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quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Para que discutir? (III)



Com (bastante) atraso, arremato esta série de postagens.

Por que, dias atrás, afirmei que as discussões têm resultado frustrante, no geral? A resposta que arrisco é a seguinte: isso acontece, talvez, porque essas discussões nem de longe são diálogos. Nos botecos da vida, nas chamadas redes sociais da web ou mesmo em situações mais formais, as interações de linguagem entre as pessoas são bem pouco dialogais (quero dizer com isso que há pouca troca entre os interlocutores envolvidos).

Deixemos, entretanto, esse ponto em suspensão e voltemos ao texto platônico.

Quando Sócrates, no diálogo Górgias*, entende-se com o especialista em retórica sobre as condições em que se dará a discussão entre eles (Sócrates pede a Górgias que evite os longos discursos e valha-se da alternância de perguntas e respostas), pode-se dizer que a intenção é fazer da conversa - como está lá no texto - "um processo de mútuo aprendizado e ensinamento", que leve "a bom termo o debate". Nessa mesma passagem revela-se também o  rigor buscado por Sócrates numa discussão; ao dizer que tipo de pessoa ele é, declara: "uma daquelas que gostaria de ser refutada se dissesse algo falso, e que gostaria de refutar outra pessoa que pudesse declarar algo falso". A atividade filosófica, para Platão, deve ter como objetivo a busca pela verdade (mesmo que esta seja inacessível, em última instância)..

Contudo, estou bem distante de exigir todo esse rigor para os colóquios habituais de que participo...

Ainda que as discussões-nossas-de-cada-dia não sejam exercícios rigorosos de reflexão filosófica (e, talvez, nem seria desejável que fossem), me desanimo com elas simplesmente porque não favorecem a alternância de opiniões, a troca de pontos de vista. O que percebo, a maior parte do tempo, são interlocutores entrincheirados em suas convicções, bem pouco dispostos a rever ou ao menos colocar em dúvida suas certezas consoladoras. Se o diálogo/discussão prevê a alternância de falas e uma troca (de opiniões, pontos de vista) estas não parecem estar acontecendo satisfatoriamente nas conversas por aí.

E quanto à Filosofia? Para muitos - admiradores ou não de Platão - é inerente à disposição filosófica o ato de dialogar/discutir, mesmo solitariamente. E nessa altura é oportuno lembrar aquela bela passagem de outro diálogo platônico - o Teeteto** - quando Sócrates diz que o pensar "é o diálogo que a alma tem consigo mesma acerca de qualquer objeto por ela considerado", acrescentando em seguida "que a alma, ao pensar, simplesmente empreende um diálogo no qual dirige a si mesma perguntas e as responde ela mesma, afirmando e negando"***. Depreende-se, assim, que o exercício filosófico depende da discussão.

Diante da indagação colocada no título desta série de postagens (Para que discutir?), diria: para que possamos escapar das respostas reconfortantes por um lado, mas enganadoras por outro, que costumamos dar às questões que nos cercam, de forma automática, sem parar para pensar. Filosofando ou não, é recomendável estar disposto a discutir.

. . . . . . .

Antes de encerrar, quero voltar à invectiva do personagem Cálicles, no diálogo Górgias, mencionada na postagem anterior****.

Como havia escrito, Cálicles aconselha Sócrates a abandonar a Filosofia por não considerá-la uma ocupação própria de homens. É apenas uma etapa da educação, válida na adolescência, mas completamente inútil, nociva até, na vida adulta.

A postura depreciativa de Cálicles em relação à Filosofia pode ser notada, até hoje, em várias pessoas que enxergam nessa atividade a inutilidade das inutilidades. Por que essa prevenção, esse menosprezo?

Qualquer dia desses volto a esse ponto. Na próxima postagem o assunto será outro: escreverei sobre um conto famoso de Jorge Luis Borges.

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* PLATÃO. Górgias. In: ________. Diálogos II. Bauru: EDIPRO, 2007. p. 41-168 [Tradução, textos complementares e notas de Edson Bini]

** PLATÃO. Teeteto. In: ________. Diálogos I. Bauru: EDIPRO, 2007. p. 41 - 156 [Tradução, textos complementares e notas de Edson Bini]

*** Obviamente, nem todo pensar é um filosofar. Mas filosofar implica um emprego peculiar da capacidade de pensar.

**** A fala de Cálicles reproduzida naquela ocasião foi a seguinte:"Quando vejo a filosofia sendo cultivada por um rapazinho, eu o aprovo. Acho adequado e considero esse indivíduo como uma pessoa de condição livre e educada ao passo que considero o indivíduo que não a cultiva mal educado e do qual nunca se pode esperar uma ação nobre e generosa. Entretanto, quando vejo uma pessoa mais velha ainda insistindo na filosofia, sem deixá-la de lado, esse é o homem, Sócrates, que penso estar necessitando do açoitamento. Com efeito, como disse há pouco, essa pessoa, não importa quão bem dotada seja, está condenada a se tornar destituída de virilidade ao evitar os centros da cidade e os centros comerciais, nos quais, de acordo com o poeta, homens obtêm reputação e glória; deverá ocultar-se e passar o resto de sua existência murmurando num canto com três ou quatro rapazotes, sem jamais pronunciar algo bem educado, grandioso e vibrante".


BG de Hoje

CHICO SCIENCE & NAÇÃO ZUMBI deram ao rock nacional um novo fôlego, curiosamente incluindo elementos dos mais tradicionais da música brasileira. Um dos melhores exemplos disso é a faixa instrumental Quilombo groove, do ótimo disco Afrociberdelia (1996).

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Para que discutir? (II)

Julgo oportuno neste momento deter-me um pouco no(s) sentido(s) do termo discutir, antes de voltar ao texto de Platão. No Houaiss*, encontram-se as seguintes acepções para esse verbo:

"1. analisar questionando; levantar questões a respeito de (algo); examinar pormenorizadamente. 2. defender pontos de vista contrários sobre (algo); debater. 3. pôr em dúvida (algo); contestar. 4. conversar de maneira exaltada e apaixonada; altercar, desentender-se, brigar. 5. entrar em entendimento sobre (algo)".

Não são poucos os que fazem uso desse termo levando em conta apenas o 4º significado apontado acima. Certa vez, um amigo, com alto nível de escolaridade, irritou-se durante um papo que mantínhamos quando empreguei a palavra discutir para descrever determinada situação. Fiquei surpreso. Alegou que sempre manifesto postura beligerante nas conversas (não foram bem essas as palavras usadas na ocasião, mas o sentido era o mesmo). Certamente ele considerava discussão apenas como sinônimo de altercação.

As três primeiras acepções incluídas no verbete mencionado seriam boas descrições para o método socrático de perquirição. E são esses os sentidos que terei em mente a partir de agora. Voltemos, com isso, ao diálogo Górgias**, citado na postagem anterior.

Cálicles, um dos personagens daquele texto, em determinado momento aconselha Sócrates a colocar "a filosofia de lado" e atentar "para coisas mais importantes". E acrescenta, sem colocar panos quentes:

"Quando vejo a filosofia sendo cultivada por um rapazinho, eu o aprovo. Acho adequado e considero esse indivíduo como uma pessoa de condição livre e educada ao passo que considero o indivíduo que não a cultiva mal educado e do qual nunca se pode esperar uma ação nobre e generosa. Entretanto, quando vejo uma pessoa mais velha ainda insistindo na filosofia, sem deixá-la de lado, esse é o homem, Sócrates, que penso estar necessitando do açoitamento. Com efeito, como disse há pouco, essa pessoa, não importa quão bem dotada seja, está condenada a se tornar destituída de virilidade ao evitar os centros da cidade e os centros comerciais, nos quais, de acordo com o poeta, homens obtêm reputação e glória; deverá ocultar-se e passar o resto de sua existência murmurando num canto com três ou quatro rapazotes, sem jamais pronunciar algo bem educado, grandioso e vibrante".

No Górgias, como em vários outros de sua autoria, Platão busca demonstrar seu conceito de filosofia, ocupação tão desprezada pelo político Cálicles. A concepção platônica da filosofia passa pela desqualificação de outras atividades, como a oratória (Cálicles também era um orador) e a retórica, atividades essas às quais se dedicavam muitos sofistas (considerados não-filósofos - talvez "concorrentes"? - por Sócrates e, em decorrência, também por Platão). Dialógica, a compreensão platônica da atividade filosófica depende da capacidade de discutir. Mas qual seria a melhor condição para favorecer o ato de discutir/dialogar?

Tento responder a essa questão na próxima terça-feira, analisando melhor a fala de Cálicles reproduzida acima e retomando também o que afirmei ao final da postagem anterior, sobre o resultado frustrante das discussões em que geralmente tomamos parte.
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* DISCUTIR. In. HOUAISS, Antônio. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001

** PLATÃO. Górgias. In: _________. Diálogos II. Bauru: EDIPRO, 2007 [Tradução, textos complementares e notas de Edson Bini]

BG de Hoje

Quase todo mundo reconhece que o LED ZEPPELIN foi um dos maiores grupos de rock de todos os tempos. Mas convém não esquecer que eles também faziam blues maravilhosos, como Tea For One, que, nos primeiros segundos não "dá pinta" do que se transformará logo em seguida.


terça-feira, 6 de agosto de 2013

Para que discutir? (I)



Há uma passagem, no diálogo Górgias*, na qual Sócrates diz o seguinte:

"Górgias, suponho que tu, como eu, temos muita prática em discussões e que já observaste o seguinte a respeito delas: não é fácil para as pessoas que delas participam definirem entre si os assuntos que se prestam a discutir e, tendo efetivado um processo de mútuo aprendizado e ensinamento, levarem a bom termo o debate; pelo contrário, se polemizam entre si algum ponto e um e outro afirma que o interlocutor está se expressando incorreta ou obscuramente, aborrecem-se e consideram que a observação nasceu da malevolência, e de um gosto por querelas, em lugar de ter nascido em prol da investigação do tema proposto para discussão".

Como era de se esperar, no diálogo, Sócrates controla as falas dos outros personagens e, claro, é aquele que mais fala. Mas me parece que nesse texto Platão concede ao sofista Górgias um tratamento mais deferente do que aquele que costuma reservar aos demais interlocutores de Sócrates (basta ver o modo como Pólo e Cálicles são retratados nesse mesmo diálogo). Por que Platão adota, especificamente aqui, essa postura respeitosa (se é que a adota)? Justamente ele, que formulou seu pensamento posicionando-se contra a sofística? Deixo, entretanto, a questão para outra oportunidade e volto à passagem.

Sócrates mostra-se preocupado com o resultado das discussões em geral: com frequência terminam mal pois, já de início, é difícil até mesmo estabelecer o tema que as motivou. Não só isso. É duvidoso ver nelas "um processo de mútuo aprendizado e ensinamento": basta uma pequena discordância e os sujeitos envolvidos irritam-se uns com os outros. Avancemos um pouco mais.

Percebendo incoerência no que dizia Górgias a respeito da retórica (o tema que discutiam), Sócrates acrescenta:

"A consequência [do que disse a respeito das discussões em geral] é eu temer refutar-te com receio de imaginares que, por espírito de disputa, estou tratando de nosso assunto negligentemente e pondo em risco sua elucidação, motivado pelo propósito de atacar-te".

Neste trecho, Platão faz referência a uma prática disseminada na sociedade grega da época, sobretudo em Atenas, e assumida, a seu modo, por alguns seguidores dos sofistas - a erística. Baseada na discussão pela discussão, sem objetivar esclarecer os pontos em debate, tal prática não interessa a Sócrates, segundo Platão. Pondo-se em acordo com Górgias (para evitar que a conversa entre eles tome o rumo da esterilidade erística**), decidem prosseguir o diálogo.

Mas por que - raios me partam - estou falando disso? É porque tenho percebido que, hoje em dia, as discussões, no geral, continuam a ter o resultado frustrante temido por Sócrates, seja nas interações diretas, face a face, seja nas cada vez mais numerosas interações por meio das tecnologias digitais de comunicação.

Prosseguirei neste assunto nas próximas postagens.
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* PLATÃO. Górgias (ou da retórica). In: __________. Diálogos II. Bauru: EDIPRO, 2007. p. 41-168 [Tradução, textos complementares e notas de Edson Bini]

** Platão destaca esse tema noutro de seus diálogos, o Eutidemo.

BG de Hoje

É muita irreverência. Ou muita cara de pau. Seja o que for, o resultado (pelo menos nesta canção) foi ótimo. Estou me referindo à Música de brinquedo, do PATO FU, disco lançado em 2010 e que foi registrado também em DVD. A canção é Todos estão surdos (no vídeo abaixo com a participação dos bonecos do Giramundo).