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sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Chupar laranja, (tomar) aspirina, catar feijão


Voltei a trabalhar numa biblioteca escolar. Quase seis anos se passaram e me deparo, nesse retorno, com as mesmíssimas situações problemáticas que eu acreditava terem ficado para trás. Bem, pelo menos está mais fácil agora reaproximar-me da literatura infantil e infantojuvenil depois de um longo hiato. Uns dias atrás, fui percorrer as prateleiras de poesia e fiquei contente ao achar o livro  Dia brinquedo,  de Fernando Paixão (Ed. Abril, 2009, com ilustrações de Suppa). Numa oportunidade anterior, noutra escola pública, eu havia selecionado três poemas deste livro para apresentá-los (junto com outros, de poetas diferentes) a um conjunto de turmas, num minissarau. Naquela ocasião, a coisa saiu melhor do que o esperado, tendo em vista as dificuldades de se obter adesão e envolvimento nas ações ligadas à literatura, por incrível que pareça, dentro de determinadas unidades escolares.

Um dos poemas selecionados tinha sido este:

 

ENCONTRO DAS FRUTAS
 
Na fruteira nova
alta luz da tarde
as laranjas têm bunda
brilha o batom das maçãs.
 
Trinta e nove uvas
de mãozinhas dadas
dão boas risadas
da cara feia do abacaxi.

 

"Funciona" muito bem com vários estudantes do início do Fundamental, as imagens ocorrendo-lhes rapidamente, achando graça nos traseiros das laranjas e se perguntando como seria ter um rosto de abacaxi.

Há uma disponibilidade muito maior de temas e assuntos aos quais recorrer nos poemas endereçados às crianças do que nos outros, destinados aos leitores mais experimentados. Pode-se imaginar, por exemplo, um diálogo de amor entre um garfo e uma colher (como se vê nesse mesmo livro de Fernando Paixão citado acima) ou compor uma cena em que uma vaca entra num bar e pede refrigerante com canudinho (lembrei-me agora de um dos muitos textos engraçados do Sérgio Caparelli), sem se preocupar se isso vai ou não comprometer a imagem de poeta sério que muitos temem colocar em risco. E Fernando Paixão é um poeta sério, lido por adultos meticulosos, professor da USP e tal, mas que fez questão de colocar nas páginas centrais do seu  Dia Brinquedo :  "O poeta escreve poesia para ser criança todo dia".  

A menção de nádegas cítricas me fez lembrar de um poema bem fraquinho de Drummond ¹, do qual praticamente ninguém fala, mas que acho bem divertido, em sua peculiaridade :

 

CHUPAR LARANJA 
 
A laranja, prazer dourado.
A laranja, prazer redondo.
A laranja, prazer fechado.
A laranja, prazer de faca.
 
Ou canivete. Cada golpe
anuncia: já se aproxima
o íntimo prazer da laranja,
que se dá sem sacrifício.
 
A laranja não se espedace,
para mais intenso prazer.
A laranja fique redonda,
mesmo sem casca, esfera nívea.

Então corte rápido a lâmina
um dos polos; a mão aperte,
e a boca sorverá, sensual,
a líquida alma da laranja.
 
Quem foi que, anônimo, inventou
o prazer de chupar laranja
em forma global de mamucha?
Gerações antigas sorriem
neste mestrado de volúpia.

 

Chupar laranja  integra  Boitempo,  conjunto de poemas de teor memorialista, ligados à meninice e a adolescência, publicado originalmente em 1968. Assim como vários dos textos ali reunidos, seus versos derivam da evocação de um ato simples, ligado à vida doméstica.

Durante muitos anos, eventual leitor(a), principalmente na infância, fiz pouca questão da laranja. Fruta trivial, da mesma categoria da banana e do mamão - todas sem qualquer mirabolância. Hoje, envelhecido, praguejo se não encontro alguma para saborear depois de um bom almoço em casa, sendo justamente a sua modéstia e despojamento o que passou a me agradar.

Levei um certo tempo para desenvolver a habilidade de descascar laranjas (só de lembrar os "machucados" que, no passar da lâmina, deixei em muitas delas, fico irritado, inclusive por uma questão estética, pois alcançar a "esfera nívea", quase homogênea, deveria ser o objetivo). Agora, com orgulho, posso arvorar-me um perito e, apesar da invencível desorganização e do caos permanente em minha moradia, guardo em local especial há anos uma faca jeitosa exclusivamente para o descascamento (por isso assimilo tão bem o verso "A laranja, prazer de faca"  ). 

O eu lírico presume que o  corte em "dois polos"  é o modo padrão de consumo da fruta. Entretanto, vê-se bastante mundo afora o  corte em xis ou cruz   (sem necessidade de tirar a casca, aliás) e até a  separação por gomos  (procedimento supérfluo e trabalhoso, devo dizer), tal qual uma tangerina que perdeu a vocação. A  "forma global de mamucha"  não é, portanto, planetária (a propósito, que palavra deliciosa é  mamucha , indisfarçavelmente mineira e com os dois pés no arcaico!).

Não recriminaria quem achasse insólito a laranja ser o tópico central de um poema (que não visava o público infantil) elaborado por um dos bambas da nossa poesia. Estranhamento parecido talvez se repita numa outra composição cujo tema principal, desta vez, é um fármaco ²:

 

NUM MONUMENTO À ASPIRINA
 
Claramente: o mais prático dos sóis,
o sol de um comprimido de aspirina:
de emprego fácil, portátil e barato,
compacto de sol na lápide sucinta.
Principalmente porque, sol artificial,
que nada limita a funcionar de dia,
que a noite não expulsa, cada noite,
sol imune às leis de meteorologia,
a toda hora em que se necessita dele
levanta e vem (sempre num claro dia):
acende, para secar a aniagem da alma,
quará-la, em linhos de um meio dia. 
 
Convergem: a aparência e os efeitos
da lente do comprimido de aspirina:
o acabamento esmerado desse cristal,
polido a esmeril e repolido a lima,
prefigura o clima onde ele faz viver
e o cartesiano de tudo nesse clima.
De outro lado, porque lente interna,
de uso interno, por detrás da retina,
não serve exclusivamente para o olho
a lente, ou o comprimido de aspirina:
ela reenfoca, para o corpo inteiro,
o borroso de ao redor, e o reafina.


O autor, desta feita, é João Cabral de Melo Neto e o texto em questão é bem mais conhecido do que o anterior. Faz parte de  A educação pela pedra,  lançado em 1966.

Uma nota biográfica vem a calhar. O poeta pernambucano sofreu por décadas com uma enxaqueca crônica. Em entrevista, afirmou ter consumido, durante muitos anos, cerca de seis comprimidos de aspirina diariamente. O medicamento tornou-se parte da sua vida - uma homenagem, portanto, não soaria despropositada. Em se tratando da poética cabralina, contudo, não devemos esquecer como o autor gostava de tornar matéria de poesia aquilo que ordinariamente não é considerado poético, evitando vocábulos por demais polissêmicos, preterindo a abstração e valorizando a concretude. Frente a um comprimido de aspirina, pouco pode fazer o subjetivismo.

Para encerrar essa mirada de poemas, busquemos mais um de Melo Neto ³,  célebre, também extraído de  A educação pela pedra :

 

CATAR FEIJÃO
 
Catar feijão se limita com escrever:
jogam-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na da folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.
 
Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que sempre entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá a frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a com o risco.


A quem ocorreria a comparação entre o prosaico ato de catar feijão e o ato de escrever (no caso, escrever literatura)? Está demonstrado que eles  se limitam  (ou seja, fazem fronteira um com o outro, são próximos embora não idênticos). Quem escreve distingue, precisa separar e depois suprimir "o leve e oco", a "palha e eco" - ou, às vezes, incorporar conscientemente a  pedra, indesejada no preparo do feijão, mas bem-vinda na escrita,  se esta atende a necessidade do artista de desafiar o leitor. Para João Cabral, o poema é sobretudo resultado de um empenho do pensar: o derramamento da inspiração é secundário na hora de compô-lo.

Esse é um dos textos cabralinos em que a sonoridade combinada das palavras contribui imensamente para sua beleza: "jogam-se os grãos na água do alguidar" ;  "e jogar fora o leve e oco, palha e eco" ;  "obstrui a leitura fluviante, flutual/ açula a atenção, isca-a com o risco".  Justamente num autor que,  aparentemente,  não dava muita bola para esses efeitos...

 

Na próxima postagem, continuarei no terreno do verso, falando do último livro de poemas de Affonso Romano de Sant'Anna que veio a público antes de seu falecimento.

_________________ 

¹ ANDRADE, Carlos Drummond de. Chupar laranja. In: ____________. Boitempo I. 4 ed. Rio de Janeiro: Record, 1998. p. 78-79 

² MELO NETO, João Cabral de. Num monumento à aspirina. In: ___________. A educação pela pedra e depois. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997. p. 32

³ MELO NETO, João Cabral de. Catar feijão. In:___________. A educação pela pedra e depois. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997. p. 16-17  

BG de Hoje

Não tenho dados para confirmar, mas o Rio de Janeiro é provavelmente o município mais cantado do Brasil. É compreensível: além da antiguidade e da importância ao longo da história, muitos de seus moradores e visitantes frequentes amam de paixão aquele lugar (pessoalmente, tenho muita antipatia  pela  cidade maravilhosa  , além de muito pavor - opinião que não vale quase nada pois só estive por lá uma única vez,  num breve período). Rio 40 graus, composição de FERNANDA ABREU, FAUSTO FAWCETT e Laufer, lançada em 1992, é um breviário poético e musical da cidade como nenhum outro já feito, admiravelmente sintetizado na expressão "purgatório da beleza e do caos". 

quinta-feira, 16 de março de 2017

Lygia Bojunga: há 45 anos "fabricando tijolos" e maravilhando leitores (II)


 "No dia em que optei por literatura eu me prometi que ia escrever do meu jeito e não mais do jeito-que-tem-que-dar-audiência".


Lygia Bojunga - Pra você que me lê (incluído como posfácio numa das edições do livro O Meu Amigo Pintor)

 
Prosseguindo com nossas observações acerca da obra de Lygia Bojunga, retomemos os dois pontos que deixamos em aberto na postagem anterior:

1) Comecemos nos perguntando o que pode ter levado a autora, na entrevista mencionada no texto da semana passada, a dizer que só a partir de seu terceiro ou quarto livro sua escrita começa a ser literatura? Talvez não o fosse antes, nos livros intencionalmente escritos para criança? Essas perguntas remetem-me a um depoimento - lindo, lindo - feito pelo falecido Bartolomeu Campos de Queirós e publicado no final dos anos 1990 ¹.

O autor de  Indez e Ler, escrever e fazer conta de cabeça  começa falando de sua infância, de seus primeiros contatos com o texto impresso e das suas motivações para escrever: "Percebi que só há dois lugares para se falar da gente. Na literatura ou no divã do analista. De outra maneira vira fofoca". A certa altura, Queirós - geralmente identificado como escritor de literatura infantojuvenil - afirma:

"Não escrevo 'para' crianças. Minha limitação é maior que o mundo e não possuo a ousadia - ou coragem -, ao chegar em casa, de puxar a cadeira e dizer: 'Vou escrever mais uma história para as criancinhas'. [...] Se meu texto é eleito pela criança, sinto-me realizado pelo que há de honesto na infância [...] A arte, e no caso a literatura, é para criar desequilíbrio, buscar outro prumo, e não botar pano quente em inquietações mornas. Daí eu não estar interessado em escrever aquilo que as crianças querem. Isso não acrescentaria nada em termos de intuição poética. Espantam-me as pessoas capazes de traçar cânones, normas, ensinando como construir um texto para os pequenos - muito diálogo, muita ação, frases curtas, sem esquecer do humor. Nada de tristezas. Se sabem tanto como deve ser o livro, desconhecem o processo de criação literária. Deviam escrever e não ficar perdendo tempo em dar ideias. É muito sacrifício".

Junto com o desabafo direcionado a determinados editores e estudiosos do assunto, Bartolomeu Campos de Queirós nega ter em mente um "leitor-criança-ideal" quando cria. Outros autores, cujos livros costumam ser colocados na prateleira da literatura infantil, fazem o mesmo - penso, por exemplo, em Ricardo Azevedo. E, claro, também em Lygia Bojunga. Então, por que diabos gostamos de contrariar os escritores pespegando o carimbo "LITERATURA INFANTIL (OU JUVENIL)" no que fazem?

. . . . . . .

Existe ou não existe essa coisa chamada  literatura infantojuvenil ? Não acho uma pergunta tola; muita gente, entendida no assunto, argumenta que não há razão para,  a priori,  delimitar que A foi feito para criança (ou adolescente) e B não.  Pessoalmente, defendo a existência desse domínio literário. Acredito que, na maioria dos casos, os autores e autoras estabelecem, de antemão, o  destinatário imaginado  de seu texto. As escolhas de vocabulário, a organização sintática dos períodos, a extensão da narrativa e até mesmo a temática (algumas vezes) revelam que a narrativa (ou poema, peça teatral, etc.) visava um receptor menos "treinado" que o adulto. A criança - e mesmo o adolescente - são, em relação ao idioma, usuários em construção. Suas performances linguísticas - falando, escrevendo ou  lendo  - demonstram esse processo. Quem escreve profissionalmente não desconhece isso.

Tenho para mim, porém, que alguns escritores e escritoras talvez ressintam-se um pouco quando se diz que seu trabalho é literatura infantojuvenil - como se o adjetivo  infantojuvenil  fosse depreciativo. Talvez julguem uma área sem prestígio já que a universidade e grande parte da crítica literária não se voltam muito para a produção que tem a criança e o jovem como destinatários principais.

Por ser um setor relativamente mais rentável e aparentemente - sabemos que não é - mais "fácil" para se produzir, os livros infantis e juvenis tornaram-se um filão no qual muitos oportunistas, escritores e escritoras sem talento algum, tentam se dar bem. Em meio a centenas e centenas de lançamentos anuais, às vezes é difícil destacar o que realmente vale ser lido. Nesse aspecto, as unidades de educação básica poderiam desempenhar um importante papel como agências de incremento da leitura, indicando a seus estudantes - e explorando em seu dia-a-dia - as obras mais significativas. Entretanto, o que tenho testemunhado é uma subordinação dessas instituições aos ditames do mercado - como já acontece na política, cultura e noutras esferas da sociedade. Vejo nas bibliotecas escolares exemplares e mais exemplares do  Diário de um banana,  livros-que-viraram-blockbusters-hollywoodianos (e vice-versa), frivolidades de Thalita Rebouças e outras nulidades tão ou mais comercialmente apelativas.

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2) Desde de 1972 - portanto há 45 anos - Lygia Bojunga tem construído uma obra extraordinária, classifiquemo-la como infantojuvenil ou não, pouco importa agora. O que importa é que esse conjunto de textos precisa ser celebrado - e, principalmente, lido, lido, lido... Afinal, poucos escritores brasileiros foram tão reconhecidos, inclusive através de premiações. Bojunga, acho, é a autora mais laureada em seu segmento (contando também as vezes em que foi "altamente recomendável") pela FNLIJ - Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil -; venceu três vezes o Jabuti e, em 1982 - não esqueçamos -, recebeu a medalha Hans Christian Andersen, considerado o Nobel da literatura infantojuvenil (foi a primeira latino-americana a ganhá-la e, até hoje, só outra representante brasileira mereceu-a: Ana Maria Machado, premiada em 2000).

Por falar nessa medalha, na ocasião do recebimento do prêmio, Lygia escreveu um pequeno - porém, sublime - texto, intitulado Livro - a troca, traduzido e divulgado em mais de 60 países. Nele a escritora fala sobre sua relação com o objeto-livro, desde a infância, na condição de leitora, até o momento presente, quando, depois de  "pegar intimidade com as palavras",  converte-se em escritora.

Os livros deram a ela "casa e comida". Aqueles objetos ajudavam-na a brincar de construtora:

"livro era tijolo; em pé, fazia parede, deitado, fazia degrau de escada; inclinado, encostava num outro e fazia telhado.

E quando a casinha ficava pronta eu me espremia lá dentro pra brincar de morar em livro".

Com o passar do tempo e a imaginação alimentada pelos livros, vem a decisão "de alargar a troca: comecei a fabricar tijolo pra – em algum lugar – uma criança juntar com outros, e levantar a casa onde ela vai morar".

O desejo de escrever e o ofício de escritora são temas muito presentes na obra de Lygia Bojunga. Lembremos, por exemplo, que, em  A bolsa amarela,  uma das vontades da menina Raquel - a que permanece com ela -  é a de ser escritora. Lembremos também do conto  A troca e a tarefa  (que, de algum modo, me faz recordar um conto de outra Lygia, a Fagundes Telles, chamado Verde lagarto amarelo), em que o trabalho da personagem roça o terreno do sobrenatural:  "Cada um tem uma tarefa na vida. A tua é escrever 27 livros. Na hora em que botar o ponto final no vigésimo sétimo livro, a tua tarefa vai estar acabada e a tua vida vai terminar" ².  Isso sem falar nos títulos  Livro - um encontro, Fazendo Ana Paz e Paisagem,  que compõem a chamada  trilogia do livro.

. . . . . . .

No ano em que completa 85 anos de idade e 45 anos de carreira literária, tinha ainda tanto a escrever com o objetivo de homenagear essa grande escritora! Falar sobre o modo como os artistas são representados em seus livros, sobre sua consciência de que o escritor profissional deve e merece ser valorizado (leia-se remunerado) adequadamente pelo seu trabalho, sobre algumas peculiaridades estilísticas que dão a seu texto uma feição tão cativante, sobre o quanto a fase cinzenta de sua literatura deveria ser mais conhecida pelo público familiarizado apenas com a fase luminosa, sobre o quanto gosto do livro  Tchau....

Combinamos o seguinte: cada um desses pontos será retomado ao longo deste ano. Prometo.

Ah, recomendo uma visita ao site da escritora: http://www.casalygiabojunga.com.br/pt/index.html

__________
¹ QUEIRÓS, Bartolomeu Campos de. Menino temporão. In: PAULINO, Graça (Org.). O jogo do livro infantil. Belo Horizonte: Dimensão, 1997. p. 41-43

² BOJUNGA, Lygia. A troca e a tarefa. In: ______. Tchau. 19 ed. Rio de Janeiro: Casa Lygia Bojunga, 2009. p. 87-112


BG de Hoje

Pra que discutir com madame,  maravilhosa composição de Janet de Almeida e Haroldo Barbosa, foi interpretada por muita gente: Luiz Melodia, Elza Soares, Diogo Nogueira, Teresa Cristina... A gravação mais conhecida, certamente, é a de João Gilberto. Não sou fã do cantor e violonista baiano (OK, podem me apedrejar), por isso opto pela versão de sua conterrânea, ROSA PASSOS.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Lygia Bojunga, há 45 anos "fabricando tijolos" e maravilhando leitores (I)


"E tem gente como eu: em qualquer fase da vida não abre mão, mas não abre mão mesmo, de ter sempre por perto o tal amigo pra valer: LIVRO. Mesmo porque ele é o único amigo que nunca cria caso pra ficar com a gente seja onde for: sala, quarto, banheiro, cozinha, sombra de árvore, areia de praia, fundo de sofá, fundo de mágoa; e fica junto da gente mesmo no pior lugar do ônibus, do trem, do avião; enfrenta até numa boa cadeira de dentista e leito de hospital. E, se quem escreveu o livro consegue mexer com o nosso pensamento e balançar a nossa imaginação - pronto! aí se forma uma relação, um laço, que amarra pra valer quem escreve com quem lê".

Lygia Bojunga - Pra você que me lê (incluído como prefácio na 17ª edição do livro Tchau).

Lygia Bojunga raramente concede entrevistas - mais pelo jeito reservado do que por outra razão, penso eu. Por isso, quando a artista se manifesta fora de seus livros, todos que a admiramos paramos para escutar. Em 2012, ela trocou algumas palavras com Daniel Antônio, do extinto programa Entrelinhas (TV Cultura). A escritora, demonstrando sinceridade, afirma que seus "dois ou três primeiros [livros] começaram com uma intenção de escrever para criança", acrescentando em seguida: "Achei que escrevendo para criança seria até uma coisa menos difícil, para começar [uma possível carreira literária]". Antes dessa experiência, Lygia - também atriz - estava acostumada a escrever dramaturgia, em especial para o rádio e a televisão.

"A partir do meu terceiro ou quarto livro" - prossegue ela - "minha escrita foi se modificando no sentido de que começou a ser o que a gente chama de literatura, que é um processo assim muito mágico e que tem muito a ver com o subconsciente. É claro que às vezes - às vezes não, quase sempre - sai muito disfarçado. E às vezes sai até em forma de bicho porque a figura de um tatu ou de um pavão ou de um vira-lata encaixa melhor nas minhas preocupações, nas minhas ansiedades, nos meus sonhos. E, sobretudo, acho que [em] todos os meus livros, sem exceção, [há] uma preocupação [com a realidade] social desse nosso Brasil".
(A participação da autora no Entrelinhas está no Youtube: https://youtu.be/9KKob3AWnGk)

NOTA: Uma pulguinha vem se alojar atrás da minha orelha, lendo/ouvindo o que nos diz a escritora a respeito de seus primeiros livros (por certo ela está se referindo, especificamente, a Os colegas e Angélica). Será que eles não mereceriam ser também chamados de Literatura? Por que não? Por terem sido, intencionalmente, pensados para uma criança? Questões assim remetem-nos às velhas desconfianças (e alguma inapetência) que sempre cercaram a avaliação crítica da produção literária infantil e juvenil (vale a pena falar um pouco sobre isso, mas deixarei para o final deste par de postagens).

Vera Maria Tietzmann Silva ¹, professora da Universidade Federal de Goiás, considera que  "os temas nevrálgicos têm sido a marca distintiva da ficção de Lygia Bojunga, que vem desde 1972 [...] revolvendo as chagas sociais e individuais de nosso tempo".  A desigualdade social brasileira, suas moradias precárias, suas infâncias desassistidas, o desemprego e a instabilidade do trabalho informal sempre a assombrar o país e, mais universalmente,  "o consumismo desenfreado, a ineficácia do sistema escolar, o autoritarismo no relacionamento humano, o imobilismo na distribuição de funções entre homens e mulheres, a acomodação ao estabelecido, o machismo, os preconceitos de todos os tipos, a alienação televisiva - são aspectos da sociedade contemporânea registrados por Lygia em traço caricatural".  A escritora aborda temas ainda mais densos e terríveis em alguns de seus trabalhos, como o suicídio, o estupro e a pedofilia.

Segundo a professora, pode-se dividir a obra de Bojunga em duas: uma fase  luminosa (a mais curta, a meu ver) que vai de 1972 (a estreia, com o livro  Os colegas) até 1980 (quando sai  O sofá estampado ); e uma fase mais cinzenta, iniciada em 1984, com o extraordinário livro de contos  Tchau,  perdurando até hoje (embora em seu estudo, Tietzmann Silva estenda sua análise somente até 1987 e o livro  O Meu Amigo Pintor ).

Com exceção de  Corda bamba,  os livros luminosos contam com animais como personagens e dois deles, como já vimos, foram assumidamente pensados para crianças. Entre os títulos dessa fase encontram-se dois dos meus livros preferidos dessa autora (e, provavelmente, muitos de seus leitores pensam o mesmo):  A bolsa amarela,  publicado pela primeira vez em 1976 e a  A casa da madrinha  (1978). Ambos são ideais para perceber dois traços adoráveis de Lygia Bojunga: o ritmo que ela imprime ao texto e a maneira como ela opera a transição da realidade para a fantasia (e vice-versa). Observemos um trecho de  A bolsa amarela ².  Raquel, a protagonista, conversa com Afonso, um galo que foi personagem de uma história inventada pela menina:


" - Ei, Afonso! - Ele meio que acordou - Como é que você veio parar aqui dentro da bolsa amarela, hein?
- Entrei na tua casa, comecei a procurar um lugar bom pra me esconder, vi a bolsa debaixo da cama e pronto.
- Mas como é que você entrou aqui? Você voou?
- Vim de elevador.
- Sozinho?
- Não, tinha mais gente.
- E ninguém viu que você era um galo fugido?
- Eu tava de máscara.
- Ah, é! Então boa noite.
- Dorme bem".

Não é só a coloquialidade, presente também na escrita de muitos outros bons autores (penso, por exemplo, em Ruth Rocha, Sylvia Orthof e Leo Cunha), mas a capacidade de saber o tamanho certo que cada frase deve ter (como se fosse música). Quanto à transição realidade-fantasia, vamos dar uma olhada em uma passagem de  A casa da madrinha ³.  O personagem central, Alexandre, junto com sua amiga Vera e o Pavão, companheiro de viagem, inventam um cavalo - cujo nome é Ah - para conseguir chegar à casa da madrinha (que simboliza um lugar de esperança para Alexandre, menino pobre, saído da favela pra ganhar o mundo):


"E lá se foi  [o cavalo].  Galopando, galopando, galopando. Varou o pomar num instante, passando rentinho dos galhos. Vera, Alexandre e o Pavão abaixavam a cabeça, entortavam o corpo pra ver se escapavam de espinho, de galho, de tudo: gritavam de susto, de medo, o galope era doido demais. O Ah escutava os gritos, mas no barulho do galope e do vento achava que eles estavam gritando pra ele correr ainda mais, e então corria, corria, corria, corria cada vez mais. O pomar ficou pra trás, chegou o capinzal. Alexandre apontou a cerca pertinho, Vera se apavarou:

- Para! Volta! Para!

Mas o Ah nem ligou. Alexandre puxava a crina dele, pra ver se ele pensava, se ele parava, mas quem diz que ele ligava? e a cerca chegando, chegando, chegando.

- Para! Para!

Vera fechou os olhos: não queria ver mais nada. Mas quem sabe era sonho e abrindo os olhos passava. Abriu. E viu a cerca bem na frente. Alta. Cheia de espinhos. Feia. Pra todo mundo ficar com medo e não passar.

O Ah nem pestanejou: armou o pulo e passou. Foi só ele passar que o sol sumiu. E ficou tudo bem de noite".

É por passagens como essa, sem dúvida, que alguns situam Lygia Bojunga dentro da corrente do realismo mágico, como faz Nelly Novaes Coelho ⁴. Para essa estudiosa, obras nessa linha diluem a fronteira entre a realidade e o imaginário, fundindo-os  "para dar lugar a uma terceira realidade, em que as possibilidades de vivências são infinitas e imprevisíveis. Situações centradas no cotidiano comum, em que irrompe algo 'estranho', que é visto ou vivido com a maior naturalidade pelas personagens".

Antes de terminar, mais uma coisinha.

Deve-se notar que, em  Os colegas,  o "hino" cantado pelos amigos chama-se  "Vida, acho você a maior"  e em Angélica, a segunda frase escrita é  "Coisa boa que é a vida!".  Mais:  A bolsa amarela e seu lindíssimo último capítulo, quando as vontades de Raquel transformam-se em pipas; Alexandre portando a chave que pode abrir  A casa da madrinha; Maria, em  Corda Bamba, imaginando como será seu futuro, feito a partir de suas próprias escolhas; e mesmo  O sofá estampado,  apesar de incluir a morte entre seus temas; todos esses livros, cada um a seu modo, falam de esperança. O que me leva a pensar que, talvez, só a literatura infantil e juvenil ainda seja capaz de conservar a esperança e o otimismo sem que isso pareça impostura, superficialidade ou traição.

A medida que o tempo passa, porém, as narrativas da artista começam a ficar mais desconsoladoras - nem por isso perdem em beleza e qualidade.

Escreverei sobre isso na próxima semana, além de retomar as questões deixadas em aberto na nota colocada lá no alto desta postagem. Também será preciso explicar o fabricando tijolos incluído no título desse conjunto de textos sobre Lygia Bojunga.


__________ 
¹ SILVA, Vera Maria Tietzmann. Lygia Bojunga. In: _______. Literatura infantil brasileira: um guia para professores e promotores de leitura. 2 ed. Goiânia: Cânone Editorial, 2009. (p. 135-163)

² BOJUNGA, Lygia. A bolsa amarela. 33 ed. Rio de Janeiro: Casa Lygia Bojunga, 2005.

³ _______. A casa da madrinha. 19 ed. Rio de Janeiro: Casa Lygia Bojunga, 2009.

⁴ COELHO, Nelly Novaes. Literatura infantil: teoria, análise, didática. 7 ed. São Paulo: Moderna, 2000

BG de Hoje

Não lembro qual foi a última vez em que olhei pro mundo de forma positiva. Houve uma época, entretanto, em que eu achava possível "fazer a diferença", como se diz nesses filmes hollywoodianos água-com-açúcar (estava errado, claro). Em 1996 ainda era aluno na Faculdade de Letras e professor contratado da rede estadual de ensino. Acreditava que "tinha um futuro" e que a educação pública iria melhorar (pra se ver como já fui bem mais imbecil do que sou hoje). Naquele ano, duas canções tocavam muito no rádio (bem, pelo menos na 107 FM, antes de ser fagocitada pelas igrejas evangélicas) e eu adorava ambas:  Bulls On Parade,  do Rage Against the Machine e  Follow You Down,  do GIN BLOSSOMS. A primeira, como não podia deixar de ser, é um sensacional petardo politizado, como é de praxe com o RATM. A segunda é pura sensibilidade, nem por isso gosto menos: sempre que eu a ouvia, ia mais animado pra universidade ou pro trabalho. Outros tempos...

segunda-feira, 23 de março de 2015

Apontamentos sobre a difícil arte da leitura e outras divagações (II)


Terminei a postagem anterior perguntando se os leitores, hoje tão ansiosos pela facilitação das coisas e dos processos (inclusive em relação aos atos de leitura) poderiam, de alguma forma, ser afetados por uma literatura que vá além do puro entretenimento (e quem sabe, por isso, uma literatura mais "difícil"). NOTA: O verbo afetar vem sendo utilizado aqui num sentido muito específico, entre suas várias acepções. Afetar, nesse contexto, significa "impressionar afetivamente; comover; sensibilizar"*.

Antes de prosseguir, gostaria de fazer algumas observações sobre o livro A mocinha do Mercado Central**, de Stella Maris Rezende. Anteriormente, eu havia mencionado essa autora por conta de uma entrevista na qual ela defendia uma arte literária que buscasse ser mais parecida com a "condição humana: contraditória, angustiante, ambígua, inexplicável, complexa e difícil". Por falar em "difícil", é esse o adjetivo ocasionalmente empregado para se referir aos textos da escritora mineira. No caso de A mocinha do Mercado Central, há ainda a abordagem de temas pouco usuais (estupro, suicídio, solidão), sem, contudo, abrir mão de sua capacidade encantatória, fugindo de armadilhas comuns aos estereótipos presentes na literatura para jovens.

A narração frequentemente se desloca entre os sonhos, lembranças e a imaginação solta da protagonista Selma Gilda Nídia Míriam Simone Teresa Zoraida ou, simplesmente, Maria Campos. Desprevenido, se apenas adestrado por histórias em formato linear e convencional, um possível jovem leitor (estou somente conjecturando) talvez se queixe: "Que livro difícil!". É possível também que a suposta dificuldade não seja causada pelas escolhas lexicais da autora, nem pela sua sintaxe (nesses quesitos, o texto de Stella Maris é saudavelmente simples). Suponho que a pecha de "difícil" tenha mais a ver com as experiências, exigências e expectativas - menos arrojadas e sofisticadas atualmente - do público leitor em geral.

Há um curioso trecho em A mocinha do Mercado Central no qual a protagonista vai a uma feira de livros. Na sua cabeça, escuta a voz da tia, leitora inveterada, sugerindo-lhe que ao menos dê uma folheada num dos exemplares expostos. Em pensamento a jovenzinha responde:

"Ô tia, não adianta, eu não nasci pra gostar de livros. Gosto de cinema e de viajar, gosto de imaginar, dessas coisas eu gosto, mas não tenho paciência pra pegar um livro e ficar ali quieta, lendo, feito pamonha". A voz narrativa acrescenta em seguida: "Andou mais um pouco. Viu rapazes e moças da idade dela com os olhos grudados nos livros sentados em bancos aqui e ali. Não sentiu inveja. Ela possuía suas viagens, suas ' imaginagens ', seus filmes".

Vale dizer que a personagem desenvolverá perspectiva diferente com relação à leitura noutro momento da história, ao se maravilhar com a obra de Fernando Pessoa. Mas, na passagem acima citada, Stella Maris Rezende parece nos lembrar que, embora o ato de ler (sobretudo ficção e poesia) seja do maior interesse para alguns indivíduos, muitos outros mais vão se inclinar para atividades diversas, sem que se tornem com isso sujeitos menos capazes de elaborar suas "imaginagens". Os militantes da leitura (este blogueiro inclusive) precisam aceitar que c'est la vie.

Voltando, entretanto, à questão inicial dessa postagem - leitores ansiosos pela facilitação poderiam ser afetados por uma literatura mais difícil, além do mero entretenimento? - diria que tal possibilidade depende de um outro tipo de disposição intelectual e de uma nova abertura estética por parte desses leitores. Algo que considero bastante improvável, porém.

Termino essa série de postagens nas próxima semana.

* Tal como se pode encontrar na acepção n. 5 do verbete AFETAR no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, ed. 2004. p. 101.

** REZENDE, Stella Maris. A mocinha do Mercado Central. São Paulo: Globo, 2011 [Ilustrações de Laurent Cardon]

BG de Hoje

Dia desses estava num dos meus antros preferidos - o Bar do Dinei - quando, do toca-discos (sim, lá tem um toca-discos) salta RAUL SEIXAS. Zeca Baleiro, numa canção bem humorada, notou que certos fâs do artista baiano manifestam-se e comportam-se de um modo tal que "parece uma seita". E, infelizmente, por causa desses fanáticos (conheço alguns bem chatos), fiquei um certo tempo sem ouvir o bom Raulzito. E nesse dia, lá no Boteco do Dinei, enchendo a cara, foi prazeroso ouvir o Há 10 mil anos atrás, disco em que eu destacaria Meu amigo Pedro, sensacional letra de Paulo Coelho, sobre a "eterna batalha" entre a caretice e a porra-loucura.

terça-feira, 17 de março de 2015

Apontamentos sobre a difícil arte da leitura e outras divagações (I)

O Besta Quadrada anda pisando na bola. Longos períodos de inatividade se somam a promessas não cumpridas. Este blogueiro não havia dito anteriormente que o tema a ser tratado seria o suicídio (e a primeira das postagens relativas ao assunto já não deveria ter saído há quase um mês)? Serei honesto: estou intoxicado pela mais abjeta preguiça. Além do mais, os textos que estava escrevendo sobre o tema indicado ficaram longos e chatos e preferi guardá-los por um tempo, até que possa tentar melhorá-los. Ao(à) eventual leitor(a) - caso algum(a) esteja por aí - só posso apresentar essa justificativa descarada, infelizmente. Mas prossigamos, agora falando de outra coisa bem diferente.

. . . . . . . 

Dias atrás, li uma entrevista, publicada em dezembro último na revista Língua Portuguesa*, com a escritora Stella Maris Rezende (disponível aqui). A autora, cuja obra destina-se ao público juvenil, costuma ter seu texto classificado como "difícil". Ao ser questionada a esse respeito, ela responde:

" [..] Em certos momentos da vida, qualquer leitor pode querer anestesiar-se, ler para entreter-se e esquecer os problemas do mundo. Mas os problemas estão lá, no coração e na mente, o tempo todo. Por mais que o leitor fuja da realidade trágica, por meio de estereótipos e superficialidades, em sua intimidade, sente falta de uma arte mais parecida com sua condição humana: contraditória, angustiante, ambígua, inexplicável, complexa e difícil".

E acrescenta mais adiante, noutra resposta:

" [...] Há autores que escrevem com a intenção clara de atender às expectativas do leitor, atraem centenas de jovens às sessões de autógrafo e isso é admirável, além de provar que o jovem gosta de ler! Respeito esses autores, mas imagino que seus leitores um dia vão sentir falta de algo mais elaborado e rico de significados. Daí a importância dos professores que sejam grandes leitores de literatura. Podem revelar aos jovens que, paralelamente a essa literatura de entretenimento, há a arte literária, que fala de alegrias e dramas com diferentes pontos de vista, sem didatismos e concessões. Uma literatura mais parecida com a condição humana: infinitamente complexa e difícil, mas encantadora".

Acredito que atravessamos uma época de anseio (quase maníaco, nalguns casos) pela facilitação das coisas, dos processos. Desejável e necessária, sem dúvida, em determinados setores (comunicação e acesso à informação, transporte de pessoas e transporte de carga, por exemplo), essa preocupação em tornar tudo mais fácil é questionável (ou não aplicável) quando direcionada para outras áreas, como a pesquisa científica básica experimental. Ou a reflexão filosófica. Ou a arte (por exemplo, a arte literária). Esses empreendimentos, não obstante suas especificidades, desejam atingir justamente a complexidade subjacente às coisas do mundo. Tais empreendimentos não são melhores nem piores do que as outras ações humanas. Somente têm perspectivas distintas (não facilitadoras) sobre a existência.

Qual a relação da "difícil arte" de ler com o que foi dito até agora?

Trabalhando há quase 20 anos na tentativa de formar leitores e, extramuros da academia, estudando a leitura (sobretudo no contexto escolar) há pelo menos uma década, confesso que me encontro hoje um tanto perdido. Há incontáveis textos, nos mais variados suportes, circulando na sociedade e há milhões de leitores, cada qual carregando sua singularidade. Mas a maioria destes, penso eu, estão tomados pelo anseio de facilitação acima mencionado.

A Literatura que me interessa (e cuja leitura busco promover) - Literatura essa que intenciona emular a própria condição humana, "infinitamente complexa e difícil, mas encantadora", nas palavras de Stella Maris Rezende - conseguiria afetar de algum modo esses leitores ansiosos pela facilidade?

Continuo na próxima postagem.

* Fada das palavras. Revista Língua Portuguesa, São Paulo, ano 9, n. 110, dez. 2014, p. 10-13 [Entrevista concedida a Amilton Pinheiro. A revista Língua Portuguesa é publicada pela Editora Segmento]

BG de Hoje

Tô me sentindo meio puto com a vida. Um canção pra tentar acalmar: BADFINGER, Day after day.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Outras duas sugestões - Literatura juvenil

Geralmente os (bons) livros juvenis esforçam-se por oferecer a seu público tramas e enredos com boa urdidura. Isso acontece, claro, nos dois trabalhos de Eliane Ganem aqui sugeridos - até porque são histórias policiais (ou "de detetive", como prefiro chamar). Mas o principal atrativo desses textos encontra-se na sua figura central: Judith Gonçalves Porto (ou Tide, para os íntimos). Excêntrica e perspicaz, como convém aos "resolvedores" de crime dos romances policiais*, trata-se de uma personagem cujas características poderiam, a princípio, desinteressar um leitor adolescente.

Idosa septuagenária, pintora amadora e afeita à leitura (embora tivesse "frequentado até a quinta série primária, e só"), Tide envolve-se em situações arriscadas de forma não premeditada mas, por ser um tanto abelhuda (e também sensível aos problemas alheios), não larga a encrenca até que esta seja resolvida. Depois de conhecê-la, o inspetor Ernesto, em O outro lado do tabuleiro,** procurou reparar

"melhor naquela velha metida. Já não tão metida, agora achava. Uma figura estranha, não mais tia como da primeira vez, nem avó, mas uma mulher misteriosa, quem sabe. Depois achou que não, apenas uma mulher experiente, vivida, interessante. Nessa idade, pensou, por quanta coisa ela não passou. E assim desse jeito, de bem com a vida, inteira, quase sem marcas. Só as rugas. Vincadas a ferro e fogo, toda ela marcada de alegria e dor".

Nesse mesmo livro (provavelmente o título mais conhecido da escritora carioca, publicado originalmente em 1984), no qual a protagonista ajuda a solucionar o sequestro de uma garotinha chamada Alice, há um capítulo sensacional (X), narrando os pequenos furtos que Tide executa no supermercado, na véspera de Natal, escondendo os produtos surrupiados numa "bolsa feita de encomenda praquelas ocasiões".

Em O caso do elefante dourado***, é a própria velhota a ser sequestrada e passa apuros entre um falsificador de arte, a polícia corrupta e um traficante de droga (aliás, esta é uma das marcas da obra de Eliane Ganem: a abordagem de problemas sociais). Num trecho de certo modo surpreendente, a narração nos dá uma amostra do pensamentos nada convencionais de Tide:

"Então Rogério [filho dela] tem razão [...] por isso não legalizam as drogas. Um negócio legalizado ia gerar empregos, impostos que seriam vantajosos para o governo, mas não pro bolso desses corruptos desgraçados - Tide berrou sozinha enquanto acabava de ler a lista pela décima vez. Afinal, proibir drogas só criava cartéis mafiosos, como aconteceu na Lei Seca dos Estados Unidos".

E embora a verossimilhança e a fluidez narrativa fiquem um pouquinho comprometidas em O caso do elefante dourado, sua personagem central permanece sendo o melhor elemento de composição, assim como acontece em O outro lado do tabuleiro.

Para saber mais sobre Eliane Ganem, visite o site da escritora: http://www.elianeganem.com

Na próxima postagem, escreverei sobre o romance O deserto dos tártaros, do escritor italiano Dino Buzzati.

* E, nesse caso, é difícil não lembrar da Ms. Marple, presente em algumas histórias de Agatha Christie

** GANEM, Eliane. O outro lado do tabuleiro.17 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.

*** ___________. O caso do elefante dourado. Campinas, Verus, 2012.


BG de Hoje

Não sei por que cargas d'água passei quase o dia inteiro cantarolando Proteção (PLEBE RUDE). Procurando no Youtube, achei essa apresentação mais recente. Incidentalmente, os caras incluem Pátria Amada (dos Inocentes) - bastante apropriado, pois o Clemente, apresentador do programa do qual proveio o vídeo abaixo, toca junto com eles - e ainda Geração Coca-Cola.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Duas sugestões - Literatura Juvenil

Interrompo a série de postagens sobre leitura fora da escola para sugerir duas ótimas obras que podem agradar ao leitor adolescente.

Aproveitando a "onda Shakespeare" neste ano (em razão do quadringentésimo quinquagésimo aniversário de nascimento do autor inglês), uma boa pedida é William Shakespeare e seus atos dramáticos*, exemplar da coleção Mortos de fama, da editora Claro Enigma. Biografia muito bem-humorada, com o texto ágil, típico de almanaque, e as ilustrações despretensiosas que caracterizam a coleção, o livro tem ótimas sacadas, como o "diário secreto" do escritor e o "box" intitulado shakespearenas (no qual se anotam curiosidades sobre a vida e a obra do dramaturgo). Mas a seção de que mais gostei foi Nas luzes da ribalta, uma espécie de resumo dos trabalhos mais destacados de Shakespeare. Nessa seção, as "traduções" para famosas falas das peças são muito engraçadas. Veja esta, por exemplo, para um trecho célebre de Macbeth:

" ' A vida é apenas uma sombra ambulante, um pobre cômico que se empavona e se agita por uma hora no palco, sem que seja, após, ouvido; é uma história contada por idiotas, cheia de som e fúria, que nada significa '.Tradução: Não devia ter saído da cama hoje..."

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Quem aprecia obras ficcionais de terror (meu caso) não deveria deixar de ler Coraline**, de Neil Gaiman, autor da série de quadrinhos Sandman  e do livro de contos Coisas frágeis (obras das quais gosto muito), entre outras publicações. Em Coraline, uma adolescente, ao atravessar certa porta fora de uso dentro de casa, entra num mundo fantástico, obscuro e assustador, mas que, bizarramente, assemelha-se à "realidade" domiciliar a que estava acostumando-se. Naquele mundo existe uma entidade maligna que o controla e está sequiosa de ocupar o papel de mãe da garota. O diálogo abaixo revela um pouco dessa entidade:

" - Eu juro - dissse a outra mãe - Eu juro pelo túmulo da minha mãe. - Ela tem um túmulo? - perguntou Coraline. - Oh, sim - disse a outra mãe - Eu mesma a coloquei lá. E quando descobri que estava tentando arrastar-se para fora, coloquei-a de volta".

Na próxima postagem, comento outros dois livros também voltados para o público juvenil (ambos de Eliane Ganem).
___________
* DONKIN, Andrew. William Shakespeare e seus atos dramáticos. São Paulo: Claro Enigma, 2012 [Ilustrado por Clive Goddard e tradução de Eduardo Brandão]

** GAIMAN, Neil. Coraline. Rio de Janeiro: Rocco, 2003 [Ilustrado por Dave Mckean e tradução de Regina de Barros Carvalho]

BG de Hoje

Já foi BG aqui, mas gosto muito dessa canção e resolvi repetir. Para mim é a "prova" de que as raízes do NIRVANA brotaram do punk: Breed.

terça-feira, 16 de abril de 2013

...4, 5, 6, 7...


Finalmente volto a escrever sobre o gênero literário que me é mais próximo (pois, por circunstâncias profissionais, é aquele com que lido quase diariamente): a Literatura Infantojuvenil. Destaco, nesta postagem, quatro títulos voltados mais para crianças, sobretudo as de menor idade. NOTA: O título desta postagem, eventual leitor(a), está ligado a outra já publicada - cujo título era 1, 2, 3... . Cada vez que tratar dessa temática, mencionando mais de um livro, seguirei essa sequência/enumeração. 

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4) Gosto do trabalho de Luiz Raul Machado desde que li Fulustreca, há mais de 10 anos. Cartão-Postal (Editora DCL, 2010) é um de seus melhores textos. Uma observação: este livro já havia sido publicado em 1996 pela Formato. Mas as ilustrações de André Neves e o projeto gráfico da nova edição são maravilhosos. Aliás, Neves vem se tornando um dos nomes mais destacados da ilustração brasileira. Mas falemos da história. Prosa com pitadas de poesia, lança mão da intertextualidade como poucas. Uma história que trata, a seu modo, do nosso desejo e necessidade de comunicação e do quanto é bom ter alguém que queira nos ouvir. De um lado, o menino que podia "contar suas grandes tristezas e pequenas alegrias. Contava coisas de estudo, coisas de soldadinho de chumbo e índios, coisas que a fada sabia de cor e salteado, mas escutava com prazer"; e do outro, a fada, que "podia contar as tristezas e alegrias dela. Contava coisas de peixes, de pedras e plantas, tudo o que o menino conhecia de sobra, mas ouvia com prazer". Cartão-Postal é um livro muito bonito.

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5) Um sujeito sem qualidades, escrito e ilustrado por Jean-Claude R. Alphen (Editora Scipione, 2010) é um livro esquisito, achei. E isso não é um defeito. Debocha das pessoas que se julgam sensíveis e com "alma de artista" (ou seja, nós mesmos, os leitores) valendo-se de um monstro solitário, preguiçoso e chato, chamado Arnaldo. Por que acho o livro esquisito? Não sei explicar. Mas é muito bom.

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6) Um dos melhores livros de imagem que conheço é Ribit, do artista plástico mexicano Juan Gedovius (Editora Comboio de Corda, 2009). A ausência de cenário - todos os personagens aparecem num fundo branco - ajudam a destacar as reações de cada um ao trocar seus pertences com a rã vermelha do título. Os leitores têm de ficar atentos ao traço vigoroso de Gedovius, pois cada reação do personagem diz muito sobre este, mesmo na ausência da palavra escrita (é o caso da bruxa carrancuda que ganha uma pena e cede um gato desmilinguido). NOTA: Outro livro sensacional desse mesmo artista é O mais gigante, mas, nesse caso, é um texto escrito e ilustrado.
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7) A Literatura Infantil deve evitar certos temas? Não, parece ser a resposta da escritora e ilustradora belga Kitty Crowther em Meu amigo Jim (Editora Cosac Naify, 2007). Não é difícil perceber nos personagens centrais a homoafetividade. Jim, gaivota branca, conhece Jack, um melro negro (e, de certo modo, a autora também tematiza a discriminação racial); os dois têm dificuldade para serem aceitos no grupo em que decidem viver. A narrativa é muito bem conduzida e a representação alegórica, valendo-se de animais - praxe desse gênero literário - não sai tão forçada.

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A propósito, como falei sobre leitura nas postagens anteriores,  penso que vale recomendar o poema Antes de ler, de Marcos Nunes, que sugere a postura desarmada àquele que se coloca diante de um livro.

BG de Hoje

Indo para o trabalho, desanimado por saber que "enfrentaria" uma turma de estudantes terríveis, fui surpreendido positivamente pela programação insossa e repetitiva das emissoras de rádio aqui de BH, ao ouvir numa delas a bela canção Tomara, de ALCEU VALENÇA.


sexta-feira, 25 de maio de 2012

Falou e disse...



SEM BARRA*

Enquanto a formiga
carrega comida
para o formigueiro,
a cigarra canta,
canta o dia inteiro.

A formiga é só trabalho.
A cigarra é só cantiga.

Mas sem a cantiga
da cigarra
que distrai da fadiga,
seria uma barra
o trabalho da formiga!


* PAES, José Paulo. Olha o bicho. 11 ed. São Paulo: Ática, 2005


domingo, 11 de setembro de 2011

Notas sobre o Salão do Livro Infantil e Juvenil de Minas Gerais




Só pude comparecer a quatro dos onze dias previstos para o Salão do Livro Infantil e Juvenil de Minas Gerais. Como os eventos dos quais participei em 9 e 10/09 levaram a reflexões mais demoradas, falarei deles em outras oportunidades. Vamos aos dias 4 e 6/09:

04/09/2011 - Compareci ao debate Dilemas da mediação de leitura, cuja mesa era composta por João Marcos (artista gráfico), Raquel Elizabete (representante da Secretaria Estadual de Educação/MG) e Maria Antonieta Pereira (professora aposentada da FALE/UFMG e coordenadora do Teia de Textos). Eliana Yunes, anunciada pela organização do evento, não conseguiu viajar a Belo Horizonte; pena, pois estava muito interessado em ouvi-la. A sala reservada para o debate ficou praticamente vazia (num domingo à tarde, o público, suponho, tinha outros interesses). Críticas à rigidez das instituições escolares (vistas, entretanto, como agências fundamentais para a mediação da leitura); críticas também à Universidade, no que se refere à formação de professores e bibliotecários; o "divórcio" entre os estudos literários e o estudo da arte dentro da escola; a presença dos quadrinhos no espaço escolar, ainda vistos com desconfiança por parte dos educadores; o mediador como exemplo de leitor; esses foram alguns dos pontos discutidos na ocasião. Ah, e registro a desagradável participação de um sujeito falastrão e pedante, não obstante mal informado, que veio nos contar, por exemplo, como sua vovozinha o ajudou a gostar de ler, como se isso interessasse a alguém, naquele contexto específico...

06/09/2011 - Clima antipático: assim eu caracterizaria o Diálogo Literário, do qual participaram os escritores Leo Cunha e Fanny Abramovich, com mediação da também escritora Neusa Sorrenti. E o evento começou auspicioso, com menos de 10 minutos de atraso (coisa rara em programações do tipo). Problemas com o microfone, no entanto, "compensaram" o que foi ganho no tempo inicialmente. No começo do debate, a partir de uma pergunta feita pela mediadora sobre a importância do humor na Literatura Infanto-Juvenil (LIJ), comecei a desconfiar que o restante da conversa ia ser desalentador.

Fanny Abramovich não demonstrava consideração alguma pela plateia; ela falava se dirigindo apenas aos outros integrantes da mesa e à professora Maria Antonieta Antunes Cunha (uma das maiores estudiosas de LIJ do país, que foi proprietária da histórica editora-livraria Miguilim e é mãe de Leo Cunha), sentada mais à frente. Abramovich destacou o trabalho de apenas três autores: Lobato, João Carlos Marinho e, principalmente, Sylvia Orthof. De repente, deu uma ferroada na obra de Ana Maria Machado (que nem estava no contexto da discussão). A única escritora ainda ativa elogiada por ela foi Eva Furnari.

Deu-me a impressão que Abramovich não lê nada de mais recente no campo da LIJ. E embora não ache que estar up-to-date com a produção literária seja por si só uma vantagem, é estranho perceber tal atitude na escritora paulista, porque ela tem livro teórico publicado sobre o assunto (Literatura Infantil: gostosuras e bobices), foi professora universitária especializada nesse campo, chegando a escrever na imprensa diária.

A mediadora parecia um pouco perdida e Leo Cunha tentou salvar o debate com a postura mais lúcida entre os que compunham a mesa. Uma discussão que poderia render era sobre o conceito de qualidade na LIJ: quais os critérios seguros (se é que eles existem) para dizer que um livro é bom e outro é ruim? Infelizmente, esse assunto não avançou. No momento em que se abriu para as perguntas do público, fui embora.

Na próxima postagem, mudança completa de assunto: começo a escrever sobre Thomas Hobbes.

BG de Hoje

Adoro o humor do PREMEDITANDO O BREQUE (e, claro, a ótima qualidade de seus instrumentistas - principalmente Mário Manga). Em Bem Brasil, divertidíssima crítica ao país. E com participação de Caetano Veloso.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

A Literatura Infantil sob a ótica de Walter Benjamin


No ensaio Livros infantis antigos e esquecidos*, Walter Benjamin ressalta um lado nada simpático da bibliofilia, frequentemente escamoteado. Diante da pergunta "por que você coleciona livros?", o que um adepto dessa atividade diria se induzido à autorreflexão? Escreve o pensador alemão:

"Como seriam interessantes as respostas, pelo menos as sinceras! Pois apenas os não iniciados poderiam crer que não existe aqui o que esconder ou racionalizar. Arrogância, solidão, amargura - muitas vezes esse é o lado noturno de muitos colecionadores cultos e bem sucedidos. Toda paixão revela de vez em quando os seus traços demoníacos, e nada confirma tão cabalmente essa verdade como a história da bibliofilia".

Mas não é esse traço da paixão de colecionar que será ressaltado por Benjamin ao analisar o conjunto de livros para crianças pertencente a um contemporâneo seu, Karl Hobrecker (nem a bibliofilia será o assunto principal dessa postagem, mas sim as opiniões do ensaísta sobre a Literatura Infantil).

É necessária certa predisposição de espírito para apreciar adequadamente uma coleção desse gênero. Segundo Walter Benjamin, o indivíduo precisará permanecer "fiel à alegria que experimentou quando criança, ao ler esses livros". E embora haja o interesse de preservar belos exemplares, os chatos e meticulosos sentir-se-ão deslocados: "é uma boa coisa que a pátina depositada nas folhas por mãos infantis pouco asseadas mantenham à distância o bibliófilo esnobe".

Benjamin nos informa que, de acordo com Hobrecker,

"o livro infantil alemão nasceu com o Iluminismo. Era na pedagogia que os filantropos punham à prova o seu grande programa de remodelação da humanidade. Se o homem é por natureza piedoso, bom e sociável, deve ser possível fazer da criança, ente natural por excelência, um ser supremamente piedoso, bom e sociável. E como em todas as pedagogias teoricamente fundamentadas a técnica da influência pelos fatos só é descoberta mais tarde e a educação começa com as admoestações problemáticas, assim também o livro infantil em suas primeiras décadas é edificante e moralista, e constitui uma simples variante deísta do catecismo e da exegese".

Ou seja, desvenda-se, na Alemanha iluminista, o mesmo que se percebe em outros lugares do mundo, mesmo em outras épocas: o "pecado original" da Literatura Infantil, cujo nascimento deixou-a no meio do caminho entre a pedagogia e a expressão artística (e, muitas vezes, a segunda é suplantada pela primeira, com resultados ruins).

O dono da coleção e também o ensaísta criticam esses textos excessivamente didáticos. "Mas" - diz  Benjamin - "essas falhas, já superadas, são insignificantes se comparadas com os equívocos que hoje estão na moda graças a uma suposta 'empatia' no espírito da criança: a jovialidade desconsolada das histórias em versos e as caretas hilares desenhadas por pretensos 'amigos das crianças' para ilustrar essas histórias"

E o pensador alemão acaba se metendo a psicólogo:

"A criança exige dos adultos explicações claras e inteligíveis, mas não explicações infantis, e muito menos as que os adultos concebem como tais. A criança aceita perfeitamente coisas sérias, mesmo as mais abstratas e  pesadas, desde que sejam honestas e espontâneas [...]"

Cabe a pergunta: para se trabalhar com a Literatura Infantil é necessário algum conhecimento da psicologia infantil? Já respondendo, acho que sim, como é necessário em qualquer outro campo de atuação ligado à infância. E, preciso confessar, ressinto-me deste conhecimento.

Benjamin critica o preconceito decorrente da crença de que as crianças são seres cuja existência é "incomensurável à nossa"; faz concisas (e preciosas) análises sobre o conto de fadas e as fábulas; e fala com brilhantismo sobre o papel das ilustrações nesse tipo de produto editorial. Deixarei, porém, a discussão destes tópicos para outra oportunidade.

Quero destacar um último excerto, encontrado no final do ensaio, e que me parece atualíssimo (observo que o texto de Benjamin foi publicado em 1924). Ao falar de "abusos menos visíveis" presentes até na Literatura Infantil menos impregnada do "pedagogismo" extremo, o ensaísta nota certa perda de conteúdo ético:

"Liberta dessa dimensão ética [verificável mesmo nas obras mais "pedagogizadas" do século XVIII], tal literatura passou a depender dos estereótipos da imprensa diária. A cumplicidade secreta entre o artesão anônimo e a criança desaparece; escritores e ilustradores se dirigem cada vez mais à criança através da mediação ilegítima das suas próprias preocupações e das modas predominantes. A atitude sentimental, apropriada não a criança, mas à concepção pervertida que dela se tem, adquire nas imagens direito de cidadania. O formato perde sua nobre discrição, tornando-se incômodo".

E isso não vale para diversos outros produtos - música, cinema, objetos, etc. - voltados para a infância? Além disso, não revela a assimetria típica do gênero Literatura Infantil, como já discuti em outra postagem?

Na próxima semana, falo das minhas impressões sobre o Salão do Livro Infantil e Juvenil de Minas Gerais.
__________
* BENJAMIN, Walter. Livros infantis antigos e esquecidos. In: _______________. Magia e técnica, arte e política.: ensaios sobre literatura e história da cultura. 7 ed. São Paulo: Brasiliense, 1994, p. 235-243 [tradução de Sergio Paulo Rouanet]

BG de Hoje

Ainda bem que encontrei este vídeo: foi a primeira apresentação do grupo vocal BR6 a que pude assistir, interpretando Chovendo na roseira. Ah, e tinha que ser no imprescindível programa Sr. Brasil (TV Cultura), apresentado pelo "patrimônio" Rolando Boldrin.


sexta-feira, 2 de setembro de 2011

1, 2, 3...


Havia prometido a mim mesmo falar mais de poesia e de Literatura Infantil e Juvenil durante este ano. Não tenho cumprido a promessa a contento, principalmente em se tratando da produção editorial voltada para crianças e adolescentes. Portanto, escolhi três títulos dos quais gosto muito - e mais à frente, em outras oportunidades, adotarei o mesmo procedimento - para compor pequenos "flashes" sobre eles.

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1)  Apresentei o livro E um rinoceronte dobrado, de Hermes Bernardi Jr (Editora Projeto, 2008) para três turmas de estudantes (8 anos de idade, em média) lá da escola em que trabalho, no 1º semestre. Após as leituras, felizmente, quase todas as crianças destacaram justamente o que eu intencionava: o objeto que abre o texto ("O que eu colocaria numa caixa de sapatos?") é uma metáfora para uma espécie de "catalisador" de recordações (os estudantes, obviamente, não disseram isso com esses termos...). Foi divertido vê-los enumerarem, na atividade complementar, as coisas que eles próprios colocariam numa caixa assim. Muitos incorporaram o humor meio nonsense do poema de Bernardi Jr. E não poderia deixar de mencionar o ótimo trabalho gráfico do designer Guto Lins, que sempre me agrada.

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2)  No prefácio de Lendas Negras (Editora FTD, 2001 - ilustrações de Salmo Dansa), Júlio Emílio Braz chama a atenção para um fato:

"Sem procurar muito, até hoje é bem mais fácil encontrar livros com lendas europeias, vikings, celtas, russas, japonesas. Nada contra. O homem é a somatória de suas experiências e de tudo o que lê. Quanto maior e mais diversificada sua leitura, melhor. De qualquer forma, a máxima não se aplica às lendas, histórias e culturas africanas".

Por isso, o escritor decidiu, através de 8 narrativas, dar sua contribuição na tentativa de equilibrar um pouco essa balança. Já adaptei três dessas lendas, divulgando-as por meio da contação de histórias: Tsui'goab ou A batalha contra a Morte (de origem kói, povo que habita parte do deserto do Kalahari); minha preferida, Kigbo e os espíritos do mato (ioruba "de nascença"); e A viúva velha (da tradição quimbunda). Apresentei esta última a estudantes matriculados na EJA (Educação de Jovens e Adultos) e ela "funcionou" muito bem.

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3) Na opinião (abalizada) de Ana Maria Machado, "Graciela Montes é a maior autora argentina de literatura infanto-juvenil". Esse juízo tão favorável deve ter sido decisivo para que a escritora brasileira realizasse a tradução de Outroso: um outro mundo (Editora Salamandra, 2006 - 3ª edição).

Logo na segunda página, o narrador observa que : "ler um livro não tem que ser tão fácil assim..." Prenúncio de que Outroso escapará dos lugares-comuns típicos desse gênero de Literatura? Não e sim. Não, porque se vale das quase onipresentes turmas (até compreensível, trata-se de um livro direcionado a adolescentes). E sim, pelo modo como discute, por exemplo, a "oposição" entre os muito jovens e os "Velhos" (todos os adultos), assim como as maneiras de escapar dos grupos que implantam e disseminam a violência organizada dentro da sociedade (representados pela temível "Patota"). E há também uma indisfarçável referência ao período da ditadura militar argentina.

BG de Hoje

Um furacão renovador. Assim eu definiria o aparecimento de CHICO SCIENCE E NAÇÃO ZUMBI no cenário musical do Brasil. No vídeo, a versão de Todos estão surdos (de Roberto Carlos). Impressiona-me a qualidade do guitarrista Lúcio Maia. OBS: É a apresentação do grupo no Hollywwod Rock de 1996.