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sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Chupar laranja, (tomar) aspirina, catar feijão


Voltei a trabalhar numa biblioteca escolar. Quase seis anos se passaram e me deparo, nesse retorno, com as mesmíssimas situações problemáticas que eu acreditava terem ficado para trás. Bem, pelo menos está mais fácil agora reaproximar-me da literatura infantil e infantojuvenil depois de um longo hiato. Uns dias atrás, fui percorrer as prateleiras de poesia e fiquei contente ao achar o livro  Dia brinquedo,  de Fernando Paixão (Ed. Abril, 2009, com ilustrações de Suppa). Numa oportunidade anterior, noutra escola pública, eu havia selecionado três poemas deste livro para apresentá-los (junto com outros, de poetas diferentes) a um conjunto de turmas, num minissarau. Naquela ocasião, a coisa saiu melhor do que o esperado, tendo em vista as dificuldades de se obter adesão e envolvimento nas ações ligadas à literatura, por incrível que pareça, dentro de determinadas unidades escolares.

Um dos poemas selecionados tinha sido este:

 

ENCONTRO DAS FRUTAS
 
Na fruteira nova
alta luz da tarde
as laranjas têm bunda
brilha o batom das maçãs.
 
Trinta e nove uvas
de mãozinhas dadas
dão boas risadas
da cara feia do abacaxi.

 

"Funciona" muito bem com vários estudantes do início do Fundamental, as imagens ocorrendo-lhes rapidamente, achando graça nos traseiros das laranjas e se perguntando como seria ter um rosto de abacaxi.

Há uma disponibilidade muito maior de temas e assuntos aos quais recorrer nos poemas endereçados às crianças do que nos outros, destinados aos leitores mais experimentados. Pode-se imaginar, por exemplo, um diálogo de amor entre um garfo e uma colher (como se vê nesse mesmo livro de Fernando Paixão citado acima) ou compor uma cena em que uma vaca entra num bar e pede refrigerante com canudinho (lembrei-me agora de um dos muitos textos engraçados do Sérgio Caparelli), sem se preocupar se isso vai ou não comprometer a imagem de poeta sério que muitos temem colocar em risco. E Fernando Paixão é um poeta sério, lido por adultos meticulosos, professor da USP e tal, mas que fez questão de colocar nas páginas centrais do seu  Dia Brinquedo :  "O poeta escreve poesia para ser criança todo dia".  

A menção de nádegas cítricas me fez lembrar de um poema bem fraquinho de Drummond ¹, do qual praticamente ninguém fala, mas que acho bem divertido, em sua peculiaridade :

 

CHUPAR LARANJA 
 
A laranja, prazer dourado.
A laranja, prazer redondo.
A laranja, prazer fechado.
A laranja, prazer de faca.
 
Ou canivete. Cada golpe
anuncia: já se aproxima
o íntimo prazer da laranja,
que se dá sem sacrifício.
 
A laranja não se espedace,
para mais intenso prazer.
A laranja fique redonda,
mesmo sem casca, esfera nívea.

Então corte rápido a lâmina
um dos polos; a mão aperte,
e a boca sorverá, sensual,
a líquida alma da laranja.
 
Quem foi que, anônimo, inventou
o prazer de chupar laranja
em forma global de mamucha?
Gerações antigas sorriem
neste mestrado de volúpia.

 

Chupar laranja  integra  Boitempo,  conjunto de poemas de teor memorialista, ligados à meninice e a adolescência, publicado originalmente em 1968. Assim como vários dos textos ali reunidos, seus versos derivam da evocação de um ato simples, ligado à vida doméstica.

Durante muitos anos, eventual leitor(a), principalmente na infância, fiz pouca questão da laranja. Fruta trivial, da mesma categoria da banana e do mamão - todas sem qualquer mirabolância. Hoje, envelhecido, praguejo se não encontro alguma para saborear depois de um bom almoço em casa, sendo justamente a sua modéstia e despojamento o que passou a me agradar.

Levei um certo tempo para desenvolver a habilidade de descascar laranjas (só de lembrar os "machucados" que, no passar da lâmina, deixei em muitas delas, fico irritado, inclusive por uma questão estética, pois alcançar a "esfera nívea", quase homogênea, deveria ser o objetivo). Agora, com orgulho, posso arvorar-me um perito e, apesar da invencível desorganização e do caos permanente em minha moradia, guardo em local especial há anos uma faca jeitosa exclusivamente para o descascamento (por isso assimilo tão bem o verso "A laranja, prazer de faca"  ). 

O eu lírico presume que o  corte em "dois polos"  é o modo padrão de consumo da fruta. Entretanto, vê-se bastante mundo afora o  corte em xis ou cruz   (sem necessidade de tirar a casca, aliás) e até a  separação por gomos  (procedimento supérfluo e trabalhoso, devo dizer), tal qual uma tangerina que perdeu a vocação. A  "forma global de mamucha"  não é, portanto, planetária (a propósito, que palavra deliciosa é  mamucha , indisfarçavelmente mineira e com os dois pés no arcaico!).

Não recriminaria quem achasse insólito a laranja ser o tópico central de um poema (que não visava o público infantil) elaborado por um dos bambas da nossa poesia. Estranhamento parecido talvez se repita numa outra composição cujo tema principal, desta vez, é um fármaco ²:

 

NUM MONUMENTO À ASPIRINA
 
Claramente: o mais prático dos sóis,
o sol de um comprimido de aspirina:
de emprego fácil, portátil e barato,
compacto de sol na lápide sucinta.
Principalmente porque, sol artificial,
que nada limita a funcionar de dia,
que a noite não expulsa, cada noite,
sol imune às leis de meteorologia,
a toda hora em que se necessita dele
levanta e vem (sempre num claro dia):
acende, para secar a aniagem da alma,
quará-la, em linhos de um meio dia. 
 
Convergem: a aparência e os efeitos
da lente do comprimido de aspirina:
o acabamento esmerado desse cristal,
polido a esmeril e repolido a lima,
prefigura o clima onde ele faz viver
e o cartesiano de tudo nesse clima.
De outro lado, porque lente interna,
de uso interno, por detrás da retina,
não serve exclusivamente para o olho
a lente, ou o comprimido de aspirina:
ela reenfoca, para o corpo inteiro,
o borroso de ao redor, e o reafina.


O autor, desta feita, é João Cabral de Melo Neto e o texto em questão é bem mais conhecido do que o anterior. Faz parte de  A educação pela pedra,  lançado em 1966.

Uma nota biográfica vem a calhar. O poeta pernambucano sofreu por décadas com uma enxaqueca crônica. Em entrevista, afirmou ter consumido, durante muitos anos, cerca de seis comprimidos de aspirina diariamente. O medicamento tornou-se parte da sua vida - uma homenagem, portanto, não soaria despropositada. Em se tratando da poética cabralina, contudo, não devemos esquecer como o autor gostava de tornar matéria de poesia aquilo que ordinariamente não é considerado poético, evitando vocábulos por demais polissêmicos, preterindo a abstração e valorizando a concretude. Frente a um comprimido de aspirina, pouco pode fazer o subjetivismo.

Para encerrar essa mirada de poemas, busquemos mais um de Melo Neto ³,  célebre, também extraído de  A educação pela pedra :

 

CATAR FEIJÃO
 
Catar feijão se limita com escrever:
jogam-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na da folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.
 
Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que sempre entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá a frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a com o risco.


A quem ocorreria a comparação entre o prosaico ato de catar feijão e o ato de escrever (no caso, escrever literatura)? Está demonstrado que eles  se limitam  (ou seja, fazem fronteira um com o outro, são próximos embora não idênticos). Quem escreve distingue, precisa separar e depois suprimir "o leve e oco", a "palha e eco" - ou, às vezes, incorporar conscientemente a  pedra, indesejada no preparo do feijão, mas bem-vinda na escrita,  se esta atende a necessidade do artista de desafiar o leitor. Para João Cabral, o poema é sobretudo resultado de um empenho do pensar: o derramamento da inspiração é secundário na hora de compô-lo.

Esse é um dos textos cabralinos em que a sonoridade combinada das palavras contribui imensamente para sua beleza: "jogam-se os grãos na água do alguidar" ;  "e jogar fora o leve e oco, palha e eco" "obstrui a leitura fluviante, flutual/ açula a atenção, isca-a com o risco".  Justamente num autor que,  aparentemente,  não dava muita bola para esses efeitos...

 

Na próxima postagem, continuarei no terreno do verso, falando do último livro de poemas de Affonso Romano de Sant'Anna que veio a público antes de seu falecimento.

_________________ 

¹ ANDRADE, Carlos Drummond de. Chupar laranja. In: ____________. Boitempo I. 4 ed. Rio de Janeiro: Record, 1998. p. 78-79 

² MELO NETO, João Cabral de. Num monumento à aspirina. In: ___________. A educação pela pedra e depois. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997. p. 32

³ MELO NETO, João Cabral de. Catar feijão. In:___________. A educação pela pedra e depois. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997. p. 16-17  

BG de Hoje

Não tenho dados para confirmar, mas o Rio de Janeiro é provavelmente o município mais cantado do Brasil. É compreensível: além da antiguidade e da importância ao longo da história, muitos de seus moradores e visitantes frequentes amam de paixão aquele lugar (pessoalmente, tenho muita antipatia  pela  cidade maravilhosa  , além de muito pavor - opinião que não vale quase nada pois só estive por lá uma única vez,  num breve período). Rio 40 graus, composição de FERNANDA ABREU, FAUSTO FAWCETT e Laufer, lançada em 1992, é um breviário poético e musical da cidade como nenhum outro já feito, admiravelmente sintetizado na expressão "purgatório da beleza e do caos"

sexta-feira, 19 de abril de 2024

Sobre O enterrado vivo, de Drummond

 

 

Vale a pena nos questionarmos o quanto nos aferramos a consagrar o que já é consagrado.

No campo da Literatura (e das artes em geral), tal questionamento me parece ainda mais fundamental.

O que estou tentando dizer é: reafirmar a maestria de um Guimarães Rosa ou a genialidade de uma Clarice Lispector, por exemplo, é chover no molhado. Existe uma consideração pública assentada sobre certos autores, mesmo entre a parcela de pessoas que passa longe da leitura literária.

Não me entenda mal. É sempre possível acrescentar algo à fortuna crítica de qualquer escritor/escritora e, muitas vezes, pode-se ter um entendimento mais rico de determinada obra célebre por meio de uma nova interpretação. Não é disso que estou falando.

Só não suporto a reverência oca. 
 
O que seria isso? O relato a seguir talvez ajude a explicar.
 
Para mim, é inimaginável viver sem música, embora não seja um instrumentista, muito menos saiba cantar, nem entenda nada de teoria ou composição musical. Apesar dessa paixão, tenho um posicionamento sacrílego: uma invencível má vontade com a bossa nova e, principalmente, com João Gilberto. Acho tão aporrinhante... (eu sei, eu sei, lancem-me às feras). Estou ciente, é óbvio, do respeito que cerca esse artista, bem como do tamanho de sua influência, mas não vou sair por aí soltando frases vazias tipo "o grande João Gilberto" ou "como João Gilberto era bom". Creio que sua consagração é justificada e sei que perderia meu tempo contestando sua importância como violonista e cantor; não vou, porém, fingir admiração só por ter sido um artista apreciado por muitos - fazer isso seria, da minha parte, uma reverência oca.

Voltando ao ponto anterior. Muita gente, para fazer menção a certas personalidades das letras, parece se sentir obrigada a cercar os(as) autores(as) de palavras venerandas. Isso se dá não por causa de uma estima sincera, resultante do contato (muitas vezes prolongado) com a produção textual desses(as) mesmos(as) autores(as), mas apenas como resultado da reverência oca, dado o peso cultural dessas personalidades.
 
Mal algum em louvar artistas consagrados (este blogueiro mesmo fez isso em diversas ocasiões e, desavergonhadamente, o fará mais uma vez na postagem de hoje). Penso, contudo - especialmente quando se trata de entendidos na matéria (acadêmicos, críticos, jornalistas ou opinadores com alguma visibilidade nos meios de comunicação) -, que deve-se evitar cair na arapuca de só enaltecer aquilo que já foi ou vem sendo suficientemente enaltecido, deixando de lado outros(as) escritores(as) cujos trabalhos também seriam merecedores de uma projeção maior (já escrevi sobre essa minha preocupação numa postagem em outubro de 2011).

Tá certo, admito ter acabado de propor algo que eu mesmo não costumo fazer por aqui (em minha defesa, posso dizer que sou um joão-ninguém, não é minha responsabilidade)...

Apontamentos feitos, falaremos de um poema - O enterrado vivo - cujo autor (ora, ora!) é um desses monstros sagrados da literatura brasileira: Carlos Drummond de Andrade.

O poema vem ocupando meu pensamento de uns tempos pra cá graças ao emprego de seu último verso como uma das epígrafes do livro O verão tardio, de Luiz Ruffato, discutido no blog na penúltima postagem do ano passado. Bastou ler aquele verso para me lembrar de toda a composição, um texto que, durante anos, repeti para mim mesmo como um "antiacalanto". Vou reproduzi-lo abaixo:

 

O ENTERRADO VIVO

É sempre no passado aquele orgasmo.
É sempre no presente aquele duplo.
É sempre no futuro aquele pânico.
 
É sempre no meu peito aquela garra.
É sempre no meu tédio aquele aceno.
É sempre no meu sono aquela guerra. 

É sempre no meu trato o amplo distrato.
Sempre na minha firma a antiga fúria.
Sempre no mesmo engano outro retrato.

É sempre nos meus pulos o limite.
É sempre nos meus lábios a estampilha.
É sempre no meu não aquele trauma.

Sempre no meu amor a noite rompe.
Sempre dentro de mim meu inimigo.
E sempre no meu sempre a mesma ausência.

 

(Utilizei a 41ª edição da Antologia poética de Drummond, publicada pela Editora Record em 1998, mas O enterrado vivo faz parte originalmente no livro Fazendeiro do ar, de 1954)

E qual é minha intenção ao discutir esse poema? Nada de mais. Por se tratar de um de meus prediletos, apenas desejo fazer com que você, eventual leitor(a), valorize-o também.

Realço dois elementos da composição: o ritmo e a seleção lexical.

Há apenas uma rima soante. A métrica dos versos (com linhas de dez sílabas poéticas), o uso anafórico de "É sempre" (ou apenas "sempre") e a organização em tercetos sustentam o ritmo; os dois últimos recursos, aliás, foram simples e eficientíssimos. Quando lido em voz alta - e nunca é demais repetir, ler poemas em voz alta é fundamental para a percepção não só do ritmo e da musicalidade, mas, igualmente, do vigor e enlevo que as palavras podem provocar -, a cadência gera sentido tanto quanto aquilo que é expresso verbalmente: a desolação d'O enterrado vivo emana também de sua sonoridade. (NOTA 1: Vale mencionar que, junto a esse poema, no volume em que foi publicado pela primeira vez, está presente No exemplar de um velho livro, outro texto todo em tercetos. Há também sonetos - O quarto em desordem e A distribuição do tempo - , levando-me a supor que Drummond estava particularmente inclinado para as formas fixas e os escritos "mais arrumadinhos" naquele período)

As palavras selecionadas, quase todas de uso corrente no nosso vocabulário, ganham nova dimensão graças às combinações feitas pelo poeta. E mesmo as mais raras, "distrato" e "estampilha", não estão fora de lugar. É na segunda estrofe que a sonoridade e o ajustamento de palavras atingem seu ponto alto: "É sempre no meu peito aquela garra./É sempre no meu tédio aquele aceno./É sempre no meu sono aquela guerra". 

É um texto poético magnífico. Chega a me exasperar, de tão bom. 

Nesse momento, porém, acho oportuno mencionar um trecho de (raríssima) entrevista da poeta Maria do Carmo Ferreira, registrada em 2004 ¹ .

"Dois fatos me marcaram nessa época [anos 1960]: meu professor de Literatura Espanhola, José Carlos Lisboa, apesar de muito rigoroso e exigente, veio me cumprimentar pelo poema saído na revista Mural. Ruborizei de vergonha e até pedi desculpa, não sabendo onde esconder minha cara. E veio a primeira lição: 'Carminha, não há poetas perfeitos, quando muito há um ou outro poema perfeito'. Sempre penso nisso quando leio (ou releio) os meus poetas prediletos, onde encontro de tudo: verborragia, poemas circunstanciais, quando não excesso de rimas/ritmos/decalques, enfim, a gente está sempre separando o joio do trigo, mesmo nos que ficaram para sempre, nos clássicos da língua".

(NOTA 2: Caso o(a) eventual leitor(a) nunca tenha ouvido falar em Maria do Carmo Ferreira, sugiro essa reportagem de 2021 da revista piauí, relatando, entre outras coisas, as primeiras publicações da obra da escritora em livro, sendo ela já octogenária)

"Não há poetas perfeitos, quando muito há um ou outro poema perfeito". Isso vale também para Carlos Drummond de Andrade, que elaborou várias composições extraordinárias, mas não o tempo todo. 

Por isso valorizo ainda mais O enterrado vivo, uma dessas criações notáveis. É perfeito, digo sem hesitação.

Um poema que me atinge fortemente, sendo eu alguém habitualmente interessado nos modos de se tentar expressar a amargura existencial. 

"Sempre dentro de mim meu inimigo"... como isso é cortante...

______________________________

¹ MARQUES, Fabrício. Dez conversas -  diálogos com poetas contemporâneos. Belo Horizonte: Gutenberg, 2004.

BG de Hoje

Já discuti a questão poema/letra de música em algumas postagens do blog (por exemplo, aqui). Uma letra de música, antes de qualquer outra coisa, deve contribuir "para que a obra lítero-musical de que faz parte seja boa", como defende Antonio Cicero. Diferentemente do poema, que tem um fim em si mesmo e "se realiza quando é lido", a letra de música existe para acompanhar uma canção. Não é muito frequente, a meu ver, que uma letra de música mantenha sua vivacidade ao ser lida como um poema. Nada de mal nisso. Como dito antes, se ela contribui para uma boa canção, isso é o que importa. Quase nada, parceria da poeta ALICE RUIZZECA BALEIRO seria uma espécie de "melhor dos dois mundos". Um lindo poema e uma amostra de como uma boa letra de canção popular deveria ser.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Sobre desesperança e sobre o poema Girassol, de Carlos Drummond de Andrade


[Postagem atualizada em 07/02/2021]

Não é sempre, mas a publicidade comercial e o marketing me fazem sentir uma mistura de asco e fúria. 

Sinto asco porque, nesse campo, a transigência com a trapaça é parte da essência do negócio. O uso de truques cênicos para fazer com que a comida ou a bebida pareçam mais saborosas ou mais saudáveis do que realmente são; o apregoar de qualidades ou vantagens inexistentes em determinados produtos e serviços; as letrinhas quase microscópicas na parte baixa do vídeo ou a locução acelerada no final do anúncio - essas e outras "espertezas" são estranhamente toleradas por pessoas que, normalmente, detestariam ser ludibriadas em outras áreas. 

Todavia, sinto principalmente fúria porque, entre os sustentáculos do sistema excludente e desumanizador em que vivemos, a publicidade comercial e o marketing têm papel crucial, ajudando a vender não só mercadorias, mas conceitos e crenças proveitosos para esse sistema. Noutras palavras, cumprem uma função ideológica, embora poucos publicitários e marqueteiros admitiriam isso de bom grado. 

"Compre X ou use Y e seja feliz!". Durante anos e anos, as peças publicitárias empenharam-se em associar a aquisição/desfrute de coisas com a obtenção de felicidade. "Ser feliz", contudo, é sempre algo transitório. Não que eu ache o conforto e os bens materiais secundários (não sou desses birutas que dizem: "o dinheiro não traz felicidade"), mas adquirir objetos (às vezes por compulsão ou tendo que se endividar perigosamente) não deve estar proporcionando tanta satisfação assim. É o que parece indicar o grande número de pessoas ansiosas, estressadas, tensas e aflitas a nosso redor (isso quando não somos nós que estamos ansiosos, estressados, tensos ou aflitos). Nada disso, entretanto, causa preocupação nos anunciantes e nas agências de propaganda: o que importa é levar você a consumir ou, como se tem dito ultimamente, viver a experiência através de determinada coisa (isto é, pagar por um serviço) para, desse modo, "ser feliz".

A publicidade e o marketing também conseguiram tornar mercantil a esperança. Nesses tempos de pandemia então... Já repararam em comercial de banco? Pessoas com uma xícara de café na mão, olhando pela janela; pais brincando com crianças na sala; o rosto de uma enfermeira usando máscara; um som de piano, de leve, como trilha sonora; locutor dizendo frases do tipo: "Vai passar!", "Aproveite os pequenos momentos!". A manipulação barata de emoções transmite a mensagem: o banco quer que você tenha esperança

Francamente! Durante esse período angustiante, os bancos - instituições que (entra ano, sai ano) batem recordes de lucro no Brasil - fizeram o quê? Perdoaram ou facilitaram o pagamento de pequenas dívidas de clientes de baixa renda? Aumentaram a oferta de crédito com taxas de juros reduzidas para pessoas físicas ou ofertaram linhas de crédito mais generosas para pequenos empresários/comerciantes? Ajudaram a subsidiar setores diretamente afetados pela necessidade do distanciamento social, como a cultura e as artes? Até onde sei, nada disso aconteceu. Bancos, para a maioria de nós, pobres, nada têm a ver com crença positiva no futuro. Pelo contrário, até: esses empreendimentos altamente lucrativos demitiram trabalhadores em plena pandemia.

O que é a esperança? Se o(a) eventual leitor(a) já assistiu a Matrix Reloaded provavelmente se lembrará da fala do Arquiteto no diálogo com Neo: "It's the quintessential human delusion, simultaneously the source of your greatest strength and your greatest weakness [É a ilusão humana em quintessência, simultaneamente a fonte de sua maior força e de sua maior fraqueza]". A despeito de seu ar esnobe e de ser um dos vilões do filme, o personagem deu uma definição bastante acurada. Bem antes de servir como edulcorante para o capitalismo predatório, a esperança integrou (e integra) a prédica religiosa. É uma das virtudes teologais, junto com a fé e a caridade. Esse trio de virtudes é aquele que - assim prega o catecismo católico - tem "como origem, motivo e objeto imediato o próprio Deus". Ainda de acordo com o catolicismo, elas seriam infundidas nos indivíduos com uma ajudinha do Espírito Santo (ou seja, sua procedência é sobre-humana). A função principal da esperança no esquema religioso é fazer acreditar na vida eterna após a morte no plano terreno ou fiar-se na volta do Cristo antes do Juízo Final. Como se vê, a definição do Arquiteto ("ilusão humana em quintessência") não é mesmo ruim, quando verificamos o tamanho do papel da esperança no delírio máximo vivenciado por grande parte de nossa espécie (crer na existência de divindades ou em fenômenos sobrenaturais).

O Arquiteto, porém, diz mais: fonte de maior força e de maior fraqueza. Suponho (apenas suponho) que qualquer pessoa, mesmo a mais abandonada, desvalida e deprimida, experimentou (ainda que ligeiramente) a sensação de que "as coisas podem melhorar" ou que "a ajuda vai chegar", mesmo sem ter, objetivamente, razão alguma para acreditar nisso. Muitas ações e decisões humanas - desde as mais comezinhas às mais magnânimas - vêm dessa sensação. Entretanto, em inúmeras outras ocasiões, a esperança também nos induz a comportamentos e atos nada racionais, fazendo-nos deixar de enxergar aquilo que a realidade duramente impõe, levando a resultados desastrosos.

. . . . . . . 

A jornalista e escritora Eliane Brum publicou, com intervalo de quatro anos entre um e outro, dois textos em sua coluna no jornal El País que gostaria de trazer para esta discussão.

Em defesa da desesperança saiu em dezembro de 2015, alguns meses antes da consumação do processo de impeachment de (ou, como acho mais apropriado chamar, golpe contra) Dilma Rousseff, sendo este um dos temas do artigo. A alta qualidade da escrita (como de praxe, em se tratando de Eliane Brum) não me impediu de discordar de grande parte da análise feita pela autora, tanto na época de publicação quanto hoje. Isso, porém, não é relevante agora, mas sim o que está na parte final da coluna. A jornalista anota:

"Este é um país em que se declarar sem esperança é visto como uma falha de caráter, uma traição ao coletivo e a si mesmo. Como assim, você não tem esperança? A esperança é como a felicidade na lógica capitalista: objeto de consumo que mede o sucesso de uma vida. Esperança é palavra invocada por todos os lados na atual conjuntura do Brasil. Seja de forma espontânea, seja como construção marqueteira".

E conclui:

"Talvez tenha chegado a hora de superar a esperança. Autorizar-se à desesperança ou pelo menos não linchar quem a ela se autoriza. Quero afirmar aqui que, para enfrentar o desafio de construir um projeto político para o país, a esperança não é tão importante. Acho mesmo que é supervalorizada. Talvez tenha chegado o momento de compreender que, diante de tal conjuntura, é preciso fazer o muito mais difícil: criar/lutar mesmo sem esperança. O que vai costurar os rasgos do Brasil não é a esperança, mas a nossa capacidade de enfrentar os conflitos mesmo quando sabemos que vamos perder. Ou lutar mesmo quando já está perdido.

Fazer sem acreditar. Fazer como imperativo ético".

Que o(a) eventual leitor(a) me perdoe pela perspectiva simplista, mas, olhando para seu passado e imaginando o seu futuro, penso que o Brasil é uma nação que não tem como dar certo. Estou de acordo com Brum neste ponto: quando se pensa em projetos políticos para o país, não vale a pena dar bola para a esperança. O Brasil é uma desgraça (esse juízo é meu, não da articulista, e sim, este blogueiro tem complexo de vira-lata) ¹. O que não significa que se deva cruzar os braços por completo.

Noutra coluna, A potência da primeira geração sem esperança (junho de 2019), o contexto se amplia, porque um dos principais tópicos abordados é o da emergência climática global. A primeira geração sem esperança à qual Eliane Brum se refere é a dos jovens (representados na coluna pela ativista sueca Greta Thunberg) que será obrigada a viver "no planeta esgotado por seus pais [sobretudo pelo consumo desenfreado]". Brum observa que, "ao recusar a ideia fácil da esperança, os adolescentes [como Greta Thunberg] intuem - ou concluem - que se quiserem enfrentar a vida no planeta que virá, terão que recusar essa matriz de pensamento [a chamada 'tradição ocidental', que preteriu a ecologia e o ambientalismo por tempo demais, sempre acreditando no "progresso" e no "crescimento" econômico perpétuos] - ou não terão chance".

Ainda sobre essa geração (e principalmente sobre as pessoas dentro dela mais envolvidas com a questão ambiental), a autora escreve: 

"O que testemunhamos é uma nova forma de pensamento adaptada à nova realidade do planeta. Minha hipótese é que testemunhamos uma adaptação à emergência climática. Produzida em nível subjetivo, essa adaptação está produzindo acontecimento no planeta. Depois de cientistas e ativistas do clima berrarem sozinhos por décadas, o mundo finalmente começa a escutar que a casa está queimando porque a nova geração, esta que prescinde da esperança, é quem está dizendo".

Muitos dessa geração já não se iludem. Sabem que a Terra que receberão terá maior escassez de água potável, maior desertificação, aumento de temperatura, desequilíbrio ecológico, entre outros problemas, com todas as consequências advindas para as comunidades humanas (danos na saúde, na alimentação, na moradia, ou seja, na capacidade de sobrevivência em geral). Outros seres vivos lidam com a calamidade há mais tempo... Muitos dessa geração não esperam nada da minha, nem daquela que a precedeu; afinal, quem piorou tudo fomos nós. Não serão discursos de políticos ultrapassados e propagandas vendendo esperança que vão fazê-los ignorar tantos fatos evidenciando que estamos cada vez mais na merda. Falo apenas dos jovens conscientes. Os consumidores de desinformação travestida de jornalismo e os adeptos de teorias da conspiração são um outro assunto.

. . . . . . .

Nessa parte final, intenciono falar de uma outra desesperança - mais particular, mais pessoal

Convido o(a) eventual leitor(a) a ler junto comigo um dos meus poemas prediletos: Girassol, de Carlos Drummond de Andrade ².

Faremos isso após uma digressão. Um pouquinho mais de paciência, por gentileza.

Numa homenagem à colega Rosa Weber, o atual presidente do STF, Luiz Fux, em sessão no último mês de dezembro, leu um texto intitulado Recomeçar, cujo autor é Paulo Roberto Gaefke, mas o magistrado atribuiu-o a Drummond. Isso ficou comuníssimo com a chegada da internet: milhares de escritos circulam pela web com a autoria errada. Clarice Lispector e Luis Fernando Verissimo costumam também ser "vítimas". O sujeito encontra o texto numa busca ou vê impresso num convite de formatura, por exemplo, e pensa: "taí, achei bonito esse poema do Beltrano" (mesmo que Beltrano nada tenha a ver com aquilo, simplesmente colocaram - não se sabe por que cargas d'água - o nome dele lá) e resolve: "vou compartilhar". Não acho que é pecado. Ainda mais se tratando de poesia, algo que tem tão poucos leitores habituais. Já vi esse mesmo Recomeçar, sendo de novo atribuído a Carlos Drummond de Andrade, como página inicial num caderno que foi entregue aos trabalhadores em educação numa escola em que estive lotado. Era de se esperar que, num ambiente onde se encontram professores de Língua Portuguesa com alguma formação em Literatura, alguém desconfiasse que o texto está a anos-luz de distância da poética drummondiana e, portanto, a autoria atribuída estava errada. Ninguém, porém, notou (ou talvez nem ligasse).

Os juízes no Brasil  - e outros profissionais ligados ao Direito - costumam posar como indivíduos detentores de uma erudição assombrosa. Não é disparatado supor que um brasileiro culto (não precisa ser um especialista em poesia do século XX) tenha alguma familiaridade com a obra do poeta mineiro. Como então explicar que uma pessoa presumivelmente douta tome a composição de autoajuda rasteira de Gaefke por uma criação do autor de A rosa do povo?

Bem... Vamos ao poema de Drummond.


GIRASSOL

Aquele girassol no jardim público de Palmira.
Ias de auto para Juiz de Fora; a gasolina acabara;
havia um salão de barbeiro; um fotógrafo; uma igreja; um menino parado;
havia também (entre vários) um girassol. A moça passou.
Entre os seios e o girassol tua vontade ficou interdita.
 
Vontade garota de voar, de amar, de ser feliz, de viajar, de casar, de ter muitos filhos;
vontade de tirar retrato com aquela moça, de praticar libidinagens, de ser infeliz e rezar; muitas vontades; a moça nem desconfiou...
Entrou pela porta da igreja, saiu pela porta dos sonhos.
 
O girassol, estúpido, continuou a funcionar.


Girassol foi publicado originalmente no livro Brejo das Almas, em 1934, numa edição de apenas 200 exemplares, paga de forma cooperativa (só por curiosidade, Brejo das Almas era o nome de um município mineiro, hoje chamado Rodrigues Alves). Acho um livro importante dentro da produção de Carlos Drummond de Andrade. Sucessor de Alguma Poesia - a estreia do poeta -, é uma reunião de textos que já não precisava afirmar a todo tempo sua filiação ao Modernismo deflagrado pela Semana de 22. Os poemas reunidos ali são preparatórios para a melhor fase da carreira de Drummond.

Girassol apresenta-nos, logo de cara na primeira estrofe, uma cena, um quadro. Ou uma fotografia, se quiserem (outra curiosidade, Palmira também é um município que mudou de nome; hoje é chamado Santos Dumont, e fica na região da Zona da Mata de Minas Gerais, cuja principal cidade é Juiz de Fora). Mas é o último verso dessa primeira parte - "Entre os seios e o girassol tua vontade ficou interdita" - que dá o tom de todo o poema. 

Vale um esclarecimento: apesar da voz poética do enunciado não estar na primeira pessoa, usarei o termo eu lírico em minha interpretação do texto, pois claramente se trata de uma espécie de solilóquio.

Pois bem. O eu lírico olhava ao redor; mas reparou especialmente num girassol que se destacava em meio a outros (por ser maior? mais amarelo?). Até que uma mulher passa. Há uma interdição da vontade - isto é: o eu lírico já não tem mais controle sobre ela. A mente então vagueia: "vontade garota de voar, de amar, de ser feliz, de viajar, de casar, de ter muitos filhos;/vontade de tirar retrato com aquela moça, de praticar libidinagens, de ser infeliz e rezar;/muitas vontades;"

Se os seios (e toda pulsão sexual que eles representam no poema) foram catalisadores desse vaguear do pensamento, o girassol também foi, ainda que em menor escala. O girassol é o mundo objetivo, sem muito espaço para o devaneio, é verdade ("continuou a funcionar" do jeito de sempre, mesmo após todo o périplo imaginativo anterior), mas, sem esse lastro, aquilo que se fantasia não teria qualquer chance de um dia, quem sabe, tornar-se real.

Concluo a análise notando que um grande poeta não está livre da pieguice e do mau gosto: o verso "Entrou pela porta da igreja, saiu pela porta dos sonhos" é de doer.

Esse poema não tematiza, de modo algum, a desesperança. Por que então citá-lo nesta postagem? 

Vamos lá...

Estou com quase 50 anos. Vivi (e vivo) uma existência medíocre, parasitária, apática e cagona.

Minha vontade nunca foi particularmente forte e enfraqueceu-se mais ainda com o envelhecimento. É tão fraca que até hoje não reuni a coragem suficiente (que um dia tive) para finalmente dar fim a todo o meu mal-estar e angústia, cometendo suicídio. 

Todas as vezes em que releio Girassol, sobretudo nos últimos anos, gosto de sentir, por empréstimo, a juvenil força imaginativa de seu eu lírico, tão cheio de desejos. Porque praticamente não tenho nenhum. Nem vontades (vontade de se empanturrar ou de encher a cara não contam).

Resumindo: não sinto esperança. Não sinto esperança pelo país, um lugar que parece condenado a ser um espaço de exploração e exclusão incessantes -  é assim desde o século XVI. Não sinto esperança pelo mundo, não só pela iminente catástrofe climática, mas também pelo flagelo social a se ampliar com a concentração de renda cada vez maior na mão de alguns milhares de bilionários. Não tenho esperança em relação a mim próprio (acho que nunca tive). Mas a leitura desse poema de Drummond sempre me dá alguma alegriazinha. 

Isso deve valer alguma coisa, eu acho.

___________

¹ Como já dissera, Eliane Brum, em nenhum momento de seu artigo, tenta resumir toda a complexidade dos problemas brasileiros numa frase rudimentar como a que usei. Feito o esclarecimento, reitero a frase: o Brasil é uma desgraça! 

² ANDRADE, Carlos Drummond. Girassol. In: ____________. Sentimento do mundo. 13 ed. Rio de Janeiro: Record, 2001. p. 111 [Como escrevi acima, o poema faz parte do livro Brejo das Almas, que está contido nesta edição de Sentimento do mundo aqui referenciada, junto com o Alguma poesia

BG de Hoje

Gosto de canções tristes. Uma das minhas preferidas é River Of Deceit, do MAD SEASON, um desses projetos paralelos chamados de "supergrupo", por reunir músicos provenientes de outras bandas ou com uma renomada carreira solo. No caso do Mad Season, estavam lá Mike McCready (Pearl Jam), Barret Martin (Screaming Trees), Layne Staley (Alice In Chains), além do baixista John Baker Saunders. Embora muitos digam que a letra de River Of Deceit retrate os problemas que Layne Staley tinha com o vício em drogas pesadas (como acontece com várias composições dele no Alice In Chains), acho que ela vai muito além disso: é uma canção endereçada àqueles que sentem grande dificuldade em corresponder ao que o mundo espera de nós. Além disso, são muito bonitos os arranjos vocais e de guitarra.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Um cavalo nada lúcido (e formado de que substância?)


Cheguei aos 45 anos de idade na semana passada. Como ainda não tenho a coragem suficiente para o suicídio, resta refletir sobre o envelhecimento.

Em Nebraska (direção de Alexander Payne, 2013), há um diálogo que pode parecer pouco relevante a princípio, mas fundamental para compreender melhor o protagonista Woody Grant (interpretado belissimamente pelo ator Bruce Dern) e do qual sempre me lembro, desde que assisti a esse ótimo filme pela primeira vez.

Woody e seu filho mais novo, David, estão na fictícia cidade de Hawthorne (as cenas foram filmadas no município de Plainview, Nebraska), onde passarão um tempo com seus parentes antes de partirem para Lincoln, em busca de um prêmio de 1 milhão de dólares que o velho pensa, ingenuamente, ser verdadeiro. Após uma caminhada, em que Woody passa pela oficina da qual fora proprietário, os dois param num bar e David acaba resolvendo tomar umas cervejas com o pai, naquilo que poderia facilmente descambar para um momento-ternurinha-entre-pai-e-filho bem piegas. Mas, felizmente, não é o que acontece. Está claro que os dois não têm o hábito de conversar um com o outro (até porque Woody sempre fora um sujeito caladão) e, para quebrar o silêncio, o filho começa falando do fim de seu relacionamento com a namorada. O octogenário, distraído (talvez pela caduquice, por não se lembrar ou porque simplesmente não dá a mínima), mal ouve o que David está dizendo. Este então resolve saber um pouco do passado dos pais:

"- Como você e a mamãe acabaram se casando?
- Ela queria.
- E você não?
- Eu pensei. 'Por que não? [ele diz, no inglês original, 'what the hell']'
- Já se arrependeu de ter casado?
- O tempo todo. Podia ser pior.
- Você devia estar apaixonado. Pelo menos no começo.
- Nunca aconteceu.
- Vocês conversavam sobre ter filhos? Quantos queriam e coisas assim?
- Não.
- Então por que nos tiveram? [David tem um irmão mais velho, Ross]
- Porque eu gosto de transar. E sua mãe é católica. Então, descubra por si.
- Você e mamãe nunca falaram sobre ter filhos?
- Pensei: 'Se continuarmos transando, vamos acabar tendo alguns' ".

Um trecho dessa cena pode ser visto aqui. David, mais um dos muitos iludidos nesse mundo com a ideia de amor romântico, espanta-se não tanto com a franqueza do pai, mas por descobrir que Woody (e provavelmente muitos da geração dele) não via nada de muito importante ou especial em ter filhos. Ou mesmo em não ter nenhum. O personagem, até aquele momento apenas um velho turrão, ranzinza e genioso (como a maioria dos velhos, aliás), passa a ficar mais interessante para o espectador (pelo menos comigo foi assim), e o decorrer do filme confirmará isso.

O diálogo prossegue; David pergunta:

"- Já pensou em deixá-la [Kate, mãe de David]?
- Eu ia acabar com outra pessoa que ia viver me enchendo.
- [David fica agastado] Ah, é. É. Ela aguentou sua bebedeira esse tempo todo!
- Não bebo tanto assim...
- Você é um alcoólatra!
- Besteira!
- Como assim, 'besteira'? Sabia que você tinha problemas quando eu tinha 8 anos! Eu via você esconder bebida na garagem.
- Você roubava também. Percebi que era você. Você me custou muita grana.
- Eu despejava tudo fora, porque estava cansado de te ver bêbado.
- Sabia que era você. Seu irmão não era de agir às escondidas... Eu servi ao meu país. Eu pago meus impostos. Tenho direito de fazer o que eu bem quiser.
- Então você bebe mesmo.
- Um pouco...
- Muito!
- Tá bom! Eu bebo muito! Que diabo! E daí? Você faz o que quer e eu também. Você também beberia se fosse casado com sua mãe. Não cabe a você me dizer o que fazer, seu babaca [pra ser exato ele diz, 'you little cocksucker']".

O que fora a vida de Woody? Nascer e crescer numa cidadezinha desimportante, ser obrigado a participar da estupidez da guerra (no caso, a da Coreia), trabalhar como mecânico, casar-se e ter uma família apenas porque isso fazia parte das convenções sociais de seu tempo (e muitos se casam até hoje pelo mesmo motivo). Ele buscava na bebida uma forma de escapar, pelo menos de vez em quando, à toda essa banalidade. É difícil sentir simpatia por esse personagem. Não há qualquer traço de grandeza nele. Pelo contrário: Woody Grant é uma nulidade, um bebum e um pé-no-saco (mas a verdade é que nós o julgaremos melhor até o final do filme). E por que ele nos é desagradável - pelo menos antes da narrativa cinematográfica se concluir? Talvez tenhamos um certo pudor em admiti-lo, mas, sem meias palavras, são a decrepitude e toda a carga de derrota e malogro implícitas na velhice - representadas na figura do personagem - responsáveis por boa parte de nossa desafeição. E nem é necessário que a velhice esteja consumada em nós. Apenas a sua perspectiva já nos é desconsoladora. Apavorante.

Noutra passagem do filme, o protagonista, seus filhos e a esposa Kate (interpretada por June Squibb, mais uma atuação belíssima) visitam a antiga residência, agora abandonada, onde Woody fora criado. A sequência é linda, tocante. A certa altura, David pergunta ao pai - já do lado de fora da casa, os dois olhando o horizonte -: "Já viu o suficiente?". E o velho responde:

"I suppose. It's just a bunch of old wood and some weeds". [Acho que sim. É só um monte de madeira velha e mato]

Pouca coisa, para alguns de nós, poderia simbolizar tão bem as lembranças restantes de uma vida inteira - madeira velha e mato.

A fotografia em preto e branco e os grandes planos abertos mostrando a paisagem rural do norte e do meio-oeste dos EUA fazem de Nebraska um filme muito bonito, visualmente falando. Gosto dele, todavia, principalmente pelo roteiro escrito por Bob Nelson. Não há neste qualquer tipo de excesso ou afetação. E conforme a história vai sendo contada, entende-se um pouco mais o verdadeiro motivo que leva Woody Grant a insistir na busca do seu prêmio inexistente. Mais do que a demência, a perturbação mental, é a necessidade de agarrar-se a alguma coisa, a medida que seu tempo acaba, a real explicação desse (talvez) derradeiro esforço. Isso emociona, não dá pra ficar indiferente. David, em determinado momento, ouve de sua sensata mãe: "Tenha cuidado ou é nisso que vai se transformar", referindo-se à condição do velho Woody. Essa advertência também se dirige ao espectador.

. . . . . . .

Minha reflexão sobre o envelhecimento conduz-me também à poesia de Carlos Drummond de Andrade. Hoje, neste dia 17 de agosto, completam-se 30 anos de falecimento do itabirano.

O escritor teve uma vida longa. E deve-se enfatizar que, mesmo idoso, continuou escrevendo e publicando num ritmo e constância apreciáveis (para se ter ideia, somente aos 82 anos pôs fim à sua atividade de cronista). Contudo, sendo razoavelmente (apenas razoavelmente, devo informar) familiarizado com sua obra, surpreende-me que a idade provecta (putz, de onde desenterrei essa expressão!) e seu próprio envelhecimento pessoal aparecem pouco nos textos poéticos lançados a partir de Boitempo & A falta que ama - quando Drummond já passara dos 65. Além disso, quando estes temas estão presentes, os poemas resultantes não são tão memoráveis assim.

Claro, há alguns, ótimos, relacionados à morte - que, como nenhum de nós ignora, é o passo seguinte do envelhecer.

Penso, por exemplo, em Falta pouco (de A falta que ama ¹):

Falta pouco para acabar
o uso desta mesa pela manhã
o hábito de chegar à janela da esquerda
aberta sobre enxugadores de roupa.
Falta pouco para acabar
a própria obrigação de roupa
a obrigação de fazer a barba
a consulta a dicionários
a conversa com amigos pelo telefone.

Falta pouco
para acabar o recebimento de cartas
as sempre adiadas respostas
o pagamento de impostos ao país, à cidade
as novidades sangrentas do mundo
a música dos intervalos.

Falta pouco para o mundo acabar
sem explosão
sem outro ruído
além do que escapa da garganta com falta de ar.

Agora que ele estava principiando
a confessar
na bruma seu semblante e melodia.

Ou em A morte a cavalo (de A paixão medida ²)

A cavalo de galope
a cavalo de galope
a cavalo de galope
lá vem a morte chegando.

A cavalo de galope
a cavalo de galope
a morte numa laçada
vai levando meus amigos.

A cavalo de galope
depois de levar meus pais
a morte sem prazo ou norte
vai levando meus irmãos.

A morte sem avisar
a cavalo de galope
sem dar tempo de escondê-las
vai levando meus amores.

A morte desembestada
com quatro patas de ferro
a cavalo de galope
foi levando minha vida.

A morte de tão depressa
nem repara no que faz.
A cavalo de galope
a cavalo de galope

me deixou sobrante e oco.

Se, entretanto, busco no momento os melhores poemas de Carlos Drummond de Andrade sobre o envelhecimento - melhor dizendo, sobre a passagem do tempo (e o tempo é um tópico constante para o artista), no que esta redunda inevitavelmente em envelhecimento para nós, seres orgânicos e finitos - devo concentrar-me em A rosa do povo, lançado originalmente em 1945, quando o poeta tinha "apenas" 43 anos de idade.

Um dos mais importantes livros de poesia da nossa literatura, A rosa do povo ³ reúne alguns dos textos mais significativos da obra drummondiana: A flor e a náusea, Canto ao homem do povo Charlie Chaplin, O elefante, Resíduo (sobre o qual já escrevi aqui), Morte do leiteiro, O mito, Nosso tempo, O medo, Procura da poesia, Consolo na praia... Devemos direcionar a atenção, contudo, a partir de agora, para quatro poemas desse livro especificamente: Idade madura, Versos à boca da noite, Indicações e Os últimos dias.

. . . . . . .

Manuel Bandeira, aos 64 anos, publicou em A estrela da tarde, um inesquecível poema intitulado Preparação para morte (o eu-lírico enumera uma série de coisas que compara a milagres e encerra com este verso: "- Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres"). Mas, sendo sincero, não conheço na literatura brasileira algo mais belo como "programa de preparação para a morte" do que Os últimos dias, de Drummond.

Se pudesse, muito canhestramente, resumir esse poema, diria se tratar de um conselho para aproveitar o tempo que nos resta, da melhor maneira que se possa. Isso fica evidenciado em passagens como "O tempo de conhecer mais algumas pessoas,/de aprender como vivem, de ajudá-las" e

"Este tempo, e não outro, sature a sala, banhe os livros,
nos bolsos, nos pratos se insinue: com sórdido ou potente clarão.
E todo o mel dos domingos se tire;
o diamante dos sábados, a rosa
de terça, a luz de quinta, a mágica
de horas matinais, que nós mesmos elegemos
para nossa pessoal despesa, essa parte secreta
de cada um de nós, no tempo".

É um texto, a meu ver, surpreendentemente luminoso, sobretudo quando se considera a dissolução inerente ao fim da vida, decorrente do natural processo de envelhecimento. E por falar em luminoso, a estrofe abaixo ganha ainda mais em beleza e irrompe plena de significado, quando lembramos que Drummond era ateu:

"O tempo de despedir-me e contar
que não espero outra luz além da que nos envolveu
dia após dia, noite em seguida a noite, fraco pavio,
pequena ampola fulgurante, facho, lanterna, faísca,
estrelas reunidas, fogo na mata, sol no mar,
mas que essa luz basta, a vida é bastante, que o tempo
é boa medida, irmãos, vivamos o tempo".

Por sua vez, os poemas Indicações e Versos à boca da noite têm em comum a descrição dos efeitos - no espírito, no corpo e nas coisas - do envelhecimento e da passagem do tempo. Diz o poeta:

"Sinto que o tempo sobre mim abate
sua mão pesada. Rugas, dentes, calva...
Uma aceitação maior de tudo
e o medo de novas descobertas".
                                         (Versos à boca da noite)



"Talvez uma sensibilidade maior ao frio,
desejo de voltar mais cedo pra casa.
Certa demora em abrir o pacote de livros
esperado, que trouxe o correio [...]

[...] A caneta velha. Recusas-te a trocá-la
pela que encerra o último segredo químico, a tinta imortal.
Certas manchas na mesa, que não sabes se o tempo,
se a madeira, se o pó trouxeram consigo [...]

[...] Lençóis amarelecem, gravatas puem,
a barba cresce, cai, os dentes caem,
os braços caem, 
caem partículas de comida de um garfo hesitante,
as coisas caem, caem, caem
e o chão está limpo, é liso.
Pessoas deitam-se, são transportadas, desaparecem,
e tudo é liso, salvo teu rosto
sobre a mesa curvado; e tudo imóvel".
                                           (Indicações)

Oportuno observar que algumas passagens de Versos à boca da noite ecoam noutros poemas de Drummond. As recordações e a memória de coisas passadas pesando às vezes como fardo - como se lê nesta estrofe: "E depois das memórias vem o tempo/trazer novo sortimento de memórias,/até que, fatigado, te recuses/e não saibas se a vida é ou foi". - estão presentes em Resíduo, incluído no próprio A rosa do povo. O desejo de encontrar uma explicação para a vida será melhor explorado no monumental A máquina do mundo, publicado no livro seguinte, Claro enigma.

Mas é Idade madura, entre os quatro textos assinalados, aquele de que mais gosto.

O eu-lírico que fala neste poema pouco se importa com as expectativas e as pressões formadas ao redor daqueles que supostamente atingiram a maturidade: "De longe vieram chamar-me./Havia fogo na mata./ Nada pude fazer,/Nem tinha vontade".  Quisera eu ter seu destemor para dizer "Nem mesmo sinto falta/do que me completa e é quase sempre melancólico". ou "Posso desprezar ou querer os institutos, as lendas". Velho - e pior - imaturo, também jamais serei capaz de pronunciar algo como:

"Ninguém me fará calar, gritarei sempre
que se abafe um prazer, apontarei os desanimados
negociarei em voz baixa com os conspiradores,
transmitirei recados que não se ousa dar nem receber,
serei, no circo, o palhaço,
serei médico, faca de pão, remédio, toalha,
serei bonde, barco, loja de calçados, igreja, enxovia,
serei as coisas mais ordinárias e humanas, e também as excepcionais:
tudo depende da hora
e de certa inclinação féerica,
viva em mim qual um inseto".

E em Idade madura ocorre uma das metáforas/imagens mais notáveis criadas por Drummond:

"Lúcido cavalo
com substância de anjo
circula através de mim".

Durante anos e anos forcei-me a dar uma interpretação a esses versos, sem chegar a qualquer conclusão que me satisfizesse. Hoje contento-me em afirmar que eles evocam uma postura diante do existir que eu almejei alcançar numa outra época de minha vida.

Entretanto, se houver algum cavalo circulando em mim - e já desisti de procurar descobrir a substância que o poderia formar -, desloca-se hoje errática e confusamente, sem qualquer vestígio de lucidez.

. . . . . . .

Envelhecer é uma das circunstâncias da existência. Não é, obviamente, um defeito ou falha de caráter dos indivíduos. O que não altera em nada, penso eu, o fato de ser algo indesejado, ominoso até, em muitos casos.

Quando paramos para pensar, as formas de contornar ou evitar a velhice podem ser tanto dramáticas, esmagadoras, quanto ridículas e grotescas. Por isso, a arte torna-se imprescindível para, na forma de uma narrativa cinematográfica tão bonita (e divertida, a seu modo) como Nebraska ou dos poemas de um monstro sagrado da Literatura como Carlos Drummond de Andrade, proporcionar um aprendizado do envelhecimento.

Nas próximas duas postagens, escreverei sobre um tema essencial, a partir das reflexões do cientista social cubano Carlos Moore, reunidas no livro Racismo e sociedade: novas bases epistemológicas para entender o racismo.
__________
¹ ANDRADE, Carlos Drummond de. Falta pouco. In: _________. 100 poemas. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002. p. 352 (trata-se de uma edição bilíngue, português-espanhol)

² ANDRADE, Carlos Drummond de. A morte a cavalo. In: _________. A paixão medida. 6 ed. Rio de Janeiro: Record, 1998. p. 133-134

³ Todos os excertos de poemas do livro A rosa do povo foram extraídos da 40 edição, publicada pela editora Record em 2008.

BG de Hoje

Há uma vertente do heavy metal que me agrada muito, do ponto de vista sonoro: o chamado groove metal, cujo maior expoente foi a banda texana Pantera (sempre fui fã do som dos caras, mas não das mensagens que costumavam divulgar, é bom esclarecer). Outros grupos dos quais gosto nesse estilo são o White Zombie, o Fear Factory e o Soulfly (liderado pelo brasileiro Max Cavalera). Na década de 1990, o veterano Rob Halford, um dos maiores cantores da história do rock pesado, resolveu, após um afastamento do Judas Priest, aventurar-se pelo groove metal. O britânico juntou-se a (na época) jovens músicos norte-americanos muito bons (destaque para o baixista Jack "Jay Jay" Brown e o guitarrista Russ Parrish, hoje membro do engraçado grupo-sátira Steel Panther) para formar o FIGHT. Uma das faixas mais legais gravadas por eles foi Little Crazy (repare na guitarra com efeito slide, uma coisa não muito comum de se ouvir no heavy metal).

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Velhice


 
"A velha era nada. E olhava para o ar como se olha para Deus. Ela era feita de Deus. Isto é: tudo ou nada".

Do conto A partida do trem - Clarice Lispector


 
Quando completei 41 anos não pude deixar de recordar aqueles famosos versos de Carlos Drummond de Andrade*:

"Há muito suspeitei o velho em mim
Ainda criança, já me atormentava.
Hoje estou só. Nenhum menino salta
de minha vida, para restaurá-la".

Para ser franco, desde que passei dos trinta, não mais me incomodo com esse velho dentro de mim; passei a aceitá-lo resignadamente. A "mão pesada" do tempo - lembrando agora outros versos daquele maravilhoso poema -, trazendo com ela as "rugas, [a ausência de] dentes, calva", não chegou a me surpreender quando o corpo, além da alma precocemente idosa, também começou a envelhecer. Caducidade, cá estou.

Mas não é sobre meu envelhecimento que desejo escrever hoje. Dias atrás estava lendo Onde estivestes de noite**, de Clarice Lispector, e chamou-me a atenção como se fala da velhice nalgumas das narrativas ali presentes. Irei me concentrar na primeira delas apenas.

Em A procura de uma dignidade, a personagem central (a Sra. Jorge B. Xavier) tem quase 70 anos e percebe que já "era tarde demais para ter um destino". Tem fantasias eróticas com Roberto Carlos (na época, um jovem ídolo televisivo). Pensando nelas,

"Examinou-se ao espelho para ver se o rosto se tornaria bestial sob a influência de seus sentimentos. Mas era um rosto quieto que já deixara há muito de representar o que sentia. Aliás, seu rosto nunca expressara senão boa educação. E agora era apenas a máscara de uma mulher de 70 anos. Então sua cara levemente maquilada pareceu-lhe a de um palhaço. A senhora forçou sem vontade um sorriso para ver se melhorava. Não melhorou".

Achando-se, externamente, "seca como um figo seco", não se considerava, contudo, "esturricada" por dentro: "pelo contrário" - e a comparação da narradora é amarga, mas extraordinária do ponto de vista literário - "parecia por dentro uma gengiva úmida, mole assim como gengiva desdentada".

Aos 70 anos, não perdera o desejo sexual. Mas como dar vazão a ele?

"Por que as outras velhas nunca lhe tinham avisado que até o fim isso podia acontecer? Nos homens velhos bem vira olhares lúbricos. Mas nas velhas não. Fora de estação. E ela viva como se ainda fosse alguém, ela que não era ninguém"

Em determinado momento, a Sra. Jorge B. Xavier se pergunta: "por acaso era nojento beijar boca de velha?". Ela "não estava habituada a ter quase 70 anos, faltava-lhe prática e não tinha a menor experiência". Mas, afinal de contas, quem está preparado para ser um velho? Essa parece ser uma das questões que emergem desse conto.

A velhice, tal como a pobreza, é caracterizada por renúncias; por pessoas, ações e coisas  das quais temos que desistir. Tanto a velhice quanto a pobreza são tristes. E muitos, como eu, estão condenados a ambas. Irremediavelmente, nos dois casos.
___________________
* Estão no poema Versos à boca da noite

** LISPECTOR, Clarice. Onde estivestes de noite. 8 ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1997

BG de Hoje

Canção pra viajar (nos diversos sentidos desse verbo): SONIC YOUTH: Stones

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Tudo a ver comigo (2)



O ENTERRADO VIVO*

Carlos Drummond de Andrade

É sempre no passado aquele orgasmo
É sempre no presente aquele duplo,
É sempre no futuro aquele pânico.

É sempre no meu peito aquela garra.
É sempre no meu tédio aquele aceno.
É sempre no meu sono aquela guerra.

É sempre no meu trato o amplo distrato.
Sempre na minha firma a antiga fúria.
Sempre no mesmo engano outro retrato.

É sempre nos meus pulos o limite.
É sempre nos meus lábios a estampilha.
É sempre no meu não aquele trauma.

Sempre no meu amor a noite rompe.
Sempre dentro de mim meu inimigo.
E sempre no meu sempre a mesma ausência.

* ANDRADE, Carlos Drummond de. José e outros. 9 ed. Rio de Janeiro: Best Seller, 2006 [Originalmente, este poema integrou o livro Fazendeiro do ar, publicado em 1955]

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

"Mas de tudo, terrível, fica um pouco..."


Embora A rosa do povo não seja meu livro predileto de Carlos Drummond de Andrade (sempre gostei mais de Brejo das Almas e Sentimento do Mundo), nele podem ser encontrados alguns dos poemas mais bem elaborados, do ponto de vista da forma, na obra do itabirano (e o caminho progressivo na burilação do texto poético, penso eu, atingirá o ápice no trabalho ulterior, Claro Enigma). Entre os textos inesquecíveis de A rosa do povo - inesquecível, no meu caso, em sentido literal; sei dizê-lo de cor, mesmo tendo tomado doses e doses de cachaça - está Resíduo*. Poucas vezes li algo tão bonito falando sobre a dissolução de tudo que existe, da precariedade e insegurança da existência, das lembranças como sinônimo de tormento.

Chega de falação desnecessária: ao poema, pois:

RESÍDUO

De tudo ficou um pouco.
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.

Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.

Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
- vazio - de cigarros, ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?

Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam
um pouco: não está nos livros.

De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este sorriso infantil...
De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver... de aspirina.
De tudo ficou um pouco.

E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.

Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte de escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob ti mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.

ANDRADE, Carlos Drummond de. Resíduo. In: A rosa do povo. 40 ed. Rio de Janeiro: Record, 2008, p. 92-95

BG de Hoje

O amor é um jogo de azar... Simples, direto: precisa acrescentar mais alguma coisa? AMY WINEHOUSELove is a losing game.