroldo foram criados para ser personagens de uma tira de quadrinhos, e é só isso que eu quero que eles sejam. É a única forma em que tudo se harmoniza conforme meu desejo", acrescentando mais à frente:
 
"Tenho muito orgulho do fato de escrever cada palavra, desenhar cada traço, aplicar cada cor das tiras dominicais e pintar eu mesmo todas as ilustrações que saem nos livros. A minha tira é uma empreitada solitária de baixa tecnologia, e é assim que eu quero que seja".
 
É muito difícil encontrar alguém que, diante da escolha entre uma montanha de grana e a observância de seus próprios padrões morais e de seu ideário estético, abra mão do enriquecimento. Acredito que Watterson tenha sido bem remunerado pelo seu trabalho e essa remuneração foi considerada suficiente. Ele não é nenhum herói ou, por outro ângulo, também não é nenhuma vítima da ganância sistêmica (e pode ser inclusive uma pessoa detestável, não tenho como saber), mas acho sensacional a sua resolução :  parar de produzir sua tirinha, no auge do sucesso, resistindo aos apelos mercadológicos que tentariam obrigá-lo a gerar o máximo de lucro possível. Como ele mesmo escreveu: "Quem pensa que pode ser levado a sério como artista usando os protagonistas de suas tiras para vender cuecas está claramente se iludindo".
 
Antes de terminar, gostaria de voltar a essa discussão do estatuto dos quadrinhos como expressão artística, lembrando uma declaração de Quino, proferida há mais de dez anos: "não acredito que Mafalda ultrapasse as fronteiras da história e se transforme em algo parecido com a música de Mozart". OK, é possível isso não acontecer, mas não creio que, por essa razão, suas tirinhas sejam mais "esvaziadas" de arte do que outras criações. O quadrinista e cartunista argentino, falecido em 2020, costumava dizer que a menininha contestadora e sagaz criada por ele era só mais um desenho, avaliação que faz os muitos fãs da tirinha ficarem bem desgostosos. "Eu sou como um carpinteiro que fabrica um móvel" - disse ele - "e Mafalda é um móvel que fez sucesso, lindo, mas para mim continua sendo um móvel, e faço isto por amor à madeira em que trabalho".  Na primeira metade da década de 1970, Quino parou de inventar novas histórias de Mafalda (e de Manolito, Susanita e os outros personagens daquele conjunto) quando chegou a conclusão de que não havia nada mais a dizer (que fosse artisticamente relevante), sendo esse também um dos motivos que levou Bill Watterson a encerrar  Calvin e Haroldo  nos anos 1990. Consigo imaginar a insistência de editores ou de profissionais ligados a departamentos comerciais para que eles continuassem a produzir, mas no fim prevaleceu o zelo dos artistas.
 
 
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Algumas cifras me deixam boquiaberto - e indignado. Na Índia, um país que está longe de ter uma população nadando em dinheiro em termos gerais, um megarricaço celebra um matrimônio com um custo de 18 milhões de dólares. Sou uma pessoa ingênua, mas vamos lá: é preciso tudo isso? Não se consegue viver confortavelmente com menos grana e ainda assim continuar sendo podre de rico? É tão indispensável assim gastar uma fortuna inacessível para 99% da população mundial numa festa de casamento? 

Nunca se atinge uma quantia de dinheiro acumulado que se possa considerar suficiente? Será sempre assim: mais, mais, mais e mais? Faço essas perguntas com a franqueza de quem sempre entendeu o quanto ter dinheiro é fundamental para o bem-estar no mundo em que vivemos.
 
Já escrevi noutras oportunidades que sou incapaz de sentir esperança em relação a qualquer coisa. Pensar sobre a decisão artística e profissional de Bill Watterson não altera essa disposição. Mas ajuda a aguentar um pouquinho mais dentro das trevas.

BG de Hoje

Lenny Kravitz gravou  Rock and Roll is Dead em 1995. Marilyn Manson lançou sua  Rock is Dead  em 1998. Uma canção critica a superficialidade de alguns artistas, mais preocupados com a imagem do que com a música em si; a outra reclama da apatia e do conformismo que dominaram o gênero em determinado momento. Para minha diversão, porém, sou muito mais o obituário da dupla TENACIOUS D (lançado em 2012).

 

Este blog entra em recesso a partir desta semana e, se não houver nenhum contratempo, retornará em fevereiro de 2026. Ao(à) eventual leitor(a), boas festas!

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Sobre o jornalismo denominado progressista


 
Não sendo nada criativo, vou citar aqui uma frase famosa de Malcom X, muito lembrada quando o tema é a crítica ao jornalismo mainstream : “If you're not careful, the newspapers will have you hating the people who are being oppressed, and loving the people who are doing the oppressing.” [ "Se você não for cuidadoso, os jornais vão fazer você odiar as pessoas que estão sendo oprimidas e amar as que estão oprimindo" ]
 
Cada vez menos pessoas no mundo de hoje, claro, adquirem e leem jornais de papel, mas a declaração do ativista norte-americano ainda é válida se entendermos que sua reprovação é direcionada às grandes organizações de imprensa, aquelas com maior alcance entre a população.
 
É necessário, para assentarmos bem a discussão de hoje, ter sempre em mente que a ComCast (dona da NBC, Telemundo e vários canais por assinatura), a Disney (proprietária, por exemplo, da ESPN e da rede de televisão ABC), a Warner Bros (que detém a CNN norte-americana), os canais e órgãos de imprensa controlados pelo Rupert Murdoch (por exemplo, The Wall Street Journal, The New York Post e Fox News), todas essas e outras empresas do tipo continuam nesse ramo de atividade não porque tenham como missão prestar um serviço de veiculação de notícias e fornecimento de informação ao público: sua real disposição é influenciar a esfera pública e moldar percepções, domesticando a audiência, além de promover tópicos e discussões favoráveis aos seus interesses comerciais e, sobretudo, aos de seus parceiros de negócios. Ainda que já saibamos disso, é preciso enfatizar sempre.
 
Mencionei acima corporações dos EUA (de alcance planetário, contudo), mas o mesmo vale para suas congêneres brasileiras, guardadas as devidas proporções. Grupo Globo e Grupo Folha à frente, seguidos por Bandeirantes, Record, Estadão, etc. ainda conseguem intervir fortemente no debate público para garantir que parte dos consumidores de notícias e informação adote posicionamentos favoráveis àquilo que é preconizado pelos proprietários dessas organizações e pelos figurões à frente dos mercados para onde a grana grossa sempre flui ¹
 
Noutras palavras: quem detém o maior poder econômico dita o direcionamento da mídia mainstream.  Não poderia ser diferente dentro do capitalismo. A mídia a serviço do capital - ou seja, um aparelho ideológico, se quisermos fazer um exibicionismo intelectual e sapecar um termo althusseriano - ainda tem a audácia de proclamar que o seu modo de fazer jornalismo retrata fielmente os acontecimentos do mundo, pois é aquele feito com mais profissionalismo, sobriedade e isenção (segundo a palavra dessas mesmas empresas, claro), sendo o único confiável. NOTA: Não seria sensato afirmar que a mídia dominante propaga, sistematicamente, na cara de pau, mentiras deslavadas (bem, deixemos de fora a Fox News...), mesmo que apresente falhas de apuração e de checagem eventualmente e possa, sim, agir de má-fé vez ou outra. Dá pra dizer, com a devida reserva, que essa mídia procura certificar-se da autenticidade dos fatos antes de produzir as notícias e, no geral, com maior ou menor adesão, o público aceita-a como um dos  explicadores  válidos dos acontecimentos. A questão problemática, no entanto, é a seguinte: grandes empresas de mídia não são instituições assépticas onde reinam a neutralidade e a imparcialidade (até porque tais "virtudes" jornalísticas são cada vez mais entendidas, inclusive academicamente, como mitos). Quando se presta a devida atenção, vê-se que a própria seleção das situações convenientes para o seu noticiário e a maneira como estas são apresentadas à audiência (ou seja, segundo a interpretação que essas empresas fazem da conjuntura) revelam ao lado de quem a mídia  mainstream  está. E ela não costuma inclinar-se na direção de quem é explorado e oprimido no capitalismo. 
 
Mais uma vez, não estou dizendo nada novo: boa parte de nós sabe que é assim que as coisas sempre foram. E, para piorar, durante muito tempo, não havia opções de iniciativas jornalísticas que apresentassem algo diverso para um público mais amplo.
 

Atualmente, entretanto, pode-se acessar, sem muita dificuldade, sites ou canais na web comumente chamados de  progressistas  - algumas vezes de  alternativos,  noutras de  independentes  - que servem de contraponto à mídia dominante, embora exerçam muitíssimo menos influência do que estaApesar de muitos deles não se apresentarem formalmente como  de esquerda, sabemos que sua linha editorial vai ao encontro de vários princípios ideológicos desse campo político. Pessoalmente, prefiro chamar esses projetos de  não hegemônicos  ou  não corporativos.  Para facilitar nossa exposição, contudo, no restante desta postagem, vou usar na maior parte das vezes o termo  progressista  (apesar de não ser o ideal) quando me referir a quem pratica esse tipo de jornalismo.

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De todas as áreas de atuação diretamente impactadas pela chegada da internet (e são inúmeras), o jornalismo está entre aquelas que mais sentiram o baque, com enorme dificuldade para se manter de pé enquanto tarefa passível de remuneração.

Indo direto ao ponto: são poucas as pessoas hoje em dia dispostas a pagar pelo trabalho do jornalista (seja o texto escrito, a gravação de áudio ou vídeo, fotografia ou filmagem exibidos ao público, seja a preparação desse material: pesquisa, apuração, produção, revisão, edição, etc.). A facilitação do acesso como uma das forças motrizes da web massacrou as redações: por que pagar para obter o conteúdo de jornais e outros veículos se, com uns poucos cliques, as notícias estão ali, de graça? Além disso, qualquer pessoa com o equipamento certo (e nem precisa ser muito sofisticado) consegue se  passar por  jornalista e divulgar o que faz nas diversas plataformas disponíveis: ser um profissional da área é dispensável, o que nos remete ao volume incomensurável de desinformação, mentiras e balelas (convencionalmente chamadas de  fake news ) circulando pra baixo e pra cima com aparência de comunicação jornalística legítima. Numa era em que a informação (indispensável ou acessória) encontra-se dispersa por todo lugar, estabelecimentos profissionais voltados para o jornalismo não têm mais qualquer primazia. Só para exemplificar: no momento, além do Rascunho (especializado em Literatura), sou assinante apenas do Nexo, que decidiu tentar se manter sem anúncios publicitários, contando somente com os valores pagos por leitores como eu. Entretanto, temo muito pelo futuro do jornal porque apenas 2,5% de seu público contribui financeiramente.

Essa atividade, outrora prestigiada, vem perdendo relevância social. As consequências disso são bem, bem ruins. 

O(a) eventual leitor(a) talvez esteja se perguntando: mas esse blogueiro miserável não disse acima que as grandes organizações de mídia têm forte influência na sociedade? Como é que o jornalismo está em dificuldades financeiras e perdendo valor?

Respondo observando que a GRANDE mídia - sustentada por gente muito rica, cujos ganhos astronômicos provém de outras áreas -, de fato, não sofre com essa situação. Repito o que escrevi anteriormente: a real disposição dessas empresas de mídia é influenciar a esfera pública e moldar percepções, domesticando a audiência, além de promover tópicos e discussões favoráveis aos seus interesses comerciais e, sobretudo, aos de seus parceiros de negócios. Se já não há mais tantas pessoas comuns dispostas a financiar o trabalho jornalístico, pouco importa para essas corporações: elas conseguem se sustentar graças a recursos oriundos de outras fontes. Veja o caso da  Folha de S. Paulo.  Seu número de assinantes não deve ser grande coisa hoje em dia, se comparado com o de algumas décadas atrás. A receita com anúncios pagos também não deve mais ser essa maravilha toda. Sem problema, porque o PagSeguro (ou PagBank), empresa do UOL que, por sua vez, está dentro do Grupo Folha, é bastante lucrativo, permitindo a manutenção do jornal. E mesmo que o número de leitores efetivos da  Folha  não seja significativo, o que se publica lá ainda consegue gerar burburinho, dados o tamanho e a relevância que o jornal já teve (e ainda tem, de certa forma). Veja o caso da Globo. O  Jornal Nacional  já não bate a audiência desfrutada nos anos 1980; o  Fantástico  é muito pouco visto; a  GloboNews  não tem tantos espectadores diretos assim. Pouco importa: pode-se manter tudo isso no ar porque o Grupo Globo continua lucrando muito com o entretenimento que produz, aliado à publicidade (e, não raro, mistura entretenimento e publicidade com jornalismo - infotainment -, uma tendência mundialmente disseminada, aliás). Ano passado, para completar, fechou parceria com uma gigantesca casa de apostas. Quem pode dizer que a Globo, inclusive seus programas de notícias, deixou de ser influente na sociedade?

Assim, não estou falando da mídia dominante quando me refiro a perda de relevância social do jornalismo. Para ela, o jornalismo nada mais é do que uma parte da estratégia comercial/empresarial; embora não assuma abertamente, na maior parte dos casos, o compromisso dessa mídia é com aqueles que detêm o grande capital, como afirmei acima. Os projetos não hegemônicos (ditos  progressistas ), estes sim vivem na periclitância e tal situação é danosa sobretudo para todos nós que estamos à mercê do poder econômico.

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Mas o que o jornalismo progressista tem oferecido, particularmente em nosso país?

Encontro exemplos de muito boa qualidade em alguns projetos que acompanho, bem como falhas e defeitos difíceis de contornar noutros deles. 

Começo destacando o De olho nos ruralistas. Produzido pela Associação Terra e Liberdade e coordenado pelo jornalista Alceu Luis Castilho, define-se como "um observatório do agronegócio no Brasil", tratando de temas que abrangem os impactos sociais e ambientais das empresas e entidades ligadas a esse setor gigantesco e poderoso da economia, incluindo desmatamento, expulsão de camponeses, comida com agrotóxicos e violação dos direitos dos povos indígenas. Ativo desde 2016, o  De olho nos ruralistas  mereceria aplauso simplesmente pela coragem de cobrir, de maneira crítica e incisiva, um segmento que sempre contou historicamente com a salvaguarda de membros do Legislativo, Executivo e Judiciário, além do beneplácito da mídia dominante - afinal, segundo a Globo,  o agro é pop  -, a despeito de todos os desmandos associados a ele. Além disso, o site é bem cuidado, de ótima navegabilidade e qualidade na escrita. Há também o canal no Youtube, mais dinâmico e compacto que o site, igualmente bem produzido (os pequenos relatos sobre a ação de lobistas da mineração, do agronegócio e do petróleo na recente COP30 ficaram muito bons).

Fundada em 2011, outro projeto bem feito é a Agência Pública. Apesar do nome, não tem vinculação com nenhuma esfera do Estado ou do poder público. Recursos provenientes de fundações privadas (entre elas, necessário informar, a Ford Foundation e, eventualmente, a Fundação Itaú) são o principal sustentáculo da  Pública  (que também precisa do apoio de aliados e doações de pessoas físicas). O foco do trabalho de sua equipe (formada em sua maioria por mulheres) é o jornalismo investigativo. Além dos ataques da direita, a agência costuma receber críticas da esquerda por causa das entidades que a financiam, mas, até onde posso julgar, as matérias publicadas demonstram muita independência (cito como exemplo, as várias reportagens e outras publicações tratando com apuro o temerário influxo dos evangélicos que pisoteiam a ideia de laicidade na política profissional/institucional).

Vejo também com bons olhos iniciativas como o ICL  (sigla para  Instituto Conhecimento Liberta,  uma expressão meio brega, que me desculpem os criadores). Fico com um pé atrás, porém. Seu fundador e principal divulgador é Eduardo Moreira. A suspeição nem é tanto por Moreira ter sido um operador de monta do mercado financeiro até anteontem, mas pela egolatria emanada por ele.  Esse sentimento de autoimportância pode ser indicativo de uma ambição pessoal imensa, ligada ao poder, em que toda essa  jogada  do ICL funcionaria como encenação. Paranoia? De todo modo, tanto o site de notícias quanto o canal do Youtube fazem, no geral, um bom trabalho. Apesar do tom pró-governo Lula na maior parte do tempo, jornalistas da casa ou colaboradores eventuais (como Cristina Serra) não têm problema em discordar e criticar determinadas ações da atual administração federal. Por exemplo: não se deixou de apontar a contradição e a impostura no discurso ambiental do governo ao insistir na exploração de petróleo na bacia sedimentar da Foz do Amazonas.

"Jornalismo de profundidade"  é o que o pessoal do Outras Palavras afirma estar fazendo. Na maior parte do tempo, essa promessa é cumprida. Composto praticamente de textos analíticos, o site faz uma aposta arriscada: artigos um pouco mais longos e mais complexos numa época em que a atenção das pessoas é cada vez menor.

Menções honrosas ainda para o  Brasil de Fato  , a velha  Carta Capital  e a revista  Fórum  (que vem oscilando ultimamente, porém, em termos de qualidade). Fora do Brasil, não posso deixar de citar o excelente Democray Now!, tanto o site quanto o canal

Quando voltar a este tema futuramente, vou me concentrar nos bons jornalistas que atualmente fazem um trabalho solo no Youtube, casos de Bob Fernandes, Álvaro Borba (que se autointitula um "Uber do conteúdo" ) e Nelson Garrone. Também quero escrever depois, mais detidamente, sobre a Mídia NINJA e a Ponte Jornalismo, cuja proposta de jornalismo vale ser discutida, embora eu não aprecie muito esse modelo.

Passemos agora aos empreendimentos cujo trabalho julgo inferior (e não chega a ser surpreendente que eles estejam entre os de maior alcance entre os progressistas).

Leio habitualmente o conhecido Diário do Centro do Mundo  ( DCM ) que consegue, por vezes, dar um bom enfoque para determinada questão ou assunto em evidência (e por isso ainda tem o seu lugar). A quantidade de desacertos, porém, é grande. Do ponto de vista gráfico, o portal é bem ruim e nada agradável em termos de navegabilidade. Boa parte do que aparece no site é meio  copia-e-cola : reproduções quase diretas de trechos de matérias publicadas noutros lugares, principalmente G1, UOL, BBC e no famigerado Metrópolis. Textos, digamos, da própria lavra não costumam se caracterizar pela boa escrita.  Desconfio também que o ChatGPT exerce papel crucial na elaboração de "matérias" sobre comida, automóveis, dicas de decoração e arrumação domésticas ou curiosidades como "Entenda por que o gato preto é associado ao azar e à bruxaria no Halloween"  (geralmente saem na seção intitulada  "Essencial" ) . NOTA 2: Para ser justo, o uso da IA nas redações mundo afora deve estar se tornando uma prática generalizada, pelo que representa em economia de tempo - e de pessoal. A esse respeito, sugiro a leitura da matéria  Parem as máquinas! A IA tem uma reportagem urgente,  publicada na  piauí  em agosto deste ano. Compreendo que é preciso dinheiro para funcionar, mas chega a ser constrangedor ver tantas publicações no  DCM  sobre crimes e violência urbana numa pegada bastante sensacionalista, além de fofocas sobre famosos ou subcelebridades, - como formas de atrair o clique dos leitores - num veículo que tantas vezes se coloca como a palmatória da mídia. Nos últimos meses, dois textos foram particularmente velhacos, com títulos propositalmente capciosos ou imprecisos: um deles era "Vacina, 5G ou agrotóxico: o que explica o aumento de câncer em jovens" e o outro, "A pequena mudança no app que deixou o Itaú centenas de milhões de reais mais rico".

Outro grande portal identificado como jornalismo progressista é o Brasil 247. Assim com o DCM, tem uma navegabilidade péssima. Pelo menos não produz tantos caça-cliques. Atua praticamente como porta-voz e assessoria de imprensa do governo Lula e de seu partido, com textos de opinião às vezes pejados de wishful thinking  (o comediante Tiago Santineli, assumidamente de esquerda, chegou a apelidar o Brasil 247 como "Jovem Pan do PT"). Entende-se que o governo da chamada  frente ampla , capitaneado pelo PT, é o que impediu a extrema direita neofascista de voltar à presidência da República e devo admitir que todos os projetos jornalísticos não hegemônicos já citados nesta postagem apoiam, com maior ou menor afinco, a atual administração federal. Mas o Brasil 247 vai além: simplesmente ignora as falhas de Lula e sua equipe e é incapaz de expor e assimilar as críticas (lembro-me, por exemplo, de que os pedidos feitos por aliados, solicitando a Lula a indicação de uma mulher negra para uma vaga no STF - que acabou, à época, sendo preenchida por Cristiano Zanin -, foram vistos por alguns colunistas do portal como tentativas de sabotar o governo!). Para completar, fico abismado com a quantidade de publicações por lá tratando de geopolítica, com autores(as) sem qualquer renome ou credenciais relevantes na área, muitos desses afirmando quase o tempo todo que a China é o paraíso na Terra.

NOTA 3: Cada um desses dois portais têm, adicionalmente, canais no Youtube, mas como não os assisto, limito-me a comentar apenas o que se publica nos respectivos sites. Mais uma coisa: talvez um dia escreva uma postagem exclusivamente sobre a deplorável incivilidade e grosseria de vários perfis na seção de comentários desses portais. E olha que são pessoas que costumam se achar moralmente superiores àquelas posicionadas no outro lado do espectro político...

Passar pelo DCM e o Brasil 247 também acaba sendo útil para percebermos como o  jornalismo declaratório  é uma das maiores pragas da comunicação hoje em dia (tanto na mídia mainstream quanto em alguns empreendimentos independentes). A simples reprodução de falas de figuras públicas (ou não tão públicas) apenas para preencher espaço no site ou gerar reações instintivas na audiência é praticada  a torto e a direito. Tal praga decorre de dois outros sintomas do enfraquecimento do jornalismo: o esvaziamento do papel do repórter e a raridade do trabalho investigativo.

. . . . . . .

Penso que a função de repórter, entre aquelas exercidas pelos(os) jornalistas, é a que consegue representar melhor a intrepidez que caracteriza (ou pelo menos deveria caracterizar) o(a) profissional do jornalismo. Sair a campo, às vezes em condições adversas, mas emocionantes; entrevistar pessoas que, dependendo das circunstâncias, correm risco ao falar com a imprensa; colher e reunir material e, após minuciosa averiguação, divulgar um furo ; publicar uma notícia, temendo represálias por esta apresentar denúncias contra gente poderosa ou colocar essas pessoas sob suspeição. Tudo isso faz parte da mística do(a) repórter.

Viabilizar um trabalho desses, contudo, não é barato. Mesmo reportagens banais e inocentes têm custos, a começar por coisas simples, como o deslocamento do(a) repórter ou da equipe até os lugares onde se deram os acontecimentos, por exemplo. Custos que os projetos progressistas não conseguem dar conta na maior parte das vezes. A mídia hegemônica conseguiria financiar grandes operações jornalísticas, mas quando esta decide investir em reportagens abrangentes, na imensa maioria dos casos, produz sondagens que, mesmo aparentando ser bombásticas, não incomodam os grandes controladores do capital, cujos atos de dominação e exploração seguem inabalados. Resultado: matérias relevantes para a maioria da sociedade não são realizadas e, ocupando seu lugar, o que temos é a hipertrofia do (preguiçoso) jornalismo declaratório (feito sob medida para o ambiente reativo das mídias sociais) e a supervalorização do jornalismo opinativo (que entrega mastigado para o leitor/espectador/ouvinte/internauta aquilo que ele "deve pensar").

Semanas atrás, no  Fantástico,  a experiente e capacitada repórter Sonia Bridi apresentou matérias sobre os efeitos das mudanças climáticas em lugares diferentes do planeta  (sim, eu sou uma das 118 pessoas que ainda assiste o  Fantástico ). Intitulada  Terra: ainda temos tempo,  a série de reportagens é uma espécie de continuação/atualização de outra, chamada  Terra: que tempo é esse?,  que foi ao ar 15 anos atrás, também no programa dominical da Rede Globo. Tudo muito bem filmado e produzido, uma maravilha em termos de apresentação, com a repórter  in loco  em todas as matérias (ou seja, houve custos também com passagens aéreas, hospedagem, deslocamentos por terra ou água, etc.). Pois bem. Sabemos que a criação de grandes rebanhos bovinos para abate leva ao desmatamento de áreas enormes no Brasil e o quanto isso repercute no aquecimento global e na alteração do ciclo hidrológico, isso sem contar os problemas causados por gases produzidos diretamente pelo metabolismo dos próprios animais. Pergunto: Bridi ou outro jornalista da Globo fará em algum momento uma reportagem ampla, incisiva, indo pra cima dos barões da pecuária e todo o seu lobby e forte influência política? Claro que não! A JBS é um tremendo parceiro comercial (a Seara, pertencente ao grupo, patrocina o BBB, a propósito) : não se fará nenhuma matéria que possa indispor tão poderosa corporação.

Dou outro exemplo. Bancos, operadoras de cartão de crédito e financeiras cobram juros escorchantes no Brasil há anos. Qualquer cobertura da mídia hegemônica nunca questiona o fundamento dessa usura. Solta matérias do tipo  Dicas para não deixar o nome sujo na praça   e ficamos por isso mesmo, como se a inadimplência fosse apenas um problema de descontrole individual e não tivesse nada a ver com a extorsão representada pela aplicação de taxas de juros imorais (mais de 40% dos brasileiros adultos estão inadimplentes). Frequentemente essa mídia, repetindo a cantilena do Banco Central (que não faz outra coisa a não ser assegurar as excelentes margens de lucro das instituições financeiras e mantê-las de bom humor, não importa quem esteja à frente do Executivo), tasca um jargão empolado de economista na cabeça do leitor/espectador/internauta, cita o "risco inflacionário"  e os gastos públicos como impedimentos para a diminuição da taxa básica de juros e estamos conversados. Você NUNCA verá um exame aprofundado na  Folha, no  Estadão  ou em qualquer canal de TV  que coloque em questão o esbulho dos bancos, operadoras de cartão e financeiras, enquanto a maioria da população é massacrada por essas empresas. Ah, não podemos esquecer de dizer que o Itaú, o Bradesco e a Visa são anunciantes disputados no meio publicitário... Mesmo que uma equipe progressista consiga produzir uma relevante matéria sobre o tema da exploração pelos juros a reportagem não teria alcance, dada a pouca penetração desse tipo de jornalismo dentro da sociedade. 

Complicando tudo ainda mais, muito em razão do uso intensivo das novas tecnologias comunicacionais, ao que parece, a atenção das pessoas está diminuindo. Em 1967, Caetano Veloso lançava a interrogação:  "quem lê tanta notícia?". E eu me pergunto hoje: quem é que está lendo (ou seja, interpretando), com profundidade, qualquer coisa?

Finalizo afirmando que a alegação da mídia dominante de que ela é neutra, imparcial - ao contrário da mídia progressista, que estaria presa a um voluntarismo sectário, unilateral - também precisa ser sempre colocada em xeque. Naturalmente, espera-se que a comunicação jornalística seja o mais direta possível e procure ser equilibrada. Entretanto,  TODOS temos vieses ideológicos. Todos temos uma concepção de quais rumos a sociedade deveria seguir e procuraremos demonstrar isso aos outros, até mesmo persuadi-los de que nossa visão é a mais congruente. É no mínimo ingenuidade achar que uma corporação de mídia se lança na esfera pública de forma desinteressada, portando-se com incontroversa isenção. Reitero: a mídia corporativa hegemônica tem lado - e não é do nosso lado, o dos garroteados pelos controladores do capital dentro do sistema econômico vigente. A mídia progressista, com seus erros, mas também com seus acertos, pelo menos não tenta escamotear seu posicionamento.

Atualmente, penso que os valores a serem buscados pelo jornalismo devem ser a  transparência  (em relação à visão de mundo da organização jornalística ou do profissional que atua individualmente, até mesmo explicitando a convicção política/ideológica que norteia a linha editorial, se for o caso; em relação à proveniência dos recursos financeiros que mantêm os profissionais e o próprio veículo; em relação à forma  como a informação foi obtida, desde que não prejudique o anonimato das fontes, quando for o caso)  e o  rigor na apuração  (mesmo que o resultado das investigações e levantamentos venha a contrariar as convicções do jornalista) Imparcialidade e neutralidade absolutas, nesse campo de atuação, não são possíveis e, a depender do fato jornalístico a ser publicizado,  chegam a ser inaceitáveis. 

________________ 

¹ Não tratei nesta postagem das empresas de mídia regionais. Não nos enganemos, porém. Várias delas, atuando há décadas, não diferem em nada das suas irmãs com alcance nacional, quando se trata de ajudar na sustentação da perspectiva conservadora pró-capital. No estado onde vivo, Minas Gerais, a rádio Itatiaia (mais antiga) e o jornal O Tempo (mais recente, fundado em 1996, por um milionário) são exemplos cristalinos disso.

BG de Hoje 

Cara, eu adorei - canção e vídeo: JACK WHITE,  Archbishop Harold Holmes

domingo, 16 de novembro de 2025

Falou e disse...

 "Não existe racismo de negros contra brancos ou, como gostam de chamar, o tão famigerado racismo reverso. Racismo é um sistema de opressão e, para haver racismo, deve haver relações de poder. Negros não possuem poder institucional para ser racistas. A população negra sofre um histórico de opressão e violência que a exclui.

Para haver racismo reverso, precisaria ter existido navios branqueiros, escravização por mais de trezentos anos da população branca, negação de direitos a ela. Brancos são mortos por serem brancos? São seguidos por seguranças em lojas? Qual é a cor da maioria dos atores e apresentadores de TV? Dos diretores de novela? Da maioria dos universitários? Quem detém os meios de produção? Há uma hegemonia branca criada pelo racismo que confere privilégios sociais a um grupo em detrimento do outro.

[...]

Não se pode confundir racismo com preconceito e má educação. É errado xingar alguém, mas para haver racismo deve haver relação de poder, e a população negra não está no poder. Acreditar em racismo reverso é mais um modo de mascarar o racismo perverso com que vivemos. É a mesma coisa que acreditar em unicórnios, com o diferencial de que se está causando mal e perpetuando a desigualdade". *

* RIBEIRO, Djamila. Falar em racismo reverso é como acreditar em unicórnios. In:__________. Quem tem medo do feminismo negro?. São Paulo: Companhia das Letras, 2018. p. 41-43 

P.S.: No texto de onde o excerto acima foi extraído, a autora recomenda um vídeo do comediante Aamer Rahman no qual ele dá uma explicação humorística sobre como seria possível estabelecer o racismo reverso. Quando eu tinha um perfil no Facebook, vi na minha timeline esse trecho da apresentação de Rahman algumas vezes. Sempre vale a pena. 

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Poesia para o envelhecimento e a morte

Em seu voto no julgamento de Jair Bolsonaro e seus comparsas pelo conluio golpista, a ministra Cármen Lúcia citou trechos de Que país é este?,  provavelmente o poema mais conhecido de Affonso Romano de Sant'Anna, que veio a público há cerca de 45 anos (onde se pode ler que  "Este é um país de síndicos em geral,/ este é um país de cínicos em geral,/ este é um país de civis e generais" , versos não mencionados pela magistrada). A cobertura jornalística em torno da decisão do STF (considerada histórica por um bocado de gente) fez com que essa alusão ao escritor chegasse a pessoas não muito afeitas à literatura e que, especulo, nada conheciam dele. Quem sabe, talvez, surja entre novos leitores aqui e ali alguma curiosidade pelo autor, falecido no primeiro semestre de 2025.

Meu primeiro contato com a obra de Sant'Anna foi através de sua vertente ensaística e educativa (embora de vez em quando lesse uma ou outra de suas crônicas publicadas nos jornalões, em especial o  Estado de Minas ). Utilizei  Análise estrutural de romances brasileiros  principalmente para complementar um estudo (realizado junto com colegas de curso) sobre o  Vidas Secas  e lancei mão muitas vezes do livrinho Paródia, paráfrase & cia (daquela série Princípios, da Editora Ática, mão na roda para estudantes recém-ingressados em cursos universitários, como eu, lá no início da década de 1990). Mas até hoje - vergonha, vergonha! - não me dispus sequer a passar os olhos pela sua tese sobre Drummond (escrita nos anos 1960).

Já o primeiro poema de Affonso Romano que vi (num fanzine distribuído na faculdade, se não me engano) foi o seguinte¹:

O LEITOR E A POESIA

Poesia
       não é o que o autor nomeia,
       é o que o leitor incendeia.
       
      Não é o que o autor pavoneia,
      é o que o leitor colhe à colmeia.
      
      Não é o ouro na veia,
      é o que vem na bateia.
Poesia
      não é o que o autor dá na ceia,
      mas o que o leitor banqueteia.

Não que sejam versos extraordinários, mas naquela época a Estética da Recepção era uma proposição teórica que me interessava muito (na verdade, me interessa até hoje) e o teor deles, assim penso, vai ao encontro dessa corrente. Por isso, anotei-os num caderno e mantive-os na memória por muitos anos. Apesar disso, não sou nem de longe um cultor do trabalho poético de Sant'Anna.

A despeito de minha pouca frequentação, creio que posso apontar uma característica geral de seus poemas, possível de se verificar inclusive no texto acima: a fluidez. O fato de ter sido um cronista de jornal bastante produtivo tem muito a ver com isso. A mensagem direta e a linguagem próxima do cotidiano, tanto lexicalmente quanto no aspecto rítmico, marcam sua produção, sobretudo a partir dos anos 1980.

Em 2017, apareceu, pela Editora Rocco,  A vida é um escândalo, o último livro de versos. Como observou Miguel Sanches Neto², "seus poemas de agora renunciam a adornos líricos, acréscimos sonoros, jogos de linguagem, e inversões ou neologismos, para buscar o fluxo natural das palavras. O poeta não escreve; fala". A velhice, a inelutável passagem do tempo e a dissolução próxima aparecem em quase todas as composições ali reunidas. Um exemplo:

TODA MANHÃ

Toda manhã
(como se fosse numa batalha)
leio os jornais
e digo à minha mulher:
- Sabe quem morreu?
E digo um, às vezes mais, nomes
dos que se vão.
 
Assim
me despeço de escritores, pintores, jornalistas
diplomatas, parentes, políticos
 e até dos levemente conhecidos.
 
Um dia, noutra casa
- ecos dessa batalha -
alguém lendo os jornais, dirá:
- Sabe quem morreu?
 
E eu não estarei mais lá.

Não posso deixar de apontar que em  O lado esquerdo do meu peito,  conjunto de poemas lançado por Sant'Anna em 1992, encontramos na última das cinco seções em que se divide o volume ( Aprendizagem da morte ) composições percorrendo as mesmas temáticas, quando o autor ainda não atingira os 60 anos de idade. Reproduzo abaixo uma delas³, convidativa por sua musicalidade:

DE REPENTE, A MORTE
 
Digamos
que me restem 20/30 anos.
É pouco? Demais?
Os últimos 20/30 anos
passaram-me rápidos/
demorados
                  - fatais.
 
Volto do cemitério, onde deixei
de uma amiga, o que se diz
"restos mortais".
Volto para casa
meditativo, mudo
com algumas perdas a mais.
Há dois meses, eu e ela num grupo
combinávamos salvar esta cidade
e o mundo, aliás.
 
Semana próxima, prevejo, já se despede
outro amigo, que não sei se digo, que amo
ou amei.
 
Em 20/30 anos 
quantas mortes morrerei
na morte dos demais?
 
20/30 anos é muito pouco, meu Pai!
E, no entanto, pode ser em nove meses
quem sabe, daqui a pouco
enquanto leio os jornais.

A vida é um escândalo, por sua vez, foi lançado para marcar seus 80 anos, reunindo poemas compostos, em sua maioria, a partir dos 75: ao que parece, o poeta viu-se cada vez mais compelido a refletir sobre a morte. Acho oportuno incluir aqui uma observação feita por André Argolo : "O eu lírico da poesia de Affonso normalmente é Affonso mesmo. Fosse prosa e seria autoficção, beirando o ensaio ou vice-versa". Ou seja, quando em determinado poema nos deparamos com a pergunta "O que deve um homem de 75 anos/sentir, pensar?", o que vemos é a franqueza do autor "vencendo" a disputa contra a expressão artificiosa inerente ao discurso literário.

Leiamos mais um poema - aquele que abre o conjunto - de  A vida é um escândalo 

O QUE TE LEVA A PENSAR
 
O que te leva pensar
que teu livro é necessário
às bibliotecas do mundo?
 
As antigas
estão repletas de textos sem vida.
- Você não é um clássico.
 
Nas livrarias modernas
há tantas sensaborias
que ninguém vai te encontrar.
 
Eis a questão:
sossega teu ego.
O mundo não necessita de ti.
Tuas palavras
têm a concretude desnecessária
e solitária
 das pedras do Deserto de Atacama.

Eis o despojamento esperado de quem sabe que  não estará mais aqui  por muito mais tempo. A obra encontra-se feita e soma-se a imensidão de volumes produzidos desde os registros primeiros da literatura - sob essa perspectiva, quase inevitável não refletir sobre a insignificância. 

Mais um, para finalizarmos: 

ESTOU TENDO TEMPO
 
Estou tendo tempo
para desiludir-me.
Não tenho câncer
tenho memória
acompanho com nojo os jornais.
 
Olho as crianças que vão à escola
- elas vão sorrindo para o século XXI.
 
Não há nenhuma razão para crer
que somos melhores que as plantas.
 
Dizia Bartolomeu:
- a vida é um escândalo.

Envelhecer é desiludir-se (noutro poema deste mesmo livro, encontramos o verso "Conhecer é desamparar-se" ) e, se olharmos a fundo e desapaixonadamente para nós mesmos, reconheceremos que "não há nenhuma razão para crer/que somos melhores que as plantas"

Pelo que sei, a pessoa referida na última estrofe é Bartolomeu Campos de Queirós, escritor mineiro com criações geralmente classificadas como literatura infantojuvenil, falecido em 2012, conhecido pela prosa poética e narrativas autobiográficas. Escândalo pode ser agitação, mas significa principalmente indignidade, acabrunhamento. Não posso afirmar que seja assim para todos, mas a certa altura do processo de envelhecimento, creio, não deve ser difícil constatar que a vida, a partir de determinado ponto, torna-se nada menos que um ultraje, embora, no caso de Sant'Anna, o poeta ainda consiguiu dizer: "O espanto me reedita"

_______________

¹ SANT'ANNA, Affonso Romano de. O leitor e a poesia. In: ___________. Os melhores poemas de Affonso Romano de Sant'Anna. 3 ed. São Paulo: Global, 1997. [Seleção de Donaldo Schüller]. p. 150.

² SANCHES NETO, Miguel. Dentro e fora do tempo. Rascunho. Curitiba, set. 2018. Disponível em <https://rascunho.com.br/colunistas/perto-dos-livros/dentro-e-fora-do-tempo/>. Acesso: 02/10/2025 

³ SANT'ANNA, Affonso Romano de. De repente, a morte. In: __________. O lado esquerdo do meu peito: (livro de aprendizagens). Rio de Janeiro: Rocco, 1992. p. 179 

 ARGOLO, André. Caça de uma vida inteira. Rascunho. Curitiba, abr. 2024. Disponível em <https://rascunho.com.br/ensaios-e-resenhas/caca-de-uma-vida-inteira/>. Acesso em 02/10/2025

⁵ SANT'ANNA, Affonso Romano de. Noturno de Ipanema 1. In. __________. A vida é um escândalo. Rio de Janeiro: Rocco, 2017. p. 43-46. 

BG de Hoje

É preciso ser sincero: não sou loucamente apaixonado por obras musicais que prescindem da voz - afinal, tendo um horizonte cultural bem limitado na infância e adolescência,  fui "educado" musicalmente através do rádio e da TV, veículos nos quais as composições exclusivamente instrumentais quase não encontram espaço de divulgação. Mas creio ter capacidade para valorizar aquilo que não figura entre meus hábitos, se valioso for, caso do som da NOMADE ORQUESTRA, cujo trabalho chegou a mim através do ótimo canal Som no sebo.

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Chupar laranja, (tomar) aspirina, catar feijão


Voltei a trabalhar numa biblioteca escolar. Quase seis anos se passaram e me deparo, nesse retorno, com as mesmíssimas situações problemáticas que eu acreditava terem ficado para trás. Bem, pelo menos está mais fácil agora reaproximar-me da literatura infantil e infantojuvenil depois de um longo hiato. Uns dias atrás, fui percorrer as prateleiras de poesia e fiquei contente ao achar o livro  Dia brinquedo,  de Fernando Paixão (Ed. Abril, 2009, com ilustrações de Suppa). Numa oportunidade anterior, noutra escola pública, eu havia selecionado três poemas deste livro para apresentá-los (junto com outros, de poetas diferentes) a um conjunto de turmas, num minissarau. Naquela ocasião, a coisa saiu melhor do que o esperado, tendo em vista as dificuldades de se obter adesão e envolvimento nas ações ligadas à literatura, por incrível que pareça, dentro de determinadas unidades escolares.

Um dos poemas selecionados tinha sido este:

 

ENCONTRO DAS FRUTAS
 
Na fruteira nova
alta luz da tarde
as laranjas têm bunda
brilha o batom das maçãs.
 
Trinta e nove uvas
de mãozinhas dadas
dão boas risadas
da cara feia do abacaxi.

 

"Funciona" muito bem com vários estudantes do início do Fundamental, as imagens ocorrendo-lhes rapidamente, achando graça nos traseiros das laranjas e se perguntando como seria ter um rosto de abacaxi.

Há uma disponibilidade muito maior de temas e assuntos aos quais recorrer nos poemas endereçados às crianças do que nos outros, destinados aos leitores mais experimentados. Pode-se imaginar, por exemplo, um diálogo de amor entre um garfo e uma colher (como se vê nesse mesmo livro de Fernando Paixão citado acima) ou compor uma cena em que uma vaca entra num bar e pede refrigerante com canudinho (lembrei-me agora de um dos muitos textos engraçados do Sérgio Caparelli), sem se preocupar se isso vai ou não comprometer a imagem de poeta sério que muitos temem colocar em risco. E Fernando Paixão é um poeta sério, lido por adultos meticulosos, professor da USP e tal, mas que fez questão de colocar nas páginas centrais do seu  Dia Brinquedo :  "O poeta escreve poesia para ser criança todo dia".  

A menção de nádegas cítricas me fez lembrar de um poema bem fraquinho de Drummond ¹, do qual praticamente ninguém fala, mas que acho bem divertido, em sua peculiaridade :

 

CHUPAR LARANJA 
 
A laranja, prazer dourado.
A laranja, prazer redondo.
A laranja, prazer fechado.
A laranja, prazer de faca.
 
Ou canivete. Cada golpe
anuncia: já se aproxima
o íntimo prazer da laranja,
que se dá sem sacrifício.
 
A laranja não se espedace,
para mais intenso prazer.
A laranja fique redonda,
mesmo sem casca, esfera nívea.

Então corte rápido a lâmina
um dos polos; a mão aperte,
e a boca sorverá, sensual,
a líquida alma da laranja.
 
Quem foi que, anônimo, inventou
o prazer de chupar laranja
em forma global de mamucha?
Gerações antigas sorriem
neste mestrado de volúpia.

 

Chupar laranja  integra  Boitempo,  conjunto de poemas de teor memorialista, ligados à meninice e a adolescência, publicado originalmente em 1968. Assim como vários dos textos ali reunidos, seus versos derivam da evocação de um ato simples, ligado à vida doméstica.

Durante muitos anos, eventual leitor(a), principalmente na infância, fiz pouca questão da laranja. Fruta trivial, da mesma categoria da banana e do mamão - todas sem qualquer mirabolância. Hoje, envelhecido, praguejo se não encontro alguma para saborear depois de um bom almoço em casa, sendo justamente a sua modéstia e despojamento o que passou a me agradar.

Levei um certo tempo para desenvolver a habilidade de descascar laranjas (só de lembrar os "machucados" que, no passar da lâmina, deixei em muitas delas, fico irritado, inclusive por uma questão estética, pois alcançar a "esfera nívea", quase homogênea, deveria ser o objetivo). Agora, com orgulho, posso arvorar-me um perito e, apesar da invencível desorganização e do caos permanente em minha moradia, guardo em local especial há anos uma faca jeitosa exclusivamente para o descascamento (por isso assimilo tão bem o verso "A laranja, prazer de faca"  ). 

O eu lírico presume que o  corte em "dois polos"  é o modo padrão de consumo da fruta. Entretanto, vê-se bastante mundo afora o  corte em xis ou cruz   (sem necessidade de tirar a casca, aliás) e até a  separação por gomos  (procedimento supérfluo e trabalhoso, devo dizer), tal qual uma tangerina que perdeu a vocação. A  "forma global de mamucha"  não é, portanto, planetária (a propósito, que palavra deliciosa é  mamucha , indisfarçavelmente mineira e com os dois pés no arcaico!).

Não recriminaria quem achasse insólito a laranja ser o tópico central de um poema (que não visava o público infantil) elaborado por um dos bambas da nossa poesia. Estranhamento parecido talvez se repita numa outra composição cujo tema principal, desta vez, é um fármaco ²:

 

NUM MONUMENTO À ASPIRINA
 
Claramente: o mais prático dos sóis,
o sol de um comprimido de aspirina:
de emprego fácil, portátil e barato,
compacto de sol na lápide sucinta.
Principalmente porque, sol artificial,
que nada limita a funcionar de dia,
que a noite não expulsa, cada noite,
sol imune às leis de meteorologia,
a toda hora em que se necessita dele
levanta e vem (sempre num claro dia):
acende, para secar a aniagem da alma,
quará-la, em linhos de um meio dia. 
 
Convergem: a aparência e os efeitos
da lente do comprimido de aspirina:
o acabamento esmerado desse cristal,
polido a esmeril e repolido a lima,
prefigura o clima onde ele faz viver
e o cartesiano de tudo nesse clima.
De outro lado, porque lente interna,
de uso interno, por detrás da retina,
não serve exclusivamente para o olho
a lente, ou o comprimido de aspirina:
ela reenfoca, para o corpo inteiro,
o borroso de ao redor, e o reafina.


O autor, desta feita, é João Cabral de Melo Neto e o texto em questão é bem mais conhecido do que o anterior. Faz parte de  A educação pela pedra,  lançado em 1966.

Uma nota biográfica vem a calhar. O poeta pernambucano sofreu por décadas com uma enxaqueca crônica. Em entrevista, afirmou ter consumido, durante muitos anos, cerca de seis comprimidos de aspirina diariamente. O medicamento tornou-se parte da sua vida - uma homenagem, portanto, não soaria despropositada. Em se tratando da poética cabralina, contudo, não devemos esquecer como o autor gostava de tornar matéria de poesia aquilo que ordinariamente não é considerado poético, evitando vocábulos por demais polissêmicos, preterindo a abstração e valorizando a concretude. Frente a um comprimido de aspirina, pouco pode fazer o subjetivismo.

Para encerrar essa mirada de poemas, busquemos mais um de Melo Neto ³,  célebre, também extraído de  A educação pela pedra :

 

CATAR FEIJÃO
 
Catar feijão se limita com escrever:
jogam-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na da folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.
 
Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que sempre entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá a frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a com o risco.


A quem ocorreria a comparação entre o prosaico ato de catar feijão e o ato de escrever (no caso, escrever literatura)? Está demonstrado que eles  se limitam  (ou seja, fazem fronteira um com o outro, são próximos embora não idênticos). Quem escreve distingue, precisa separar e depois suprimir "o leve e oco", a "palha e eco" - ou, às vezes, incorporar conscientemente a  pedra, indesejada no preparo do feijão, mas bem-vinda na escrita,  se esta atende a necessidade do artista de desafiar o leitor. Para João Cabral, o poema é sobretudo resultado de um empenho do pensar: o derramamento da inspiração é secundário na hora de compô-lo.

Esse é um dos textos cabralinos em que a sonoridade combinada das palavras contribui imensamente para sua beleza: "jogam-se os grãos na água do alguidar" ;  "e jogar fora o leve e oco, palha e eco" "obstrui a leitura fluviante, flutual/ açula a atenção, isca-a com o risco".  Justamente num autor que,  aparentemente,  não dava muita bola para esses efeitos...

 

Na próxima postagem, continuarei no terreno do verso, falando do último livro de poemas de Affonso Romano de Sant'Anna que veio a público antes de seu falecimento.

_________________ 

¹ ANDRADE, Carlos Drummond de. Chupar laranja. In: ____________. Boitempo I. 4 ed. Rio de Janeiro: Record, 1998. p. 78-79 

² MELO NETO, João Cabral de. Num monumento à aspirina. In: ___________. A educação pela pedra e depois. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997. p. 32

³ MELO NETO, João Cabral de. Catar feijão. In:___________. A educação pela pedra e depois. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997. p. 16-17  

BG de Hoje

Não tenho dados para confirmar, mas o Rio de Janeiro é provavelmente o município mais cantado do Brasil. É compreensível: além da antiguidade e da importância ao longo da história, muitos de seus moradores e visitantes frequentes amam de paixão aquele lugar (pessoalmente, tenho muita antipatia  pela  cidade maravilhosa  , além de muito pavor - opinião que não vale quase nada pois só estive por lá uma única vez,  num breve período). Rio 40 graus, composição de FERNANDA ABREU, FAUSTO FAWCETT e Laufer, lançada em 1992, é um breviário poético e musical da cidade como nenhum outro já feito, admiravelmente sintetizado na expressão "purgatório da beleza e do caos"