Mostrando postagens com marcador Soundgarden. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Soundgarden. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

A crítica de Merleau-Ponty ao fascismo

 
"Ora, a crítica política não se ocupa somente com ideias mas também com as condutas que tais ideias mascaram em vez de exprimir"

Maurice Merleau-Ponty




Um dos três livros que pretendo comprar em breve e ler durante as benditas e intensamente desejadas férias é Como conversar com um fascista: reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro, da filósofa e escritora Márcia Tiburi.

O Brasil atravessa, a meu ver, um período no qual declarações e posicionamentos reacionários e antidemocráticos são despejados na esfera pública sem o menor pejo, muitas vezes intimidando ou calando à força as vozes divergentes. Seus arautos estão por quase toda parte: lideranças religiosas das igrejas caça-níqueis, parlamentares filhotes-da-ditadura, "celebridades" televisivas de talento questionável, jornalistas paus-mandados dos chefões da nossa mídia oligopolizada... Isso sem falar nos milhões de "comentaristas de redes sociais", com sua truculência, grosseria e desinformação, infestando o Twitter, Facebook e Whatsapp, vinte e quatro horas por dia. O livro de Márcia Tiburi, espero, talvez possa me ajudar a respirar e pensar melhor nesse pântano de involução política em que estamos nos atolando.

Os reacionários com pretensões autoritárias de nossos dias são frequentemente chamados de fascistas. Essa denominação é válida?

Penso que sim.

Embora o fascismo, stricto sensu, esteja relacionado ao período entre 1922 (quando Benito Mussolini chega pela primeira vez ao poder na Itália) e 1945 (quando o ditador é fuzilado), seu ideário, obviamente, não ficou circunscrito a um único país, nem deixou de se propagar através do tempo. O fascismo, como um conjunto organizado de princípios, sobrevive em estado de latência em nosso tempo - algumas vezes sendo testado e revivido na prática, para nosso repúdio, horror e vergonha. Seus ideólogos contemporâneos dificilmente se assumirão como tal em público. Nada, porém, nos autoriza a considerá-lo uma etapa histórica já vencida.

Entretanto, é preciso notar que, durante uma certa época pelo menos, aqueles encarregados das tarefas mais intelectualizadas entre os defensores e entusiastas do fascismo não agiam dissimuladamente quando se tratava de afirmar sua ideologia com todas as letras. É a um desses indivíduos que o filósofo Maurice Merleau-Ponty se dirige, especificamente, no ensaio Em torno do marxismo*. Apesar de reconhecer que há "lucidez", bem como "honestidade e vigor", nas reflexões de um tal Thierry Maulnier (o autor de direita cujos textos critica), Merleau-Ponty procura demonstrar que essas mesmas reflexões são conformistas e retrógradas pois cessam "de fato de escolher a revolução".

É estranho, reconheço, escrever sobre um artigo (quase) de circunstância publicado há 70 anos. É estranho, sobretudo, quando, como gosta de dizer certa gente influente e "formadora de opinião", estaríamos vivenciando uma era "pós-ideológica". Tenho, entretanto, duas intenções: a primeira é lembrar que o debate político, ao longo da história, nem sempre ficou amesquinhado pelo disse-me-disse dos bastidores da administração estatal ou pelas torcidas organizadas de agremiações partidárias; e a segunda é reconhecer que contrapor-se ao fascismo, na primeira metade do século passado, tinha um outro sentido - mais profundo, talvez. Tentemos compreender isso um pouco melhor.

Se considerarmos o fascismo (mesmo que apenas) em seu sentido estrito, verificaremos que muitas atitudes e opiniões circulando atualmente na esfera pública nacional e internacional refletem concepções fascistas já presentes nos anos 1920, tais como racismo, xenofobia, apego ao militarismo, defesa do estabelecimento dos regimes de exceção a qualquer momento e desprezo pela noção de direitos humanos válidos para todos. Acrescentaria, ainda, o comportamento hostil em relação às minorias e o anti-intelectualismo. Mas deve-se lembrar que, em suas origens, o fascismo pretendia instaurar uma nova sociedade a partir, sobretudo, de ações "salvadoras" na economia. E é no campo econômico que se nota a diferença entre os fascismos contemporâneos e o fascismo "original", digamos assim.

Regimes políticos fascistas caracterizavam-se por um enorme intervencionismo estatal na atividade econômica, visando incrementar áreas consideradas estratégicas, sobretudo aquelas ligadas ao setor bélico. Sabemos, contudo, que muitos dos reacionários atuais têm verdadeiro horror a controles e regulamentações, de qualquer natureza (principalmente da parte do Estado), quando se trata de seu deus, o Mercado**.

Merleau-Ponty escreveu Em torno do marxismo num contexto em que o debate ideológico ainda era muito relevante, já que se tratava de apontar, de forma crucial, como a sociedade deveria conduzir-se (ou ser conduzida) economicamente. De uns tempos pra cá, lamentavelmente, esse debate não parece fazer mais sentido, pois somos levados a crer que o mundo como o conhecemos não pode ser mudado.

Como bom marxista, Merleau-Ponty acredita que "se conhecerá mais seguramente a essência de uma sociedade pela análise das relações inter-humanas cristalizadas e generalizadas na vida econômica do que pela análise de movimentos de ideias frágeis e fugazes, assim como se conhece melhor o homem por suas condutas do que por seus pensamentos" [grifos meus]

Por isso sua critica ao fascismo tenciona saber quais mudanças estruturais, de natureza econômica, esse ideário político poderia apresentar. Em termos marxistas: como ele resolveria a questão fundamental da luta de classes?
. . . . . . .

A democracia é um grande valor. Mas é apenas isso. Ela não é garantida por nenhuma lei universal presente na natureza. Atentemos para essa passagem de Em torno do marxismo:

"O otimismo democrático admite que, num Estado onde os direitos do homem são garantidos, nenhuma liberdade usurpa as outras liberdades e a coexistência dos homens como sujeitos autônomos e racionais encontra-se assegurada. Isto significa supor que a violência faz uma aparição episódica na história humana, que as relações econômicas, em particular, tendem por si mesmas a realizar a justiça e a harmonia e, enfim, que a estrutura do mundo natural e humano é racional. Hoje sabemos que a igualdade formal dos direitos e a liberdade política mascaram relações de força, em vez de suprimi-las. E, assim, o problema político consiste em instituir estruturas sociais e relações reais entre os homens tais que a liberdade, a igualdade e o direito tornem-se efetivos. A fraqueza do pensamento democrático reside no fato de ser menos uma política e mais uma moral, visto que não coloca qualquer problema de estrutura social e considera as condições do exercício da liberdade como dadas com a humanidade. Contra tal moralismo, nós nos alinhamos do lado do realismo, desde que este seja entendido como uma política ocupada com a realização das condições de existência dos valores por ela escolhidos". [grifos meus]

"[...] a igualdade formal dos direitos e a liberdade política mascaram relações de força, em vez de suprimi-las"... Posso até participar de eleições periodicamente e imaginar que meu direito a um salário digno ou a igualdade perante a lei estão assegurados. Tudo isso, entretanto, é ilusório. Bilhões de indivíduos como eu (e outros tantos ainda mais pobres) somos manietados e arrastados diariamente pelas decisões tomadas por conglomerados empresariais globais e pelo setor bancário transnacional, para os quais o bem-estar das pessoas localizadas na base da pirâmide econômica é irrelevante. Diante dessa situação, como não reconhecer que a luta de classes - opondo os detentores do capital e plutocratas ao restante de nós - é um traço definidor da realidade? E que a grande batalha é  tentar "instituir estruturas sociais e relações reais" que possam tornar efetivas "a liberdade, a igualdade e o direito"?

Mas essas questões não são sequer cogitadas pelos fascistas. Aferrados a um conceito não igualitário de sociedade, a "solução" que poderiam apresentar para os problemas sociais passa, inevitavelmente, pelo que pensam as suas elites dirigentes. E estas são o núcleo-duro do conservadorismo econômico e político, posicionado no lado que está, há séculos, vencendo a luta de classes.
. . . . . . .

Para Merleau-Ponty - assim como para boa parte dos pensadores marxistas - as condições de existência só serão alteradas por meio da ação revolucionária. É preciso admitir, contudo, que um dos motivos pelos quais o marxismo é desprestigiado hoje em dia tem a ver com o fato de que a ideia de revolução foi perdida.

De todo modo, apesar de meu conformismo, procurarei sempre ter em mente estas palavras, com as quais encerro a postagem de hoje:

"Todavia, se a alternativa é: ou socialismo ou caos, então a imprudência estará do lado daqueles que contribuem para agravar o caos sob o pretexto de que a revolução é um risco. Reconduzido ao essencial, o marxismo não é uma filosofia otimista - é somente a ideia de que uma outra história é possível, que não há destino e que a existência do homem é aberta. É a tentativa resoluta por esse futuro que ninguém no mundo, nem fora do mundo, sabe se será ou não será".
____________
* MERLEAU-PONTY, Maurice. Em torno do marxismo. São Paulo: Abril Cultural, 1980. [Tradução de Marilena Chauí] (Coleção Os pensadores)

** Há ainda, para o fascismo "original" outra deusa - no caso, a Nação. O integralismo de Plínio Salgado, nos anos 1930, manteve essa tendência ultranacionalista aqui no Brasil. Porém, é curioso notar que muitos brasileiros de hoje, entusiastas de ideias e noções de cunho fascista, apesar de vestirem o verde e amarelo quando se manifestam, têm imenso desejo de se mudar para o estrangeiro, principalmente para os EUA.

BG de Hoje

Semana passada assisti a um programa de TV, no estilo documentário, sobre o Nirvana. Deu-me então uma grande vontade de rememorar a cena grunge (na minha opinião, o último grande momento criativo do velho rock). Passei um fim de semana todo ouvindo os discos de Kurt Cobain e cia., Alice In Chains (minha banda favorita), Pearl Jam e SOUNDGARDEN (este último, o mais subestimado dos grupos grunge de sucesso comercial) Reforcei minha convicção de que Chris Cornell é um cantor fenomenal, o melhor - disparado - entre todos os que fizeram parte daquela cena musical. Você pode perceber isso conferindo, por exemplo, Burden In My Hand.

sábado, 13 de agosto de 2011

O ato de escrever: vaidade, autoafirmação ou compartilhamento de saber? (1)


Num de seus melhores escritos* (apenas em minha opinião, claro), o poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto fez extraordinária reflexão sobre o ato de escrever. Por enquanto, apenas reproduzo o poema; falarei dele (e de um assunto relacionado) mais adiante.

EXCEÇÃO: BERNANOS, QUE SE DIZIA ESCRITOR DE SALA DE JANTAR

Por que é o mesmo o pudor
de escrever e defecar?
Não há o pudor de comer,
de beber, de incorporar,
e em geral tem mas pudor
quem pede do que quem dá.
Então por que quem escreve,
se escrever é afinal dar,
evita gente por perto
e procura se isolar?

Escrever é estar no extremo
de si mesmo, e quem está
assim se exercendo nessa
nudez, a mais nua que há,
tem pudor de que outros vejam
o que deve haver de esgar,
de tiques, de gestos falhos,
de pouco espetacular
na torta visão de uma alma
no pleno estertor de criar.

(Mas no pudor do escritor
o mais curioso está
em que o pudor de fazer
é impudor de publicar:
com o feito, o pudor se faz
se exibir, se demonstrar,
mesmo nos que não fazendo
profissão de confessar,
não fazem para se expor
mas dar a ver o que há.)

Convido o(a) leitor(a) a refletir junto comigo nesta e na próxima postagem.
__________
* MELO NETO, João Cabral de. Exceção: Bernanos, que se dizia escritor de sala de jantar. In: A educação pela pedra e depois. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, p. 90-91 [Esse poema integra o livro Museu de Tudo, publicado originalmente em 1974)

BG de Hoje

No chamado movimento grunge, por razões óbvias, sempre gostei mais dos grupos que não se distanciavam do heavy metal tradicional. Caso do SOUNDGARDEN (e do Alice in Chains, minha banda predileta, claro). Além do mais, o quarteto contava com o guitarrista "zen" Kim Thayil e o excepcional cantor Chris Cornell. Em Blow up the outside world (canção feita sob medida para os permanentemente-putos-com-a-vida, como é o meu caso), Cornell escreveu uma das suas melhores letras. OBS: Abaixo, competente versão ao vivo.