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sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Livros para autorreconciliação (II): O Senhor das Moscas



"É preciso mais coragem para examinar os cantos sombrios da própria alma 
do que para um soldado lutar no campo de batalha".

                                                                                                W. B. Yeats

 

Na introdução de um de seus textos na coluna que mantinha no jornal  Nexo  há alguns anos, a historiadora e antropóloga Lilia M. Schwarcz reclamou do problema que é conviver com um certo tipo de pessoa tóxica, aquela "que contamina a tudo com sua negatividade". Gente assim  "desautoriza, humilha, assedia e torna a vida de quem está ao lado um grande inferno". Tem mais:  "pessoas com esse tipo de atitude costumam complicar não apenas suas próprias existências, como também daquelas que a circundam". Ainda segundo Schwarcz,  "a postura não funciona, entretanto, como filosofia geral de vida ou gesto premeditado, independente do contexto em que se apresenta. Penso, inclusive, que não é necessário insistir nesse tema, uma vez que me parece existir um consenso nesse sentido. Negatividade tóxica não traz nada de bom". 

A ênfase da coluna, contudo, está no incômodo de Schwarcz com o outro lado dessa moeda: a  positividade tóxica.  Assim como eu, ela nunca gostou  "de frases prontas e animadas, que não passam de chavões quando usadas indiscriminadamente. Do tipo: 'Seja positivo!', 'Olhe pelo lado bom!' 'Supere isso', 'Vá em frente'…".  Ou seja, as expressões que caracterizam os discursos motivacionais, uma das maiores pragas da contemporaneidade. 

Se olharmos com atenção o mundo ao redor, é possível chegarmos à conclusão de que "o poço anda bem cheio para que adotemos o 'modo positividade a todo custo'. Simplesmente desconsiderar e fazer pouco de sentimentos negativos próprios e dos outros, sem nem ao menos permitir que se entre em contato com eles, não pode ser boa saída".

O blogueiro que vos escreve pode até não estar diligentemente propagando a negatividade tóxica (afinal, restrinjo minhas interações com outros seres humanos ao mínimo possível), mas certamente é um pessimista em tempo integral. Esse tipo de postura diante da existência, na opinião de muitos, também não é nada desejável. Cabe a pergunta, porém: observando as condições socioeonômicas  em que vivem grandes parcelas da população mundial, além de verificar o estado em que se encontra o meio ambiente do qual todos dependemos, existe justificativa para crenças otimistas  não mais que comedidas? Aliás, gostaria de lembrar que, a despeito da vacuidade  de quase todos os seus enunciados (úteis, no entanto, para o ajustamento do indivíduo ao credo neoliberal e à aceitação conformada de sua posição no vale-tudo do capitalismo tardio), a positividade tóxica acaba sendo uma forma de otimismo.

Estou tentando dizer, no final das contas, que arvorar-se otimista não é essa Brastemp toda não.

E quanto à prosa literária? Nesse universo, predominariam as obras alicerçadas na positividade e na esperança ou as que acentuam, durante a maior parte da narrativa, a torpeza, a crueldade e o sofrimento que também permeiam as vivências humanas? O que gera mais histórias: o otimismo ou o pessimismo?

Dada a astronômica quantidade de livros produzidos, creio não ser possível responder essa pergunta. Seja como for, minha inclinação, como deve estar claro a essa altura, é para a ficção que se constrói a partir da angústia, da fúria, do infortúnio.

O Senhor das Moscas  (anteriormente discutido no blog aqui e aqui) foi (e ainda é) uma das grandes histórias pessimistas que me marcaram intensamente.

Em nações de língua inglesa (principalmente na Grã-Bretanha, Austrália e Estados Unidos), o romance acabou adquirindo, para muitos, a pecha de  livro-que-se-lê-na-escola. Abordado com frequência no ensino médio desses países, reduziu-se, involuntariamente, a um instrumento didático. NOTA: É,  mutatis mutandis,  o que acontece aqui no Brasil com alguns de nossos clássicos (posso citar, apenas como exemplo, o  Macunaíma ). Nessa perspectiva, o texto acaba se transformando num requisito para a realização de tarefas escolares e sua relevância, como obra de arte, passa despercebida.

Uma das recriminações mais dirigidas a  O Senhor das Moscas  incide diretamente sobre a ideia central do romance. Ao especular que as crianças isoladas na ilha após a queda do avião seriam incapazes de cooperarem entre si e logo se lançariam na selvageria, sob o império da força bruta, devido à ausência de instâncias moralizadoras e sem os aparatos civilizacionais com os quais se acostumaram, o autor estaria errado. Aponta-se que, do ponto de vista antropológico e sociológico,  O Senhor das Moscas  é bastante falho. Num artigo que li há poucos dias, havia a afirmação de que o livro é uma mentira (ora, ora, que conclusão fantástica: descobre-se que uma NARRATIVA FICCIONAL É INVENÇÃO, com cenários, figuras e situações imaginárias ...). Ainda sobre esse ponto, o historiador neerlandês Rutger Bregman (cujas declarações públicas sobre desigualdade social costumam me interessar) bate de frente com a visão negativa dos humanos retratada no texto de Golding. Numa entrevista para a MSNBC em 2022, ele recordou a história (real) dos seis adolescentes de Tonga que foram parar numa ilha desabitada, entre junho de 1965 e setembro de 1966, após o barco em que navegavam ter ficado à deriva devido a uma tempestade. Ao contrário dos meninos em  O Senhor das Moscas,  os jovens tonganeses ajudaram-se mutuamente e mantiveram uma convivência amigável (Bregman deu destaque a esse caso em seu livro  Humanidade: uma história otimista do homem,  que ainda não li). 

O que posso dizer a esse respeito?

Golding era um professor de Inglês atuando na educação básica. Embora tenha estudado em Oxford, sua formação não lhe forneceu um conhecimento amplo na área das Ciências Sociais. Penso que seria equivocado da parte da crítica exigir,  de um trabalho artístico/imaginativo, correção acadêmica estrita no campo da antropologia. Uma de suas intenções era produzir uma variante cáustica de livros de aventura em ilhas remotas (que sempre foram bastante populares), especialmente o etnocêntrico  A Ilha de Coral.  Ele estava convencido da incapacidade humana de controlar e superar seus ímpetos primitivos de violência e agressão e quis manifestar tal convicção na sua escrita. A participação na Segunda Guerra Mundial (inclusive do Dia D, na Normandia)  consolidou seu juízo sobre a propensão humana para a barbárie. William Golding - que se considerava um  monstro  - não desconhecia o mal também dentro de si: aos 18 anos tentou estuprar uma amiga e lidou com o alcoolismo severo a maior parte de sua vida, suportando uma depressão profunda de longa duração.  

Ainda que o escritor destaque o pior dos humanos, enxergando-os com pouca benevolência, suas recriminações não são irrealistas. Pergunto a você, eventual leitor(a): podemos, como espécie, até ser gregários e auxiliarmo-nos em determinadas circunstâncias, mas você vai dormir sossegadamente deixando suas portas e janelas destrancadas? E como ter fé na humanidade quando sabemos das atrocidades no Sudão e em Gaza?

O Senhor das Moscas  é todo recheado com personagens-símbolos. Devido ao tom de desconsolo da narração e à predominante atmosfera de aflição a partir de determinado momento, aqueles que retratam a força e a violência (Jack e Roger) seriam os mais apropriados para se verificar o esforço de Golding na demonstração de seu argumento principal. Na postagem de hoje, porém, gostaria de me deter noutra figura.

Simon, para alguns analistas e resenhistas do romance, seria uma reminiscência de Jesus Cristo. Existe fundamento para essa avaliação, quando lembramos alguns aspectos da vida do  Filho de Deus  tal como seus adoradores costumam concebê-la: o garoto está sempre disposto a ajudar, principalmente os mais fracos (no caso, as crianças menores), fica parte do tempo isolado com seus pensamentos (como que  retirado no deserto ) e morre de forma injusta e violenta por um bando fora de si, incapaz de ouvir a comunicação importante que ele tinha para fazer a todos. O texto, como sabemos, abriga alusões e temas bíblicos às vezes bastante patentes, a começar pelo título:  Senhor das Moscas  é a tradução popularizada do nome cananita  Baal-zebub  - que, com o tempo, virou  Beelzebub,  depois  Beelzebul,  chegando ao português atual como  Belzebu. Ainda que não tenha sido um cristão devotado, Golding se considerava um homem religioso. Não custa lembrar também que a ideia de pecado original - ou seja, os seres humanos carregam dentro de si a semente da transgressão e da perversidade - é parte significativa da "tese" na qual a história se sustenta.

Contudo, não vou me embrenhar por esse caminho. Para mim, basta saber que Simon, a despeito de seu comportamento meio  místico, é o único que aparenta refletir antes de sair agindo às cegas dentro da narrativa, o único que se esforça por tentar atingir algum entendimento,  mínimo que seja, antes de ser contaminado pela agitação e o medo circundantes. Mesmo Piggy (Porquinho), o personagem que simboliza a inteligência, não se porta assim. NOTA 2: Para reforçar o pessimismo da história, tanto Piggy quanto Simon - a inteligência e o ânimo de buscar alguma compreensão - morrem brutalmente.

É Simon, no capítulo 5, que lança a conjectura de que o mal e o perigo que todos temiam talvez não fosse um bicho de carne e osso vagando pela ilha, mas sim o impulso bestial latente dentro dos seres humanos. Conjectura que se mostra acertada a seguir, no capítulo 8, quando ele "conversa" com o Senhor das Moscas (a cabeça de porco fincada na estaca pelos caçadores comandados por Jack) ¹: 

"- Que engraçado achar que o Bicho é algo que podem caçar e matar! - disse a cabeça. Por um instante, a floresta e todos os outros lugares indistintos ecoaram com a paródia de uma gargalhada. - Você sabe, não é? Sou parte de você? Quase, quase, quase! Sou a razão por que ninguém pode ir embora? Por que as coisas são o que são?".

A partir de seu assassinato - uma espécie de martírio, mas sem a entrega sacrificial -, não há mais expiação para as crianças da ilha. 

Diante do oficial da marinha britânica surgido na praia (um  deus ex machina  sobre o qual valeria a pena tratar noutra postagem), Ralph, o líder que não conseguiu impedir a ruína apesar de seu carisma,  finalmente  "chorou pelo fim da inocência, pela escuridão do coração humano" e pela morte de Piggy.

Já não era mais possível, para ele e para nenhum daqueles garotos, chorar por Simon. Indelevelmente marcados pelo mal.

. . . . . . . 

Como havia explicado na postagem anterior, estou recorrendo à releitura de determinadas criações literárias que conseguem me revigorar de alguma forma e me ajudam a não virar o leitor meia-boca que temo tanto. Elas ajudam, acredito, a vencer essa prostração na qual mergulhei de uns oito meses pra cá. Daí falar em livros para  autorreconciliação.  Foi assim com  O deserto dos tártaros  e também com o livro do qual acabamos de falar. 

_______________

¹ GOLDING, William. O Senhor da Moscas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006 [Tradução de Geraldo Galvão Ferraz] 

 

BG de Hoje

Sempre achei uma das coisas mais bacanas no funcionamento do FAR FROM ALASKA o trabalho do Rafael Brasil. Com os pedais e outros recursos que não sei descrever (porque, infelizmente, não sou musicista), ele reproduz tanto a sonoridade da guitarra quanto a do baixo no mesmo instrumento (algo parecido com o que faz o Mike Kerr, do Royal Blood). Todo o meu respeito a essa versão que fizeram de  Iron Lion Zion  (BOB MARLEY) há alguns anos, com a Emmily Barreto entregando tudo nos vocais, como sempre.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Estragado por dentro, só me resta votar. Domingo é 13!


Creio que já disse, nalguma postagem anterior, que considero Eliane Brum um dos grandes talentos do jornalismo atual. Suas colunas na edição brasileira do El País devem ser elencadas, sem nenhum exagero, entre os textos de maior qualidade da nossa imprensa. Neste período eleitoral, então, tornaram-se imprescindíveis para mim.

Numa das mais recentes - Como resistir em tempos brutos - , publicada no último dia 9, ela observou, com desgosto, que "Jair Bolsonaro, aquele que é chamado de 'coiso' nas redes sociais, ganhou esta eleição mesmo antes da votação no primeiro turno". Vitória,  nesse contexto, significa que a candidatura do PSL, mesmo tendo desprezado a discussão política, eclipsou todas as outras. As pautas reacionárias e obscurantistas de seu interesse, além de suas declarações odiosas, dominaram as conversas, tornando-se o tópico central de toda a campanha presidencial e deixando ocultos temas urgentes - como, por exemplo, combate ao desemprego, financiamento da saúde pública ou a possibilidade da implementação de reformas (entre elas, a previdenciária). ¹.

Os motivos para essa vitória nada têm de positivo: um deles me aflige particularmente:

"Jair Bolsonaro ganhou mesmo antes de ter ganhado um número expressivo de votos no primeiro turno" - escreve Eliane Brum - "porque conseguiu mergulhar uma parte das pessoas numa paralisia amedrontada, como se estivessem estragadas por dentro. Jamais se esqueçam que a primeira vitória da opressão é sobre a subjetividade. É o que faz uma mulher cotidianamente espancada ficar calada. Ou uma mulher estuprada não denunciar o estuprador. Há algo que a amarra por dentro. É como se perdesse a voz mesmo tendo voz, perdesse a força mesmo tendo força. Esse é o efeito de ser violentada ou violentado. Vi muita gente assim no final da campanha de primeiro turno, vivendo a campanha violenta de Bolsonaro e de seus apoiadores como uma violência sobre o próprio corpo, sobre sua mente e sobre seu espírito. Mulheres, principalmente, mas também homens".

É isso. Encontro-me "numa paralisia amedrontada", como se estivesse estragado por dentro. Não serei energúmeno a ponto de comparar meu estado de ânimo ao de uma mulher que foi espancada/estuprada, pois, na condição de homem, mesmo que venha a sofrer tais brutalidades, não seria capaz sequer de conceber toda a dor e o trauma vividos por mulheres que passaram por isso. Posso dizer, porém, que a violência da cruzada bolsonarista produziu mesmo um efeito inquietante sobre minha mente e sobre meu espírito. Há quem possa querer negar, mas não tenho dúvida de que a violência - efetivada ou em potência - foi a maior marca da campanha do deputado. (Isso gera consequências deletérias. Indivíduos que se julgam ou se sentem agindo em nome de Bolsonaro têm demonstrado conduta violenta, tanto verbal quanto física, inclusive dentro das polícias. Creio que isso se intensificará após 28 de outubro).

Na coluna citada, a autora faz um chamado ao leitor: apesar do cenário de desalento, "é preciso lutar neste segundo turno para o autoritarismo não se instalar no Brasil pelo voto, mais uma contradição da democracia". Pessoalmente, não acredito numa derrota eleitoral de Bolsonaro neste domingo e, mesmo que ela ocorra, a erupção do fascismo à brasileira, encampado pela burguesia predatória local, já tomou conta do cenário (o que pode, paradoxalmente, talvez dar um novo impulso à luta política no Brasil - conhecendo agora quão fascista parte significativa da sociedade brasileira é, tem que se pensar em estratégias de confrontação diferentes). Contudo, ao contrário de mim, que já desisti da peleja, Eliane Brum ainda não esmoreceu: "Mas não podemos permitir que nossos dias sejam devorados, porque, no banquete dos perversos, nossas almas é que são comidas. Há que se resistir ao devoramento das almas"

Ah, e antes que venha a (surrada, oca e repetitiva) acusação "ela-deve-ser-uma-petralha-de-carteirinha!", atenção para este outro trecho:

"Uma parte [dos eleitores que são avessos ao PT], na qual me incluo, terá que segurar o estômago para votar num partido que reeditou o projeto da ditadura civil-militar na Amazônia, reduzindo a floresta a objeto de exploração, evidenciado nas grandes hidrelétricas como Belo Monte, Jirau e Santo Antônio, e na expulsão dos povos da floresta. Uma parte, na qual eu também me incluo, terá que tampar o nariz para votar num partido que assinou a lei antiterrorismo e que usou a Força Nacional para perseguir e reprimir manifestantes e trabalhadores nas cidades e na floresta. Uma parte, na qual eu também me incluo, terá pesadelos para votar num partido que até hoje não se manifestou contra a ditadura assassina de Nicolás Maduro na Venezuela (Nem isso, PT, nem isso...). Uma parte, na qual eu também me incluo, sofrerá para votar num partido que consumiu os esforços de pelo menos duas gerações de brasileiros com a promessa de que seria diferente dos outros e, como os outros, se corrompeu no poder e se aliou ao que havia de mais nefasto na política nacional. E sofrerá também porque o PT fez tudo isso e nenhuma autocrítica. Nem uma autocrítica bem pequenina, uma autocriticazinha. Nada que mereça esse nome"

Atente, porém, também para o complemento:

"Mas uma parte, na qual de jeito nenhum eu me incluo, usa o ódio contra o PT para justificar o injustificável. É um truque. E esse truque precisa ser desmascarado. Se você votou e votará em Bolsonaro, não é porque é contra a corrupção. Havia outros candidatos que não eram suspeitos de corrupção e você não votou neles no primeiro turno. Você votou em Bolsonaro porque compartilha de suas ideias e compartilha do seu ódio. E se você compartilha com quem afirma o que ele afirma - ser contra negros, contra mulheres, contra LGBTQ, contra indígenas, contra camponeses e a favor das armas e do autoritarismo e da tortura e do atirar para matar - então é isso que você defende. E, principalmente, é esse tipo de pessoa que você é"

(Em casos extremos, hoje comuns, o antipetismo leva a crenças absurdas. Para compreender melhor o fenômeno, sugiro a leitura do artigo A estigmatização do PT e o irracionalismo na eleição, de Cláudio Couto, cientista político e professor da FGV, publicado no Nexo Jornal)

Tenho visto uma hashtag circular no Twitter: #OBrasilÉMelhorQueOBolsonaro. 

Não é não.

Finalmente estamos caindo na real e constatando que a imagem do "brasileiro boa praça", vendida para os turistas, nunca passou de um tremendo conto do vigário. Há por aqui uma quantidade imensa de pessoas integralmente adeptas do emprego da violência para a resolução de todo e qualquer conflito e outro tanto de indivíduos movidos por um ódio primitivo. Todos eles sentem-se plenamente representados - e pior, legitimados - neste momento.

Algumas personalidades que respeito e admiro - como o rapper Emicida, por exemplo - têm ponderado, com razão, que nem todos os eleitores de Bolsonaro são fascistas ou proto-fascistas. Muitos deles, sobretudo entre os mais pobres, fazem essa opção por estarem completamente desiludidos com o establishment político. Desassistidos pelo Estado, procuram pela candidatura que lhes pareça mais antissistêmica. Sem mencionar os convencidos (ou seria manipulados?) por pastores e outros representantes religiosos. Há também aquele eleitor, como escreve Eliane Brum, que está "muito furioso e muito triste com o país e votou com raiva, votou como quando dá aquela vontade de quebrar tudo e ver o circo pegar fogo". 

Tudo isso é verdade. É pena que não há mais tempo para conversar com esses eleitores. E, para ser franco, nem sei se adiantaria alguma coisa.

Por falar em argumentar com eleitores, lembrei de outro excepcional texto de Eliane Brum, Bolsonaro e a autoverdade, publicado em julho deste ano.

"Quando a imprensa mostra que Bolsonaro se revelou um deputado medíocre" - escreve ela -, "que ganhou seu salário e benefícios fazendo quase nada no Congresso, quando mostra que ele nada tem de novo, mas sim é um político tão tradicional como outros ou até mais tradicional do que muitos, quando mostra que falta consistência no seu discurso, assim como projeto que justifique seu pleito à presidência, há pouco ou nenhum efeito sobre os seus eleitores. Porque o conteúdo pouco importa. As agências de checagem são um bom instrumento para combater as notícias e as declarações falsas de candidatos, mas têm pouca eficácia para combater a autoverdade" [Segundo a autora, a autoverdade é "a valorização de uma verdade pessoal e autoproclamada, uma verdade do indivíduo, uma verdade determinada pelo 'dizer tudo' da internet", acrescentando que "o valor dessa verdade não está na sua ligação com os fatos"]

A exposição de evidências, as alegações fundamentadas, até a racionalidade, em certa medida, tornaram-se completamente irrelevantes nesta eleição. Um dos motivos para eu estar estragado por dentro vem disso: não é possível argumentar com a quase totalidade dos eleitores de Bolsonaro, muito menos com seu fandom raivoso e cheio de testosterona. Eles só querem aceitar e só vão acreditar naquilo que favoreça seu candidato. Todo o resto é fake news. Tem mais, porém: todas as falas do deputado - pejadas de racismo, homofobia, apologia à tortura, ameaça ao estado democrático de direito, misoginia, etc - são percebidas, por seus eleitores, como "apenas brincadeira" ou exemplo de que ele é "autêntico".

Mas mesmo com tudo o que foi dito até agora, nem é a figura individual de Jair Bolsonaro, com sua canalhice intrínseca, o que mais me causa desespero e apreensão. São os esteios que o sustentarão no poder.

. . . . . . . 

Há alguns meses, o jornalista e ensaísta Francisco Bosco escreveu um ótimo artigo para o caderno Ilustríssima, da Folha de S. Paulo ².

Intitulado O mês que não terminou, o texto procura apontar o "legado" das chamadas "Jornadas de Junho". Bosco considera que

"o sentido geral de junho de 2013 era a revolta acumulada contra a tendência progressivamente privatista da democracia liberal (tiveram o mesmo sentido o Occupy Wall Street, em Nova York, e os Indignados, em Madri), que comprimia  cada vez mais o espaço do comum, e contra um sistema institucional endógeno, blindado, que asfixiava a participação política, reduzindo ao mínimo possível sua intensidade [...] Não era só por 20 centavos. Estava em jogo o poder empresarial submetendo o poder público e o interesse dos cidadãos; um péssimo serviço a preço alto; péssimas condições de circulação. Estava em jogo, em suma, o direito à cidade".

Lembro-me de que olhei com entusiasmo toda aquela agitação (o articulista assim também o fez) e "muitos apostaram nessa movimentação social como a esperança para pressionar, furar ou renovar a política institucional". Após junho de 2013, diversos grupos de esquerda (Muitas, Bancada Ativista, entre outros) e de direita (Vem pra Rua, Novo, entre outros) buscaram representação legislativa. Bosco observa que "apesar das diferenças ideológicas - e, pelo menos no caso do MBL, das estratégias baixas -, são todos sintomas da formação de uma nova cultura política, com o objetivo comum de transformar o sistema político institucional"

Mas os ventos esperançosos das "Jornadas de Junho", passados cinco anos, dissiparam-se quase sem vestígio.

Para Francisco Bosco (e eu concordo com ele),

"O gigante rapidamente foi se revelando menos progressista do que reacionário. Menos esclarecido do que irracional. Menos espontâneo do que titerizado por setores poderosos. Por fim, menos democrático do que autoritário. 
Junho de 2013 foi uma montanha que pariu um pato - e uma récua de cavalgaduras. Chega a quase dar saudade daquelas figuras de direita da Veja e até do delírio paranoico de Olavo de Carvalho, inofensivo perto da regressão em massa dos infantilizados adoradores de Bolsonaro"

Vivi, ainda criança, o governo Figueiredo, o último da ditadura militar, do qual tenho nítidas memórias (desagradáveis muitas delas). Passei perrengue, junto com minha família, durante o desastroso governo Sarney e sua hiperinflação. Estudante secundarista, participei de alguns protestos contra Collor. Não fiquei satisfeito com o conjunto da obra, mas reconheço avanços durante os mandatos de FHC, mesmo sem nunca ter votado nele. Tenho sido eleitor do PSOL desde 2006, mas votei em Lula antes (quatro vezes), por me identificar, naquela época, com o programa de seu partido. Desde então, só digitei o número do PT na urna eletrônica nos segundos turnos, porque considerava  seu adversário, o PSDB, uma alternativa ruim (e considero até hoje).

Aprendi algumas coisas nesse tempo todo.

E após o desanimador resultado das "Jornadas de Junho", é muito difícil olhar o Brasil com confiança.

Chegamos a 2018. O que temos?

De um lado, mais uma vez o PT, representado agora por Fernando Haddad. O partido, todos sabemos, tem muito o que explicar, desde o Mensalão. Mas seria desonesto da minha parte não admitir que políticas públicas implementadas nos mandatos de Lula e Dilma - algumas bem sucedidas, como o Bolsa Família - tinham como objetivo mitigar a indecente desigualdade social brasileira. E, com todos os seus defeitos, o PT, desde a sua fundação, tem jogado o jogo democrático.

Do outro lado, está um sujeito desequilibrado e que já deu mostras exaustivas de que o autoritarismo não o repugna, muito pelo contrário. E quando vemos que os financistas do mercado, os picaretas travestidos de líderes evangélicos, os tubarões do agronegócio desmatador e empresários inescrupulosos apoiam com euforia a sua candidatura, prevendo ganhos e lucros futuros, não tenho muita dúvida do que fazer.

No próximo domingo, voto em Fernando Haddad. Voto 13!

Não tenho mais ilusões quanto a eleições e democracia representativa ³. Como escreveu o historiador e cientista político camaronês Achille Mbembe (A era do humanismo está terminando), "a democracia liberal não é compatível com a lógica interna do capitalismo financeiro" e, nesse duelo, já sabemos quem será sacrificada. A transformação da política em apenas mais um braço do mercado é visível. A política, como espaço de disputa e também de negociação, poderá (e acho mesmo que será) eliminada em breve pela voracidade do capitalismo financeiro. Quais as alternativas para evitar isso (se é que existem)?

Uma delas é a ação direta. Ir para as ruas e lutar. Mas não só protestar. Lutar mesmo, no real sentido da palavra. Porque o poder econômico, como todo poder, não deseja contestação. Reagirá. E sua reação, garanto, será feroz. O Estado pouco ou nada pode fazer; na maioria das nações, aliás, o Estado está a serviço do poder econômico, inclusive (e principalmente) suas forças de repressão. Como não tenho a coragem necessária para a luta real, tento a outra alternativa.

Que é continuar escolhendo representantes políticos (sempre democraticamente, mesmo reconhecendo as falhas da democracia representativa), acreditando que, se estes não conseguem frear o poder econômico, podem ao menos tentar aliviar um pouco as consequências nefastas das ações de financistas, banqueiros e megacorporações, sobretudo para as parcelas mais pobres da sociedade.

É provável que um hipotético governo Haddad pouco possa fazer para contrapor-se ao poder econômico. Contudo, não tenho dúvida de que um hipotético governo Bolsonaro é o sonho dos canalhas endinheirados, loucos para que bobagens (estou sendo irônico, viu?) como direitos humanos, direitos trabalhistas, garantias constitucionais, auditorias, fiscalizações ambientais caiam por terra e possibilitem maior lucro.

Claro, posso estar completamente equivocado e o apologista da tortura pode fazer um bom governo, mostrar-se à altura do cargo e nem recorrer ao autoritarismo e a violência sistematizada. Porém, acho isso altamente improvável. O consórcio que tentará sustentá-lo - agronegócio, sistema financeiro, setores rapaces do empresariado, parte da mídia corporativa - não está disposto a ceder um centímetro de terreno, sobretudo após o bem sucedido golpe parlamentar-judicial de 2016. E o deputado do PSL é o cara certo pra completar o serviço.

Há um último ponto que quero abordar.

Uma característica dos governos autoritários é limitar e mesmo reprimir a exteriorização de opiniões contrárias a eles.

Sei que sou um ninguém, mas é também característica dos governos autoritários criar ou incentivar a criação de uma rede de delatores, dispostos a vigiar e denunciar pessoas com opiniões contrárias ao governo autoritário, que podem acionar seus próprios meios de repressão ou deixar isso a cargo de milícias ou grupos de valentões não-oficiais.

Corro risco? "O medo, o medo daquela ridícula Regina, me tomou", como desabafou o escritor e artista plástico Nuno Ramos.


No próximo domingo, voto em Fernando Haddad. Voto 13!

__________
¹ Para sermos honestos, se recuarmos até 2014, veremos que aquela campanha foi também pobremente propositiva, além de excessivamente agressiva, tanto do lado do PT (lembram-se como foi feita a "desconstrução" de Marina Silva pela militância petista?), quanto do lado do PSDB. Ainda assim, a deste ano apresenta um nível de baixeza quase inacreditável da parte bolsonarista.

² BOSCO, Franciso. O mês que não terminou. Folha de S. Paulo, São Paulo, 3 jun. 2018. Caderno Ilustríssima, p. 4-5

³  Por favor, não se entenda com isso que me oponho à democracia. Defendo a democracia. Aponto apenas que a democracia representativa tem seus limites, É hora de começarmos a implementar a democracia direta, com mais plebiscitos e referendos, além de favorecer a criação de conselhos populares, dando a estes poder de deliberação.

BG de Hoje

Apesar de gostar de ambos, devo dizer que o primeiro disco da banda potiguar, radicada em São Paulo, FAR FROM ALASKA (Mode Human, lançado em 2014) tem um som mais pesado (e mais do meu agrado) do que o segundo (Unlikely, de 2017). Um exemplo é a ótima faixa Dino vs Dino.

sábado, 28 de outubro de 2017

Luis Fernando Verissimo e a sinceridade de um escritor profissional (II)


Na semana passada fiz uma mistureba daquelas aqui no Besta Quadrada.

Se o(a) eventual leitor(a) tiver a amabilidade de conferir a postagem anterior, verificará que iniciei o texto com duas citações do filósofo e crítico literário francês Maurice Blanchot (extraídas de um ensaio¹ publicado, creio eu, em 1949), nas quais há reflexões sobre a condição dos escritores (lá, na acepção de literatos). A seguir, mencionei uma entrevista de Luis Fernando Verissimo ao jornal Extra Classe e comentei o fato do autor gaúcho habitualmente ter aspirações modestas como artista, a despeito de seu talento. Ao enfatizar que Verissimo é reconhecido sobretudo por escrever crônicas, obstinei-me - não sei por que cargas d'água - em estabelecer se estas deveriam ou não ser consideradas literatura, o que me volveu para outra questão ainda mais ampla: afinal, que diabos seria a própria literatura? Retornei, então, a Maurice Blanchot e ao seu ensaio A literatura e o direito à morte, observando que o crítico francês, influenciado por Martin Heidegger, acreditava que o ideal da escrita literária é "nada dizer, falar para nada dizer" - expressar, pois, um vazio. Assim sendo, como localizar a literariedade de um texto, se é que isso existe? Como detectá-la nas crônicas? Por que, para muitos, a crônica teria menos "investidura" literária do que outros gêneros? Como se vê, as perguntas assomam. Porém, ao invés de respondê-las, fui citar outro trecho da entrevista de Luis Fernando Verissimo, no qual ele afirma nunca escrever para si, querendo dizer com isso que trabalha seu texto visando o público leitor. Algo execrado por Maurice Blanchot: segundo ele, as obras feitas para serem lidas acabam não sendo lidas por ninguém. Mas, quando paramos para pensar, percebemos que esse ninguém a quem o afetado pensador francês se refere são aquelas raras (e privilegiadas) pessoas que tiveram uma educação literária como a dele ou que compartilharam do mesmo substrato cultural no qual ele cresceu. Senti que precisava desvencilhar-me do enfoque excludente de Blanchot.

E aqui estamos. 

Meu objetivo hoje é apresentar um outro conceito de literatura, para, a partir deste, defender o genuíno lugarzinho da crônica junto aos demais gêneros literários. Mantenho também, desde a postagem anterior, a intenção de desmitificar um pouco o ofício dos(as) escritores(as) e, para isso, as declarações de um autor nada deslumbrado como Luis Fernando Verissimo serão muito oportunas.

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No livro Teoria da Literatura: uma introdução ², de Terry Eagleton, encontramos a seguinte passagem:

"John M. Ellis [atualmente professor de Literatura Alemã na University of California, Santa Cruz] argumentou que a palavra 'literatura' funciona como a palavra 'mato': o mato não é um tipo específico de planta, mas qualquer planta que por uma razão ou outra, o jardineiro não quer no seu jardim. 'Literatura' talvez signifique exatamente o oposto: qualquer tipo de escrita que, por alguma razão, seja altamente valorizada. Como os filósofos diriam, 'literatura' e 'mato' são termos antes funcionais do que ontológicos: falam do que fazemos, não do estado fixo das coisas. Eles nos falam do papel de um texto ou de um cardo num contexto social, suas relações com o ambiente e suas diferenças com esse mesmo ambiente, a maneira pela qual se comporta, as finalidades que lhe podem ser dadas e as práticas humanas que se acumularam à sua volta. 'Literatura' é, nesse sentido, uma definição puramente formal, vazia. Mesmo se pretendermos que ela seja um tratamento não-pragmático da linguagem, ainda assim não teremos chegado a uma 'essência' da literatura, porque isso também acontece com outras práticas linguísticas, como as piadas".

A literatura não é uma coisa - não é um ente com a mesma, digamos, "densidade" ontológica das rochas ou das células do nosso corpo, por exemplo. Também não seria o caso de classificá-la como algo etéreo, inefável. É claro que o literário se dá por meio da linguagem, sendo os diversos idiomas do mundo o seu sustentáculo. Muitos estudiosos, inclusive, entendem a literatura como uma forma peculiar no uso de um sistema linguístico (o tal "tratamento não-pragmático" mencionado acima), empregando propositalmente determinados artifícios e, com isso, transformando, intensificando ou mesmo deformando esse sistema (Terry Eagleton cita aquele famoso aforismo de Roman Jakobson, segundo o qual a literatura seria uma "violência organizada contra a fala comum"). No momento, interessa-nos mais de perto, porém, a sugestão de que um texto literário é aquele ao qual atribuímos um alto valor, distinguido-o do conjunto dos outros textos produzidos na sociedade. E isso gera "uma consequência bastante devastadora", segundo Terry Eagleton:

"Significa que podemos abandonar, de uma vez por todas, a ilusão de que a categoria 'literatura' é 'objetiva', no sentido de ser eterna e imutável. Qualquer coisa pode ser literatura, e qualquer coisa que é considerada literatura, inalterável e inquestionavelmente - Shakespeare, por exemplo - , pode deixar de sê-lo. Qualquer ideia de que o estudo da literatura é o estudo de uma entidade estável e bem definida, tal como a entomologia é o estudo dos insetos, pode ser abandonada como uma quimera. Alguns tipos de ficção são literatura, outros não; parte da literatura é ficcional, e parte não é; a literatura pode se preocupar consigo mesma no que tange ao aspecto verbal, mas muita retórica elaborada não é literatura. A literatura, no sentido de uma coleção de obras de valor real e inalterável, distinguida por certas propriedades comuns, não existe".

Importante: sendo um qualificativo um tanto flutuante, o adjetivo literário não deveria ser empregado de forma taxativa ³.

A literatura é, pois, uma modalidade de escrita à qual costumamos atribuir um alto valor e que não partilha da estabilidade de outros objetos de conhecimento/estudo (como as rochas e as células, por exemplo). Sua vicissitude "resulta do fato de serem notoriamente variáveis os juízos de valor". Uma obra pode receber (ou perder) o status de literatura com a passagem do tempo, mudar de classe. Além do mais, "pode variar o conceito do público sobre o tipo de escrita considerado como digno de valor". Os critérios para avaliar uma boa escrita literária modificam-se dentro de uma cultura - o que era aclamado em um texto no século XVIII pode não ter nenhum apelo para o leitor atual, do mesmo modo que técnicas de escritura e composição hoje em alta sejam desprezadas daqui a algumas décadas.

"Isso" - escreve Eagleton - "não significa necessariamente que venha a ser recusado o título de literatura a uma obra considerada menor: ela ainda pode ser chamada assim, no sentido de pertencer ao tipo de escrita geralmente considerada como de valor. Mas não significa que o chamado 'cânone literário', a 'grande tradição' inquestionada da 'literatura nacional', tenha de ser reconhecido como um construto modelado por determinadas pessoas, por motivos particulares, e num determinado momento. Não existe uma obra ou uma tradição literária que seja valiosa em si, a despeito do que se tenha dito, ou se venha a dizer, sobre isso. 'Valor' é um termo transitivo: significa tudo aquilo que é considerado como valioso por certas pessoas em situações específicas, de acordo com critérios específicos e à luz de determinados objetivos. Assim é possível que, ocorrendo uma transformação bastante profunda em nossa história, possamos no futuro produzir uma sociedade incapaz de atribuir qualquer valor a Shakespeare. Suas obras passariam a parecer absolutamente estranhas, impregnadas de modos de pensar e sentir que essa sociedade considerasse limitados ou irrelevantes. Em tal situação, Shakespeare não teria mais valor do que muitos grafitos de hoje. E embora para muitos essa condição social possa parecer tragicamente empobrecida, creio que seria dogmatismo não considerar a possibilidade de que ela resultasse de um enriquecimento humano em geral".

(Bem, como pessimista crônico, este blogueiro, apesar de concordar com o crítico literário britânico a respeito da transitividade da noção de valor, não crê que os seres humanos progridam como espécie ou sociedade e, portanto, não acredita na possibilidade de melhoria aventada acima)

Todavia, não pensemos que os valores são cambiantes simplesmente por causa da arbitrariedade e dos caprichos de nossas inclinações pessoais. Valores tem muito menos a ver com nossa subjetividade e são menos particulares do que costumamos supor. Como observa Terry Eagleton, "todas as nossas afirmações descritivas se fazem dentro de uma rede, frequentemente invisível, de categorias de valores; de fato, sem essas categorias nada teríamos a dizer uns aos outros". Além do mais, os juízos de valor "têm suas raízes em estruturas mais profundas de crenças, tão evidentes e inabaláveis quanto o edifício Empire State". Embora um pouco fora de moda hoje em dia, há uma palavra adequada para designar "essas estruturas mais profundas de crenças": ideologia ⁴.

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A literariedade de um texto, como acabamos de ver, é um valor atribuído, escorado, em última análise, nas diversas ideologias em circulação. Creio não ser difícil imaginar aquele que lê - seja um acadêmico ou crítico experimentado, seja um diletante sem maiores credenciais do que seu interesse, curiosidade ou paixão - nesse papel atribuidor. Mas e quanto àquele que escreve? Suponho que boa parte dos(as) autores(as), ao elaborarem seus textos - sejam estes romances, poemas, contos ou crônicas (porque, a esta altura, já não temos dúvida de que a crônica é um gênero literário, não é mesmo?) -, agem, intencional e conscientemente, para que sua escrita exiba certos elementos e traços passíveis de serem valorizados (e isso diz respeito ao aspecto verbal/formal do texto) como literatura, do mesmo modo que o fazem outros artistas nos seus respectivos campos.

Imagino, porém, que os artistas, independentemente do talento individual, não são capazes de produzir obras-primas o tempo todo. Noutras vezes, aquilo que o artista considera um trabalho estupendo pode não ir ao encontro daquilo que os atribuidores de valor - crítica, academia, imprensa, público em geral - têm em mente. Convém também lembrar que os artistas, até segunda ordem, estão sujeitos ao implacável capitalismo, assim como você e eu. E é nesse ponto que entra o tema do escritor profissional.

Parece haver certa vergonha (ou pudor, sei lá) da parte de muitos autores(as) em se assumirem como profissionais. Certamente não é o caso de Luis Fernando Verissimo. Em diversas ocasiões, até mesmo em algumas de sua crônicas, ele trata sem melindres dessa questão.

Já fui, noutros tempos, dessas pessoas que concebem a atividade literária como compromisso puramente artístico, sem qualquer transigência de natureza comercial. E isso é uma tolice! Nem todo(a) escritor(a) que "vende" é, necessariamente, um(a) mau(má) escritor(a) - embora muitos(as) o sejam. E vários(as) autores(as) populares ou bem sucedidos(as) nas livrarias não deixam de estabelecer para si padrões de escrita que avaliaríamos como literários, caso usássemos os critérios empregados no julgamento de obras mais "respeitáveis". Luis Fernando Verissimo, penso eu, é um desses.

Antes de terminar, gostaria de lembrar uma resposta do cronista gaúcho na entrevista ao jornal Extra Classe mencionada lá no início da postagem. Ele dissera, a respeito dos romances de sua autoria, que não tem grandes pretensões literárias. O entrevistador, então, pergunta: "Por escrever entretenimento?". E Verissimo diz:

"É, acho que sim. No Brasil é uma literatura considerada não muito respeitável, por isso os autores relutam em se dedicar a ela. Como não busco respeito... (risos). Mas é um gênero que precisa existir, até para a sobrevivência do mercado editorial".

Nós que gostamos de literatura temos a mania de só pensar na sublimidade da arte e não costumamos dar a devida atenção à dimensão material e mercadológica dessa atividade cultural. Por isso é sempre bom ouvir o que tem a dizer sobre isso sujeitos lúcidos e sinceros (além de talentosos) como Luis Fernando Verissimo.
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¹ BLANCHOT, Maurice. A literatura e o direito à morte. In: __________. A parte do fogo. Rio de Janeiro: Rocco, 2011. p. 309-351 [Tradução de Ana Maria Scherer]

² EAGLETON, Terry. Teoria da Literatura: uma introdução. 6 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006 [Tradução de Waltensir Dutra]

³ "Quando, deste ponto em diante, eu utilizar as palavras 'literário' e 'literatura' neste livro, eu o farei com a reserva de que tais expressões não são de fato as melhores; mas não dispomos de outras no momento", registra Terry Eagleton em seu livro

⁴ Eagleton faz ainda um importante acréscimo: "Não entendo por 'ideologia' apenas as crenças que têm raízes profundas, e são muitas vezes inconscientes; considero-a, mais particularmente, como sendo os modos de sentir, avaliar, perceber e acreditar, que se relacionam de alguma forma com a manutenção e reprodução do poder social".

BG de Hoje

Tenho gostado muito do som da banda potiguar FAR FROM ALASKA. Ouvindo direto nos últimos dias, sobretudo a faixa Cobra.