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segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

Alice In Chains no MoPop


Como sou uma besta quadrada, apenas em agosto deste ano é que soube da existência do Museum Of Pop Culture (MoPop), localizado em Seattle (EUA), cidade natal de seu fundador, o falecido bilionário Paul Allen (um dos criadores da Microsoft, junto, é claro, de seu amigo e conterrâneo Bill Gates).

A organização surgiu no ano 2000 como Experience Music Project and Science Fiction Museum and Hall of Fame (o nome atual só começou a ser usado em 2016). Suas exibições e atividades, além de ocasionais mostras de artes plásticas, são voltadas principalmente para cinema, literatura, quadrinhos, videogames e entretenimento nos gêneros de ficção científica, fantasia e horror, bem como a manutenção de acervos e a realização de eventos relacionados à música pop, com destaque para artistas nascidos em Seattle ou vinculados à cidade

Desde 2007, ocorre uma celebração (cujo objetivo é também angariar fundos) homenageando cantores(as), instrumentistas, bandas e afins, intitulada Founders Award. Devido às restrições impostas pela pandemia de COVID-19, a festividade teve de ser cancelada em 2020, mas as apresentações musicais previstas aconteceram e foram abertas para o público em geral, por meio de transmissão online. 

Tratou-se de um tributo ao Alice In Chains, meu grupo de rock preferido.

Nesta postagem, destaco as performances de que mais gostei.

Man In The Box


Canção mais famosa do Alice In Chains, provavelmente, Man In The Box marcou a minha vida (já escrevi sobre isso aqui). Na execução acima, três músicos que se conhecem bem: Dave Navarro e Chris Chaney tocam juntos no Jane's Addiction há um longo tempo; o baterista Taylor Hawkins (Foo Fighters) é parceiro de Chaney num projeto paralelo (além disso, os dois colaboraram com Alanis Morissette no passado). Mantendo o estilo próprio, Navarro ainda assim conduziu sua guitarra de maneira bem próxima da versão original, inclusive no solo. Não tão positiva foi a atuação de Corey Taylor (Slipknot). Cantor respeitado dentro e fora do ambiente do heavy metal, Taylor não conseguiu atingir a pujança vocal do falecido Layne Staley, principalmente no refrão. Ainda assim, aprovei.


It Ain't Like That


Algumas performances aconteceram fora das dependências do museu. É o caso dessa. It Ain't Like That é minha canção preferida do Alice In Chains. Não esperava que fosse tocada nesse tributo porque não é das mais conhecidas. Fiquei contente. Nunca tinha ouvido falar na cantora Shaina Shepherd. Pouco importa: ela é ótima. Não se pode deixar de mencionar a participação do mestre zen da guitarra de Seattle, Kim Thayil (Soundgarden). It Ain't Like That tem alguns dos melhores versos cantados por Layne Staley, como por exemplo:

"Here I sit, writing on the paper
Tryin' to think of words you can't ignore
In my eyes, what I'm lackin'
Score at face, a ten for slackin'
Sign the deal, set in motion
Smaller fish, so huge the ocean"



Would?


(Versão do Metallica)
Outra apresentação que não ocorreu no MoPop. É significativo que uma banda tão venerada e rica quanto o grupo californiano desça de seu pedestal para honrar outros artistas, mesmo que seja sem sair de casa. Aplausos para o vocal de James Hetfield: a medida que o tempo passa, ele vai cantando cada vez melhor, anos-luz de distância da - como gosto de dizer - fase "canina" dos três primeiros álbuns do Metallica.


(Versão do Korn)
Se você for ler os comentários do vídeo acima no Youtube, verá que alguns deles começam mais ou menos assim: "I'm not a Korn's fan, but...". Pois bem, não sou fã do Korn, mas eles acertaram em cheio nessa.


Put You Down


Adorei essa performance! Liv Warfield é uma cantora ligada ao rythm'n'blues e ao soul, mas Put You Down encaixou-se perfeitamente com ela (e para valorizar sua voz, penso eu, a canção foi tocada numa levada um pouquinho mais lenta do que a versão original). Achei bacana a transmissão do vídeo ter explorado bem o cenário do museu. Quando ouvi Put You Down pela primeira vez, senti uma vibração parecida com o Van Halen, banda que eu ouvia pra caramba, 30 anos atrás. Muito tempo depois, soube que Jerry Cantrell, de fato, admirava o guitarrista neerlandês-americano (este, inclusive, presenteou o então iniciante Alice In Chains com instrumentos e equipamentos, no comecinho da década de 1990).


Rooster


É o que se pode chamar de encontro de gerações: Ann Wilson, que desde os anos 1970 e sobretudo nos 1980, ajudou a reforçar a imagem de Seattle como uma cidade roqueira (graças ao sucesso do Heart, banda formada junto com sua irmã, Nancy), interpretando Rooster, hit de um dos expoentes do grunge, cena musical que teve Seattle como epicentro nos anos 1990 (muito embora o Alice In Chains não assumisse o rótulo).


Them Bones


A versão mais "estranha" (no bom sentido) de todo o evento. O Fishbone é daqueles grupos difíceis de classificar (ska? funk? rock?). Não sei descrever o que esses caras fizeram nesse cover, mas ficou bom.


No Excuses (com o próprio Alice In Chains)


Faz muito sentido tocar No Excuses num dia de homenagem, uma vez que a canção tematiza a amizade. Nessa versão acústica, já experimentada no MTV Unplugged de 1996, o trabalho do baterista Sean Kinney transparece. No Excuses também realça uma das melhores características do Alice In Chains: a harmonização vocal em dupla (às vezes recorrendo ao double-tracking nas gravações de estúdio), algo raro em bandas de rock pesado. Por falar nisso, confesso que custei muito a "aquiescer" com a incorporação de William DuVall ao grupo. Sua adição, porém, revelou-se bastante acertada: é um bom cantor, além de instrumentista competente (algo que Layne Staley, mesmo sendo dono de uma voz extraordinária, não era). Após a chegada de DuVall, mais três discos foram lançados, sendo um destes - Black Gives Way To Blue - um álbum bem bacana, na minha opinião. 


Rain When I Die


Deixei por último a apresentação que considerei a mais bonita de todas. Nunca imaginei que Rain When I Die pudesse ser tocada sem o forte riff de guitarra elétrica que é a sua principal marca na versão original. Não foi preciso mais do que o violão e a voz límpida do cantor e compositor canadense Dallas Green (que usualmente se apresenta com o nome artístico City and Colour) para dar ainda mais dramaticidade a uma canção já de si tão triste. Belíssimo.

Se o(a) eventual leitor(a) desejar, o evento completo pode ser conferido aqui.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Escolher morrer



Holanda, Bélgica e Luxemburgo são países onde a eutanásia é uma prática legalmente autorizada. E importante salientar: não só em caso de doença terminal ou outra que provoque intensa dor física, não aplacável pela medicação, mas também nos casos em que o indivíduo experimenta um insuportável sofrimento psíquico. Na Suíça, muitos sabem, o suicídio assistido é permitido pelas autoridades já faz algum tempo (o que leva muita gente até lá para o chamado "turismo da morte"). Tudo isso, para mim, é mostra de avanço civilizatório. Mas por que estou falando desse assunto? Chego lá.

. . . . . . . 

Dias atrás, reli o romance (ou seria novela?) Mas não se mata cavalo?, do escritor norte-americano Horace McCoy*, lançado em 1935. O estilo do autor é conciso, direto, sem nenhum traço de ornamentação. A trama se passa no período da gravíssima depressão econômica decorrente do crack financeiro de 1929 e destaca dois personagens, Robert Syverten (o narrador da história) e Gloria Beatty. Ambos tentam a sorte em Hollywood, cuja indústria cinematográfica começava a ser engendrada. Ele sonhava em se tornar diretor de filmes; ela se contentaria até mesmo com uma vaga de extra. Para sobreviver, aceitam fazer parte de uma prova de resistência física e psicológica. Um concurso de dança - como as dance marathons, eventos que viraram febre nos EUA durante a terceira e a quarta décadas do século passado.

Espécie de proto-reality show, a maratona de dança exigia que os casais participantes ficassem horas e horas de pé dançando ou, na maior parte do tempo, apenas mexendo o corpo. Os intervalos para descansar, alimentar-se e ir ao banheiro eram exíguos. Ganhava o prêmio em dinheiro somente a dupla que conseguisse suportar o absurdo daquela situação até o final. Havia público para acompanhar o "espetáculo". Se fosse bem sucedido, um casal podia contar com um patrocinador, que fornecia calçados e vestuário mediante a colocação de um anúncio nas roupas. Para eliminar alguns pares de forma mais rápida e aumentar a competitividade (e os lucros), também aconteciam corridas dentro do salão do evento. Esgotados fisicamente, não era incomum que os participantes caíssem estrepitosamente durante esses derbys ou mesmo dormissem no ombro dos parceiros, nos momentos em que simulavam dançar (como na foto no alto da postagem).

Há uma cena que descreve bem o quão bizarro era tudo isso:

" - Olhem para esses jovens, senhoras e senhores! [diz Rocky, o mestre-de-cerimônias, engatando uma série de lorotas] Depois de 216 horas estão tão frescos como rosas, na maratona mundial de dança, uma competição de resistência e habilidade. Esses meninos são alimentados sete vezes por dia: três grandes refeições e quatro lanches leves. Alguns dos concorrentes chegaram até a aumentar de peso durante a competição... E eles têm doutores e enfermeiros que os atendem constantemente para fazer com que eles se mantenham nas melhores condições físicas. Agora vou chamar o par nº 4, Mario Patrone e Jackie Miller, para um número especial. Vamos. Par nº 4! Lá estão eles, senhoras e senhores. Não é um par alinhado? 
Mario Patrone, um italiano reforçado e Jackie Miller, uma lourinha, subiram para a plataforma para receberem aplausos. Falavam com Rocky e depois começavam a sapatear, mas muito mal. Nem Mario nem Jackie pareciam perceber que a coisa não prestava. Quando terminaram, algumas pessoas atiraram dinheiro na pista.
- Mais, minha gente! - gritou Rocky - Uma chuva de prata. Mais! 
Algumas moedas mais bateram no chão. Mario e Jackie apanharam-nas e depois caminharam na nossa direção".

O que julgo, entretanto, mais relevante nesse livro é a postura de Gloria Beatty diante da vida. Amarga e pessimista, a personagem diz a certa altura: "Como sou fracassada, tenho inveja de todos que fazem sucesso. Você também não é assim?" (este blogueiro admite que pelo menos ele é). Ela está sempre repetindo que preferiria não estar mais viva (e o impulso dramático da narrativa vem desse desejo de morte da personagem). E logo no início de Mas não se mata cavalo? encontra-se a sua declaração mais interessante:

" - Uma coisa que me intriga é que todo mundo se preocupa tanto com viver e tão pouco com morrer. Por que é que todos esses cientistas bambas sempre andam por aí tentando prolongar a vida em vez de achar um jeito agradável de acabar com ela? Deve haver um mundão de gente como eu neste mundo... gente que quer morrer mas que não tem coragem..."

Há pessoas ("um mundão de gente", certamente) para as quais viver é algo extremamente difícil. E não me refiro aqui apenas à dificuldade que elas possam ter para adquirir os meios de subsistência. Decidir morrer, contudo, também não é fácil (entre outros complicadores, há o medo ou receio da agonia e da dor física). Pessoalmente, acho que seria um passo ético importantíssimo para a humanidade começar a pensar no suicídio como um direito. E caso a decisão de dar fim à própria vida seja garantida legalmente num futuro longínquo (e, talvez, utópico) - não apenas por estar com alguma terrível enfermidade, como no caso da eutanásia, mencionada lá no início da postagem, mas por escolha autônoma e madura do indivíduo - seria ainda mais digno, penso eu, que se pudesse fazer isso de "um jeito agradável"; ou seja, com o mínimo de sofrimento possível, contando com o trabalho de "todos esses cientistas bambas".
 
__________
* McCOY, Horace. Mas não se mata cavalo?. São Paulo: Abril Cultural, 1982 [Tradução de Érico Veríssimo]

BG de Hoje

 Nutshell (ALICE IN CHAINS) é, na minha opinião, uma das canções mais tristes dentro do rock. Canta Layne Staley ao final, "if I can't be my own/I'd feel better dead".


quarta-feira, 17 de julho de 2013

10 álbuns de rock - Facelift


Este foi o primeiro compact disc (também conhecido como CD) que comprei. Até então, só tinha discos de vinil. E demorei um tempo enorme pra adquirir um equipamento no qual pudesse reproduzi-lo... Facelift, lançado em 1990, fazia parte da cena (ou "movimento") grunge que marcou aquela década (embora o Alice in Chains não apreciasse o rótulo). Das bandas que se destacaram no período, sempre gostei mais daquelas que mantinham um pé no heavy metal - no caso, Soundgarden e, claro, os autores do disco do qual estou falando. 

Posso dizer que é o meu disco preferido da minha banda preferida. Dirt (1992) recebeu bons comentários na imprensa e vendeu muito mundo afora. É mais burilado do que Facelift, é verdade, mas ainda assim ouço mais o álbum de estreia da banda de Seattle.

Faixa a faixa



We Die Young - Aqui está a "carta de intenções" da banda: canção curta e pesada, sem firulas, cujo título chega a ser premonitório, se pensarmos na morte do vocalista Layne Staley em 2002.

Man In The Box - Costumo dizer, de modo exagerado, que essa música salvou a minha vida naquela horrível primeira metade dos anos 1990. Quando ouvi Man in the box pela primeira vez, na extinta e saudosa rádio Terra, aqui de BH, fiquei alucinado. Que mais posso dizer? Uma das melhores canções de rock de todos os tempos.

Sea Of Sorrow - Aqui uma pegada mais hard rock (e menos metal). Refrão grudento.

Bleed The Freak - Guitarra trabalhando sem preguiça nessa música. O que é ótimo em se tratando de uma banda de rock pesado.

I Can't Remember - A que eu menos gosto no disco, embora não seja uma canção ruim.

Love, Hate, Love - Se eu tivesse talento pra compor uma música de rock sobre o fim de um relacionamento amoroso seria essa faixa. Ela ficou também sensacional no registro ao vivo do disco Live (2000). Layne Staley canta a música (e quase todas as que interpreta) como se estivesse pra morrer ao fim dela.

It Ain't Like That - A música que mais aprecio em toda a discografia do Alice in Chains. É uma paulada!  As imagens espalhadas pela letra justificam a fama que a banda tem de produzir canções perfeitas para a trilha sonora de pesadelos.

Sunshine - Com uma levada mais hard rock, é outra das minhas preferidas. Tem ainda um belo (e curto) solo de guitarra de Jerry Cantrell, principal compositor do grupo.

Put You Down - Canção com um jeitão meio Van Halen, menos "deprê" do que as faixas anteriores.

Confusion - Volta o clima sinistro. Definitivamente, o Alice in Chains não acredita no amor, hehehe... Saca o refrão dessa música: "Love, sex, pain, confusion, suffering/You're there crying, I feel not a thing/Drilling my way deeper in your head/Sinking, draining, drowning, bleeding, dead"

I Know Something (Bout You) - Isso talvez seja o mais próximo que esses caras conseguiram chegar de uma canção bem humorada...

Real Thing - Uma música pesada, apropriada ao tema da letra: consumo de drogas. Tema, aliás, que estaria em várias canções do segundo disco da banda.

Escrevo amanhã sobre The Real Thing, do Faith no More.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

40


Completo hoje 40 anos. Que merda! Mas encontrei num conto do Dalton Trevisan* a frase perfeita para marcar esse dia idiota :  "Aos quarenta anos basta que não chova e você acorde sem achaque para não ser infeliz".  Vou encher a cara mais tarde no boteco do Dinei...
___________
* TREVISAN, Dalton. No meio do caminho. In: ______________. O rei da terra. 2 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975 

BG de Hoje

Vou me dar um presente. Uma das minhas músicas prediletas da minha banda predileta: No Excuses, ALICE IN CHAINS.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Tudo a ver comigo (1)

NUTSHELL
(Layne Staley)

We chase misprinted lies
We face the path of time
And yet I fight, and yet I fight
This battle all alone
No one to cry to, no place to call home


My gift of self is raped
My privacy is raped
And yet I find, and yet I find
Repeating in my head
If I can't be my own, I'd feel better dead

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Poesia: questão de tudo ou nada? (1)

É possível encontrar na "orelha" das últimas edições dos livros de Carlos Drummond de Andrade, lançados pela Record, uma contundente declaração do autor. Retiro de minha estante o exemplar de Claro enigma*, por exemplo, e leio:

"Entendo que poesia é negócio de grande responsabilidade, e não considero honesto rotular-se de poeta quem apenas verseje por dor-de-cotovelo, falta de dinheiro ou momentânea tomada de contato com as forças líricas do mundo, sem se entregar aos trabalhos cotidianos e secretos da técnica, da leitura, da contemplação e mesmo da ação. Até os poetas se armam, e um poeta desarmado é, mesmo, um ser à mercê de inspirações fáceis, dócil às modas e compromissos".

Costumo dizer, sarcasticamente, que oito em cada dez seres humanos são acometidos, em algum momento de sua vida, pela "febre do verso". Acordam um dia achando que são capazes de escrever bons e "bem-intencionados" poemas e, para mal de nossos pecados, uma parte dessas pessoas - gente sem nenhum brilho - acaba regurgitando suas ralas composições no papel (ou, hodiernamente, na tela do celular ou do notebook. Também já tive essa doença quando era mais jovem. Felizmente, conheci João Cabral de Melo Neto e Augusto dos Anjos a tempo, e me curei, destruindo posteriormente todos os vômitos verbais que havia lançado às folhas de antigos cadernos pautados.

Drummond, a meu ver, acerta na mosca ao lembrar que o verdadeiro poeta é aquele que se entrega "aos trabalhos cotidianos e secretos da técnica, da leitura, da contemplação e mesmo da ação". A poesia, como toda boa Literatura, é antes de tudo um arranjo bastante especial de linguagem, com objetivos que se manifestarão, principalmente, no plano estético. Exige conhecimento, muito mais do que apenas "sentimento".

O itabirano já ensinara**:

"Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos"

[...]

"Chega mais perto e contempla as palavras
Cada uma 
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?"

No mesmo sentido, Manuel Bandeira afirma***:

"[...] compreendi, ainda antes de conhecer a lição de Mallarmé, que em literatura a poesia está nas palavras, se faz com palavras e não com ideias e sentimentos, muito embora, bem entendido, seja pela força do sentimento ou pela tensão do espírito que acodem ao poeta as combinações de palavras onde há carga de poesia".

Nessa nova série de postagens - que promete ser a mais longa já surgida por aqui - desejo esclarecer qual a concepção de poesia e de fazer poético que mais me interessa e da qual me valho no momento de avaliar escritos e escritores. Embora este não seja um espaço de crítica literária, julgo importante manifestar minha opinião sobre o campo das obras em verso, na suposição de que tal posicionamento possa interessar um(a) possível leitor(a) identificado(a) com o blog.

Affonso Ávila, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, Paulo Leminski, Álvares de Azevedo, João Cabral de Melo Neto, Octávio Paz, Fabrício Marques, Elisa Lucinda, Antonio Carlos Secchin, Heloísa Buarque de Holanda, Roseana Murray, Arnaldo Antunes, José Paulo Paes, Chacal, Sebastião Uchoa Leite, Manoel de Barros, Maria do Carmo Pereira, Jaime Ovalle, Mario de Andrade, Cora Coralina, Antonio Cicero, Fabrício Carpinejar e Alexei Bueno serão alguns dos poetas, críticos e estudiosos a serem discutidos, o que não quer dizer que aprecie a todos.

Até a próxima!
__________
* ANDRADE, Carlos Drummond de. Claro enigma. 18 ed. Rio de Janeiro: Record, 2008 (Infelizmente, a editora não indica a data nem o local em que foi dita e/ou publicada a declaração de C. D. de Andrade citada na postagem)

** ANDRADE, Carlos Drummond de. Procura da poesia. In: _______________. A rosa do povo. 40 ed. Rio de Janeiro: Record, 2008. p. 24-27

*** BANDEIRA, Manuel. Itinerário de Pasárgada. In: ________________. Seleta de prosa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997. p. 295-360

BG de Hoje

Li há algum tempo, numa revista sobre música pop, a melhor definição para o som do ALICE IN CHAINS, minha banda preferida: "trilha sonora para pesadelos". Acho que esse é o caso de Rain When I Die, canção bastante característica do trabalho do grupo.

sábado, 29 de maio de 2010

Jogando água no chope da virtualidade (5)

"O deslumbramento das pessoas ante os triunfos do telégrafo e do telefone leva-as a esquecer com frequência o fato de que aquilo que realmente importa é o valor do que se tem a dizer e que, em comparação a isso, a velocidade ou lentidão dos meios de comunicação é uma preocupação que apenas por usurpação pôde alcançar o presente status [...]. Essa preponderância dos meios sobre os fins encontra a sua apoteose no fato de que o periférico na vida, aquilo que está fora de sua essência básica, se assenhorou do seu centro e até de nós mesmos [...]. Se considerarmos a totalidade da vida, então o controle da natureza por meio da tecnologia só é possível ao preço de nos escravizarmos a ela e de abandonarmos a espiritualidade como o alvo central da vida".

Georg Simmel (1907)


Já se discutiu aqui o conceito (mais amplo) de virtual. Nesta e nas postagens seguintes, porém, quando empregar o termo virtual ou virtualidade, estarei usando-o em sentido restrito, para me referir às redes de comunicação do ciberespaço.

E está na hora de deixar as coisas mais claras: a crítica que venho fazendo à era virtual incide particularmente sobre alguns modelos comportamentais e respectivo quadro de valores, e que os produtos típicos dessa era - celulares,  computadores pessoais, notebooks, consoles de videogame, i-qualquer-coisa, mp-qualquer-coisa, etc. -   ajudam a propagar. Tais modelos comportamentais, segundo penso, baseados na supervalorização da velocidade e da novidade per se, na  mais  irracional tecnofilia (paradoxalmente!) e no individualismo predatório, não preveem a "espiritualidade" como "o alvo central da vida". Sem pejo, admito que minha crítica é de caráter moral. E que fique claro: ela não se dirige a objetos, mas sim à apropriação que se faz destes.

Certamente parecerá estranho ao leitor habitual do blog ler a palavra espiritualidade neste espaço, uma vez que sou ateu. Mas não é o sentido místico do termo que busco: aqui, neste contexto, a palavra remete ao exercício de autocrítica, autorreflexão e aprimoramento ético, moral e intelectual que deveria ser feito, cotidianamente, por cada indivíduo, e que julgo essencial para que se viva em uma coletividade menos boçal e ordinária.

Não quero com isso assumir papel de "santo" e "cagar regras" para que os outros (e só os outros) sigam. Falo apenas de minha utopia. Frei Betto, em artigo* a ser retomado brevemente, considera que "a questão da espiritualidade não é uma questão simplesmente religiosa, é uma questão de educação da subjetividade, da interioridade". E acrescenta, como seria esperado de um católico:  "é uma questão de nos reeducarmos para a comunhão conosco mesmos, para a comunhão com a natureza, para a comunhão com o próximo e com Deus". Exceção à menção da divindade, concordo com o que afirma o escritor.

Em entrevista ao programa Roda Viva (TV Cultura), em 2001 (transcrição disponível aqui), Pierre Lévy - o filósofo com quem venho "debatendo" - justificou seu apreço pela era virtual com o seguinte argumento, entre outros:

[O fato de favorecerem o progresso das democracias] é um dos motivos pelos quais sou um grande entusiasta dessas técnicas de comunicação. Não pela proeza técnica em si, mas porque há uma relação profunda entre o progresso das formas de comunicação e o progresso da democracia, o progresso da emancipação do ser humano".

Não há dúvida de que as formas de comunicação recém-incorporadas culturalmente - através da telefonia móvel, da Internet, etc - são capitais para o combate a regimes ditatoriais por parte das populações subjugadas por estes, além de facilitar o acesso dos indivíduos a  informações, serviços e produtos antes restritos. Mas não vejo ao meu redor sinais dessa "emancipação", se tomarmos  a expressão com um significado mais amplo, relacionado à espiritualidade tal como foi definida acima.

Lévy, contudo, nos convida a analisar o atual cenário com  larga visão histórica, de forma retrospectiva e (principalmente) prospectiva: "[...] seria bom não ter o nariz colado na situação contemporânea, deixar-se levar pelos próprios fantasmas [...]". Concordo, mas meu objetivo é fazer uma alerta agora, no presente, a partir de situações que testemunho, já que não disponho da habilidade e nem dos instrumentos adequados para falar de outros tempos.

O ciberespaço nos permite visitar museus,  bastando, para isso, clicar o mouse; disponibiliza o conteúdo dos melhores jornais do mundo; nos faculta acesso a milhões de páginas de excelentes textos ficcionais. Mas prefere-se passar horas e horas fofocando no Orkut e no MSN ou atirando em inimigos feitos de uma infinidade de pixels. Isso, aliás, não deveria me surpreender. Os livros impressos, com o formato que atualmente conhecemos, apareceram há centenas de anos. Nem por isso as pessoas com quem convivo apreciam a leitura e o que ela pode proporcionar...

Talvez - e é muito provável que seja - meu modo de observar revele conservadorismo, preso a um modelo de cultura e educação, antes visto como emancipatório, e que já não faz sentido algum na era virtual. Preciso reaprender muita coisa.

A propósito, na entrevista citada, o filósofo francês observa:

"O que é aprender? É abandonar velhos reflexos, abandonar os preconceitos e penetrar em um conhecimento diferente. E isso é doloroso. É aceitar se transformar, aceitar e ir em direção à alteridade. Aprender é isso. Pensar é isso. Ir em direção de outra coisa".

Antes, porém, deixarei expostas minhas objeções e descontentamento com o que vejo a meu redor.
__________
* FREI BETTO (Carlos Alberto Libânio Christo). Crise da modernidade e espiritualidade. In: NASCIMENTO, Elimar Pinheiro do (Org.). Ética. Rio de Janeiro, Garamond, 1997

** Pierre Lévy no programa Roda Viva. Transcrição da entrevista disponível em http://www.rodaviva.fapesp.br/materia_busca/47/pierre%20l%E9vy/entrevistados/pierre_levy_2001.htm   Acesso em 19/05/2010

BG de Hoje

Se já não falei, falo agora: o grupo ALICE IN CHAINS é minha banda favorita. Numa época difícil, precisando arrumar emprego e sem moradia definida, tudo me parecia pior do que sempre foi. Até a música da época eu considerava chata e repetitiva. Um dia, contudo, liguei o rádio na Terra, extinta (e saudosa) emissora de BH que só tocava rock, e ouvi uma voz estranha e desesperada, acompanhada de um som lembrando épocas mais brilhantes da música pesada. Abaixo, versão ao vivo de It Ain't Like That, bela canção do primeiro disco do AIC e que até hoje, na minha opinião (suspeita) de fã, é subvalorizado.