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sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Adoecimento docente (II)



Volto a falar do adoecimento que vem afligindo boa parte dos trabalhadores da educação do Brasil nas últimas décadas. Em postagem anterior, tratando do tema, mencionei o projeto denominado Condições do trabalho e suas repercussões na saúde dos professores da educação básica no Brasil. "Encomendada" pela Fundacentro (Ministério do Trabalho e Emprego) e parcialmente financiada pela Secretaria de Educação Básica (MEC), a pesquisa teve a coordenação de duas professoras da Unicamp - Aparecida Neri de Souza e Márcia de Paula Leite - contando, entretanto, com a colaboração de profissionais de outras instituições na equipe do projeto.

Como disse noutra oportunidade, pode-se ter uma breve exposição do que foi este estudo através de matéria publicada no  Jornal da Unicamp* (disponível aqui). Um dos aspectos do ofício do professor , observado na pesquisa, diz respeito à

"necessidade [...] do estabelecimento de um vínculo afetivo e emocional para o exercício da atividade docente. Entretanto, o trabalho [de pesquisa] sugeriu que este vínculo está sendo bloqueado pelo jogo de interdições que caracterizam a atuação dos profissionais da educação. ' Isso define o aparecimento do sofrimento psíquico, que ocorre  quando o investimento, afetivo, emocional e cognitivo, não tem retorno, como nas relações entre professor e aluno',  exemplifica [uma das coordenadoras do estudo, Aparecida] Neri. ' Mas isso não fornece base e argumentos fortes para responsabilizar a qualificação da força de trabalho dos profissionais da educação pelas mazelas e pela baixa qualidade do ensino no Brasil', esclarece" [grifos meus].

Já declarei que considero a  frustração  a característica mais marcante do trabalho educacional na atualidade (falo apenas da educação básica, na qual estão os trabalhadores que enfrentam o touro à unha, de verdade). Não há sentimento de realização naquilo que fazemos (há tempos não experimento essa sensação). Parte expressiva dos usuários (pais e mães, indiretamente, e os estudantes, filhos deles, diretamente) nos desrespeita, todos os dias, sem constrangimento algum.

Que males contribuem para o adoecimento das(os) professoras(es), o principal segmento entre os trabalhadores do setor educacional? Segundo a pesquisa:

" [...] exposição a temperaturas inadequadas, ruídos, superlotação das salas, cansaço extremo pelas longas jornadas de trabalho, dupla jornada das mulheres, falta de tempo para si e para se atualizarem, angústia pelas exigências sociais em termos de atividades, complexidade das tarefas aliada à falta de recursos, problemas sociofamiliares dos alunos, ritmo de trabalho, multiplicidade de tarefas simultaneamente às posturas desconfortáveis, pouca frequência de pausas, falta de valorização, burocratização das atividades, falta de diálogo com a administração das escolas e expansão dos contratos de trabalho temporários e eventuais" [grifei os que, pessoalmente, mais me incomodam].

Quais sintomas esse processo de adoecimento provoca? A pesquisa lista vários, mas vou destacar apenas um trecho da matéria do Jornal da Unicamp:

" Esse mal-estar passa a se manifestar em sentimentos negativos intensos como angústia, alienação, ansiedade e desmotivação, além de exaustão emocional, frieza perante as dificuldades dos outros, insensibilidade e postura desumanizada. A profissão docente é hoje considerada como uma das mais estressantes, uma profissão de risco, conforme a Organização Internacional do Trabalho (OIT)".

Não tenho dúvida de que me tornei um ser humano pior desde a minha entrada profissional no serviço educacional público (e olha que nem estou na sala de aula...).

Na próxima atualização, começo a comentar o livro que resultou do projeto Condições de trabalho e suas representações na saúde dos professores na educação básica do Brasil.
_____________________
* Por que os professores adoecem? Jornal da Unicamp. Campinas, Ano XXIV, n. 447, 9/22 nov. 2009. Disponível em <http://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/novembro2009/ju447_pag0607.php#> Acesso em 25/10/12 


BG de Hoje

Dias atrás me referi a uma ligeira confusão arrumada no boteco por dizer  que considerava Aldir Blanc um letrista melhor do que CHICO BUARQUE. Para botar água na fervura, o BG de hoje será Hino de Duran, uma das dezenas de excelentes canções de Buarque, e que, por diversos motivos, tenho ouvido muito nos últimos dias. No vídeo, o cantor/compositor está acompanhado dos Paralamas do Sucesso, no saudoso programa de TV Chico & Caetano.


segunda-feira, 11 de maio de 2009

A solidão e as cidades


"Estou cercado de olhos,
de mãos, afetos, procuras.
Mas se tento comunicar-me,
o que há é apenas a noite
e uma espantosa solidão".

Carlos Drummond de Andrade, no poema A Bruxa



Dia desses, ouvindo uma das mais belas canções de Chico Buarque (As vitrines*) fui possuído pela lembrança de uma pessoa por quem tenho imensa afeição e que atualmente se encontra, mais até do que a distância geográfica - concreta e existente -, muito longe de mim.

Lembrei-me também - e é isso o que importa aqui, afinal - de um poema de Ferreira Gullar, parte integrante daquele que é, talvez, o seu mais popular livro (e, na minha opinião, o melhor), Dentro da noite veloz, lançado na década de 1970. Reencontrei o texto numa reunião de sua obra** adquirida no ano passado: o poema em questão é Pela rua.

Tanto em Pela rua quanto n'As vitrines os dois poetas tratam, de maneira invulgar, de tema bastante frequente: os encontros e (principalmente) os desencontros que ocorrem todos os dias, todas as horas, nas grandes cidades; "cidade" que "era um vão" nas palavras de Chico Buarque; e "cidade" que "é grande/ tem quatro milhões de habitantes e tu és uma só", nos versos de Gullar. Enxerga-se todo o complexo tecido urbano a partir da relação deste com o "objeto" de estima (o nosso e o deles).

Chico Buarque, mais sintético - até porque se trata da letra de uma composição musical - mas não menos extraordinário, encontra, na própria paisagem da cidade, os meios para fixar-se numa individualidade: "os letreiros a te colorir/ embaraçam a minha visão"; e, mais adiante: "nos teus olhos também posso ver/ as vitrines te vendo passar".

Ainda que elabore versos como "cruzas a rua/ miragem/ que finalmente se desintegra com a tarde acima dos edifícios/ e se esvai nas nuvens", Ferreira Gullar, em Pela rua, prefere enfocar a multiplicidade que caracteriza o espaço urbano e como isso se liga à pessoa desejada:

"Em algum lugar estás a esta hora, parada ou andando,
talvez na rua ao lado, talvez na praia
talvez converses num bar distante
ou no terraço desse edifício em frente,
talvez estejas vindo ao meu encontro, sem o saberes,

misturada às pessoas que vejo ao longo da Avenida.

Mas que esperança! Tenho

uma chance em quatro milhões".

É estranho, embora facilmente explicável, que as grandes cidades sejam lugares de muita solidão, mesmo com tantas e tantas pessoas nas ruas, nos bares. Suas multidões nos provocam a perversa ilusão de que estamos em companhia. Não obstante, não consigo imaginar outro tipo de lugar para viver.

E é curioso constatar que dois fatores essenciais para a convivência moderna - o princípio da impessoalidade (uma das poucas contribuições positivas que o capitalismo ajudou a sedimentar em parte de nosso comportamento e em um sem-número de relações sociais) e o senso de preservação da vida privada (no sentido de distingui-la da esfera pública) são também os responsáveis por esse sentimento de solidão. Contudo, aprofundar-se nessa reflexão foge (e muito) da capacidade analítica deste blogueiro.

Melhor é ouvir a canção e ler o poema.
___________
* do disco Almanaque, de 1981

** GULLAR, Ferreira. Toda poesia (1950 - 1999). 16 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2008