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quinta-feira, 16 de abril de 2020

Lembrando Rubem Fonseca



Ontem, 15 de abril, morreu Rubem Fonseca.

Posicionamentos políticos à parte, o escritor nascido em Minas (Juiz de Fora), mas radicado a maior parte de sua vida no Rio de Janeiro, deve ser reconhecido com um dos nomes mais importantes da ficção literária brasileira na segunda metade do século passado.

Apesar de ser um autor com quem tenho certa familiaridade, só possuo um livro dele em minha modesta biblioteca pessoal: A grande arte. E - não sei dizer por que - escrevi apenas quatro textos no blog mencionando algumas de suas criações.

De todo modo, sugiro ao(à) eventual leitor(a), caso tenha interesse, dar uma conferida nessas postagens, disponíveis aqui,  aqui,  aqui e  aqui.

Também sugiro a leitura de Rubem Fonseca, 1925-2020, publicado pelo Bráulio Tavares no seu blog Mundo Fantasmo (um dos recomendados aqui da casa).


[Atualização em 19/04/2020] Tentando arrumar meus livros nas estantes, acabei descobrindo que tenho outro titulo de Fonseca na minha coleção: O caso Morel. Mas não gosto muito desse romance (talvez por isso não tenha me lembrado dele inicialmente).

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Marginalidade e crime: dois autores em destaque (II)


"A violência é tão fascinante
E nossas vidas são tão normais"
 
Renato Russo/Legião Urbana, em Baader-Meinhof Blues

 
 
Os primeiros livros de Rubem Fonseca provocaram forte impressão no público, nos anos 1960-70, pela violência que retratavam, mas - observa Boris Schnaiderman* -  "de lá para cá, a vida brasileira, em seu conjunto, tornou-se mais brutal e implacável, fatos como os narrados ali passaram a fazer parte de nossa vivência diária e acabamos mais acostumados com eles".

Poderia     escolher    vários  de     seus    contos     para     discutir  a  representação  literária  da  marginalidade  e  do  crime;  vou  me  concentrar,  contudo , em  O jogo do morto **.

Quatro comerciantes de São João de Meriti decidem, de modo macabro, apostar dinheiro adivinhando o número de vítimas do esquadrão da morte a cada mês. Com o passar do tempo os apostadores  "ampliaram as regras do jogo. Além da quantidade, da idade e da cor dos mortos, foi acrescentada a naturalidade, o estado civil e a profissão. O jogo tornara-se complexo". O popularesco jornal O Dia   servia para "validar " os palpites. A prática regular de assassinato divulgada pela imprensa sensacionalista: nada muito diferente do que testemunhamos hoje.

O mais azarado dos apostadores, Anísio, decide trapacear no jogo para recuperar o dinheiro  perdido. Numa passagem do conto ele diz :

"Aposto que o esquadrão este mês mata uma menina e um comerciante. Duzentas mil pratas.   Que loucura, disse Gonçalves [outro dos apostadores], pensando no seu dinheiro e no fato de que o esquadrão jamais matava meninas e comerciantes".

Nas áreas urbanas grupos sociais criam subculturas e a criminalidade também tem a sua, além de um código não escrito, conhecido até por quem não é do métier  - como, por exemplo, saber do fato do esquadrão da morte poupar meninas e comerciantes - dada a penetração do crime nas demais esferas da vida das cidades. O assustador é que estamos cada vez mais familiarizados com essa subcultura e com esse código.

Nunca viveremos em sociedades sem crime, obviamente. Mas o que o conto O jogo do morto parece sugerir é que os assassinatos do crime organizado, mesmo que atinjam números astronômicos, deixaram de nos chocar há bastante tempo.
__________
* SCHNAIDERMAN, Boris. Vozes de barbárie, vozes de cultura : uma leitura dos contos de Rubem Fonseca  [esse ensaio foi publicado como posfácio da 1ª edição dos  Contos reunidos,  de Rubem Fonseca, pela Companhia das Letras]

** FONSECA, Rubem. O jogo do morto. In: __________. Contos reunidos. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. p. 585-590 [esse conto integra o livro O cobrador, publicado originalmente em 1979]

BG de Hoje

Crianças não são essas gracinhas que muita gente imbecil vive dizendo adorar. Trabalho com elas há bastante tempo pra não me iludir. A letra da canção Sweet Sour, da ótima BAND OF SKULLS é meio maluca, mas o clipe demonstra bem a agressividade infantil.


segunda-feira, 23 de maio de 2011

Nocautes (5)


ESCLARECIMENTO: Dias atrás, através do Facebook, um amigo "cobrou-me" uma série de postagens que eu abandonara, cujo nome é Nocautes (em referência àquela célebre frase de Julio Cortázar: "Nesse combate que se trava entre um texto apaixonante e o leitor, o romance ganha sempre por pontos, enquanto o conto deve ganhar por knock-out") . Decidi, então, retomá-la. A série é sobre os dez contos brasileiros que mais aprecio. Já escrevi a respeito de Roupinha de marinheiro, de Dalton Trevisan (aqui); Sorôco, sua mãe, sua filha, de João Guimarães Rosa (aqui); O homem que sabia javanês, escrito por Lima Barreto (aqui); e Feliz aniversário, de Clarice Lispector (aqui). Falta falar ainda sobre Pequenas distrações, de Gregório Bacic; Onde andam os didangos?, de José J. Veiga; O colocador de pronomes, de Monteiro Lobato; Missa do Galo (Machado de Assis); e A confissão de Leontina, de Lygia Fagundes Telles. Também falta O cobrador *, de Rubem Fonseca. Mas deste falo hoje mesmo.

. . . . . .

O COBRADOR - Rubem Fonseca

Antes de discutir propriamente a narrativa, preciso, mais uma vez, render-me ao poder da ficção literária. O narrador-personagem desse conto descreve-nos crimes em sequência, ao mesmo tempo que os executa: lesão corporal grave, uma tentativa de homicídio, um estupro, quatro assassinatos. Não obstante (e confesso com certo embaraço), durante a leitura do conto, uma figura tal não me provoca aversão. Estranha empatia provocada pela Literatura...

Pois bem. Há brutalidade e violência em todo o conto - atmosfera familiar a qualquer leitor de Rubem Fonseca. Entretanto, no caso d' O cobrador, esta brutalidade e essa violência estão a serviço de uma missão (assimilável ou não pela moralidade e a axiologia do leitor, sendo este um dos "sabores" do texto).

Se no início do conto a dívida a ser cobrada está circunscrita à esfera pessoal de quem narra, ao final - com a ajuda de Ana Palindrômica - a cobrança passa por uma "mudança de escala":

"Matar um por um é coisa mística e disso me libertei. [...] Nada de sair matando a esmo, sem objetivo definido. Eu não sabia o que queria, não buscava um resultado prático, meu ódio estava sendo desperdiçado. Eu estava certo nos meus impulsos, meu erro era não saber quem era o inimigo e por que era inimigo".

De  revoltado  para  revolucionário?

Porque, talvez, uma das únicas diferenças entre revolta e revolução esteja no alcance e na profundidade das ações violentas. A Literatura, desobrigada dos modelos explicativos assumidos pela História, a Sociologia ou a Ciência Política, por exemplo, segue seu próprio caminho... E nasce a pergunta que coloca o dedo na ferida (e este chavão é apropriado ao falarmos de Rubem Fonseca): há alguma possibilidade de mudança social verdadeiramente digna desse nome (abolindo privilégios econômicos de classe e de casta, por exemplo) sem emprego de  violência? Eu, mineiro da cachaça antiga, não arrisco resposta. Além do mais, vale lembrar que Rubem Fonseca, fora do trabalho de ficcionista, nunca foi um insubmisso ao  status quo.

Voltemos ao conto, porém.

Há um trecho n' O cobrador que acho magnífico. Quando o ódio do narrador-personagem arrefece (e, consequentemente, sua motivação para a ação diminui), ele se senta na frente da televisão. Num único parágrafo, é possível ver toda a perversidade oculta (ou nem tão oculta assim) existente no conluio entre a comunicação de massa e a publicidade, numa sociedade altamente desigual:

"Quero muito pegar um camarada que faz anúncio de uísque. Ele está vestidinho, bonitinho, todo sanforizado, abraçado com uma loura reluzente, e joga pedrinhas de gelo num copo e sorri com todos os dentes, os dentes dele são certinhos e são verdadeiros, e eu quero muito pegar ele com a navalha e cortar os dois lados da bochecha até as orelhas, e aqueles dentes branquinhos vão todos ficar de fora num sorriso de caveira vermelha. Agora estão ali, sorrindo, e logo beija a loura na boca. Não perde por esperar".

Rubem Fonseca escreveu outros bons contos. Mas O cobrador, acho eu, chegou perto da excelência.

Na próxima postagem, Pequenas distrações, de Gregório Bacic.
_________________________
* FONSECA, Rubem. O cobrador. In: ______________. Contos reunidos. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. p. 491-507 

BG de Hoje

Direto ao ponto: BLACK SABBATH, War pigs.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Automóveis




Meu camarada Pirata Z (que agora atende também pelo nome de Z Ninguém), certa vez, desenvolveu o seguinte "postulado" (não sei se foi exatamente com estas palavras, mas o sentido era o mesmo): "nem todo mundo que tem carro é imbecil, mas todo imbecil tem um carro". Concordo inteiramente.

Quase fui atropelado ontem, atravessando a avenida, indo da instituição em que estudo para o local onde trabalho.

Não invadi a pista feito um celerado: o semáforo estava fechado para os veículos. Passado o susto, fui lembrar de uma canção gravada pela Zélia Duncan* (Minha fé), na qual ela manifesta seu desejo de (pelo menos) tentar acreditar "na bondade dos automóveis/ enquanto imóveis/ em suas garagens". Essas máquinas não são confiáveis; seus condutores, menos ainda.

É curioso: as pessoas, de um modo geral, têm dificuldade para reconhecer que são incompetentes em algumas atividades. Com esforço, admitem uma ou outra limitaçãozinha. Mas você dificilmente verá um cidadão reconhecer duas coisas: que transa mal ou que dirige mal. E nunca se viu tanta gente carente de sexo e tantos acidentes de carro "nessa longa estrada da vida"...

Contardo Calligaris, em ótima crônica**, traçou diversos modos do pedestre atravessar as ruas em vários lugares (Boston, Nova York, cidades europeias). Ao falar de São Paulo, Calligaris notou que o paulistano - já na via - não olha mais para os veículos. Uma das interpretações do cronista (a "mais heroica") para tal atitude é a seguinte:

"talvez, para as vítimas [do possível atropelamento] que não valem nada, atravessar sem olhar seja um modo de afirmar que sua dignidade é mais importante que a própria vida: ' Acha que sou um escravo? Pois é, sou capaz, como o mestre antigo, de desafiar a morte. Resta saber se você será capaz de me matar".

Sincera e covardemente, prefiro não pagar pra ver.

Até o Cinema, tão responsável pela glamourização dos veículos automotores, não deixou de exibir o lado sombrio e funesto destes. Que não me deixem mentir Encurralado (dirigido por Steven Spielberg, 1971), Mad Max (George Miller, 1979) e, o melhor de todos, Christine (John Carpenter, 1983).

Contudo, a associação entre a capacidade de matar dos carros e sua condição de símbolo de status e poder não poderia ter sido melhor explorada do que nos contos Passeio noturno (parte I) e Passeio noturno (parte II)***, de Rubem Fonseca.

"Motor bom, o meu, ia de zero a cem quilômetros em nove segundos. Ainda deu pra ver que o corpo todo desingonçado da mulher havia ido parar, colorido de sangue, em cima de um muro, desses baixinhos de casa de subúrbio", lê-se na primeira narrativa. Na segunda:

"Apaguei as luzes e acelerei o carro. Tinha que bater e passar por cima. Não podia correr o risco de deixá-la viva. Ela sabia muita coisa a meu respeito, era a única pessoa que havia visto o meu rosto, entre todas as outras".

Quer carona?

* Minha fé (Lucina/ Zélia Duncan), do disco Intimidade, 1996, WEA

** CALLIGARIS, Contardo. Pedestres. Folha de S. Paulo, São Paulo, 28 mai. 2009. Caderno Ilustrada, p. 11

*** FONSECA, Rubem. Contos reunidos. São Paulo: Companhia das Letras, 1994

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Dinheiro (1)

Pedir dinheiro está, sem dúvida alguma, entre os atos mais desagradáveis e vexatórios que existem. Tal situação só não se torna mais humilhante se dispomos da cara-de-pau, por exemplo, de um Custódio, personagem do conto O empréstimo*, de Machado de Assis. "Esse Custódio nascera com a vocação da riqueza, sem a vocação do trabalho", informa-nos o narrador. O clima é de humor, mas não deixa de causar certo desconforto em quem lê a progressiva redução no valor do empréstimo - que implica a diminuição moral da personagem - até chegar a uma quantia ínfima. Insistente, de posse pelo menos do "jantar certo", Custódio, ao final da história, "apertava amorosamente os cinco mil-réis, resíduo de uma grande ambição, que ainda há pouco saíra contra o sol, num ímpeto de águia, e ora batia modestamente as asas de frango rasteiro."

Acaba sendo também engraçada - apesar de desesperadora - a cena em que Dimitri Karamazov suplica 3.000 rublos à Sra. Khokhlakova, para restituí-los à sua ex-noiva, e assim recuperar parte de sua honra. Sem poder verbalizar adequadamente seu pedido, já que era interrompido a todo instante pela tagarelice da mulher, o mais velho d'Os Irmãos Karamazov** recebe o despropositado conselho para ir trabalhar nas minas de ouro da Sibéria. Dostoiévski conduz a cena contrapondo, por meio do diálogo, a intensa agonia de Dimitri à cômica incompreensão da Sra. Khokhlakova.

Em A Idade da Razão***, Jean-Paul Sartre nos apresenta o pior tipo de pedido de empréstimo que pode ser feito: aquele que ocorre entre parentes; no caso, entre irmãos. O professor de filosofia Mathieu Delarue procura o irmão, Jacques, para que este lhe conceda 4.000 francos, a fim de poder pagar por um aborto, já que a namorada de Mathieu, Marcelle, estava grávida e, aparentemente, nenhum dos dois desejava que a gravidez prosseguisse. No romance, o professor de filosofia defende que o valor mais importante é a liberdade. Só que nessa passagem, pode-se perceber que essa liberdade tem diversos condicionantes, entre eles, possuir ou não dinheiro. Jacques chega a ser irônico diante das convicções de Mathieu: " - E há pior, você, que cospe na família, você se aproveita do parentesco para dar facadas. Sim, porque afinal não virias a mim se eu não fosse teu irmão." Nem preciso dizer que Jacques recusa o empréstimo, convicto de que faz um favor ao parente.

Mas é no comovente conto O pedido****, de Rubem Fonseca, que essa relação entre quem pode emprestar e quem necessita pedir é retratada de forma mais humanamente triste. Entre as duas personagens - Joaquim Gonçalves e Amadeu Santos - havia um desentendimento surgido por motivo banal e que será suficiente para que um decida acabrunhar ainda mais o outro, ambos homens já idosos. O empréstimo é recusado, por causa de uma pergunta inofensiva. Assim Fonseca termina o excelente conto:

"Eu não sabia... disse Amadeu tristemente. Antes um filho morto, ele pensou. E uma lágrima seca, feita quase somente de sal, escorregou do seu olho, uma lágrima pelo filho dele e pelo filho de Joaquim.
Quando viu a lágrima brilhante escorrendo lentamente pela face de Amadeu, Joaquim calou-se constrangido. Lentamente Amadeu levantou-se e, antes de sair caminhando com dificuldade, disse, adeus.
Joaquim ficou sentado um instante curto. Eu não sou essa pessoa, ele pensou envergonhado com a sua mesquinhez, e correu em direção à porta da rua gritando, Amadeu! Volta, eu te dou o dinheiro, volta!
Mas ao chegar à rua, ela estava deserta. Joaquim ainda gritou o nome do amigo algumas vezes, enquanto escorriam pelo seu rosto lágrimas abundantes e úmidas de homem gordo e forte."

Poucas coisas distanciam tanto um ser humano do outro quanto a quantidade de dinheiro que se tem ou que não se tem.

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* ASSIS, Machado de. Papéis avulsos. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2005

** DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Os Irmãos Karamazov. (trad. Natália Nunes e Oscar Mendes). São Paulo: Abril Cultural, 1970 (Coleção Os imortais da literatura universal)

*** SARTRE, Jean-Paul. A Idade da Razão. (trad. Sérgio Milliet) São Paulo: Abril Cultural, 1979

**** FONSECA, Rubem. Contos reunidos. São Paulo: Companhia das Letras, 1994