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sexta-feira, 26 de julho de 2019

Os medalhões e o "regime debilitante"


Atualmente, fama e popularidade são verdadeiras obsessões para muitos indivíduos, mesmo que seus atos pouco ou nada tenham de brilhantismo e nem sua - discutível - condição de figura pública justifique reconhecimento como "pessoa famosa". O que se quer, a todo custo, é tornar-se uma celebridade ou mesmo um digital influencer. A concorrência, porém, é gigantesca; tenta-se de tudo para ganhar atenção. E dá-lhe publicidade, seja aquela contratada junto a profissionais do ramo, seja aquela realizada pelo próprio aspirante à notoriedade, utilizando os meios de que se disponha.

Se o(a) eventual leitor(a) conhece o conto Teoria do medalhão, de Machado de Assis, há de se lembrar da passagem em que o pai discorre sobre "os benefícios da publicidade" ¹ . Sugere ao filho que é necessário por "o teu nome ante os olhos do mundo" dezenas de vezes, valendo-se do puxa-saquismo ou de "pequenos mimos, confeitos, almofadinhas, cousas miúdas". Há outras opções:

"Os sucessos de certa ordem, embora de pouca monta, podem ser trazidos a lume contanto que ponham em realce a tua pessoa. Explico-me. Se caíres de um carro, sem outro dano, além do susto, é útil mandá-lo dizer aos quatro ventos, não pelo fato em si, que é insignificante, mas pelo efeito de recordar um nome caro às afeições gerais".

Vale mencionar que expediente similar aparece em outro texto machadiano: Quincas Borba. O protagonista do romance, Rubião, acabara de salvar uma criança, quase atropelada por cavalos. Ele, então, despretensiosamente, narra o caso ao amigo Camacho, o qual decide publicar a história em seu jornal. A princípio, Rubião se irrita com a história publicada, mas vendo que a nota lhe trouxe uma ligeira fama, carregada de palavras lisonjeiras, muda de opinião a ponto de "comprar uns tantos exemplares da folha para os amigos de Barbacena".

Fazer-se lembrado é o primeiro mandamento publicitário. No Rio de Janeiro do final do século XIX, isso só podia ocorrer através dos jornalecos impressos que pipocavam aqui e ali. Nos tempos atuais - pode-se dizer um tantinho exageradamente - a publicidade está em todo lugar.

Fama e publicidade produzem distinção, muito embora grande parte de seus agraciados não faça jus a essa proeminência (o que não os impede, claro, de obter as vantagens financeiras frequentemente advindas dessa situação). Mas... e daí?, objeta a patuleia. A idiotice, a frivolidade e a inaptidão de fulano ou sicrana não são problema para nós; o que importa é serem famosos.

Como se pode depreender, a fama injustificada muitas vezes converte-se num recurso eficaz para se dar bem. Não à toa, obtê-la é parte crucial da estratégia recomendada em Teoria do medalhão. Voltemos, pois, ao conto de Machado de Assis.

Ainda que o subtítulo da narrativa (Diálogo) nos faça imaginar interlocutores em pé de igualdade, apenas um deles de fato fala - o pai -, não restando ao outro - Janjão, o filho que acabara de completar 21 anos - muito o que dizer.

Segundo o pai, a vida "é uma enorme loteria; os prêmios são poucos, os malogrados inúmeros, e com os suspiros de uma geração é que se amassam as esperanças de outra. Isto é a vida; não há planger, nem imprecar, mas aceitar as coisas integralmente, com seus ônus e percalços, glórias e desdouros, e ir por diante"

A partir dessa concepção conformista e egocentrada, ele enfileira uma série de recomendações e advertências que, "guardadas as proporções", são tão úteis quanto "o Príncipe, de Machiavelli". Sua intenção é que o filho se torne "grande e ilustre, ou pelo menos notável", e que se levante "acima da obscuridade comum".

Ora, aqui estamos no terreno em que Machado de Assis melhor joga: no desvelamento da mediocridade de nossas elites.

Janjão, aos 21 anos, ao contrário da imensa maioria dos jovens naquela época, possui "algumas apólices, um diploma" e, se desejar, tem "infinitas carreiras" diante de si. Caso não dê certo em nenhuma delas, poder-se-á sempre virar um medalhão, dada a sua condição de privilegiado.

De acordo com o dicionário Houaiss ², há duas acepções de sentido figurado para o termo medalhão: pode denotar um "indivíduo importante; figura de projeção", mas pode ser também o "indivíduo posto em posição de destaque, mas sem mérito para tal". A segunda acepção é a que nos interessa.

Não é preciso demonstrar competência em nada para ser uma medalhão. O importante é ter os contatos certos, encenar os rapapés de praxe e estar em evidência para obter cargos, ocupar postos e ganhar sinecuras. E embora o "ofício" leve tempo para ser aprendido, assim que o indivíduo é alçado a medalhão, entra "na terra prometida":

"Verás cair as muralhas de Jericó ao som das trompas sagradas. Só então poderás dizer que estás fixado. Começa nesse dia a tua fase de ornamento indispensável, de figura obrigada, de rótulo. Acabou-se a necessidade de farejar ocasiões, comissões, irmandades; elas virão ter contigo [...]"

Quantas pessoas não temos visto por aí - na imprensa, na política, no mundo artístico e do entretenimento - sem nenhuma credencial de maior quilate do que o seu status de medalhão?

No conto de Machado de Assis o pai diz ao filho que para entrar nessa "carreira" é preciso "por todo o cuidado nas ideias que haverás de nutrir para uso alheio e próprio", mas que o melhor é "não as ter absolutamente". Ele acredita que o filho pode ir longe pois é "dotado na perfeita inópia mental, conveniente ao uso deste nobre ofício". Para um(a) candidato(a) a medalhão, não é proveitoso fazer uso do pensamento apurado. Fosse assim, ele ou ela nunca transcenderiam "os limites de uma invejável vulgaridade" e assim não conheceriam "os elementos dessa arte difícil de pensar o pensado".

Porém, para que um medalhão chegue lá, penso não ser suficiente apenas a sua própria "inópia mental". Aqueles que possibilitaram a sua ascensão, bem como lhe abriram o caminho para a glória certamente são tão ou mais imbecis do que o próprio medalhão. E imbecilidade, convenhamos, é o que nunca faltou nessas terras brasileiras (e alhures).

Há uma expressão, no conto do qual estamos falando, de que gosto particularmente. Insistindo que é fundamental asfixiar as ideias (ou seja, reprimir o exercício do pensamento), o pai apregoa "um regime debilitante" (importante frisar que tanto os medalhões quanto os basbaques que os veneram seguem a mesma dieta). As sugestões do personagem para atingir esse fim descrevem, naturalmente, atividades típicas de sua época (como jogar whist, por exemplo). Não é difícil, entretanto, conjecturar sobre as ações que comporiam um tal regime debilitante em nosso tempo. Posso imaginar algo como: recusar-se a ler textos complexos; usar como "fonte de informação confiável" o WhatsApp e posts apócrifos espalhados em mídias sociais; ir ao cinema para assistir coisas como Velozes & Furiosos; repetir a torto e a direito lugares-comuns surrados, muitas vezes tirados de memes da internet, como se fossem a quintessência da sabedoria humana. E por aí vai.

Escapar do regime debilitante não é tão simples quanto se pode supor. Mas caso se deseje fazê-lo, ler Machado de Assis ajuda bastante.
__________
¹ ASSIS, Machado de. Teoria do medalhão. In:_______________. 50 contos. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 82-90 [seleção, introdução e notas de John Gledson]

² MEDALHÃO. In: DICIONÁRIO Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009. p. 1262

BG de Hoje

O rock deixou de ser um gênero com apelo junto ao público adolescente/jovem, o principal consumidor de música pop desde que a indústria do setor se estabeleceu. É ouvido, nos dias de hoje, principalmente por gente que envelheceu ou está envelhecendo. E embora ficar idoso seja uma merda, o mesmo não se aplica a uma forma de arte. Como escreveu Bill Flanagan num ótimo artigo publicado pelo New York Times em 2016, "rock is now where jazz was in the early 1980s. Its form is mostly fixed". Tornou-se um know-how, uma tradição e uma escola musicais. Qualquer artista interessado nesse tipo de som terá que levar em conta a história do gênero, caso queira produzir algo relevante. Um dos grandes nomes do rock atual, JACK WHITE, tem essa postura. Isso se reflete em todos os seus trabalhos, inclusive na sua banda recente, THE RACONTEURS. Confira nesta faixa, Sunday Driver.

 

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Livro: entre o poder simbólico e a obsolescência (II)


(Esta postagem dá continuidade ao texto anteriormente publicado aqui)

Há uma passagem de Quincas Borba* da qual sempre me lembro quando o assunto é o livro, na sua condição material de objeto. Rubião, protagonista desse extraordinário romance de Machado de Assis, acaba de saber que o filósofo amalucado para quem trabalhou o nomeara "herdeiro universal". E passa a imaginar os bens legados:

"E quanto seria tudo? ia ele pensando. Casas, apólices, ações, escravos, roupa, louça, alguns quadros, que ele teria na Corte, porque era homem de muito gosto, tratava de cousas de arte com grande saber. E livros? devia ter muitos livros, citava muitos deles".

No rol dos itens acima, dois deles prendem minha atenção.

Parte da herança de Rubião era composta por escravos. Nunca, nunca mesmo, podemos esquecer que um enorme segmento da população brasileira foi, durante séculos, considerado mercadoria, sem direitos de qualquer natureza, sem cidadania. A história e a trajetória sociocultural do país foram profundamente marcadas por esse flagelo. Nunca nos esqueçamos disso.

O outro item a ser destacado são os livros, para os quais o personagem olha apenas com interesse venal, pois, no decorrer da narrativa, revelar-se-á um tremendo ignorante, não desejando aprimorar-se por meio da leitura. E parece espantoso para nós, viventes do século XXI, que o livro um dia possa ter sido tão valioso - tomado, exclusivamente, como bem material - a ponto de ser um item relevante das heranças.

Hoje os livros são um produto relativamente barato**. Mas nem sempre foram. Steven Roger Fischer, na sua ótima História da leitura***, assevera que

"A partir do final do século XII, os livros - ou seja, códices em pergaminho escritos à mão, muitos deles, no norte da Europa, consistindo em pele de bezerros - passaram a ser lucrativos artigos comerciais. [...] Os que emprestavam dinheiro, reconhecendo o valor comercial dos livros, chegavam a aceitá-los como garantia; em particular, os estudantes tinham os costume de tomar dinheiro emprestado mediante o valor de um volume estimado. No século XV, as importantes feiras em Frankfurt e Nördlingen, na Alemanha, passavam também a comercializar livros".

O alto preço desse objeto se devia, principalmente, ao custo da mão-de-obra (aqui no sentido literal, pois os livros eram todos manuscritos) e ao material utilizado. Wilson Martins, em seu precioso e enciclopédico trabalho A palavra escrita****, observa que "as informações [registradas ao longo da história] sobre o preço do pergaminho, embora dificilmente avaliável em moeda atual, demonstram que era elevadíssimo em comparação com outros bens de consumo".

A invenção da prensa e da tipografia, além do surgimento do papel, foram fatores que diminuíram o preço do produto, mas não tanto assim. Não havia condições sociais e econômicas para o estabelecimento de um grande contingente de consumidores. "Ainda bastante raros" - anota Steven Roger Fischer - "os livros eram quase tão valorizados na Renascença quanto na Idade Média, sendo seu roubo muitas vezes punido com a pena de morte por se tratar de artigos equiparados a bens como cavalos e gado".

Livros só se tornarão mercadorias acessíveis às diversas classes sociais quando a sua produção passou a ser realizada em escala industrial, surgindo um autêntico mercado editorial, além da concomitante escolarização em massa.
. . . . . . . 

Ainda que, na atualidade, os livros sejam encontrados em centenas de milhões de lares mundo afora, não consigo deixar de me encafifar.

Duvido que eu faça parte de uma sociedade leitora, em seu sentido pleno, e não só meramente alfabetizada.

Não acredito, de modo algum, que a maioria das pessoas com quem convivo valorize os livros, não como objetos em si, mas naquilo que eles simbolizam como nenhum outro artefato humano conseguiria sê-lo: fontes essenciais para o aprimoramento de nossa cognição.

Continuo na próxima postagem.
 
_________________
* ASSIS, Machado de. Quincas Borba. Rio de Janeiro: Garnier, 1998

** Quero deixar bem claro que NÃO sou daqueles indivíduos que ficam papagueando: "Livros são caros! Livros são caros!". Noutra oportunidade, escreverei sobre isso.

*** FISCHER, Steven Roger. História da leitura. São Paulo: UNESP, 2006 [Tradução de Claudia Freire]

**** MARTINS, Wilson. A palavra escrita: história do livro, da imprensa e da biblioteca. 3 ed. rev. e ampl. São Paulo: Ática, 2002

BG de Hoje

Houve uma época (ah, como o tempo voa!...) que os TITÃS formavam uma excelente banda de rock. Õ Blésq Blom, disco lançado em 1989, representa, na minha opinião, o ápice criativo daqueles caras. E Flores é a canção que melhor demonstra isso. Começa pelo riff de guitarra simples, rascante e inesquecível de Tony Belloto, depois a linha de baixo bem melódica, tocada por Nando Reis, e o coroamento nos solos de sax executados pelo Paulo Miklos. Um musicaço!


quinta-feira, 11 de julho de 2013

"Um pássaro, batendo as asas e amarrado pelos pés"

No conto A segunda vida *, dois personagens conversam: Monsenhor Romualdo de Sousa Caldas e José Maria. O primeiro não tem dúvida de que o segundo é louco. Em dado momento da narrativa, José Maria diz que sua "segunda vida é assim uma mocidade expansiva e impetuosa, enfreada por uma experiência virtual e tradicional". Pede ao religioso, seu interlocutor, uma comparação que ilustre o modo como vivia. Monsenhor Caldas arrisca: "- Suponho que vive assim como um pássaro, batendo as asas e amarrado pelos pés". O outro concorda e, demonstrando mesmo não estar bem da cachola, levanta-se da cadeira "agitando os braços, à maneira de asas [...] De cada vez que batia os braços nas coxas, levantava os calcanhares, dando ao corpo uma cadência de movimentos, e conservava os pés unidos, para mostrar que os tinha amarrados".

Pode parecer, por essa passagem, que o conto tem a intenção de ser cômico. Pelo contrário, é uma narrativa bem trágica de Machado de Assis.

José Maria diz ao padre que morrera com 68 anos de idade em 1860. Chegando no "outro mundo", teve que cumprir "uma lei eterna" e retornou numa nova vida, renascendo em 1861. Ainda segundo nos conta o personagem, poderia escolher voltar como "príncipe ou condutor de ônibus". José Maria considerava "indiferente nascer mendigo ou potentado [mas] com a condição de nascer experiente".

Monsenhor Caldas está apreensivo em relação ao visitante e "enquanto esperava o auxílio policial [...] desfazia-se em sorrisos e assentimentos de cabeça, espantava-se com ele, alegrava-se com ele, política útil com os loucos, as mulheres e os potentados". Ao mesmo tempo, o religioso fica intrigado com aquela figura que, "no meio do desalinho próprio do estado", fala "em termos polidos" e "apesar dos rompantes mórbidos, tinha maneiras". Só que o outro, além de carregar uma bengala (que pode ter a serventia de uma arma), mostrara um revólver ao padre, indicando ser potencialmente perigoso.

Ao retornar à vida cheio de experiência, José Maria "vivia fugindo de tudo":

"Não podia comer um figo às dentadas, como outrora; o receio do bicho diminuía-lhe o sabor. Não cria nas caras alegres da gente que ia pela rua: preocupações, desejos, ódios, tristezas, outras coisas, iam dissimuladas por umas três quartas partes delas. Vivia a temer um filho cego ou surdo-mudo, ou tuberculoso, ou assassino, etc. Não conseguia dar um jantar que não ficasse triste logo depois da sopa, pela ideia de que uma palavra sua, um gesto da mulher, qualquer falta de serviço podia sugerir o epigrama digestivo, na rua, debaixo de um lampião. A experiência dera-lhe o terror de ser empulhado. Confessava ao padre que, realmente, não tinha até agora lucrado nada; ao contrário, perdera até, porque fora levado ao sangue..."

Deixo o conto de lado nesse ponto - para não revelar o final deste ao(à) eventual leitor(a) que ainda não conheça essa narrativa - e tento explicar por que estou falando disso.

Independentemente de ser ou não um doido varrido, José Maria manifesta, penso eu, um sentimento perante a vida muito similar ao meu: o sofrimento por antecipação diante do caráter vicissitudinário da existência.

Um pássaro em pleno voo pode bem servir como metáfora para a vida de muita gente, sobretudo jovens. No meu caso, entretanto, a sensação que expus no parágrafo anterior provoca desagradáveis efeitos colaterais: pessimismo, inapetência, desconfiança e covardia. Talvez também leve à loucura, como acontece ao personagem de A segunda vida. De qualquer modo, nos dois casos, não se cogita voar pois, por antecipação medrosa e avessa ao risco intrínseco do viver, já assumimos, derrotados, que o bater de asas resultará, inevitavelmente, no malogro.
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* ASSIS, Machado de. A segunda vida. In: ____________. 50 contos. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 271-278 [seleção, introdução e notas de John Gledson]

BG de Hoje

Num disco muito bem produzido (Guitar Heaven: The Greatest Guitar Classics Of All Time) Carlos SANTANA regravou algumas canções ideais para que o guitarrista pudesse "viajar" à vontade. Sua versão de While My Guitar Gently Weeps (cantada por India.Arie e, no CD, com mais a participação do violoncelista Yo-Yo Ma) foi provavelmente a faixa mais tocada desse álbum nas rádios mundo afora.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Nocautes (9)



MISSA DO GALO
 - Machado de Assis

Numa palestra que, aos ser transformada em texto impresso*, pareceu-me um tanto esmaecida (e aquém do que anunciava em seus objetivos), a professora Letícia Malard apresenta - e nessa apresentação reside o mérito da conferência - avaliações bastante negativas pelas quais passou a obra de Machado de Assis, a partir do ponto de vista de alguns escritores. Quem esperaria por isso? Pode-se ver o autor de Dom Casmurro ser desancado por Sílvio Romero, Mário de Andrade, Guimarães Rosa, Jorge Amado... Não deixa de ser curioso encontrar opiniões tão desfavoráveis sobre aquele que é considerado o mais destacado homem de Letras da Literatura Brasileira, opiniões estas emitidas justamente por outros homens de Letras.

Na conclusão da palestra, Letícia Malard sugere "um modo de ler Machado de Assis com o espírito desarmado, sem ataques nem defesas" (o que ela não fez em seu texto, diga-se de passagem). E acrescentou - nesse caso, a meu ver, apropriadamente: "Em suas narrativas, o enredo é secundário. Ele não é o tipo de escritor que, antes de mais nada, se propõe a contar bem contada uma história".

Pode-se perceber essa característica do autor em Missa do Galo**. Lemos e relemos, sempre nos perguntando: o que, afinal de contas, está acontecendo naquelas páginas? A dúvida e a incerteza são dominantes neste conto e essa atmosfera, ao invés de decepcionar o leitor, exerce sobre ele um tremendo fascínio (pelo menos, assim acontece comigo).

Não vou aqui esmiuçar o texto. Famosíssimo, Missa do galo já foi analisado com muito mais propriedade e brilho por outros estudiosos bem mais preparados e aparelhados do que eu poderia ser. Quero apenas destacar um excerto (os grifos são todos meus):

"Havia também umas pausas. Duas outras vezes, pareceu-me que a via dormir; mas os olhos, cerrados por um instante, abriam-se logo, sem sono ou fadiga, como se ela os houvesse fechado para ver melhor. Uma dessas vezes creio que deu por mim embebido na sua pessoa, e lembra-me que os tornou a fechar, não sei se apressada ou vagarosamente. Há impressões dessa noite, que me aparecem truncadas ou confusas. Contradigo-me, atrapalho-me. Uma das que  ainda tenho frescas é que, em certa ocasião, ela, que era apenas simpática, ficou linda, ficou lindíssima".

O narrador já nos havia jogado no terreno da imprecisão desde a sentença inicial do conto. E esta sensação aumenta progressivamente, pois só contamos com as impressões de quem narra (como indicam os trechos grifados). Conceição tentou seduzir o adolescente Nogueira? Na ocasião, o rapaz fora tão pudico quanto nos parece, muitos anos depois, relembrando aquela noite? Não há elementos no texto que nos permitam responder a essas perguntas. E quem se importa? O clima (para usar um termo do dia-a-dia) criado entre os dois personagens é a base sobre a qual toda a narrativa se sustenta, maravilhosamente.

Na próxima (e última) postagem da série, A confissão de Leontina, de Lygia Fagundes Telles.

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Em 1977, Osman Lins convidou outros cinco escritores (Nélida Piñon, Julieta de Godoy Ladeira, Antonio Callado, Autran Dourado e Lygia Fagundes Telles) para escrever novos contos, inspirados no texto machadiano. O resultado foi o livro Missa do galo: variações sobre o mesmo tema (Editora Summus, atualmente na 12ª edição). Recomendo também a leitura dessa obra, que, às vezes, amplia e ilumina pontos sobre os quais o olhar de Machado de Assis não se deteve.
 
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* ASSIS, Machado de. Missa do galo. In: _______________. 50 contos. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2007. p. 433-439 [seleção, introdução e notas de John Gledson]

** MALARD, Letícia. Machado de Assis: ataque e defesa. Revista da Academia Mineira de Letras, Belo Horizonte, v. 50, p. 31-43, out./nov./dez. 2008

BG de Hoje

O sujeito sabe que o alcoolismo já está num estágio sem volta quando ele, entre outras coisas, enche a cara em plena segunda-feira e envereda pela madrugada de terça (foi o meu caso). Como justificativa (frouxa, reconheço), digo que só assim pra suportar os numerosos batráquios engolidos frequentemente na m... de escola em que atualmente trabalho. Ressaca - terrível - não tem remédio específico. Mas boa música pode ajudar. E, junto com uma bojuda caneca de café bem preto e amargo, não conheço nenhuma canção que ajude tanto a recuperar as forças quanto Pawn Shop, sensacional dub gravado pelo saudoso trio SUBLIME.
 

sábado, 20 de novembro de 2010

Blogs: entre a egolatria e o rancor



Pelo menos do nascedouro, blogs  expunham, a maior parte do tempo, as divagações, os desabafos, os acontecimentos privados e íntimos relacionados à vida do seu autor, o blogueiro.

De acordo com o   Dicionário de gêneros textuais , de Sérgio Roberto Costa*,

"O blog  pode ser definido, então, como jornal/diário digital/eletrônico pessoal publicado na Web, normalmente com toque informal, atualizado com frequência e direcionado ao público em geral.  Blogs   geralmente trazem a personalidade do autor, seus interesses, gostos, opiniões e um relato de suas atividades. Portanto, geralmente são simples, com textos curtos, predominando os narrativos (relatos) , descritivos e opinativos. O   blog   é o gênero discursivo da auto-expressão, isto é, da expressão escrita do cotidiano e das histórias de pessoas comuns".

Mas desde os pioneiros - Justin's Links from the Underworld  (1994), Carolyn Diary  (1995) e outros - essas jangadas de personalismo no oceano da Internet foram ganhando, felizmente, outras características.

A  Wikipédia  (acesso em 20/11/2010) afirma que "o  blog atual é uma evolução dos diários online" e o mesmo verbete informa que

"Um blog [...] é um site cuja estrutura permite a atualização rápida a partir de acréscimos dos chamados artigos, ou posts. Estes são, em geral, organizados de forma cronológica inversa, tendo como foco a temática proposta do blog  [...]" (grifo meu).

Do ponto de vista do conteúdo, então, encontramos dois tipos básicos de blog: 1) aqueles aparentados com os diários íntimos e/ou privados; 2) aqueles estruturados em torno de um assunto.

Já deixei transparecer algumas vezes aqui minha preferência pelo segundo tipo, embora - e isto pode ser curioso -, dos cerca de 60 blogs que leio mais frequentemente, apenas uma pequena parte se encaixa nessa categoria. Não gosto muito de ser lançado no "mundo pegajoso da vida doméstica" das pessoas, para usar uma expressão do escritor Jonathan Franzen.

Entretanto, por mais que um blog procure centrar-se numa temática, aquilo que o faz ser atraente para boa parte dos leitores, penso eu, é a possibilidade de construir uma  ponte entre indivíduos , a possibilidade de  estabelecer novas relações interpessoais , ainda que por meio da Web. Daí a importância da seção de comentários. No verbete da  Wikipédia   lemos que "a capacidade de leitores deixarem comentários de forma a interagir como o autor e outros leitores é uma parte importante de muitos blogs". Já no  Dicionário de gêneros textuais   encontra-se a seguinte afirmativa: "a interatividade com o leitor é uma característica básica". Deseja-se, muitas vezes, propor um diálogo ; afinal, blogs são, majoritariamente, páginas relacionadas a perfis que, no plano não-virtual - a nossa vidinha costumeira -, ligam-se a seres humanos (com preferências, sentimentos e desejos) sequiosos por comunicarem-se com outros, às vezes tão ávidos quanto eles.

Então, ao pensar nos blogs como  espaço de expressão pessoal, também estabelecemos dois tipos básicos: 1) aqueles eivados de egolatria ; 2) aqueles saturados de rancor. O leitor habitual deste espaço naturalmente percebe que prefiro a segunda categoria, na qual meu próprio blog se inclui.

Postagens "felizes" e que, por meio da exibição nauseante da vida particular do blogueiro, jogam na cara de quem lê a mensagem (nada sutil) "vejam-como-eu-sou-especial-e-gente-fina" me dão vontade de vomitar.

Prefiro aquelas feitas por "arquitetos de ruínas", valendo-me de Machado de Assis na caracterização de um de seus personagens menores.

* COSTA, Sérgio Roberto. Dicionário de gêneros textuais. Belo Horizonte: Autêntica, 2008

BG de Hoje

O que é necessário para criar um clássico do rock'n'roll ? Alguns elementos básicos: entre eles, acho, é preciso um riff de guitarra poderoso, inesquecível. E não consigo me lembrar agora de outro tão indefectível quanto o de Jumpin' Jack Flash, dos ROLLING STONES.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Pessimismo condensado

Memórias póstumas de Brás Cubas* é considerado por muitos o ponto de inflexão na obra de Machado de Assis, momento em que o escritor passa a produzir seus textos mais artisticamente elaborados. De fato, esse romance, publicado em 1881, ao menos do ponto de vista da forma, é estruturado de maneira nada usual, sobretudo se o compararmos a outras obras da ficção nacional da época. As constantes mudanças de ritmo na narrativa - perfeitas para seus capítulos curtos - fazem desse livro o palco ideal para algumas das mais célebres frases criadas por Machado de Assis. Roberto Schwarz (no livro Um mestre na periferia do capitalismo**), ressaltou que

"[...] a narrativa passa do trivial ao metafísico, ou vice-versa, do estrito ao digressivo, da palavra ao sinal (o capítulo à moda shandyana, feito de pontinhos, exclamações a interrogações), da progressão cronológica à marcha ré no tempo, do comercial ao bíblico, do épico ao intimista, do científico à charada, do neoclássico ao naturalista e ao chavão surrado etc. etc.."

O personagem Brás Cubas também é visto como um legítimo representante da parasitária oligarquia brasileira típica do século XIX. E é possível, como provaram Schwarz (no estudo acima mencionado) e outros críticos, fazer uma profunda análise sociológica a partir do romance.

Contudo, penso que Memórias póstumas... não deixa de ser por isso uma sensacional história sobre o egoísmo.

. . . . . .

Durante a leitura desse romance não é difícil constatar: Brás Cubas tem tudo para ser odiável, mas está longe de ser odioso.

A "simpatia" do narrador-personagem decorre, em grande parte, do lugar de onde provém sua narração: o pós-morte, único modo de diminuir sua hipocrisia.

O famoso último capítulo do romance consegue condensar toda a veleidade do protagonista - veleidade esta que proporciona o esquema narrativo da obra - , mas, principalmente, nos expõe seu arraigado egoísmo:

"Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplastro, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais; não padeci a morte de Dona Plácida, nem a semidemência do Quincas Borba. Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e conseguintemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: - Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria".

A última frase - concisa, direta e impactante -, entretanto, revela ainda outro elemento: um pessimismo imenso. Porém, julgo que esse pessimismo não é do narrador - um garoto mimado na infância, bon vivant na juventude e um ocioso entediado na maturidade - e sim do próprio autor, Machado de Assis. Criador falando pela boca de sua criação. A miséria de que fala o escritor é a da espécie humana como um todo.

* ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. 14 ed. São Paulo: Ática, 1990  [Série Bom Livro]

** SCHWARZ, Roberto. Um mestre na periferia do capitalismo: Machado de Assis. 4 ed. São Paulo. Ed. 34, 2000  [Coleção Espírito Crítico]

BG de Hoje

A canção abaixo tem, em minha opinião, o mais belo solo de guitarra elétrica do rock'n'roll. A este, só consigo encontrar parecidos, no sentido da beleza, o de Mick Ronson em Moonage Daydream, de David Bowie, ou o de Kirk Hammett em One, do Metallica. Ainda assim, acho que David Gilmour, do PINK FLOYD foi perfeito nesta: Comfortbly Numb.


terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Dinheiro (1)

Pedir dinheiro está, sem dúvida alguma, entre os atos mais desagradáveis e vexatórios que existem. Tal situação só não se torna mais humilhante se dispomos da cara-de-pau, por exemplo, de um Custódio, personagem do conto O empréstimo*, de Machado de Assis. "Esse Custódio nascera com a vocação da riqueza, sem a vocação do trabalho", informa-nos o narrador. O clima é de humor, mas não deixa de causar certo desconforto em quem lê a progressiva redução no valor do empréstimo - que implica a diminuição moral da personagem - até chegar a uma quantia ínfima. Insistente, de posse pelo menos do "jantar certo", Custódio, ao final da história, "apertava amorosamente os cinco mil-réis, resíduo de uma grande ambição, que ainda há pouco saíra contra o sol, num ímpeto de águia, e ora batia modestamente as asas de frango rasteiro."

Acaba sendo também engraçada - apesar de desesperadora - a cena em que Dimitri Karamazov suplica 3.000 rublos à Sra. Khokhlakova, para restituí-los à sua ex-noiva, e assim recuperar parte de sua honra. Sem poder verbalizar adequadamente seu pedido, já que era interrompido a todo instante pela tagarelice da mulher, o mais velho d'Os Irmãos Karamazov** recebe o despropositado conselho para ir trabalhar nas minas de ouro da Sibéria. Dostoiévski conduz a cena contrapondo, por meio do diálogo, a intensa agonia de Dimitri à cômica incompreensão da Sra. Khokhlakova.

Em A Idade da Razão***, Jean-Paul Sartre nos apresenta o pior tipo de pedido de empréstimo que pode ser feito: aquele que ocorre entre parentes; no caso, entre irmãos. O professor de filosofia Mathieu Delarue procura o irmão, Jacques, para que este lhe conceda 4.000 francos, a fim de poder pagar por um aborto, já que a namorada de Mathieu, Marcelle, estava grávida e, aparentemente, nenhum dos dois desejava que a gravidez prosseguisse. No romance, o professor de filosofia defende que o valor mais importante é a liberdade. Só que nessa passagem, pode-se perceber que essa liberdade tem diversos condicionantes, entre eles, possuir ou não dinheiro. Jacques chega a ser irônico diante das convicções de Mathieu: " - E há pior, você, que cospe na família, você se aproveita do parentesco para dar facadas. Sim, porque afinal não virias a mim se eu não fosse teu irmão." Nem preciso dizer que Jacques recusa o empréstimo, convicto de que faz um favor ao parente.

Mas é no comovente conto O pedido****, de Rubem Fonseca, que essa relação entre quem pode emprestar e quem necessita pedir é retratada de forma mais humanamente triste. Entre as duas personagens - Joaquim Gonçalves e Amadeu Santos - havia um desentendimento surgido por motivo banal e que será suficiente para que um decida acabrunhar ainda mais o outro, ambos homens já idosos. O empréstimo é recusado, por causa de uma pergunta inofensiva. Assim Fonseca termina o excelente conto:

"Eu não sabia... disse Amadeu tristemente. Antes um filho morto, ele pensou. E uma lágrima seca, feita quase somente de sal, escorregou do seu olho, uma lágrima pelo filho dele e pelo filho de Joaquim.
Quando viu a lágrima brilhante escorrendo lentamente pela face de Amadeu, Joaquim calou-se constrangido. Lentamente Amadeu levantou-se e, antes de sair caminhando com dificuldade, disse, adeus.
Joaquim ficou sentado um instante curto. Eu não sou essa pessoa, ele pensou envergonhado com a sua mesquinhez, e correu em direção à porta da rua gritando, Amadeu! Volta, eu te dou o dinheiro, volta!
Mas ao chegar à rua, ela estava deserta. Joaquim ainda gritou o nome do amigo algumas vezes, enquanto escorriam pelo seu rosto lágrimas abundantes e úmidas de homem gordo e forte."

Poucas coisas distanciam tanto um ser humano do outro quanto a quantidade de dinheiro que se tem ou que não se tem.

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* ASSIS, Machado de. Papéis avulsos. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2005

** DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Os Irmãos Karamazov. (trad. Natália Nunes e Oscar Mendes). São Paulo: Abril Cultural, 1970 (Coleção Os imortais da literatura universal)

*** SARTRE, Jean-Paul. A Idade da Razão. (trad. Sérgio Milliet) São Paulo: Abril Cultural, 1979

**** FONSECA, Rubem. Contos reunidos. São Paulo: Companhia das Letras, 1994