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domingo, 28 de agosto de 2011

"Eu sou a vovó do livro": Tatiana Belinky e a leitura como exemplaridade





Meses atrás, postei texto alusivo aos 80 anos de Ruth Rocha, minha forma de homenagear essa representante fundamental da nossa Literatura Infanto-Juvenil

Mas, e Tatiana Belinky (perguntou-me, outro dia, uma ex-colega de trabalho)? A escritora e tradutora - nonagenária! - não merece também reconhecimento? Claro que sim.

Já havia escrito sobre ela (clique aqui), quando tratei do livro autobiográfico Transplante de menina, no qual a autora narra sua infância, desde o nascimento na Rússia até a chegada a São Paulo, na década de 1930. Motivo para uma brincadeira, na entrevista concedida ao Almanaque Brasil de Cultura Popular*(disponível aqui): "Sou mais brasileira do que vocês. Estou no Brasil há 75 anos [a matéria foi publicada em 2004] e vocês não".

Nesta mesma entrevista, ela relata sua progressiva familiaridade com diversos idiomas: o letão e o russo ("heranças" nativas), o alemão, o francês, o inglês e, obviamente, o português. E dispara: "a gente aprende mais lendo do que decorando mesóclises e outras barbaridades".

Conta-nos sua experiência com o teatro infantil e com a (então incipiente) televisão: não custa lembrar que a escritora foi a primeira a roteirizar textos de Monteiro Lobato (na época, para a extinta TV Tupi).

E embora sua produção autoral seja considerável, sempre valorizei mais a imensa contribuição de Tatiana Belinky na área da tradução.

Recordemos, por exemplo, os trabalhos que fez, nos anos 1980, para a Coleção Asa Delta. Em "Causos" russos**, apresentou a muitos leitores brasileiros (a este blogueiro, por exemplo) as historietas humorísticas de Mikhail Zochtchenko. Em Salada russa***, reuniu narrativas breves de autores destacados com Pushkin, Liermontov, Turgueniev, Tolstoi, Tchekhov e Gorki. É também dela a tradução que se encontra no lindíssimo A feira anual de Sorotchinski**** (de Nicolai Gógol), publicado pela Ática.

Mais recentemente, em Um caldeirão de poemas*****, o público infantil pode conhecer textos da própria Tatiana Belinky e outros, de anônimos a autores afamados, como Emily Dickinson, Walt Whitman, Edward Lear, Goethe, Heine, Lewis Carroll... Todos convenientemente vertidos para o português e acompanhados de ótimas ilustrações.

. . . . . .

E antes de encerrar, gostaria de destacar mais um trecho da entrevista acima mencionada. Diante da pergunta "como escrever bem para criança?", Belinky amplia sua resposta e acaba falando sobre algo que julgo indispensável para aqueles que militam no campo da promoção da leitura:

"Precisa expor o livro à criança, expor a criança ao livro. Tem que levá-la à biblioteca; ter livros em casa; ler para ela; ela ver a gente lendo. Nunca vi meus pais sem livro na mão [...]. Eu sou a vovó do livro. Quero que me vejam com o livro na mão". [grifos meus]

As ações de promoção da leitura e aquelas que intentam contribuir para a formação do leitor não serão bem sucedidas, penso eu, enquanto os agentes - professores, bibliotecários, pais e mães, etc. - não se tornarem referências, modelos ou exemplos de leitores para os sujeitos com os quais convivem, interagem e/ou trabalham.

* "Precisa expor o livro à criança, expor a criança ao livro". Almanaque Brasil de Cultura Popular, São Paulo, Ano 6, v. 64, jul. 2004, p. 20-24

** ZOCHTCHENKO, Mikhail M. "Causos" russos. 2 ed. São Paulo: Paulinas, 1988 [tradução de Tatiana Belinky] (Coleção Asa Delta)

*** TOLSTOI, Leon et al. Salada russa. 3 ed. São Paulo: Paulus 1988 [tradução de Tatiana Belinky] (Coleção Asa Delta)

**** Um caldeirão de poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 2003 [poemas traduzidos, adaptados ou escritos por Tatiana Belinky]

***** GÓGOL, Nicolai. A feira de Sorotchinski. 2 ed. São Paulo: Ática, 1993 [Adaptado por Sybil G. Schönfeldt e traduzido por Tatiana Belinky]

BG de Hoje

Milagres do povo, de CAETANO VELOSO, inicia-se com um verso antitético: "Quem é ateu e viu milagres como eu". Canção forte, tratando de aspectos caros à negritude brasileira, seja ela religiosa ou não (como é meu caso): "Quem descobriu o Brasil?/ Foi o negro que viu a crueldade bem de frente/ e ainda produziu milagres de fé no extremo ocidente" . OBS: O vídeo foi extraído do saudoso programa Chico e Caetano.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Reencontro



Retomo a série de postagens anterior mais adiante. É que nesta semana li dois livros fascinantes e não poderia deixar de comentá-los.

A leitura destes textos significou também meu reencontro com a Literatura Infantil e Juvenil. Com a mudança de local de trabalho e todos os inconvenientes decorrentes, não tive tempo para me dedicar a esse gênero que prezo tanto e que é essencial para minha prática profissional diária. Quando "a poeira baixar", tenho esperança de retomar minhas atividades, voltadas para a promoção da leitura e a formação de leitores, interrompidas de forma tão tola e melancólica. Mas vamos aos livros.

O primeiro é Kafka e a boneca viajante*, do espanhol Jordi Sierra i Fabra (Editora Martins, 2008). É simplesmente sensacional o ponto de partida da história.

A última companheira de Franz Kafka, Dora Dymant, relatara que o escritor, um ano antes de morrer, decidiu elaborar uma série de cartas para consolar uma garotinha que havia perdido sua boneca num parque de Berlim. Essas cartas nunca foram encontradas. Sierra e Fabra, então, resolveu imaginá-las, bem como narrar de que modo teria se dado o encontro e a convivência de Kafka com essa menina. O escritor espanhol ficou seduzido pela situação, como escreve no posfácio de seu livro: "uma obra de Kafka exclusiva para uma só pessoa, uma menina".

Em Kafka e a boneca viajante, lemos que o que motivou o escritor tcheco a produzir aquelas cartas imaginárias era muito sério: "estava em jogo uma esperança". Para o autor, "as crianças são um completo mistério, seres de alta periculosidade, um conjunto de risadas e lágrimas alternadas, nervos e energia à flor da pele, perguntas sem fim e exaustão absoluta". Ainda assim, "a relação de uma menina com sua boneca é das mais fortes do universo. Uma força descomunal, movida por uma tremenda energia". É tocante!

O outro livro "descoberto" esta semana foi Transplante de menina** (Editora Uno Educação, 2008), de autoria da escritora, tradutora e roteirista Tatiana Belinky, esse fenômeno da nossa Literatura Infantil. Nesta obra autobiográfica, Belinky fala de sua infância na cidade de Riga (Letônia) até os 10 anos, quando, junto com os pais e os irmãos menores, emigra para o Brasil, no final da década de 1920.

Transplante de menina fala de certos "tipos" de infância, bastante diferentes das nossas (e um pouco similares, às vezes), na Europa do início do século XX e também em São Paulo, quando essa cidade ainda não tinha se tornado a megalópole que é hoje.

Há passagens notáveis em todo o livro; destaco aqui uma delas. A menina Tatiana, na Letônia, comia bananas muito raramente. Fruta cara e exótica, tinha que ser importada para o longínquo e frio pais báltico. Ela achava que a fruta nascia unitariamente, numa árvore desconhecida. Ao chegar ao Brasil, conta sua primeira grande impressão:

"No entanto, o que me impressionou mesmo, quase me assustou, ninguém pode imaginar. Foi um... não riam! Um cacho de bananas! Isso mesmo: um grande cacho de bananas. mais alto que eu, parado muito tranquilo lá no cais, como que zombando do meu espanto ao ver aquela fartura, aquele despropósito de bananas!".

Volto a O mal-estar na civilização na próxima semana.

__________
* SIERRA i FABRA, Jordi. Kafka e a boneca viajante. São Paulo: Martins, 2008 [tradução de Rubia Prates Goldoni e ilustrações de Pep Montserrat]

** BELINKY, Tatiana. Transplante de menina. São Paulo: Uno Educação, 2008 [ilustrações de Claudia Scatamacchia]