W. B. Yeats
Na introdução de um de seus textos na coluna que mantinha no jornal Nexo há alguns anos, a historiadora e antropóloga Lilia M. Schwarcz reclamou do problema que é conviver com um certo tipo de pessoa tóxica, aquela "que contamina a tudo com sua negatividade". Gente assim "desautoriza, humilha, assedia e torna a vida de quem está ao lado um grande inferno". Tem mais: "pessoas com esse tipo de atitude costumam complicar não apenas suas próprias existências, como também daquelas que a circundam". Ainda segundo Schwarcz, "a postura não funciona, entretanto, como filosofia geral de vida ou gesto premeditado, independente do contexto em que se apresenta. Penso, inclusive, que não é necessário insistir nesse tema, uma vez que me parece existir um consenso nesse sentido. Negatividade tóxica não traz nada de bom".
A ênfase da coluna, contudo, está no incômodo de Schwarcz com o outro lado dessa moeda: a positividade tóxica. Assim como eu, ela nunca gostou "de frases prontas e animadas, que não passam de chavões quando usadas indiscriminadamente. Do tipo: 'Seja positivo!', 'Olhe pelo lado bom!' 'Supere isso', 'Vá em frente'…". Ou seja, as expressões que caracterizam os discursos motivacionais, uma das maiores pragas da contemporaneidade.
Se olharmos com atenção o mundo ao redor, é possível chegarmos à conclusão de que "o poço anda bem cheio para que adotemos o 'modo positividade a todo custo'. Simplesmente desconsiderar e fazer pouco de sentimentos negativos próprios e dos outros, sem nem ao menos permitir que se entre em contato com eles, não pode ser boa saída".
O blogueiro que vos escreve pode até não estar diligentemente propagando a negatividade tóxica (afinal, restrinjo minhas interações com outros seres humanos ao mínimo possível), mas certamente é um pessimista em tempo integral. Esse tipo de postura diante da existência, na opinião de muitos, também não é nada desejável. Cabe a pergunta, porém: observando as condições socioeonômicas em que vivem grandes parcelas da população mundial, além de verificar o estado em que se encontra o meio ambiente do qual todos dependemos, existe justificativa para crenças otimistas não mais que comedidas? Aliás, gostaria de lembrar que, a despeito da vacuidade de quase todos os seus enunciados (úteis, no entanto, para o ajustamento do indivíduo ao credo neoliberal e à aceitação conformada de sua posição no vale-tudo do capitalismo tardio), a positividade tóxica acaba sendo uma forma de otimismo.
Estou tentando dizer, no final das contas, que arvorar-se otimista não é essa Brastemp toda não.
E quanto à prosa literária? Nesse universo, predominariam as obras alicerçadas na positividade e na esperança ou as que acentuam, durante a maior parte da narrativa, a torpeza, a crueldade e o sofrimento que também permeiam as vivências humanas? O que gera mais histórias: o otimismo ou o pessimismo?
Dada a astronômica quantidade de livros produzidos, creio não ser possível responder essa pergunta. Seja como for, minha inclinação, como deve estar claro a essa altura, é para a ficção que se constrói a partir da angústia, da fúria, do infortúnio.
O Senhor das Moscas (anteriormente discutido no blog aqui e aqui) foi (e ainda é) uma das grandes histórias pessimistas que me marcaram intensamente.
Em nações de língua inglesa (principalmente na Grã-Bretanha, Austrália e Estados Unidos), o romance acabou adquirindo, para muitos, a pecha de livro-que-se-lê-na-escola. Abordado com frequência no ensino médio desses países, reduziu-se, involuntariamente, a um instrumento didático. NOTA: É, mutatis mutandis, o que acontece aqui no Brasil com alguns de nossos clássicos (posso citar, apenas como exemplo, o Macunaíma ). Nessa perspectiva, o texto acaba se transformando num requisito para a realização de tarefas escolares e sua relevância, como obra de arte, passa despercebida.
Uma das recriminações mais dirigidas a O Senhor das Moscas incide diretamente sobre a ideia central do romance. Ao especular que as crianças isoladas na ilha após a queda do avião seriam incapazes de cooperarem entre si e logo se lançariam na selvageria, sob o império da força bruta, devido à ausência de instâncias moralizadoras e sem os aparatos civilizacionais com os quais se acostumaram, o autor estaria errado. Aponta-se que, do ponto de vista antropológico e sociológico, O Senhor das Moscas é bastante falho. Num artigo que li há poucos dias, havia a afirmação de que o livro é uma mentira (ora, ora, que conclusão fantástica: descobre-se que uma NARRATIVA FICCIONAL É INVENÇÃO, com cenários, figuras e situações imaginárias ...). Ainda sobre esse ponto, o historiador neerlandês Rutger Bregman (cujas declarações públicas sobre desigualdade social costumam me interessar) bate de frente com a visão negativa dos humanos retratada no texto de Golding. Numa entrevista para a MSNBC em 2022, ele recordou a história (real) dos seis adolescentes de Tonga que foram parar numa ilha desabitada, entre junho de 1965 e setembro de 1966, após o barco em que navegavam ter ficado à deriva devido a uma tempestade. Ao contrário dos meninos em O Senhor das Moscas, os jovens tonganeses ajudaram-se mutuamente e mantiveram uma convivência amigável (Bregman deu destaque a esse caso em seu livro Humanidade: uma história otimista do homem, que ainda não li).
O que posso dizer a esse respeito?
Golding era um professor de Inglês atuando na educação básica. Embora tenha estudado em Oxford, sua formação não lhe forneceu um conhecimento amplo na área das Ciências Sociais. Penso que seria equivocado da parte da crítica exigir, de um trabalho artístico/imaginativo, correção acadêmica estrita no campo da antropologia. Uma de suas intenções era produzir uma variante cáustica de livros de aventura em ilhas remotas (que sempre foram bastante populares), especialmente o etnocêntrico A Ilha de Coral. Ele estava convencido da incapacidade humana de controlar e superar seus ímpetos primitivos de violência e agressão e quis manifestar tal convicção na sua escrita. A participação na Segunda Guerra Mundial (inclusive do Dia D, na Normandia) consolidou seu juízo sobre a propensão humana para a barbárie. William Golding - que se considerava um monstro - não desconhecia o mal também dentro de si: aos 18 anos tentou estuprar uma amiga e lidou com o alcoolismo severo a maior parte de sua vida, suportando uma depressão profunda de longa duração.
Ainda que o escritor destaque o pior dos humanos, enxergando-os com pouca benevolência, suas recriminações não são irrealistas. Pergunto a você, eventual leitor(a): podemos, como espécie, até ser gregários e auxiliarmo-nos em determinadas circunstâncias, mas você vai dormir sossegadamente deixando suas portas e janelas destrancadas? E como ter fé na humanidade quando sabemos das atrocidades no Sudão e em Gaza?
O Senhor das Moscas é todo recheado com personagens-símbolos. Devido ao tom de desconsolo da narração e à predominante atmosfera de aflição a partir de determinado momento, aqueles que retratam a força e a violência (Jack e Roger) seriam os mais apropriados para se verificar o esforço de Golding na demonstração de seu argumento principal. Na postagem de hoje, porém, gostaria de me deter noutra figura.
Simon, para alguns analistas e resenhistas do romance, seria uma reminiscência de Jesus Cristo. Existe fundamento para essa avaliação, quando lembramos alguns aspectos da vida do Filho de Deus tal como seus adoradores costumam concebê-la: o garoto está sempre disposto a ajudar, principalmente os mais fracos (no caso, as crianças menores), fica parte do tempo isolado com seus pensamentos (como que retirado no deserto ) e morre de forma injusta e violenta por um bando fora de si, incapaz de ouvir a comunicação importante que ele tinha para fazer a todos. O texto, como sabemos, abriga alusões e temas bíblicos às vezes bastante patentes, a começar pelo título: Senhor das Moscas é a tradução do nome cananita Baal-zebub - que, com o tempo, virou Beelzebub, depois Beelzebul, chegando ao português atual como Belzebu. Ainda que não tenha sido um cristão devotado, Golding se considerava um homem religioso. Não custa lembrar também que a ideia de pecado original - ou seja, os seres humanos carregam dentro de si a semente da transgressão e da perversidade - é parte significativa da "tese" na qual a história se sustenta.
Contudo, não vou me embrenhar por esse caminho. Para mim, basta saber que Simon, a despeito de seu comportamento meio místico, é o único que aparenta refletir antes de sair agindo às cegas dentro da narrativa, o único que se esforça por tentar atingir algum entendimento, mínimo que seja, antes de ser contaminado pela agitação e o medo circundantes. Mesmo Piggy (Porquinho), o personagem que simboliza a inteligência, não se porta assim. NOTA 2: Para reforçar o pessimismo da história, tanto Piggy quanto Simon - a inteligência e o ânimo de buscar alguma compreensão - morrem brutalmente.
É Simon, no capítulo 5, que lança a conjectura de que o mal e o perigo que todos temiam talvez não fosse um bicho de carne e osso vagando pela ilha, mas sim o impulso bestial latente dentro dos seres humanos. Conjectura que se mostra acertada a seguir, no capítulo 8, quando ele "conversa" com o Senhor das Moscas (a cabeça de porco fincada na estaca pelos caçadores comandados por Jack) ¹:
"- Que engraçado achar que o Bicho é algo que podem caçar e matar! - disse a cabeça. Por um instante, a floresta e todos os outros lugares indistintos ecoaram com a paródia de uma gargalhada. - Você sabe, não é? Sou parte de você? Quase, quase, quase! Sou a razão por que ninguém pode ir embora? Por que as coisas são o que são?".
A partir de seu assassinato - uma espécie de martírio, mas sem a entrega sacrificial -, não há mais expiação para as crianças da ilha.
Diante do oficial da marinha britânica surgido na praia (um deus ex machina sobre o qual valeria a pena tratar noutra postagem), Ralph, o líder que não conseguiu impedir a ruína apesar de seu carisma, finalmente "chorou pelo fim da inocência, pela escuridão do coração humano" e pela morte de Piggy.
Já não era mais possível, para ele e para nenhum daqueles garotos, chorar por Simon. Indelevelmente marcados pelo mal.
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¹ GOLDING, William. O Senhor da Moscas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006 [Tradução de Geraldo Galvão Ferraz]
BG de Hoje
Sempre achei uma das coisas mais bacanas no funcionamento do FAR FROM ALASKA o trabalho do Rafael Brasil. Com os pedais e outros recursos que não sei descrever (porque, infelizmente, não sou musicista), ele reproduz tanto a sonoridade da guitarra quanto a do baixo no mesmo instrumento (algo parecido com o que faz o Mike Kerr, do Royal Blood). Todo o meu respeito a essa versão que fizeram Iron Lion Zion (BOB MARLEY) há alguns anos, com a Emmily Barreto entregando tudo nos vocais, como sempre.

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