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terça-feira, 16 de julho de 2024

"Gracilianas" (IV) - S. Bernardo


Nos dois últimos meses de 2013, estava disposto a escrever uma sequência de textos curtos sobre livros de Graciliano Ramos, mas - não me lembro por que - acabei cobrindo apenas três títulos: Cartas  (disponível aqui), Infância  (disponível aqui) e Angústia  (disponível aqui e aqui). Como reli S. Bernardo  por esses dias, resolvi acrescentar mais um capítulo à série, mesmo com quase 11 anos de atraso.

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Por que alguns comentadores, através de S. Bernardo, ligam Graciliano Ramos a Balzac?

Honoré de Balzac poderia ser definido tranquilamente como o romancista do dinheiro, pois, em muitas de suas narrativas, a abundância ou a falta de recursos financeiros são elementos cruciais da trama. No segundo livro do escritor brasileiro, por sua vez, o protagonista (e também narrador) faz de tudo para firmar-se como um homem de posses, cujo símbolo máximo é a fazenda que dá nome ao romance.

Sabemos que Ramos foi um leitor atento do autor francês. Não seria um disparate dizer que o arrivismo de Paulo Honório espelha algumas figuras da Comédia Humana, ainda que temperado com as características do interior alagoano dos anos 1920-30.

Não pretendo, porém, fazer esse exercício comparativo na postagem de hoje. Menciono a aproximação primeiramente para bancar o ilustrado e, em segundo, para confessar minha simpatia por escritores que destacam o peso que o dinheiro tem no mundo.

Para exemplificar, observemos a cena narrada no capítulo XXXII. Acontece após o enterro de Madalena. D. Glória resolve ir embora de S. Bernardo e comunica ao proprietário. Ainda que a decisão demonstre todo o seu brio, sendo ela pobre e idosa, como iria se virar sozinha? Paulo Honório então diz: " - Pense no aluguel das casas na cidade, pense no preço dos remédios. Adoecer é fácil, d. Glória, mas tirar a moléstia do corpo é um trabalhão. Pense no mercado, no cobrador de luz, na pena-d'água. Hoje em dia a vida é difícil em toda parte, mas na cidade a vida é um buraco, d. Glória" ¹.

Ela acaba aceitando a fixação de uma pensão. Dessa maneira, o fazendeiro cumpre a promessa feita à esposa na noite anterior à morte dela. É um sujeito bruto e terrível, mas como negar o acerto de suas palavras a respeito dos custos para se viver na cidade (ou os custos para se viver em qualquer outro lugar)? D. Glória detestava Paulo Honório, o suicídio da sobrinha muito provavelmente só aumentou essa aversão. Entretanto, o pequeno estipêndio não é recusado.

No célebre ensaio Ficção e confissão, Antonio Candido afirma: "Em Paulo Honório, o sentimento de propriedade, mais do que simples instinto de posse, é uma disposição total do espírito, uma atitude geral diante das coisas. Por isso engloba todo o seu modo de ser, colorindo as próprias relações afetivas. Colorindo e deformando".²

A despeito da sensatez demonstrada na conversa com D. Glória, não me parece ser alguma irrupção de bondade que leva Paulo Honório a estatuir a pensão. É certo que se empenhou em procurar e acolher a velha Margarida em sua fazenda e decidiu proteger as filhas de Mendonça, o vizinho que ele mandou matar. Em todos esses casos, porém, o que temos é o pagamento de dívidas : as relações do personagem central com as demais deriva de seu sentimento de propriedade, um sentimento que confere a todos os vínculos um caráter comercial.

Sendo um texto totalmente centrado em seu protagonista-narrador, a psicologia deste é fundamental para a devida compreensão do romance. Segundo Candido, o "ritmo psicológico" de Paulo Honório é caracterizado por dois movimentos:

"[...] um, a violência do protagonista contra homens e coisas; outro, a violência contra ele próprio. Da primeira, resulta São Bernardo-fazenda, que se incorpora ao seu próprio ser, como atributo penosamente elaborado; da segunda, resulta São Bernardo-livro-de-recordações, que assinala a desintegração da sua pujança. De ambos nasce a derrota, o traçado da incapacidade afetiva".

Essa incapacidade afetiva fica escancarada numa das passagens mais sensacionais do livro:

"Já viram como perdemos tempo em padecimentos inúteis? Não era melhor que fôssemos como os bois? Bois com inteligência. Haverá estupidez maior que atormentar-se um vivente por gosto? Será? Não será? Para que isso? Procurar dissabores? Será? Não será?"

Ainda que elemento importantíssimo na vida em geral, o dinheiro, contudo, no caso de Paulo Honório, não foi suficiente para dar-lhe tranquilidade. 

Não é comum, mas um feroz capitalista conhece derrotas às vezes.

_______________

¹ RAMOS, Graciliano. S. Bernardo. 87 ed. Rio de Janeiro: Record, 2008. Todas as citações do romance nesta postagem foram extraídas dessa edição.

² CANDIDO, Antonio. Ficção e confissão. In: ____________. Ficção e confissão: ensaios sobre Graciliano Ramos. 3 ed. Rio de Janeiro: Ouro Sobre Azul, 2006. p. 17-99

BG de Hoje

Estou de férias. Glória aos direitos trabalhistas (e ao regime estatutário também) ! Ah, como eu gostaria que o clima preponderante (pelo menos em alguns dias) desse período fosse o da canção exibida abaixo: Quando a polícia chegar  (AUTORAMAS).

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Prosseguir? Sim... mas...


Estive relendo Angústia nos últimos dias (romance sobre o qual já escrevi aqui e aqui).

Não estava na "ordem de prioridades". Há uma pilha de volumes - lidos ou relidos parcialmente, outros nem sequer começados - que intencionava dar conta antes. Alguns, inclusive, seriam discutidos aqui no blog.

Mas senti que precisava voltar àquele livro de Graciliano Ramos mais uma vez.

Já disse anteriormente que tenho grande identificação com o personagem-narrador Luís da Silva. Tal como ele, não passo de um desiludido, rancoroso e ordinário servidor público, marcado por veleidades literárias e intelectuais.

O fechamento de Angústia expõe o que se passa na cabeça de Luís da Silva, quando este se encontra num estado de letargia, em que renitentes lembranças e memórias de outras fases de sua vida manifestam-se, quase oniricamente. Essa espécie de delírio, podemos dizer, é, aliás, a mesma da qual o personagem está se desprendendo no início do romance, saindo de um longo período de prostração - é quando nós, os leitores do romance, nos damos conta de que os principais episódios constituintes do enredo do livro já tinham acontecido quando o texto efetivamente principia.

Formando um só fluxo que preenche quase dez páginas, a divagação começa assim:

"A réstia descia a parede, viajava em cima da cama, saltava no tijolo - e era por aí que se via que o tempo passava. Mas no tempo não havia horas. O relógio da sala de jantar tinha parado. Certamente fazia semanas que eu me estirava no colchão duro, longe de tudo. Nos rumores que vinham de fora, as pancadas dos relógios da vizinhança morriam durante o dia. E o dia estava dividido em quatro partes desiguais: uma parede, uma cama estreita, alguns metros de tijolo, outra parede. Depois a escuridão cheia de pancadas, que às vezes não se podiam contar porque batiam vários relógios simultaneamente, gritos de crianças, a voz arreliada de d. Rosália, o barulho dos ratos no armário dos livros, ranger de armadores, silêncios compridos. Eu escorregava nesses silêncios como numa água pesada. Mergulhava neles, subia e descia ao fundo, voltava à superfície, tentava segurar-me a um galho. Estava um galho por cima de mim, e era-me impossível alcançá-lo. Ia mergulhar outra vez, mergulhar para sempre, fugir das bocas da treva que me queriam morder, dos braços da treva que me queriam agarrar".

E, no finalzinho, uma das frases que se lê é:

     "Eu era uma figurinha insignificante e mexia-me com cuidado para não molestar as outras".

Tenho pra mim que Luís da Silva não seria tão angustiado - e nem teria cometido o crime narrado na obra - se realmente aceitasse o fato de ser uma "figurinha insignificante". Caso aceitasse, teria êxito em "fugir das bocas" e "dos braços da treva". 

Figuras como o personagem de que estamos falando (e como este blogueiro), a despeito da sua nulidade, são paradoxalmente pretensiosas. Em algum momento de suas vidas, acreditaram ser, de algum modo, inteligentes. Isso as torna particularmente nocivas ou, na melhor das hipóteses, simples covardes. De uma forma ou de outra, são incapazes de agir com grandeza, o que não quer dizer que sejam torpes o tempo inteiro. 

É como se não soubessem dar valor a nada e, portanto, são figuras inaptas para construir qualquer coisa - carreira, algum patrimônio modesto ou até mesmo relacionamentos. "[...] as minhas mãos são fracas, e nunca realizo o que imagino", diz para si mesmo, a certa altura, Luís da Silva.

Você, visitante desavisado, talvez não saiba, mas este Besta Quadrada (que nada me rende e que não tem leitores) é minha única realização. Vejo, contudo, que estou estagnado, escorregando em "silêncios compridos", como se estivesse mergulhado "numa água pesada".

Tenho que prosseguir, suponho. Afinal, é minha única realização, não é? Mas qual rumo tomar?

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A estagnação também tem a ver com um outro ponto.

Semanas atrás, li a postagem inaugural do blog criado este ano por Edward Snowden, que me fez refletir muito sobre as possibilidades de debate na atual conjuntura histórica. Em Lifting The Mask, o ex-analista da CIA e da NSA observa que o controle/acesso de dados e informações pessoais de milhões de indivíduos, antes nas mãos de entidades governamentais destinadas à vigilância (e, por conseguinte, repressão), hoje é o principal capital de corporações privadas (e, por conseguinte, fonte de lucro para elas). 

E onde chegamos com isso? Escreve Snowden:

"This is the reality of the fully commercialized mainstream internet: our exposure to an indigestible mass of shortest-form opinions that are purposefully selected by algorithms to agitate us on platforms that are designed to record and memorialize our most agitated, reflexive responses. These responses are, in turn, elevated in proportion to their controversy to the attention — and prejudice — of the crowd. In the resulting zero-sum blood sport that public reputation requires, combatants are incentivized to occupy the most conventionally defensible positions, which reduces all politics to ideology and splinters the polis into squabbling tribes. The products of the irreconcilable differences this process produces are nothing more than well-divided 'audiences', made available to the influence of advertisers, and all that it cost us was the very foundation of civil society: tolerance". ¹

Afetando milhões de seres humanos, a intersubjetividade dos nossos dias é altamente influenciada pelas mídias sociais ou aplicativos de mensagens instantâneas (como o WhatsApp, por exemplo). Como está bem assinalado acima, as empresas detentoras dessas plataformas, através dos algoritmos lá presentes, têm interesse, sobretudo, em nossas manifestações "mais enervadas e por reflexo", ou seja, raivosas e irrefletidas. Gera-se assim uma segmentação - ideal para os anunciantes -, com " 'audiências' muito bem divididas", nem que para isso a ideia de tolerância tenha que ser sacrificada.

Mas Snowden tem algo a propor:

"For this reason, I'd like to do my part in encouraging a return to longer forms of thinking and writing, which provide more room for nuance and more opportunity for establishing consensus or, at the very least, respecting a diversity of perspective and, you know, science.

I want to revive the original spirit of the older, pre-commercial internet, with its bulletin boards, newsgroups, and blogs — if not in form, then in function". ²

"Formas mais longas de pensar e escrever"... Pode ser uma boa maneira de se contrapor a memes inconsequentes, fake news e outras formas de comunicação bastante velozes e curtas, porém, na mesma proporção, superficiais, mentirosas e promotoras de ódio, formas essas cada vez mais impregnadas no debate público, deixando de proporcionar "espaço para nuances" e para perspectivas menos simplistas.

Tudo dito, qual rumo dar a este Besta Quadrada, que é, entre outras coisas, minha tentativa - pretensiosa, não vou negar - de contribuir com o debate público?

É essa a pergunta que estou tentando responder nos últimos dois meses. Ainda tenho dúvidas, que talvez não sejam dirimidas nas próximas semanas. 

Por isso, enquanto reflito sobre possíveis mudanças, não haverá atualizações por aqui.

Retornarei ainda este ano, contudo.

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¹ [Tradução aproximada: Esta é a realidade da internet mainstream inteiramente comercializada: nossa exposição a uma massa de opiniões na sua forma mais curta, indigesta, que são propositalmente selecionadas por algoritmos para nos agitar em plataformas que são projetadas para gravar e manter vivas nossas respostas mais enervadas e dadas por reflexo. Essas respostas são, por sua vez, elevadas na proporção de sua controvérsia para a atenção - e preconceito - da multidão. No resultante esporte sangrento de soma zero que a reputação pública exige, os combatentes são incentivados a ocupar as posições mais convencionalmente defensáveis, o que reduz toda a política à ideologia e divide a pólis em tribos em disputa. Os produtos das irreconciliáveis diferenças desse processo nada mais são do que "audiências" muito bem divididas, tornadas disponíveis para a influência dos anunciantes e tudo o que nos custou foi o próprio fundamento da sociedade civil: a tolerância]

² [Tradução aproximada: Por esse motivo, eu gostaria de fazer minha parte encorajando um retorno para formas mais longas de pensar e escrever, que proporcionem mais espaço para nuances e mais oportunidade para estabelecer consensos ou, pelo menos, respeitar a diversidade de perspectiva e, sabe, ciência.

Eu quero reviver o espírito original da internet mais velha e pré-comercial, com seus quadros de boletins, grupos de notícias e blogs - se não na forma, então na função]

BG de Hoje

Estou ciente do tremendo clichê que é dizer isso, mas lá vai: no derradeiro fim - seja o Jeff Bezos, seja uma pobre mulher favelada que labuta diariamente para criar os filhos -, todos seremos carregados pela morte, "feito um pacote", como cantou BELCHIOR em Pequeno perfil de um cidadão comum, belíssima canção composta em parceria com Toquinho. Isso, porém, não é um consolo, em absoluto. Sempre achei estranha a expressão "vencer na vida", sobretudo porque, para a maioria de nós, o único papel que nos cabe é dizer "sim aos seus [nossos] senhores infalíveis".

terça-feira, 19 de novembro de 2013

"Gracilianas" (IIIb) - Angústia


"Trancado num quarto, sapecando as pestanas em cima de um livro, como sou vaidoso e como sou besta! Caminhei tanto; e o que fiz foi mastigar papel impresso. Idiota".

Luis da Silva, personagem-narrador de Angústia - Graciliano Ramos

 
 
No ensaio O pobre diabo no romance brasileiro* (citado na postagem anterior), José Paulo Paes, entre outros expedientes, vale-se do clássico estudo A teoria do romance, de Georg Lukács, para analisar "o mais humilde dos papéis ficcionais", qual seja, o pobre diabo, tal como o Luis da Silva, de Angústia**.

Em seu trabalho, Lukács considera que o "herói problemático" surge nos romances modernos e estes podem ser divididos em duas categorias: o romance de formação, típico do período romântico, no qual há um herói disposto a modificar a realidade social, levando em conta seus íntimos ideais; e o romance da desilusão, que conta com um herói (ou melhor, anti-herói) descrente de qualquer ideal, acomodado ao status quo e imerso nas suas frustrações particulares.

Para Paes, "é fácil ver que o romance de pobre diabo está tão longe das esperanças, ainda que utópicas, do romance de formação, quanto perto está da desesperança do romance da desilusão. Melhor dizendo: representa a forma mais externada, mais radical deste último".

Luis da Silva é, em dúvida, um desiludido. É também um sujeito mesquinho e rancoroso. Um dos personagens de nossa Literatura com quem mais me identifiquei até hoje. Acerto de contas do escritor consigo mesmo? É possível defender tal interpretação. Prefiro, contudo, considerar o anti-herói de Angústia como um "monstro revoltado" - lançando mão da expressão usada por Otto Maria Carpeaux. Mas não é um monstro revolucionário (a despeito das convicções políticas do escritor à época), uma vez que, resignado, atola-se no conformismo.

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Antes de encerrar, gostaria de destacar outro ponto que me interessa muito em Angústia: o desencanto com que a relação amorosa é tratada; melhor dizendo, no modo como se narra o encontro homem-mulher. Note, por exemplo, a lembrança residual do envolvimento do narrador com Marina:

"De todo aquele romance as particularidades que melhor guardei na memória foram os montes de cisco, a água empapando a terra, o cheiro dos monturos, urubus nos galhos da mangueira farejando ratos em decomposição".

Esse desencanto tornar-se-á mais explícito no encontro do protagonista com uma prostituta pobre e doente. Após pagar uma refeição simples para a mulher, Luis a acompanha até um "quartinho sujo". Fica sabendo que ela está "na vida" há quatro anos: "Quatro anos. E ali estava aquela carcaça comida pelo treponema. Panos caídos no chão, o irrigador com permanganato. Na mesinha de cabeceira, essências ordinárias disfarçavam um cheiro forte de esperma".

Os dois não fazem sexo, mas ao ir embora, Luis entrega dez mil-réis à prostituta, que recusa. Ele então diz:

"Não me faça cometer um desatino. A senhora é relógio para trabalhar de graça? A senhora tem obrigação de andar nua diante de mim? Duas horas de chateação, de conversa mole! A senhora é relógio? A senhora não é relógio".

Dignidade vale dez mil réis? Dignidade vale quanto?

Dias depois, descobre que "a mulher da Rua da Lama, a que eu encontrara uma noite no Helvética, andava caipora, no hospital, com doença do mundo".

Angústia é um livro de desalento. Estranhamente, contudo, sempre saio dele mais fortalecido, a cada nova leitura.

Na próxima postagem, falarei do São Bernardo.
__________
* PAES, José Paulo. O pobre diabo no romance brasileiro. In: ________. A aventura literária: ensaios sobre ficção e ficções. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p. 39-61

** RAMOS, Graciliano. Angústia. 32 ed. Rio de Janeiro: Record, 1986


BG de Hoje

Esta foi a primeira canção que ouvi do METALLICA, há bastante tempo, na casa de um ex-colega de escola: Fade To Black. A cada dia percebo que gosto muito das músicas desesperadas...

terça-feira, 12 de novembro de 2013

"Gracilianas" (IIIa) - Angústia


Referindo-se à obra de Graciliano Ramos, Otto Maria Carpeaux observou que

"Toda literatura pessimista encontra uma resistência fanática: leitores e críticos não gostam disso. Sentem vagamente que arte e pessimismo se contradizem. Mas em vez de estudarem esteticamente a possível contradição, entrincheiram-se em regiões fora da arte, na filosofia, na ética, para bombardear o romancista com censuras de 'pouca generosidade' ou de niilismo insaudável. Não admito preconceitos. O pessimismo não é nem uma moral nem uma filosofia. É um estado de alma".

Parece ser este o estado de alma predominante em quase toda a obra de Graciliano Ramos. E tal pessimismo é ainda mais perceptível naquele que considero o melhor livro do artista alagoano: Angústia*.

Escrito em primeira pessoa, Angústia depende inteiramente do que nos conta o personagem-narrador Luis da Silva. Sob esse aspecto, portanto, assemelha-se a São Bernardo. A diferença está nas personalidades dos protagonistas. Paulo Honório é um homem de ação decidido; não são seus "estados mentais", digamos assim, que traduzem a força do romance e sim seus atos. Por outro lado, em Angústia, o mais fundamental para o leitor é saber o que se passa na consciência do atormentado Luis da Silva. Mas, afinal, quem é esse sujeito?

Um "molambo que a cidade puiu demais e sujou", ele nos diz no início do livro. Empregado numa "ocupação estúpida e quinhentos mil-reis de ordenado", chega a manifestar algum inconformismo: "Não sou um rato, não quero ser um rato". Mas acaba assumindo-se como um "percevejo social", que se ressente dos "sujeitos remediados que me desprezam porque sou um pobre-diabo".

O termo pobre-diabo, a propósito, lembra-me um ótimo ensaio escrito por José Paulo Paes, intitulado justamente O pobre diabo no romance brasileiro**. Neste artigo, Paes analisa esse tipo de personagem a partir da sua presença em pelo menos quatro livros: Os ratos (Dionélio Machado), O Coruja (Aluísio Azevedo), Recordações do escrivão Isaías Caminha (Lima Barreto) e, naturalmente, o de Graciliano Ramos. O ensaísta busca estabelecer um conceito (de inspiração socioeconômica):

"Embora o pobre diabo se situe por definição num dos estratos inferiores da pirâmide social - sua pobreza o condena a eles - não pode pertencer nem ao proletariado nem ao lumpemproletariado". Acaba sendo um "patético pequeno-burguês quase sempre alistado nas hostes do funcionalismo público mais mal pago, vive a beira do naufrágio econômico que ameaça atirá-lo a todo instante à porta da fábrica ou ao desamparo da sarjeta, onde terá de abandonar os restos do seu orgulho de classe".


Uma abordagem bastante adequada para compreender o Luis da Silva de Angústia. Tentarei ampliá-la um pouquinho mais na próxima postagem.
__________
* RAMOS, Graciliano. Angústia. 32 ed. Rio de Janeiro: Record, 1986

** PAES, José Paulo. O pobre diabo no romance brasileiro. In: ________. A aventura literária: ensaios sobre ficção e ficções. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p. 39-61

BG de Hoje

Essa canção me intrigava muito quando eu era garoto. E até hoje me impressiona. Mal necessário, na interpretação de NEY MATOGROSSO.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

"Gracilianas" (II) - Infância



Infância foi publicado pela primeira vez em 1945. Nessa época, Graciliano Ramos já se tornara um escritor experiente, cioso de seu ofício. Arrisco dizer que Infância revela tanta qualidade expressiva, um artesanato (sem ornamentação, porém) tão apurado no uso da palavra escrita e na construção da frase que, nesse aspecto, iguala-se e até supera, nalguns momentos, Vidas Secas. Basta ler certos capítulos, como Um cinturão, por exemplo, e verificar*:

"As minhas primeiras relações com a justiça foram dolorosas e deixaram-me funda impressão. Eu devia ter quatro ou cinco anos, por aí, e figurei na qualidade de réu. Certamente já me haviam feito representar esse papel, mas ninguém me dera a entender que se tratava de julgamento. Batiam-me porque podiam bater-me, e isto era natural".


E também nessa descrição do livro escolar detestado (O Barão de Macaúbas):

"Um grosso volume escuro, cartonagem severa. Nas folhas delgadas, incontáveis, as letras fervilhavam, miúdas, e as ilustrações avultavam num papel brilhante como rasto de lesma ou catarro seco".


Mas o que me atrai mesmo nesse livro extraordinário é o modo como o narrador encara "os tempos de criança". E estes foram doloridos. Marcados pelo medo. Tristes. NOTA 1: Há uma tendência, mais ou menos generalizada mundo afora: olhar para a infância com uma nostalgia carinhosa e idílica ("bons tempos aqueles" ou "eu era feliz e não sabia"). Não há vestígio disso em Graciliano Ramos. Em determinada passagem, o narrador diz ter chegado a si "retalhos de felicidade". Essa sensação, contudo, é elemento escasso na narrativa.

Quais capítulos destacaria? O moleque José, no qual o narrador nos descreve sua vontade de executar, ainda que timidamente, um ato de crueldade; Leitura, sobre sua penosa experiência inicial de alfabetização; e A criança infeliz, que pode ser lido até como um conto autônomo. NOTA 2: O valor que atribuo a Infância não me impede, todavia, de rejeitar a maneira negativa e ofensiva como o escritor geralmente retrata pessoas negras dentro do livro.

No capítulo Um intervalo, o narrador nos fala de um momento de convivência com as filhas de Seu Nuno, moças que tinham a capacidade, segundo ele, de "afirmar o contrário do que desejavam". Elogiavam o "paletó cor de macaco" usado pelo menino, mas, no fundo, zombavam dele: "dissimulavam-se agora num jogo de palavras que encerrava malícia e bondade". O acontecido marcou Graciliano Ramos, que assim termina o capítulo:

"Guardei a lição, conservei longos anos esse paletó. Conformado, avaliei o forro, as dobras e os pospontos das minhas ações cor de macaco. Paciência, tinham de ser assim. Ainda hoje, se fingem tolerar-me um romance, observo-lhe cuidadoso as mangas, as costuras, e vejo-o como ele é realmente: chinfrim e cor de macaco".


A dureza autoavaliativa sempre acompanhou o escritor.

Na próxima semana, falarei do meu livro preferido dentro da obra de Graciliano Ramos: Angústia.
__________
* RAMOS, Graciliano. Infância. 22 ed. Rio de Janeiro: Record, 1986

BG de Hoje

Outro produto artístico que mira a infância com tristeza (horror, pra ser mais exato): a canção Jeremy, do primeiro disco do PEARL JAM.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

"Gracilianas" (I) - Cartas


Há dois escritores brasileiros pelos quais tenho grande admiração (o que não quer dizer que sejam meus preferidos): Lima Barreto e Graciliano Ramos. Já li toda a obra de ambos. Apesar disso, neste blog, só tratei do primeiro autor em duas ocasiões (Nocautes 3 e ...Revolução silenciosa chamada literatura). Ao segundo (mais grave ainda), não dediquei uma postagem sequer. Começo a remediar a falta imperdoável, a partir de hoje, com esta nova série de impressões de leitura, prevista para durar até o dia 12 de dezembro, quando o Besta Quadrada entrará em recesso. E começo com a reunião das Cartas*, que foram dadas à publicação em 1980 por Heloísa Ramos, viúva do escritor alagoano.

Destaco, entre os 112 escritos reunidos nesse volume, a carta 77, cuja data é 3 de abril de 1935. Graciliano Ramos encontrava-se em Maceió, ocupando o cargo de Diretor da Instrução Pública de Alagoas. A carta foi destinada a Heloísa, que, na época, estava no município de Palmeira dos Índios. A essa altura, Caetés e São Bernardo já circulavam nos meios literários.

Ramos relata ter escrito duas correspondências "a dois sujeitos de Minas" (Oscar Mendes e Jaime de Barros, articulistas na imprensa), cujo assunto principal era o livro São Bernardo. Os textos enviados, segundo o escritor, eram "umas cartas literárias, cheias de merda de galinha". E lamenta:

"Eu sou um literato horrível, e só dou para isso. Tenho procurado outras profissões. Tolice. Creio que meu pai e minha mãe me fizeram lendo o Alencar, que era o que havia no tempo deles. O Estado está pegando fogo, o Brasil se esculhamba, o mundo vai para uma guerra dos mil diabos, muito pior que a de 1914 - e eu só penso nos romances que poderão sair dessa fornalha em que vamos entrar".

Em cartas anteriores a essa, destinadas a uma das irmãs, ao pai e ao amigo de toda a vida, J. Pinto da Mota Lima Filho, o escritor havia revelado sua desconfiança e receio quanto a seu talento para persistir na carreira literária. Esses sentimentos não o abandonam, mesmo aos 43 anos, com dois romances publicados e um terceiro (Angústia) em fase final de elaboração.

Mas há um outro ponto essencial dessa carta que demonstra o modo como Graciliano Ramos compreendia a sua condição de escritor:

"Alagoas tem um milhão e duzentos mil habitantes [naquele tempo], mas na minha estatística há apenas uns três indivíduos, uns três e meio, quatro no máximo. Os que fazem política, os que vendem ou compram fazendas, os que plantam algodão e os que fabricam açúcar são de espécie diferente da minha".

Visão semelhante terá o Luís da Silva, personagem central de Angústia. Longe de se colocar num terreno exclusivista, reservado aos artística ou intelectualmente "superiores", Ramos indica, por meio de uma avaliação acerba, o que são os literatos (e, por consequência, o que são todos aqueles envolvidos e interessados pela Literatura):

"Somos uns animais diferentes dos outros, provavelmente inferiores aos outros, duma sensibilidade excessiva, duma vaidade imensa que nos afasta dos que não são doentes como nós. Mesmo os que são doentes, os degenerados que escrevem história fiada, nem sempre nos inspiram simpatia: é necessário que a doença que nos ataca atinja outros com igual intensidade para que vejamos nele um irmão e lhe mostremos as nossas chagas, isto é, os nossos manuscritos, as nossas misérias, que publicamos cauterizadas, alteradas em conformidade com a técnica. Tudo isto é muito pedante e muito besta, mas é continuação das cartas que escrevi ao Oscar Mendes e ao Jaime de Barros. Apenas suponho que esta vai saindo melhor, o que é ridículo".

Ao término da carta, responde à esposa sobre a possibilidade de voltar a viver em Palmeira dos Índios:

"É possível que nos metamos outra vez em Palmeira, que eu compre algodão e venda trapos, mas com certeza hei de comprar e vender muito mal. Comprando algodão ou vendendo fazenda, construindo o terrapleno da lagoa ou entregando os diplomas às normalistas [...], hei de fazer sempre romances. Não dou para outra coisa. Ora aqui [a capital Maceió] há uns dois ou três indivíduos que falam comigo. Aí não há nenhum. Estou, pois, com vontade de ir para Minas, onde há muitos leprosos. Talvez encontre outros doentes como eu".

O escritor, como é sabido, não veio para Minas. Mas certamente encontraria os "doentes" de que fala, caso viesse. "Doentes" como este blogueiro, que leem com dedicação a obra desse autor essencial.

Na próxima postagem, falarei sobre Infância.
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* RAMOS, Graciliano. Cartas. 6 ed. Rio de Janeiro: Record, 1986

[Atualização em 13/10/2016]: Após esta postagem, já escrevi outras três vezes sobre Lima Barreto: aqui, discutindo o romance Recordações do escrivão Isaías Caminha; e aqui e aqui, falando de aspectos biográficos do escritor carioca.

BG de Hoje

Entre tantas maravilhosas canções compostas por PAULINHO DA VIOLA, esta é das minhas prediletas: 14 anos.