"Se não tivéssemos declarado boas as artes e inventado essa espécie de culto do não-verdadeiro: a compreensão da universal inverdade e mendacidade, que agora nos é dada pela ciência - a compreensão da ilusão e do erro como uma condição da existência que conhece e que sente -, não teria podido ser tolerada. [...] Nem sempre proibimos nosso olho de arredondar, de fingir até o fim: e então não é mais a eterna imperfeição que portamos sobre o rio do vir-a-ser - então pensamos portar uma deusa e somos orgulhosos e infantis nessa prestação de serviço. Como fenômeno estético, a existência é sempre, para nós suportável ainda, e pela arte foi-nos dado olho e mão e antes de tudo a boa consciência para, de nós próprios, podermos fazer um tal fenômeno. Temos de descansar temporariamente de nós, olhando-nos de longe e de cima e, de uma distância artística, rindo sobre nós ou chorando sobre nós: temos de descobrir o herói, assim como o parvo, que reside em nossa paixão do conhecimento, temos de alegrar-nos vez por outra com nossa tolice, para podermos continuar alegres com nossa sabedoria! E precisamente porque nós, no último fundamento, somos homens pesados e sérios e somos mais pesos do que homens, nada nos faz mais bem do que a carapuça de pícaro: nós precisamos usá-la diante de nós próprios - precisamos usar de toda arte altiva, flutuante, dançante, zombeteira, pueril e bem-aventurada, para não perdermos aquela liberdade sobre as coisas que nosso ideal exige de nós". *
* NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. A Gaia Ciência. In: _______________. Obras incompletas. 2 ed. São Paulo: Abril Cultural, 1978. p. 197-198 [Tradução e notas de Rubens Rodrigues Torres Filho] (Coleção Os pensadores)
"Quem consegue decifrar a essência e a peculiaridade de uma alma de artista! Quem pode entender a profunda fusão dos instintos de disciplina e devassidão que lhe serve de fundamento!"
Thomas Mann - Morte em Veneza
E o blog Besta Quadrada retorna ao trabalho, prezado(a) eventual leitor(a)
Na última postagem, ano passado, havia feito a observação de que o livro então abordado - A gaivota - tinha como uma de suas "funções" apresentar as concepções de seu autor, Anton Tchekhov, sobre o fazer artístico; mais especificamente, sobre o ofício do escritor. Empreendimento semelhante, podemos dizer, dá-se na novela Morte em Veneza*, do romancista alemão Thomas Mann, publicada pela primeira vez em 1912.
Gustav Aschenbach, o personagem central de Morte em Veneza é, aos 50 anos de idade, um literato consagrado em seu país (para se ter ideia, "o Departamento de Ensino [passou] a incluir páginas de sua autoria nas antologias escolares oficialmente adotadas"). Apesar do prestígio junto à opinião pública, Aschenbach sente que "sua vida começara a declinar" e acometido por uma "estranha expansão de seu íntimo, uma espécie de inquietação errante, um anseio juvenil sedento de distância", decide "tirar férias" da cidade em que vivia, Munique, partindo em viagem para o sul do continente europeu. E "quando se deseja alcançar de um dia para o outro o incomparável, o excepcional, digno da magia dos contos de fada, para onde se vai?". De acordo com o narrador do livro, a resposta é uma só: Veneza.
Assim que chega à cidade italiana, Aschenbach toma uma das famosas gôndolas. E apesar do olhar simpático geralmente dirigido a esse tipo de embarcação, o narrador registra:
"Esse estranho veículo, herança intacta de tempos medievais e tão singularmente negro como, dentre tudo que existe, só um ataúde pode ser, lembra aventuras criminosas e mudas na noite de águas rumorejantes, lembra ainda mais a própria morte, esquifes e sepulturas lúgubres e a derradeira viagem silenciosa".
O condutor dessa gôndola, assim como o viajante visto quase ao acaso no primeiro capítulo, o "jovem postiço" do navio saído de Pula (capítulo 3) e o músico-mendigo, líder da trupe descrita na última seção da narrativa - todos eles partes da mesma alegoria - foram devidamente realçados na adaptação cinematográfica realizada por Luchino Visconti, em 1971. E esses personagens constituem o leitmotiv da obra (são os mensageiros da morte),prenunciando o evento inevitável presente no título do livro, como bem destacou a professora Claudia Sibylle Dornbusch no (ótimo) programa Literatura Fundamental, da Univesp TV (link para o vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=YACCGqpZZBQ).
Claudia Dornbusch também ressalta a influência do pensamento nietzschiano na obra de Thomas Mann. Tal influência fica evidenciada no modo como o autor expõe a "fratura" espiritual ocorrida no interior de Gustav Aschenbach. Profundamente racional e metódico ao longo da vida (o personagem "tinha extrema necessidade de disciplina"e "não era um amante do prazer"), Aschenbach, agora apaixonadamente modificado pela aparição do jovem Tadzio, percebe em si os traços da euforia proporcionada pelo desregramento do ato de criar. Thomas Mann corporifica no personagem central de Morte em Veneza o embate entre os dois princípios que governam o trabalho dos artistas - o apolíneo e o dionisíaco -, tratados por Friedrich Nietzsche n' O nascimento da tragédia no espírito da música (1871).
A despeito da influência assinalada, entretanto, o livro de Mann defronta-se, sobretudo, com o platonismo. As citações quase textuais do Fedro comprovam essa observação (inclusive o trecho daquele famoso diálogo em que se condena a arte, com Platão mais uma vez falando pela boca de Sócrates), assim como as elaboradas reflexões metafísicas do narrador (e do personagem) sobre os conceitos/ideias de Beleza e de Amor. É possível, diria ainda, estabelecer paralelos entre o homoerotismo da convivência "distanciada" de Aschenbach e Tadzio e o homoerotismo da relação mestre-discípulo percebida no texto platônico.
Apesar do seu pequeno número de páginas - não chegam a uma centena - Morte em Veneza, como já dissemos, é, antes de tudo, uma concentrada (e profunda) meditação sobre o fazer artístico: aí reside seu valor. A esse respeito, o capítulo 4 é de especial interesse. De lá, retiro esta passagem belíssima:
"Certamente é bom que o mundo conheça apenas a obra-prima, sem conhecer suas origens e as condições de sua gênese, pois o conhecimento das fontes de onde flui a inspiração do artista muitas vezes confundiria o público, o intimidaria, anulando assim os efeitos da perfeição".
É um livro a nos lembrar todo o tempo (e o excerto acima o confirma) que grandes obras de arte costumam resultar de um espírito dividido, em luta consigo mesmo.
Na próxima postagem, começo a escrever sobre aquele que é considerado por alguns o trabalho mais importante de Thomas Mann: A montanha mágica.
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* MANN, Thomas. Morte em Veneza. Rio de Janeiro: O Globo; São Paulo: Folha de S. Paulo, 2003 [Tradução de Eloísa Ferreira Araújo Silva]
BG de Hoje
No ano passado, o universo do rock perdeu o incomparável Ian Frasier Kilmister - mais conhecido como Lemmy -, a alma e o coração do MOTÖRHEAD, Não posso deixar de mencionar também a morte do baterista Phil "Philthy Animal" Taylor, semanas antes do falecimento de Lemmy. Ambos fizeram parte da formação original do Motörhead e, junto com "Fast" Eddie Clarke, gravaram um dos álbuns mais importantes na história da música pesada: Ace of spades (1980). Desse discaço, escolho The chase is better than the catch.
Atente-se para esta passagem de Crepúsculo dos ídolos*, de Friedrich Nietzsche:
"Qual pode ser a nossa doutrina? - Que ninguém dá ao ser humano suas características, nem Deus, nem a sociedade, nem seus pais e ancestrais, nem ele próprio ( - o contra-senso dessa última ideia rejeitada foi ensinado, como ' liberdade inteligível ', por Kant, e talvez já por Platão). Ninguém é responsável pelo fato de existir, por ser assim ou assado, por se achar nessas circunstâncias, nesse ambiente. A fatalidade do seu ser não pode ser destrinchada da fatalidade de tudo o que foi e será. Ele não é consequência de uma intenção, uma vontade, uma finalidade próprias, com ele não se faz a tentativa de alcançar um ' ideal de ser humano ' ou um ' ideal de felicidade ' ou um ' ideal de moralidade ' - é um absurdo querer empurrar o seu ser para uma finalidade qualquer. Nós é que inventamos o conceito de ' finalidade ': na realidade não se encontra finalidade... Cada um é necessário, é um pedaço de destino, pertence ao todo, está no todo - não há nada que possa julgar, medir, comparar, condenar nosso ser, pois isto significaria julgar, medir, comparar, condenar o todo... Mas não existe nada fora do todo!"
O que nos diz o filósofo alemão? Muita coisa (mesmo que eu discorde de alguns de seus pontos de vista). Entretanto, eis o que é mais relevante para esta série de postagens: a vida é resultado de uma contingência! E, referindo-se ao todo, creio que Nietzsche antecipa parte do pensamento existencialista - tão caro a este blogueiro e que será abordado em outra série de postagens.
Se não há uma finalidade para a vida fora da existência concreta, perceptível e nem é possível alcançar um 'ideal de ser humano' como julgar e condenar, aprioristicamente, comportamentos, posturas e atitudes individuais não-delituosas? Não me arriscaria a responder assim, de" bate-pronto". Mas Nietzsche, com humor maldoso, escreve:
"O ser humano que se tornou livre, e tanto mais ainda o espírito que se tornou livre, pisoteia a desprezível espécie de bem-estar com que sonham pequenos lojistas, cristãos, vacas, mulheres, ingleses e outros democratas".
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Consumir bebidas alcoólicas, fumar, comer junkie food, levar uma vida sedentária, curtir pornografia - são posturas estúpidas? Para muitas pessoas, sim. Mas - e isso é importante - não são, ainda bem, crimes (pelo menos, por enquanto). Além do mais, eu também poderia arrolar uma centena de outras atitudes consideradas "do bem" (pausa para vômito!) e que se adequariam facilmente numa outra lista de enormes imbecilidades.
Parece-me que a principal questão é: - parafraseando versos de uma bela canção d' O Rappa - qual a estupidez que eu não quero conservar pra tentar ser feliz?
Tudo depende de escolhas individuais. Eu já determinei algumas das minhas.
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* NIETZSCHE, Friedrich.Crepúsculo dos ídolos, ou, como se filosofa com o martelo. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. [tradução de Paulo César de Souza]
"Aniquilar as paixões e os desejos apenas para evitar sua estupidez e as desagradáveis consequências de sua estupidez; isso nos parece, hoje, apenas uma forma aguda de estupidez".
Friedrich Nietzsche
Em Crepúsculo dos ídolos*, Friedrich Nietzsche - cujo pensamento só me interessa em algumas ocasiões - afirma que é uma tolice estimar o valor da vida. Diz ele:"juízos, juízos de valor acerca da vida, contra ou a favor, nunca podem ser verdadeiros, afinal; eles têm valor apenas como sintomas, são considerados apenas enquanto sintomas - em si, tais juízos são bobagens".
Nietzsche, que se autodenomina um "imoralista", reconhece que aqueles interessados em julgar o restante da humanidade através de um conjunto de preceitos comportamentais, ao qual aderiram e/ou formularam, são os únicos realmente dispostos a determinarem o que é válido ou não no tipo de vida que preconizam:
"Uma condenação da vida por parte do vivente é, afinal, apenas o sintoma de uma determinada espécie de vida: se tal condenação é justificada ou não, eis uma questão que não chega a ser levantada. Seria preciso estar numa posição fora da vida e, por outro lado, conhecê-la como alguém, como muitos, como todos os que a viveram, para poder sequer tocar no problema do valor da vida: razões bastantes para compreender que este é, para nós, um problema inacessível. Ao falar de valores, falamos sob a inspiração, sob a ótica da vida, a vida mesma nos força a estabelecer valores, ela mesma valora através de nós, ao estabelecermos valores..."
Como se percebe, para o pensador alemão não existem valores a serem buscados fora da realidade humana perceptível. Para julgar a vida, seria necessário estar fora dela, algo impossível, naturalmente. Ou dispor de uma entidade preexistente, responsável pela ordenação de tudo o que sentimos e percebemos. Algo como Deus, entidade não levada em consideração por Nietzsche... Nem por mim, diga-se de passagem.
O que me irrita nos moralistas em geral é a arrogância com que se mostram, ditando regras e condenando atitudes como se apenas a eles coubesse o monopólio da "verdade" acerca das condições da existência humana (Nietzsche, a propósito, já afirmara, viperinamente, que a hostilidade contra os desejos humanos vem justamente daqueles que são os "ascetas impossíveis, por aqueles que teriam tido a necessidade de ser ascetas..."). Essa arrogância dos moralistas, ao querer assegurar, a todo o custo, o modo como o homem deveria ser, recebe duro ataque do autor de Crepúsculo dos ídolos:
"O indivíduo é, de cima a baixo, uma parcela de fatum, uma lei mais, uma necessidade mais para tudo o que virá e será. Dizer-lhe ' mude ' significa exigir que tudo mude, até mesmo o que ficou para trás...[...] A moral, na medida que condena em si, não por atenções, considerações, intenções de vida, é um erro específico do qual não se deve ter compaixão, uma idiossincrasia de degenerados que causou dano incomensurável!... Nós imoralistas, pelo contrário, abrimos nosso coração a toda espécie de entendimento, compreensão, abonação. Nós não negamos facilmente, buscamos nossa distinção em sermos afirmadores".
Volto ainda a Nietzsche na próxima - e última - postagem desta série.
__________ *NIETZSCHE, Friedrich. Crepúsculo dos ídolos, ou, Como se filosofa com o martelo. São Paulo. Companhia das Letras, 2006 [tradução de Paulo César de Souza]
Apesar do crescente e intensivo processo de racionalização e intelectualização "que estamos sofrendo há milhares de anos", para Weber, a atividade científica ("a fração mais importante" desse processo) não consegue e (nem conseguirá ) dar um sentido "profundo" para a vida. Em outras palavras, a ciência não responde as perguntas verdadeiramente importantes que fazemos diante da existência - "Que devemos fazer? Como devemos viver?". Seria esta atividade, então, destituída de propósito, finalidade ou valor? Obviamente que não. Contudo, a ideia de progresso é inerente ao trabalho do cientista: tudo o que ele produz é feito com a certeza de que será superado (e assim deverá ser) em determinado momento futuro. Tal é a essência da atividade científica. E é essa mesma progressividade que provoca parte da angústia do homem civilizado e o faz questionar o sentido da vida. Para ilustrar seu ponto de vista - e isto é fascinante - Weber não lança mão de argumentos baseados na observação de outros cientistas. Ele prefere dialogar com um romancista (Tolstói) e um filósofo (Nietzsche).
Segundo John Patrick Diggins*,
"Tolstói, Weber e Nietzsche viram a história como essencialmente desprovida de sentido, uma sucessão absurda de forças e efeitos que permaneceriam sem significação até que o pensador se esforçasse para dar sentido aos eventos".
Em A ciência como vocação**, Weber, a partir de seu conceito de desencantamento do mundo, busca entender se a morte tem algum sentido, diante do "progresso" que a intelectualização promove. Ele faz a pergunta a Tolstói
"E sua resposta foi: para o homem civilizado, a morte não tem significado. E não o tem porque a vida individual do homem civilizado, colocado dentro de um 'progresso' infinito, segundo seu próprio sentido imanente, jamais deveria chegar ao fim, pois há sempre um passo a frente do lugar onde estamos, na marcha do progresso".
O pensador ainda acrescenta:
"E porque a morte não tem significado, a vida civilizada, como tal, é sem sentido; pelo seu 'progresso' ela imprime à morte a marca da falta de sentido. Em todos os seus últimos romances encontramos esse pensamento como a nota-chave da arte de Tolstói".
E quanto a Nietzsche? Weber observa que
"Depois da devastadora crítica feita por Nietzsche aos 'últimos homens' que 'inventaram a felicidade', posso deixar totalmente de lado o otimismo ingênuo no qual a ciência - isto é, a técnica de dominar a vida que depende da ciência - foi celebrada como o caminho para a felicidade".
Citando mais uma vez Diggins,
"Entre o orgulho aristocrático de Nietzsche e a humildade cristã de Tolstói reside a visão trágica da política de Weber. Em Nietzsche, a nobreza humana repousa na sua força para o autocontrole e a responsabilidade individual. Em Tolstoi, a salvação humana reside na autorresignação mística e na obediência às convicções interiores."
A ciência não é o caminho para a "verdade definitiva", para "Deus" ou para "a felicidade"; é um modo de tentar apreender a realidade que nos cerca e está longe de ser perfeita. Entretanto, Weber não deseja cair no que existe de pior nas atitudes irracionalistas. O que levanta uma questão ética.
A esse respeito, Rolando Lazarte*** observa que o sociólogo alemão não assume posição dogmática (bem ao contrário):
"A postura de Weber diante desse vazio de sentido da vida, que não poderia ser preenchido por uma ética racional (científica, teológica, burocrático-estatal ou outra), pode parecer fraca para quem espera receitas, programas ou doutrinas que assegurem a posse final do valor almejado (justiça, verdade, bem, felicidade)".
Concordo com Max Weber: a vida não tem sentido algum preexistente. Constroem-se, sempre, significados provisórios. E a reflexão apurada de um grande pensador ajuda nessa árdua, complexa e inevitável tarefa.
__________ *DIGGINS, John Patrick.Max Weber: a política e o espírito da tragédia. Rio de Janeiro: Record, 1999
** GERTH, H. H.; WRIGHT MILLS, C. (Org.) Max Weber: ensaios de Sociologia. Rio de Janeiro: Zahar, 1963 [tradução de Waltensir Dutra]
*** LAZARTE, Rolando. Max Weber: ciência e valores. São Paulo: Cortez, 1996