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segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

Alice In Chains no MoPop


Como sou uma besta quadrada, apenas em agosto deste ano é que soube da existência do Museum Of Pop Culture (MoPop), localizado em Seattle (EUA), cidade natal de seu fundador, o falecido bilionário Paul Allen (um dos criadores da Microsoft, junto, é claro, de seu amigo e conterrâneo Bill Gates).

A organização surgiu no ano 2000 como Experience Music Project and Science Fiction Museum and Hall of Fame (o nome atual só começou a ser usado em 2016). Suas exibições e atividades, além de ocasionais mostras de artes plásticas, são voltadas principalmente para cinema, literatura, quadrinhos, videogames e entretenimento nos gêneros de ficção científica, fantasia e horror, bem como a manutenção de acervos e a realização de eventos relacionados à música pop, com destaque para artistas nascidos em Seattle ou vinculados à cidade

Desde 2007, ocorre uma celebração (cujo objetivo é também angariar fundos) homenageando cantores(as), instrumentistas, bandas e afins, intitulada Founders Award. Devido às restrições impostas pela pandemia de COVID-19, a festividade teve de ser cancelada em 2020, mas as apresentações musicais previstas aconteceram e foram abertas para o público em geral, por meio de transmissão online. 

Tratou-se de um tributo ao Alice In Chains, meu grupo de rock preferido.

Nesta postagem, destaco as performances de que mais gostei.

Man In The Box


Canção mais famosa do Alice In Chains, provavelmente, Man In The Box marcou a minha vida (já escrevi sobre isso aqui). Na execução acima, três músicos que se conhecem bem: Dave Navarro e Chris Chaney tocam juntos no Jane's Addiction há um longo tempo; o baterista Taylor Hawkins (Foo Fighters) é parceiro de Chaney num projeto paralelo (além disso, os dois colaboraram com Alanis Morissette no passado). Mantendo o estilo próprio, Navarro ainda assim conduziu sua guitarra de maneira bem próxima da versão original, inclusive no solo. Não tão positiva foi a atuação de Corey Taylor (Slipknot). Cantor respeitado dentro e fora do ambiente do heavy metal, Taylor não conseguiu atingir a pujança vocal do falecido Layne Staley, principalmente no refrão. Ainda assim, aprovei.


It Ain't Like That


Algumas performances aconteceram fora das dependências do museu. É o caso dessa. It Ain't Like That é minha canção preferida do Alice In Chains. Não esperava que fosse tocada nesse tributo porque não é das mais conhecidas. Fiquei contente. Nunca tinha ouvido falar na cantora Shaina Shepherd. Pouco importa: ela é ótima. Não se pode deixar de mencionar a participação do mestre zen da guitarra de Seattle, Kim Thayil (Soundgarden). It Ain't Like That tem alguns dos melhores versos cantados por Layne Staley, como por exemplo:

"Here I sit, writing on the paper
Tryin' to think of words you can't ignore
In my eyes, what I'm lackin'
Score at face, a ten for slackin'
Sign the deal, set in motion
Smaller fish, so huge the ocean"



Would?


(Versão do Metallica)
Outra apresentação que não ocorreu no MoPop. É significativo que uma banda tão venerada e rica quanto o grupo californiano desça de seu pedestal para honrar outros artistas, mesmo que seja sem sair de casa. Aplausos para o vocal de James Hetfield: a medida que o tempo passa, ele vai cantando cada vez melhor, anos-luz de distância da - como gosto de dizer - fase "canina" dos três primeiros álbuns do Metallica.


(Versão do Korn)
Se você for ler os comentários do vídeo acima no Youtube, verá que alguns deles começam mais ou menos assim: "I'm not a Korn's fan, but...". Pois bem, não sou fã do Korn, mas eles acertaram em cheio nessa.


Put You Down


Adorei essa performance! Liv Warfield é uma cantora ligada ao rythm'n'blues e ao soul, mas Put You Down encaixou-se perfeitamente com ela (e para valorizar sua voz, penso eu, a canção foi tocada numa levada um pouquinho mais lenta do que a versão original). Achei bacana a transmissão do vídeo ter explorado bem o cenário do museu. Quando ouvi Put You Down pela primeira vez, senti uma vibração parecida com o Van Halen, banda que eu ouvia pra caramba, 30 anos atrás. Muito tempo depois, soube que Jerry Cantrell, de fato, admirava o guitarrista neerlandês-americano (este, inclusive, presenteou o então iniciante Alice In Chains com instrumentos e equipamentos, no comecinho da década de 1990).


Rooster


É o que se pode chamar de encontro de gerações: Ann Wilson, que desde os anos 1970 e sobretudo nos 1980, ajudou a reforçar a imagem de Seattle como uma cidade roqueira (graças ao sucesso do Heart, banda formada junto com sua irmã, Nancy), interpretando Rooster, hit de um dos expoentes do grunge, cena musical que teve Seattle como epicentro nos anos 1990 (muito embora o Alice In Chains não assumisse o rótulo).


Them Bones


A versão mais "estranha" (no bom sentido) de todo o evento. O Fishbone é daqueles grupos difíceis de classificar (ska? funk? rock?). Não sei descrever o que esses caras fizeram nesse cover, mas ficou bom.


No Excuses (com o próprio Alice In Chains)


Faz muito sentido tocar No Excuses num dia de homenagem, uma vez que a canção tematiza a amizade. Nessa versão acústica, já experimentada no MTV Unplugged de 1996, o trabalho do baterista Sean Kinney transparece. No Excuses também realça uma das melhores características do Alice In Chains: a harmonização vocal em dupla (às vezes recorrendo ao double-tracking nas gravações de estúdio), algo raro em bandas de rock pesado. Por falar nisso, confesso que custei muito a "aquiescer" com a incorporação de William DuVall ao grupo. Sua adição, porém, revelou-se bastante acertada: é um bom cantor, além de instrumentista competente (algo que Layne Staley, mesmo sendo dono de uma voz extraordinária, não era). Após a chegada de DuVall, mais três discos foram lançados, sendo um destes - Black Gives Way To Blue - um álbum bem bacana, na minha opinião. 


Rain When I Die


Deixei por último a apresentação que considerei a mais bonita de todas. Nunca imaginei que Rain When I Die pudesse ser tocada sem o forte riff de guitarra elétrica que é a sua principal marca na versão original. Não foi preciso mais do que o violão e a voz límpida do cantor e compositor canadense Dallas Green (que usualmente se apresenta com o nome artístico City and Colour) para dar ainda mais dramaticidade a uma canção já de si tão triste. Belíssimo.

Se o(a) eventual leitor(a) desejar, o evento completo pode ser conferido aqui.

sexta-feira, 21 de maio de 2021

Nem tudo precisa ser ruim o tempo todo


Um número considerável de pessoas ficou com bastante tempo livre no ano passado, decorrente da observância (mais rigorosa para alguns, mais descuidada para outros) do distanciamento social.

Uma delas era eu.
 
No trabalho, fui colocado em regime de sobreaviso, da penúltima semana de março até o último dia de agosto. Felizmente, não tive redução nem suspensão de salário, apenas não recebi o vale-refeição (fez falta, viu). 
 
Nesse ponto, tenho que admitir que estava em condição privilegiada. Todos sabemos que um sem-número de trabalhadores teve descontos pesados na remuneração, além de outra imensidão de gente que perdeu o emprego. Sem falar nos informais, impossibilitados de ganhar algum em ruas onde a circulação de pessoas já não era a mesma dos dias normais.

Nunca a proposta de uma renda básica universal pareceu tão razoável quanto nessa crise provocada pela COVID.

Falávamos, porém, do tempo livre.

Gosto de TV. E, sempre que posso, assisto sem qualquer moderação. É um passatempo relativamente barato e acessível. Além do mais, não tenho vida social (expressão menos crua que as pessoas usam para evitar dizer que não têm amigos(as) com quem sair, nem encontram parceiras(os) sexuais). Nesse aspecto, a pandemia teve pouquíssimo efeito sobre mim. Muitos não aceitaram bem ter que ficar apartados. A minha casca, entretanto, já está um bocado grossa para lamentar distanciamentos.

Embora concorde que a programação televisiva merece muito da reprovação que lhe é dirigida (sobretudo pela turma mais intelectualizada), continuo com a opinião de que a TV deve ocupar-se em oferecer apenas entretenimento. Como já escrevi aqui, não é razoável esperar que a TV tenha um papel educativo, no sentido rigoroso. Sei que isso não é aplicável a todos, mas, quando estou em busca de profundidade, leio um livro ou vou a um museu. E se intenciono ficar bem informado, sou assinante de um ótimo jornal online (Nexo) e apoio uma excelente agência de jornalismo investigativo (Agência Pública). Após um cansativo dia de trabalho, todavia, tudo que quero é o descompromisso de um blockbuster ou a agitação controlada de uma partidinha de basquete ou de vôlei.

Além disso, é injusto colocar todos os produtos de entretenimento no mesmo balaio.

Reconheço que a TV exibe muita merda (os canais abertos, principalmente, mas os pagos também têm lá o seu quinhão de lixo). O entretenimento de boa qualidade, contudo, não está tão em falta como se alardeia.

. . . . . . .

Nem de longe posso me considerar um consumidor habitual de séries. Antes de começar a assisti-las, sempre me faço a mesma pergunta: "será que estou realmente disposto a investir tempo nesse troço?". Já perdi a conta dos títulos em que empaquei, não exatamente porque não tenha gostado, mas porque me deu uma certa preguiça (por exemplo, até hoje não passei do 3º episódio da 1ª temporada de Stranger Things e - para citar uma mais recente - estaquei no meio da temporada inaugural da japonesa Alice In Borderland).

Como não costumo ter a disposição requerida para me "dedicar" a uma série, geralmente escolho o que assistir a partir do gênero. Prefiro as comédias, muito embora seja um sujeito mal-humorado. Certamente gosto de outros tipos de produção (como, por exemplo, a ótima ficção científica The Expanse, na Amazon Prime Video, ou o drama Goliath, também no mesmo serviço de streaming, e, claro, Mr. Robot, outra série dramática, minha predileta - sobre a qual já escrevi aqui -, exibida no canal Space anteriormente e hoje disponível no catálogo da Amazon ¹). No geral, porém, opto por seriados cômicos (pretendo escrever, mais para diante, uma postagem sobre isso).

E duas comédias sensacionais, cada uma a seu modo, tornaram alguns daqueles dias com fartura de tempo livre mais aprazíveis ainda. Falo de Brooklyn Nine-Nine e The Good Place.

Ambas as séries tem o dedo do talentoso roteirista e produtor Michael Schur.

Brooklyn Nine-Nine ganhou os noticiários um tempinho atrás quando os fãs se mobilizaram através das mídias sociais para tentar evitar o cancelamento do programa, que era produzido pela Fox. 
 
Funcionou. 
 
A NBC decidiu dar continuidade e mais duas temporadas foram realizadas. Este ano vai ao ar a última, com apenas 10 episódios. Na TV por assinatura, assisti algumas vezes na TBS e na TNT. Recentemente estava, no Warner. No meu período de sobreaviso pude "maratonar" com tranquilidade, pois faz parte também do catálogo da Netflix.

Por que acho a série tão boa?

Porque, sem ter que inventar moda, ela usa muito bem um dos elementos mais importantes da comédia: o ritmo. A transição de cenas é formidável. As aberturas (cold opens), às vezes, são de rolar de rir, como essa abaixo, que ficou famosa: 
 

Além disso, percebe-se o cuidado dos roteiristas com cada uma das figuras centrais (algo visto também em outro trabalho de Michael Schur que eu adoro, Parks And Recreation) e há ótimos atores. Andre Braugher (que interpreta o capitão Raymond Holt), Joe Lo Truglio (detetive Charles Boyle) e Stephanie Beatriz (detetive Rosa Diaz) são os destaques, em minha opinião. Em relação aos personagens, as que mais me divertem são a secretária Gina Linetti, uma das preferidas do público (interpretada pela comediante Chelsea Peretti), e a já citada Rosa Diaz.

Tenho certeza de que vou continuar assistindo e me divertindo com Brooklyn Nine-Nine ao longo da vida, independentemente de quantas vezes já tenha visto determinado episódio. 
 
Devo dizer, porém, que não me lembro de sentir tanto contentamento com um programa de TV quanto senti ao assistir The Good Place. 
 
Sem receio de exagerar, é das coisas mais inteligentes, engraçadas e enternecedoras que já vi.

Em 2016, o frisson em torno da atração (produzida e exibida nos EUA pela NBC) já era percebido aqui no Brasil através da web.

Quando a Netflix (detentora dos direitos de distribuição internacional do programa) incluiu a série em seu catálogo, não tive afobação nenhuma para assistir (desenvolvi esse hábito: quanto mais percebo um certo hype em torno de um filme, uma banda de música, uma série, etc., menos pressa tenho de conhecer - por isso que até hoje não comecei a ver La Casa de Papel, por exemplo, e esse também é um dos motivos por que não tenho nenhum interesse em Game Of Thrones).

No segundo mês do sobreaviso, porém, sem aperto de tempo, resolvi dar uma olhadinha descompromissada. 

Babei.

É fascinante, visualmente: cenários, figurinos, uso das cores. Os atores dão um show, com destaque para D'Arcy Carden (que interpreta Janet) e a participação de Maya Rudolph, como a impagável Juíza. Os roteiristas não se excedem nas referências à cultura pop na hora de fazer as piadas (e creio que o(a) eventual leitor(a) concorda comigo que um dos grandes males de boa parte do entretenimento contemporâneo é a profusão de gracinhas forçadas explorando a cultura pop).

Mas tem mais.
 
Por que acho a série tão boa?

Porque, sendo um grande interessado em Filosofia, nunca imaginei que este tema apareceria de forma tão destacada num seriado de TV! E que, não poucas vezes, apareceriam personagens segurando livros, lendo e falando do conteúdo desses livros! E que isso não seria chato, muito pelo contrário!

Chidi Anagonye, o professor de Filosofia Moral incumbido de tentar melhorar a si e aos outros na série (interpretado pelo ator William Jackson Harper), tem um papel fundamental em The Good Place (embora recorrentemente ouça a frase: "Everyone hates Moral Philosophy Professors"). É o meu personagem preferido, junto com Michael (Ted Danson), o demônio que acaba desejando virar um ser humano.

Embora trate de algo caro à maioria das religiões - a crença de que há vida após a morte -, a série passa ao largo da pregação religiosa. Consegue-se fazer rir a partir de concepções e experimentos filosóficos (a esse respeito, recomendo muito o 5º episódio da segunda temporada, O dilema do bonde).

Nunca imaginei que veria qualquer coisa como essa acondicionada como entretenimento.

. . . . . . .

Toda vez que me deparo com um otimista, fico tomado de perplexidade: "Como é possível ser esperançoso neste mundo de merda em que vivemos?". Toda vez que ouço alguém rir à solta, me pergunto: "Como é possível gargalhar com esse ânimo, quando se sabe que há tanta opressão e ganância por aí?". Dos muitos defeitos que tenho, um deles é raramente ser capaz de olhar a vida com positividade.
 
Criações como Brooklyn Nine-Nine e The Good Place não vão me "curar" do pessimismo crônico. Mas não nego que são um lenitivo.

Pessoas como eu precisam do humor (e também da pieguice, por que não?) de programas assim.

Tráfico de pessoas, racismo, superexploração dos recursos naturais, abuso de poder econômico, miséria e fome... A lista de desgraças existentes é imensa. Não é à toa que o cinismo hoje é visto com um comportamento "ético" aceitável. E, quando não estamos encalacrados nos expedientes de trabalho estéreis que nos restam dentro da ordem capitalista, ainda somos submetidos, nos momentos de "lazer", a produtos de entretenimento que só faltam exclamar: "Espectador, você é um idiota!" - telenovelas, programas de auditório, reality shows, overdose de mesas-redondas em torno de futebol, reprises e mais reprises de filmes ruins, etc.

De vez em quando, porém, surge algo acima da média. Algo verdadeiramente divertido, perspicaz e emocionante.

A vida é uma sucessão de infortúnios, não consigo ver de outra forma. 
 
Mas nem tudo precisa ser ruim o tempo todo.
 
. . . . . . .
 
Uma última observação:  serviços de streaming, tais como Netflix, Amazon Prime Video, Disney +, HBO Max (e outros que estão para chegar), induzem a uma fruição bem parecida com a da TV tradicional. Podem ter a comodidade da escolha do melhor horário para assistir, da possibilidade de pausa ou avanço (que não são possíveis no modelo broadcast), mas costumamos consumir as atrações desses serviços de forma bem similar ao modo como estamos habituados: comodamente sentados num sofá, graças aos aparelhos de televisão modernos com conexão de internet.

Por isso, mesmo estando no streaming, não vejo problema algum de classificar tudo isso como conteúdo televisivo.

__________
¹ Gosto tanto da série que tenho em DVD (original) as três temporadas que chegaram ao Brasil. A quarta - e última -, mesmo tendo sido exibida nos EUA há quase dois anos, ninguém sabe quando poderá ser vista por aqui. Tremenda sacanagem com os espectadores.


BG de Hoje

Por falar em criações que me fazem bem, Fortune Faded, dos RED HOT CHILI PEPPERS está entre as canções que mais me dão vontade de sair pulando e dançando. Gosto demais dessa faixa! Não posso deixar de mencionar também que uma das perguntas que determinavam se alguém é fundamentalmente mau em The Good Place era: "Você já pagou para ouvir música tocada pela banda de funk rock da Califórnia Red Hot Chili Peppers?". Eu já, tenho quatro CDs deles (e já tive dois discos em vinil). Logo, meu lugar é o inferno...

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Por que assistir Mr. Robot?


Na opinião de muita gente, junto com o novo milênio, inaugurou-se a Era de Ouro das séries de TV. 


Cabe uma digressão.

. . . . . . .

No mês passado, disse aqui que as revistas e os jornais impressos foram engolidos pela internet. Pode-se mesmo considerá-los um tipo de mídia ultrapassada, diferentemente, porém, do rádio e dos livros de papel, os quais, se dependesse de alguns apressadinhos (pós)modernosos,  também já estariam condenados à lata de lixo da obsolescência. Mas e quanto à televisão?

Os constantes engarrafamentos do tráfego nas cidades talvez sejam suficientes para demonstrar que o rádio ainda tem seu lugar no mundo da comunicação: grande parte de seus ouvintes está preso no trânsito, indo ou voltando do trabalho. O rádio também é bastante apreciado pelos milhões de indivíduos que moram sozinhos (como este blogueiro); às vezes, sintonizamos em determinada estação apenas para ouvir outra voz humana enquanto preparamos uma refeição, lavamos roupa, etc. Além disso, mesmo nos últimos tempos, quando a programação musical deixou de ser o carro-chefe das emissoras, o rádio sempre funcionou como um repositório de boas dicas e sugestões, um lugar de aprendizado inclusive. As grandes empresas do setor, claro, só reproduzem a hit parade internacional, os artistas jabazeiros e o rebotalho da massificação sonora. Mas persistem redutos interessados na qualidade e, dessa maneira, não estupidificam a audiência (nesses casos, a web é uma benção, pois possibilita iniciativas esplêndidas, como a Rádio Vozes, comandada pela incansável jornalista Patrícia Palumbo).

Os livros de papel, por sua vez, mantêm-se (pelo menos por enquanto) distantes da ameaça de extinção - chegou-se a cogitar que eles seriam rapidamente desbancados por suas versões eletrônicas. Após rápido crescimento, superando inclusive, no valor total das vendas, seus similares tradicionais em 2011, o segmento de e-books, contudo, começou a estagnar a partir de 2015. Livros de papel continuam respondendo pela maior fatia do mercado editorial (por quanto tempo, porém, não se sabe). Isso acontece porque muitos leitores (este blogueiro, inclusive) continuam a preferi-los - por variados motivos, desde o amigável formato e familiar manuseio até um certo apego fetichista e nostálgico. No caso dos livros, entretanto, é forçoso reconhecer que eles não são um produto tão desejado. Mas isso tem muito menos a ver com sua materialidade e mais com o tipo de sociedade imbecilizada na qual vivemos.

A televisão também parecia uma mídia irremediavelmente condenada, uma vez que a web - acessada através de dispositivos móveis, sempre à mão - pode fornecer uma variedade de conteúdos imensamente mais ampla que o cardápio insalubre oferecido em boa parte dos canais (tanto abertos quanto por assinatura) ¹. Talvez como estratégia para responder às baixas audiências, os executivos e produtores deixaram um pouco de lado o investimento no quanto-pior-ou-mais-degradante-melhor - ainda dominante, infelizmente, no modelo broadcast - e procuraram sofisticar os produtos exibidos, seduzindo parcelas de espectadores mais exigentes que evitavam esse veículo. Talvez também seja essa uma das explicações possíveis para o atual boom dos (bons) seriados televisivos. NOTA ²: Embora a Netflix - empresa-chave do entretenimento na atualidade - opere online, por meio de streaming, sem depender de um quadro de horários fixos (como na TV convencional), a indução ao consumo proposta por ela é do tipo televisivo tal como estamos acostumados (até porque muitos de seus clientes assistem os programas de seu catálogo em telas grandes - e não num laptop ou tablet -, pachorrentamente aboletados no sofá, horas e horas a fio, graças aos muitos aparelhos  de TV disponíveis hoje com acesso à internet).

Voltemos agora ao assunto principal da postagem.

. . . . . . .

Entre tantas excelentes séries, o(a) eventual leitor(a) provavelmente tem alguma preferida. No caso deste blogueiro, das mais recentes, a minha favorita é, de longe, Mr. Robot.

Exibida nos EUA pela USA Network e no Brasil pelo canal pago Space, Mr. Robot, segundo matéria publicada na revista Rolling Stone em julho deste ano, "came out of nowhere to dazzle the world last summer" ("Mr. Robot apareceu do nada para fascinar o mundo no verão passado")

Sam Esmail, criador da série e diretor de todos os episódios na segunda temporada,  disse, numa entrevista para a mesma publicação, ter tentado vender seu trabalho para as grandes emissoras de TV a cabo, mas ele suspeita que "executives were put off by the show's darkness and interiority (the main character is a mentally unstable, morphine-addicted loner who often cries himself to sleep), along the fact that  - as he heard more than once - 'people on keyboards aren't interesting' " ².

É curioso que os executivos tenham dito que "pessoas num teclado não são interessantes" - afinal, muitos indivíduos nesses tempos digitais não fazem outra coisa a não ser ficar longos períodos teclando e teclando... Mas é realmente surpreendente que alguém tão perturbado como Elliot Alderson, o personagem principal, possa ser tão eletrizante. Falemos sobre isso.

Interpretado brilhantemente pelo ator Rami Malek (que, merecidamente, venceu o Emmy como melhor ator de drama em 2016, além de ser indicado ao Golden Globe de melhor ator em série dramática nos dois últimos anos), Elliot Alderson sofre de depressão, transtorno de ansiedade social (conhecida como fobia social) e transtorno dissociativo de identidade (antigamente chamada de "dupla personalidade"). Na primeira temporada, vemo-lo trabalhando numa empresa de segurança cibernética, mas para nós o que importa é sua extraordinária atuação como hacker. Nos vários episódios de Mr. Robot, sempre ouvimos a voz de Elliot em off, às vezes falando consigo mesmo, noutras com seu alter-ego ou até dirigindo-se diretamente a nós, espectadores. Entre os pontos altos da série estão os monólogos do personagem central. Dois deles já entraram para os melhores momentos da narrativa televisiva em todos os tempos, na minha opinião.

Num destes, logo no primeiro episódio da primeira temporada, Elliot é perguntado (por sua psiquiatra, Krista): "What is it about society that disappoints you so much?" ("O que há com a sociedade que te desaponta tanto?"). A resposta é sublime (embora só os espectadores, e não a terapeuta, ouçam-na):

"Oh I don't know. Is it that we collectively thought Steve Jobs was a great man even when we knew he made billions off the backs of children? Or maybe it's that it feels like all our heroes are counterfeit; the world itself's just one big hoax? Spamming each other with our burning commentary of bullshit masquerading as insight, our social media faking as intimacy. Or is it that we voted for this? Not with our rigged elections, but with our things, our property, our money. I'm not saying anything new. We all know why we do this, not because Hunger Games books make us happy but because we wanna be sedated. Because it's painful not to pretend, because we're cowards. 
Fuck Society." ³
(pode-se encontrar essa cena no Youtube: https://youtu.be/rNfzbPAD8FE)

Noutro, agora no segundo episódio da segunda temporada, Elliot detona com a religião, num desses grupos de ajuda (que não ajudam em nada):

"Is that what God does? He helps? Tell me, why didn’t God help my innocent friend who died for no reason while the guilty ran free? Okay. Fine. Forget the one-offs. How about the countless wars declared in His name? Okay. Fine. Let’s skip the random, meaningless murder for a second, shall we? How about the racist, sexist, phobia soup we’ve all been drowning in because of Him? And I’m not just talking about Jesus. I’m talking about all organized religion. Exclusive groups created to manage control. A dealer getting people hooked on the drug of hope. His followers, nothing but addicts who want their hit of bullshit to keep their dopamine of ignorance. Addicts. Afraid to believe the truth. That there’s no order. There’s no power. That all religions are just metastasizing mind worms, meant to divide us so it’s easier to rule us by the charlatans that wanna run us. All we are to them are paying fanboys of their poorly-written sci-fi franchise. If I don’t listen to my imaginary friend, why the fuck should I listen to yours? People think their worship is some key to happiness. That’s just how He owns you. Even I’m not crazy enough to believe that distortion of reality.


So fuck God. He’s not a good enough scapegoat for me". ⁴

(pode-se encontrar também essa cena no Youtube: https://youtu.be/UwDrc2YIRQo)

Há um pouco de inconformismo adolescente na série (meio ingênuo e bobo às vezes, tenho que admitir), mas não é fácil transformar em atração de TV uma história com forte mensagem anarquista e - sob certo ângulo - anticapitalista sem fazer algumas concessões ao público médio. Mr. Robot nos lembra o tempo todo que os grandes inimigos da humanidade não são aliens assustadores, zumbis asquerosos ou supervilões mutantes: neste momento, nosso planeta é ameaçado pelas megacorporações e sua voracidade interminável por lucro e poder. Além disso, a série nos dá uma representação bem realista da ação dos hackers e como somos vulneráveis em nosso uso rotineiro da web. Talvez por isso, o ex-analista da CIA/NSA, Edward Snowden, tenha elogiado a atração.

Todavia, por mais elementos sensacionais contidos na série - da trilha sonora cheia de canções legais aos roteiros inteligentes, dos enquadramentos de câmera incomuns para um programa de televisão às muitas citações cinematográficas empregadas na composição (Clube da Luta, Matrix, V de Vingança, Taxi Driver, entre outros filmes) -, Mr. Robot, mais do que as questões e problemas relacionados com a tecnologia, é brilhante por tematizar um dos grandes males contemporâneos: a solidão. Na matéria da revista Rolling Stone mencionada acima (Mr. Robot: How TV's hit hack drama keeps getting better), o jornalista Rob Sheffield escreve:

"Ultimately, Mr. Robot isn't really a fable about technology — it's about solitude, a drug that can play hideous tricks on the brain. Elliott knows there's a gap between what he thinks and what really exists out there in the world — it is the drama that happens in the no man's land between the two zones. For Elliott, computer code is a language he's mastered to insulate himself from other people, and it served him well up to a point; the question for him is whether he can get beyond that point or whether he's doomed to remain a wounded adolescent, trapped inside his own head forever. All the high-tech splendors of the modern world are just another seductive reason for him to stay home and zone out alone — which is where he gets into trouble. And the reason Mr. Robot hits home is that it's hardly just one guy's problem. There's a little Mr. Robot in everyone". ⁵

A misantropia de Elliot Anderson (a ponto de dominar os códigos da linguagem computacional para não ter que interagir com pessoas de carne e osso), sua permanente sensação de não pertencer a lugar nenhum, sua fragilidade emocional, tudo isso faz dele um sujeito facilmente encontrável nos dias atuais. Ele é o (anti) herói que mais combina com nossos tempos.


O blog entra em recesso a partir de hoje e retornará, espero, no dia 02/02/2017. Apesar de não receber retorno algum - neste ano apenas duas pessoas contataram-me por e-mail dispostas a discutir algumas das postagens e nem mesmo meus conhecidos ou familiares acompanham essa joça - o Besta Quadrada é uma das poucas coisas que ainda me dão prazer. Por isso insistirei com ele enquanto for possível. Ao(à) eventual leitor(a), desejo boas festas e um 2017 que seja pelo menos suportável. Ah, antes que me esqueça: FORA TEMER!

__________
¹ Se as pessoas, em geral, estão fazendo ou não um uso proveitoso do seu acesso à internet já é uma outra discussão...

² [tradução aproximada: "executivos relutaram por causa da escuridão e interioridade do programa (o personagem principal é um solitário viciado em morfina, mentalmente instável, que frequentemente chora até pegar no sono), junto com o fato de que - como ele ouviu mais de uma vez - 'pessoas num teclado não são interessantes' "]

³ [tradução aproximada: "Oh, eu não sei. [Será por que] nós, coletivamente, pensamos que Steve Jobs foi um grande homem quando nós sabemos que ele ganhou bilhões explorando [o trabalho de] crianças? Ou talvez [por que] sente-se como se todos os nossos heróis fossem falsificados; o próprio mundo é apenas uma grande farsa? Entupindo-nos uns aos outros com nossos comentários incendiários de bobagem, mascarando[-os] como introspecção, nossa mídia social passando[-se] por intimidade. Ou [será porque] nós votamos nisso? Não com nossas eleições arranjadas, mas com nossas coisas, nossa propriedade, nosso dinheiro. Não estou dizendo nada novo. Nós todos sabemos porque fazemos isso. Não porque livros como Jogos Vorazes nos fazem felizes, mas porque queremos estar sedados, porque é doloroso não fingir, porque nós somos covardes. Foda-se a sociedade".]

⁴ [tradução aproximada: "É isso que Deus faz? Ele ajuda? Diga-me, por que Deus não ajudou meu amigo inocente que morreu sem motivo enquanto o culpado escapou livre? OK. Tudo bem. Esqueça os casos isolados. E quanto as inúmeras guerras declaradas em nome Dele? OK. Tudo bem. Vamos pular o assassinato sem sentido e aleatório por um instante, podemos? Que tal toda a sopa de fobia, racismo e machismo na qual estamos nos afogando por causa Dele? E não estou falando apenas de Jesus. Estou falando sobre toda a religião organizada. Grupos exclusivos criados para manter o controle. Um traficante mantendo as pessoas fisgadas numa droga de esperança. Seus seguidores, nada mais do que viciados que querem sua dose de dopamina da ignorância. Viciados. Com medo de acreditar na verdade. Que não há ordem. Não há poder. Que todas as religiões são apenas vermes espalhando um câncer na mente, destinadas a nos dividir, pois é mais fácil para nos controlar através de charlatães que querem mandar em nós. Tudo o que somos para eles é apenas tietes pagantes da sua franquia de ficção científica mal escrita. Se eu não escuto o meu amigo imaginário, por que deveria escutar a porra do seu? As pessoas pensam que a adoração é alguma chave para a felicidade. Isso é apenas o modo como Ele torna-se seu dono. Mesmo eu não estou tão louco assim para acreditar nessa distorção da realidade. Então, Deus que se foda. Ele não é um bode expiatório bom o suficiente pra mim"]

⁵ [tradução aproximada: "Por fim, Mr. Robot não é realmente uma fábula sobre tecnologia - é sobre solidão, uma droga que pode fazer horríveis truques no cérebro. Elliot sabe que há uma distância entre o que ele pensa e o que existe lá fora no mundo - é o drama que acontece na terra de ninguém entre duas zonas. Para Elliot, o código de computador é uma linguagem que ele dominou para isolar-se das outras pessoas, e ela serviu bem a ele até certo ponto: a questão é se ele consegue ir além desse ponto ou se ele está condenado a ser um adolescente ferido, preso dentro da sua própria cabeça para sempre. Todo o esplendor high-tech do mundo moderno é apenas outro motivo para ele ficar em casa, esquecido e só - que é onde ele se encrenca. E o motivo de Mr. Robot causar tanto efeito é que isso dificilmente é problema de apenas um cara. Há um pequeno Mr. Robot em cada um".]

BG de Hoje

Aqui no blog não costumo seguir critérios para escolher os BGs. Boa parte das vezes a canção incluída não tem nada a ver com o que foi escrito na postagem: é só uma música de que gosto muito ou, por acaso, ouvi pela manhã antes de sair pro trabalho, lembrei dela por um motivo qualquer, etc. No caso de hoje, porém, Are You Lost in The World Like Me?, do MOBY, acompanhada dessa animação sensacional do STEVE CUTTS (o blog do desenhista e artista gráfico está entre os recomendados aqui da casa) é perfeita para acompanhar um texto sobre  Mr. Robot.
 

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Sobre nerds, geeks e a educação científica (I)


"Quando, por indiferença, desatenção, incompetência ou medo do ceticismo, dissuadimos as crianças de estudar ciência, nós as privamos de um direito seu, roubando-lhes as ferramentas necessárias para administrar o seu futuro".

Carl Sagan - O mundo assombrado pelos demônios

 
Gosto muito de assistir a desenhos animados, tanto aqueles em que se empregam as técnicas tradicionais de animação quanto aqueles compostos integralmente por computação gráfica, como, por exemplo, Operação Big Hero (Big Hero 6 - direção de Don Hall e Chris Williams, 2014), ao qual assisti no último domingo.

A Disney adaptou um título pouco conhecido da Marvel Comics (esta, como se sabe, é hoje propriedade daquela), contando com a ajuda do grupo Man of Action (criador, diga-se de passagem, da lucrativa marca Ben 10). Tantos nomes fortes da indústria do entretenimento conseguiram, no entanto, produzir uma história apenas razoável, embora não seja um passatempo de todo ruim. Imagino que se encontre por aí, disponível em lojas, milhares de bonequinhos, camisetas estampadas, álbuns de figurinhas e outras quinquilharias relativas a cenas e personagens do filme, feito sob medida para o lançamento de uma variada linha de produtos licenciados para o comércio.

Operação Big Hero, contudo, tem lá o seu valor (e não estou fazendo alusão à sua rentabilidade potencial). É uma narrativa em que, surpreendentemente, os nerds são retratados de maneira positiva. São nerds e são heróis. Melhor dizendo, conseguiram tornar-se heróis no filme em razão de serem nerds : conheciam bastante de matemática, física, química, robótica, eletrônica e essa competência foi necessária e útil para o ato heroico que executam.

Mas, deixando essa animação de lado, por que, em geral, os chamados nerds costumam aparecer de forma estereotipada e/ou negativa em desenhos, filmes ou séries de TV (inclusive em The Big Bang Theory, um produto estranhamente apreciado pelo público)? 

Antes de tentar responder, pensemos um pouco sobre o termo em si.

O Oxford Dictionary define nerd, primeiramente, como "uma pessoa ingênua ou insignificante que carece de habilidades para a convivência social ou é uma estudiosa entediante". E só depois registra, como segunda acepção: "um especialista hábil num campo técnico em particular". Já a Wikipedia ressalta que o termo é "usado frequentemente de modo pejorativo" e muitos nerds são descritos como "tímidos, esquisitões e não atraentes". No entanto, a mesma fonte reconhece que assim como outros termos pejorativos usados para estereotipar, esse "tem sido reapropriado e redefinido como um termo de orgulho e identidade de grupo". A enciclopédia colaborativa on-line também fornece (escassas) informações sobre os primeiros usos dessa palavra como gíria. Segundo o verbete, o termo - já com as conotações de tenacidade nos estudos e inaptidão pessoal - se popularizou nos EUA (e nos países anglófilos) a partir dos anos 1970, graças ao "uso intensivo no seriado cômico Happy Days".

Aqui no Brasil, a palavra nerd é hoje empregada com certa frequência; e, quando assume o sentido de pessoa muito estudiosa, substituiu expressões coloquiais mais antigas do nosso idioma, como a dinossáurica "caxias", a grosseira "CDF" e a simpática "crânio" *.

Em muitas ocasiões, podemos verificar o uso da palavra nerd para fazer referência a um outro tipo social: o geek. Considero isso um grande equívoco. Tratarei, porém, dessa confusão terminológica mais adiante.

Neste momento, gostaria de falar um pouco sobre o livro O mundo assombrado pelos demônios** (a edição brasileira acrescentou a este um ótimo subtítulo: a ciência vista como uma vela no escuro), publicado pelo astrônomo e astrofísico Carl Sagan em 1995. É um dos melhores livros não-ficcionais que conheço. Discute aspectos de metodologia científica e epistemologia, possui elementos de história da ciência, sugere formas para se divulgar melhor a atividade científica para o público em geral, além de ser uma boa fonte para a compreensão adequada do ceticismo. Tudo isso "amarrado" pela narração de alguns trechos autobiográficos, nos quais o autor fala de sua trajetória como estudioso e cientista apaixonado por seu campo de trabalho. E o livro também fornece valiosos pontos de vista sobre a educação escolar, pois foi escrito com a intenção de combater o que Sagan (e muitos outros) chamam de analfabetismo científico.

Leiamos com atenção o trecho abaixo. O autor tem em mente o contexto educacional norte-americano, mas acredito que vale também para o caso brasileiro:

"Algo aconteceu entre o primeiro ano primário e o último ano secundário, e não foi apenas a puberdade. Eu diria que é, em parte, a pressão dos pares para não se sobressair (exceto nos esportes); em parte, o fato de a sociedade ensinar gratificações a curto prazo; em parte a impressão de que a ciência e a matemática não vão dar a ninguém um carro esporte; em parte, que tão pouco seja esperado dos estudantes; e, em parte, que haja poucas recompensas ou modelos de papéis para uma discussão inteligente sobre ciência e tecnologia - ou até para o aprendizado em si mesmo. Os poucos que continuam interessados são difamados como nerds, geeks ou grinds".

Estudar com afinco ou auxiliar e incentivar quem tenha essa disposição não parecem ser prioridades em nossas sociedades. Além do mais, aqueles que se dedicam ao estudo são impopulares, considerados aborrecidos ou esquisitos. Mas Sagan alerta:

"Nós criamos uma civilização global em que os elementos mais cruciais - o transporte, as comunicações e todas as indústrias, a agricultura, a medicina, a educação, o entretenimento, a proteção ao meio ambiente e até a importante instituição democrática do voto - dependem profundamente da ciência e da tecnologia. Também criamos uma ordem em que quase ninguém compreende a ciência e a tecnologia. É uma receita para o desastre. Podemos escapar ilesos por algum tempo, porém mais cedo ou mais tarde essa mistura inflamável de ignorância e poder vai explodir na nossa cara".

Vivendo na (pomposamente) chamada era do conhecimento e dependentes da ciência, seria razoável que valorizássemos tanto a instrução e a educação quanto as pessoas dedicadas a essas atividades. Entretanto, é o que se verifica? Volto ao tema na próxima semana.
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* Caxias, segundo o Houaiss, proveio do título do Duque de Caxias e alude à disciplina e à aplicação desse militar; CDF (acrônimo para cu-de-ferro) refere-se a "quem apresenta aplicação extrema e mais ou menos obcecada a seus trabalhos, deveres, compromissos (diz-se especialmente de estudante)", segundo o mesmo dicionário; por fim, o Houaiss inclui como um dos sentidos do termo crânio a seguinte acepção: "pessoa de notável inteligência".

** SAGAN, Carl. O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no escuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2006 [Tradução de Rosaura Eichemberg]

BG de Hoje

Direto ao ponto: PINK FLOYD, One of these days.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Quem está imune à indústria cultural? (III)


Voltemos ao ensaio A canção de consumo. Umberto Eco chama atenção para o desconhecimento de boa parte dos ouvintes, sobretudo adolescentes e jovens, de que a indústria cultural (no caso, musical) modela, de forma planejada, o gosto coletivo, chegando até a promover determinados tipos de comportamento e "atitudes", para além da dimensão propriamente artística/estética:

"[...] quando os jovens pensam escolher os modelos baseados em seu comportamento individual, não se dão conta de quanto agora o comportamento individual se articula com base na determinação contínua e sucessiva dos modelos. Do outro [lado da questão], está o fato de que, na sociedade em que vivem, esses adolescentes não encontram nenhuma outra fonte de modelos; ou pelo menos, nenhuma tão enérgica e imperativa".

E, de certo modo, o produto da indústria musical acaba satisfazendo "algumas tendências autênticas dos grupos aos quais se dirige".

Recuperando o prefácio de Apocalípticos e integrados*, a indústria cultural é "um sistema de condicionamentos", a que todos na atualidade estamos sujeitos (tanto os menos quanto os mais ingênuos).

Quantos fãs de rock se deram (ou se dão) conta de que ao vestir determinadas roupas, cortar o cabelo de tal modo ou repetir certas gírias, não estão apenas reproduzindo um modelo erigido pela indústria cultural (refiro-me ao rock, mas o mesmo vale para outros subgêneros da música pop)? E pensando num campo de produção artística mais familiar para mim, quantos leitores de 50 tons de cinza ou A guerra dos tronos, por exemplo, se dão conta de que sua disposição de leitura, nesse caso, foi motivada por uma eficiente estratégia de publicidade/marketing da indústria editorial?

Tudo isso não quer dizer que devamos expulsar de nossas vidas (o que seria impossível, aliás) a cultura de massa (melhor dizendo, os mass media ou meios de massa, como prefere o pensador italiano). Necessitamos compreender que a "civilização de massa" é uma nova "ordem antropológica [...], válida para indicar um preciso contexto histórico (aquele em que vivemos), onde todos os fenômenos comunicacionais - desde as propostas para o divertimento evasivo até os apelos à interiorização - surgem dialeticamente conexos [...]"

Nossas sociedades urbanizadas de hoje são sociedades de massa. Essa é nossa realidade histórica. Nesse contexto, "todos os que pertencem à comunidade se tornam, em diferentes medidas, consumidores de uma produção intensiva de mensagens a jato contínuo, elaboradas industrialmente em série, e transmitidas segundo os canais comerciais de um consumo regido pelas leis de oferta e da procura".

Em tal situação, é improdutiva a postura aristocrática do apocalíptico (remanescente, talvez, de uma aversão ao acesso crescente da população pobre aos bens culturais). Mas também é censurável o entusiasmo acrítico dos integrados diante dos produtos dos mass media.

Ninguém mais está imune à indústria cultural. Para o "mal" ou para o "bem".
 
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* ECO, Umberto. Apocalípticos e integrados. 6 ed. São Paulo: Perspectiva, 2001 [Tradução de Pérola de Carvalho]

BG de Hoje

Essa canção já teve gravações marcantes (Santa Esmeralda e, principalmente, a original com Nina Simone). Mas ainda prefiro THE ANIMALS: Don't let me be misunderstood.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Quem está imune à indústria cultural? (II)



No ensaio A canção de consumo (incluído em Apocalípticos e integrados*, livro de que estamos tratando nesta série de postagens), Umberto Eco irá criticar a chamada música "gastronômica" - que seria aquela destinada, supostamente, apenas para servir como entretenimento, evasão, jogo e consolo. Vale esclarecer que o texto em questão serviu de prefácio para outro livro (de outros autores), publicado em 1964, no qual a indústria musical - no contexto italiano - era um dos temas abordados. Apesar dessas circunstâncias, os pontos ali levantados não destoam do atual cenário da cultura de massa, inclusive no Brasil. A propósito, antes de prosseguir, é bom deixar claro que ao falar de massa, o pensador italiano (e, junto com ele, também este blogueiro) não "tira o corpo fora", como se fosse um ser não-contaminado, culturalmente puro: a massa, "em muitos momentos do dia, cada um de nós é, sem exceção", escreve ele.

Umberto Eco considera que a canção de consumo "segue uma lógica das fórmulas "; um produto feito de acordo com a lei fundamental do mercado - oferta e procura. Se determinada fórmula dá certo (vende), será repetida enquanto for rentável:

"[...] onde a fórmula substitui a forma só se alcança êxito decalcando os parâmetros [estabelecidos pelos produtos musicais anteriores] e uma das características do produto de consumo é que ele nos diverte não por revelar-nos algo de novo, mas por repetir-nos o que já sabíamos, o que esperávamos ansiosamente ouvir repetir e que é a única coisa que nos diverte..."

A música de consumo - doravante, vou designá-la de música pop** - não tende à experimentação. E isso vale tanto para o rock (gênero de preferência deste blogueiro), quanto para o (pomposamente) chamado samba "de raiz" ou a axé music.

Assim sendo, o que pode ser feito para que a música pop ganhe relevância (e valoração) artística? Uma solução é delineada naquilo que Umberto Eco chama de "canção 'diferente' " (o próprio autor coloca o adjetivo entre aspas em seu ensaio). Em que consiste essa nova forma de fazer música? Pra começar, opor-se às canções gastronômicas,

"[...] não procurando atenazar  a atenção do ouvinte mediante o fascínio de um ritmo primitivo, mas sim através da presença envolvente de conceitos e apelos inusitados. O resultado foi o de fornecer uma canção que a pessoa se concentra para escutar. Habitualmente, a canção de consumo é usada como fundo musical enquanto se faz outra coisa ; a canção 'diferente' requer respeito e interesse".

Se fosse para pensar num exemplo dentro do atual universo musical brasileiro, diria que a canção "diferente" vem daqueles artistas que vinculam seu trabalho ao cânone da MPB (de forma reverente ou iconoclasta, não importa agora), ao passo que a música gastronômica seria representada pelo sertanejo universitário e pelo "pancadão" carioca.

O ensaio A música de consumo é curto, mas suscita discussões longas. Por isso retornarei a ele na próxima (e última) postagem desta série.

* ECO, Umberto. A canção de consumo. In: _______. Apocalípticos e integrados. 6 ed. São Paulo: Perspectiva, 2001. p. 295-314 [Tradução de Pérola de Carvalho]

** ver nota de rodapé da postagem anterior da série

BG de Hoje

Direto ao ponto: MAURÍCIO TIZUMBA, Canção pra tocar no rádio.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Quem está imune à indústria cultural? (I)


É bastante corriqueiro encontrar aficionados por música pop* que execram determinados artistas e suas obras, alegando faltar a estas (e a estes) qualquer valor artístico/estético, sendo meramente comerciais. Fãs de rock, por exemplo (como este blogueiro), costumam agir assim. Isso é bastante curioso (para não dizer incoerente) pois poucas manifestações culturais foram tão comerciais e "fabricadas" quanto o rock, sobretudo a partir da década de 1960, inclusive com ações publicitárias em nível planetário. Tudo fazendo parte do modus operandi da indústria musical. E justamente por isso, o rock já foi (e talvez ainda seja) visto como a "antimúsica".

Pensar sobre isso, entre outras coisas, me lembrou Apocalípticos e integrados**, que reli recentemente. Julgo que os pontos de vista expostos nesse trabalho de Umberto Eco - acerca da indústria cultural e da cultura de massa - ainda são válidos, mesmo que alguns dos ensaios ali incluídos tenham sido elaborados há mais de 50 anos.

Voltarei a falar de música pop quando tratar especificamente do texto A canção de consumo. No momento, prefiro me deter no ensaio que abre o livro: Cultura de massa e "níveis" de cultura, . Após elencar os argumentos daqueles que atacam a cultura de massa (isto é, os apocalípticos) e os daqueles que fazem a apologia desta (os integrados), o pensador italiano considera que:

"O erro dos apologistas é afirmar que a multiplicação dos produtos da indústria seja boa em si, segundo uma ideal homeostase do livre mercado, e não deva submeter-se a uma crítica e a novas orientações". Por outro lado, "o erro dos apocalípticos-aristocráticos é pensar que a cultura de massa seja radicalmente má, justamente por ser um fato industrial, e que se possa ministrar uma cultura subtraída ao condicionamento industrial.

Isso é importante: não há mais como recuar no tempo, nem fugir para o lindo-território-exclusivo-da-alta-cultura. As atividades humanas, no atual momento histórico, estão sob o condicionamento industrial e a cultura de massa é uma realidade a qual todos estamos vinculados. Acho oportuno agora recuperar um trecho do prefácio do livro:

"A nosso ver, se devemos operar em e para um mundo construído na medida humana, essa medida deverá ser individuada não adaptando o homem a essas condições de fato, mas a partir dessas condições de fato. O universo das comunicações de massa é - reconheçamo-lo ou não - o nosso universo; e se quisermos falar de valores, as condições objetivas das comunicações são aquelas fornecidas pela existência dos jornais, do rádio, da televisão, da música reproduzida e reproduzível, das novas formas de comunicação visual e auditiva. Ninguém foge a essas condições, nem mesmo o virtuoso, que indignado com a natureza inumana desse universo da informação, transmite o seu protesto através dos canais de comunicação de massa, pelas colunas do grande diário, ou nas páginas do volume em paperback, impresso em linotipo e difundido nos quiosques das estações".[E, na atualidade, também postando seu protesto no Twitter ou no Facebook, acrescentaria este blogueiro]


Há muito ainda a dizer sobre esses temas e sobre esse livro. Prosseguirei na semana que vem.
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* O termo música pop está sendo usado aqui em oposição à música erudita. Ao falar em música pop quero me referir a todas as obras que se voltam para o mercado consumidor mais amplo, não especializado e mais "popular"; noutras palavras, a música passível de "tocar no rádio".

** ECO, Umberto. Apocalípticos e integrados. 6 ed. São Paulo: Perspectiva, 2001 [Tradução de Pérola de Carvalho]

BG de Hoje

Outro dia vendo uma série de vídeos do DEEP PURPLE, ouvi o tecladista Jon Lord dizer que a canção Child in time é a canção de um loser. Passei a gostar mais ainda dela.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

"Sempre é possível triunfar"... Sobre o quê?



No primeiro episódio da série de animação Futurama (criada por Matt Groening) há uma cena muito engraçada, quando Fry conhece o robô Bender, de forma involuntária, dentro de uma cabine de suicídio, na qual o rapaz havia entrado por engano (veja a cena aqui). No futuro imaginado pelos roteiristas da série, suicidar-se será tão simples e corriqueiro quanto fazer uma ligação telefônica.

Lembrei-me dessa cena ao ler a matéria de capa da penúltima edição da revista Época*. A reportagem, assinada por Felipe Pontes, entrevistou quatro brasileiros inscritos na organização Dignitas, que pratica o chamado suicídio assistido, na Suiça.

A primeira dos entrevistados (que sofre de ateromatose) diz: “Não me sinto uma suicida, jamais pularia da janela. Apenas quero morrer dormindo”. A segunda, uma ex-atleta, tetraplégica após acidente durante um mergulho, fala de como os outros não entendem a sua decisão: “As pessoas são egoístas, só pensam quanto elas sofrerão se eu for embora. Não conseguem ter ideia do meu sofrimento”. Um terceiro considera ser “nobre oferecer ajuda a quem está sofrendo” e o último dos entrevistados, mais pragmático, é direto: “As pessoas não fazem seguro de vida? Vejo o que fiz como um seguro de morte”.

O que se pode depreender a partir dessas declarações? 1) Suicidar-se, mesmo que seja para evitar um sofrimento maior é, em si, um ato muito sofrido (daí o desejo de morrer dormindo) ; 2) ninguém – a não ser o sofrente – tem a exata noção do que é conviver com o sofrimento intenso e prolongado ; 3) não se deve “condenar ao fogo do inferno” quem auxilia aquele que deseja morrer ; 4) e o tema suicídio assistido deveria ser discutido com menos passionalidade.

Pessoalmente, sou favorável ao suicídio assistido. Digo mais: acho que a sociedade deveria parar de ser tutelada pelas opiniões religiosas, que condenam invariavelmente o suicídio, e começar a pensar e discutir esse ato extremo sob outros vieses (e quem sabe até inventando, no futuro, uma cabine de suicídio).

Aliás, a matéria da Época não fugiu ao expediente típico (e preguiçoso) desse tipo de reportagem: ouviu apenas o que tinham a dizer as “autoridades” religiosas. Não se consultou nem um jurista, nem um psicólogo, nem um filósofo. Ah, o físico Stephen Hawking foi ouvido... para corroborar a intenção da matéria (que não teve equilíbrio algum, pendendo para o lado que considera a prática um pecado). Reproduziu-se na capa da revista, omitindo um trecho importante, a seguinte declaração do cientista: “Encerrar a própria vida é um erro. Sempre é possível triunfar”. Mas no texto da matéria lê-se [grifos meus]: “Acho que as pessoas têm o direito de encerrar a própria vida, mas seria um erro [...]”.

E há aqui ainda outro ponto a ser discutido. O verbo triunfar, de fato, é intransitivo na maioria de suas acepções e usos; mas numa delas, de acordo com o “Houaiss” - “livrar-se de dificuldade; obter bom resultado” - é transitivo. Se a morte pode ser considerada uma dificuldade (inevitável e invencível), o que significaria então sempre é possível triunfar? Triunfar sobre o que, exatamente?

* Ajuda-me a morrer. Época, São Paulo, n. 736, 25 jun. 2012, p. 82-91

BG de Hoje

Das bandas mais inteligentes e inventivas da história do rock. Estou falando do TALKING HEADS (aqui num de seus maiores hits: Wild wild life).