quarta-feira, 13 de maio de 2026

Primeira leitura: Mulheres empilhadas, de Patrícia Melo


 

A jornalista e apresentadora de TV alemã Dunja Hayali relatou que ela e Dirk Peglow, chefe da Associação Federal dos Detetives Alemães, receberam ameaças após a grande repercussão de uma das falas do policial numa entrevista transmitida no mês passado pela TV pública ZDF, onde Hayali trabalha (veja matéria da  Deutsche Welle  a respeito).

"Agora há homens que não criticam o aumento da violência contra as mulheres, mas, em vez disso, expressam fantasias violentas e ameaças de violência contra meu entrevistado e contra mim", disse a jornalista noutro veículo de mídia germânico. 

Qual foi a declaração dada pelo detetive que provocou as reações hostis? 

Após ser perguntado por Hayali que conselho ele daria às mulheres diante do aumento de 8,5% verificado em 2025 nas ocorrências de estupro e agressões sexuais (resultando na morte da vítima em vários casos), Peglow respondeu: "Melhor não entrar num relacionamento com um homem".  E acrescentou:  "Se entrar, o risco é muito maior de se tornar vítima de violência física ou psicológica".

Mais tarde, procurado pelo popular tabloide  Bild,  o policial virou um sabonete: "Minha fala foi obviamente um exagero. Não significava um conselho a ser seguido literalmente. A maioria esmagadora dos homens não é violenta nem criminosa".

Não consigo deixar de notar como as pessoas estão perdendo a capacidade de lidar com usos indiretos (conotativos, irônicos ou metafóricos) da linguagem. A competência linguística das pessoas parece estar encurtando. A advertência e a provocação implicadas no conselho de Peglow ("vejam a que ponto as ações brutais de muitos homens estão chegando" ) não foram captadas  (o que explica, em parte, o rebuliço subsequente); muitos interpretaram-no como uma disposição de criminalização  in totum  dos homens, praticamente obrigando o detetive a "prestar esclarecimentos" no  Bild. Mais grave ainda, esse episódio também demonstra a permanência de uma apavorante recusa, por determinados grupos e por numerosos indivíduos, em sequer falar a respeito ou abordar (muito menos enfrentar de modo efetivo) a violência contra a mulher. As ameaças que se seguiram à entrevista expõem ainda mais a amplitude do problema.

De minha parte, muito antes de cruzar com essa notícia, já estava convencido há um certo tempo de que, diante de tantas ocorrências de assassinatos, abusos sexuais, agressões no ambiente doméstico, estelionatos sentimentais e outros crimes, as mulheres, para sua própria proteção, deveriam verdadeiramente evitar relacionamentos amorosos/íntimos com homens (este blogueiro não é exceção; embora não tenha cometido crime, já fiz merda e nada garante que não venha a fazer de novo). Grande parte dos machos da espécie humana não é confiável. Pior, tende a cometer atrocidades. O conselho do detetive alemão - mesmo se interpretado sem a intenção provocativa - me parece bastante razoável.

Em  Mulheres alteradas, a promotora de justiça Carla Penteado fala algo nesse sentido, durante uma conversa com a narradora. Ela comenta que seu irmão, estudante de medicina, após um certo tempo frequentando as aulas de anatomia, passou a vomitar com frequência, provavelmente uma forma de reação ao contato repetitivo com os cadáveres e as partes seccionadas de seus corpos. Carla então diz ¹:

"De um jeito diferente  [...],  eu também tive o meu momento de vomitar a morte quando passei a trabalhar com esse monte de mulheres assassinadas. Porque é impressionante: isso aqui parece uma fábrica de pão quente. Morremos em escala industrial. Só que em vez de vomitar, como meu irmão, eu não conseguia mais me relacionar com homens. Homem para mim virou um negócio meio estranho, sabe? Tipo inimigo? Agora, depois de muito tempo, estou fazendo test-drive. Testo um, testo outro. Sempre com um pé atrás. Sempre com meu porrete do lado da cama. [...]  Melhor precaver".

Devido à premência de sua temática principal - ainda mais quando se constata que, no primeiro trimestre deste ano, a cada cinco horas e 25 minutos um feminicídio foi registrado no país -,  pode-se ter a impressão de que o romance de Patrícia Melo acabou de chegar às livrarias, mas seu lançamento, na verdade, se deu em fins de 2019. 

Trata-se de um trabalho ficcional daqueles que vão direto ao ponto. Um tanto doloroso em vários momentos. A romancista mais uma vez coloca sua literatura a serviço do destrinchamento da violência brasileira (além dos ataques dirigidos às mulheres, aborda-se também a opressão que aflige as comunidades indígenas). Em participação no   Paiol Literário  do jornal Rascunho  há poucos anos ², Melo observou:

"É muito difícil você entender o Brasil de hoje sem entender a violência. O Brasil é um país muito violento. Na Europa, quando você fala que o Brasil tem 60 mil homicídios por ano as pessoas não acreditam ³ .  É uma guerra civil. A gente mata mais do que determinados países em guerra. Essa sempre foi uma questão estrutural na minha literatura. Sempre me interessei pelo fenômeno da violência. Sempre tentei entender por que o Brasil se transformou em um país tão violento. Há muitas respostas para isso. Essas respostas não são conclusivas, são muito abertas e estão em todos os livros que tenho escrito". 

A narrativa de  Mulheres empilhadas  - conduzida por uma jovem advogada paulista que viajou até Cruzeiro do Sul (Acre) para acompanhar o julgamento de diversos casos de feminicídio - exprime-se por meio de três segmentações do texto ordenadas diferentemente e com algumas alterações gráficas: ora enumerando casos - reais - de assassinatos de mulheres noticiados pela imprensa (como o de Tatiane Spitzner e o de Engel Sofia Pironato ) ; ora desenvolvendo a trama que amarra todo o livro, grande parte dela estruturada em torno do crime que resulta na morte de Txupira, uma adolescente indígena; e, por fim, contando as alucinações da personagem central, após participar de rituais de ayahuasca, nas quais um grupo de guerreiras logra vingança contra os homens que ferem e matam. Agredida com um tapa por um (então) namorado, além de ter que lidar com a memória e os efeitos emocionais e psicológicos relacionados ao cruel acontecimento do passado que vitimou sua mãe, a narradora, após uma semana acompanhando os julgamentos no tribunal de Cruzeiro do Sul, conclui:

[...] nós, mulheres, morremos como moscas. Vocês, homens, tomam porre e nos matam. Querem foder e nos matam. Descobrem nossos amantes e nos matam. São abandonados e nos matam. Arranjam uma amante e nos matam. São humilhados e nos matam. Voltam do trabalho cansados e nos matam.

E no tribunal, todos dizem que a culpa é nossa. Nós, mulheres, sabemos provocar. Sabemos infernizar. Sabemos destruir a vida de um cara. Somos infiéis. Vingativas. A culpa é nossa. Nós é que provocamos. Afinal, o que estávamos fazendo ali? Naquela festa? Àquela hora? Com aquela roupa? Por que afinal aceitamos a bebida que nos foi oferecida? Pior ainda: como não recusamos o convite de subir até aquele quarto de hotel? Com aquele brutamontes? Se não queríamos foder? E bem que fomos avisadas: não saia de casa. Muito menos à noite. Não fique bêbada. Não seja independente. Não passe daqui. Nem dali. Não trabalhe. Não vista essa saia. Nem esse decote. Mas quem disse que seguimos as regras? Vestimos minissaias. Decotes que vão até o umbigo. E shorts enfiados no cu. Abusamos. Entramos em becos escuros. Temos nossas bocetas ligadas na tomada. Extrapolamos. Trabalhamos o dia inteiro. Somos independentes. Temos amantes. Gargalhamos alto. Sustentamos a casa. Mandamos tudo para o caralho. O curioso é que não matamos. Incrível como matamos pouco. Deveríamos, dadas as estatísticas do quanto morremos, matar muito mais. Mas, por algum problema talvez glandular, talvez estrutural, talvez ético, talvez físico, preferimos não matar. E assim, acabamos jogadas num terreno baldio, como a Chirley. Por insubordinação. Somos picadas e enterradas, como Ketlen. No quintal. Por desobediência. É isso que eu vi naquela semana".

 

Na mesma conversa publicada no jornal  Rascunho,  a romancista falou a respeito de seus objetivos e intenção ao escrever o livro:


"Queria juntar essas notícias 
[de feminicídios e outras violências de gênero]  que estão fragmentadas  [nos veículos de mídia e mesmo através de relatos interpessoais]  e fazer uma coisa que fosse como uma punhalada, uma facada. Tinha esse projeto estético. Pensava como iria espetar o leitor. Até na busca das palavras, queria palavras pontudas. Queria um estilo meio facada".

Ela também declarou que a tarefa acabou adquirindo um contorno político:

"Você começa a ter toda essa informação  [sobre a violência contra a mulher e seus desdobramentos] nas pesquisas, então é claro que isso te pega racionalmente, emocionalmente, e se transforma em um projeto político. Em um ato de resistência. Não quis em nenhum momento ser panfletária, mas quis ser política. Quis berrar um problema na cara das pessoas. Não sei se consegui, mas minha intenção foi essa".

Penso que não haveria outra maneira de escrever um livro em torno de um tópico tão hediondo - assassinatos de mulheres, muitas vezes por motivos absolutamente vis e executados com acentuada selvageria - que não fosse obrigando o leitor a sentir-se desconfortável, berrando sobre o problema em sua cara.

Nos  Agradecimentos  ao final do volume, Patricia Melo revela que o romance partiu de um convite feito por suas editoras, solicitando uma história com protagonismo feminino. Ela cita diversas pessoas, com ocupações profissionais diferentes, que tiveram algum papel ou prestaram algum auxílio na realização de  Mulheres empilhadas. Não se tratou, portanto, de um empreendimento que dependeu apenas da imaginação da escritora. Já tendo publicado mais de uma dúzia de trabalhos (literatura e dramaturgia), além da considerável experiência como roteirista, Melo amarrou tudo satisfatoriamente, inclusive tornando possível a quem lê mover-se pela narrativa como numa história do tipo "como resolver o mistério?" (no caso, o esclarecimento das outras mortes que se seguiram ao estupro, tortura e assassinato de Txupira, bem como a explicação mais oculta para o seu homicídio). NOTA: Frequentemente definida como autora de romances policiais, Patrícia Melo costuma recusar esse rótulo.

 

Para terminar, sugiro ao(à) eventual leitor(a) o artigo Nova descida ao inferno: Patrícia Melo e as mulheres que matam, de Ieda Maria Magri, publicado na Revista de Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, da UnB (nº 62). Trata-se de uma análise bem mais severa e profunda do que a postagem acima (afinal, a articulista, além de escritora e crítica literária, é também professora da UERJ). Vale a pena.

 

Na próxima postagem, tratarei da obra de José J. Veiga. 

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¹ MELO, Patrícia.  Mulheres empilhadas.  São Paulo: LeYa, 2019 

² Paiol Literário do jornal  Rascunho,  publicado na edição 260 (dezembro de 2021). Disponível em:  <https://rascunho.com.br/paiol-literario/patricia-melo/>. Acesso em: 29/04/2026. Há também o vídeo com a conversa completa no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=_TnSoEJ8-9E

³ Contudo, de acordo com dados do Ministério da Justiça, a quantidade de assassinatos, considerando todos os tipos em conjunto, tem caído; se em 2017, chegou-se a 60 mil, em 2025, foram cerca de 34 mil. De todo modo, ainda é um número bastante alto. Fica próximo ao  do México, por exemplo, um país em que se registram, com alguma frequência, diversos conflitos entre cartéis de narcotraficantes e entre estes e forças de segurança ou militares. Também é maior do que o número de civis mortos em quatro anos do confronto armado decorrente da invasão da Ucrânia  pela Rússia (estimativa da ONU) . 

BG de Hoje 

IZA pertence àquela categoria de cantoras que, aparentemente, não precisam fazer força alguma para nos arrebatar com um vozeirão impressionante. Eu digo isso desde a primeira vez que ouvi esta irretocável versão dela para  I Put a Spell on You.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

A esquisita noção de dever em Sargento Getúlio

 

Seria possível encontrar algum traço de virtude no personagem Sargento Getúlio?

Estou me referindo à sua índole, a despeito de se tratar de um ser ficcional - dos mais memoráveis, diga-se de passagem, da literatura brasileira produzida a partir da segunda metade do século passado, em minha opinião.

Eticamente falando, trata-se de um sujeito abominável. Sem exagero, um monstro.

Portanto, para responder a pergunta acima, será necessário antes examinar as noções de  virtude  que comumente aceitamos.

Consultando o  Dicionário Básico de Filosofia,  de Japiassú e Marcondes ¹, encontramos três acepções: 1)  "qualidade ou característica de algo, uma força ou potência que pertence à natureza de algo";  2)  "qualidade positiva que faz com que  [o indivíduo]  aja de forma a fazer o bem para si e para os outros"  (cita-se a diferença de concepção existente entre Platão e Aristóteles, pois o primeiro considerava-a uma faculdade inata e o segundo, um atributo que pode ser adquirido); 3)  "a força da alma ou do caráter",  na filosofia moderna.

Sobre essa ultima acepção, o verbete acrescenta:  "Nesse sentido moral,  [a virtude]  designa uma disposição moral para o bem: 'A virtude é a força de resolução que o homem revela na realização de seu dever' (Kant). As  virtudes  designam formas particulares dessa disposição para o bem: a coragem, a justiça, a lealdade".

As definições acima não estão muito distantes das que se encontram nos dicionários convencionais e nem batem de frente com nosso entendimento usual. A partir delas, concedemos que agir com virtude, agir virtuosamente, é praticar o bem. Contudo, nenhum leitor de  Sargento Getúlio  hesitaria em apontar a crueldade como uma das principais características do personagem-narrador. Teria cabimento, então, falarmos de  virtude  numa discussão sobre esse livro?

É, parece que não. Mas pretendo continuar insistindo, pensando sobretudo na primeira acepção reproduzida parágrafos acima - "qualidade ou característica de algo, uma força ou potência que pertence à natureza de algo".

No prólogo, composto por duas frases apenas, João Ubaldo Ribeiro escreveu ²:

"Nesta história, o Sargento Getúlio leva um preso de Paulo Afonso a Barra dos Coqueiros.
É uma históra de aretê".

O termo  aretê  (ou, noutros textos,  areté : a grafia em grego é ἀρετή) costuma ser traduzido como  virtude,  principalmente nas versões em língua portuguesa da obra de Aristóteles, se eu não estiver enganado. Seria essa a interpretação definitiva do vocábulo?

No artigo  Os conceitos de nobreza, riqueza e valor em Homero ³, Adriana Santos Tabosa, (hoje professora na Universidade Estadual de Feira de Santana) faz as seguintes observações:

"Segundo W. Jaeger, o conceito de  areté  não pode ser interpretado simplesmente como virtude. O sentido de virtude não comporta a ideia de  areté  dos antigos gregos. O sentido de  areté  para os antigos gregos compreendia, sobretudo, uma força, uma capacidade. O vigor e a saúde são a  areté  do corpo. A sagacidade e percepção são a  areté  do espírito. Não é possível conciliar estas concepções com o sentido usual de virtude. A segunda acepção de  areté  significa respeito e prestígio. Em seu sentido original, o termo designava um valor objetivo naquele que qualificava, uma força que lhe era própria, que constituía a sua perfeição.  Areté,  ainda segundo Jaeger, é o atributo próprio da nobreza. O homem comum não possui  areté. Se o escravo pertencesse a uma família de estirpe, Zeus tirava-lhe metade de sua  areté. Os antigos gregos consideravam a destreza e a força a base de qualquer posição dominante. Nobreza e  areté  eram inseparáveis. O termo em grego  aristocratía  é originário da mesma raiz de  areté ".

Espero que o(a) eventual leitor(a) tenha notado que o sentido de  areté  como sendo  "uma força, uma capacidade"  vai ao encontro da noção de virtude ressaltada por mim anteriormente como sendo  "uma força ou potência que pertence à natureza de algo".  Nesse caso, então, poder-se-ia tratar de um força, uma capacidade, uma potência  não necessariamente benévola.

Em determinado momento da sua longa falação, Getúlio proclama:

"Olhe, eu sou um homem diferente, mas não diferente do jeito que você pensa, mas eu sou diferente porque me sinto diferente, é uma coisa. Posso dizer uma coisa que pensei lá no padre, mas escute calada [a fala é direcionada para Luzinete, com quem se envolvera noutro tempo e em cuja moradia ele estava nesse momento da narrativa], porque, se der risada, eu lhe dou uma porrada: eu sou Getúlio Santos Bezerra e meu pai era brabo e meu avô era brabo e no sertão daqui não tem ninguém mais brabo do que eu. E eu dou murro na testa do carneiro que aparecer e o carneiro morre. E tem mais coisas, mas eu não digo agora. Essas coisas eu acho que não se fala, talvez. Hum, não adianta. Eu sou eu. Meu nome é um verso: Getúlio Santos Bezerra, e de vez em quando eu penso que, não tendo ninguém melhor do que eu, tudo que pode me acontecer é melhor do que os outros. Hum. Não sei, acho que eu penso demais, não adianta".

E acrescenta:

"Não tem ninguém por trás de mim, essas alturas. Mas sendo eu mais do que qualquer coisa, porque eu sou eu e fui criado assim, pode acontecer tudo, que esse traste eu levo para Aracaju arrastado. Eu disse que levava, e levo e tiro de eito tudo, estou lhe dizendo. Depois pode ser o que for, não é preciso cascavilhar esse Sergipe inteiro atrás de mim, que eu estou livre e homem e quero ver, porque o pior que pode me acontecer é eu morrer e isso não é o pior. Pior é ser pataqueiro em qualquer engenho. Pior é não ser ninguém, mas lá no padre eu vi, quando conversei com os homens e Amaro estava com aquela ferramenta apontada dentro da igreja, eu vi o que é que eu sou, e eu sou eu, e por isso que eu vou levar esse animal e ninguém me empata, que se me empata eu destruo".

O personagem enxerga a si mesmo como uma  bizarria,  uma singularidade (  "eu sou um homem diferente" ;   "eu sou eu""ninguém melhor do que eu"  ). Em certo sentido, um  aristos  (grosso modo, alguém "melhor do que os outros"), mesmo que não passe de um jagunço/capanga, miserável que usa a farda da Polícia Militar sergipana, simples peão no duro jogo político de seu meio e de sua época. Para Getúlio, duas coisas importam mais do que tudo: destacar-se como alguém destemido e cumprir a missão dada (nesse caso, após tê-lo capturado, entregar o preso, custe o que custar), uma vez que empenhou a palavra diante do chefe, Acrísio Antunes:

"Tinha minha missão, isso tinha. E fiz. Tinha minha vida, isso também, e vivi, e se me perguntasse quer viver uma vida comprida amofinado ou quer viver uma vida curta de macho, o que era que eu respondia? Eu respondia: quero viver uma vida curta de macho, sendo eu  e mais eu e respeitado nesse mundo e quando eu morrer se alembrem de mim assim: morreu o Dragão. Que trouxe mortandade para os inimigos, que não traiu nem amunhecou, que não teve melhor do que ele e que sangrou quem quis sangrar".

Se não é possível para Getúlio ombrear-se em tudo com os heróis das epopeias homéricas, pode-se ao menos reconhecer nele o mesmo desejo de uma vida breve mas glorificada por suas pelejas, lembrada mesmo após a morte (Aquiles, na Ilíada, não ansiava por outra coisa). 

Chegamos ao ponto de controvérsia desta postagem. 

Quero lembrar ao(à) eventual leitor(a) que estamos falando de uma criação literária.

Getúlio é extremamente violento, desapiedado, sem remorsos (assassinou à faca a própria companheira grávida porque não queria "ser corno"). Um bronco incapaz de debelar a própria ignorância (já ciente de que, por ordem, deveria libertar o preso, mas decidido a não fazê-lo, dispara:  "O que eu não entendo eu não gosto, me canso [...]  Não gosto que o mundo mude, me dá uma agonia, fico sem saber o que fazer"  ). Mas é forçoso reconhecer nele determinação (alguns talvez prefiram falar em teimosia), além de coragem e um esquisito senso do dever. Tudo isso compõe a sua aretê.

Acabei de escrever  "esquisito  senso do dever", mas não estou tão seguro assim de toda essa esquisitice.

Bem, se estivermos pensando no  dever  dentro de um concepção kantiana, como o grande fundamento da ação moral  -  "age somente de acordo com aquela máxima, pela qual possas ao mesmo tempo querer que ela se torne uma lei universal" / "age como se a máxima de tua ação devesse tornar-se mediante tua vontade a lei universal da natureza"    -, o personagem em discussão passa longe. Muito longe.

Porém, quando levamos em conta códigos arcaicos vigentes em áreas interioranas do Brasil onde o coronelismo ainda grassava (convém mencionar que a história de  Sargento Getúlio,   embora tenha vindo a público em 1971, ambienta-se na década de 1950), baseados na palavra dada e na fidelidade canina de alguns sicários para com seus chefes (certamente Acrísio Antunes livrou Getúlio da cadeia e ainda colocou-o no serviço policial), o termo  dever,  um dos sinônimos de  obrigação,  não soa tão estapafúrdio assim. 

E, não há como negar, é a pequena odisseia no cumprimento desse dever que proporciona a matéria narrada dessa novela/romance.

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¹ VIRTUDE. In: JAPIASSÚ, Hilton; MARCONDES, Danilo. Dicionário básico de filosofia. 4 ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2006. p. 278.

² RIBEIRO, João Ubaldo. Sargento Getúlio. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2021. 

³ TABOSA, Adriana Santos. Os conceitos de nobreza, riqueza e valor em Homero. Hypnos, São Paulo, n, 26, 1º semestre 2011, p. 160-169. Disponível em: <https://hypnos.org.br/index.php/hypnos/article/view/230>   Acesso em: 21/04/2026

Essas citações de Immanuel Kant foram extraídas do livro Textos básicos de filosofia, de Danilo Marcondes (Jorge Zahar Ed, 2007, 5ª edição)

 

BG de Hoje

Daria tudo para ver a reação de alguém que fez parte do PINK FLOYD (particularmente a de David Gilmour) assistindo ao vídeo abaixo! Esta interpretação de  Have a Cigar,  pelo grupo norte-americano THE MAIN SQUEEZE, é de cair o queixo! Na primeira vez que vi, admito, meus olhos ficaram cheios de lágrimas (não estou mentindo). Acrescentou-se à canção um pouco mais de groove, mas não houve um afastamento radical da versão original. Tudo perfeitamente azeitado. O solo final tocado pelo guitarrista Maximillian Newman, entretanto, transformou essa apresentação numa coisa de outro planeta. A esse respeito, reproduzo aqui um dos comentários feitos lá no Youtube: "I’ve watched this cover a billion times over the last few years. I can’t tell you how, but I almost cry everytime during the guitar solo. You think it’s gonna end then the energy just picks up even harder than before. Freakin sick".

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Como se fosse, mas não é.

Se tem uma coisa que pessoas bem de vida, isto é, pessoas sem aflições relacionadas à falta de recursos financeiros, evitam fazer ao máximo é se misturar com a gentalha, como sempre preconizou Dona Florinda (uma pobretona que não se enxerga, é bem verdade, mas isso não invalida minha proposição). As infames DCEs (dependências completas de empregada), existentes em milhares de residências consideradas de luxo, não me deixam mentir, bem como os elevadores de serviço, que, a despeito de algumas iniciativas legislativas para coibir atos discriminatórios, ainda são usados para separar a "ralé" dos patrões nalguns edifícios por aí, em áreas ditas nobres.

Talvez o(a) eventual leitor(a) se lembre. Em agosto de 2010, a  Folha de S. Paulo  reproduziu a fala de uma moradora de Higienópolis, bairro da capital paulista, a respeito da (então) possibilidade da construção de uma estação de metrô na avenida Angélica, uma das mais importantes naquela área. Segundo a reportagem, a cidadã dissera o seguinte:  "Eu não uso metrô e não usaria. Isso vai acabar com a tradição do bairro. Você já viu o tipo de gente que fica ao redor das estações do metrô? Drogados, mendigos, uma gente diferenciada...".  A declaração fez um certo rebuliço, inspirando até o nome de um protesto/evento marcado no Facebook, chamado "Churrascão da gente diferenciada", cujo objetivo era reclamar do cancelamento da obra na avenida Angélica, que havia sido anunciado pelo governo estadual na época. Procurada algum tempo depois, a moradora em questão alegou que o jornalista com quem conversara teria se enganado ao atribuir a ela a expressão  "gente diferenciada".

Em minha percepção, usa-se o adjetivo  diferenciado,  na maioria das vezes, como forma de elogiar algo ou alguém. No bate-papo futebolesco, por exemplo, ouve-se muito a expressão  jogador diferenciado,  querendo dizer com isso que se trata de um desportista acima da média, com características que o tornariam superior aos demais em certos aspectos. A moradora de Higienópolis, contudo, tinha em mente outros sentidos - também vigentes, mas não tão favoráveis - do adjetivo:  diferente, desigual, destoante

Destaquemos o último: destoante do quê?  

Ora, os indivíduos que, de acordo com a distinta senhora, ficam ao redor das estações de metrô ( drogados, mendigos  e outros) não estariam afinados com Higienópolis, bairro de casas e apartamentos caros, onde reside uma turminha com um bocado de grana, formada por indivíduos  não-diferenciados,  portanto, indivíduos que não destoam, não são diferentes, não são desiguais  em relação à  nobreza  do lugar (segundo deve pensar a moradora, especulo).  "Eu não uso metrô e não usaria" , enfatiza ela, de início, marcando a distância do populacho. Não importa o quanto a obra possa favorecer o deslocamento dos funcionários, prestadores de serviço, babás e diaristas que trabalham na região mas vivem noutros bairros da imensa metrópole que é São Paulo (incluindo os municípios adjacentes):  se eu e outros iguais a mim aqui em Higienópolis não fazemos uso,  consigo imaginar a sua lógica,  uma estação de metrô para quê?  Ah, o velho desprezo da burguesia (e suas classes-satélites) por tudo o que diz respeito à vida coletiva... 

Ao ler  Joias de família,  novela/romance ¹ de Zulmira Ribeiro Tavares (Editora Companhia das Letras, 2007), não pude deixar de recordar esse episódio da  gente diferenciada.

Graças à hábil construção dos dois parágrafos de abertura, o leitor consegue obter de imediato o delineamento da figura central da narrativa e do ambiente no qual esta se encontra instalada:

"Maria Bráulia Munhoz, no nono andar de seu apartamento no Itaim Bibi, prepara-se para o almoço. A mesa está posta para duas pessoas: ela e o sobrinho. A toalha sobre a mesa redonda, pequena, é de linho branco adamascado e no centro há um lago também redondo e pequeno, de espelho. Sobre a superfície do espelho pousa um cisne de Murano.

Maria Bráulia - de velhice definida mas idade não declarada, com movimentos seguros e rápidos, acompanhados de tapinhas, faz aderir ao rosto o seu segundo rosto, o 'social', de pele entre o rosa e o marfim, boca e face rosadas. Os cílios com rímel espevitam o azul dos olhos e atiçam o amarelo pintado dos cabelos. Com o rosto social mais uma vez encenado, o outro, o estritamente particular, recua, como acontece todas as manhãs, e é esquecido imediatamente por sua dona. Um rosto que de tão pouco visto por terceiros adquire a mesma modéstia do corpo murcho; e assim, trazê-lo à luz do dia, sustentá-lo sobre o pescoço como se fosse a coisa mais natural do mundo (o que vem aliás exatamente a ser), exibi-lo para  algum outro, ainda que muito íntimo, como o sobrinho, lhe pareceria um ato da mais absoluta e indesculpável falta de pudor".

Prenome (em geral, composto) imediatamente seguido de sobrenome: é assim que os  bem-de-vida  costumam se dar a conhecer - atestando a origem, a estirpe (embora, no caso de Maria Bráulia, seja possível  interpretar o sobrenome Munhoz  como uma espécie de downgrade, já que proveio do falecido marido, um "simples" juiz, nem de longe tão endinheirado quanto a família de nascimento dela). A residência é no Itaim Bibi: de acordo com matéria publicada pela  Forbes  no início deste ano, o terceiro m² mais valorizado do país (R$ 19.468, preço médio). Mencionar a pequena escultura do cisne de Murano não é fortuito: para além de ser mais um símbolo de status, a peça artesanal veneziana terá importante valor de representação no decorrer da trama.

A necessidade de se maquiar (mais como um  disfarce ), o apego ao  rosto "social",  mesmo dentro de sua residência e diante de um parente, são a primeira expressão de alguns dos temas centrais do livro: a impostura e a falsidade.

Certamente há muito a se dizer a respeito da protagonista, mas gostaria de destacar nesta postagem uma personagem secundária: uma outra Maria, a empregada doméstica.

Maria Firmina trabalha há anos para a família de Maria Bráulia, a Dona Brau, desde o tempo em que a proprietária do apartamento no Itaim Bibi morava com a mãe e a irmã noutro endereço. Um costume, resquício escravista - hoje menos disseminado, ainda bem - entre os ricos brasileiros: arranjar uma moça pobre, muitas vezes ainda na adolescência e quase sempre negra, para limpar, lavar e cozinhar em suas residências, pagando uma ninharia (o trabalho sem pagamento também ocorre). Entre tantas  Marias  (contando as patroas e outras empregadas), Firmina acabou virando a  Maria Preta, uma forma de diferenciação. É a própria doméstica que dá essa explicação (sem fazer conta do quão racista é a alcunha), em conversa com a sobrinha-neta e afilhada, que veio visitá-la, vindo de Santos: Benedita se prepara para fazer o vestibular e também trabalhar na casa de Maria Altina, a irmã de Dona Brau.

Reparemos este diálogo, após a visitante cumprimentar a patroa da tia-avó:

"- Meu Deus, Dita! Bene [Maria Preta havia contado à Maria Bráulia que a afilhada agora preferia o apelido Bene ]... o que houve com você? Mudou de cor?
- Deixei de tomar sol, dona Brau. Só isso.
- Quer ficar branca?
- Não tenho mais tempo de ir à praia, dona Brau. 
Maria Preta parece um pouco aflita. Fala um tanto apressadamente, de novo, engolindo as palavras, os olhos espertos, por trás dos óculos de aros dourados, de lá para cá:
- Não é mais aquela negrinha magricela que a senhora conheceu pequetita assim não é mesmo, dona Brau?
Maria Bráulia balança a cabeça divertida, muito, muito divertida:
- Não é mais magricela, não é mais negrinha, estou vendo. Você arrumou uma linda cor de caramelo Dita, Bene, Benedita. Tenha juízo heim? Vai fazer estragos em muitos corações.
Benedita permanece muda.
Quando Benedita de despede e lhe dá as costas de volta para a cozinha Maria Bráulia repara no seu traseiro duro e empinado, nas duas bolas que sobem e descem quando ela anda. 'Maria Altina vai ter que dar um jeito nisso', pensa. Isso é lá derrière que se apresente numa sala? Vai ter de lhe enfiar uma cinta, ou então um uniforme com saia larga, ou uma batinha sobre... O pensamento na sequência de operações necessárias para modificar a parte mais orgulhosa e independente de Benedita a reconforta muito".

Como as três personagens se colocam na situação? Benedita entra no modo  "poucas ideia" ; Maria Preta mal consegue disfarçar a intranquilidade; Maria Bráulia, aceitando a palavra da voz que narra, diverte-se. Por quê? Talvez esteja segura de que, mesmo com as mudanças vistas na jovem sobrinha-neta da empregada, cada uma vai continuar no seu quadrado: o lugar de cada uma dentro da estratificação social não mudará  (o de Maria Bráulia, uma pessoa branca ainda por cima, certamente não, no tempo que lhe restar de vida).

O humor e a ironia são um ponto a se destacar na prosa de Zulmira Ribeiro Tavares. Não se trata, é bom que se diga, de comicidade rasgada, piadista. A graça é sutil, mas nos pega de imediato, como, por exemplo, no ridículo ritual, mantido pela protagonista, de molhar as pontas dos dedos numa vasilha com água perfumada, coberta com uma pétala de rosa, ou no episódio em que nos é revelada a homossexualidade do juiz Munhoz. Na primeira parte da novela, encontramos outra dessas pinceladas sagazes:

"Maria Preta é discreta mas não é surda; e o apartamento é pequeno. Maria Preta é como se fosse da família. Em algumas circunstâncias isso quer dizer exatamente o que enuncia: que Maria Preta é como se fosse da família. Em outras, que Maria Preta não é como se fosse da família, uma vez que não é da família, é apenas 'como se fosse' ".

Mais uma vez, conto com a rememoração do(a) eventual leitor(a). Em 2023, veio a público um caso emblemático das barbaridades que ainda caracterizam parte do serviço doméstico no Brasil. Sônia Maria de Jesus foi resgatada após mais de 40 anos de trabalho análogo à escravidão - sem qualquer remuneração, recolhimento de contribuição previdenciária ou direito legal ao descanso (o STJ, contudo, acabou determinando que ela retornasse ao convívio de quem a explorou). Sônia saiu de casa aos nove anos de idade, indo viver, na época, com a mãe da atual patroa, que é casada com um desembargador (!) de Santa Catarina. A defesa deles alegou que havia um vínculo especial e era como se Sônia  "fosse da família"  (após a repercussão do caso, eles entraram com um pedido de paternidade socioafetiva). Os filhos biológicos do desembargador e sua esposa cursaram a escola regularmente, mas Sônia é analfabeta. Em vários períodos dormia e comia isolada numa instalação fora da residência principal. Não aparece nas comemorações nem nas fotos de eventos sociais com a família da qual supostamente é parte. Nunca lhe foi oferecida qualquer assistência pelo fato de ser surda (nunca aprendeu LIBRAS). Situações como a dessa mulher negra demonstram  "uma forma de exploração profundamente marcada pela herança escravista que desenhou o espaço doméstico brasileiro, e pela confusão entre afeto, favor e relação de trabalho", como observou a pesquisadora e professora de Direito do Trabalho Maria Carolina Fernandes de Oliveira (confira aqui).

Até onde o leitor pode chegar através do texto, seria falso dizer que a Maria Preta de  Joias de família  e Sônia Maria de Jesus têm a mesma trajetória. Mas há pontos em comum. Tanto no caso real quanto na construção ficcional, ninguém pode fugir do script. Maria Preta e Sônia nunca foram da família. É sempre  como se fosse. Dentro desta hierarquia social, para que tudo permaneça em "ordem", cada um precisa saber o seu lugar, tanto os privilegiados quanto os desfavorecidos. Aproveito a ocasião para sugerir ao(à) eventual leitor(a) revisitar aquela fantástica sequência da piscina envolvendo Jéssica, Val, Bárbara (a patroa) e o filho desta, Fabinho, no filme  Que horas ela volta?.

Claro que o componente racial não podia ficar de fora nessa necessidade de hierarquização e diferenciação. Em certo ponto da novela de Tavares, Maria Bráulia ouve um barulho de água caindo no piso de um dos cômodos próximos:

"Logo se dá conta: é aquela negrinha sonsa  [Benedita]  que só porque desbotou um pouco pensa que já é branca. Sempre que chega é o mesmo aguaceiro. Vai gastar toda a minha água da caixa com o tamanho desse banho".

Estou ciente que aspectos fundamentais de  Joias de família  ficaram de fora dessa minha abordagem (não fiz sequer uma alusão ao rubi sangue-de-pombo ou ao cabochão). A intenção, porém, era refletir sobre uma das formas como a hipocrisia é tratada no livro. E o enfoque na relação patroa-empregada me pareceu atrativo.

Talvez, noutra oportunidade, volte a essa narrativa.

Na próxima postagem, vou me ocupar de  Sargento Getúlio,  de João Ubaldo Ribeiro. 

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¹ Muitas vezes não é tão fácil, como pode parecer a princípio, classificar um texto como  novela  em vez de  romance  e vice-versa (a mesma dificuldade pode acontecer na hora de estabelecer se determinado trabalho seria um  conto  ou uma  novela ). Joias de família, lançado originalmente em 1990 pela Editora Brasiliense e republicado em 2007 pela Companhia das Letras, em geral, é classificado como romance. Pessoalmente - e peço perdão pela petulância -, entendo-o mais como uma novela. E não é pelos discutíveis critérios da extensão do texto ou do número de páginas do volume. A meu ver, o livro de Zulmira Ribeiro Tavares (autora falecida em 2018) não apresenta as ramificações narrativas que costumam caracterizar os romances. Nem preciso dizer que ser uma novela não significa, em termos de qualidade artística, ser menos que um romance (só para constar,  Joias de família  venceu o Prêmio Jabuti em sua categoria em 1991): estou aqui apenas conjecturando em relação às distinções de um gênero literário/narrativo em relação ao outro.


BG de Hoje 

Não costumo me orgulhar do Brasil ou de ser brasileiro (OK, podem me chamar de vira-lata; sem embaraço, visto a carapuça). Mas sinto uma pequena alegria, digamos, ufanista, toda vez que escuto uma das composições da dupla JOÃO BOSCO e ALDIR BLANC. A obra desses caras, tantas vezes, resume tão bem a cultura e a musicalidade brasileiras, além do uso que fazemos da língua portuguesa, de um jeito que outros artistas, igualmente talentosos, não conseguiriam fazer se tentassem. Constate-se, ouvindo  Boca do sapo.  Isso, sim, dá orgulho. OBS: A canção já foi interpretada por Clementina de Jesus e Zeca Pagodinho, boas versões, mas nenhuma, em minha opinião, é melhor do que a faixa cantada unicamente pelo próprio João Bosco, gravada no álbum  Linha de Passe  (1979).

sexta-feira, 13 de março de 2026

Falou e disse...

 "O capitalismo acelera diante de crises porque é um sistema cuja racionalidade está baseada na maximização de interesses individuais, acrescido da ilusão de que tal maximização produziria ao final a riqueza comum. Ou seja, cada um trabalha para si, tentando vencer o outro em uma relação constante de concorrência. Se todo mundo trabalhar para si mesmo, tentando sempre vencer concorrentes, o progresso acontecerá e a riqueza comum será produzida.

Isso é o que costuma se chamar de 'mão invisível do mercado'. Mas seria o caso de lembrar que o capitalismo nunca foi concorrencial, essa é só uma das falácias que ele procura naturalizar. O capitalismo sempre foi monopolista, seu livre-comércio sempre foi defendido quando o comerciante mais forte, quando os países de capitalismo mais agressivo, tinham certeza de que conseguiriam impor seus interesses aos demais.

Mas gostaria de insistir em outro ponto, a saber, do ponto de vista dos interesses individuais, não há razão alguma para eu não aproveitar crises e intensificar minha extração de lucro, assim como minha constituição de monopólios. Por que eu deveria me preocupar com o estado do meio ambiente em cinquenta anos se em cinquenta anos estarei morto? Utilizar a maximização de interesses individuais como padrão de validade equivale a implodir o tempo social organizando toda racionalidade do processo de produção a partir da maximização dos interesses do presente. E de nada adianta imaginar que tais exigências do presente seriam limitadas pelo 'estado do mundo que deixarei aos meus filhos'. Certamente, não será do amor do capitalista por seus filhos e filhas que podemos esperar alguma forma de freio de emergência contra o aprofundamento das crises". *

* Vladimir SAFATLE, na introdução da nova edição de seu livro  A esquerda que não teme dizer seu nome.  Ainda não comprei um exemplar (está na lista de títulos que, espero, terei condições de começar a adquirir a partir de junho), mas esse texto foi reproduzido no site A Terra é redonda disponível aqui

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Após uma leitura de 1984, matutando sobre memória, linguagem e (in)compreensão da realidade

Atualizado às 07h32 do dia 03/03/2026 ]


Todos que já leram (e muitos dos que apenas ouviram falar de)  1984  conhecem o termo  duplipensamento

Na criação literária de George Orwell, o Partido que tudo rege precisa forjar um passado conveniente ao seu sistema de dominação - "quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente controla o passado"  ¹ : eis o lema a ser seguido. Afirma-se que os fatos antigos  "não têm existência objetiva e que sobrevivem apenas em registros escritos e nas memórias humanas. O passado é tudo aquilo a respeito do que há coincidência entre registros e memórias". Cria-se, então, um corpo de funcionários, pertencentes ao Ministério da Verdade (onde, a propósito, trabalha Winston Smith, o protagonista do romance), cuja função é reescrever e falsificar a história.

Um dos objetivos dessas ações é preparar terreno para o duplipensamento :  

"Garantir que todos os registros escritos estão de acordo com a ortodoxia do momento é um mero ato mecânico. Mas é necessário  lembrar-se  que os fatos se passaram da maneira desejada. E caso seja necessário reorganizar nossas memórias ou alterar os registros escritos, também será necessário  esquecer  que o fizemos. O modo como se produz isso pode ser aprendido, como qualquer outra técnica mental. E ele  é  aprendido pela maioria dos membros do Partido: certamente por todos os que são ao mesmo tempo inteligentes e ortodoxos. Em Velhafala isso recebe o nome muito direto de 'controle da realidade'. Em Novafala é o  duplipensamento,  embora o termo  duplipensamento  também abranja muitas outras coisas.

Duplipensamento  significa a capacidade de abrigar simultaneamente na cabeça duas crenças contraditórias e acreditar em ambas".

Tem-se visto que é muito mais difícil manter grandes magotes de pessoas na rédea se apenas a violência física for empregada (isso não quer dizer, obviamente, que o chicote deixará de estalar, como demonstra o notável personagem O'Brien, no livro de Orwell, e como podemos perceber facilmente no mundo à nossa volta). Para alcançar uma submissão mais ampla, o opressor, além da força bruta, precisa agir também sobre a mente e a psique dos indivíduos, fazendo com que o jugo se dê cada vez mais "naturalmente", para que haja uma "aceitação" da parte do subjugado (a persuasão coercitiva - "lavagem cerebral", em termos mais informais - pode ser um dos recursos utilizados, bem como estratégias de condicionamento). Em  1984,  o romancista enfatiza as ações da tirania sobre as  memórias, tanto as particulares, que dizem respeito a cada sujeito, quanto a supraindividual, ou seja, aquela memória resultante de uma construção social e coletiva do passado. O regime totalitário representado pelo Grande Irmão compreende perfeitamente a imperativa necessidade de agir sobre as produções que poderíamos chamar de receptáculos dessa memória:

"Esse processo de alteração contínua  [do que está registrado]  valia não apenas para jornais como também para livros, periódicos, panfletos, cartazes, folhetos, filmes, trilhas sonoras, desenhos animados, fotos - enfim, para todo tipo de literatura ou documentação que pudesse vir a ter algum significado político ou ideológico. Dia a dia e quase minuto a minuto o passado era atualizado. Desse modo era possível comprovar com evidências documentais que todas as previsões feitas pelo Partido haviam sido acertadas; sendo que, simultaneamente, todo vestígio de notícia ou manifestação de opinião conflitante com as necessidades do momento eram eliminados. A história não passava de um palimpsesto, raspado e reescrito tantas vezes quantas fosse necessário. Uma vez executado o serviço, era absolutamente impossível provar a ocorrência de qualquer tipo de falsificação".

O exercício contínuo e metódico para fraudar documentos e remodelar obras de arte visava corroer um dos principais meios para discernir a realidade. Embora, em  1984,  os membros do Partido fossem os mais diretamente afetados por essa contrafação, os assim chamados  proletas (no original, proles, redução de proletariat ) não experimentavam melhor sorte, atados à esfera de ignorância e distração destinada para estes, mesmo que parcialmente fora da implacável vigilância projetada para aqueles.

A tarefa de destruir a capacidade das pessoas de reconhecer e descrever o mundo real (e, portanto, também a destruição de sua capacidade para intervir nesse mesmo mundo) se completará com o embotamento da linguagem, convertendo-a numa funcionalidade comunicacional estreita e reducionista . 

Valorizo especialmente esse aspecto do romance de Orwell ²

No capítulo 5 da Parte 1, somos apresentados a um personagem que ilustra bem as intenções do Partido com a criação da Novafala  (ou  Novilíngua,  como se encontra em outras traduções) : um inteligente filólogo chamado Syme, que trabalhava no Departamento de Pesquisas.

"Que coisa bonita, a destruição de palavras!",  exclama ele, conversando com Winston durante o almoço no refeitório coletivo. Em sua explicação,   "Todo conceito de que pudermos necessitar será expresso por apenas  uma  palavra, com significado rigidamente definido, e todos os seus significados subsidiários serão eliminados e esquecidos", completando:  "Menos e menos palavras a cada ano que passa, e a consciência com um alcance cada vez menor"

Membro ortodoxo e dedicado do Partido, o estudioso da linguagem só consegue ver vantagem em tudo isso:

"Toda a literatura do passado terá sido destruída. Chaucer, Shakespeare, Milton, Byron existirão somente em suas versões em Novafala, em que, além de transformados em algo diferente, estarão transformados em algo contraditório com o que eram antes. A literatura do Partido será outra. Os slogans serão outros. [...]  Todo o clima de pensamento será diferente. Na realidade não haverá pensamento tal como entendemos hoje".

No refeitório, os dois acabam reparando num sujeito sentado na mesa ao lado, "falando sem dar trégua aos companheiros". Era "praticamente impossível distinguir uma só palavra na torrente de ruídos que jorrava da boca daquele homem". Ainda assim, dava para saber, por alto, o teor do que ele dizia: repetições de bordões e lugares-comuns do discurso habitual do Partido. Olhando para o sujeito, 

"Winston teve a estranha sensação de que aquele não era um ser humano de verdade, mas alguma espécie de simulacro. O que falava não era o cérebro do homem, era sua laringe. O material que ele produzia era formado por palavras, contudo não era fala no sentido lato: era um ruído emitido sem a participação da consciência, como o grasnado de um pato".

(Não é raro, no botequim que costumo frequentar, próximo à minha residência, deparar-me com alguns fregueses que agem da mesma maneira, ecoando sem parar frases prontas a que foram submetidos diuturnamente, pelo '"Zap", como forma de reforçar suas visões de mundo...).

Dentro da Linguística contemporânea existe o entendimento de que a linguagem não tem apenas a função de descrever e espelhar o mundo: ela também constrói e confere sentido à realidade, ultrapassando o papel de mero instrumento de comunicação. Além disso, é possível perceber como a linguagem  molda  o pensamento humano (ainda que não o determine exclusivamente), bastando observar os diversos usos que fazemos dela. As reflexões de George Orwell estão em sintonia com essa convicção, sobretudo quando, no Apêndice de  1984,  ele deixa bem claro que "A Novafala foi concebida não para ampliar, e sim restringir os limites do pensamento  [...] "

Nesta terceira década do século XXI, olhamos ao nosso redor e constatamos que não é um grande regime totalitário de alcance internacional erigido em torno de uma única organização partidária que está colocando fatos históricos já consolidados em dúvida ou desbaratando a linguagem e, consequentemente, enfraquecendo, a cultura (aqui, como sinônimo de conhecimento). O duplipensamento e a novafala hoje são propagados de maneira difusa, recebendo um tremendo impulso graças às ações dos  "anjos tronchos do Vale do Silício",  como cantou o Caetano Veloso.  

O escritor norte-americano Thomas Pynchon escreveu um prefácio para uma edição especial de  1984,  que saiu em 2003 (esse texto foi incluído, agora como um dos posfácios, na edição brasileira de que me vali nesta postagem). Das análises da distopia orwelliana que já pude ler (não foram tantas assim), o texto de Pynchon é a melhor (a  Folha de S. Paulo publicou-a no extinto caderno  Mais!,  disponível aqui). Observemos o seguinte excerto:

"O que talvez seja mais importante - mais ainda, necessário - para um profeta é a capacidade de enxergar mais fundo na alma humana do que a maioria dos mortais. Em 1948  [ano de finalização do livro],  Orwell compreendeu que apesar da derrota do Eixo, a vontade fascista não havia desaparecido; que, longe de ter sido extinta, ela talvez estivesse apenas começando a se afirmar; que a corrupção do espírito e o irresistível vício do poder já estavam havia muito estabelecidos, constituindo aspectos bem conhecidos do Terceiro Reich e da União Soviética stalinista, até mesmo do Partido Trabalhista britânico  [da época de Orwell] - apenas rascunhos de um futuro terrível. O que poderia impedir que a mesma coisa acontecesse na Grã-Bretanha e nos EUA? A superioridade moral? As boas intenções? Uma vida pura?

O que foi melhorando progressiva e insidiosamente de lá para cá, tornando quase irrelevantes os argumentos humanistas, foi, é claro, a tecnologia. Pouco importa que sejam rudimentares os métodos de vigilância utilizados na era de Winston Smith. No nosso 1984, afinal, o circuito integrado ainda não tinha dez anos de idade e era de um primitivismo quase constrangedor se comparado com as maravilhas da tecnologia de informática de 2003, principalmente a internet, uma invenção que promete controle social numa escala que aqueles antiquados tiranos do século XX, com seus bigodes ridículos, nem sequer poderiam imaginar".

Presenciamos na atualidade, dentro da web, além do incessante vasculhamento por informações privadas e captação de dados pessoais, a perigosa equivalência dos discursos, fazendo com que mensagens de ódio e desinformação proposital sejam tantas vezes toleradas e aceitas como manifestações da "liberdade de expressão". Pela lógica algorítmica orientada pelo lucro, a fala responsável de um especialista ou pesquisador ganha menos projeção que a estridência leviana de um bufão extremamente popular. É cada vez mais difícil construir consensos em torno do enfrentamento de grandes problemas (como a emergência climática ou a desigualdade social abissal vinculada à concentração de renda): afinal, para um contingente significativo de pessoas, tudo não passa de "narrativas", criadas para favorecer este ou aquele segmento e, portanto, vale tudo para fazer predominar os interesses particulares de ocasião. Num contexto de empobrecimento da linguagem, quem detém poder - sobretudo econômico - conseguirá manipular milhões de indivíduos e torná-los semelhantes àquele verborrágico sujeito que chamou a atenção de Winston e Syme no refeitório. Isso sem falar nos milhares de O'Briens adestrados para manter essa disparidade (mas isso é assunto para uma outra postagem futura).

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¹ Todas as citações de  1984  reproduzidas nesta postagem foram retiradas da tradução de Alexandre Hubner e Heloisa Jahn, publicada pela Editora Claro Enigma (um selo da Companhia das Letras) em 2010.

² Além desses dois aspectos - a adulteração das memórias e a formulação de uma linguagem regulamentada primária e estéril  -, o livro evidencia ainda a disposição daquele regime totalitário de exaurir o desejo sexual, mas discutirei esse aspecto noutra ocasião, ao incluir outros textos literários. 

BG de Hoje

Das grandes maravilhas possibilitadas pela internet, agrada-me, particularmente, o acesso quase ilimitado à produção musical pregressa. Quando eu era jovem, não havia chance de ouvir, satisfatoriamente e em número suficiente, os(as) cantores(as)/compositores(as)/bandas que aguçavam minha curiosidade ou aqueles(as) que eram reputados(as) como importantes influências para outros artistas: naquela época, era inimaginável comprar a quantidade de álbuns desejada e os meios difusores então disponíveis - rádio e TV, basicamente - concentravam-se naquilo que representava sucesso comercial garantido, com raras exceções (bem, para ser franco, as empresas voltadas para a comunicação de massa nunca deixaram de impingir a homogeneização do gosto, seja antes ou depois do advento da web). Atualmente, porém, consigo mergulhar com facilidade (e baixíssimo custo) na discografia de cantores(as)/compositores(as)/bandas cujo prestígio era a única coisa que havia chegado até mim, pois nunca tivera a oportunidade de escutá-los(as) pra valer. E há também o prazer de ouvir, como numa descoberta, artistas que apareceram décadas atrás, dos quais eu não tinha a menor noção de que existiam. Nos últimos dias, "descobri" o som do FANNY, um pioneiro grupo de hard rock integrado por quatro mulheres na cidade de Los Angeles, nos anos 1970. Abaixo,  Seven Roads, faixa de encerramento do primeiro disco da banda.