Estava assistindo, há uns dias, um vídeo no Youtube sobre formatos de historietas humorísticas e um dos comentários chamou atenção para algo que eu não estava mesmo me dando conta. Mais ou menos, dizia o seguinte (o comentário original estava escrito em inglês): "Frequentemente nos esquecemos que Bill Watterson ainda está vivo. Calvin e Haroldo surgiram há 40 anos; não é uma coisa tão antiga assim".
O quadrinista norte-americano completou 67 anos em 2025. Não é possível saber muito mais a respeito do que anda fazendo ou de seu estado de saúde porque Watterson, a despeito de ter se notabilizado por tirinhas publicadas em jornais, sempre foi arisco em relação à imprensa e à mídia em geral. Após uma pausa de quase três décadas, ele lançou em 2023 Os mistérios, trabalho em parceria com outro ilustrador, John Kascht, uma graphic novel bem diferente de sua criação mais conhecida. Depois disso, voltou ao recolhimento na pequena cidade em Ohio onde vive.
Assim como um montão de gente mundo afora, adoro Calvin e Haroldo (pena que, na adaptação para o português brasileiro, o tigre perdeu o nome Hobbes ). Poucas vezes um trabalho quadrinístico publicado para milhões de pessoas conseguiu atingir tal apuro, em proporções iguais, tanto no texto quanto na imagem (o desenho do Calvin correndo ou as caras de irritação de seus pais estão entre as coisas mais legais que já vi em quadrinhos). O escritor Nevin Martell, autor de um livro sobre a tirinha, não hesita em chamá-la de "uma das maiores obras da cultura popular do século XX". Concordo inteiramente.
Dias atrás tinha em mãos Calvin e Haroldo: o livro do décimo aniversário (Editora Conrad, 2013). Nessa coletânea, além da reprodução de diversas tirinhas feitas em épocas diferentes, encontramos vários comentários de Bill Watterson sobre algumas delas e também observações suas sobre a composição dos quadrinhos, seu processo de criação e outros assuntos. É nessa coletânea também que o autor explica por que, a despeito do êxito nas páginas dos jornais e nos livros, nunca permitiu que seus personagens aparecessem em mercadorias variadas (peças de roupa, brinquedos, caixas de cereais, etc.) ou fossem adaptados para a televisão ou o cinema. Escreve ele: "Eu sou provavelmente o único quadrinista do mundo que lamenta o sucesso alcançado por seu trabalho. A maioria aceitaria de bom grado a exposição, o dinheiro e o prestígio associados ao licenciamento".
Qual o problema do licenciamento, de acordo com o artista?
"Quando o quadrinista licencia seus personagens, sua voz é cooptada pelos interesses de fabricantes de brinquedos, produtores de programas televisivos e publicitários. A função do quadrinista deixa de ser a de um pensador original - sua tarefa passa ser a manutenção de seus personagens como mercadorias lucrativas. Os personagens em si se tornam 'celebridades', vinculando sua imagem a empresas e produtos e evitam qualquer atitude controversa, dizendo apenas aquilo que é determinado por quem os paga. Quando chega a esse ponto, a tira perde sua alma. Com sua integridade perdida, esses quadrinhos perdem seu significado mais profundo".
Não sei você, eventual leitor(a), mas considero o posicionamento de Watterson muito surpreendente. E também algo para se admirar.
Uma imensidão de pessoas, principalmente nos EUA, país do quadrinista, crê que o acúmulo de recursos financeiros e a busca por lucro constante são a finalidade primordial, propósitos naturais e inquestionáveis, de qualquer ser humano na face da Terra. Essa crença, nem precisaria dizer, é essencial para a, digamos, doutrina que rege as vidas de grande parte da população mundial há séculos. Decidir-se por não seguir o caminho do dinheiro-acima-de-tudo é quase sempre visto como coisa de maluco.
Estamos aqui falando de quadrinhos, uma forma de arte - assim como a fotografia e o cinema - nascida na era da reprodutibilidade técnica, para usarmos os termos de Walter Benjamin. Uma arte, portanto, endereçada para o consumo das massas. Colocada numa simples página de jornal (pensando no suporte tradicional da tirinha de quadrinhos), objeto do cotidiano facilmente descartável, muitos poderiam dizer, sem qualquer hesitação, que não haveria mesmo nenhum tipo de aura a ser postulada. O quadrinista, porém, está aqui defendendo sua obra como manifestação artística legítima. Não seria muita pretensão dele?, alguém pode estar se perguntando.
Talvez por faltar-lhe o esnobismo que costuma revestir as artes plásticas, a música erudita e a literatura experimental/de vanguarda, os quadrinhos ainda têm dificuldade para superar a pecha de criação para consumo ligeiro e muitos enxergam a rápida comercialização como seu único valor. Talvez também por isso, muitos quadrinistas nunca viram problema em negociar a exploração comercial mais ampla de seus personagens; afinal, seria só mais um desdobramento (o mais lucrativo, aliás) de seu trabalho : Jim Davis, por exemplo, deve ter ganhado um bom dinheiro com os produtos licenciados de Garfield e até Peanuts, de Charles Schulz (um dos trabalhos que influenciou Watterson, segundo ele próprio), estampa diversos produtos (anteontem vi uma moça segurando um caderno cuja capa mostrava um desenho de Snoopy e do Charlie Brown).
"Em uma era em que tudo é transformado em mercadoria, essas minhas objeções ao licenciamento não encontram muitos defensores", lê-se no livro que mencionei acima. Na recusa a tratar seu trabalho unicamente como objeto de comércio, contraria-se a lógica da sociedade de mercado, postura muito rara de se ver, tão acostumados estamos a não tentar outro caminho que não seja o do dinheiro-acima-de-tudo (e, para ser honesto com o(a) eventual leitor(a), eu mesmo não paro de pensar em grana).
Há também o amor-próprio derivado da condição de artista: "Quando uma coisa divertida e mágica é transformada em mercadoria, o mundo fictício criado na tira só tem a perder. Calvin e Haroldo foram criados para ser personagens de uma tira de quadrinhos, e é só isso que eu quero que eles sejam. É a única forma em que tudo se harmoniza conforme meu desejo", acrescentando mais à frente:
"Tenho muito orgulho do fato de escrever cada palavra, desenhar cada traço, aplicar cada cor das tiras dominicais e pintar eu mesmo todas as ilustrações que saem nos livros. A minha tira é uma empreitada solitária de baixa tecnologia, e é assim que eu quero que seja".
É muito difícil encontrar alguém que, diante da escolha entre uma montanha de grana e a observância de seus próprios padrões morais e de seu ideário estético, abra mão do enriquecimento. Acredito que Watterson tenha sido bem remunerado pelo seu trabalho e essa remuneração foi considerada suficiente. Ele não é nenhum herói ou, por outro ângulo, também não é nenhuma vítima da ganância sistêmica (e pode ser inclusive uma pessoa detestável, não tenho como saber), mas acho sensacional a sua resolução : parar de produzir sua tirinha, no auge do sucesso, resistindo aos apelos mercadológicos que tentariam obrigá-lo a gerar o máximo de lucro possível. Como ele mesmo escreveu: "Quem pensa que pode ser levado a sério como artista usando os protagonistas de suas tiras para vender cuecas está claramente se iludindo".
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Gostaria de voltar a essa discussão do estatuto dos quadrinhos como expressão artística, lembrando uma declaração de Quino, proferida há mais de dez anos. Disse o quadrinista e cartunista argentino: "não acredito que Mafalda ultrapasse as fronteiras da história e se transforme em algo parecido com a música de Mozart". OK, é possível isso não acontecer, mas não creio que, por essa razão, suas tirinhas sejam mais "esvaziadas" de arte do que outras criações. Quino, falecido em 2020, costumava dizer que a menininha contestadora e sagaz criada por ele era só mais um desenho, avaliação que faz os muitos fãs da tirinha ficarem bem desgostosos. "Eu sou como um carpinteiro que fabrica um móvel" - declarou ele - "e Mafalda é um móvel que fez sucesso, lindo, mas para mim continua sendo um móvel, e faço isto por amor à madeira em que trabalho". Na primeira metade da década de 1970, ele parou de inventar novas histórias de Mafalda (e de Manolito, Susanita e os outros personagens daquele conjunto) quando chegou a conclusão de que não havia nada mais a dizer (que fosse artisticamente relevante), sendo esse também um dos motivos que levou Bill Watterson a encerrar Calvin e Haroldo nos anos 1990. Consigo imaginar a insistência de editores ou de profissionais ligados a departamentos comerciais para que esses artistas continuassem a produzir, mas no fim prevaleceu o zelo dos criadores.
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Algumas cifras me deixam boquiaberto - e indignado. Na Índia, um país que está longe de ter uma população nadando em dinheiro em termos gerais, um megarricaço celebra um matrimônio com um custo de 18 milhões de dólares. Sou uma pessoa ingênua, mas vamos lá: é preciso tudo isso? Não se consegue viver confortavelmente com menos grana e ainda assim continuar sendo podre de rico? É tão indispensável assim gastar uma fortuna inacessível para 99% da população mundial numa festa de casamento?
Nunca se atinge uma quantia de dinheiro acumulado que se possa considerar suficiente? Será sempre assim: mais, mais, mais e mais? Faço essas perguntas com a franqueza de quem sempre entendeu o quanto ter dinheiro é fundamental para o bem-estar no mundo em que vivemos.
Já escrevi noutras oportunidades que sou incapaz de sentir esperança em relação a qualquer coisa. Pensar sobre a decisão artística e profissional de Bill Watterson não altera essa disposição. Mas ajuda a aguentar um pouquinho mais dentro das trevas.
BG de Hoje
Lenny Kravitz gravou Rock and Roll is Dead em 1995. Marilyn Manson lançou sua Rock is Dead em 1998. Uma canção critica a superficialidade de alguns artistas, mais preocupados com a imagem do que com a música em si; a outra reclama da apatia e do conformismo que dominaram o gênero em determinado momento. Para minha diversão, porém, sou muito mais o obituário da dupla TENACIOUS D (lançado em 2012).
Este blog entra em recesso a partir desta semana e, se não houver nenhum contratempo, retornará em fevereiro de 2026. Ao(à) eventual leitor(a), boas festas!
Como disse antes, porém, após tanto tempo batendo ponto neste microscópico espaço internético, não tenho planos de desistir do Besta Quadrada tão cedo.
Enquanto não consigo estabelecer a rotina ideal de leituras e postagens para as atualizações almejadas, vou remediando a "paradeza" de um jeito ou de outro.
A essa altura dos acontecimentos (e dado o volume de declarações pavorosas proferidas constantemente por membros do atual governo federal), já virou notícia velha a deplorável fala do Ministro da Economia, Paulo Guedes, sobre um suposto fluxo de empregadas domésticas brasileiras que conseguiriam viajar para a Disneylândia quando o câmbio estava mais favorável ao real. Matreiro, Guedes dissera que o dólar alto é "bom para todo mundo". E completou, destilando toda a sua bile preconceituosa: "Todo mundo indo para Disneylândia, empregada doméstica indo para a Disneylândia. Uma festa danada".
Devido à repercussão negativa, o "posto Ipiranga" de Bolsonaro pediu desculpas posteriormente. Contudo, é obvio, não foi muito convincente. Afinal, quem consegue acreditar que um representante de banqueiros - ainda mais um representante de banqueiros brasileiros - reconheceria a dignidade de uma empregada doméstica e a enxergaria como sujeito de direitos, inclusive o direito ao lazer (por exemplo, viajando para o exterior, caso seja possível para ela)?
Pode ser notícia velha, mas a fala de Paulo Guedes é exemplar da mentalidade típica da classe dominante brasileira - e também das classes médias nacionais, que (sabe de nada, inocente!) julgam-se mais próximas dos ricos do que de nós, pobres. Razão pela qual a exclusão e a desigualdade social dificilmente serão mitigadas neste país. Para essa gente, os pobres deveriam reconhecer o "seu lugar", para melhor servir como mão-de-obra barata (quase semi-escrava nalguns casos). Para essa elite e essas classes médias, é essencial marcar e manter bem explícitas as distinções de status socioeconômico. A esse respeito, a série Os Santos, do quadrinista e roteirista Leandro de Assis (cuja primeira tira está reproduzida lá no início da postagem) e o esquete TED Talk, do canal humorístico Porta dos Fundos, são bastante ilustrativos (veja o vídeo abaixo):
E pra quem pensa que a fala do Ministro da Economia não tem nada de mais, sugiro a leitura desta reflexão do cientista político Luis Felipe Miguel, professor e pesquisador da UnB. (NOTA: O texto foi publicado originalmente no perfil de Facebook do autor. Como, entretanto, não sou mais usuário dessa mídia social - felizmente! -, cheguei a seu conteúdo através do Diário do Centro do Mundo).
DECLARAÇÃO DE GUEDES É CHOCANTE, MAS NÃO TEM NADA DE SURPREENDENTE.
Luis Felipe Miguel
O Brasil tem 7 milhõesde trabalhadores domésticos – em geral, trabalhadoras. É mais do que qualquer outro país do mundo. E é também um emblema da nossa desigualdade social. O trabalho doméstico, por suas próprias características, tende a ser pouco formalizado, com responsabilidades e horários definidos de maneira vaga. Isoladas entre si, as trabalhadoras têm dificuldade para se organizar em defesa de seus direitos. A classe média vê a contratação da empregada doméstica como um dos elementos que definem sua própria posição. Nas carreiras profissionais competitivas, espera-se que as atividades domésticas estejam delegadas a outros – é quase um requisito, como percebem, com espanto, muitos estrangeiros que vêm trabalhar no Brasil. A maior parte dessa classe média, porém, tem escassa condição de pagar um salário adequado à sua empregada doméstica. A difusão do trabalho doméstico remunerado leva a uma situação em que esse grupo, composto também quase todo por assalariados, se coloca objetivamente na condição de patrões, vendo direitos trabalhistas e garantia de condições materiais mínimas para quem trabalha como ameaças a seus interesses. Não é à toa que a emenda constitucional que estendeu direitos aos trabalhadores domésticos foi um elemento central para produzir a revolta da classe média brasileira contra a presidente Dilma Rousseff. Ao mesmo tempo, a empregada doméstica aparece, no discurso da nossa elite, como encarnação perfeita do “inferior” em relação a quem as distâncias sociais devem ser mantidas. A “empregada doméstica no aeroporto” simbolizava a desordem das hierarquias que as (tímidas) políticas compensatórias do período Lula e Dilma anunciavam. Em 2011, Delfim Netto – que foi o czar da economia durante a ditadura militar, mas que então se acomodava alegremente na posição de conselheiro dos governos petistas – observou a decadência do trabalho doméstico no Brasil com uma declaração inesquecível: “Há uma ascensão social visível. A empregada doméstica, infelizmente, não existe mais, ela desapareceu. Quem teve este animal, teve. Quem não teve, nunca mais vai ter”. Depois, ele pediu desculpas. Mas sua frase é uma janela aberta para a mentalidade da elite brasileira – e, em particular, como ela vê a base da pirâmide social. Delfim se referia a um momentoem que, graças à expansão do emprego, muitas trabalhadoras domésticas abandonavam a atividade em favor de postos de trabalho no comércio, na indústria ou nos serviços, que podiam até não pagar mais, mas lhes garantiam maior prestígio social e relações laborais mais impessoais. Isso mudou em seguida, com a política de ajuste anti-povo iniciada no segundo mandato de Dilma, aprofundada por Temer e levada ao paroxismopor Guedes. Desde então, o emprego doméstico, com frequência não formalizado, voltou a ganhar terreno. A declaração de Paulo Guedes, ontem [12 defevereiro], é chocante, mas não tem nada de surpreendente. É a marca de um governo que não tem pudor de escancarar aquilo que pensa. E de uma classe dominante que tem, como característica principal, uma absoluta alergia a qualquer forma de igualdade.
BG de Hoje
Com letras altamente politizadas, o grupo NEWEN AFROBEAT realiza uma incomum mistura musical: sons tradicionais dos povos originários do Chile com a batida que popularizou alguns artistas africanos entre o final da década de 1980 e início dos anos 2000. O resultado pode ser visto em canções como a (ótima) Come y Calla. Confira:
Nesta semana, as postagens do blog serão alusivas ao Dia Nacional da Consciência Negra (20 de novembro). Como faz tempo que não escrevo sobre quadrinhos, aproveito logo para destacar hoje três obras do gênero.
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Muita gente já disse que os estrangeiros em geral conseguem perceber os problemas raciais do Brasil de forma mais realista, sem o "filtro rosa" com o qual diversos brasileiros - por má fé, ignorância ou mesmo ingenuidade - preferem olhar para a questão*. É algo a se verificar. Mas posso dizer, sem dúvida, que no caso de Negrinha (Editora Desiderata, 2009), elaborado pelos franceses Jean-Christophe Camus e Olivier Tallec, os artistas conseguiram dar ao tema o tratamento apropriado, sem falsas amenidades.
A história se passa em 1953, no Rio de Janeiro. Maria é uma adolescente negra, de pela mais clara e cabelos lisos (dentro do peculiar colorismo da sociedade brasileira, talvez até poderia ser vista como branca). Dona Olinda, sua mãe, é negra de pele escura e trabalha como empregada doméstica. Dona Olinda saiu do morro do Cantagalo para que a filha vivesse no "asfalto" e, segundo Carmen, tia da menina,
"fez de tudo pra não faltar nada pra você [Maria], pra você ser criada em um bairro de rico, estudar em um bom colégio. Tudo o que ela fez foi pra você ter uma vida melhor do que a dela... Melhor do que a nossa... Você é descendente de escravos, meu amor, e apesar de a escravidão ter sido abolida 65 anos atrás [em relação à epoca em que a história em quadrinhos se desenrola], pode acreditar, é melhor ser branco do que ser preto... A menos que você seja músico ou jogador de futebol..."
Negrinha expõe muitas das facetas do racismo que caracteriza nosso país, como a subalternidade dos postos de trabalho aos quais a maioria das pessoas negras é confinada, ou a brutalidade policial e a violência oriunda do crime, cujas vítimas, em seu maior número, são pessoas negras. A escrita de Jean-Christophe Camus flui com simplicidade, sem, no entanto, render-se às simplificações. E os desenhos de Olivier Tallec, aquarelados, fornecem a delicadeza necessária à matéria narrada.
Enfim, um trabalho de primeira.
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Aya de Yopougon (Editora L & PM, 2012) tem como protagonista uma jovem de 19 anos, cujo principal objetivo é ser médica. Vive com as amigas num bairro popular de Abidjan, a maior cidade da Costa do Marfim (e que foi capital do país na época em que a história se passa - finalzinho dos anos 1970).
Escrita por Marguerite Abouet e ilustrada por Clément Oubrerie, Aya de Yopougon tem bom ritmo e diversos momentos cômicos, o que não impede a narrativa de incorporar tópicos tais como o machismo, a gravidez não planejada e a desigualdade social.
É pena que somente as duas primeiras partes dessa obra foram publicadas no Brasil (originalmente, são seis). Ah, e vale também dizer que a história foi adaptada, com sucesso, para o cinema de animação, num desenho de longa-metragem lançado em 2013.
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Já Orixás: do Orum ao Ayê (Editora Marco Zero, 2011), ainda que tenha seus méritos, infelizmente não é tão boa quanto as duas obras já destacadas. Sua proposta gráfica é a das publicações standard norte-americanas sobre super-heróis. Tudo é muito bem desenhado, com acabamento bem feito, mas carece um pouco de originalidade. Faltou também um pouco de ação (falha que já havia detectado noutra adaptação de narrativas mitológicas - naquele caso, judaico-cristãs - e que discuti noutra ocasião anterior).
De todo modo, trata-se de um bom título para servir de introdução (sobretudo para as crianças e para os adolescentes) a uma parte integrante essencial do patrimônio cultural ioruba (ou yorubá, como queiram), tão relacionado com a cultura afro-brasileira. A esse respeito, a propósito, também vale a pena conhecer Os príncipes do destino: histórias da mitologia afro-brasileira, de Reginaldo Prandi, e o ótimo Ogum, o rei de muitas faces e outras histórias dos orixás, escrito por Lídia Chaib e Elizabeth Rodrigues. NOTA: Estes dois últimos títulos citados não são HQs.
Na próxima postagem, falo do poeta Adão Ventura.
* Gilberto Gil - que assina o prefácio de Negrinha - prefere dizer que a história ilustra à miscigenação brasileira e não menciona em nenhum momento o termo racismo (que é, como já disse, brilhantemente tematizado pelos autores franceses nessa obra). Claro que Gil não se esquivou da questão da desigualdade racial ao longo de sua carreira (e seu extraordinário cancioneiro comprova isso), mas é perceptível que até mesmo ele - e desconheço os motivos - não se sentiu à vontade para trazer esse tópico à baila ao apresentar o livro ao público brasileiro.
BG de Hoje
Acho que já disse, noutra oportunidade, que considero CHICO CÉSAR um letrista sensacional. Isso fica comprovado, por exemplo, desde o título desta canção: Respeitem meus cabelos, brancos. Com apenas uma vírgula, transforma o que era um simples adjetivo da conhecida expressão popular em um vocativo que define claramente para quem vai o recado dado na canção. Ah, e é claro, tenho que mencionar o ritmo contagiante dessa faixa.
Bíblia em ação (Geográfica Editora, 2013, 5 ª edição) não é um bom entretenimento.
Trata-se de uma adaptação, para os quadrinhos, de episódios bíblicos que vão do velho ao novo testamento.
Claro que HQ não é apenas entretenimento; elevou-se em termos estéticos e hoje, todos sabemos, está em pé de igualdade com outras formas de arte narrativa.
Entretanto, justamente por se persistir numa concepção empobrecida do que significam os quadrinhos atualmente, adaptam-se determinados textos (considerados difíceis) para o formato de HQ, com o intuito de "facilitar" sua leitura. Parece ser o caso dessa Bíblia em ação.
O responsável pelo trabalho, Sérgio Cariello - apresentado como "artista completo desde a infância" - possui um traço e um enquadramento que nos remetem às pequenas sagas de super-heróis produzidas nos anos 1970 e início da década seguinte, muito presentes nas publicações standard das megaempresas do setor, Marvel e DC (estúdios, aliás, nos quais Cariello trabalhou). Percebe-se, no desenho do adaptador, a nítida influência de artistas como Tony DeZuniga e John Buscema (este último conhecido por ilustrações de Thor, Surfista Prateado e Conan, o bárbaro). Não sei dizer se estamos diante de uma homenagem à "escola" de narração quadrinística representada por esses desenhistas renomados, mas é perceptível, logo de saída, que o estilo de Sérgio Cariello não dialoga com a produção de quadrinhos de vanguarda.
A caracterização visual dos personagens não foge de uma receita já testada. Todos apresentam traços fisionômicos, tons de pele e cabelos que, acredito, não são nada condizentes com o que seria de se esperar de povos autóctones do Oriente Médio e adjacências (para se ter ideia, os egípcios ilustrados estão mais para anglo-saxões...). A figura de Jesus, por exemplo, repete a mesma imagem consagrada pela iconografia religiosa desde a baixa Idade Média (até a túnica branca e o manto azul) e que é reproduzida à exaustão nos folhetos das Testemunhas de Jeová ou nos desenhos animados nada criativos usados para catequese e evangelização.
O maior problema do livro, porém, são as poucas cenas de ação. Falta considerável, pois a publicação quer transpor os episódios bíblicos para a estética das histórias em quadrinhos de super-heróis, como se pode depreender a partir de seu prefácio:
"E, se a palavra ' herói ' normalmente remete a figuras como o Super-Homem, que é capaz de lançar um carro pelos ares com um simples sopro, que dizer de Deus, que criou todo o universo e a vida com um simples sopro? Super-Homem pode salvar o dia com sua força, mas Jesus salvou o mundo inteiro com sua morte!"
A comparação com o personagem kriptoniano acima citado não é, portanto, fortuita. Mas o livro decepciona o leitor que buscava ação. Passagens que poderiam ser empolgantes (como o episódio Sansão e Dalila, ou a luta de Davi contra Golias, ou ainda as imagens impactantes do apocalipse) são pouco destacadas. Por outro lado, mais de 84 páginas são dispensadas à teologização e institucionalização do cristianismo após a morte e alegada ressurreição do Cristo (o que pode até ser importante para o crente*, mas que, do ponto de vista de uma narrativa quadrinística que se propõe a ser de ação, acaba tendo resultado decepcionante).
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Antes de encerrar esta postagem gostaria de aproveitar a ocasião para tentar esclarecer um posicionamento que passarei a exprimir em todos os momentos nos quais me sentir obrigado a manifestá-lo.
Ouço com frequência: "ateus são arrogantes". E mais: são metidos a donos da verdade e se acham mais inteligentes do que os outros (ou, pelo menos, mais do que aqueles que acreditam em divindades e/ou entes sobrenaturais).
Não tenho procuração para falar em nome de todos os ateus. Portanto irei expor apenas o que penso e como me coloco diante dessas críticas, supondo, entretanto, que essa exposição e essa colocação sejam familiares a outros descrentes similares a mim.
Sendo ateu, procuro também ser cético. E um cético é alguém que, para aceitar algo, precisa antes ter evidências razoáveis sobre a plausibilidade desse algo. A certeza sobre as coisas do mundo precisa ser construída racionalmente e, muitas vezes, nem sequer é atingida, permanecendo no campo da provisória incerteza. Ou seja, o cético e o ateu têm dúvidas profundas sobre diversos aspectos de nossa realidade.
Para uma boa parte dos crentes, contudo, parece não ser assim. Com impudente presunção, declaram conhecer uma verdade definitiva por meio da fé. Ou seja, têm certeza absoluta sobre o principal fundamento da realidade, apresentando para tanto evidências muito frágeis (e, muitas vezes, não apresentando nenhuma, a não ser o próprio sentimento ou desejo pessoal).
Quem é o arrogante, nesse caso? Quem está se comportando como "dono da verdade"?
Quanto à reclamação de que os ateus se acham mais inteligentes, digo o seguinte: por exigirem melhores evidências para considerar algo verdadeiro ou digno de crença, os ateus esforçam-se um pouco mais para compreender como o mundo é. Para isso, leem mais, estudam mais, não aceitando sem mais nem menos aquilo que está escrito num conjunto de textos ao qual se atribuiu caráter sagrado ou aquilo que está contido no discurso de um sacerdote ou outro representante de alguma organização religiosa. Aliás, a acomodação intelectual é algo que me desagrada muito em algumas pessoas. Não quero dizer com isso que ateus são mais inteligentes do que crentes; apenas vejo algumas indicações de que os primeiros são geralmente menos inertes intelectualmente do que os segundos. Deixo claro que isso é apenas uma impressão pessoal, não uma comprovação empírica.
Para finalizar. O livro hoje aqui discutido chegou às minhas mãos na forma de um presente de aniversário. Tenho imenso amor e respeito por quem me deu esse presente. Apesar disso, não posso deixar de perceber nesse gesto um resquício da atitude presunçosa e o ar superior de alguns daqueles que acreditam em divindades e dos quais acabei de falar. Para essas pessoas, o ateu sofre de uma espécie de "patologia" que pode ser "curada" mediante "doses" repetidas de proselitismo religioso ou com "pílulas" extraídas do livro considerado (por eles) sagrado. Há nessa atitude um menosprezo da parte do crente em relação ao ponto de vista do ateu (que, diga-se de passagem, desenvolveu-o, em muitos casos, através de um longo processo, legítimo e autônomo, de elaboração e reelaboração de suas convicções). Gostaria de deixar claro que essa atitude proselitista, mesmo querendo ser "do bem", tem um quê da disposição autoritária de quem não convive bem com o pensamento divergente. Vou, a partir de agora, declarar meu desagrado com isso todas as vezes em que o proselitismo religioso vier me incomodar.
*O termo crente está sendo usado nesta postagem com o significado de "aquele que acredita numa divindade", em oposição ao termo ateu ("aquele que não acredita em nenhuma"). Assim, crente, neste contexto, designa todos os que acreditam em Deus, independentemente da denominação religiosa da qual fazem parte.
BG de Hoje
Direto ao ponto: FAITH NO MORE e o propositalmente tosco clipe de Everything's ruined.
Em busca do tempo perdido - que nunca li, a propósito - é um dos grandes monumentos da Literatura. Uma daquelas obras que atrai ou intimida os leitores.
Disse jamais ter lido a obra de Proust, mas talvez não seja bem assim, porque conheço a adaptação feita por Stéphane Heuet (Editora Jorge Zahar, 2004; tradução e notas de André Telles). Então, li ou não li Proust?
De primeira, é fácil responder. E a resposta é negativa. Como mencionei, trata-se de uma adaptação: não estive diante do texto/obra original*. Há, porém, uma peculiaridade no trabalho de Heuet: muitos e muitos blocos de texto, ao lado (ou ocupando o espaço) dos desenhos, como se fossem uma narração em off.
A narrativa quadrinística, como se sabe, lança mão do texto, a maior parte do tempo (mas não exclusivamente), para reproduzir diálogos ou pensamentos dos personagens nos balões. No trabalho do quadrinista francês, os blocos de texto (com a cor de fundo amarela) reproduzem, suponho, passagens mais ou menos fiéis ou literais da escrita de Marcel Proust. Se assim não fosse, aquilo que os especialistas e críticos enaltecem no romance - o discurso e não a trama/enredo - se perderia na adaptação, acho. Cabe observar, contudo, que, justamente por isso, não me agradou essa versão de Em busca do tempo perdido (acho até que esse livro não é "quadrinhável").
Adaptações de clássicos da Literatura para os quadrinhos são bastante comuns. Algumas muito boas, como as realizadas, por exemplo, pela Farol Literário, que inclui Alice no país das maravilhas, Moby Dick, A ilha do tesouro... Outras "forçam a barra" porque seu objetivo, me parece, é apenas facilitar - com a desculpa de tornar mais "atrativa" - a leitura de certos livros que exigem maior esforço da parte de quem lê.
Há quem argumente que tais adaptações têm seu valor, pois, de outra forma, grande número de pessoas jamais se aproximaria de obras normalmente associadas à elite cultural.
Talvez seja esse o caso da adaptação feita por Stéphane Heuet. De qualquer modo, se consideramos aceitável que o teatro e o cinema façam adaptações de romances, por qual motivo não estenderíamos a mesma aceitação aos quadrinhos?
*E mesmo a expressão texto/obra original não é pacífica. Não compreendo francês e, portanto, caso me interessasse, teria que ler a tradução de Em busca do tempo perdido. Mas em que medida a tradução modifica um texto/obra original desse tipo? Quase nada? Pouco? Muito? Discussão vasta, além do alcance deste blogueiro, porém.
BG de Hoje
Havia muita pabulagem em torno do L7. Diziam, por exemplo, que as integrantes da banda chegaram a arremessar absorventes íntimos (usados) na plateia, em algumas apresentações. Deve ser lorota, mas não duvido muito não... Aqui no Brasil, o máximo que fizeram foi abaixar as calças na janela do ônibus na saída do show (isso foi no Hollywood Rock, em 1993). Bricks are heavy, terceiro disco do grupo, foi um dos CD's que mais ouvi na minha vida. Gosto de várias faixas, mas destaco Everglade.
Cheguei a mencionar rapidamente, na penúltima postagem, meu interesse pelos quadrinhos. Hoje escreverei de forma mais detida sobre o assunto.
Não fui diferente de outros garotos aficionados por HQs de super-heróis. Colecionei durante muito tempo (e juntava moeda por moeda para comprar) revistas da editora Abril repletas dos principais personagens da Marvel e da DC Comics - empresas, aliás, que dominavam (e ainda dominam) comercialmente o setor. Não vou mentir: quando lia uma história dos X-Men, por exemplo, ou do Conan* estava só atrás de entretenimento. Porém, mesmo a indústria cultural - representada pelas companhias norte-americanas já citadas - acabou percebendo que os leitores de quadrinhos não eram (e não são) os acéfalos que se costuma supor e passaram a lançar obras mais sofisticadas. Foi o caso das graphic novels. Algum(a) eventual leitor(a) talvez se lembre das obras-primas lançadas na segunda metade da década de 1980, como Batman, o cavaleiro das trevas, de Frank Miller e Watchmen, escrita pelo genial Alan Moore e desenhada por Dave Gibbons. Sem falar no fabuloso - e assustador - mundo onírico criado por Neil Gaiman**.
Fiz todo esse preâmbulo para dizer uma obviedade (pelo menos no momento atual): a produção quadrinística não se restringe a revistinhas de super-heróis. E, claro, vai além da ideia infantilizada do gibi. Também não se resume às tirinhas eventualmente publicadas nos jornais. Certo, certo: tudo isso permanece sendo quadrinho. Há, entretanto, muito mais sendo feito.
Vejamos o caso do mangá Na prisão, de Kazuichi Hanawa*** Em 1994, o quadrinista japonês foi preso, acusado de porte ilegal de armas. Ao sair da cadeia, decidiu narrar sua experiência. Estamos diante de uma obra com muitas características do documentário, embora conserve atributos da ficção. Hanawa é meticuloso ao descrever as refeições servidas, os uniformes e a composição das celas, bem como a rotina altamente controlada do presídio.
Muitos que leram Na prisão ressaltaram "a total ausência do tom de denúncia", como observou o crítico literário Tomohide Kure (no prefácio da edição de que disponho). Não se trata de um elogio à detenção, mas tampouco o autor nos apresenta aquelas cenas típicas dos relatos da vida prisional, cheias de violência e crueldade.
É quase impossível ler o livro sem comparar a cadeia japonesa lá retratada com os inumanos presídios brasileiros. Ainda assim, a rigidez de comportamento lá exigida da parte dos prisioneiros chega a exasperar. A esse respeito, vale ler o capítulo A barreira do "por favor". Os detentos trabalham numa fábrica dentro da penitenciária. Não podem olhar para os lados, conversar ou deixar o posto sem autorização de um oficial (até para ir ao banheiro). Há regras expressas de como se deslocar pelos corredores e que posturas assumir diante dos carcereiros. Qualquer descumprimento implica punições. Para dirigir-se aos oficiais, o detento precisa sempre dizer "por favor" - que significa reconhecimento da autoridade, mais do que gesto de gentileza - até para apanhar uma borracha que caiu no chão acidentalmente. Apesar do relativo conforto da cadeia japonesa, prisões nunca vão deixar de ser lugares opressivos.
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Até hoje, por incrível que pareça, encontramos pessoas que se referem aos quadrinhos, no geral, como "aquelas historinhas" para "a garotada", num tom depreciativo, como se estes fossem a mais rematada bobagem. "Historinha"?... Faça-me o favor! Trabalhos como Na prisão, de Kazuichi Hanawa são tão valiosos como outras narrativas - literárias ou cinematográficas - que já trataram desse tema.
Na próxima postagem, escrevo sobre a adaptação para quadrinhos de Em busca do tempo perdido.
*Conan é uma criação do escritor Robert E. Howard nos anos 1930. Posteriormente, o personagem foi revivido em novas histórias produzidas por roteiristas e desenhistas da Marvel.
** Para quem não conhece esse autor, é bom esclarecer que as histórias publicadas em Sandman - trabalho mais conhecido de Neil Gaiman - não focalizavam super-heróis, embora ele também tenha trabalhos nessa linha.
*** HANAWA, Kazuichi. Na prisão. São Paulo: Conrad, 2005 [tradução de Drik Sada]
BG de Hoje
Num país com tantas cantoras talentosas fica difícil, às vezes, ouvir com a devida atenção algumas delas. CÉU é das artistas que tenho ouvido com o maior cuidado, em meio a tanta gente boa. Visgo de jaca, presente - como faixa-bônus - no segundo disco dela (Vagarosa, 2009), é uma das minhas preferidas. OBS: Essa canção já havia sido gravada pelo Martinho da Vila tempos atrás. Nada contra o sambista de Vila Isabel, mas a versão da cantora paulistana ficou muito melhor.
(tirinha de Adão Iturrusgarai, publicada na Folha de S. Paulo)
André Schiffrin, editor sobre o qual falei na postagem anterior, em entrevista publicada no mês passado*, considera que os e-books, por enquanto, se restringem aos best-sellers, principalmente nos EUA. Mesmo assim, Schiffrin acredita que
"os e-books causam duas situações que a longo prazo serão desastrosas : destroem as livrarias, porque as pessoas compram pela internet, e são vendidos pelo mesmo preço que os paperbacks[reedições em formato econômico], que são a única maneira que as editoras têm para manter a venda de títulos antigos. O fato é que a Amazon não cria obras. Ela vende o que os outros fazem, mas jogando os preços para baixo. Isso, é claro, não é um modelo que possa ser bem sucedido. Se as editoras quebrarem, de onde sairão os livros?"
O que destacar nessa declaração?
De fato, os e-books (e mesmo a oferta de títulos impressos via web) afetarão - como já afetam - o comércio de textos nos seus pontos de venda mais tradicionais, as livrarias. Resta saber se as lojas e os livreiros conseguirão adaptar-se a tempo, para não serem engolidos pela comodidade dada ao consumidor por essas novas formas de adquirir livros. Quanto ao impacto da concorrência direta de uma grande companhia como a Amazon, penso que as editoras "de papel" não têm tanta razão para se preocuparem, pelo menos por ora.
Sobre este último aspecto acima mencionado, gostaria de chamar a atenção do(a) leitor(a) para o que escreve o ensaísta e crítico cultural mexicano Gabriel Zaid.
Num trabalho que não me canso de recomendar (Livros demais!: sobre ler, escrever e publicar**), Zaid não têm receio de afirmar que
"As pessoas envolvidas com o livro (autores e leitores, editores e livreiros, bibliotecários e professores) têm a mania de sentir pena de si mesmas, e uma tendência para se queixar mesmo quando tudo vai bem".
Essas pessoas, de acordo com o ensaísta, "veem como falha o que na verdade é uma benção", porque, diferentemente de jornais, cinema ou televisão, o negócio do livro "é viável em pequena escala". Isso "encoraja a proliferação de títulos e editoras, o florescimento de iniciativas várias e díspares e uma abundância de riqueza cultural". Se pensarmos, acrescento eu, que uma empresa do porte da Amazon, por exemplo, seguindo procedimentos mercadológicos de âmbito global - daí sua aposta em best-sellers - não lançará livros necessários, mas que teriam venda modesta, há ainda espaço para editoras menores.
É possível que Gabriel Zaid esteja sendo otimista além da conta, mas ele parte do princípio de que
"quando a população de um país cresce e este se torna mais rico e mais bem-educado, são publicados, paradoxalmente, mais títulos com vendas menores : aumenta a variedade de especialidades e de interesses, e fica mais fácil atrair alguns milhares de leitores interessados em algo muito específico. Cresce o número de títulos viáveis para a publicação em edições de poucos milhares de exemplares".
Caberia, então, às editoras "de papel" organizarem-se melhor em meio a esse universo de leitores com interesses múltiplos.
Pergunta antipática : ao lado do avanço econômico verificado em alguns países ditos emergentes, como o Brasil, há um avanço correspondente na área educacional para favorecer esse ambiente de pluralidade editorial descrito por Zaid?
Deixarei o questionamento em aberto. Volto no fim da semana, falando de um ensaio da escritora britânica Virginia Woolf.
* "Disney não pagou nada ao plagiar", diz Schiffrin. Folha de S. Paulo, São Paulo, 9 out. 2011, Caderno Ilustríssima, p. 4-5
**ZAID, Gabriel. Livros demais!: sobre ler, escrever e publicar. São Paulo, Summus, 2004 [tradução de Felipe Lindoso]
BG de Hoje
O termo paperback, empregado por André Schiffrin e citado acima, fez-me lembrar imediatamente da canção Paperback writer, uma das minha preferidas no vasto repertório dos BEATLES. No vídeo abaixo, o quarteto tocando-a numa apresentação no Japão.
A tirinha abaixo, eu li na Folha de S. Paulo, no dia 26/06/10. Na minha opinião, sensacional.
BG de Hoje
O grupo de humoristas antes conhecido como Hermes e Renato, na minha opinião, fez uma besteira ao trocar a MTV pela Rede Record. Mas convenhamos, quase ninguém joga dinheiro fora (e se for muito dinheiro, aí então...). Por isso, entendo o fato de estarem hoje no programa sem-graça comandado pelo Marcos Mion. Ainda na MTV, eles criaram a banda MASSACRATION, que satiriza as vestimentas e os maneirismos das bandas de heavy metal típicas do final dos anos 1970 e início da década seguinte. Eu acho hilário. Confira abaixo o clipe de Evil papagali, contando a história de um psitacídio vindo direto do inferno e que tem o bizarro refrão "LÔRO, LÔRO QUER BISCOITO!".