terça-feira, 22 de setembro de 2026

Continuo estagnado


Neste espaço, como declarei noutras oportunidades, tento evitar ser excessivamente confessional. Por quê? Não sei dizer ao certo.

Tem a ver, em parte, com a modorra que a banalidade costuma me provocar. A imensa maioria das pessoas no mundo - falo de gente comum e que, oxalá, não esteja em zonas de guerra ou com dificuldade de acesso a alimentos e a condições materiais de sobrevivência - experimenta quase as mesmíssimas situações dia após dia: passa por aborrecimentos no trabalho ou no trânsito; fica contente por ter comprado uma bugiganga qualquer ou por ter obtido um pequeno triunfo (como, sei lá, viajar para um destino turístico muito desejado, concluir um curso, etc.); gosta de contar coisas sobre os filhos, ou sobre a(o) parceira(o), ou simplesmente fofocar; aflige-se com variados problemas de saúde sobre os quais sente necessidade de falar a respeito às vezes, e por aí vai. Naturalmente, sou assim também. Mas não me sinto confortável com isso. Esse desconforto é uma das razões pelas quais tenho tanto interesse na ficção (sobretudo) literária, porque nela, graças à infusão do trabalho artístico, as miudezas da vida se transfiguram. Deixo de me sentir afogado na mundanidade trivial, pelo menos enquanto dura a fruição do texto (ou, noutras ocasiões, a fruição de um filme, de uma série). Por mais discrepante que pareça, não é raro que excelente literatura (a obra de Dalton Trevisan, de João Antonio e de Alice Munro, entre muitos outros, me vêm à memória agora) nasça daquilo que nada tem de épico ou extravagante. Só assim, filtrada pela arte, a banalidade torna-se apetecível para mim. No geral, detesto  "ser arrastado em minha imaginação para o mundo pegajoso da vida doméstica de algum ser humano próximo",  como escreveu certa vez o romancista Jonathan Franzen (e que já mencionei aqui). Não acho razoável, portanto, que uma outra pessoa - o(a) eventual leitor(a) - se afunde no meu lodo privado. Daí o pouco interesse em "me abrir".

A indisposição para escrever textos excessivamente confessionais tem a ver também com uma constatação feita já há bastante tempo: vivemos hoje em dia saturados com a exposição da privacidade/intimidade de trocentos indivíduos com os quais não temos nenhuma relação direta. As mídias (redes) sociais provocaram uma inundação de relatos pessoais, muitas vezes carregados de egolatria e autoindulgência, feitos tanto por celebridades de fama planetária quanto por reclusos  zé-ninguéns.  Esse "espírito" das mídias sociais extrapolou a internet e contamina quase tudo. Sendo curto e grosso: o que eu ganharia jogando um pouco mais de visco nesse imenso pântano da privacidade/intimidade (quase) ilimitadamente exposta?

Não estou sendo completamente sincero, porém. Ainda que na maioria das postagens publicadas no  Besta Quadrada  esteja tratando de literatura, música pop ou filosofia, no fundo, no fundo, acabo falando de mim mesmo. Posso ser indireto, maquiar a escrita dos mais variados jeitos, sapecar aqui e ali citações e excertos de livros (um expediente comum deste blog, como já expliquei, por exemplo, aqui), mas uma das intenções subjacentes ao ato de postar, talvez a principal, é pura e simplesmente me gabar - "olhe, eventual leitor(a), como sou culto e afável!" (pelo menos de relance). 

Apesar dessa vaidade boba, até este momento, restava-me o consolo de não me exceder na pessoalidade. Restava. Tenho sentido nas últimas semanas muita necessidade de desabafar, de botar para fora minhas angústias e aflições íntimas, parte delas relacionadas ao nada auspicioso momento político que vivemos, com o apavorante vigor que a extrema direita vem demonstrando no Brasil e no mundo.

Mas partir para o puro desabafo comprometeria todo o esforço de anos que venho fazendo neste blog. 

Estou bastante perdido. Tentando recuperar o prumo.

Não sei o que fazer. 

A pausa vai continuar. Isso está acabando comigo.