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quinta-feira, 10 de abril de 2025

Racionais MC's: aprendizado


Em 1998, com 26 anos de idade, eu ainda não entendia (ou não aceitava) que o precipício estava logo ali. Ignorando os indícios ou rejeitando os fatos, achava que certas ações individuais e determinadas peças dessa minha vidinha ordinária  -  o trabalho, um duvidoso percurso acadêmico, o envolvimento afetivo em que me encontrava, o próprio país - ainda podiam dar certo  e, na próxima década ou na seguinte, seria possível partilhar alguma felicidade. Sim, eventual leitor(a), eu conseguia ser ainda mais palerma naquela época.

No início daquele ano, não parava de ouvir dois álbuns bastante diferentes um do outro: OK Computer, do Radiohead, e Sobrevivendo no inferno, dos Racionais MC's. Lembro de ter comprado os dois CDs na mesma loja e a vendedora estranhar um mesmo freguês levando pra casa rock dito "alternativo" e rap nacional.

Fiquei extasiado com Karma Police (o clipe da canção era muito exibido na antiga MTV). No entanto, demorei algum tempo para verdadeiramente apreciar o disco por inteiro. A banda britânica se empenhou em um trabalho não palatável, não radiofônico: a melhor das 12 faixas que o compõem,  Paranoid Android, e a vinheta Fitter Happier são exemplos desse propósito. Não me tornei um fã ardoroso do Radiohead (para ser franco, acho Thom Yorke meio xarope), mas OK Computer  é um dos 30 discos que levaria comigo se fosse forçado a viver em uma ilha deserta (fugindo, sei lá, de um apocalipse zumbi). 

E quanto a Sobrevivendo no inferno ? 

. . . . . . .

 

Já mencionei aqui no blog que não posso, nem de longe, dizer que sou um ouvinte habitual de rap. No início da idade adulta, eu só conhecia algumas poucas coisas do Public Enemy (embora não compreendesse patavina de inglês naquela época) e, quanto ao cenário nacional, sabia, claro, quem eram Thaíde e DJ Hum, ainda que nunca tivesse escutado nada deles. Hoje, penso ter deixado de ser um peixe totalmente fora d'água (ouço prazerosamente, entre artistas ainda ativos ou não, Câmbio Negro, Black Alien, Missy Elliot, A Tribe Called Quest, Emicida e Little Simz), mas o rap continua não sendo um gênero musical de minha predileção. Devo admitir, contudo, que aprendi a respeitá-lo bastante, após a ebulição provocada pelo álbum lançado pelos Racionais no final de 1997.

Antes, porém, é preciso recuar mais um pouco no tempo. Em 1994, eu ouvira pela primeira vez Fim de semana no parque. Essa faixa integra o Raio X (do)Brasil - disco que permitiu a Ice Blue, Mano Brown, Edi Rock e KL Jay meter o pé na porta do cenário musical brasileiro. Eles tinham certa popularidade em São Paulo, sendo, porém, pouco conhecidos no restante do país: isso passaria a mudar a partir desse álbum - que também apresenta  Mano na porta do bar  e  Homem na estrada. Até então, só era possível ouvir gravações desse tipo na programação de estações como a Rádio Favela ¹ aqui de Belo Horizonte. Com o tempo, algumas outras emissoras locais arriscaram-se a tocá-las (sobretudo Fim de semana no parque ), reconhecendo o valor de Raio X(do) Brasil  e o interesse do público pelas músicas, iniciados no rap ou não.

Quando Sobrevivendo no inferno foi lançado, portanto, a expectativa era muito, muito grande. E creio que não houve motivo para grandes decepções. Pode-se dizer que o CD foi também um sucesso comercial, conseguindo chegar a 500 mil cópias oficiais vendidas alguns meses após o lançamento, um número impressionante, sobretudo quando lembramos que não havia uma major  por trás daqueles (então) quatro jovens negros sediados no Capão Redondo.

O disco é aberto com uma linda versão de  Jorge de Capadócia, de Jorge Ben(jor) - compositor/cantor recorrentemente citado na obra do grupo paulistano. Numa lamentável falha do encarte, contudo, não há informação sobre quem está cantando (seguramente, não é nenhum dos membros dos Racionais). O sample usado foi extraído de Ike's Rap II, de Isaac Hayes (mundialmente conhecido, penso eu, graças a Glory Box, do Portishead). Pouco depois surge a impactante e agressiva  Capítulo 4, versículo 3, aquela em que Mano Brown diz que sua "palavra vale um tiro" e ele "tem muita munição". O caráter de denúncia dos problemas sociais do país, particularmente os que afligem a população preta e pobre, marca indelével dos Racionais, aparece logo no início da faixa:

"60% dos jovens de periferiaSem antecedentes criminais já sofreram violência policialA cada quatro pessoas mortas pela polícia, três são negrasNas universidades brasileiras, apenas 2% dos alunos são negrosA cada quatro horas, um jovem negro morre violentamente em São Paulo"
 
( NOTA: Se serve de alento, pelo menos um desses dados mudou significativamente para melhor: hoje, passados 27 anos do lançamento do CD, em torno de 50% dos estudantes em universidades públicas são pretos ou pardos, embora certos cursos ainda não contem com um número expressivo de indivíduos pertencentes a esse segmento ) 

A mensagem dos Racionais, endereçada principalmente para os jovens da periferia, "os manos da Baixada Fluminense à Ceilândia", os que habitam "de Guaianases ao extremo sul de Santo Amaro", dessa vez estava alcançando ouvidos além da quebrada. O  "mano que trampa debaixo do carro sujo de óleo/ ou que enquadra o carro forte na febre com o sangue nos olhos/ o mano que entrega envelope o dia inteiro no sol/ ou o que vende chocolate de farol em farol/ talvez o cara que defende o pobre no tribunal/ ou o que procura vida nova na condicional/ alguém no quarto de madeira, lendo à luz de vela/ ouvindo um rádio velho no fundo de uma cela"  continuavam a escutá-los, fielmente. Havia agora, contudo, um fato novo: as pessoas que costumamos chamar de formadores de opinião  deixaram de lado o preconceito contra a "música de maloqueiro" e começaram a prestar atenção também.
 
Destacaria ainda no álbum outras três faixas: Qual mentira vou acreditar, uma composição que conta com um elemento raríssimo - o humor -, em se tratando de Racionais; Diário de um detento, cujo clipe ganhou muito destaque na MTV; e Tô ouvindo alguém me chamar, outra demonstração de como esses caras são bons em construir uma história (feito similar já tinha ocorrido na memorável  Homem na estrada ). Para não ficar só no enaltecimento, um moralismo meio pueril encarquilhado nalguns versos (algo surpreendente, se pensarmos no teor subversivo da maioria dos outros), além de misoginia e machismo nada disfarçados (afinal, são os mesmos caras que compuseram Júri Racional e, claro, a infame Mulheres vulgares ), são os pontos negativos.
 
Penso que o poeta Tarso de Melo fez uma  análise certeira do significado desse disco, quando escreveu ²:
"[...] Sobrevivendo no inferno é uma pancada – musical, cultural, histórica, política, poética. Para entender a força dessa pancada, a filósofa Djamila Ribeiro usa uma imagem muito precisa: organizar o ódio. Os Racionais se tornaram e se mantiveram e cresceram como Racionais porque souberam organizar o ódio. Não reagiram da forma autodestrutiva como o sistema previa: se armaram de ritmo e poesia e partiram para o ataque – fúria e baile".
 
Em 2002, eles lançariam Nada como um dia após o outro dia, contendo, entre outras, Negro Drama e Vida Loka, mas já sem o efeito avassalador do trabalho precedente. 

Se  OK Computer  serviu para reiterar minha convicção de que a arte é o único lugar restante para a redenção e o reconforto dos "iguais em desgraça", como cantou Cazuza,  Sobrevivendo no inferno, mais do que isso, ajudou a enterrar de vez as ilusões que eu ainda mantinha naquele afastado ano de 1998.
 
. . . . . . .
 
 
Sem exagero, foi um lance tremendo.

O fato de uma instituição consagrada ao saber formal no seu nível mais elevado (de outra maneira, não chamaríamos de ensino superior) ter concedido tal distinção a um grupo originário da periferia pouco escolarizada, cuja trajetória artístico-profissional passou ao largo dos  campi  universitários, é muito bacana, claro, mas não é isso o que há de mais expressivo nesse acontecimento, em minha opinião. Vou tentar me fazer entender.
 
Todos estamos presenciando o uso maléfico da internet, principalmente nas mídias sociais. Por causa disso, esquece-se, por vezes, o quão revolucionária é essa tecnologia.
 
Questões urgentes, até então evitadas no amplo debate público - relatos de violência policial, evidenciação de práticas/discursos racistas e discriminatórios, crítica da ausência de representatividade de determinados grupos sociais, etc. - conseguiram ganhar repercussão dentro da sociedade graças à web e, forçoso admitir, às mídias sociais (pelo menos na fase inicial), deixando de se restringir apenas ao esforço de uns poucos ativistas espalhados aqui e ali ³.
 
Penso não ser possível separar a consolidação dos Racionais MC's desse contexto. Obviamente, nada aconteceria sem o talento e a agudeza do olhar deles, mas o que estou querendo dizer é: a internet, cujo acesso, no final dos anos 1990, começava a chegar progressivamente a mais indivíduos e entidades, foi de inestimável auxílio para que o recado do grupo alcançasse mais pessoas (até mesmo possibilitando a produção de milhares de cópias piratas de Sobrevivendo no inferno ). Mais manos e manas de diferentes lugares conseguiram construir pontes uns com os outros e, em muitas ocasiões, a música dos Racionais era um dos elementos mais importantes nessa aproximação.
 
A iniciativa de conferir o título de doutor Honoris Causa partiu dos docentes Jaqueline Lima Santos, Daniela Vieira dos Santos e Omar Ribeiro Thomaz, mas creio não ser equivocado dizer que a inserção desses artistas primeiramente nos aparelhos de som das periferias e posteriormente na discussão dos mais intelectualizados, cada vez mais sensibilizados para questões como as que mencionei acima, tudo isso graças a interconexão possibilitada pela web, acabaria tornando uma homenagem deste tipo quase uma questão de tempo. E fico feliz, sendo um cara negro, que a Unicamp realmente tenha dado esse passo.
________________
¹ Vale a pena fazer aqui um breve comentário sobre a Rádio Favela. Nascida em 1981, com equipamentos improvisados e de forma clandestina dentro do Aglomerado da Serra em BH, a Rádio Favela durante décadas teve muita dificuldade para se manter, sobretudo pela ação da polícia. Hoje, legalizada desde o início dos anos 2000, a emissora passou a ser conhecida como Autêntica FM e cada vez mais opta por seguir o padrão de apresentação das outras. Uma pena.
 
² MELO, Tarso de. Sobrevivendo no inferno: ainda e sempre. Cult, São Paulo, n.241, dez. 2018 Disponível em: https://revistacult.uol.com.br/home/sobrevivendo-no-inferno-racionais/. Acesso em: 31/03/2025
 
³ Nem tudo são flores, porém. Dessa atuação, originou-se o que eu chamo, tentando fazer piada, de extrema militância, formada por indivíduos cheios de certezas e declarações peremptórias que tornam o debate muitas vezes difícil e infecundo, apesar de se acharem sujeitos de mente aberta.

BG de Hoje

Ao citar os destaques de Sobrevivendo no inferno, dos RACIONAIS MC's , esqueci de incluir   Fórmula mágica da paz. Gosto dela só por causa da batida hipnotizante construída sobre um sample retirado de Attitudes, do grupo de soul  e funk The Bar-Kays. 

terça-feira, 28 de setembro de 2021

Sobre a propalada "cultura do cancelamento"

[Postagem atualizada em 13/10/2021]


Penso que o chamado cancelamento às vezes mostra-se pouco razoável em virtude de excessos cometidos por uma parte dos(as) adeptos(as) da prática ¹.

Em alguns casos - friso, em alguns casos -, certas pessoas a serem canceladas não são suspeitas/acusadas de agressão física, assédio, crime sexual, crime contra a vida, não difamaram, não caluniaram, não insultaram, não mentiram, não ameaçaram outrem, não promoveram discurso de ódio. Essas pessoas também não exorbitaram no seu direito à liberdade de expressão. Em alguns casos, o que esses indivíduos fizeram foi apenas realizar um ato, dizer algo ou manifestar uma opinião que está fora de um regimento bastante peculiar, não compartilhado - mas seguido de forma estrita - pelo(a) zeloso(a) "cancelador(a)".

O resultado é que, em várias ocasiões, interdita-se o debate, mesmo entre indivíduos que compartilham visões de mundo bem próximas e que defendem compromissos éticos similares. Isso sem falar no opróbrio que pode atingir a pessoa cancelada, ainda que ela não tenha - repito - sido acusada/considerada suspeita de agressão física, assédio, crime sexual ou contra a vida, difamado, caluniado, insultado, mentido, ameaçado outrem, promovido discurso de ódio ou exorbitado no seu direito à liberdade de expressão. NOTA: Isto posto, não estou alheio à velhacaria de determinados jornalistas, políticos, influenciadores digitais e até acadêmicos que, com desonestidade intelectual (e, não raro, má-fé), contaminam o debate público apenas para vencer a disputa ideológica.

Na contemporaneidade, é magnífico que vozes até então impedidas de falar e comunidades tornadas invisíveis por opressões diversas consigam ser ouvidas e reconhecidas no espaço público (e é preciso admitir o papel das mídias sociais nesse processo). É formidável também que o trabalho organizado de ativistas consiga, às vezes, fazer com que celebridades, políticos e até grandes empresas com enorme poder sejam mais responsáveis e conscientes em suas ações e declarações ². Entretanto, a disposição para o "cancelamento", uma das resultantes desse ativismo, pode estar fazendo com que a livre troca de informações e ideias se torne mais restrita, como afirmam os signatários daquela famosa (e duramente criticada) Carta sobre justiça e debate aberto , publicada em julho de 2020 (entre os que a assinam, destaco Margaret Atwood e Salman Rushdie). "Embora esperemos isso da direita radical [a restrição da livre troca de informações e ideias], a censura também está se espalhando mais amplamente em nossa cultura: uma intolerância a pontos de vista opostos, um furor para a vergonha pública e ostracismo e a tendência de dissolver questões políticas complexas em uma certeza moral cegante", lê-se em determinado trecho.

Esse, aliás, é o aspecto que mais me deixa agastado com a propalada "cultura do cancelamento": o(a) "cancelador(a)" não duvida nem por um segundo da sua superioridade (pior, da sua infalibilidade) moral em relação a toda e qualquer pessoa que não se ajuste (nem que seja só um pouco) ao seu regimento.

Eu havia escrito e publicado um texto sobre esse tema no ano passado. Decidi excluí-lo, porém, porque não me agradou. Aí, no último domingo, dei de cara com esta excepcional crônica de Antonio Prata, publicada na Folha de S. Paulo. Tenho obrigação de reproduzi-la aqui, pois retrata bem um pouco do que penso sobre o assunto.

(Obrigado mais uma vez, Antonio Prata, um dos pouquíssimos motivos que me fizeram voltar a assinar o deplorável jornal da família Frias)


CANCELAMENTOS POSSÍVEIS
Tudo abaixo é ficção; menos, talvez, a última frase
Antonio Prata


J. foi o primeiro antropólogo a traduzir os fundamentais cânticos fúnebres da língua Baruna. Num debate entre J. e o pajé Wa’am’biipi, parte da comemoração pela demarcação das terras Baruna —vitória para a qual os trabalhos e o ativismo do antropólogo não podem ser desconsiderados—, alguém gritou da plateia: “usurpador!”. Tratava-se de M., membro da bancada ativista de São Joaquim D´Oeste. Segundo M., receber os louros pela tradução de uma obra indígena e comemorar a demarcação ao lado do pajé fazia de J. a versão intelectual dos Pizarros, dos Cortéses, dos Pedro Álvares Cabrais, um “neoextrativista dos bens culturais ameríndios”.

Em alguns meses, a campanha “antitradução”, corrente segundo a qual apenas um membro de sua própria etnia, aprendendo uma língua alheia, poderia verter para ela seu idioma, levou J. de herói a facínora. J. foi afastado da faculdade. Seus artigos encomendados por publicações acadêmicas foram cancelados.

Com o caso J., M. acabou ficando bombadinho nas redes e foi filmado numa praça batendo boca com a namorada. Surgiu então uma campanha barulhenta exigindo a expulsão de M. da bancada ativista de São Joaquim D´Oeste, pois tratava-se de um “machistx em pelx dx cordeirx”. “Trata as mulheres com a mesma opressão colonialista que finge combater! Lixo humano!”.

M. e a namorada, com quem tinha feito as pazes na mesma tarde, na mesma praça, acharam que seria uma boa estratégia divulgar a foto dos dois num sex-shop, segurando uma cinta peniana, com a qual, revelariam, ela costumava penetrá-lo. Provariam, assim, o quanto M. estava, “através da desdomesticação heteronormativa colo-colonial”, engajado “na subversão dos afetos patriarcais”.

O brinquedo erótico, porém, tinha tiras de couro e suscitou a ira de ativistas veganos, que lançaram nas redes montagens de imagens do casal sobrepostas a de bois ensanguentados em matadouros, trespassados por enormes cintas penianas. Uma semana depois, toda a bancada ativista de São Joaquim D´oeste renunciou ao mandato — dando mais espaço, aliás, para a vereança ruralista, dona dos abatedouros.

Nas redes, os ruralistas chamaram M. de homossexual. M. disse que, se fosse, seria feliz, pois na Grécia clássica e em Roma, por exemplo, relações sexuais entre homens não eram nenhuma vergonha, eram motivo de orgulho.

M. certamente não estava à par das últimas polêmicas sobre o período clássico. Como era comum, àquela época, homens feitos terem relações sexuais com mancebos, Sócrates, Platão, Aristóteles, Ésquilo, Sófocles, Aristófanes e companhia não passavam de pedófilos, abusando de menores “no gozo perverso do privilégio gerontocrático”. Gregos e latinos foram cancelados.

Há quem diga que as únicas obras dignas de mérito em toda a história do pensamento são os livros da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. Uma tendência mais recente, contudo, contesta Chimamanda ferozmente, por ter se mudado para os Estados Unidos e escrever em inglês, não em uma das 510 línguas atualmente faladas no país africano. “Feminista e antirracista sendo filha de professor universitário e ganhando em dólar, é fácil”, escreveu um membro do movimento #fuckfakeafrican —em seu iPhone, nos Jardins. “Mas e as mulheres que ficaram na Nigéria? As que não têm o auxílio imperialista de uma Chimamanda? O palanque etnocêntrico de um J.? O privilégio machista e especista de um M.? Todo o lobby branco dos gregos e latinos? Quem as lê? Quem as enxerga, sequer?”.

A. escrevia na Folha de S. Paulo, até que.

__________

¹ Sendo realista, contudo, não acredito que haja um número expressivo de indivíduos engajados, metódica e sistematicamente, no tal cancelamento, como se se tratasse de ações orquestradas (não me surpreenderia, porém, se isso acontecesse eventualmente). Em resumo: vejo a "ação de cancelar" mais como uma disposição do que como um procedimento calculado.

² Essa passagem me faz recordar uma postagem que publiquei aqui no Besta Quadrada em 2016, defendendo o chamado politicamente correto: Não se pode esquecer que somos seres de linguagem: discutindo o politicamente correto.

BG de Hoje

"What do they want from me?/They never told me the failure I was meant to be". 
Sem mais a acrescentar.
SLIPKNOT, People = Shit

sábado, 28 de outubro de 2017

Luis Fernando Verissimo e a sinceridade de um escritor profissional (II)


Na semana passada fiz uma mistureba daquelas aqui no Besta Quadrada.

Se o(a) eventual leitor(a) tiver a amabilidade de conferir a postagem anterior, verificará que iniciei o texto com duas citações do filósofo e crítico literário francês Maurice Blanchot (extraídas de um ensaio¹ publicado, creio eu, em 1949), nas quais há reflexões sobre a condição dos escritores (lá, na acepção de literatos). A seguir, mencionei uma entrevista de Luis Fernando Verissimo ao jornal Extra Classe e comentei o fato do autor gaúcho habitualmente ter aspirações modestas como artista, a despeito de seu talento. Ao enfatizar que Verissimo é reconhecido sobretudo por escrever crônicas, obstinei-me - não sei por que cargas d'água - em estabelecer se estas deveriam ou não ser consideradas literatura, o que me volveu para outra questão ainda mais ampla: afinal, que diabos seria a própria literatura? Retornei, então, a Maurice Blanchot e ao seu ensaio A literatura e o direito à morte, observando que o crítico francês, influenciado por Martin Heidegger, acreditava que o ideal da escrita literária é "nada dizer, falar para nada dizer" - expressar, pois, um vazio. Assim sendo, como localizar a literariedade de um texto, se é que isso existe? Como detectá-la nas crônicas? Por que, para muitos, a crônica teria menos "investidura" literária do que outros gêneros? Como se vê, as perguntas assomam. Porém, ao invés de respondê-las, fui citar outro trecho da entrevista de Luis Fernando Verissimo, no qual ele afirma nunca escrever para si, querendo dizer com isso que trabalha seu texto visando o público leitor. Algo execrado por Maurice Blanchot: segundo ele, as obras feitas para serem lidas acabam não sendo lidas por ninguém. Mas, quando paramos para pensar, percebemos que esse ninguém a quem o afetado pensador francês se refere são aquelas raras (e privilegiadas) pessoas que tiveram uma educação literária como a dele ou que compartilharam do mesmo substrato cultural no qual ele cresceu. Senti que precisava desvencilhar-me do enfoque excludente de Blanchot.

E aqui estamos. 

Meu objetivo hoje é apresentar um outro conceito de literatura, para, a partir deste, defender o genuíno lugarzinho da crônica junto aos demais gêneros literários. Mantenho também, desde a postagem anterior, a intenção de desmitificar um pouco o ofício dos(as) escritores(as) e, para isso, as declarações de um autor nada deslumbrado como Luis Fernando Verissimo serão muito oportunas.

. . . . . . .

No livro Teoria da Literatura: uma introdução ², de Terry Eagleton, encontramos a seguinte passagem:

"John M. Ellis [atualmente professor de Literatura Alemã na University of California, Santa Cruz] argumentou que a palavra 'literatura' funciona como a palavra 'mato': o mato não é um tipo específico de planta, mas qualquer planta que por uma razão ou outra, o jardineiro não quer no seu jardim. 'Literatura' talvez signifique exatamente o oposto: qualquer tipo de escrita que, por alguma razão, seja altamente valorizada. Como os filósofos diriam, 'literatura' e 'mato' são termos antes funcionais do que ontológicos: falam do que fazemos, não do estado fixo das coisas. Eles nos falam do papel de um texto ou de um cardo num contexto social, suas relações com o ambiente e suas diferenças com esse mesmo ambiente, a maneira pela qual se comporta, as finalidades que lhe podem ser dadas e as práticas humanas que se acumularam à sua volta. 'Literatura' é, nesse sentido, uma definição puramente formal, vazia. Mesmo se pretendermos que ela seja um tratamento não-pragmático da linguagem, ainda assim não teremos chegado a uma 'essência' da literatura, porque isso também acontece com outras práticas linguísticas, como as piadas".

A literatura não é uma coisa - não é um ente com a mesma, digamos, "densidade" ontológica das rochas ou das células do nosso corpo, por exemplo. Também não seria o caso de classificá-la como algo etéreo, inefável. É claro que o literário se dá por meio da linguagem, sendo os diversos idiomas do mundo o seu sustentáculo. Muitos estudiosos, inclusive, entendem a literatura como uma forma peculiar no uso de um sistema linguístico (o tal "tratamento não-pragmático" mencionado acima), empregando propositalmente determinados artifícios e, com isso, transformando, intensificando ou mesmo deformando esse sistema (Terry Eagleton cita aquele famoso aforismo de Roman Jakobson, segundo o qual a literatura seria uma "violência organizada contra a fala comum"). No momento, interessa-nos mais de perto, porém, a sugestão de que um texto literário é aquele ao qual atribuímos um alto valor, distinguido-o do conjunto dos outros textos produzidos na sociedade. E isso gera "uma consequência bastante devastadora", segundo Terry Eagleton:

"Significa que podemos abandonar, de uma vez por todas, a ilusão de que a categoria 'literatura' é 'objetiva', no sentido de ser eterna e imutável. Qualquer coisa pode ser literatura, e qualquer coisa que é considerada literatura, inalterável e inquestionavelmente - Shakespeare, por exemplo - , pode deixar de sê-lo. Qualquer ideia de que o estudo da literatura é o estudo de uma entidade estável e bem definida, tal como a entomologia é o estudo dos insetos, pode ser abandonada como uma quimera. Alguns tipos de ficção são literatura, outros não; parte da literatura é ficcional, e parte não é; a literatura pode se preocupar consigo mesma no que tange ao aspecto verbal, mas muita retórica elaborada não é literatura. A literatura, no sentido de uma coleção de obras de valor real e inalterável, distinguida por certas propriedades comuns, não existe".

Importante: sendo um qualificativo um tanto flutuante, o adjetivo literário não deveria ser empregado de forma taxativa ³.

A literatura é, pois, uma modalidade de escrita à qual costumamos atribuir um alto valor e que não partilha da estabilidade de outros objetos de conhecimento/estudo (como as rochas e as células, por exemplo). Sua vicissitude "resulta do fato de serem notoriamente variáveis os juízos de valor". Uma obra pode receber (ou perder) o status de literatura com a passagem do tempo, mudar de classe. Além do mais, "pode variar o conceito do público sobre o tipo de escrita considerado como digno de valor". Os critérios para avaliar uma boa escrita literária modificam-se dentro de uma cultura - o que era aclamado em um texto no século XVIII pode não ter nenhum apelo para o leitor atual, do mesmo modo que técnicas de escritura e composição hoje em alta sejam desprezadas daqui a algumas décadas.

"Isso" - escreve Eagleton - "não significa necessariamente que venha a ser recusado o título de literatura a uma obra considerada menor: ela ainda pode ser chamada assim, no sentido de pertencer ao tipo de escrita geralmente considerada como de valor. Mas não significa que o chamado 'cânone literário', a 'grande tradição' inquestionada da 'literatura nacional', tenha de ser reconhecido como um construto modelado por determinadas pessoas, por motivos particulares, e num determinado momento. Não existe uma obra ou uma tradição literária que seja valiosa em si, a despeito do que se tenha dito, ou se venha a dizer, sobre isso. 'Valor' é um termo transitivo: significa tudo aquilo que é considerado como valioso por certas pessoas em situações específicas, de acordo com critérios específicos e à luz de determinados objetivos. Assim é possível que, ocorrendo uma transformação bastante profunda em nossa história, possamos no futuro produzir uma sociedade incapaz de atribuir qualquer valor a Shakespeare. Suas obras passariam a parecer absolutamente estranhas, impregnadas de modos de pensar e sentir que essa sociedade considerasse limitados ou irrelevantes. Em tal situação, Shakespeare não teria mais valor do que muitos grafitos de hoje. E embora para muitos essa condição social possa parecer tragicamente empobrecida, creio que seria dogmatismo não considerar a possibilidade de que ela resultasse de um enriquecimento humano em geral".

(Bem, como pessimista crônico, este blogueiro, apesar de concordar com o crítico literário britânico a respeito da transitividade da noção de valor, não crê que os seres humanos progridam como espécie ou sociedade e, portanto, não acredita na possibilidade de melhoria aventada acima)

Todavia, não pensemos que os valores são cambiantes simplesmente por causa da arbitrariedade e dos caprichos de nossas inclinações pessoais. Valores tem muito menos a ver com nossa subjetividade e são menos particulares do que costumamos supor. Como observa Terry Eagleton, "todas as nossas afirmações descritivas se fazem dentro de uma rede, frequentemente invisível, de categorias de valores; de fato, sem essas categorias nada teríamos a dizer uns aos outros". Além do mais, os juízos de valor "têm suas raízes em estruturas mais profundas de crenças, tão evidentes e inabaláveis quanto o edifício Empire State". Embora um pouco fora de moda hoje em dia, há uma palavra adequada para designar "essas estruturas mais profundas de crenças": ideologia ⁴.

. . . . . . .

A literariedade de um texto, como acabamos de ver, é um valor atribuído, escorado, em última análise, nas diversas ideologias em circulação. Creio não ser difícil imaginar aquele que lê - seja um acadêmico ou crítico experimentado, seja um diletante sem maiores credenciais do que seu interesse, curiosidade ou paixão - nesse papel atribuidor. Mas e quanto àquele que escreve? Suponho que boa parte dos(as) autores(as), ao elaborarem seus textos - sejam estes romances, poemas, contos ou crônicas (porque, a esta altura, já não temos dúvida de que a crônica é um gênero literário, não é mesmo?) -, agem, intencional e conscientemente, para que sua escrita exiba certos elementos e traços passíveis de serem valorizados (e isso diz respeito ao aspecto verbal/formal do texto) como literatura, do mesmo modo que o fazem outros artistas nos seus respectivos campos.

Imagino, porém, que os artistas, independentemente do talento individual, não são capazes de produzir obras-primas o tempo todo. Noutras vezes, aquilo que o artista considera um trabalho estupendo pode não ir ao encontro daquilo que os atribuidores de valor - crítica, academia, imprensa, público em geral - têm em mente. Convém também lembrar que os artistas, até segunda ordem, estão sujeitos ao implacável capitalismo, assim como você e eu. E é nesse ponto que entra o tema do escritor profissional.

Parece haver certa vergonha (ou pudor, sei lá) da parte de muitos autores(as) em se assumirem como profissionais. Certamente não é o caso de Luis Fernando Verissimo. Em diversas ocasiões, até mesmo em algumas de sua crônicas, ele trata sem melindres dessa questão.

Já fui, noutros tempos, dessas pessoas que concebem a atividade literária como compromisso puramente artístico, sem qualquer transigência de natureza comercial. E isso é uma tolice! Nem todo(a) escritor(a) que "vende" é, necessariamente, um(a) mau(má) escritor(a) - embora muitos(as) o sejam. E vários(as) autores(as) populares ou bem sucedidos(as) nas livrarias não deixam de estabelecer para si padrões de escrita que avaliaríamos como literários, caso usássemos os critérios empregados no julgamento de obras mais "respeitáveis". Luis Fernando Verissimo, penso eu, é um desses.

Antes de terminar, gostaria de lembrar uma resposta do cronista gaúcho na entrevista ao jornal Extra Classe mencionada lá no início da postagem. Ele dissera, a respeito dos romances de sua autoria, que não tem grandes pretensões literárias. O entrevistador, então, pergunta: "Por escrever entretenimento?". E Verissimo diz:

"É, acho que sim. No Brasil é uma literatura considerada não muito respeitável, por isso os autores relutam em se dedicar a ela. Como não busco respeito... (risos). Mas é um gênero que precisa existir, até para a sobrevivência do mercado editorial".

Nós que gostamos de literatura temos a mania de só pensar na sublimidade da arte e não costumamos dar a devida atenção à dimensão material e mercadológica dessa atividade cultural. Por isso é sempre bom ouvir o que tem a dizer sobre isso sujeitos lúcidos e sinceros (além de talentosos) como Luis Fernando Verissimo.
__________
¹ BLANCHOT, Maurice. A literatura e o direito à morte. In: __________. A parte do fogo. Rio de Janeiro: Rocco, 2011. p. 309-351 [Tradução de Ana Maria Scherer]

² EAGLETON, Terry. Teoria da Literatura: uma introdução. 6 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006 [Tradução de Waltensir Dutra]

³ "Quando, deste ponto em diante, eu utilizar as palavras 'literário' e 'literatura' neste livro, eu o farei com a reserva de que tais expressões não são de fato as melhores; mas não dispomos de outras no momento", registra Terry Eagleton em seu livro

⁴ Eagleton faz ainda um importante acréscimo: "Não entendo por 'ideologia' apenas as crenças que têm raízes profundas, e são muitas vezes inconscientes; considero-a, mais particularmente, como sendo os modos de sentir, avaliar, perceber e acreditar, que se relacionam de alguma forma com a manutenção e reprodução do poder social".

BG de Hoje

Tenho gostado muito do som da banda potiguar FAR FROM ALASKA. Ouvindo direto nos últimos dias, sobretudo a faixa Cobra.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Luis Fernando Verissimo e a sinceridade de um escritor profissional (I)


Num ensaio cujo título é um tanto lúgubre - A literatura e o direito à morte ¹ -, publicado, se não me engano, no final dos anos 1940, o escritor e crítico literário Maurice Blanchot escreveu:

"Desde o seu primeiro passo, diz mais ou menos Hegel, o indivíduo que quer escrever é impedido por uma contradição: para escrever, precisa de talento para escrever. Mas nele mesmo os dons não são nada. Enquanto não se puser à mesa e escrever uma obra, o escritor não é escritor e não sabe se tem capacidade para vir a ser um. Só terá talento após ter escrito, mas dele necessita para escrever".

É possível que muitos(as) - talvez a maioria - dos(as) escritores(as) tenham estacado frente à contradição mencionada por Blanchot, nem que seja ao menos no início de suas trajetórias. "Terei jeito pra coisa?", perguntaram-se, hesitantes, nalgum momento. Mas só há um modo de saber: escrevendo. O texto resultante (a obra resultante) dirá se existe ou não talento. O ensaísta francês acrescenta:

"O escritor não é um sonhador idealista, não se contempla na intimidade da sua bela alma, não se enterra na certeza interior de seus talentos. Seus talentos, ele os põe na obra, isto é, necessita da obra que produz para se conscientizar deles e de si mesmo. O escritor só se encontra, só se realiza em sua obra; antes de sua obra, não apenas ignora o que é, mas também não é nada".

Maurice Blanchot tinha em mente neste ensaio os(as) escritores(as), digamos, com amplas veleidades literárias. Digo isso porque suas observações talvez pouco tenham a ver com autores mais modestos em suas aspirações artísticas, como Luis Fernando Verissimo, por exemplo. Ou talvez não. Vejamos.

Aos 81 anos, o escritor gaúcho acaba de doar parte significativa de seu acervo pessoal (incluindo textos não publicados, rascunhos, traduções, cartuns, etc.) para a Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), que, segundo ele, bem-humorado, vai compor "um cantinho ali da biblioteca" central do novo campus da instituição, recém-inaugurado em Porto Alegre. Sinal inequívoco de que o reconhecido trabalho de Luis Fernando Verissimo já faz parte da história (afinal, acervos do tipo costumam ser demandados por pesquisadores e estudiosos interessados na obra e vida dos autores). E, penso eu, também sinal de aclamação de seu talento, muito embora o criador d'O analista de Bagé e um dos idealizadores da Comédia da vida privada, mesmo após quase cinco décadas de carreira, não costume olhar para si como um literato, na acepção mais requintada do termo. Bem recentemente, em entrevista concedida no mês passado ao jornal Extra Classe, Verissimo declarou:

"A quase totalidade de meus romances foi feita por encomenda, só Os espiões (2009) que partiu de uma ideia própria, achei que era hora e fiz. Ficou direitinho. Mas meu preferido é Borges e os orangotangos eternos (Cia das Letras, 2000), que é um pouco melhor do que os outros. Não tenho, de verdade, grandes pretensões literárias".
Esse escritor, contudo, não se notabilizou nacionalmente por obras de grande fôlego (ao contrário do pai, Erico Verissimo) e sim por sua atividade de cronista. O que nos obriga a fazer a velha pergunta, meio embaraçosa, chata e deselegante, mas ainda não completamente vencida: "E a crônica, deve ser considerada Literatura ou não?" Mas melhor seria, pra começo de conversa, perguntar que diabos é a própria Literatura?

Voltemos a Maurice Blanchot.

Em seu ensaio, lemos:

"Constatamos com surpresa que a pergunta: 'O que é a literatura?' só recebeu respostas insignificantes. Mas existe algo mais estranho: na forma dessa pergunta, algo parece retirar-lhe toda a seriedade. Perguntar: O que é a poesia?, O que é a arte? ou mesmo: O que é o romance?, podemos fazê-lo e foi feito. Mas a literatura, que é poema e romance, parece ser elemento do vazio, presente em todas essas coisas graves, e sobre que a reflexão, com sua própria gravidade, não se pode voltar sem perder sua seriedade. Se a reflexão imponente se aproxima da literatura, esta se torna uma força cáustica, capaz de destruir o que nela e na reflexão se poderia impor. Se a reflexão se afasta, então a literatura volta a ser, com efeito, algo importante, essencial, mais importante do que a filosofia, a religião e a vida do mundo que ela abarca".

Por que perguntar o que é a literatura retiraria, aparentemente, a seriedade da própria pergunta, como pensava Blanchot? Bem, antes de responder, é preciso dizer de saída que o pensador francês foi muito influenciado por Hegel e, especialmente, por Heidegger, dois filósofos famosos pelas ideias meio herméticas e pelos escritos difíceis de ler. Mas procuremos simplificar.

Tentar encontrar o ser da literatura, buscar situá-la ontologicamente -  ou seja, responder, afinal, o que é a literatura -, não pareceria algo sério porque a literatura, segundo Maurice Blanchot, tem como ideal "nada dizer, falar para nada dizer". A literatura se liga a uma linguagem, claro, mas essa linguagem expressa, no fim das contas, o vazio, diz Blanchot, ao modo heideggeriano. Podemos definir determinadas formas de organização da linguagem e chamá-las literárias - romances, poemas, contos -, mas a essência do que responde pelo literário nelas mesmas nos escaparia.

Suponhamos que você receba uma folha de papel na qual esteja escrito, sem qualquer indicativo, apenas o seguinte:

"As coisas têm peso, massa, volume, tamanho, tempo, forma, cor, posição, textura, duração, densidade, cheiro, valor, consistência, profundidade, contorno, temperatura, função, aparência, preço, destino, idade, sentido. As coisas não têm paz".

É um texto literário ou não?

Adianto que sim.

Mas o que, precisamente, demonstra a sua literariedade?

A disposição formal do texto? Creio que não. Um léxico particularmente especial, raro, fora do comum? Menos ainda. Então o que é?

Penúltima parte de um ótimo livro de Arnaldo Antunes ², o poema reproduzido acima, se colocado numa folha de papel avulsa, sem indicação de autor, pouco diferiria de um texto convencional, não-poético. Mas há algo difícil de precisar (um nada? um vazio?) naquela organização de palavras que alguns de nós percebemos e interpretamos prontamente como literatura. Um fenômeno assim acontece com as crônicas?

O falecido jornalista (e político) Artur da Távola escreveu certa vez que a crônica é "a literatura do jornal. O jornalismo da literatura". Sérgio Roberto Costa, no seu Dicionário de gêneros textuais ³, afirma que a "crônica é o único gênero literário produzido essencialmente para ser veiculado na imprensa, seja nas páginas de uma revista, seja nas de um jornal. Quer dizer, ela é feita com uma finalidade utilitária e predeterminada: agradar aos leitores dentro de um espaço sempre igual e com a mesma localização, criando-se assim, no transcurso dos dias ou das semanas, uma familiaridade entre o escritor e aqueles que o leem".

Quanto ao estilo, "deve dar a impressão de naturalidade e a língua escrita aproximar-se da fala. Daí porque a crônica seja considerada por muitos críticos um gênero menor: aquela vontade de forma que todo grande artista possui termina subjugada pela necessidade de ser acessível a todos. Mesmo assim, alguns desses prosadores são capazes de alcançar uma linguagem de singular beleza".

Estariam todos os cronistas condenados a uma escrita destituída de qualidade artística por causa dessa "necessidade de ser acessível a todos", dessa obrigação de "agradar aos leitores", decorrente, por sua vez, da "finalidade utilitária e predeterminada" do gênero textual que produzem? É óbvio que não. Há centenas de textos - assinados por Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Rachel de Queiroz, pelo próprio Luis Fernando Verissimo, por Antonio Prata (na minha opinião, um dos melhores cronistas da atualidade), entre muitos outros - nos quais a composição e  o acabamento primorosos (entre outros elementos) não nos fazem duvidar de que se trata de arte literária. Ainda assim, dedos acusadores são apontados para os cronistas por estes fazerem demasiadas concessões ao leitor... Na entrevista anteriormente mencionada, quando perguntado se obedece a alguma metodologia quando escreve, Luis Fernando Verissimo não faz rodeios: "Escrevo sempre para ser publicado, nunca para deleite próprio. Só com esse foco. Nunca fiz isso de escrever para mim".  E ele não se sente nem um pouco incomodado. Seus leitores, idem. Sou remetido, então, a outra passagem de A literatura e o direito à morte:

"O autor que escreve especialmente para um público", diz Maurice Blanchot, "na realidade, não escreve: é esse público que escreve, e, por essa razão, esse público não pode mais ser leitor; a leitura o é apenas em aparência, no fundo é nula. Daí a insignificância das obras feitas para serem lidas - ninguém as lê. Daí o perigo de escrever para os outros, para despertar a palavra dos outros e descobri-los eles mesmos: é que os outros não querem ouvir suas próprias vozes, mas sim a voz de um outro, uma voz real, profunda, que incomoda como a verdade".

Ao que tudo indica, o critico francês, por meio desse ensaio, visava rebater a concepção de literatura engajada (e, portanto, assumidamente política), defendida por Jean-Paul Sartre em Que é a Literatura? (publicado originalmente em 1948). Percebe-se essa intenção no trecho "daí o perigo de escrever para os outros, para despertar a palavra dos outros e descobri-los eles mesmos" encontrado no excerto acima. No entanto, o que mais me chama a atenção é a sentença "Daí a insignificância das obras feitas para serem lidas - ninguém as lê". É um tipo de arrogância aristocrática - diríamos, nos dias de hoje, elitista - antipática até para um cara esnobe como Maurice Blanchot, não obstante seu traquejo intelectual. Ora, quando diz que ninguém lê as "obras feitas para serem lidas" (ou seja, textos artisticamente menos ambiciosos e, em boa parte dos casos, bastante populares), ele quer denotar, com o pronome indefinido ninguém, simplesmente o seguinte: nenhuma-daquelas-raras-pessoas-que-tiveram-uma-educação-literária-como-a-minha-ou-que-compartilham-do-mesmo-substrato-cultural-no-qual-cresci.

Luis Fernando Verissimo escreve para o público, escreve para ser lido. E como seria possível, se seguíssemos de perto o que diz Maurice Blanchot, afirmar que ninguém lê seus textos, quando sabemos ser o escritor gaúcho um dos mais estimados autores brasileiros? Pode-se contra-argumentar, contudo, lembrando que o trabalho de Verissimo não se encaixaria naquilo que o ensaísta francês considera ser literatura.

Precisarei, então, deixar pra lá Maurice Blanchot.

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Só agora, eventual leitor(a), estou me dando conta de que a postagem seguiu por direções não planejadas quando comecei a escrevê-la. O objetivo inicial era apenas destacar alguns pontos da entrevista de Veríssimo ao jornal Extra Classe, mas acabei enveredando por outros rumos, pois também tinha acabado de ler o ensaio A literatura e o direito à morte. E nem sei por que acabei juntando as duas coisas nesta mistura estranha.

Prossigo com a discussão na próxima semana, retomando de onde parei hoje e tentando tornar tudo um pouco menos confuso. Mas não garanto nada.
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¹ BLANCHOT, Maurice. A literatura e o direito à morte. In: _________. A parte do fogo. Rio de Janeiro: Rocco, 2011. p. 309-351 [Tradução de Ana Maria Scherer]

² ANTUNES, Arnaldo. As coisas. 9 ed. São Paulo: Iluminuras, 2000.

³ COSTA, Sérgio Roberto. Dicionário de gêneros textuais. Belo Horizonte: Autêntica, 2008.

BG de Hoje

Nos meus dias ruins (e estes suplantam, com folga, os dias bons) costumo escolher determinadas canções para ouvir pela madrugada afora e tentar aliviar a barra. Uma das que mais tenho escutado ultimamente é a linda Enjoy the Ride, do MORCHEEBA. Ah, importante dizer que essa faixa, na gravação, é interpretada pela cantora Judie Tzuke. A "titular" do Morcheeba, Skye Edwards, estava fora da banda em 2008, quando foi lançado o disco Dive Deep, do qual faz parte Enjoy the ride (Edwards retornaria algum tempo depois).

quarta-feira, 20 de abril de 2016

"Alma de bandido tímido" (I)



"Malditos são todos aqueles que dizem verdades incômodas. E Lima Barreto incomodava como ainda incomoda. O escritor que silencia já nasceu morto. O escritor que não incomoda acaba refestelado em cadeiras acadêmicas, glorificadas por outro extinto imortal. O escritor, enfim, bem comportado, toma chá às quintas-feiras. Lima Barreto tomava cachaça todos os dias. Às vezes, era obrigado a parar: tirava férias no hospício"


Helcio Pereira da Silva -Lima Barreto: escritor maldito




Numa crônica publicada em 1915*, no extinto jornal Correio da noite, Lima Barreto reclamava das características do (então) novo prédio da Biblioteca Nacional, cheio de "suntuosidades desnecessárias". Segundo ele, "o Estado tem curiosas concepções, e esta, de abrigar uma casa de instrução, destinada aos pobres-diabos, em um palácio intimidador, é das mais curiosas". Na sua opinião, "a velha biblioteca era melhor, mais acessível, mais acolhedora, e não tinha a empáfia da atual".

A preocupação do escritor é que "os mal vestidos, os tristes, os que não tem livros caros" dificilmente fariam uso de um espaço assim. É de se notar a agudeza do olhar de Lima Barreto: uma biblioteca pública (e esse é o caso da Biblioteca Nacional) deveria ser receptiva a qualquer um, principalmente aquelas pessoas que não têm condições de comprar livros (sobretudo nas primeiras décadas do século passado, quando esta mercadoria quase nunca chegava à mão do pobre). A pompa do prédio - quando o mais importante deveria ser a sua funcionalidade - constrange o visitante que não dispõe de boas roupas (o escritor, com ironia, diz: "Ninguém compreende que se subam as escadas de Versalhes senão de calção, espadim e meias de seda"). Uma biblioteca, a despeito de suas especificidades, é "uma casa de instrução", ou seja, um espaço para o aprendizado e o incremento cultural. Entretanto, vivemos num país onde a casca rutilante vale mais do que a polpa - que não é tão vistosa, é verdade, mas fundamental para a nutrição e sustentação do organismo...

Menciono essa crônica porque nela aparece uma breve definição (posteriormente bem conhecida) que Lima Barreto fez de si mesmo: "A minha alma é de bandido tímido". Os bandidos são geralmente ousados; não se vexariam de entrar num palácio mesmo que seu vestuário fosse considerado inapropriado para o local. O homem de letras, por seu turno, era ressabiado, inibido. Bandidos também empregam a violência – ocasional ou habitualmente. Mas e quando se trata de um “bandido tímido”?

Antes de responder a pergunta, tentemos compreender um pouco mais o autor.

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No volume dedicado a Lima Barreto na (boa e velha) coleção Literatura Comentada**, Antônio Arnoni Prado afirma que, no caso do autor de Recordações do escrivão Isaías Caminha,

“[...] fica difícil simbolizar os limites entre o intelectual profundamente consciente das questões políticas e sociais de seu tempo e o estilista que insistia em não ter estilo algum; entre o repórter extremamente impiedoso e mordaz, que atacava de frente o lado grotesco dos homens, e o mulato oprimido que chorava às escondidas na solidão de seu quarto, enchendo as páginas do diário de angústia, vergonha e ressentimentos”.

A sinceridade – ainda que filtrada pela construção literária – era um valor para Lima Barreto e a despeito da injusta pecha de desleixado (que o acompanhou durante anos, até mesmo após a morte), encontra-se

“em seus textos a moderna atitude do narrador que se recusava a ver o mundo de cima, a salvo das ameaças. Na sua 'alma de bandido tímido', a obra não preexistia ao processo que a originava, assim como não dependia mais de um estado de ser especial e singular para gerá-la. Ela acontecia aqui e agora, banalizada no tempo e no espaço do leitor, no curso das pequenas coisas apanhadas na rua, no acaso que se organizava, depois, em testemunho”, ainda de acordo com Arnoni Prado.

“Reabilitado” pela crítica literária a partir dos anos 1960, o escritor nunca dissociou a literatura da política e atreveu-se “a falar em nome do oprimido com a mesma ferocidade do opressor”. Mais que isso: “soube ver na burguesia legiferante a força reacionária que, no Brasil, impedia as reformas inadiáveis que os novos tempos exigiam. Desmascarou também a sua aliança com os plutocratas e latifundiários da aristocracia rural [...]”.

Basta observar a maneira de agir de nossos parlamentares no Congresso Nacional para ver como ele ainda hoje tem razão, iniciado o século XXI.

Como, porém, tentar mudar a dura realidade decorrente de nossos problemas sociais? Denunciá-los através da escrita é um modo; tornar o leitor da obra literária consciente da natureza destes, outro. Mas seria isso suficiente? A considerar os grandes traços excludentes de nossa estrutura social, a resposta é, obviamente, não.

Há outra resposta faltando, relativa à pergunta deixada em aberto lá no terceiro parágrafo. Por exigir um pouco mais de discussão, prometo-a para a próxima postagem.
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* A crônica intitula-se A Biblioteca e foi posteriormente incluída no livro Marginália, lançado em 1953 (31 anos após a morte do autor). Como a obra de Lima Barreto encontra-se hoje em domínio público, o livro pode ser encontrado em <http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1862> (Acesso em 15/04/16)

** PRADO, Antônio Arnoni. Uma literatura do povo para o povo. In: BARRETO, Lima. Lima Barreto. São Paulo: Abril, 1980. p. 100-104 (Coleção Literatura Comentada)

BG de Hoje

O Brasil, felizmente, tem uma boa tradição de canções cuja marca é seu conteúdo político. Pode-se dizer, sem dúvida, que é o caso de O ronco da cuíca, de JOÃO BOSCO e ALDIR BLANC. Composição primorosa, que entra diretamente na veia.

terça-feira, 10 de julho de 2012

TV Bola? Só falta essa...

 Detesto futebol. Como entretenimento, geralmente é chato. Como fenômeno sociocultural brasileiro, aí então é insuportável para os pobres coitados como eu que não têm a menor paciência para o tal "ludopédio". Nas últimas semanas o assunto saiu dos nichos "esportivos" (mas que só falam de futebol) e invadiu o restante do noticiário, por causa da final da Libertadores. Só se falava em Corinthians, Corinthians, Corinthians...

Foi aí que me lembrei de uma crônica sensacional do José Roberto Torero, chamada TV Bola *. Na abertura, o cronista fala do "espaço gigantesco no imaginário da sociedade" ocupado pelo futebol ; acredita que o fanatismo em torno dessa atividade aumentou graças à televisão e prevê que "logo teremos canais especializados num só time".

Num canal desse tipo, a programação conteria atrações como  " ' O gol nosso de cada dia '. Missa onde se reza pela boa sorte do clube"  ou  " ' Segredos de mulher '. Uma Maria Chuteira explica como fazer para agarrar seu jogador : truques de beleza, lugares onde encontrá-los e como saber se ele está bem de vida ou não".  As famigeradas  telenovelas não seriam dispensadas:  haveria " ' A goleira Isaura ' [...] A história de uma jogadora que luta para receber o passe livre ' e, às 21h, seria exibida " ' O Direito de Torcer ' [...] O personagem Albertinho Limonta luta para realizar seu grande sonho: ser centroavante do clube ' ".  De reality shows  a programas de culinária, tudo na TV Bola  giraria em torno do futebol.

Torero termina dizendo: "Uma TV assim pode parecer uma piada, mas daqui a algum tempo talvez seja coisa séria. Infelizmente".

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Ah, aproveitar para elogiar a ótima iniciativa da editora Objetiva/ Fontanar que organizou a coleção Para ler na escola, que conta com textos de autores como Roseana Murray, Ruy Castro, Ignácio de Loyola Brandão, Moacyr Scliar, João Cabral de Melo Neto, Luis Fernando Veríssimo, João Ubaldo Ribeiro, entre outros.

Só lamento que as edições não indicam a primeira publicação dos textos selecionados. Ainda assim, um produto editorial muito bom (até mesmo para presentear).

* TORERO, José Roberto. Crônicas para ler na escola. Rio de Janeiro: Fontanar, 2011. p. 67-68

BG de Hoje

Quanto mais feio, do quarteto carioca MATANZA. Pau na máquina!

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

"O que quer que um outro disser bem é meu"

A frase que intitula esta postagem é de Sêneca. Naturalmente, levando em consideração seu sentido, passa agora também a ser minha. Nada mais adequado para este blog no qual as citações brotam amiúde.

Sobre elas, Luis Fernando Verissimo* escreveu: "são uma espécie de testemunho insuspeito que a gente invoca para reforçar - ou pelo menos, para tornar mais respeitáveis - nossos argumentos". E passa então, comicamente, a discorrer sobre as citações falsas (o que há de mais saboroso nessa sua crônica):

"É difícil provar que uma citação não é verdadeira. Por isso você está livre pra inventar à vontade, sem limites. A não ser, é claro, os limites da honestidade. Mas estes andam muito elásticos ultimamente. Quem arriscará passar por ignorante, desafiando a legitimidade de uma citação? Basta que elas soem autênticas".

Você pode, assim, simular um saber que está longe de possuir, dotando o que escreve de uma aura profunda e inteligente. E pode ficar ainda melhor, sugere o humorista gaúcho:

"Para estar mais seguro, faça o seguinte: invente a citação e invente o seu autor. Escreva por exemplo: 'Na imortal frase de Raspail de Grunyére, na famosa carta que escreveu da prisão para Dindonet, 'les oiseaux, etc'. O etc. dá a entender que todos, claro, conhecem a frase a que você se refere e seria maçante repeti-la".

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Com intenção completamente distinta daquela manifestada por Verissimo, o ensaísta argentino Alberto Manguel (em artigo já mencionado aqui) também fala a respeito do ato de citar**. Lembrando dos movimentos urbanos de protesto, iniciados a partir do maio de 1968, que repudiavam o conservadorismo, ele faz a seguinte observação:

"Nas revoltas estudantis que sacudiram o mundo ao final da década de 60, uma das palavras de ordem, berradas aos professores da Universidade de Heidelberg foi  ' Her wird nicht zitiert! ' ' Nada de citações aqui! '.

Mas Manguel aponta o quanto essa reivindicação era equivocada:

"Os estudantes exigiam pensamento original, esquecendo que citar é continuar uma conversa do passado e dar contexto ao presente; citar é fazer uso da Biblioteca de Babel, citar é refletir sobre o que foi dito antes, pois, se não o fizermos, falamos no vácuo, onde a voz humana não faz som".

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Não me sinto nem um pouco incomodado em incluir, profusamente, longos trechos de outros textos, que acabam suplantando a "parte que me cabe nesse latifúndio". Como já disse Borges, "Que outros se jactem das páginas que escreveram; a mim me orgulham as que tenha lido".

E preciso confessar: há uma certa dose de vaidade em tornar públicas minhas leituras... Dane-se! Estou muito longe de ser santo...

P. S. E para que não recebam a pecha de falsas, as citações apresentadas nas postagens do blog são extraídas das referências incluídas nas notas, presentes ao final de quase todas as atualizações (como essas duas, logo abaixo).
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* VERISSIMO, Luis Fernando. Citações. In: ___________. O rei do rock. 4 ed. São Paulo: Globo, 1999

** MANGUEL, Alberto. O destino da leitura na era da web. Veja, São Paulo, n. 1681, 27 dez. 2000. Disponível em http://veja.abril.com.br/especiais/perspectivas/p_100a.html Acesso em 19 out. 2010

BG de Hoje

CAETANO VELOSO, acho eu, compôs poucos sambas "típicos" na sua longa carreira. Alguns deles são muito bons, como Gema. No vídeo abaixo, vemos TERESA CRISTINA acompanhada do músico baiano.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

"Todos têm a vidinha deles" (4)

No encerramento da postagem anterior escrevi o seguinte:

Diante deste cenário de extremo particularismo e concentração no círculo privado da existência - que gera, a meu ver, consequências danosas, entre elas, maior intolerância e enfraquecimento de vínculos de solidariedade suprafamiliar - acho que o ato de ler Literatura, por incrível que pareça, pode servir de atenuante.

Tentarei justificar esse argumento valendo-me de dois ótimos escritores: Luis Fernando Verissimo e Ana Maria Machado.

Em uma crônica apropriadamente intitulada Perigo*, Verissimo fala daqueles livros "que ensinam as pessoas a fazer sucesso". Sem usar o termo, refere-se a boa parte dos manuais chamados de autoajuda. Para o escritor gaúcho, esses livros

"[...] trazem um risco que não está sendo devidamente analisado. São livros persuasivos e eficientes que chegam a um número cada vez maior de leitores, convencendo-os de que eles são vencedores e de que nada pode detê-los. Mostram as pessoas como otimizar seu potencial para o sucesso, como adquirir autoconfiança e controle sobre suas vidas, como impor sua vontade aos outros e chegar ao topo."

Cresce a quantidade de "vencedores" , "numa sociedade em que as chances de vitória são claramente limitadas a quem tem pistolão e o topo já está tomado". Todas estas pessoas, anabolizadas com autoestima e autoconfiança muito acima dos níveis tolerados pela Organização Mundial de Saúde, circulam sempre se julgando muito especiais. Ou seja, mais um exemplo dessa hipertrofia da vida privada e do eu de que estamos falando. Verissimo percebe nisso tudo um fator "desagregador": "As pessoas com controle sobre sua própria vida são geralmente as que nos empurram, buzinam atrás de nós no trânsito e furam a fila do cinema".

Com seu humor característico, o escritor adverte que tudo isso pode, num extremo, chegar a atos violentos; para evitá-los, sugere que as editoras passem a publicar livros que

"[...] levem as pessoas a reexaminar sua recém-conquistada certeza de vitória e a pensar se ela não é um pouco irrealista, se um empate não seria suficiente. Livros chamados, por exemplo, Você é pior do que pensa, mostrariam que qualquer melhora na opinião que temos de nós mesmos é sempre comprometida pela falta de objetividade e provavelmente é um engano. Haveria capítulos com títulos como Sair da cama de manhã: isto é realmente necessário?, Dez razões pelas quais nada vale a pena."

Ana Maria Machado**, por seu turno, argumenta que a Literatura permite uma melhor compreensão do outro, e predispõe-nos para a capacidade de negociar, para as tentativas de acordo, para a tolerância:

"Neste sentido é que costumo dizer que ler ficção é um ato político, porque, assim como a poesia, também os romances e contos (e mais os filmes, as peças, as novelas) nos obrigam a entrar na pele de um outro e entender seus motivos, nos acostumando a uma aceitação intrínseca da diversidade".

A mesma autora observa também que

"Ler literatura, livros que levem a um esforço de decifração, além de ser um prazer, é um exercício de pensar, analisar, criticar. Um ato de resistência cultural. Perguntar ' para onde queremos ir? ' e ' como ' pressupõe uma recusa do estereótipo e uma aposta na invenção. Pelo menos, uma certa curiosidade diante de uma opinião que não é exatamente igual à nossa - e o benefício da dúvida, sem a convicção do monopólio da verdade".

Para "curar" as limitações dos pontos de vista circunscritos a nossas "vidinhas", recomendam-se doses de Literatura, três vezes ao dia, antes ou depois das refeições, a critério do paciente...

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* VERISSIMO, Luis Fernando. A eterna privação do zagueiro absoluto: as melhores crônicas de futebol, cinema e literatura. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001

** MACHADO, Ana Maria. Texturas: sobre leituras e escritos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.