Em 1998, com 26 anos de idade, eu ainda não entendia (ou não aceitava) que o precipício estava logo ali. Ignorando os indícios ou rejeitando os fatos, achava que certas ações individuais e determinadas peças dessa minha vidinha ordinária - o trabalho, um duvidoso percurso acadêmico, o envolvimento afetivo em que me encontrava, o próprio país - ainda podiam dar certo e, na próxima década ou na seguinte, seria possível partilhar alguma felicidade. Sim, eventual leitor(a), eu conseguia ser ainda mais palerma naquela época.
No início daquele ano, não parava de ouvir dois álbuns bastante diferentes um do outro: OK Computer, do Radiohead, e Sobrevivendo no inferno, dos Racionais MC's. Lembro de ter comprado os dois CDs na mesma loja e a vendedora estranhar um mesmo freguês levando pra casa rock dito "alternativo" e rap nacional.
Fiquei extasiado com Karma Police (o clipe da canção era muito exibido na antiga MTV). No entanto, demorei algum tempo para verdadeiramente apreciar o disco por inteiro. A banda britânica se empenhou em um trabalho não palatável, nãoradiofônico: a melhor das 12 faixas que o compõem, Paranoid Android, e a vinheta Fitter Happier são exemplos desse propósito. Não me tornei um fã ardoroso do Radiohead (para ser franco, acho Thom Yorke meio xarope), mas OK Computer é um dos 30 discos que levaria comigo se fosse forçado a viver em uma ilha deserta (fugindo, sei lá, de um apocalipse zumbi).
E quanto a Sobrevivendo no inferno ?
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Já mencionei aqui no blog que não posso, nem de longe, dizer que sou um ouvinte habitual de rap. No início da idade adulta, eu só conhecia algumas poucas coisas do Public Enemy (embora não compreendesse patavina de inglês naquela época) e, quanto ao cenário nacional, sabia, claro, quem eram Thaíde e DJ Hum, ainda que nunca tivesse escutado nada deles. Hoje, penso ter deixado de ser um peixe totalmente fora d'água (ouço prazerosamente, entre artistas ainda ativos ou não, Câmbio Negro, Black Alien, Missy Elliot, A Tribe Called Quest, Emicida e Little Simz), mas o rap continua não sendo um gênero musical de minha predileção. Devo admitir, contudo, que aprendi a respeitá-lo bastante, após a ebulição provocada pelo álbum lançado pelos Racionais no final de 1997.
Antes, porém, é preciso recuar mais um pouco no tempo. Em 1994, eu ouvira pela primeira vez Fim de semana no parque. Essa faixa integra o Raio X (do)Brasil - disco que permitiu a Ice Blue, Mano Brown, Edi Rock e KL Jay meter o pé na porta do cenário musical brasileiro. Eles tinham certa popularidade em São Paulo, sendo, porém, pouco conhecidos no restante do país: isso passaria a mudar a partir desse álbum- que também apresenta Mano na porta do bar e Homem na estrada. Até então, só era possível ouvir gravações desse tipo na programação de estações como a Rádio Favela ¹ aqui de Belo Horizonte. Com o tempo, algumas outras emissoras locais arriscaram-se a tocá-las (sobretudo Fim de semana no parque ), reconhecendo o valor de Raio X(do) Brasil e o interesse do público pelas músicas, iniciados no rap ou não.
Quando Sobrevivendo no inferno foi lançado, portanto, a expectativa era muito, muito grande. E creio que não houve motivo para grandes decepções. Pode-se dizer que o CD foi também um sucesso comercial, conseguindo chegar a 500 mil cópias oficiais vendidas alguns meses após o lançamento, um número impressionante, sobretudo quando lembramos que não havia uma major por trás daqueles (então) quatro jovens negros sediados no Capão Redondo.
O disco é aberto com uma linda versão de Jorge de Capadócia, de Jorge Ben(jor) - compositor/cantor recorrentemente citado na obra do grupo paulistano. Numa lamentável falha do encarte, contudo, não há informação sobre quem está cantando (seguramente, não é nenhum dos membros dos Racionais). O sample usado foi extraído de Ike's Rap II, de Isaac Hayes (mundialmente conhecido, penso eu, graças a Glory Box, do Portishead). Pouco depois surge a impactante e agressiva Capítulo 4, versículo 3, aquela em que Mano Brown diz que sua "palavra vale um tiro" e ele "tem muita munição". O caráter de denúncia dos problemas sociais do país, particularmente os que afligem a população preta e pobre, marca indelével dos Racionais, aparece logo no início da faixa:
"60% dos jovens de periferia Sem antecedentes criminais já sofreram violência policial A cada quatro pessoas mortas pela polícia, três são negras Nas universidades brasileiras, apenas 2% dos alunos são negros A cada quatro horas, um jovem negro morre violentamente em São Paulo"
( NOTA: Se serve de alento, pelo menos um desses dados mudou significativamente para melhor: hoje, passados 27 anos do lançamento do CD, em torno de 50% dos estudantes em universidades públicas são pretos ou pardos, embora certos cursos ainda não contem com um número expressivo de indivíduos pertencentes a esse segmento )
A mensagem dos Racionais, endereçada principalmente para os jovens da periferia, "os manos da Baixada Fluminense à Ceilândia", os que habitam "de Guaianases ao extremo sul de Santo Amaro", dessa vez estava alcançando ouvidos além da quebrada. O "mano que trampa debaixo do carro sujo de óleo/ ou que enquadra o carro forte na febre com o sangue nos olhos/ o mano que entrega envelope o dia inteiro no sol/ ou o que vende chocolate de farol em farol/ talvez o cara que defende o pobre no tribunal/ ou o que procura vida nova na condicional/ alguém no quarto de madeira, lendo à luz de vela/ ouvindo um rádio velho no fundo de uma cela" continuavam a escutá-los, fielmente. Havia agora, contudo, um fato novo: as pessoas que costumamos chamar de formadores de opinião deixaram de lado o preconceito contra a "música de maloqueiro" e começaram a prestar atenção também.
Destacaria ainda no álbum outras três faixas: Qual mentira vou acreditar, uma composição que conta com um elemento raríssimo - o humor -, em se tratando de Racionais; Diário de um detento, cujo clipe ganhou muito destaque na MTV; e Tô ouvindo alguém me chamar, outra demonstração de como esses caras são bons em construir uma história (feito similar já tinha ocorrido na memorável Homem na estrada ). Para não ficar só no enaltecimento, um moralismo meio pueril encarquilhado nalguns versos (algo surpreendente, se pensarmos no teor subversivo da maioria dos outros), além de misoginia e machismo nada disfarçados (afinal, são os mesmos caras que compuseram Júri Racional e, claro, a infame Mulheres vulgares ), são os pontos negativos.
"[...]Sobrevivendo no inferno é uma pancada –
musical, cultural, histórica, política, poética. Para entender a força
dessa pancada, a filósofa Djamila Ribeiro usa uma imagem muito precisa: organizar o ódio. Os Racionais se tornaram e se mantiveram e cresceram como Racionais porque souberam organizar o ódio.
Não reagiram da forma autodestrutiva como o sistema previa: se armaram
de ritmo e poesia e partiram para o ataque – fúria e baile".
Em 2002, eles lançariam Nada como um dia após o outro dia, contendo, entre outras, Negro Drama e Vida Loka, mas já sem o efeito avassalador do trabalho precedente.
Se OK Computer serviu para reiterar minha convicção de que a arte é o único lugar restante para a redenção e o reconforto dos "iguais em desgraça", como cantou Cazuza, Sobrevivendo no inferno, mais do que isso, ajudou a enterrar de vez as ilusões que eu ainda mantinha naquele afastado ano de 1998.
O fato de uma instituição consagrada ao saber formal no seu nível mais elevado (de outra maneira, não chamaríamos de ensino superior) ter concedido tal distinção a um grupo originário da periferia pouco escolarizada, cuja trajetória artístico-profissional passou ao largo dos campi universitários, é muito bacana, claro, mas não é isso o que há de mais expressivo nesse acontecimento, em minha opinião. Vou tentar me fazer entender.
Todos estamos presenciando o uso maléfico da internet, principalmente nas mídias sociais. Por causa disso, esquece-se, por vezes, o quão revolucionária é essa tecnologia.
Questões urgentes, até então evitadas no amplo debate público - relatos de violência policial, evidenciação de práticas/discursos racistas e discriminatórios, crítica da ausência de representatividade de determinados grupos sociais, etc. - conseguiram ganhar repercussão dentro da sociedade graças à web e, forçoso admitir, às mídias sociais (pelo menos na fase inicial), deixando de se restringir apenas ao esforço de uns poucos ativistas espalhados aqui e ali ³.
Penso não ser possível separar a consolidação dos Racionais MC's desse contexto. Obviamente, nada aconteceria sem o talento e a agudeza do olhar deles, mas o que estou querendo dizer é: a internet, cujo acesso, no final dos anos 1990, começava a chegar progressivamente a mais indivíduos e entidades, foi de inestimável auxílio para que o recado do grupo alcançasse mais pessoas (até mesmo possibilitando a produção de milhares de cópias piratas de Sobrevivendo no inferno ). Mais manos e manas de diferentes lugares conseguiram construir pontes uns com os outros e, em muitas ocasiões, a música dos Racionais era um dos elementos mais importantes nessa aproximação.
A iniciativa de conferir o título de doutor Honoris Causa partiu dos docentes Jaqueline Lima Santos, Daniela Vieira dos Santos e Omar Ribeiro Thomaz, mas creio não ser equivocado dizer que a inserção desses artistas primeiramente nos aparelhos de som das periferias e posteriormente na discussão dos mais intelectualizados, cada vez mais sensibilizados para questões como as que mencionei acima, tudo isso graças a interconexão possibilitada pela web, acabaria tornando uma homenagem deste tipo quase uma questão de tempo. E fico feliz, sendo um cara negro, que a Unicamp realmente tenha dado esse passo.
________________
¹Vale a pena fazer aqui um breve comentário sobre a Rádio Favela. Nascida em 1981, com equipamentos improvisados e de forma clandestina dentro do Aglomerado da Serra em BH, a Rádio Favela durante décadas teve muita dificuldade para se manter, sobretudo pela ação da polícia. Hoje, legalizada desde o início dos anos 2000, a emissora passou a ser conhecida como Autêntica FM e cada vez mais opta por seguir o padrão de apresentação das outras. Uma pena.
²MELO, Tarso de. Sobrevivendo no inferno: ainda e sempre. Cult, São Paulo, n.241, dez. 2018 Disponível em: https://revistacult.uol.com.br/home/sobrevivendo-no-inferno-racionais/. Acesso em: 31/03/2025
³Nem tudo são flores, porém. Dessa atuação, originou-se o que eu chamo, tentando fazer piada, de extrema militância, formada por indivíduos cheios de certezas e declarações peremptórias que tornam o debate muitas vezes difícil e infecundo, apesar de se acharem sujeitos de mente aberta.
BG de Hoje
Ao citar os destaques de Sobrevivendo no inferno, dos RACIONAIS MC's , esqueci de incluir Fórmula mágica da paz. Gosto dela só por causa da batida hipnotizante construída sobre um sample retirado de Attitudes, do grupo de soul e funk The Bar-Kays.
Bem, encerremos esta série de postagens. E, devo dizer, tive muita satisfação em escrevê-la.
Um dos questionamentos mais comuns feitos a Quarto de despejo diz respeito à autenticidade do diário. Por exemplo: Fábio Lucas (geralmente mais arguto em outros escritos) foi um daqueles críticos literários cuja avaliação, na década seguinte ao lançamento da obra, recaiu apenas no aspecto documentário do relato*. Considerou-o "impressionante", embora repleto de "cacoetes estilísticos". Interessou, ao crítico, o fenômeno imprevisto, "que o próprio aproveitamento publicitário tornou mais relevante". E colocou a autenticidade do diário em xeque ao suspeitar do teor da "contribuição de um jornalista" (no caso, Audálio Dantas).
Por sua vez, o que diz Dantas?
Em A atualidade do mundo de Carolina**, o jornalista, responsável pela edição do texto publicado em 1960, escreve: "A repetição da rotina favelada, por mais fiel que fosse, seria exaustiva. Por isso foram feitos cortes, selecionados os trechos mais significativos". E acrescenta: "Mexi, também, na pontuação, assim como em algumas palavras cuja grafia poderia levar à incompreensão da leitura. E foi só, até a última linha". Ou seja, Audálio Dantas (na imagem à esquerda) afirma não ter realizado nenhuma alteração de monta no manuscrito recebido de Carolina Maria de Jesus. Entretanto, José Carlos Sebe Bom Meihy - pesquisador citado na postagem anterior - publicou uma outra versão da obra (em 1996), juntamente com Robert Levine, intitulada Meu estranho diário, por julgar que o trabalho editado por Dantas comprometeu o texto original. NOTA: Ainda não tive oportunidade de ler Meu estranho diário e cotejá-lo com a versão mais difundida, organizada pelo jornalista. De todo modo, o livro de Carolina estabeleceu-se no cenário cultural brasileiro, gerando recepções diferentes ao longo do tempo. Inclusive fora do país***.
Mas por que, afinal, mais do que um documento, Quarto de despejo é uma particularíssima obra de Literatura?
Não será, certamente, por trechos como este**** :
"... O céu é belo, digno de contemplar porque as nuvens vagueiam e formam paisagens deslumbrantes. As brisas suaves perpassam conduzindo os perfumes das flores. E o astro rei sempre pontual para despontar-se e recluir-se. As aves percorrem o espaço demonstrando contentamento. A noite surge as estrelas cintilantes para adornar o céu azul. Há várias coisas belas no mundo que não é possível descrever-se. Só uma coisa nos entristece: os preços, quando vamos fazer compras. Ofusca todas as belezas que existe".
É preciso reconhecer o acúmulo de imagens gastas e lugares-comuns surrados no excerto reproduzido acima (ainda que a narradora tenha o mérito de deixar clara sua insatisfação com a conjuntura econômica). Mas, menos do que um "cacoete estilístico", essa forma ("enfeitada", digamos) de escrever nos indica outra coisa, mais significativa. José Carlos S. B. Meihy*****, em relação a expressividade da escritora, notou corretamente, a meu ver, que
"Seus erros gramaticais, em contraste com a difícil explicação de seu vocabulário, representam facetas que fundem na necessidade expressiva a afetação de quem vê a literatura como poder. Isso, aliás, nunca esteve ausente da percepção de Carolina, que, mesmo sendo mulher fisicamente indefesa na favela, sabia que, por saber ler e escrever, tinha domínio dos códigos dos poderosos".
A escritora, portanto, não desconhecia que a Literatura é também um sistema (tenho em mente aqui o conceito brilhantemente formulado por Bernard Mouralis em As contraliteraturas). Sendo assim, para fazer parte desse sistema, a autora tentou simular (equivocadamente, nesse caso) o código de escrita que julgava ser o dos segmentos mais cultos da população. Porém, isso é compreensível para alguém que, como ela mesma nos relata no livro, tinha "apenas dois anos de grupo escolar".
Mas observemos agora, apenas para exemplificar a qualidade da escrita de Carolina Maria de Jesus, estes dois outros excertos, extraídos também de Quarto de despejo:
1) "Antigamente era a macarronada o prato mais caro. Agora é o arroz e feijão que suplanta a macarronada. São os novos ricos. Passou para o lado dos fidalgos. Até vocês, feijão e arroz, nos abandona! Vocês que eram os amigos dos marginais, dos favelados, dos indigentes. Vejam só. Até o feijão nos esqueceu. Não está ao alcance dos infelizes que estão no quarto de despejo. Quem não nos despresou foi o fubá. Mas as crianças não gostam de fubá".
2) "O gato é um sábio. Não tem amor profundo e não deixa ninguém escravisá-lo. E quando vai embora não retorna, provando que tem opinião.
Se faço esta narração do gato é porque fiquei contente dela ter matado o rato que estava estragando os meus livros".
Essas passagens demonstram que Carolina Maria de Jesus, quando não se preocupava em escrever de modo "enfeitado", era inventiva, engenhosa ao narrar, mesmo que fosse mais "preocupada com a mensagem temática e não com o apuro formal", como assinala Meihy. Por isso, penso que talvez não seja o melhor expediente, numa análise mais aprofundada da obra dessa escritora (obviamente nem sequer esboçada neste blog), insistir em enquadrá-la nos pressupostos estéticos cristalizados da crítica literária mais formalista. Mas isso é assunto para outra oportunidade.
Na próxima semana, escreverei brevemente sobre algumas ideias expostas em A rebelião das massas, de José Ortega y Gasset.
__________
*LUCAS, Fábio. O caráter social da literatura brasileira. 2 ed. São Paulo: Quíron, 1976
** Texto que serve de prefácio à edição de Quarto de despejo utilizada para escrever esta série de postagens e referenciada mais abaixo.
*** Quarto de despejo foi publicado no exterior e particularmente nos EUA foi bem acolhido, recebendo o nome de Child of the dark, com sucessivas reedições.
**** JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: diário de uma favelada. 8 ed. São Paulo: Ática, 2001
***** MEIHY, José Carlos Sebe Bom. Carolina Maria de Jesus: emblema do silêncio. Revista USP, São Paulo, vol. 37, mar./mai. 1998, p. 82 - 91. Disponível em <http://www.usp.br/revistausp/37/08-josecarlos.pdf>. Acesso em 14/04/2014
BG de Hoje
Que a composição literária, na cultura brasileira, tem proximidade tremenda com a música popular, não é segredo para ninguém. E ao ficar esses dias pensando na representação da pobreza nas cidades, dentro da nossa Literatura, através da obra de Carolina Maria de Jesus, acabei por me lembrar dos RACIONAIS MC's: não só rappers, mas cronistas essenciais da vida urbana no Brasil. E uma de suas canções mais emblemáticas e emocionantes é a célebre Homem na estrada.
"Olha só aquele clube: Que 'da hora'! Olha o pretinho vendo tudo do lado de fora".
Racionais MC's - Fim de semana no parque
No momento estou muito envolvido com a leitura de duas obras daquelas que nos fazem ter uma visão mais profunda e menos maniqueísta do Brasil, sem a intermediação edulcorada e vazia de nossa mídia televisiva.
Estou me referindo aos livros Cabeça de porco (Ed. Objetiva, 2005), do antropólogo Luiz Eduardo Soares, do rapper MV Bill e do empresário e produtor cultural Celso Athayde; e a Falcão: meninos do tráfico (Ed. Objetiva, 2006) - este último sem a participação de Soares.
Certamente escreverei alguma coisa sobre os trabalhos acima mencionados, tal é o efeito que ambos vêm provocando na minha percepção da realidade brasileira. Um exemplo desse efeito: só agora começo a entender plenamente a força dos comportamentos-símbolo, das vestimentas-símbolo, dos objetos-símbolo na formação de adolescentes e jovens do país. Pior: esses símbolos muitas vezes estão diretamente relacionados ao circuito que liga pobreza, violência, tráfico de drogas e outras modalidades de crime. Mas me permita entrar em outro assunto, sem, no entanto, romper inteiramente com o que venho falando.
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No bairro onde moro não costumo ver pessoas praticando corrida. Para dizer a verdade, nunca vi nenhuma, nos mais de 30 anos que vivo lá. De vez em quando até percebo gente idosa fazendo "caminhadas", talvez por prescrição médica. Mas cooper ou jogging, nunca.
Essa constatação (bastante tola, reconheço) me veio de chofre, dia desses, quando escutava Fim de semana no parque, canção gravada pelos Racionais MC's (sampleando frases de outras de Jorge Ben (Jor) e que está no discaço Raio X Brasil (1993), do grupo paulistano.
A letra da música - um paralelo entre a vida dos ricaços de São Paulo e a dos moradores das regiões mais pobres da metrópole - leva o letrista, em seu início, a partir da visão "de uma caranga do ano/ toda equipada e um tiozinho guiando", que, "com seus filhos ao lado/ estão indo ao parque/ eufóricos", a pensar em sua própria comunidade: "a molecada lá da área como é que tá?".
Diante da diferença, Mano Brown registra:
"Eles também gostariam
de ter bicicleta
de ver seu pai fazendo cooper
tipo atleta.
Gostam de ir ao parque
e se divertir
E que alguém os ensinasse
a dirigir."
Detenho-me nestes versos: "de ver seu pai fazendo cooper/ tipo atleta". Volto ao começo de minha postagem. Fazer cooper ou jogging - ainda que se admita ser um comportamento saudável (para quem tem tempo disponível para fazê-lo, é bom que se diga) - é uma prática que não acontece nas periferias, nos bairros pobres. É, portanto, um hábito restrito a uma classe. E, mais significativo: é um hábito que simboliza essa classe.
E o que tem Pierre Bordieu a ver com tudo isso?
Meses atrás, citei o sociólogo francês aqui no blog e, pelo tema de hoje, sou levado a refletir sobre o peso que a dimensão simbólica da vida social tem em seu pensamento (não custa lembrar que um de seus livros mais famosos chama-se justamente O poder simbólico) e sobre um conceito fundamental em sua obra: o habitus de classe.
Uma de suas definições do conceito* é a seguinte:
"Sistema de disposições inconscientes que constitui o produto da interiorização das estruturas objetivas e que, enquanto lugar geométrico dos determinismos objetivos e de uma determinação do futuro objetivo e das esperanças subjetivas, tende a produzir práticas e, por esta via, carreiras objetivamente ajustadas às estruturas objetivas".
E o que isso quer dizer em "linguagem de em dia-de-semana", como diria Guimarães Rosa?
Significa, "na batata", para nossa compreeensão momentânea, que as classes mais ricas, dominantes, incorporam comportamentos, práticas e hábitos (como, por exemplo, o cooper) para se fazerem imediata e indubitavelmente distintas das outras. Tudo isso, graças ao poderio econômico que possuem (as tais estruturas objetivas). Os comportamentos (as disposições) reforçam suas características de classe, ajustando confortavelmente seus membros dentro desta.
Mano Brown, provavelmente sem ter lido Pierre Bourdieu, em poucos versos, faz uma análise sociológica tão boa quanto a dele.
* BOURDIEU, Pierre.A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 1974