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quinta-feira, 10 de abril de 2025

Racionais MC's: aprendizado


Em 1998, com 26 anos de idade, eu ainda não entendia (ou não aceitava) que o precipício estava logo ali. Ignorando os indícios ou rejeitando os fatos, achava que certas ações individuais e determinadas peças dessa minha vidinha ordinária  -  o trabalho, um duvidoso percurso acadêmico, o envolvimento afetivo em que me encontrava, o próprio país - ainda podiam dar certo  e, na próxima década ou na seguinte, seria possível partilhar alguma felicidade. Sim, eventual leitor(a), eu conseguia ser ainda mais palerma naquela época.

No início daquele ano, não parava de ouvir dois álbuns bastante diferentes um do outro: OK Computer, do Radiohead, e Sobrevivendo no inferno, dos Racionais MC's. Lembro de ter comprado os dois CDs na mesma loja e a vendedora estranhar um mesmo freguês levando pra casa rock dito "alternativo" e rap nacional.

Fiquei extasiado com Karma Police (o clipe da canção era muito exibido na antiga MTV). No entanto, demorei algum tempo para verdadeiramente apreciar o disco por inteiro. A banda britânica se empenhou em um trabalho não palatável, não radiofônico: a melhor das 12 faixas que o compõem,  Paranoid Android, e a vinheta Fitter Happier são exemplos desse propósito. Não me tornei um fã ardoroso do Radiohead (para ser franco, acho Thom Yorke meio xarope), mas OK Computer  é um dos 30 discos que levaria comigo se fosse forçado a viver em uma ilha deserta (fugindo, sei lá, de um apocalipse zumbi). 

E quanto a Sobrevivendo no inferno ? 

. . . . . . .

 

Já mencionei aqui no blog que não posso, nem de longe, dizer que sou um ouvinte habitual de rap. No início da idade adulta, eu só conhecia algumas poucas coisas do Public Enemy (embora não compreendesse patavina de inglês naquela época) e, quanto ao cenário nacional, sabia, claro, quem eram Thaíde e DJ Hum, ainda que nunca tivesse escutado nada deles. Hoje, penso ter deixado de ser um peixe totalmente fora d'água (ouço prazerosamente, entre artistas ainda ativos ou não, Câmbio Negro, Black Alien, Missy Elliot, A Tribe Called Quest, Emicida e Little Simz), mas o rap continua não sendo um gênero musical de minha predileção. Devo admitir, contudo, que aprendi a respeitá-lo bastante, após a ebulição provocada pelo álbum lançado pelos Racionais no final de 1997.

Antes, porém, é preciso recuar mais um pouco no tempo. Em 1994, eu ouvira pela primeira vez Fim de semana no parque. Essa faixa integra o Raio X (do)Brasil - disco que permitiu a Ice Blue, Mano Brown, Edi Rock e KL Jay meter o pé na porta do cenário musical brasileiro. Eles tinham certa popularidade em São Paulo, sendo, porém, pouco conhecidos no restante do país: isso passaria a mudar a partir desse álbum - que também apresenta  Mano na porta do bar  e  Homem na estrada. Até então, só era possível ouvir gravações desse tipo na programação de estações como a Rádio Favela ¹ aqui de Belo Horizonte. Com o tempo, algumas outras emissoras locais arriscaram-se a tocá-las (sobretudo Fim de semana no parque ), reconhecendo o valor de Raio X(do) Brasil  e o interesse do público pelas músicas, iniciados no rap ou não.

Quando Sobrevivendo no inferno foi lançado, portanto, a expectativa era muito, muito grande. E creio que não houve motivo para grandes decepções. Pode-se dizer que o CD foi também um sucesso comercial, conseguindo chegar a 500 mil cópias oficiais vendidas alguns meses após o lançamento, um número impressionante, sobretudo quando lembramos que não havia uma major  por trás daqueles (então) quatro jovens negros sediados no Capão Redondo.

O disco é aberto com uma linda versão de  Jorge de Capadócia, de Jorge Ben(jor) - compositor/cantor recorrentemente citado na obra do grupo paulistano. Numa lamentável falha do encarte, contudo, não há informação sobre quem está cantando (seguramente, não é nenhum dos membros dos Racionais). O sample usado foi extraído de Ike's Rap II, de Isaac Hayes (mundialmente conhecido, penso eu, graças a Glory Box, do Portishead). Pouco depois surge a impactante e agressiva  Capítulo 4, versículo 3, aquela em que Mano Brown diz que sua "palavra vale um tiro" e ele "tem muita munição". O caráter de denúncia dos problemas sociais do país, particularmente os que afligem a população preta e pobre, marca indelével dos Racionais, aparece logo no início da faixa:

"60% dos jovens de periferiaSem antecedentes criminais já sofreram violência policialA cada quatro pessoas mortas pela polícia, três são negrasNas universidades brasileiras, apenas 2% dos alunos são negrosA cada quatro horas, um jovem negro morre violentamente em São Paulo"
 
( NOTA: Se serve de alento, pelo menos um desses dados mudou significativamente para melhor: hoje, passados 27 anos do lançamento do CD, em torno de 50% dos estudantes em universidades públicas são pretos ou pardos, embora certos cursos ainda não contem com um número expressivo de indivíduos pertencentes a esse segmento ) 

A mensagem dos Racionais, endereçada principalmente para os jovens da periferia, "os manos da Baixada Fluminense à Ceilândia", os que habitam "de Guaianases ao extremo sul de Santo Amaro", dessa vez estava alcançando ouvidos além da quebrada. O  "mano que trampa debaixo do carro sujo de óleo/ ou que enquadra o carro forte na febre com o sangue nos olhos/ o mano que entrega envelope o dia inteiro no sol/ ou o que vende chocolate de farol em farol/ talvez o cara que defende o pobre no tribunal/ ou o que procura vida nova na condicional/ alguém no quarto de madeira, lendo à luz de vela/ ouvindo um rádio velho no fundo de uma cela"  continuavam a escutá-los, fielmente. Havia agora, contudo, um fato novo: as pessoas que costumamos chamar de formadores de opinião  deixaram de lado o preconceito contra a "música de maloqueiro" e começaram a prestar atenção também.
 
Destacaria ainda no álbum outras três faixas: Qual mentira vou acreditar, uma composição que conta com um elemento raríssimo - o humor -, em se tratando de Racionais; Diário de um detento, cujo clipe ganhou muito destaque na MTV; e Tô ouvindo alguém me chamar, outra demonstração de como esses caras são bons em construir uma história (feito similar já tinha ocorrido na memorável  Homem na estrada ). Para não ficar só no enaltecimento, um moralismo meio pueril encarquilhado nalguns versos (algo surpreendente, se pensarmos no teor subversivo da maioria dos outros), além de misoginia e machismo nada disfarçados (afinal, são os mesmos caras que compuseram Júri Racional e, claro, a infame Mulheres vulgares ), são os pontos negativos.
 
Penso que o poeta Tarso de Melo fez uma  análise certeira do significado desse disco, quando escreveu ²:
"[...] Sobrevivendo no inferno é uma pancada – musical, cultural, histórica, política, poética. Para entender a força dessa pancada, a filósofa Djamila Ribeiro usa uma imagem muito precisa: organizar o ódio. Os Racionais se tornaram e se mantiveram e cresceram como Racionais porque souberam organizar o ódio. Não reagiram da forma autodestrutiva como o sistema previa: se armaram de ritmo e poesia e partiram para o ataque – fúria e baile".
 
Em 2002, eles lançariam Nada como um dia após o outro dia, contendo, entre outras, Negro Drama e Vida Loka, mas já sem o efeito avassalador do trabalho precedente. 

Se  OK Computer  serviu para reiterar minha convicção de que a arte é o único lugar restante para a redenção e o reconforto dos "iguais em desgraça", como cantou Cazuza,  Sobrevivendo no inferno, mais do que isso, ajudou a enterrar de vez as ilusões que eu ainda mantinha naquele afastado ano de 1998.
 
. . . . . . .
 
 
Sem exagero, foi um lance tremendo.

O fato de uma instituição consagrada ao saber formal no seu nível mais elevado (de outra maneira, não chamaríamos de ensino superior) ter concedido tal distinção a um grupo originário da periferia pouco escolarizada, cuja trajetória artístico-profissional passou ao largo dos  campi  universitários, é muito bacana, claro, mas não é isso o que há de mais expressivo nesse acontecimento, em minha opinião. Vou tentar me fazer entender.
 
Todos estamos presenciando o uso maléfico da internet, principalmente nas mídias sociais. Por causa disso, esquece-se, por vezes, o quão revolucionária é essa tecnologia.
 
Questões urgentes, até então evitadas no amplo debate público - relatos de violência policial, evidenciação de práticas/discursos racistas e discriminatórios, crítica da ausência de representatividade de determinados grupos sociais, etc. - conseguiram ganhar repercussão dentro da sociedade graças à web e, forçoso admitir, às mídias sociais (pelo menos na fase inicial), deixando de se restringir apenas ao esforço de uns poucos ativistas espalhados aqui e ali ³.
 
Penso não ser possível separar a consolidação dos Racionais MC's desse contexto. Obviamente, nada aconteceria sem o talento e a agudeza do olhar deles, mas o que estou querendo dizer é: a internet, cujo acesso, no final dos anos 1990, começava a chegar progressivamente a mais indivíduos e entidades, foi de inestimável auxílio para que o recado do grupo alcançasse mais pessoas (até mesmo possibilitando a produção de milhares de cópias piratas de Sobrevivendo no inferno ). Mais manos e manas de diferentes lugares conseguiram construir pontes uns com os outros e, em muitas ocasiões, a música dos Racionais era um dos elementos mais importantes nessa aproximação.
 
A iniciativa de conferir o título de doutor Honoris Causa partiu dos docentes Jaqueline Lima Santos, Daniela Vieira dos Santos e Omar Ribeiro Thomaz, mas creio não ser equivocado dizer que a inserção desses artistas primeiramente nos aparelhos de som das periferias e posteriormente na discussão dos mais intelectualizados, cada vez mais sensibilizados para questões como as que mencionei acima, tudo isso graças a interconexão possibilitada pela web, acabaria tornando uma homenagem deste tipo quase uma questão de tempo. E fico feliz, sendo um cara negro, que a Unicamp realmente tenha dado esse passo.
________________
¹ Vale a pena fazer aqui um breve comentário sobre a Rádio Favela. Nascida em 1981, com equipamentos improvisados e de forma clandestina dentro do Aglomerado da Serra em BH, a Rádio Favela durante décadas teve muita dificuldade para se manter, sobretudo pela ação da polícia. Hoje, legalizada desde o início dos anos 2000, a emissora passou a ser conhecida como Autêntica FM e cada vez mais opta por seguir o padrão de apresentação das outras. Uma pena.
 
² MELO, Tarso de. Sobrevivendo no inferno: ainda e sempre. Cult, São Paulo, n.241, dez. 2018 Disponível em: https://revistacult.uol.com.br/home/sobrevivendo-no-inferno-racionais/. Acesso em: 31/03/2025
 
³ Nem tudo são flores, porém. Dessa atuação, originou-se o que eu chamo, tentando fazer piada, de extrema militância, formada por indivíduos cheios de certezas e declarações peremptórias que tornam o debate muitas vezes difícil e infecundo, apesar de se acharem sujeitos de mente aberta.

BG de Hoje

Ao citar os destaques de Sobrevivendo no inferno, dos RACIONAIS MC's , esqueci de incluir   Fórmula mágica da paz. Gosto dela só por causa da batida hipnotizante construída sobre um sample retirado de Attitudes, do grupo de soul  e funk The Bar-Kays. 

sábado, 16 de maio de 2020

Onde cabe a poesia?


O livro A poesia e a crítica, reunião de alguns ensaios produzidos nas últimas duas décadas pelo poeta e filósofo Antonio Cicero, foi lançado em 2017, pela Companhia das Letras. Só pude comprá-lo no ano passado e o li pela primeira vez há poucos meses.

Encontros e desencontros com a contracultura - o primeiro dos textos do livro - não é propriamente um ensaio, mas um depoimento. Para além de refletir sobre o fenômeno da contracultura, o autor narra parte de sua trajetória e de suas escolhas na condição de estudante universitário de Filosofia, fornecendo ao leitor importantes informações sobre sua formação intelectual. Tendo partido para estudar em Londres após o golpe militar de 1964, Cicero fala também da influência exercida por Caetano Veloso (com quem pôde conviver durante algum tempo na capital inglesa, onde o artista baiano se exilara).

Em Poesia e preguiça, o ensaísta vale-se de T. S. Eliot, Baudelaire e Paul Valéry (entre outros) para defender a importância da preguiça na feitura dos poemas, isto é, "a ênfase na preguiça significa simplesmente que a gestação do poema tem um sentido completamente diferente do que tem o trabalho utilitário cotidiano". Esse texto também discute a relação da produção/recepção de poesia com o tempo, tópico retomado ao longo da publicação em pelo menos dois outros escritos. Voltarei ao tema mais adiante.

Defendendo o conceito de cânone poético/literário no ensaio que dá nome ao livro de que estamos falando, Antonio Cicero acredita que é preciso haver uma seleção de textos/autores(as), construída ao longo do tempo pelos críticos. Estes, por sua vez, seriam "todos aqueles que explicitam e defendem publicamente os seus juízos estéticos no que diz respeito à poesia", um conjunto de indivíduos, portanto, não restrito aos críticos profissionais. Essa seleção de textos/autores(as) tem como função principal balizar e orientar tanto a formação de poetas quanto qualificar os leitores de poesia. Nesse ensaio, o autor desanca o teórico da literatura britânico Terry Eagleton (estudioso sobre o qual já falei positivamente, aliás, aqui no blog).

Provavelmente mais conhecido do grande público por seu trabalho como compositor (letrista), Cicero aborda uma recorrente questão em Sobre as letras de canções: seriam estas poemas ou não? Neste ensaio, pode-se encontrar uma discussão mais ampliada do assunto, frequentemente tratado pelo autor, como em uma de suas antigas colunas publicadas quinzenalmente na Folha de S. Paulo. Essa coluna, a propósito, pode ser encontrada no blog do artista (Acontecimentos, um dos recomendados da casa). Já falamos do tema, há bastante tempo, aqui no blog.

Em O verso, um dos textos mais curtos, encontramos mais uma vez um importante esclarecimento feito anteriormente por Antonio Cicero: prosa não se opõe à poesia, mas sim ao verso, um dos maiores recursos poéticos (senão o maior). 

Os seis ensaios que se seguem a O verso analisam o trabalho de diversos poetas: Armando Freitas Filho, Ferreira Gullar, Fernando Pessoa e Friedrich Hölderlin (o escrito dedicado ao último é o mais extenso ensaio de todo o livro).

A poesia e a crítica encerra-se, curiosamente, com a breve apreciação de um texto em prosa: no caso, A montanha mágica, de Thomas Mann (disponível também aqui; a propósito, já falamos dessa mesma obra aqui, aqui e aqui). Como havia explicado na apresentação de seu livro, o poeta e filósofo concede ao romance do escritor alemão um papel importante em sua formação geral.

Gostaria agora de voltar a dois ensaios sobre os quais ainda não falei.

Havia escrito, parágrafos acima, que a relação da produção/recepção da poesia com o tempo é um tópico presente em mais de um texto dentro do livro.

Verificando que, no mundo contemporâneo, é difícil para a imensa maioria apreciar a leitura de poesia - pois nos encontramos "sob o domínio quase absoluto da apreensão instrumental do ser", quando não se consegue perceber o valor das coisas por elas mesmas (tudo é sempre um meio para se alcançar outra coisa) -, Antonio Cicero escreve no ensaio A poesia entre o silêncio e a prosa do mundo:

"Nessas circunstâncias, não admira que o dinheiro - o meio por excelência, pois é o meio dos meios - seja o que há de mais importante. O que seria apenas um meio torna-se o verdadeiro fim. Ora, num mundo assim, em que, para o senso comum  'tempo é dinheiro', parece irracional que se faça um investimento de tempo sem nenhuma garantia de que se venha a obter, num prazo determinado, qualquer compensação ou retorno. Consequentemente, poucos se permitem mergulhar no poema, isto é, pensar nele, com ele, através dele, pondo à disposição dele, pelo tempo que se faça necessário, o livre jogo de todas as faculdades que esse pensamento integral requeira".

Para o ensaísta, a poesia escrita para ser lida (diferentemente da poesia escrita para ser ouvida, isto é, a que está presente nas letras de muitas canções) dificilmente pode ser fruída sem que se dedique a ela concentração e tempo: "Para fruir um poema, é preciso nele imergir. E como tal imersão não combina com a temporalidade acelerada do presente, muitos afirmam que a poesia simplesmente não tem mais lugar nesse mundo".

E acrescenta:

"Pois bem, é exatamente por não se ajustar à temporalidade acelerada do presente que a poesia é necessária hoje. Afinal, a temporalidade acelerada corresponde à apreensão instrumental do ser. Assim, é bom que a poesia, longe de se ajustar a ela, relativize-a, uma vez que nos dá acesso a esse outro modo de apreensão do ser e do tempo - o estético - que enriquece imensamente à vida humana. [...]"

Por sua vez, na análise de um dos poemas mais marcantes de nossa Literatura - Sobre A flor e a náusea, de Drummond -, ele afirma:

"Ora, uma das ambições da poesia é exatamente desautomatizar a linguagem, a percepção do mundo e o pensamento, de modo a nos permitir apreender linguagem, mundo e pensamento como se fosse pela primeira vez. Não se trata de um consolo, mas do transporte para outra dimensão do tempo, para outra dimensão da existência, inteiramente distinta daquela que é regida pelo princípio do desempenho, da utilidade, da instrumentalidade, do valor de troca [...]".

Para compreendermos ainda melhor o que nos diz Antonio Cicero, convido o(a) eventual leitor(a) a lermos juntos um dos meus poemas prediletos: Plena pausa, de Paulo Leminski  ¹:

PLENA PAUSA

     Lugar onde se faz
o que já foi feito,
    branco da página,
soma de todos os textos,
    foi-se o tempo
quando, escrevendo,
    era preciso
uma folha isenta.

    Nenhuma página
jamais foi limpa.
    Mesmo a mais Saara,
ártica, significa.
    Nunca houve isso,
uma página em branco.
    No fundo, todas gritam,
pálidas de tanto.


Confesso que não atentei para seu sentido mais profundo, nas primeiras vezes em que li este poema, muito tempo atrás. Apenas achei bonitas as combinações de palavras. Também fiquei fascinado pelo último verso - pálidas de tanto (voltaremos a este, daqui a pouco).

Mas qual seria esse sentido profundo? Acredito que Leminski está tratando, poeticamente, de algo que afeta (e às vezes aflige) os escritores: o peso representado por todas as obras já escritas, sobretudo aquelas que compõem o que consideramos os textos mais significativos já produzidos (o cânone, para recuperar um conceito discutido por Antonio Cicero num de seus ensaios).

"Lugar onde se faz/o que já foi feito". Muitos poetas talvez fiquem intimidados ou mesmo paralisados diante de uma página em branco ao se lembrarem de que aquilo que tencionam escrever provavelmente nada terá de original, pois já foi experimentado e realizado antes por outro poeta, inclusive, com maior beleza (isso, naturalmente, vale para romancistas, contistas, etc.). Por isso a página vazia, não-escrita, representa a tradição literária que antecede o poeta: "branco da página/soma de todos os textos". NOTA: perceba o jogo feito por Leminski. A página é branca: ainda assim, soma todos os textos da tradição literária, do mesmo modo que o branco soma todas as cores (pelo menos quando estamos falando do espectro luminoso).

Porém, não é preciso ficar intimidado nem paralisado. Os artistas, se talentosos, saberão usar essa tradição a seu favor: dialogando com ela ou até subvertendo-a: "foi-se o tempo/quando escrevendo,/era preciso/ uma folha isenta".

Os textos predecessores existem, são um fato. Por isso "Nenhuma página/jamais foi limpa". E "No fundo todas gritam". Gritam o quê? Justamente toda a arte que foi registrada antes delas, noutras páginas. E estão "pálidas de tanto". É admirável como a simples troca de espanto (evitando um pavoroso lugar-comum) por tanto cria um efeito de sentido tão poderoso. O tanto refere-se, acredito eu, à tradição literária que virtualmente paira sobre a página em branco.

E assim o título do poema - Plena pausa - fica mais claro. A página em branco, que dentro de um livro pode representar uma pausa, está também plena, isto é, cheia de toda a arte da escrita que a circunda de forma latente.

Como se vê, os bons poemas, para serem apreciados e compreendidos em plenitude, demandam de nós dedicação e tempo (mesmo um poema de apenas 16 versos, como esse de Leminski, que acabamos de analisar). Mas quem está disposto a isso?

Vivemos num mundo que a todo momento martela em nossas cabeças: "NÃO PERCA TEMPO!", "SEJA RÁPIDO!", "PRODUZA!" - como se isso estivesse fazendo nossa vida melhor, como se estivéssemos tornando este mundo um lugar melhor...

É por isso que, pelo menos no meu caso, vou sempre deixar um espaço onde a poesia caiba em minha vida, pois desejo ter "acesso a esse outro modo de apreensão do ser e do tempo - o estético - que enriquece imensamente à vida humana", como bem disse Antonio Cicero.
__________
¹ LEMINSKI, Paulo. Melhores poemas de Paulo Leminski. 6 ed. São Paulo: Global, 2002. [Seleção de Fred Góes e Álvaro Martins] (Coleção Melhores Poemas)

. . . . . . .

ALDIR BLANC (1946 - 2020)

Ao pensar nas letras de canções como poemas (e, sem dúvida, muitas delas certamente o são), é preciso lembrar de Aldir Blanc, falecido recentemente. Num país que produziu e produz tantos ótimos letristas-poetas (Chico Buarque, Antonio Cicero, Cazuza, Gilberto Gil, Arnaldo Antunes, Fernando Brant, Caetano Veloso, Emicida, Vinícius de Moraes, Chico César...), Blanc foi um dos maiores. O(a) eventual leitor(a) encontrará menções ao principal parceiro de João Bosco em algumas postagens deste blog. Uma de suas letras-poemas de que mais gosto é também uma das mais simples que ele escreveu:

LATIN LOVER

Nos dissemos
que o começo é sempre,
sempre inesquecível.
E, no entanto, meu amor, que coisa incrível,
esqueci nosso começo inesquecível.
Mas me lembro
de uma noite.
Sua mãe tinha saído.
Me falaste de um sinal adquirido
numa queda de patins em Paquetá:
Mostra... doeu?... ainda dói?...
A voz mais rouca,
e os beijos,
cometas percorrendo o céu da boca...
As lembranças
acompanham até o fim um
latin lover,
que hoje morre,
sem revólver,
sem ciúmes,
sem remédio.

De tédio.

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BG de Hoje

Não é difícil encontrar por aí muita gente que tem profunda antipatia pelo comediante e apresentador norte-americano JIMMY FALLON. "Suas risadas geralmente são falsas"; "Ele é meio alienado politicamente"; "Às vezes, quer chamar mais atenção para si do que para o(a) convidado(a)" - essas e outras críticas costumam ser dirigidas ao ex-integrante do longevo humorístico Saturday Night Live. Admito que não são observações descabidas. Entretanto, não tenho vergonha nenhuma de dizer que gosto muito do trabalho dele - sobretudo a infantilidade da maioria dos quadros do programa, outra crítica recorrente - e não me canso de assistir trechos de seu talk show disponibilizados no Youtube. Como o vídeo abaixo, por exemplo. Com a participação do lendário grupo de hip hop THE ROOTS (atualmente, a banda que divide o palco com Fallon na sua atração de TV), o comediante (que também é músico) promoveu uma versão formidável do hit Don't Stand So Close To Me (THE POLICE), junto com STING. O uso de alguns "instrumentos musicais" inusitados não é novidade para esses caras dentro do programa e, dado o isolamento social decorrente da pandemia de COVID-19, ficou mais do que adequado.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Falou e disse...


"Aprendi com Rômulo Quiroga (um pintor boliviano):

A expressão reta não sonha.
Não use o traço acostumado.
A força de um artista vem das suas derrotas.
Só a alma atormentada pode trazer para a voz 
um formato de pássaro". 
[...] *


* BARROS, Manoel de. As lições de R. Q. In: _________. Livro sobre nada. 7 ed. Rio de Janeiro: Record, 1998. p. 67

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Falou e disse...

VENDO POESIA *


Para quem gosta
Poesia nada custa
Poesia nada gasta
Bastam os olhos da cara


* CUNHA, Leo. Vendo poesia. In: _________. Vendo Poesia. São Paulo: FTD, 2010. p.9

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Caetano Veloso, 75 anos


No último dia 7 de agosto, Caetano Veloso completou 75 anos. É uma idade considerável. Faz pensar. E lembrar.

A primeira música de sua autoria que eu ouvi é uma das que mais detesto até hoje: Atrás do trio elétrico.

Era criança, devia ter uns seis ou sete anos de idade. Uma de minhas irmãs escutava um disco. Tinha uma vaga ideia do que eram os trios elétricos. Achei a canção barulhenta e meio irritante.

A segunda foi Um índio. O rádio estava ligado. Pareceu-me estranha, tomei ojeriza. Ainda era criança (mas continuo não gostando agora, que estou velho).

Foi então que ouvi Canto do povo de um lugar. Alguém, mais uma vez, colocara um disco pra tocar, só não me recordo agora quem. Considerei-a linda naquele instante; hoje não me comove tanto. Mas naquela época, há mais de trinta e tantos anos, foi essa canção que me ligou à música do artista baiano.

E desde então as coisas mudaram.

Você que está lendo isso pode estar se perguntando: mas vem cá: precisa mesmo, em pleno 2017, escrever sobre esse cara, comentar sua obra, discutir sua atuação como figura pública?

Sim. E sabe por quê? Porque os gênios são inesgotáveis e falar de pessoas assim torna-se algo compulsivo, viciante para alguns, como este blogueiro.

Gênio?!? Você deve estar brincando! - outra pessoa, por acaso lendo este texto, acaba de falar para si mesma. Caetano Veloso - prossegue ela - já disse um sem-número de bobagens; já fez um caminhão de asneiras! Não passa de um "pseudointelectual de miolo mole" - o falecido ensaísta e crítico literário José Guilherme Merquior chamou-o assim certa vez, décadas atrás. E claro que há quem o detone, sem dó nem piedade, também hoje em dia, como o ex-editor da extinta (e saudosa) revista Bizz, André Forastieri (Quem ainda se importa com Caetano Veloso?)

Insisto, contudo. Gênio.

Um dia desses estava ouvindo Fora da ordem, faixa do disco Circuladô, lançado em 1991. Difícil não sentir o frescor - e o vigor - dessa canção, conservados mesmo após tanto tempo. Essa observação, penso eu, é válida também para Eu sou neguinha (que faz parte de um álbum lançado em 1987). E não estou me referindo às letras, assunto pra daqui a pouco. Falo da composição musical mesmo, das harmonias, do som... Peraí, não posso esquecer de Vaca Profana, minha Nossa Senhora dos Talentos Infindáveis!

E quanto àquelas, digamos, mais "datadas"?

Penso, por exemplo, em Tropicália. A meu ver, é uma canção monumental, ainda mais quando se considera aquele arranjo do Rogério Duprat. E foi gravada há 50 anos! Penso também no álbum Transa, gravado em Londres, durante o exílio do artista no início da década de 1970 (um de meus irmãos mais velhos, hoje falecido, adorava esse disco), um trabalho marcante, forte, independentemente da época em que foi produzido.

A propósito, peço a aquiescência do(a) eventual leitor(a) para uma digressão.


Entre os muitos males causados pela indústria musical ficou o detestável hábito, impregnado em muita gente, de colocar prazo de validade na produção artística. Muita gente (sobretudo adolescentes) acredita que, se uma canção ficou "velha", deve ser imediatamente substituída pelo hit do momento ou pelo experimento-indie-que-só-eu-e-outros-iluminados-como-eu-conhecem. Pra essas pessoas, escutar e gostar de coisa "velha" é ruim, ponto. Só um adendo: outro dia, ouvindo rádio por acaso, soube que a faixa Royals, da cantora neozelandesa Lorde, já é "jurássica" - e foi lançada em 2013! Essa ânsia infantil pós-moderna pelo eterno presente, enfraquecendo a capacidade das pessoas de manter uma perspectiva histórica (e, portanto, crítica, criteriosa) sobre os eventos, fatos e fenômenos, produz essa cretinice do "prazo de validade" aplicado à música a que me referi. Também explica outra estupidez: a inaptidão para ler livros que não sejam os best-sellers da hora. Falarei disso, porém, noutra ocasião.

Que me perdoe a babação de ovo aquele(a) que estiver lendo esta postagem, mas não consigo imaginar a cultura e a arte brasileiras da segunda metade do século passado sem a presença de Caetano Veloso. E é espantoso que um artista dessa envergadura seja tão acessível - tanto em relação ao seu trabalho, quanto em relação à comunicação com a coletividade e a mídia. Ele nunca fez o tipo recluso, cheio de não-me-toques, muito pelo contrário: faz questão de participar do debate público (algumas vezes com declarações infelizes e provocando polêmicas desnecessárias, tenho que admitir, porém). Mostras dessa comunicabilidade que acabei de mencionar podem ser vistas em espaços como o saudoso programa Chico & Caetano, em 1986, o blog Obra em progresso, na década passada, e a coluna assinada no jornal O Globo, entre 2010 e 2014. Agora, em 2017, por exemplo, concedeu entrevista para vários veículos, falando sobre todos os temas inquiridos (como na que foi publicada pela Folha de S. Paulo, quase toda voltada para suas opiniões sobre o atual cenário político do Brasil). 

E falando em entrevistas,  na conversa com o jornal El País, ao comentar o prêmio Nobel de Literatura concedido a Bob Dylan, Veloso fez a seguinte observação, em tom de brincadeira, como notou o repórter Carlos Galilea: "Há um atraso por parte da organização do Prêmio Nobel sobre a questão de alta e baixa cultura. É algo dos anos 1960 que eles estão resolvendo agora porque são o Nobel e não podiam fazê-lo mais rápido".

Como disse aqui no blog recentemente, o Nobel concedido a Dylan no ano passado pela Academia Sueca é o maior reconhecimento de que letras de canções populares muitas vezes são autênticas e valiosas criações literárias. E qualquer pessoa que compreenda minimamente de que matéria é feita a Literatura não teria dificuldade para incluir Caetano Veloso entre os maiores poetas brasileiros de todos os tempos. Arrisco dizer que ele não teve tanta projeção internacional (ainda que desfrute de alguma) apenas porque canta em português, mesmo sendo fluente em inglês e espanhol. Há, claro, composições suas em inglês e, principalmente nos últimos 20 anos, o artista tem gravado muitas canções em espanhol. Entretanto, a essência de sua obra está em português - e para nosso orgulho, claro! É pena, contudo, que a língua portuguesa não figure entre os mais prestigiados idiomas da história recente (para constatar isso, basta mencionar que, até hoje, só um autor lusófono - José Saramago, em 1998 - levou o Nobel de Literatura).

Vamos aproveitar, então, para falar um pouco de poesia. Noutra entrevista feita este ano (dessa vez para o site Tenho mais discos que amigos!), Caetano Veloso disse o seguinte, para responder a uma pergunta sobre O Quereres, uma de suas mais belas composições:

"Acho que a forma de poesia, com versos de dez sílabas, tem tradição em cantares nordestinos e está arraigada no subconsciente de qualquer brasileiro. As palavras ditas são atraentes, e mesmo antes de a gente entender o que está sendo dito em cada frase a gente se interessa por 'revólver', 'dinheiro', 'paixão'. A fórmula 'Onde queres… sou…' cria interesse no ouvinte. O resto é com o ritmo dos versos, a melodia, os sons – e o que as pessoas que vão atrás do que é dito que se segue cada frase até o fim. Quando conheci Maria Gadú, ela me mostrou que tinha, em sua casa, a letra de O Quereres escrita numa porta interna. Agora ela tem parte dessa letra tatuada numa das pernas".
Essa canção, por sinal. foi regravada para a abertura de uma telenovela recente da corporação de mídia dominante - estranha associação (ou talvez nem tanto) entre o apuro e a bobagem.

Outro exemplo inconteste, penso eu, do talento poético de Veloso é Luz do Sol. Não sei se já escrevi sobre isso aqui no blog, mas uma vez essa música me rendeu uma aula muito boa (algo bastante raro), quando eu era professor de Língua Portuguesa da rede estadual aqui de Minas Gerais (qualquer dia desses conto essa história).

Ainda pretendo dedicar uma série de postagens aqui no Besta Quadrada voltadas exclusivamente para a poética de Caetano Veloso. A ver.

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Antes de terminar, duas notas:

1) Não poderia deixar de mencionar, para ser honesto, o lamentável episódio da proibição de biografias não-autorizadas, que era defendida pela associação Procure saber, formada por um grupo de artistas, entre estes, Caetano Veloso (o texto de André Forastieri citado acima, ainda que não me agrade sua feição e não concorde com grande parte de seu conteúdo, acerta ao enfatizar esse caso). Embora o artista afirme hoje que houve histeria por parte da imprensa e da opinião pública, Veloso não tinha razão, já que adotou uma postura censora e antidemocrática. Por falar nisso, uma biografia sua, lançada este ano, desagradou-o bastante, pois foi considerada mal escrita.

2) Às vezes, Caetano Veloso, atuando apenas como intérprete, faz escolhas terríveis. É o caso, por exemplo, da dispensável (e pavorosa) versão feita por ele para Come As You Are, do Nirvana. Todo mundo saiu perdendo nessa: Caetano, a fantástica banda de Aberdeen e os ouvintes.

Na próxima postagem, escreverei sobre Elogio da Loucura, de Erasmo de Rotterdam.

BG de Hoje

O BG, claro, tinha que ser uma música de CAETANO VELOSO. Preferencialmente, das que mais gosto, Porém, qual escolher? São tantas. Milagres do Povo, Gema e Diferentemente já estiveram nessa seção; portanto, posso deixá-las de lado por enquanto. Mas e quanto a O Quereres, Gente, Fora da ordem, London London, Luz do sol, Eu sou neguinha, Trem das cores, Dom de iludir, Um comunista, Pecado original... Acabei optando por Como dois e dois, canção nunca gravada, em estúdio, por Veloso. Gosto da sua levada lenta, do seu ar bluesy. A primeira vez que ouvi essa composição foi na voz de Roberto Carlos, naquele disco dele de 1971 (incluí essa versão também porque acho muito boa).

sábado, 15 de julho de 2017

Situando a poesia de Adélia Prado (III)


Já reli O feijão e o sonho não sei quantas vezes, desde os meus 13, 14 anos. Nas primeiras leituras, tomava inteiramente o partido de Maria Rosa e só muito mais tarde, adulto bem mais velho, consegui comover-me um pouco com a figura de Campos Lara, "aquele pobre lutador a seu modo" ¹.

Como se sabe, o despretensioso livrinho de Orígenes Lessa, publicado pela primeira vez em 1938, tem como protagonista um poeta - "um inadaptado, um incapaz para a vida prática" - que não consegue estabelecer-se como escritor. Suas outras ocupações, mal remuneradas ou precárias (mestre-escola, jornalista), não rendiam o suficiente para sustentar a família, o que ocasionava constantes desentendimentos com a esposa: "Maria Rosa não era uma inimiga. Maria Rosa era o outro lado da vida. O lado em que não daria coisa nenhuma, em que ele sempre fracassaria. O duro. O difícil. O sem cadência nem rima. O do seu permanente naufrágio. O lado onde jamais deveria ter ingressado".

Mas após trinta anos de insistência - tendo, contudo, abandonado a poesia, pois "verso não dava lucro" - Campos Lara "tornara-se o grande romancista do país. Tinha um grande nome nacional". E tanta dedicação rendeu a ele uma modestíssima sinecura: um cargo de "amanuense de uma secretaria de Estado", pelo qual recebia "pouco mais do que um empregado de escritório".

O fato é que finalmente "chegara ao clímax da sua carreira. Todas as consagrações literárias o haviam coroado. As academias o disputavam. Os jornais. As revistas". Mas à glória atingida (que não significou nenhuma recompensa financeira de monta) seguiu-se "a demolição". Acompanhemos a passagem seguinte (ajudará muito no tema principal da postagem de hoje):

"[...] Uma turba irreverente, trinta anos mais moça, procurava lugar ao sol. Feita de outros sonhos, de outras tendências, de outras inquietações. Devorada por outros problemas. Buscando o seu rumo. Procurando afirmar-se.

E na ânsia de ocupar lugar, de encher a terra, não podia tolerar os velhos ídolos. Campos Lara fizera-se um ídolo. Campos Lara tornou-se um papão. Sua voz nada significava, reboava sem eco pelas quebradas do país.

A princípio, foi apenas a incompreensão, a perda de contato. Depois foi preciso destruir.

E um dia uma voz moça, um nome desconhecido, abriu fogo. Escândalo. Revolta. Mais outra voz. E mais outra. Eram os devoradores. Era a nova geração. A que seria a seu tempo devorada.

E a palavra de ordem dos moços passou a ser a destruição de Campos Lara! Escarneciam da sua obra, zombavam do seu feitio, ridicularizavam a sua atitude, a filosofia, a forma, os cacoetes literários".

Tenho insistido, desde a primeira postagem desta série sobre Adélia Prado, que a escritora mineira é a grande poeta brasileira viva (não sou só eu, muita gente acha o mesmo - Elisa Lucinda, por exemplo). A avaliação que faço, contudo, é menos um enaltecimento (afinal, desnecessário) da obra de Prado (pois evidências de sua consagração não têm faltado) do que um modo de estabelecer um ponto referencial a partir do qual venho tentando transitar no variegado e multiforme mundo da poesia brasileira contemporânea nos últimos anos ².

E o que o "caso" de Campos Lara tem a ver com isso?

Tal como o personagem de Orígenes Lessa (mas sem passar por caminho tão acidentado), Adélia Prado virou "um nome nacional"; chegou, acredito, à condição de "ídolo". Mas terá ela se tornado uma "papona", aquele tipo de autor contra quem seus "concorrentes" - ou seja, os outros poetas - precisam abrir fogo, escarnecer "de sua obra, [zombar] do seu feitio, [ridicularizar] a sua atitude, a filosofia, a forma, os cacoetes literários"?

Antes, porém, de tentar responder esse questionamento, gostaria de falar um pouco sobre um poema de Adélia Prado - chamado Sítio ³ - do qual gosto muito.

. . . . . . .

SÍTIO

Igreja é o melhor lugar.
Lá o gado de Deus para pra beber água,
rela um no outro os chifres
e espevita seus cheiros
que eu reconheço e gosto,
a modo de um cachorro.
É minha raça, estou
em casa como no meu quarto.
Igreja é a casamata de nós.
Tudo lá fica seguro e doce,
tudo é ombro a ombro buscando a porta estreita.
Lá as coisas dilacerantes sentam-se
ao lado deste humaníssimo fato
que é fazer flores de papel
e nos admiramos como tudo é crível.
Está cheia de sinais, palavra,
cofre e chave, nave e teto aspergidos
contra vento e loucura.
Lá me guardo, lá espreito
a lâmpada que me espreita, adoro
o que me subjuga a nuca como a um boi.
Lá sou corajoso
e canto com meu lábio rachado:
glória no mais alto dos céus
a Deus que de fato é espírito
e não tem corpo, mas tem
o olho no meio de um triângulo
donde vê todas as coisas,
até os pensamentos futuros.
Lugar sagrado, eletricidade
que eu passeio sem medo.
Se eu pisar,
o amor de Deus me mata.

Sítio pertence ao livro Bagagem, o primeiro publicado pela autora. Um dos principais traços da poética de Adélia Prado, o despojamento (melhor seria falar em despojo - ou seja, a retirada de enfeites, ou de ornamentos considerados supérfluos) salta aos olhos desde a primeira sequência de versos (é possível notar também um certo eco roseano):

"Igreja é o melhor lugar.
Lá o gado de Deus para pra beber água,
rela um no outro os chifres
e espevita seus cheiros
que eu reconheço e gosto,
a modo de um cachorro".

Prestemos um pouco mais de atenção nesta outra passagem:

"Lá as coisas dilacerantes sentam-se
ao lado deste humaníssimo fato
que é fazer flores de papel
e nos admiramos como tudo é crível".

A professora e pesquisadora Rita Olivieri (a quem também citamos na postagem anterior) afirma ⁴ que essa "voz poética, embora sabendo-se finita e imersa na rotina do cotidiano, anseia por transcendência". As simultâneas superposições entre o imanente e o transcendente acabam conduzindo muitos dos textos de Prado a "um modo de articulação da linguagem que favorece a aproximação entre o prosaico e o poético". A barafunda metafísica da religião e seus mitos - "as coisas dilacerantes" - convivem numa boa com o ato inteiramente mundano de "fazer flores de papel". E como observou o crítico literário (e também poeta) Augusto Massi ⁵, "os poemas de Adélia Prado alcançaram um perfeito equilíbrio entre a graça e a gravidade". 

Talvez seja importante a essa altura deixar registrado um pequeno esclarecimento. Se você que está lendo este texto (aliás, agradeço imensamente) por acaso já visitou o Besta Quadrada noutras oportunidades (agradeço mais ainda), possivelmente sabe que o blogueiro é ateu. Não seria estranho, portanto, que este dedique seu tempo à leitura de uma escritora capaz de escrever, na abertura de um outro poema seu, "Quem me socorre é Deus e toda corte celeste/com seus anjos e santos" e faz da divindade um de seus temas centrais?

Numa entrevista ao programa Roda Viva, em 2014 (disponível aqui), Adélia Prado disse algo que me auxilia nessa resposta:

"Se eu fosse ateia ou agnóstica faria poesia do mesmo jeito [...]. É um dom, uma graça, não é nenhum mérito meu. Mas eu faria outra poesia. Não é a fé que [me] faz fazer poesia. A fé é constitutiva da minha experiência humana; então, necessariamente, ela aparece na minha poesia".

Parafraseando-a, eu diria: não é a descrença (na religião, na sobrenaturalidade ou nalguma divindade) que determina meus interesses literários. O ateísmo é constitutivo da minha experiência humana; então, necessariamente, às vezes não consigo deixar de falar e escrever sobre isso. O que não me impede de apreciar a poesia de Adélia Prado.

Agora, é oportuno notar na fala da poeta reproduzida acima, o seguinte trecho: "[Fazer poesia] é um dom, uma graça, não é nenhum mérito meu". Entretanto, caso ela fosse ateia, nada disso faria sentido - pois ateus não acreditam em dom ou graça divina. O importante aqui, porém, é a declaração: "não é nenhum mérito meu".

Uai (como se diz aqui em Minas Gerais), se é assim, pra que serviria o poeta (no caso, a poeta) então?

Nossa discussão, portanto, deve agora seguir noutra direção e encaminhar-se para seu encerramento.

. . . . . . .

No poema A formalística, do livro A faca no peito (publicado em 1988), Adélia Prado escreveu:

"O poeta cerebral tomou café sem açúcar
e foi pro gabinete concentrar-se.
Seu lápis é um bisturi
                 que ele afia na pedra,
na pedra calcinada das palavras,
imagem que elegeu porque ama a dificuldade,
                    o efeito respeitoso que produz
                                 seu trato com o dicionário.
Faz três horas já que estuma as musas".

Ao mencionar a pedra, não tenho qualquer dúvida de que o "ataque" fora dirigido a João Cabral de Melo Neto. Em diversas oportunidades, Prado defendeu a noção de inspiração num sentido não muito diferente daquele do senso comum: uma espécie de "sopro criador" - sobrenatural até - que acomete o sujeito e leva-o a escrever. Ela opõe-se ao poeta cerebral (Melo Neto não acreditava em inspiração) - pelo menos no sentido em que cerebral é empregado no poema mencionado logo acima (no cerebral, supostamente, não caberia a emoção). Como vimos anteriormente, ela acredita que a poesia deriva de um dom, uma graça. Ela não tem mérito algum na feitura dos poemas.

Entretanto, na entrevista ao programa Roda Viva citada acima, a escritora diz:

"[...] O poema vem cheio de gordura, de sangue, de tudo quanto há, eivado das coisas que aquela emoção está produzindo, mas isso não é arte ainda. É uma coisa bruta. Aí você escreve [ou seja, livra-se da "gordura" e do "sangue"].

Ora, essa "depuração", essa "limpeza" realizada pela poeta no momento da escrita é, indubitavelmente, pensada, muito provavelmente motivada por determinada intencionalidade.

É bem possível que a autora não concordasse com o que acabei de escrever. Noutra entrevista ao mesmo programa Roda Viva, desta vez em 1994 (transcrição disponível aqui), perguntou-se a Prado se ela achava que o intencional é ruim. Sua resposta:

"Em arte, sim; o intencional é na filosofia. Eu faço um ensaio, eu argumento, eu faço uma tese, maravilhoso, adoro ler ensaios. Mas é outro espaço, é outra categoria. A arte não vem da razão, ela não vem da lógica, ela vem do espírito".

Pessoalmente, acho isso pouco palatável. Claro que poesia e filosofia - para ficar no exemplo dado pela escritora - são instâncias discursivas distintas. Mas dizer que a arte provém apenas do "espírito" e não passa pela mediação do pensamento não me parece corresponder à realidade do trabalho literário. Quando uma escritora como Adélia Prado fala em tirar a "gordura" e o "sangue" com os quais os poemas, segundo ela, vêm ao mundo, outra coisa não faz do que afirmar a ação intencional, pensada (logo cerebral, a seu modo) do poeta. Certamente não com a mesma obstinação arquitetônica de João Cabral de Melo Neto, mas ainda assim... Gosto sempre de lembrar daquela passagem memorável do Itinerário de Pasárgada, de Manuel Bandeira ⁶:

"Mas ao mesmo tempo compreendi [quando tomou consciência de que seria um "poeta menor"], ainda antes de conhecer a lição de Mallarmé, que em literatura a poesia está nas palavras, se faz com as palavras e não com ideias e sentimentos, muito embora, bem entendido, seja pela força do sentimento ou pela tensão do espírito que acodem ao poeta as combinações de palavras onde há carga de poesia".

Ou seja, a inspiração - seja ela um "sopro criador", uma "graça", um forte sentimento ou uma ideia obsedante - tem lá sua relevância, mas o poeta é antes de mais nada um artista das palavras. E ao resolver combiná-las, associá-las, organizá-las de um jeito - e não de outro - o faz de forma deliberada, refletida. Do contrário, bastaria, para fazer poemas, que alguém dotado de uma espécie de mediunidade literária mantivesse contato com a poesia e psicografasse o que lhe fora ditado...

. . . . . . . 

Desnecessário dizer que, apesar da consagração e da relativa popularidade, Adélia Prado não é unanimidade. Ainda assim acho importante colocá-la no posto de a grande poeta brasileira viva.

Essa "entronização" talvez seja equivocada, artificial ou simplesmente fátua.

Acho, porém, que ela tem pelo menos uma valia: fornece um bom alvo, bem delimitado, no qual outros(as) poetas podem "abrir fogo" (lembram-se do caso do Campos Lara lá no início da postagem?). Respeitosamente, claro.

Ao atentar para atitude, as formas prediletas, os "cacoetes literários", o feitio de certos textos, a filosofia que subjaz a obra de grandes poetas (e Adélia Prado, não tenho dúvida, está entre estes) - mesmo que seja para escarnecer e zombar (como talvez façam muitos de seus "concorrentes") - é uma forma de aprendizado, até para o exercício da própria escrita. E, embora compreendendo que muitos consideram isso meio forçado e antiquado, penso que nada é melhor para prestarmos atenção na obra de grandes artistas do que colocá-los num pedestal - mesmo que venhamos a desancá-los depois.

. . . . . . .

A postagem, mais uma vez, ficou imensa. E mesmo assim deixei de abordar dois temas que havia prometido tratar hoje: o ato de ler poesia atualmente, além de enumerar algumas considerações sobre poesia contemporânea. Vai ficar para depois.

Contudo, não posso, antes do encerramento, deixar de comentar algo que me incomoda muito em Adélia Prado. Não em sua obra, mas em alguns de seus posicionamentos como figura pública que é.

Sendo tão aferradamente católica, é de se esperar que a escritora adote uma visão de mundo conservadora. Até aí, tudo bem. Porém, a meu ver, Prado, nalguns pontos, chega a ser reacionária. Basta conferir algumas de suas observações nas entrevistas que citei ao longo desta série e o(a) eventual leitor(a) verá que não estou exagerando. Ficarei apenas em três exemplos.

Na entrevista ao jornal O Globo, numa pergunta sobre aborto, a escritora diz que o princípio do "meu corpo, minhas regras" - caro ao feminismo - não passa de "uma empáfia, militância, cunha para extrair variadas vantagens".

Na sua segunda participação no Roda Viva, em 2014, afirmou que "vivíamos numa ditadura, não numa democracia",  declaração sem respaldo na realidade, mas que ia ao encontro do interesse da produção do programa, que, como se sabe, opunha-se ferozmente ao governo da ex-presidente eleita Dilma Rousseff. Não custa lembrar que a TV Cultura, responsável pelo Roda Viva, é administrada pelo governo de São Paulo, nas mãos do PSDB há décadas. O mesmo Roda Viva organizou aquela vergonhosa entrevista com Michel Temer, da qual só participaram jornalistas "brandos" com o político - para dizer o mínimo - e na qual Ricardo Noblat fez aquela patética - e já antológica - pergunta sobre como Temer conhecera a esposa, Marcela. É difícil imaginar que uma pessoa com a inteligência de Adélia Prado não soubesse que estava sendo usada para espicaçar uma adversária dos controladores da emissora em ano de eleição.

E, por fim, a poeta já afirmou que o ato criativo pertence ao masculino e que "o papel do feminino é o papel do segundo lugar, é o do segundo, é o do serviço, do anonimato mais perfeito", como se pode encontrar na sua primeira participação no Roda Viva. Confesso que tenho dificuldade para compreender isso.

Faço essas observações para lembrar (como já fiz antes aqui no blog ao escrever sobre Monteiro Lobato, Lima Barreto e Ferreira Gullar) que não se deve idealizar demais os(as) grandes artistas, mesmo aqueles(as) a quem admiramos.

__________
¹ LESSA, Orígenes. O feijão e o sonho. São Paulo: Ática, 1983

² Há poucos anos tentei encetar uma série de postagens aqui no Besta Quadrada - intitulada Poesia: questão de tudo ou nada - justamente para discutir, entre outros temas, a poesia contemporânea. Acabei não concluindo a série. Talvez retome-a um dia. Ou, a partir dos mesmos temas, opte por escrever algo diferente. Vou pensar.

³ PRADO, Adélia. Poesia reunida. São Paulo: Siciliano, 1991 (todos os poemas e excertos citados nesta postagem provieram dessa reunião da obra da poeta)

⁴ OLIVIERI, Rita. Poesia e oralidade na obra de Adélia Prado. Sitientibus, Feira de Santana, n. 13, p. 121-126, jul-dez. 1995. Disponível em <http://www2.uefs.br/sitientibus/pdf/13/poesia_e_oralidade_na_obra_de_adelia_prado.pdf>. Acesso em 25/06/2017

⁵ O ensaio Móbile para Adélia, de Augusto Massi, serve de posfácio para a última edição da Poesia reunida de Prado, publicada em 2015, agora pela editora Record.

⁶ BANDEIRA, Manuel. Itinerário de Pasárgada. In: ________. Seleta de Prosa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997. p. 295-360

BG de Hoje

Devo admitir que nunca tinha ouvido falar em ELLEN OLÉRIA até poucos meses atrás, quando a vi no comando do (ótimo) programa Estação Plural, da TV Brasil. Soube depois que ela foi vencedora numa atração musical da Rede Globo. Fui ouvir então algumas de suas apresentações. Chapei na hora! Espetacular! Confira na faixa Testando, composição da própria artista brasiliense.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Situando a poesia de Adélia Prado (II)




Numa breve entrevista publicada um tempinho atrás no jornal O Globo (disponível aqui), quando perguntada como recebera a nova edição de sua Poesia reunida (já que a autora não ficou contente da primeira vez ¹), Adélia Prado respondeu:

"A primeira coisa que uma obra completa me lembra é: somos mortais. Um copo de plástico dura mais que a mais longa vida. Diferentemente de 1991, quando esperneei um pouco, recebo agora a edição sem estridências ², feliz e agradecida. Tem ainda um atenuante joia a meu favor, dois poemas novos. Assim escapo. Fica mais difícil me tornar veterana. Espero morrer caloura, como sempre me vejo".

A poeta pode olhar para si como caloura. Nós, entretanto, não precisamos fazer o mesmo. Desde 1975-76, quando Bagagem veio a público, Prado foi consolidando, paulatinamente, uma obra vigorosa. E embora outros(as) autores(as) me interessem mais, (o que não quer dizer que não a aprecio), considero-a, atualmente, a grande poeta viva da literatura brasileira, sobretudo por ser a mais popular -, como venho defendendo desde a postagem anterior ³.

Ainda em virtude da nova publicação da Poesia reunida, a Folha de S. Paulo produziu uma pequena matéria que apresentava outra breve entrevista com Adélia Prado (disponível aqui). Lembrou-se na matéria que, em 2000, a poeta dissera ao jornal paulistano que "toda pessoa deveria receber uma homenagem em vida", quando foi tema de um dos Cadernos de Literatura Brasileira, do Instituto Moreira Salles, acrescentando em seguida: "Poucas coisas são tão incômodas, mas nada melhor para ver o próprio tamanho".

O crítico literário, poeta e professor da USP Augusto Massi, no ensaio Móbile para Adélia ⁴ (disponível aqui), afirma que

"Hoje, Adélia faz parte da paisagem literária. Sua fortuna crítica não para de crescer, quase ultrapassou uma centena de teses universitárias, ganhou os palcos e rompeu as fronteiras da língua. Encontra-se editada em inglês, italiano, espanhol, e poemas avulsos foram traduzidos para o alemão, francês, polonês e chinês".

Tais informações, mais do que a função meramente laudatória, balizam um pouco o "tamanho" da escritora.

Onde residiria a força de seus textos?

Rita Olivieri (hoje Olivieri-Godet), professora da Université de Rennes 2 e autora de uma tese de doutorado intitulada Mística e erotismo na poesia de Adélia Prado, acredita que a poeta realiza escolhas estilísticas cujo resultado é "uma linguagem que alia a simplicidade dos acontecimentos do quotidiano à gravidade da reflexão sobre o sentido da existência" ⁵. Segundo Olivieri, "Adélia Prado debruça-se sobre o vivido, transformando-o em matéria poética. Sua poesia desentranhada do quotidiano, centrada nas miudezas do dia-a-dia, extrapola os limites do seu espaço mineiro, abrindo-o para o mundo".  

Tentemos ilustrar isso tudo lendo O alfabeto no parque ⁶, um dos poemas de Adélia Prado de que mais gosto. Esse texto faz parte do livro Terra de Santa Cruz, terceiro publicado pela autora (lançado originalmente em 1981) e que, de acordo com Augusto Massi, forma a "santíssima trindade do seu modo poético", junto com os anteriores - Bagagem (1976) e O coração disparado (1978).


O ALFABETO NO PARQUE

Eu sei escrever.
Escrevo cartas, bilhetes, lista de compras,
composição escolar narrando o belo passeio
à fazenda de vovó que nunca existiu
porque ela era pobre como Jó.
Mas escrevo também coisas inexplicáveis:
quero ser feliz, isto é amarelo.
E não consigo, isto é dor.
Vai-te de mim, tristeza, sino gago,
pessoas dizendo entre soluços:
'não aguento mais'.
Moro num lugar chamado globo terrestre
onde se chora mais
que o volume das águas denominadas mar,
para onde levam os rios outro tanto de lágrimas.
Aqui se passa fome. Aqui se odeia.
Aqui se é feliz, no meio de invenções 
                                                       miraculosas.
Imagine que uma dita roda-gigante
propicia passeios e vertigens entre
luzes, música, namorados em êxtase.
Como é bom! De um lado os rapazes.
Do outro as moças, eu louca pra casar
e dormir com meu marido no quartinho
de uma casa antiga com soalho de tábua.
Não há como não pensar na morte,
entre tantas delícias, querer ser eterno.
Sou alegre e sou triste, meio a meio.
Levas tudo a peito, diz minha mãe,
dá uma volta, distrai-te, vai ao cinema.
A mãe não sabe, cinema é como dizia o avô:
'cinema é gente passando.
Viu uma vez, viu todas'.
Com perdão da palavra, quero cair na vida.
Quero ficar no parque, a voz do cantor açucarando a tarde...
Assim escrevo: tarde. Não a palavra.
A coisa.

Os cinco primeiros versos estão "centrados na miudeza do dia-a-dia"; descrevem ações triviais, familiares - uma maneira da poeta atrair e capturar o leitor ressabiado. Quando este chega à sexta linha - "Mas escrevo também coisas inexplicáveis" - bum! já está envolvido com o texto. Adélia Prado quase sempre confere a seus poemas uma aparência de espontaneidade: como nota Rita Olivieri, trata-se de uma "espontaneidade fabricada", graças a opção da poeta pelo "estilo simples, anti-retórico".

O nono verso exibe-nos uma faceta conhecida de seu eu-lírico (pelo menos nessa fase da autora): a recusa em ser triste. Lembremos, por exemplo, o final de poemas como Atávica ("Por prazer da tristeza eu vivo alegre") e Momento ("[...] A vida é mais tempo alegre do que triste. Melhor é ser"), ambos do livro Bagagem. Ou ainda Cinzas ("O que escrevi, escrevi/porque estava alegre") e Códigos ("Quero estar cheia de dor mas não quero a tristeza"), textos, nesse caso, incluídos em O coração disparado. Entretanto, como veremos logo adiante, a partir do livro Terra de Santa Cruz, isso começa a mudar um pouco.

E chegamos a meu trecho favorito de O alfabeto no parque:

"Moro num lugar chamado globo terrestre
onde se chora mais
que o volume das águas denominadas mar,
para onde levam os rios outro tanto de lágrimas.
Aqui se passa fome. Aqui se odeia.
Aqui se é feliz, no meio de invenções 
                                                       miraculosas.

Nota-se, de imediato, nessa passagem, a "extrapolação do limite do espaço mineiro" e "a abertura para o mundo",  como mencionara acima Rita Olivieri: o eu-lírico percebe-se habitante de um "lugar chamado globo terrestre" e não mais apenas de Divinópolis, cidade natal de Adélia Prado e onde a artista vive até hoje. E esse lugar, o planeta como um todo, não é habitualmente o lugar da alegria: passa-se fome nele, há ódio e incontáveis lágrimas. E por falar nestas, é quase inevitável - em se tratando de uma poeta tão aferradamente católica como Prado -  não vir à mente do leitor aquela concepção cristã do mundo, do plano terreno, como um vale de lágrimas ⁷(que geralmente remete seus fiéis ao célebre Vale de Baca, do Salmo 84, ou, com mais frequência ao Evangelho de João, capítulo 16, versículo 33, quando Jesus avisa a seus seguidores que estes terão "tribulações" na terra, mas que é preciso ânimo, pois ele, Jesus, vencera o mundo).

Mas aqui também se é feliz, diz a poeta, "no meio de invenções/miraculosas". O adjetivo miraculosas, afastado da margem, é bem significativo. Invenções são coisas humanas. Mas - e não nos esqueçamos, falamos aqui de uma escritora profundamente religiosa -, não existiriam sem uma intervenção divina na ordem natural, sem um milagre.

Ao escrever que "aqui se passa fome/aqui se odeia", a poeta vai assumindo sua porção mais crítica, que desembocará em poemas de forte conteúdo político, como alguns dos que integram a seção Catequese do livro Terra de Santa Cruz. E a recusa em ser triste de que falávamos passa a ser mais difícil.

No verso 18, o eu-lírico volta a descrever trivialidades, até chegar em

"Não há como não pensar na morte,
entre tantas delícias, querer ser eterno.
Sou alegre e sou triste, meio a meio".

Como vimos anteriormente, a professora Rita Olivieri destaca que Prado exercita "uma linguagem que alia a simplicidade dos acontecimentos do quotidiano à gravidade da reflexão sobre o sentido da existência". E é isso o que o trecho acima ilustra. Entre as delícias (música e diversão no parque, casais de namorados felizes, sonhos de matrimônio), inevitável não pensar na morte. Mas - e isso é importantíssimo - a morte. aqui, não é pura negatividade: é através dela que se pode atingir a dimensão da eternidade (e, quem sabe, prolongar as delícias). A perspectiva da vida eterna é crucial aqui. Como é no poema Porfia, publicado no livro anterior:

"Inventou-se o ferro de brasa
por causa da Vida Eterna.
Senão, pra que vincar o terno,
se todo fim é madeira carcomida,
ossos tão limpos que dispensam nojo?
Pela mesma razão,
os metafísicos armam seus solilóquios,
os governantes bons governam com justiça,
o meu decote é fundo".

Da simplicidade dos acontecimentos do quotidiano à gravidade da reflexão sobre o sentido da existência.

O alfabeto no parque retoma, em seguida, a cotidianidade, narra um cena caseira, até chegar a seu belíssimo fechamento, de difícil decifração:

"Assim escrevo: tarde. Não a palavra.
A coisa".

. . . . . . . 

Acredito que o(a) eventual leitor(a), caso não tenha familiaridade com a poesia de Adélia Prado, pode pelo menos ter uma ideia das virtudes de sua escrita.

Ainda tenho muito para falar - não só sobre os poemas dessa autora (não analisei Sítio, como avisara que faria hoje na postagem anterior), mas também devo tratar de uma questão que deixei em aberto na semana passada sobre o ato de ler poesia atualmente, bem como gostaria de discutir outros aspectos da figura pública que é Adélia Prado, aspectos apenas tangenciais à sua obra, mas dos quais acho importante falar, além de fazer algumas considerações sobre poesia brasileira contemporânea.

Entretanto, como esta postagem já está quilométrica, deixarei para a semana que vem.

____________
¹ A primeira reunião da obra poética de Adélia Prado foi publicada em 1991, pela extinta editora Siciliano. Em 2015, a editora Record lançou um novo volume da Poesia reunida (para marcar os 40 anos de carreira e os 80 anos de idade da escritora), incluindo os poemas dos livros Oráculos de maio, A duração do dia e Miserere, publicados após 1991. Na época da primeira edição da Poesia reunida, Prado ficou um pouco incomodada, pois a publicação pareceu-lhe uma "homenagem póstuma". 

² Essa declaração me lembra o poema Trégua, do livro Bagagem:

"Hoje estou velha como quero ficar.
Sem nenhuma estridência.
Dei os desejos todos por memória
e rasa xícara de chá".

³ A propósito, logo na introdução da dissertação de mestrado de Ana Lúcia Moret (Tradição e modernidade na obra de Adélia Prado), a pesquisadora, ressaltando como se deu o "ingresso" da escritora nos círculos literários brasileiros, escreve:

   "Impossível ficar indiferente a tal apresentação [feita por Carlos Drummond de Andrade, numa crônica publicada no Jornal do Brasil], sobretudo se ela parte de um poeta tão querido e respeitado. Isso talvez explique, em parte, a popularidade de Adélia Prado junto aos diversos setores da nossa sociedade - público leitor, editores, jornalistas, intelectuais. Seus leitores têm a impressão de que a escritora mineira penetra no mercado já consagrada, para o que também contribui o discurso da crítica, que sempre procurou reforçar o aspecto inovador e universalizante de sua poética".
     Ana Lúcia Moret também observou que, em 1991, Prado alcançou a marca de 100 mil exemplares de livros vendidos, "números pouco comuns para a boa poesia no mercado brasileiro". (MORET, Ana Lúcia. Tradição e modernidade na obra de Adélia Prado. 1993. Dissertação (Mestrado) - Instituto de Estudos da Linguagem, Universidade Estadual de Campinas, 1993. Disponível em <http://repositorio.unicamp.br/jspui/handle/REPOSIP/269889>. Acesso em: 27/06/2017.

⁴ Esse ensaio serviu como posfácio na edição da Poesia reunida de Adélia Prado publicada em 2015 pela editora Record.

⁵ OLIVIERI, Rita. Poesia e oralidade na obra de Adélia Prado. Sitientibus, Feira de Santana, n. 13, p. 121-126, jul-dez. 1995. Disponível em <http://www2.uefs.br/sitientibus/pdf/13/poesia_e_oralidade_na_obra_de_adelia_prado.pdf>. Acesso em 25/06/2017

⁶ Os poemas de Adélia Prado citados ou reproduzidos nesta postagem foram extraídos de sua Poesia reunida, mas no volume publicado em 1991 pela editora Siciliano.

⁷ No poema Cinzas (do livro O coração disparado), a poeta já escrevera:

"Este vale é de lágrimas.
Se disser de outra forma, mentirei."

BG de Hoje

Na postagem anterior eu falei sobre o talento poético dos letristas brasileiros. Um dos melhores, atualmente, é CARLOS RENNÓ, cujas parcerias incluem músicos como Lenine (com o qual compôs a belíssima Todas elas juntas num só ser), Chico César, Arrigo Barnabé, Gilberto Gil, Rita Lee, entre outros (vale lembrar que Rennó é autor da letra do mega-sucesso Escrito nas estrelas, gravado por Tetê Espíndola nos anos 1980). Em Tá, um xote interpretado pela cantora paulistana MARIANA AYDAR (filha do Mário Manga, não custa mencionar, integrante do cultuado grupo Premeditando o Breque), Carlos Rennó fez parceria com Roberta Sá e Pedro Luís (que também gravou a faixa num disco solo)