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sexta-feira, 19 de setembro de 2025

A apreciação do texto literário

 

Quando se usa a expressão  crítica literária  numa conversa em que filigranas conceituais podem ser deixadas de lado, qual é o entendimento desse termo? O que é, para que serve, como fazê-la?

Nessa conversa hipotética, pode-se dizer, sem rodeios, que crítica literária é a opinião de alguém, conhecedor(a) de literatura - assim se supõe -, sobre um (ou vários) texto(s) literário(s). 

Não acho uma definição das piores. É simples e compreensível. 

Prosseguindo o bate-papo, poder-se-ia acrescentar que essa opinião geralmente busca enfatizar o  valor  (isto é, supostas qualidades e méritos) do(s) texto(s) criticado(s) ou apontar seus supostos defeitos e falhas, se assim decidir a pessoa que assina/profere a crítica, pois, na maior parte das vezes, essa opinião é enunciada publicamente. Espera-se, portanto, que a crítica sirva como orientação, incentivo ou advertência para outros leitores.

Vamos complicar um pouquinho mais as coisas.

Por que deveríamos aceitar a legitimidade do indivíduo que faz a crítica? Por que a sua opinião deveria ser levada mais em conta do que outras? 

Como foi dito acima, presumem-se um conhecimento especializado ou um olhar de estudioso por parte da pessoa que faz a crítica. Atualmente, é muito provável que esse conhecimento ou esse olhar advenham de formações e cursos no âmbito universitário/acadêmico. Mas podem ser também o resultado da experiência acumulada em muitos e muitos anos de leituras particulares - um fecundo diletantismo, nesse caso. Bastante frequente, há ainda os escritores e as escritoras que, paralelamente a seu trabalho de criação artística, dedicam uma parte de seu tempo à análise de outras produções literárias (recentemente, para exemplificação, li um ensaio sensacional de Thomas Pynchon, publicado há cerca de 20 anos sobre o  1984,  de Orwell). De uma maneira ou de outra, não teríamos motivo para não atestar a competência da pessoa que faz a crítica nessas situações.

Por aí se percebe que há opiniões e opiniões, isto é, algumas delas seriam mais fundamentadas, teriam mais tutano, mais "sustança", do que outras.

Não faz muito tempo, estava lendo os textos de Umberto Eco reunidos em  A definição de arte.  Escritas entre o final dos anos 1950 e início da década ulterior, as reflexões, apesar do título do volume, voltam-se mais para a discussão de concepções estéticas do que para a formulação de um conceito cabal de arte (a noção de  obra aberta , fundamental dentro do pensamento do filósofo e escritor italiano, é uma dessas concepções). No ensaio  Notas sobre os limites da estética ¹, ele observa: 

[...] a ação do crítico (entendido aqui como intérprete qualificado, como fruidor por excelência) consiste precisa e substancialmente em narrar uma experiência de compreensão, a experiência de um encontro em que jogam as tendências pessoais e a realidade objetiva da obra compostos num ato vital de interrogativas e confrontos, de adesões instintivas e carregadas de valor heurístico e de repulsas que devem ser avaliadas e revistas à luz dos passos já dados e dos elementos objetivos que temos diante de nós".

A pessoa que faz a crítica, por mais intelectualmente equipada que esteja, não deixará (na verdade, não pode deixar) de lado sua subjetividade ( tendências pessoais ) durante o "diagnóstico": sua apreciação ampla, seu esforço de entendimento a partir do objeto examinado (poema, conto, romance, etc., pois estamos falando de crítica literária nesse caso) dependem tanto daquilo que está de fato contido nos textos (os elementos objetivos ) quanto de seu repertório cultural e de suas inclinações particulares (em grande parte das vezes, são essas últimas que impulsionam a análise).

Para Eco, "a obra de arte constitui um fato comunicativo que pede que seja  interpretado  e, portanto, integrado, completado por um aporte do fruidor, aporte este que varia conforme os indivíduos e as situações históricas e que é constantemente medido em referência àquele parâmetro imutável que é a obra enquanto objeto físico".  Cabe dizer aqui (como fora enfatizado pelo autor italiano noutras oportunidades, em escritos posteriores) que existem limites para o alcance do olhar do fruidor. Por vezes, alguns intérpretes atribuem certos significados e traços a uma obra que não encontram sustentação em sua base material (no caso da literatura, essa base é o texto em si) e elementos paratextuais (como a biografia do/a escritor/a ou a observação do período histórico em que a obra foi gestada, por exemplo), que poderiam ser invocados em apoio, não dão conta de corroborar aquilo que está a ser a atribuído. Nem toda interpretação é válida: leituras muito afastadas (às vezes inteiramente desvinculadas) do objeto examinado em nada auxiliam na melhor compreensão deste, obviamente.

Assentindo com o filósofo Enzo Paci, Umberto Eco vai afirmar que "um crítico não diz dogmaticamente 'isto é belo - isto é feio', mas conta (com rigor e acuidade) a sua experiência de interpretação, pedindo a concordância de todos, fruidores mais ou menos qualificados, que enfrentam o mesmo esforço de compreensão". Antes, ele já havia escrito que "diante de uma obra de arte, o mais importante é um processo de interpretação: aquilo que importa é uma compreensão crítica, não um juízo de valor expresso em termos dogmáticos e simplistas".

É de se notar que o próprio Eco não foi exatamente um crítico literário. No texto que fecha o livro -  Um balanço metodológico ² -, ele declara : "Antes de definir minha dívida para com a crítica anglo-saxônica, devo precisar alguns pontos. Antes de tudo, não desenvolvo uma atividade crítica no sentido corrente do termo: burocraticamente falando, pertenço ao  genus  dos filósofos e dedico-me à estética". Sendo um estudioso dos modelos estruturais das várias poéticas, reconhece, contudo, que os resultados de parte de seu trabalho "podem ser utilizados como contribuição à compreensão crítica de uma obra ou de um autor". Ao final desse ensaio, o autor registra uma importante argumentação a respeito da necessidade de evitar as apreciações de caráter taxativo sem deixar, contudo, de se estabelecer um posicionamento diante da obra: 

"Minha definição da arte, como forma na qual os valores (o  antes  que está na origem da obra e o  depois  ao qual se dirige a obra) só se resolvem em estrutura e se tornam importantes na medida em que essa estrutura tenha valores próprios, prevê também que uma obra de arte pode transmitir um universo de valores que julgo negativos. Mas essa ordem que assumiram na forma artística poderá, por um lado, ajudar-me a estabelecer relação com eles na base de uma simpatia e de uma compreensão mais profundas. Por outro lado, é possível que diante da obra eu compreenda os valores que ela comunica e que, ainda assim, não aceite. Nesse caso, posso discutir uma obra no plano político e moral e posso rejeitá-la, contestá-la, justamente porque é uma obra de arte. Isso significa que a Arte não é o Absoluto, mas uma forma de atividade que estabelece uma relação dialética com as outras atividades, outros interesses, outros valores. Diante dela, na medida em que reconheço a obra como válida, posso operar minhas escolhas, eleger meus mestres. A tarefa do crítico pode ser também e especialmente esta: um convite a escolher e a discernir. Cada um de nós, lendo uma obra literária, ainda que professe os critérios técnico-estruturais aqui expostos, deve e pode encontrar uma relação emocional e intelectual, descobrir uma visão do mundo e do homem. É justo que existam pessoas com a sensibilidade mais apurada que nos comuniquem as suas experiências de leitura que possam se tornar nossas também".

Começamos por uma definição simples do que seria a crítica literária ( a emissão de opiniões sobre obras literárias por parte de um conhededor ). Nessa altura da postagem, contudo, a partir das observações de Umberto Eco,  verificamos que o ofício consiste (ou pelo menos deveria consistir) em realizar, com o maior zelo possível, uma  interpretação  da criação artística que se está a observar, ultrapassando os comentários superficiais derivados de uma avaliação por demais terminante.

O tópico  literatura  sempre foi preponderante neste blog e nos outros dois que o antecederam. Mas nunca me dispus a escrever resenhas de livros, muito menos me atrevi a fazer crítica literária em nenhum deles. Assim sendo, que diabos acontece aqui no  Besta Quadrada  quando o assunto é um poema, um conto, um romance?

Antes de responder, gostaria de trazer para essa conversa um pequeno artigo de José Castello, publicado no jornal  Rascunho,  em agosto de 2011 ³ , cujo título é a indagação  A crítica literária existe?

Em seu texto, procurando designar a quem poderia caber a tarefa da crítica, Castello aponta uma distinção entre os teóricos da universidade, "que fazem percursos rigorosos, se submetem a leituras metódicas e se filiam a essa ou àquela nobre corrente de pensamento", e os resenhistas da imprensa (em sua maioria jornalistas de profissão), "igualmente respeitáveis, escrevendo desde a perspectiva da 'não-especialização'. Mais ensaístas do que teóricos", oferecendo textos mais informativos do que reflexivos. Ele não deixa de assinalar que alguns integrantes dos quadros acadêmicos por vezes escrevem na imprensa, em páginas eventualmente reservadas para tratar das produções literárias, mas os jornalistas, naturalmente, são a imensa maioria no setor. Diferentemente dos professores e pesquisadores universitários, os jornalistas (e ele faz parte desse segmento) "não temos compromisso algum com tradições teóricas, com sistemas, com conceitos. Escolhemos nossos livros estimulados pelas ofertas do mercado, pelas modas e ainda pelo apreço à surpresa; e não empurrados por esse ou aquele percurso intelectual".

O articulista se pergunta: no Brasil atual, teóricos da universidade e resenhistas da imprensa estão fazendo crítica literária? 

Sua resposta é não, pois, segundo ele (reconhecendo a vulnerabilidade de seu posicionamento), esse exercício deixou de existir.

Anteriormente em seu artigo, José Castello mencionara críticos importantes do passado (Álvaro Lins, Otto Maria Carpeaux, Sérgio Milliet, Wilson Martins) e desfecha: "Homens do século 20. Posso concluir: crítica literária, atividade do século 20 também". O trabalho de Antonio Candido também fora lembrado, como sendo o pioneiro no Brasil a levar a crítica literária, que era feita somente nos jornais (e, devido à ótica não-especializada do colunista de jornal, muitas vezes incorria num julgamento excessivamente apaixonado),  para dentro das salas das universidades. A partir da criação dos cursos específicos de Letras no país (aqui em Belo Horizonte, no ano de 1940, ainda dentro da Escola Livre de Filosofia e Ciências, mais tarde incorporada à instituição que se tornaria a UFMG), abre-se espaço para o surgimento de disciplinas afeitas à atuação do crítico.  Silviano Santiago, Leyla Perrone-Moisés, Antonio Carlos Secchin são alguns dos exemplos de grandes teóricos e críticos literários egressos das faculdades de Letras citados no artigo, o que não é suficiente para Castello  consentir  com a adequação da expressão  crítica literária  como um termo pertinente para se referir "ao trabalho severo"   desenvolvido dentro do meio universitário relacionado à literatura.

E quanto à atuação de jornalistas, como ele, que escrevem sobre o assunto? No seu caso, o articulista diz narrar suas "impressões, [falar] dos pensamentos que a leitura despertou, das associações que [esta] motivou, dos livros que [esta o] levou a reler",  dentro das colunas que publica (na época desse artigo, ele escrevia no hoje extinto caderno Prosa & Verso, do Globo ). O trabalho resultante seria um gênero textual "híbrido - que nem é resenha, nem é teoria, tampouco é crítica literária também"  (Castello se descreve como um cronista).

Ele especula que a expressão  crítica literária  é atualmente empregada mais para intimidar do que propiciar acolhimento. E que isso talvez "desperte mais suspeitas do que confiança".  Seu texto termina assim:

"Declarar-se crítico literário é, quem sabe, pretender uma autoridade que, hoje, ninguém mais tem. Se o crítico não é um juiz que aprova ou desaprova, se ele não é um especialista em aferição de qualidades, se não é um severo inspetor de 'boa escrita', como eu penso que ele não é, o que sobra para o crítico? Sobra ser um leitor. Um leitor comum, para quem a paixão dá sempre a última palavra".

Levanta-se uma boa questão nesse artigo, mas não consigo concordar com ele. 

Admito não me lembrar agora de ninguém, na grande imprensa empresarial atual, que se destaque como crítico ou como resenhista (deve-se mencionar também que suplementos, seções especiais ou áreas destacadas nos sites abordando produções literárias são uma raridade hoje em dia nos grandes jornais brasileiros). Por seu turno, o "trabalho severo" dos teóricos universitários não costuma alcançar grande receptividade fora do ambiente acadêmico (por uma série de fatores, sobre os quais talvez valha a pena discutirmos noutra oportunidade). E acho que José Castelo está correto ao recusar a figura do crítico como um avaliador implacável, cravando etiquetas a torto e a direito.

Entretanto, a meu ver, a crítica literária não deixou de existir. Além disso, não sei se dá para denominar uma parcela importante das pessoas que se dedicam a esta atividade como  leitores comuns.

Preciso também fazer agora uma distinção (parecida com a de Castello) entre o que vou chamar de  comentários genéricos (sobre literatura) e  abordagem universitária (da literatura)  :  a diferenciação é apenas para facilitar aquilo que pretendo expor na sequência. 

Por comentários genéricos, entendo as (poucas) notas ou matérias publicadas na imprensa hegemônica  (no formato impresso ou na internet), em sua maioria assinadas por jornalistas, tratando de livros lançados recentemente ou recuperando escritos publicados há mais tempo (incluindo obras canônicas), geralmente com o objetivo de enaltecer ou (com menor ocorrência) detratar o(s) volume(s) em questão ou seus(suas) autores(as). Importante dizer que a internet, como não poderia deixar de ser, facilita muito a disseminação desse tipo de avaliação, sem que esta necessite estar atrelada a um veículo jornalístico: muitos dos vídeos feitos pelos chamados  booktubers  e  booktokers  (sendo estes e estas jornalistas ou não) também são exemplos desses comentários genéricos. O público-alvo de opiniões assim está buscando um ponto de vista mais direto para orientar suas escolhas (às vezes, querendo saber simplesmente se um tal ou qual livro seria  bom  ou  ruim  de acordo com o comentarista) ou apenas manter-se informado. Parte significativa do público considera e se refere a esses comentários como um tipo de crítica literária (e gosta de saber qual a nota ou a quantidade de estrelas que determinado livro recebeu).

abordagem acadêmica, como não poderia deixar de ser, segue os ritos da produção textual universitária, com a terminologia e o rigor próprios dos especialistas. Nesse enfoque, as obras literárias costumam suscitar  pesquisas : por essa e por outras razões, espera-se maior profundidade neste tipo de análise. Esses estudos aparecem em artigos publicados em periódicos vinculados a universidades e outras instituições de ensino superior (naturalmente, a depender do fôlego da investigação, aparecem também na forma de dissertações extensas ou teses). Não estou certo se o público em geral entende os textos da abordagem acadêmica como uma forma de crítica literária, uma vez que os critérios qualitativos nesse enfoque são expressos de forma diversa dos comentários genéricos e são pouco familiares para a maioria das pessoas.

É claro que essa divisão não dá conta de todas as iniciativas circulantes por aí cujo assunto seja a literatura. Há, entre outras, as crônicas, como as do próprio José Castello; dicas sucintas, como as que aparecem na sessão Favoritos, do jornal  Nexo ; coletâneas de ensaios (muitos deles tendo como autores professores e pesquisadores universitários); além de matérias, resenhas e  avaliações publicadas em veículos inteiramente dedicados à produção literária ou ao mundo livresco, como o já citado  Rascunho  e a revista  Quatro Cinco Um.

Recuperando a definição lá do início da postagem, a noção de crítica literária como apenas a emissão de uma opinião/avaliação sobre obras de literatura com o objetivo de apontar o que seria  bom  e o que seria  ruim, a meu ver, ainda está disseminada entre muitas pessoas. Em complemento, diversos indivíduos - alguns mais habilitados e treinados do que outros - continuam a se dispor a emitir essas opiniões, enquanto outros dedicam-se à tarefa da interpretação de obras literárias, sem pretender serem taxativos na avaliação, mas ainda assim emitindo um ponto de vista a respeito delas. A meu ver, sobretudo no caso dos que se empenham em realizar a melhor interpretação de que sejam capazes, existem pessoas produzindo crítica literária, em especial por meio da abordagem acadêmica.

A professora da UnB Regina Dalgastagnè, pesquisadora inserida no meio acadêmico e que, até onde sei, não rejeita ser identificada também como crítica literária, publicou um artigo em 2018 que acrescentará muito à nossa discussão. Na introdução de  A crítica literária em periódicos brasileiros contemporâneos: uma aproximação inicial   (disponível aqui), a autora vale-se da noção de  campo,  tal como definida por Pierre Bourdieu ( "um espaço estruturado e hierarquizado de disputas entre agentes que interiorizam um conjunto de práticas e interesses" ), para aplicá-la na literatura. Se assim for, 

"então é preciso reconhecer que o que está em jogo nesse campo é a possibilidade de consagração, que assume a forma do reconhecimento pelos pares. Escritores ou editores podem ser sensíveis a incentivos de mercado ou a outras vantagens materiais, mas, enquanto integrantes do campo literário, o que os move é a busca desse reconhecimento, que não é necessariamente o do grande público de leitores comuns. É o reconhecimento oferecido pelos demais integrantes do campo literário".

Os professores e pesquisadores universitários da área da literatura ocupariam, dentro desse campo, uma  "posição singular",  segundo Dalcastagnè. Escreve ela: "Envolvidos também em disputas por reconhecimento entre si, nós somos agentes importantes na legitimação de autores/as e obras, o que fazemos ao incluí-los no corpus de nossas disciplinas, ao orientar dissertações e teses e também ao dedicar a eles nosso esforço de pesquisa, que resulta em trabalhos apresentados em eventos acadêmicos, em livros e, especialmente, em artigos publicados em periódicos científicos".

Se a intervenção dos professores e pesquisadores consegue alterar o modo como olhamos para o cânone vigente (resgatando ou rejeitando autores/as e obras do passado), a análise da academia tem ainda mais impacto em relação ao que se publica contemporaneamente. "Para obras que ainda não possuem um lastro de crítica e camadas de interpretação acumuladas, a atenção oferecida pelos acadêmicos representa um capital importante",  afirma a autora.

O levantamento apresentado no artigo extraiu seus dados e informações de textos críticos/analíticos, abordando especialmente criações literárias brasileiras contemporâneas (dos anos 1970 em diante), que constam em nove periódicos acadêmicos nacionais classificados entre os de maior qualidade. 

Destacando alguns dos resultados: 

  • Constatou-se que a maioria dos textos críticos foram elaborados por mulheres, embora o número de escritoras analisadas seja bem menor que o dos escritores (nas referências bibliográficas para fundamentação teórica desses mesmos textos críticos, mulheres também são menos citadas do que homens).
  • Em termos de gênero textual, o romance é muito mais discutido do que o conto, poemas ou a crônica. A pesquisadora observa que  "no campo literário e mesmo no mercado editorial brasileiro das últimas décadas, o romance é considerado o gênero literário por excelência, quase que exigindo dos autores/as sua adesão para que possam ser, efetivamente, chamados de escritores/as". Não se deixou de notar a escassez de estudos críticos sobre literatura infantojuvenil entre pesquisadores da área de Letras, lacuna essa talvez resultante de um certo desprezo/preconceito, por parte dos estudiosos e também dos editores dos periódicos, em relação aos livros destinados a crianças e adolescentes.
  •  A grande maioria dos trabalhos foca em um(a) único(a) autor(a) ou em um único livro, ou seja, há bem menos estudos comparativos (que se valem de pelo menos dois autores ou de dois livros diferentes) e panorâmicos (que cobrem vários autores e livros na mesma empreitada).
  •  Os estudos enfocando somente o objeto (somente o texto da obra literária abordada), sem a incorporação de perspectivas sociológicas, antropológicas, históricas, filosóficas, psicanalíticas, etc. são minoritários.

Em sua conclusão, Regina Dalcastagnè lembra que o levantamento pede a complementação de outros e observa que muitos pesquisadores iniciantes, ingressando agora na etapa da pós-graduação e egressos de esferas sociais diversas, podem estar apontando outros rumos para a abordagem acadêmica, algo que o levantamento não conseguiu captar, pois os periódicos quase nunca publicam quem ainda não atingiu o pico da carreira universitária. Ela ainda acrescenta: "Também o catálogo de livros acadêmicos da área deveria ser observado. No Brasil, embora a avaliação de cursos  e currículos supervalorize a publicação de artigos em revistas mais bem conceituadas, é comum que estudantes e pesquisadores busquem suas referências principais nos livros, entendidos como espaço de consolidação de ideias"

O que não falta, portanto, é gente séria e perita na matéria, principalmente mulheres, fazendo crítica literária. E posso dizer agora, sem qualquer receio, que ela não é realizada por leitoras e leitores comuns.

Não estou, veja bem, alegando que os(as) críticos(as) literários(as)  - entenda-se, aqueles(as) vinculados(as) ao mundo universitário - são seres dotados de uma sabedoria inquestionável, acessível e destinada exclusivamente a eles/elas, restando a nós, os leitores incultos e apalermados, o silêncio somente. Estou dizendo é que as pessoas dedicadas à crítica adquiriram uma capacidade de observação e interpelação dos textos (graças a seu empenho e prática como estudiosos especializados, ressalte-se) que a maioria dos outros apreciadores de literatura (este blogueiro incluso) não conseguiu alcançar, pelos mais variados motivos.

Voltando à pergunta não respondida parágrafos acima: se não sou crítico literário, nem resenhista,  que diabos acontece aqui no  Besta Quadrada  quando o assunto é um poema, um conto, um romance 

Tento comunicar impressões de leitura.  É isso o que acontece apenas. Nesse ponto, creio (guardadas as devidas proporções) não diferir muito de José Castello e outros (não me incomodaria, vale dizer, ser visto também como um comentarista genérico de literatura ) . Seria um atrevimento sem tamanho pretender que essas comunicações inconsistentes e erráticas publicadas aqui (mesmo pondo sinceridade e entusiasmo em boa parte delas) possam equiparar-se a elaborados pareceres críticos.

Ao comunicar essas impressões, não recebo qualquer retorno. É bem desanimador, para ser franco. Mas, apesar de tudo, me sinto melhor quando escrevo uma postagem sobre um texto literário que me afeta de alguma forma. Se leio algo, quero falar sobre isso. E como é dificílimo para mim encontrar interlocutores, lanço aqui no blog. 

Tem valido a pena, apesar de tudo.

____________________ 

¹ ECO, Umberto. Notas sobre os limites da estética. In:___________. A definição de arte. Rio de Janeiro: Record, 2016. p. 49-62 [Tradução de Eliana Aguiar]

² ECO, Umberto. Um balanço metodológico. In: ____________. A definição de arte. Rio de Janeiro: Record, 2016. p. 266-272 [Tradução de Eliana Aguiar] 

³ CASTELLO, José. A crítica literária existe? Rascunho. Curitiba, ago. 2011. Disponível em <https://rascunho.com.br/colunistas/a-literatura-na-poltrona/a-critica-literaria-existe/>. Acesso em 11/08/2025. O artigo também fora publicado n'  O Globo,  jornal em que o autor era colunista.

DALCASTAGNÈ, Regina (2018). A crítica literária em periódicos brasileiros contemporâneos: uma aproximação inicial. Estudos De Literatura Brasileira Contemporânea, (54), 195–209. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/10.1590/2316-40185411>. Acesso em 15/08/2025

BG de Hoje

Não parece ser uma escolha das mais brilhantes pegar uma canção conhecidíssima e reapresentá-la. Para além das comparações com a original, talvez exista uma saturação junto ao público, sobretudo quando se trata de um dos hits de uma banda lendária (no caso, os BEATLES). Entretanto, quando ouvi essa performance  stripped-down  de Eleanor Rigby,  adorei. E o jeito de cantar de dodie casou muito bem com a canção.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Falou e disse...

"A filosofia de Bertrand Russell não engendrou tantas interpretações quanto a de Heidegger. Por quê? Porque Russell é particularmente claro e inteligível, ao passo que Heidegger é obscuro. Não estou dizendo que um tinha razão e o outro estava errado. Da minha parte, desconfio de ambos. Mas quando Russell diz uma besteira, ele a diz de maneira clara, enquanto Heidegger, mesmo quando diz um clichê, temos dificuldade para percebê-lo. Portanto, passando à história, para durar mais é preciso ser obscuro. Heráclito já sabia disso..." *

* Umberto ECO in CARRIÈRE, Jean-Claude; ECO, Umberto. Não contem com o fim do livro. Rio de Janeiro: Record. 2010. p. 149 [Tradução de André Telles]


quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Livro: entre o poder simbólico e a obsolescência (I)


Há uma conhecida praça em Berlim chamada Bebelplatz*. O local é usado às vezes para eventos públicos e manifestações políticas. Também é muito procurado por turistas. Muitas dessas pessoas, lá chegando, põem-se a olhar para um recorte quadrado no chão, coberto por vidro resistente. Trata-se de um monumento, colocado no subsolo, intitulado (Versunkene) Bibliothek ["Biblioteca (afundada)", em português].

Concebido pelo artista plástico israelense Micha Ullman e inaugurado em março de 1995, Bibliothek é um memorial que faz referência à queima de aproximadamente 20.000 livros, ocorrida naquela mesma praça, em 10 de maio de 1933. Integrantes da Liga de Estudantes Nazistas, grupos da Juventude Hitlerista e membros da SS, espicaçados pelo discurso de Joseph Goebbels (o ministro da Propaganda do governo de Hitler), foram os responsáveis por essa ação bárbara e estúpida.

O monumento é constituído, basicamente, por estantes vazias, em cujo espaço poderiam caber os vinte milhares de livros queimados pelos nazistas. Na placa do memorial foram reproduzidos versos do escritor Heinrich Heine: "Das war ein Vorspiel nur, dort wo man Bücher verbrennt, verbrennt man am Ende auch Menschen" ("Isso foi apenas um prelúdio: onde se queimam livros, no final irão também queimar pessoas", seria o sentido aproximado em português).

Nessa mesma Bebelplatz, durante a Copa do Mundo de 2006, ficou em exibição uma escultura de 12 metros de altura intitulada Der moderne Buchdruk ("A moderna tipografia" ou "A moderna impressão", em português). É a sua imagem, ali no alto, que ilustra esta postagem. A obra fazia parte do projeto Terra de Ideias, cujo objetivo era destacar a contribuição dos alemães em determinadas áreas**. Além dos pensadores e literatos incluídos nas lombadas da pilha de livros, Der moderne Buchdruk nos remete, implicitamente, a Johannes Gutenberg, o "pai" da imprensa moderna.

A meu ver, tanto a (Versunkene) Bibliothek quanto a  Der moderne Buchdruk representam, inequivocamente, o (ainda) prestigioso lugar ocupado pelo livro em nossas sociedades, enquanto objeto-símbolo do saber. No primeiro caso, os livros (e o conhecimento contido nestes) foram considerados inimigos de um regime político iníquo. No segundo, os livros (e as ideias e/ou recursos artísticos contidos nestes) atingiram tamanha envergadura que influenciaram não só uma nação, mas boa parte da cultura ocidental.

Entretanto, todos já ouvimos que tais objetos em breve irão desaparecer. Ou, talvez, na melhor das hipóteses, "amanhã, os livros podem vir a interessar apenas a um punhado de irredutíveis que irão saciar sua curiosidade nostálgica em museus e bibliotecas", como especulou Umberto  Eco, poucos anos atrás, de maneira descompromissada, em Não contem com o fim do livro***. Seja como for, eles permanecem, por enquanto, disponíveis para uma imensa quantidade de gente.

Gostaria - com a permissão do(a) eventual leitor(a) - relatar uma situação rotineira em meu ambiente de trabalho que vai ao encontro do que estou dizendo a respeito do poder simbólico conservado (até quando?) pelos livros.

Vários estudantes (crianças e adolescentes), ao entrar na biblioteca, procuram por aquilo que eles próprios chamam de "livros grandes". E o que seriam esses "livros grandes"? Publicações com centenas de páginas, não ilustradas, preferencialmente encadernadas em capa dura e exibindo um ar de antiguidade. Qual o motivo para esse tipo de demanda entre indivíduos que, na maioria das vezes, não detêm sequer os rudimentos da alfabetização?

Perguntando aqui e ali, acabo achando a resposta. Esses estudantes querem apenas simular maior inteligência ou exibir um acervo de conhecimentos mais amplo do que de fato possuem. E ter em mãos um catatau repleto de folhas escritas é um bom ardil - mesmo que não se compreenda nenhum de seus parágrafos ou que a obra em questão seja uma rematada bobagem. Para ser justo, conheço também muitos adultos que lançam mão do mesmo estratagema.

Reconheço que a leitura (em seu sentido mais profundo, imersivo, como já discuti aqui) é uma atividade exercida, de maneira contínua, por uma minoria apenas; porém, todo o restante da sociedade (inclusive parte do imenso grupo dos não-leitores) ainda reconhece no livro, de forma positiva, um receptáculo de sabedoria.

Os questionamentos, contudo, não cessam.

Os novos suportes e tecnologias de informação que condenaram o livro à obsolescência conseguem proporcionar a mesma qualidade de interação entre texto e leitor da era pré-eletrônica/digital? Se o livro simboliza uma parte importante da cultura e da civilização, a dissipação deste implicará um declínio de determinados valores culturais e civilizacionais? O fim do livro - se é que isto vai acontecer no futuro imediato - deixará um certo tipo de leitor (como este blogueiro) desamparado?

Tratarei disso noutra ocasião.

* A praça, antigamente, era conhecida como Opernplatz

** Todas as seis obras desse projeto foram realizadas pela empresa alemã EDAG

*** CARRIÉRE, Jean-Claude; ECO, Umberto. Não contem com o fim do livro. Rio de Janeiro: Record, 2010 [Tradução de André Telles] 

BG de Hoje

Claro que considero PAULA LIMA uma cantora de primeira. Mas não posso deixar de dizer: como é linda! Feita a declaração, vamos à música: Cuidar de mim, composição de Seu Jorge, Gabriel Moura e Rogê.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

O som e a fúria: desafio ao leitor


Percorri 14 páginas. Parei, desconfortável. Insisti mais tarde, antes de dormir. Outras vinte páginas adiante, a mesma desoladora sensação de derrota.  "Não vou ler essa chateação" ,  disse pra mim mesmo. Entretanto, duas semanas depois recomecei, teimosamente. A fluidez de leitura não seu deu, mas pelo menos o texto - dois terços agora avançados -  já não me parecia tão desnorteante.

Foi essa a experiência inicial pela qual passei ao decidir ler  O som e a fúria,  de William Faulkner* (escritor não muito frequentado por este blog, mas cujo livro,  Santuário, já foi discutido aqui).

Imergir no decadente e doentio mundo da família Compson foi uma empreitada carregada de obstáculos; trata-se de um romance que estabelece um pacto de leitura desafiador àquele que o lê, pois caso este intente chegar às diversas camadas de significação da obra, precisa dedicar atenção total a ela. Uma das dificuldades (a mais evidente, talvez, ao primeiro contato) está na polifonia narrativa e na técnica do  stream of consciouness (ou  fluxo de consciência ) empregada pelo autor norte-americano. A propósito: trabalho de vanguarda,  O som e a fúria,  publicado em 1929, provavelmente não foi influenciado pelo  Ulisses,  de James Joyce (surgido antes na mesma década)**. Mas não é desarrazoado ver um parentesco entre ambos, como obras representativas do início do modernismo literário.

São quatro diferentes focos narrativos, correspondentes às quatro seções em que se divide o livro.

Na primeira dessas partes somos jogados dentro do confuso psiquismo de Benjamin, um deficiente mental incapaz de falar, descrito muitas páginas adiante como

[...] um homenzarrão que parecia feito de alguma substância cujas partículas não aderissem umas às outras nem à estrutura que a sustentava. Sua pele parecia morta e lisa; hidrópico, caminhava com um passo trôpego, como se fosse um urso treinado".

A voz que se "ouve" na segunda seção pertence ao atormentado Quentin. Peço ao(à) eventual leitor(a) a consideração do excerto abaixo. Antes, porém, uma breve contextualização. Quentin entrara numa relojoaria, dando a entender que queria consertar um objeto quebrado por ele mesmo. Após conversar com o relojoeiro, ele pensa:

"Saí, fechando a porta, ouvindo os tique-taques todos. Olhei para trás, para a vitrine. Ele [o dono da loja] me observava detrás da divisória. Havia uns doze relógios na vitrine, marcando doze horas diferentes, cada um deles com a mesma convicção determinada e contraditória que o meu manifestava, mesmo sem ponteiros. Um contradizendo o outro. Eu ouvia o meu, ainda a tiquetaquear no meu bolso, muito embora ninguém o visse, muito embora mesmo se o vissem ele não pudesse dizer nada a ninguém".

Um dos pilares da ficção abalados pela escrita de Faulkner é justamente a noção de tempo. As repetições e o aspecto de fragmentação geral acentuam a investida do escritor.

Jason Compson domina a terceira parte com sua perversidade, rancor e ganância obsedantes, enquanto Dilsey, a criada da família (e, talvez, a única personagem imune à morbidez dominante na narrativa), é a figura central da última parte do livro.

Vai aqui uma sugestão a quem se dispuser a ler O som e a fúria: comece pelas duas últimas partes e só depois vá para as duas primeiras (foi o que fiz na minha segunda leitura).

A análise de uma obra assim permite muitas abordagens: por exemplo, desvelar o posicionamento às vezes ambíguo, às vezes perceptivelmente racista de algumas vozes da narrativa em relação aos personagens negros ou visualizar o retrato histórico/sociológico dos sulistas nos Estados Unidos no início do século XX. Mas, como estão além da competência atual do blogueiro, deixo para outra oportunidade.

Na próxima postagem, escreverei um pouco sobre  Macbeth,  a peça de Shakespeare da qual proveio o título do livro de Faulkner.
. . . . . . .

Quero aproveitar para reiterar um posicionamento já manifestado noutros blogs mantidos anteriormente (e, quem sabe, algum(a) raro(a) - e valioso(a) - leitor(a) estará lembrado(a) dele?). Não se faz crítica literária aqui, apenas comunicam-se  impressões de leitura.  A crítica literária, atividade rigorosa e exigente, escapa às pretensões do  Besta Quadrada.  Não obstante, tenho como meta pessoal tornar-me, progressivamente e dentro de minhas capacidades, um leitor tão rigoroso e exigente quanto me for possível - e isso não é incompatível, penso, com os objetivos (bem mais modestos) deste blog. Por isso seria uma frivolidade deixar de ler determinada obra só porque ela me causou desprazer em algum momento ou foi (ainda que parcialmente) incompreendida (como é o caso de  O som e a fúria ). Nesse aspecto, lembro o que escreveu Umberto Eco*** a respeito da autêntica leitura crítica. Para o pensador italiano, esta não deve ser "um passeio no campo, no qual [colhem-se] quase ao acaso, aqui e ali, os ranúnculos ou pilriteiros da poesia aninhada entre o esterco dos rípios estruturais", mas sim um enfrentamento por inteiro do texto, munido de um "forte armamento teórico e uma frequentação em todos o níveis  [com que se apresenta o texto] ".

________________
* FAULKNER, William.  O som e a fúria.  São Paulo: Cosac Naify, 2004 [Tradução de Paulo Henriques Britto]

** Devo confessar que, entre os livros dispostos nas estantes da minha residência há bastante tempo (e para os quais ainda não consegui reunir a disposição necessária), está o acabrunhante  Ulisses.

*** ECO, Umberto. Sobre o estilo. In: __________.  Sobre a literatura.  2 ed. Rio de Janeiro: Record, 2003, p. 151-166 [Tradução de Eliana Aguiar]

BG de Hoje

Grupos de música pop hiperproduzidos costumam não ser mais lembrados após toda a badalação que cercava seu surgimento. Foi assim com o GARBAGE. A partir do segundo disco ( Version 2.0,  1998), deixou de soar interessante (bom, pelo menos a meus ouvidos). Mas o álbum epônimo, lançado em 1995, me agradou muito, sobretudo a canção  A Stroke of Luck  e seu clima  lounge.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Quem está imune à indústria cultural? (III)


Voltemos ao ensaio A canção de consumo. Umberto Eco chama atenção para o desconhecimento de boa parte dos ouvintes, sobretudo adolescentes e jovens, de que a indústria cultural (no caso, musical) modela, de forma planejada, o gosto coletivo, chegando até a promover determinados tipos de comportamento e "atitudes", para além da dimensão propriamente artística/estética:

"[...] quando os jovens pensam escolher os modelos baseados em seu comportamento individual, não se dão conta de quanto agora o comportamento individual se articula com base na determinação contínua e sucessiva dos modelos. Do outro [lado da questão], está o fato de que, na sociedade em que vivem, esses adolescentes não encontram nenhuma outra fonte de modelos; ou pelo menos, nenhuma tão enérgica e imperativa".

E, de certo modo, o produto da indústria musical acaba satisfazendo "algumas tendências autênticas dos grupos aos quais se dirige".

Recuperando o prefácio de Apocalípticos e integrados*, a indústria cultural é "um sistema de condicionamentos", a que todos na atualidade estamos sujeitos (tanto os menos quanto os mais ingênuos).

Quantos fãs de rock se deram (ou se dão) conta de que ao vestir determinadas roupas, cortar o cabelo de tal modo ou repetir certas gírias, não estão apenas reproduzindo um modelo erigido pela indústria cultural (refiro-me ao rock, mas o mesmo vale para outros subgêneros da música pop)? E pensando num campo de produção artística mais familiar para mim, quantos leitores de 50 tons de cinza ou A guerra dos tronos, por exemplo, se dão conta de que sua disposição de leitura, nesse caso, foi motivada por uma eficiente estratégia de publicidade/marketing da indústria editorial?

Tudo isso não quer dizer que devamos expulsar de nossas vidas (o que seria impossível, aliás) a cultura de massa (melhor dizendo, os mass media ou meios de massa, como prefere o pensador italiano). Necessitamos compreender que a "civilização de massa" é uma nova "ordem antropológica [...], válida para indicar um preciso contexto histórico (aquele em que vivemos), onde todos os fenômenos comunicacionais - desde as propostas para o divertimento evasivo até os apelos à interiorização - surgem dialeticamente conexos [...]"

Nossas sociedades urbanizadas de hoje são sociedades de massa. Essa é nossa realidade histórica. Nesse contexto, "todos os que pertencem à comunidade se tornam, em diferentes medidas, consumidores de uma produção intensiva de mensagens a jato contínuo, elaboradas industrialmente em série, e transmitidas segundo os canais comerciais de um consumo regido pelas leis de oferta e da procura".

Em tal situação, é improdutiva a postura aristocrática do apocalíptico (remanescente, talvez, de uma aversão ao acesso crescente da população pobre aos bens culturais). Mas também é censurável o entusiasmo acrítico dos integrados diante dos produtos dos mass media.

Ninguém mais está imune à indústria cultural. Para o "mal" ou para o "bem".
 
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* ECO, Umberto. Apocalípticos e integrados. 6 ed. São Paulo: Perspectiva, 2001 [Tradução de Pérola de Carvalho]

BG de Hoje

Essa canção já teve gravações marcantes (Santa Esmeralda e, principalmente, a original com Nina Simone). Mas ainda prefiro THE ANIMALS: Don't let me be misunderstood.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Quem está imune à indústria cultural? (II)



No ensaio A canção de consumo (incluído em Apocalípticos e integrados*, livro de que estamos tratando nesta série de postagens), Umberto Eco irá criticar a chamada música "gastronômica" - que seria aquela destinada, supostamente, apenas para servir como entretenimento, evasão, jogo e consolo. Vale esclarecer que o texto em questão serviu de prefácio para outro livro (de outros autores), publicado em 1964, no qual a indústria musical - no contexto italiano - era um dos temas abordados. Apesar dessas circunstâncias, os pontos ali levantados não destoam do atual cenário da cultura de massa, inclusive no Brasil. A propósito, antes de prosseguir, é bom deixar claro que ao falar de massa, o pensador italiano (e, junto com ele, também este blogueiro) não "tira o corpo fora", como se fosse um ser não-contaminado, culturalmente puro: a massa, "em muitos momentos do dia, cada um de nós é, sem exceção", escreve ele.

Umberto Eco considera que a canção de consumo "segue uma lógica das fórmulas "; um produto feito de acordo com a lei fundamental do mercado - oferta e procura. Se determinada fórmula dá certo (vende), será repetida enquanto for rentável:

"[...] onde a fórmula substitui a forma só se alcança êxito decalcando os parâmetros [estabelecidos pelos produtos musicais anteriores] e uma das características do produto de consumo é que ele nos diverte não por revelar-nos algo de novo, mas por repetir-nos o que já sabíamos, o que esperávamos ansiosamente ouvir repetir e que é a única coisa que nos diverte..."

A música de consumo - doravante, vou designá-la de música pop** - não tende à experimentação. E isso vale tanto para o rock (gênero de preferência deste blogueiro), quanto para o (pomposamente) chamado samba "de raiz" ou a axé music.

Assim sendo, o que pode ser feito para que a música pop ganhe relevância (e valoração) artística? Uma solução é delineada naquilo que Umberto Eco chama de "canção 'diferente' " (o próprio autor coloca o adjetivo entre aspas em seu ensaio). Em que consiste essa nova forma de fazer música? Pra começar, opor-se às canções gastronômicas,

"[...] não procurando atenazar  a atenção do ouvinte mediante o fascínio de um ritmo primitivo, mas sim através da presença envolvente de conceitos e apelos inusitados. O resultado foi o de fornecer uma canção que a pessoa se concentra para escutar. Habitualmente, a canção de consumo é usada como fundo musical enquanto se faz outra coisa ; a canção 'diferente' requer respeito e interesse".

Se fosse para pensar num exemplo dentro do atual universo musical brasileiro, diria que a canção "diferente" vem daqueles artistas que vinculam seu trabalho ao cânone da MPB (de forma reverente ou iconoclasta, não importa agora), ao passo que a música gastronômica seria representada pelo sertanejo universitário e pelo "pancadão" carioca.

O ensaio A música de consumo é curto, mas suscita discussões longas. Por isso retornarei a ele na próxima (e última) postagem desta série.

* ECO, Umberto. A canção de consumo. In: _______. Apocalípticos e integrados. 6 ed. São Paulo: Perspectiva, 2001. p. 295-314 [Tradução de Pérola de Carvalho]

** ver nota de rodapé da postagem anterior da série

BG de Hoje

Direto ao ponto: MAURÍCIO TIZUMBA, Canção pra tocar no rádio.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Quem está imune à indústria cultural? (I)


É bastante corriqueiro encontrar aficionados por música pop* que execram determinados artistas e suas obras, alegando faltar a estas (e a estes) qualquer valor artístico/estético, sendo meramente comerciais. Fãs de rock, por exemplo (como este blogueiro), costumam agir assim. Isso é bastante curioso (para não dizer incoerente) pois poucas manifestações culturais foram tão comerciais e "fabricadas" quanto o rock, sobretudo a partir da década de 1960, inclusive com ações publicitárias em nível planetário. Tudo fazendo parte do modus operandi da indústria musical. E justamente por isso, o rock já foi (e talvez ainda seja) visto como a "antimúsica".

Pensar sobre isso, entre outras coisas, me lembrou Apocalípticos e integrados**, que reli recentemente. Julgo que os pontos de vista expostos nesse trabalho de Umberto Eco - acerca da indústria cultural e da cultura de massa - ainda são válidos, mesmo que alguns dos ensaios ali incluídos tenham sido elaborados há mais de 50 anos.

Voltarei a falar de música pop quando tratar especificamente do texto A canção de consumo. No momento, prefiro me deter no ensaio que abre o livro: Cultura de massa e "níveis" de cultura, . Após elencar os argumentos daqueles que atacam a cultura de massa (isto é, os apocalípticos) e os daqueles que fazem a apologia desta (os integrados), o pensador italiano considera que:

"O erro dos apologistas é afirmar que a multiplicação dos produtos da indústria seja boa em si, segundo uma ideal homeostase do livre mercado, e não deva submeter-se a uma crítica e a novas orientações". Por outro lado, "o erro dos apocalípticos-aristocráticos é pensar que a cultura de massa seja radicalmente má, justamente por ser um fato industrial, e que se possa ministrar uma cultura subtraída ao condicionamento industrial.

Isso é importante: não há mais como recuar no tempo, nem fugir para o lindo-território-exclusivo-da-alta-cultura. As atividades humanas, no atual momento histórico, estão sob o condicionamento industrial e a cultura de massa é uma realidade a qual todos estamos vinculados. Acho oportuno agora recuperar um trecho do prefácio do livro:

"A nosso ver, se devemos operar em e para um mundo construído na medida humana, essa medida deverá ser individuada não adaptando o homem a essas condições de fato, mas a partir dessas condições de fato. O universo das comunicações de massa é - reconheçamo-lo ou não - o nosso universo; e se quisermos falar de valores, as condições objetivas das comunicações são aquelas fornecidas pela existência dos jornais, do rádio, da televisão, da música reproduzida e reproduzível, das novas formas de comunicação visual e auditiva. Ninguém foge a essas condições, nem mesmo o virtuoso, que indignado com a natureza inumana desse universo da informação, transmite o seu protesto através dos canais de comunicação de massa, pelas colunas do grande diário, ou nas páginas do volume em paperback, impresso em linotipo e difundido nos quiosques das estações".[E, na atualidade, também postando seu protesto no Twitter ou no Facebook, acrescentaria este blogueiro]


Há muito ainda a dizer sobre esses temas e sobre esse livro. Prosseguirei na semana que vem.
___________
* O termo música pop está sendo usado aqui em oposição à música erudita. Ao falar em música pop quero me referir a todas as obras que se voltam para o mercado consumidor mais amplo, não especializado e mais "popular"; noutras palavras, a música passível de "tocar no rádio".

** ECO, Umberto. Apocalípticos e integrados. 6 ed. São Paulo: Perspectiva, 2001 [Tradução de Pérola de Carvalho]

BG de Hoje

Outro dia vendo uma série de vídeos do DEEP PURPLE, ouvi o tecladista Jon Lord dizer que a canção Child in time é a canção de um loser. Passei a gostar mais ainda dela.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

A Literatura serve pra quê?


Eis aí uma pergunta - a do título desta postagem - frequentemente feita e refeita, tanto por pessoas direta ou indiretamente interessadas na cultura livresca, quanto por aquelas que a desprezam (e não seria surpreendente constatar que as últimas fazem o questionamento com ainda mais assiduidade do que as primeiras).

Para que serve a leitura, por exemplo, de Orgulho e Preconceito? Ou de Moby Dick? Por que ler Angústia ou A paixão segundo G. H.? Não há atividades mais úteis, sobretudo no mundo contemporâneo - veloz,  multifacetado, instável - nas quais devemos focar (valendo-me de um insuportável verbo da moda) nossa atenção e precioso tempo?

De algum modo (depois de tanto esforço, espero que ao menos isto tenha ficado claro para o(a) leitor(a) habitual deste blog), o Besta Quadrada, desde sua criação, não faz outra coisa senão ressaltar a importância da leitura, sobretudo literária. Assim, creio sinceramente que a Literatura está longe de ser um apêndice inútil da vida em sociedade. Mas para responder a pergunta lá do início, prefiro convocar Umberto Eco*.

. . . . . .

Já havia discutido esse artigo, do qual gosto muito, em meu antigo blog. Decidi voltar a ele.

Publicado há dez anos, A literatura contra o efêmero (disponível aqui) é o registro por escrito de um pronunciamento que havia sido feito, meio de improviso, pelo escritor e semiólogo italiano. E começa com uma frase muito eloquente: "os grandes livros contribuíram para formar o mundo".

Eco acredita que "existem poderes imateriais cujo peso não se pode medir, mas que ainda assim pesam". Estes "não se restringem aos chamados valores espirituais, como os das doutrinas religiosas". Entre os poderes imateriais, ele incluiria

"o da tradição literária, isto é, do complexo de textos que a humanidade produziu e produz, não com fins práticos, mas 'gratia sui', por amor de si mesma, e que são lidos por prazer, elevação espiritual ou para ampliar os conhecimentos" (claro que as obras literárias estão geralmente ligadas a um suporte físico; não é disso que se trata, porém).

Pergunta o italiano:

"Mas para que serve esse bem imaterial, a literatura? Eu poderia responder, como já fiz noutras vezes, dizendo que ela é um bem que se consuma 'gratia sui' e que portanto não serve pra nada. Mas uma visão tão crua do prazer literário corre o risco de igualar a literatura ao jogging ou às palavras cruzadas que, além do mais, também servem para alguma coisa, seja manter o corpo saudável, seja enriquecer o léxico".

Ele acredita que "a literatura tem na nossa vida individual e social" três funções: a Literatura exerce papel importantíssimo na manutenção e mesmo na renovação da língua de um país; os textos literários, no momento mesmo da leitura, obrigam "a um exercício de fidelidade e de respeito dentro da liberdade de interpretação"; a Literatura ensina o leitor a morrer. Quero me deter na última delas.

Umberto Eco, mesmo reconhecendo a liberdade interpretativa como uma das características essencias da leitura, não defende, entretanto, que seja "possível fazer qualquer coisa com uma obra literária" (posição com a qual concordo). Nesse sentido, as narrativas ficcionais são imodificáveis, sobretudo "as grandes histórias"  já inscritas na tradição, com suas tragédias e desencantos. Com a palavra, o pensador italiano:

"A função das narrativas imodificáveis é justamente essa: contrariando nosso desejo de mudar o destino, nos fazem experimentar a impossibilidade de mudá-lo. E assim, qualquer que seja a história que elas contem, contará também a nossa, e é por isso que as lemos e as amamos. Necessitamos de sua severa lição 'repressiva'. A narrativa hipertextual pode educar para o exercício da criatividade e da liberdade. Isso é bom, mas não é tudo. As histórias 'já feitas' nos ensinam também a morrer. Creio que essa educação para o fado e para a morte é uma das principais funções da literatura. Talvez existam outras, mas agora me escapam".

Para alguém como eu, que vive para ler e lê para viver, - isso é só uma frase de efeito( ruim, por sinal) - aprendo também a ler para morrer.
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ECO, Umberto. A literatura contra o efêmero. Folha de S. Paulo, São Paulo, 18 fev. 2001, Caderno Mais!, p. 12-14

BG de Hoje

Poucas bandas de metal extremamente pesado me interessaram tanto, até hoje, como o PANTERA. Uma canção como I'm broken, composta há mais de 15 anos, ainda soa com vitalidade em meus ouvidos.


sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Detalhes



Não faz muito tempo, assisti a uma matéria no Jornal da Globo que me deixou encantado. Era sobre as chamadas impressoras 3D, maquinário do qual nunca tinha ouvido falar antes. As tais impressoras são capazes de moldar objetos a partir de um desenho gerado por um programa específico. É ... Somando esta façanha aos incríveis efeitos especiais obtidos pela computação gráfica e empregados, largamente, no cinema - quando se pode realizar quase tudo, visualmente falando - temos que admitir o poder das imagens (no sentido pictórico mesmo).

Mas o que o romancista norte-americano William Faulkner tem a ver com isso? Ora, numa época de domínio extremo da visualidade, como fica a Literatura, esta arte essencialmente feita de palavras (levando em conta que, como nos impinge o lugar-comum, mil delas não valem sequer uma imagem)? Antes de prosseguir a discussão, leiamos este trecho do livro Santuário*, de Faulkner (é um pouco longo, peço boa vontade).

"Temple tirou os sapatos, colocou-os na cama e enfiou-se sob a colcha. Tommy ouviu o ranger do colchão. Ela não se deitou imediatamente. Ficou sentada, ereta, imóvel, o chapéu licenciosamente colocado. Depois puxou para perto da cabeça o cantil, o vestido e os sapatos, endireitou o impermeável sobre as pernas e deitou-se, puxando a colcha. Sentou-se novamente, tirou o chapéu e sacudiu os cabelos. Colocou o chapéu ao lado dos outros objetos e preparou-se para tornar a deitar-se. Fez nova pausa. Abriu o impermeável, tirando de um dos bolsos um porta-pó. Mirando-se no espelhinho, espalhou os cabelos, afofando-os com os dedos. Empoou o rosto, guardou o porta-pó, olhou de novo o relógio e abotoou o impermeável. Colocou as roupas, uma a uma, sob a colcha, deitou-se e puxou a colcha até o queixo. As vozes tinham-se calado por momentos. No silêncio, Tommy podia ouvir o leve e persistente ruído da palha do colchão onde Temple se deitara, de mãos cruzadas no peito, pernas estendidas e decentemente unidas, como efígie nalgum túmulo antigo".

O excerto acima está no capítulo 8, um dos precedentes ao evento brutal que marca o livro inteiro. Por que o narrador de Faulkner preocupa-se tanto em descrever, em pormenores, a maneira como a adolescente Temple movimentava-se ou dispunha seus objetos? Tenho uma interpretação.

O objetivo aqui é duplo: primeiro o narrador procura transmitir, mesmo com crueldade, a atmosfera entremeada de tensão, violência e medo que perpassa a narrativa; segundo, manter o leitor em terreno pouco confortável, mesmo com prolixidade, para que o suspense e o horror não se percam.

Umberto Eco observou certa vez** que

"[...] as pessoas em geral acreditam que a diferença entre literatura popular e literatura erudita reside no fato de que esta última é repleta de longas descrições, enquanto aquela primeira vai direto ao assunto".

Obviamente - e Eco deixa isso claro em seu livro - esta diferença é simplista e equivocada. Só para efeito de ilustração, conheço pessoas que dizem achar Machado de Assis "difícil" porque ele é muito descritivo... Justamente Machado de Assis, um dos escritores mais concisos de nossa Literatura e que, raramente, lançava mão de longas descrições... Mas voltemos ao nosso assunto.

O narrador de Faulkner é detalhista e descritivo porque isso atende ao plano do livro Santuário. Muito provavelmente sua organização - capítulos pequenos e com alguns deles sem conexões diretas entre si - não seria possível, assim como os efeitos que provoca no leitor não se dariam, caso o autor adotasse outra estratégia.

Os detalhes, nesta como em outras narrativas, são tudo. E, sem necessidade de recursos visuais, só se extrai a expressividade deles graças às palavras, habilmente arranjadas.

* FAULKNER, William. Santuário. São Paulo: Abril Cultural, 1980 [Tradução de Lígia Junqueira Caiuby]

** ECO, Umberto. Seis passeios pelos bosques da ficção. São Paulo: Companhia das Letras, 1994 [Tradução de Hildegard Feist]

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Parasitas do mundo real

Primeiramente, leiamos este excerto (longo, peço boa vontade), extraído de Lolita*, a obra mais famosa de Vladimir Nabokov:

"Observo, com frequência, que tendemos a atribuir a nossos amigos aquela estabilidade de caráter que as personagens literárias adquirem na mente do leitor. Não importa quantas vezes relemos o Rei Lear, jamais encontraremos o bom monarca levantando seu canecão de cerveja, todas as desventuras esquecidas, num festim palaciano a que estão presentes as três filhas e seus cãezinhos de estimação. Jamais veremos Emma se curar, reavivada pelos sais contidos na lágrima oportunamente vertida pelo pai de Flaubert. Qualquer que seja a evolução desta ou daquela personagem entre as capas do livro, seu destino está cristalizado em nossas mentes, e, da mesma forma, esperamos que nossos amigos sigam esta ou aquela trajetória lógica e convencional que traçamos para eles. Assim, X jamais comporá a música imortal que conflitaria com as sinfonias de segunda classe a que nos habituou. Y jamais cometerá assassinato. Aconteça o que acontecer, Z nunca nos trairá. Temos tudo arranjado em nossas mentes e, quanto mais raramente vemos determinada pessoa, maior é o nosso prazer ao verificar, quando ouvimos falar dela, como se vem adaptando obedientememte ao padrão de comportamento que lhe impusemos. Qualquer desvio nos destinos que decretamos nos ofenderia como algo não apenas anômalo, mas imoral. Preferiríamos nem ter conhecido nosso vizinho, o vendedor aposentado de cachorros quentes, caso venhamos a saber que ele acaba de publicar o melhor livro de poesias dos últimos tempos".

Você ainda está comigo? Fico contente. Então vamos lá.

Nabokov, acredito, fez acima um dos maiores elogios à ficção já escritos - de forma cruelmente irônica, convenhamos. O que nos diz ele? Diz que a ficção é confiável (lembre-se do que foi discutido na postagem anterior). Podemos nos valer de seu próprio romance para exemplificarmos.

Por mais vezes que leiamos Lolita não alteraremos o fato de que Humbert Humbert está preso e será julgado. Qualquer que seja o sentimento que a personagem nos provoque, não conseguiremos mudar esse fato.

Umberto Eco, em livro indispensável**, nos lembra que toda ficção guarda vínculos - mais firmes aqui, menos evidentes acolá - com a chamada realidade. O autor italiano afirma que "os mundos ficcionais são parasitas do mundo real". Ainda assim, ele não deixa de enaltecer a Literatura.

Sempre reconheci na ficção uma superioridade (para mim, incontestável) em relação ao mundo real. Tenho poucos amigos; para além da esfera do trabalho, sigo uma vida social insignificante. No geral, as pessoas são bastante ordinárias; eu, mais que todos. Por outro lado - e isso é paradoxal - a existência que se leva hoje em dia é cada vez mais complexa, intensa, e os indivíduos (a não ser que estejam no topo da pirâmide econômica) controlam bem pouco o que ocorre ao redor de seus "mundinhos", todos imersos num universo de constante e angustiante incerteza. Por isso, sinto-me bem ao ler estas palavras de Eco:

"À parte as muitas e importantes razões estéticas, acho que lemos romances porque nos dão a confortável sensação de viver em mundos nos quais a noção de verdade é indiscutível, enquanto o mundo real parece um lugar traiçoeiro".

Posição ingênua e alienada de minha parte? É possível. Alguém me oferece coisa melhor? Prefiro "os parasitas do mundo real".

* NABOKOV, Vladimir. Lolita. Rio de Janeiro: O Globo; São Paulo: Folha de S. Paulo, 2003 (tradução de Jorio Dauster)

** ECO, Umberto. Seis passeios pelos bosques da ficção. São Paulo: Companhia das Letras, 1994 (tradução de Hildegard Feist)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Folha de árvore, folha de livro


Umberto Eco, há alguns anos, escreveu* que

"Até agora, os livros representam o modo mais barato, flexível e prático de transportar informação a um custo muito baixo. A comunicação por computador viaja à nossa frente; os livros viajam conosco e na nossa velocidade. Se somos náufragos numa ilha deserta, onde não temos a opção de ligar um computador na tomada, um livro ainda é um instrumento de muita valia [...] Livros pertencem a essa classe de instrumentos, que, uma vez inventados, não foram aprimorados, porque já estão bons o bastante, como o martelo, a faca, a colher ou a tesoura."

Apesar disso, a permanência do livro, como registro físico mais típico e simbólico do conhecimento humano acumulado, tem sido colocada em dúvida frequentemente, seja nas declarações de indivíduos com algum saber especializado, seja nas opiniões de senso comum.

Ao livro é garantida alguma perenidade? Penso que sim. Como observaram as professoras Ivete Walty e Maria Zilda Cury**:

"O livro manuseado por nós é, pois, um espaço que convida à descoberta, ao desafio da produção do conhecimento. Enquanto registramos, de inúmeras maneiras, as ideias que aí circulam, ele também recebe nossas marcas impostas pelo manuseio, traços, muitas vezes, de nossa relação afetiva: folhas gastas por repetidas leituras, anotações feitas nas margens revelando nossa forma de ler."

Sobre esse objeto tão característico de nossa cultura João Cabral de Melo Neto escreveu um de seus poemas mais bonitos***: Para a feira do livro, texto que integra o essencial A educação pela pedra (1966).

Em duas estrofes, compostas, cada uma, por doze versos, Melo Neto conjuga a dimensão material com as características mais subjetivas do livro, que acabam por torná-lo tão precioso àqueles que o valorizam.

No primeiro grupo de versos, o poeta apresenta-nos, arriscaria dizer, uma memória orgânica, natural do impresso:

"Folheada, a folha de um livro retoma
o lânguido e vegetal da folha folha,
e um livro se folheia ou se desfolha
como sob o vento a árvore que o doa;"

Mesmo a palavra (no caso, a linguagem) é naturalizada:

"folheada, a folha de um livro repete
fricativas e labiais de ventos antigos,
e nada finge vento em folha de árvore

melhor que vento em folha de livro."

Na segunda parte do poema, emocionante, o objeto é humanizado: modesto, paciente, severo são qualificativos que lhe são atribuídos. E Melo Neto ainda nos relembra que, mesmo com toda a sua força simbólica, como conjunto de signos a ser interpretado, o livro obriga o leitor a comportar-se ativamente diante dele; o livro "exige que lhe extraiam, o interroguem;/ e jamais exala: fechado, mesmo aberto."
 
________________
* ECO, Umberto. Muito além da Internet. Folha de S. Paulo, São Paulo, 14 dez. 2003. Caderno Mais! p. 4-11

** WALTY, Ivete L. C. ; CURY, Maria Zilda F. Livro: objeto de desejo. Presença pedagógica, Belo Horizonte, v.2, n.12, p. 15-25, nov./dez. 1996

*** MELO NETO, João Cabral. A educação pela pedra e depois. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997