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quarta-feira, 23 de outubro de 2024

Adeus a Antonio Cicero (1945 - 2024)

 

Devo dizer que fiquei um pouco pesaroso, hoje, ao saber da morte do poeta, filósofo e letrista musical Antonio Cicero.

Tinha (e tenho) grande admiração por sua escrita e também pela maneira de expressar seu pensamento a respeito de tópicos como racionalidade e modernidade, inclusive em textos voltados para um público mais amplo (Cicero foi colunista na Folha de S. Paulo  entre 2007 e 2010). Isso não quer dizer que houvesse sempre concordância de minha parte.

Li alguns de seus livros, falei de alguns de seus poemas aqui no Besta Quadrada e sempre recomendei seu blog (Acontecimentos) desde que me instalei neste espaçozinho internético. Por falar em seu blog, eu havia mesmo estranhado a falta de atualização das publicações (a última aconteceu em 23/10/2023), uma vez que o autor não costumava ficar muito tempo sem postar algo.

Diagnosticado com Alzheimer, Cicero resolveu (antes que os sintomas do mal piorassem muito, ao que parece) viajar para Zurique e, lá na Suíça, submeter-se a um procedimento de suicídio assistido - prática legalmente permitida naquele país e que, a meu ver, denota alto teor civilizatório e de decência.

Sua carta de despedida foi simples ¹; ainda assim, significativa e tocante.

 

"Queridos amigos,


Encontro-me na Suíça, prestes a praticar eutanásia. O que ocorre é que minha vida se tornou insuportável. Estou sofrendo de Alzheimer.

Assim, não me lembro sequer de algumas coisas que ocorreram não apenas no passado remoto, mas mesmo de coisas que ocorreram ontem.

Exceto os amigos mais íntimos, como vocês, não mais reconheço muitas pessoas que encontro na rua e com as quais já convivi.

Não consigo mais escrever bons poemas nem bons ensaios de filosofia.

Não consigo me concentrar nem mesmo para ler, que era a coisa de que eu mais gostava no mundo.

Apesar de tudo isso, ainda estou lúcido bastante para reconhecer minha terrível situação.

A convivência com vocês, meus amigos, era uma das coisas – senão a coisa – mais importante da minha vida. Hoje, do jeito em que me encontro, fico até com vergonha de reencontrá-los.

Pois bem, como sou ateu desde a adolescência, tenho consciência de que quem decide se minha vida vale a pena ou não sou eu mesmo.

Espero ter vivido com dignidade e espero morrer com dignidade.

Eu os amo muito e lhes envio muitos beijos e abraços!"

 

Encerro com um um trecho de Inverno, uma das composições de Antonio Cicero que mais aprecio. Serviu de letra para uma canção de Adriana Calcanhoto, presente no disco A fábrica do poema (1994). Alguns anos depois, foi incluída no livro Guardar.


"Há algo que jamais se esclareceu:
onde foi exatamente que larguei
naquele dia mesmo o leão que sempre cavalguei?

Lá mesmo esqueci
que o destino
sempre me quis só
no deserto sem saudades, sem remorsos, só
                                                         sem amarras, barco embriagado ao mar"


________________________

¹ A carta foi reproduzida em matéria do G1. Disponível em <https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2024/10/23/antonio-cicero-escritor-membro-da-abl-morre.ghtml>. Acesso em 23/10/2024

sábado, 16 de maio de 2020

Onde cabe a poesia?


O livro A poesia e a crítica, reunião de alguns ensaios produzidos nas últimas duas décadas pelo poeta e filósofo Antonio Cicero, foi lançado em 2017, pela Companhia das Letras. Só pude comprá-lo no ano passado e o li pela primeira vez há poucos meses.

Encontros e desencontros com a contracultura - o primeiro dos textos do livro - não é propriamente um ensaio, mas um depoimento. Para além de refletir sobre o fenômeno da contracultura, o autor narra parte de sua trajetória e de suas escolhas na condição de estudante universitário de Filosofia, fornecendo ao leitor importantes informações sobre sua formação intelectual. Tendo partido para estudar em Londres após o golpe militar de 1964, Cicero fala também da influência exercida por Caetano Veloso (com quem pôde conviver durante algum tempo na capital inglesa, onde o artista baiano se exilara).

Em Poesia e preguiça, o ensaísta vale-se de T. S. Eliot, Baudelaire e Paul Valéry (entre outros) para defender a importância da preguiça na feitura dos poemas, isto é, "a ênfase na preguiça significa simplesmente que a gestação do poema tem um sentido completamente diferente do que tem o trabalho utilitário cotidiano". Esse texto também discute a relação da produção/recepção de poesia com o tempo, tópico retomado ao longo da publicação em pelo menos dois outros escritos. Voltarei ao tema mais adiante.

Defendendo o conceito de cânone poético/literário no ensaio que dá nome ao livro de que estamos falando, Antonio Cicero acredita que é preciso haver uma seleção de textos/autores(as), construída ao longo do tempo pelos críticos. Estes, por sua vez, seriam "todos aqueles que explicitam e defendem publicamente os seus juízos estéticos no que diz respeito à poesia", um conjunto de indivíduos, portanto, não restrito aos críticos profissionais. Essa seleção de textos/autores(as) tem como função principal balizar e orientar tanto a formação de poetas quanto qualificar os leitores de poesia. Nesse ensaio, o autor desanca o teórico da literatura britânico Terry Eagleton (estudioso sobre o qual já falei positivamente, aliás, aqui no blog).

Provavelmente mais conhecido do grande público por seu trabalho como compositor (letrista), Cicero aborda uma recorrente questão em Sobre as letras de canções: seriam estas poemas ou não? Neste ensaio, pode-se encontrar uma discussão mais ampliada do assunto, frequentemente tratado pelo autor, como em uma de suas antigas colunas publicadas quinzenalmente na Folha de S. Paulo. Essa coluna, a propósito, pode ser encontrada no blog do artista (Acontecimentos, um dos recomendados da casa). Já falamos do tema, há bastante tempo, aqui no blog.

Em O verso, um dos textos mais curtos, encontramos mais uma vez um importante esclarecimento feito anteriormente por Antonio Cicero: prosa não se opõe à poesia, mas sim ao verso, um dos maiores recursos poéticos (senão o maior). 

Os seis ensaios que se seguem a O verso analisam o trabalho de diversos poetas: Armando Freitas Filho, Ferreira Gullar, Fernando Pessoa e Friedrich Hölderlin (o escrito dedicado ao último é o mais extenso ensaio de todo o livro).

A poesia e a crítica encerra-se, curiosamente, com a breve apreciação de um texto em prosa: no caso, A montanha mágica, de Thomas Mann (disponível também aqui; a propósito, já falamos dessa mesma obra aqui, aqui e aqui). Como havia explicado na apresentação de seu livro, o poeta e filósofo concede ao romance do escritor alemão um papel importante em sua formação geral.

Gostaria agora de voltar a dois ensaios sobre os quais ainda não falei.

Havia escrito, parágrafos acima, que a relação da produção/recepção da poesia com o tempo é um tópico presente em mais de um texto dentro do livro.

Verificando que, no mundo contemporâneo, é difícil para a imensa maioria apreciar a leitura de poesia - pois nos encontramos "sob o domínio quase absoluto da apreensão instrumental do ser", quando não se consegue perceber o valor das coisas por elas mesmas (tudo é sempre um meio para se alcançar outra coisa) -, Antonio Cicero escreve no ensaio A poesia entre o silêncio e a prosa do mundo:

"Nessas circunstâncias, não admira que o dinheiro - o meio por excelência, pois é o meio dos meios - seja o que há de mais importante. O que seria apenas um meio torna-se o verdadeiro fim. Ora, num mundo assim, em que, para o senso comum  'tempo é dinheiro', parece irracional que se faça um investimento de tempo sem nenhuma garantia de que se venha a obter, num prazo determinado, qualquer compensação ou retorno. Consequentemente, poucos se permitem mergulhar no poema, isto é, pensar nele, com ele, através dele, pondo à disposição dele, pelo tempo que se faça necessário, o livre jogo de todas as faculdades que esse pensamento integral requeira".

Para o ensaísta, a poesia escrita para ser lida (diferentemente da poesia escrita para ser ouvida, isto é, a que está presente nas letras de muitas canções) dificilmente pode ser fruída sem que se dedique a ela concentração e tempo: "Para fruir um poema, é preciso nele imergir. E como tal imersão não combina com a temporalidade acelerada do presente, muitos afirmam que a poesia simplesmente não tem mais lugar nesse mundo".

E acrescenta:

"Pois bem, é exatamente por não se ajustar à temporalidade acelerada do presente que a poesia é necessária hoje. Afinal, a temporalidade acelerada corresponde à apreensão instrumental do ser. Assim, é bom que a poesia, longe de se ajustar a ela, relativize-a, uma vez que nos dá acesso a esse outro modo de apreensão do ser e do tempo - o estético - que enriquece imensamente à vida humana. [...]"

Por sua vez, na análise de um dos poemas mais marcantes de nossa Literatura - Sobre A flor e a náusea, de Drummond -, ele afirma:

"Ora, uma das ambições da poesia é exatamente desautomatizar a linguagem, a percepção do mundo e o pensamento, de modo a nos permitir apreender linguagem, mundo e pensamento como se fosse pela primeira vez. Não se trata de um consolo, mas do transporte para outra dimensão do tempo, para outra dimensão da existência, inteiramente distinta daquela que é regida pelo princípio do desempenho, da utilidade, da instrumentalidade, do valor de troca [...]".

Para compreendermos ainda melhor o que nos diz Antonio Cicero, convido o(a) eventual leitor(a) a lermos juntos um dos meus poemas prediletos: Plena pausa, de Paulo Leminski  ¹:

PLENA PAUSA

     Lugar onde se faz
o que já foi feito,
    branco da página,
soma de todos os textos,
    foi-se o tempo
quando, escrevendo,
    era preciso
uma folha isenta.

    Nenhuma página
jamais foi limpa.
    Mesmo a mais Saara,
ártica, significa.
    Nunca houve isso,
uma página em branco.
    No fundo, todas gritam,
pálidas de tanto.


Confesso que não atentei para seu sentido mais profundo, nas primeiras vezes em que li este poema, muito tempo atrás. Apenas achei bonitas as combinações de palavras. Também fiquei fascinado pelo último verso - pálidas de tanto (voltaremos a este, daqui a pouco).

Mas qual seria esse sentido profundo? Acredito que Leminski está tratando, poeticamente, de algo que afeta (e às vezes aflige) os escritores: o peso representado por todas as obras já escritas, sobretudo aquelas que compõem o que consideramos os textos mais significativos já produzidos (o cânone, para recuperar um conceito discutido por Antonio Cicero num de seus ensaios).

"Lugar onde se faz/o que já foi feito". Muitos poetas talvez fiquem intimidados ou mesmo paralisados diante de uma página em branco ao se lembrarem de que aquilo que tencionam escrever provavelmente nada terá de original, pois já foi experimentado e realizado antes por outro poeta, inclusive, com maior beleza (isso, naturalmente, vale para romancistas, contistas, etc.). Por isso a página vazia, não-escrita, representa a tradição literária que antecede o poeta: "branco da página/soma de todos os textos". NOTA: perceba o jogo feito por Leminski. A página é branca: ainda assim, soma todos os textos da tradição literária, do mesmo modo que o branco soma todas as cores (pelo menos quando estamos falando do espectro luminoso).

Porém, não é preciso ficar intimidado nem paralisado. Os artistas, se talentosos, saberão usar essa tradição a seu favor: dialogando com ela ou até subvertendo-a: "foi-se o tempo/quando escrevendo,/era preciso/ uma folha isenta".

Os textos predecessores existem, são um fato. Por isso "Nenhuma página/jamais foi limpa". E "No fundo todas gritam". Gritam o quê? Justamente toda a arte que foi registrada antes delas, noutras páginas. E estão "pálidas de tanto". É admirável como a simples troca de espanto (evitando um pavoroso lugar-comum) por tanto cria um efeito de sentido tão poderoso. O tanto refere-se, acredito eu, à tradição literária que virtualmente paira sobre a página em branco.

E assim o título do poema - Plena pausa - fica mais claro. A página em branco, que dentro de um livro pode representar uma pausa, está também plena, isto é, cheia de toda a arte da escrita que a circunda de forma latente.

Como se vê, os bons poemas, para serem apreciados e compreendidos em plenitude, demandam de nós dedicação e tempo (mesmo um poema de apenas 16 versos, como esse de Leminski, que acabamos de analisar). Mas quem está disposto a isso?

Vivemos num mundo que a todo momento martela em nossas cabeças: "NÃO PERCA TEMPO!", "SEJA RÁPIDO!", "PRODUZA!" - como se isso estivesse fazendo nossa vida melhor, como se estivéssemos tornando este mundo um lugar melhor...

É por isso que, pelo menos no meu caso, vou sempre deixar um espaço onde a poesia caiba em minha vida, pois desejo ter "acesso a esse outro modo de apreensão do ser e do tempo - o estético - que enriquece imensamente à vida humana", como bem disse Antonio Cicero.
__________
¹ LEMINSKI, Paulo. Melhores poemas de Paulo Leminski. 6 ed. São Paulo: Global, 2002. [Seleção de Fred Góes e Álvaro Martins] (Coleção Melhores Poemas)

. . . . . . .

ALDIR BLANC (1946 - 2020)

Ao pensar nas letras de canções como poemas (e, sem dúvida, muitas delas certamente o são), é preciso lembrar de Aldir Blanc, falecido recentemente. Num país que produziu e produz tantos ótimos letristas-poetas (Chico Buarque, Antonio Cicero, Cazuza, Gilberto Gil, Arnaldo Antunes, Fernando Brant, Caetano Veloso, Emicida, Vinícius de Moraes, Chico César...), Blanc foi um dos maiores. O(a) eventual leitor(a) encontrará menções ao principal parceiro de João Bosco em algumas postagens deste blog. Uma de suas letras-poemas de que mais gosto é também uma das mais simples que ele escreveu:

LATIN LOVER

Nos dissemos
que o começo é sempre,
sempre inesquecível.
E, no entanto, meu amor, que coisa incrível,
esqueci nosso começo inesquecível.
Mas me lembro
de uma noite.
Sua mãe tinha saído.
Me falaste de um sinal adquirido
numa queda de patins em Paquetá:
Mostra... doeu?... ainda dói?...
A voz mais rouca,
e os beijos,
cometas percorrendo o céu da boca...
As lembranças
acompanham até o fim um
latin lover,
que hoje morre,
sem revólver,
sem ciúmes,
sem remédio.

De tédio.

. . . . . . .

BG de Hoje

Não é difícil encontrar por aí muita gente que tem profunda antipatia pelo comediante e apresentador norte-americano JIMMY FALLON. "Suas risadas geralmente são falsas"; "Ele é meio alienado politicamente"; "Às vezes, quer chamar mais atenção para si do que para o(a) convidado(a)" - essas e outras críticas costumam ser dirigidas ao ex-integrante do longevo humorístico Saturday Night Live. Admito que não são observações descabidas. Entretanto, não tenho vergonha nenhuma de dizer que gosto muito do trabalho dele - sobretudo a infantilidade da maioria dos quadros do programa, outra crítica recorrente - e não me canso de assistir trechos de seu talk show disponibilizados no Youtube. Como o vídeo abaixo, por exemplo. Com a participação do lendário grupo de hip hop THE ROOTS (atualmente, a banda que divide o palco com Fallon na sua atração de TV), o comediante (que também é músico) promoveu uma versão formidável do hit Don't Stand So Close To Me (THE POLICE), junto com STING. O uso de alguns "instrumentos musicais" inusitados não é novidade para esses caras dentro do programa e, dado o isolamento social decorrente da pandemia de COVID-19, ficou mais do que adequado.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Poeta: quem é?

Esta eu "pesquei" lá no blog do Antonio Cicero (Acontecimentos):

  W.H. Auden: sobre o poeta e as palavras*


"Um poeta é, antes de qualquer outra coisa, uma pessoa que ama apaixonadamente a linguagem. Se tal amor é sinal de seu dom poético ou é o próprio dom -- pois a paixão é algo dado, e não escolhido -- não sei, mas é certamente o sinal pelo qual se reconhece se um jovem é potencialmente poeta ou não.

'Por que você quer escrever poesia?' Se o jovem responde: ' Tenho coisas importantes a dizer', então não é um poeta. Se responde: 'Gosto de curtir as palavras, ouvindo o que elas têm a dizer', então talvez se torne um poeta".


* AUDEN, W.H. Squares and oblongs . In: ARNHEIM, Rudolf; AUDEN, W.H.; SHAPIRO, Karl; STAUFFER, Donald A. Poets at work. Introdução de Charles A. Abbott. New York: Hartcourt, Brace and Company, 1948, p.170.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Poesia: questão de tudo ou nada? (10)


Pouco tempo depois do lançamento do livro Guardar, em entrevista concedida ao jornal Estado de São Paulo (disponível no site do poeta), Antonio Cicero - também filósofo -  afirmou que 

"A poesia não pretende dizer nenhuma verdade, são palavras gratuitas, são proezas, não têm a obrigação de existir. Já a filosofia, pelo menos a filosofia que me interessa, tem a pretensão de dizer verdades e até verdades absolutas. E eu acho que precisam ser ditas".

É interessante (e tentador) atribuir a qualquer poeta a imagem de insubordinado, intuitivo e aos filósofos, qualificativos do tipo rigoroso, metódico, mesmo sabendo que os papéis são às vezes trocados. O lado filósofo do autor torna, para meu gosto, ainda mais atraente o seu lado poeta. NOTA: Todavia, como observei na postagem anterior, Cicero faz questão de separar claramente os dois campos de atuação.

Na mesma entrevista, quando perguntado se o exercício da filosofia inibiu o da poesia,  Cicero declara:


"[...] A poesia exige tempo livre, você tem de estar inteiramente dedicado a ela ou não consegue escrever direito. Ela tem um lado que não parece sério. Você está o tempo todo brincando com as palavras e isso pode resultar em algo, mas pode ser apenas delírio. Eu tinha muitas verdades filosóficas engasgadas. Brincar com as palavras me dava sempre muita culpa".

Mas fazer (e ler) poemas é um pouquinho mais do que apenas brincar com as palavras...

Num artigo intitulado O que é poesia?*, Antonio Cicero apresenta o seguinte argumento:

"[...] suponho que a poesia é aquilo que faz de um poema um poema, escrevi uma vez que ela consiste no grau de escritura de um texto. A ideia é que um poema (bem) realizado é um texto dotado de um altíssimo grau de escritura".

O termo escritura, aqui, refere-se, principalmente, à permanenência e fixidez de um texto. Para o poeta,

"[...] dentre os textos literários, que valem por si e são os mais escritos dos escritos, os mais escritos de todos são os poemas. Por quê? Porque consistem em formas puras. No limite, não há, neles, diferença entre o que dizem e o modo como o dizem. Como não se pode, num poema separar o significado do significante, a rigor não se pode dizer em outras palavras o seu significado".

A expressão forma pura pode causar algum desconforto pois talvez seja interpretada como forma "desideologizada". Acredito não ser bem isso o teor do que diz Cicero. É apropriado, então, ler o artigo A poesia escrita**.

Diante das queixas esporádicas sobre uma "pretensa anemia poética" existente na atualidade, costumam surgir duas propostas de "terapia": 1) a transformação do poeta em "performer dos seus próprios poemas", recuperando a oralidade original do fazer poético; 2) a imersão do poeta "no seu contexto cultural", refletindo, nas suas obras, "uma tomada de posição em relação a ele" (para Antonio Cicero, essa segunda "terapia" nasce do "velho  e compreensível ressentimento contra as torres de marfim").

O autor vê limitações nas duas propostas porque derivam "da dificuldade [...] de lidar com a exigência extrema e singular que a poesia escrita impõe não somente ao poeta, mas ao leitor".

Num poema, interessa a sua forma:

"são as palavras e sintagmas de que o poema se compõe; seus sentidos, sua sonoridade, seu ritmo, suas relações paronomásicas, suas aliterações, suas rimas, seus assíndetos, as relações icônicas que estabelecem... E o poema é lido, relido e comparado e contrastado, em princípio, com todos os poemas que o leitor conhece".

Interessa também o que o poema nos provoca: "temos que lhe dedicar o nosso tempo, convocando e deixando que interajam uns com os outros todos os recursos de que dispomos: intelecto, experiência, emoção, sensibilidade, sensualidade, intuição, senso de humor, etc."

Cicero, ao final deste artigo, reconhece que a leitura de poemas não é popular como outras formas de manifestação artística. Mas, pergunta ele, por que deveria ser?

E acrescenta:

"Há, de fato, tantos grandes filmes, discos e concertos de rock... Os poetas escrevem, em primeiro lugar, para aqueles que, como eles, acham que há algo incomparável à leitura de um grande poema".

. . . . . .

Faria uma análise de um texto muito bonito de Antonio Cicero. Porém, como a postagem ficou bem extensa, apenas transcrevo-o abaixo e cada leitor(a) apreenda-o como desejar:

CANÇÃO DA ALMA CAIADA

Aprendi desde criança
Que é melhor me calar
E dançar conforme a dança
Do que jamais ousar

Mas às vezes pressinto
Que não me enquadro na lei:
Minto sobre o que sinto
E esqueço tudo o que sei

Só comigo ouso lutar,
Sem me poder vencer:
Tento apagar no mar
O fogo em que quero arder

De dia caio minh'alma
Só à noite caio em mim
por isso me falta a calma
e vivo inquieto assim
 
_________________
* CICERO, Antonio. O que é poesia? Folha de S. Paulo, São Paulo, 03 abr. 2010. Caderno Ilustrada, p. 10

** CICERO, Antonio. A poesia escrita. Folha de S. Paulo, São Paulo, 01 dez. 2007. Caderno Ilustrada, p. 15

BG de Hoje

Hoje não incluo nenhuma canção

sábado, 14 de maio de 2011

Poesia: questão de tudo ou nada? (9)


“Se, como diz Goethe, os gregos sonharam mais que esplendidamente o sonho da vida, é porque sonharam sonhos de poetas e não de profetas, pastores e sacerdotes”
Antonio Cicero

  
 
No ensaio Poesia: Epos e Muthos, publicado em 1998* (e do qual retirou-se a epígrafe desta postagem), Antonio Cicero pretendeu verificar se há algum vínculo entre a Filosofia e a Poesia, campos nos quais atua.

Estabelece desde logo a diferença entre elas e indica a maneira como conduzirá sua investigação (o detalhamento de sua metodologia encontrar-se-á mais à frente no ensaio mencionado):

“[...] a poesia se interessa pelo relativo, pelo particular, pelo positivo e a filosofia pelo absoluto, pelo universal, pelo negativo; a única coisa que têm em comum é a radicalidade de suas diligências. Sentado ante o computador, porém, fui seduzido por ideias de outra ordem. Dado que filosofia e poesia são palavras gregas, não resisti à tentação de dar um pulo – em pensamento – à sua pátria”.

E este pulo – para o leitor do ensaio – não me pareceu dos mais fáceis...

Cicero faz uma análise das ocorrências – não no sentido estatístico -  das palavras filosofia,  poesia e termos cognatos dentro da épica de Homero. NOTA: Algum conhecimento da língua grega seria desejável para melhor acompanhar a linha expositiva do autor  (escusa dizer que não possuo nenhum) .

Esse percurso analítico está ligado ao conceito da reapresentação do discurso, para diferenciar o “dizer” filosófico  do “dizer” poético.

Seria difícil, dadas a limitação do tamanho das postagens estabelecidas para este blog e as limitações intelectuais do próprio blogueiro, resenhar adequadamente os argumentos arrolados por Antonio Cicero; talvez o faça, em outra oportunidade. Não obstante, fica aqui a sugestão de leitura.

Para nossos objetivos mais imediatos e menos ambiciosos, será mais proveitoso, penso eu, a discussão do artigo Poesia e filosofia**, publicado na Folha de S. Paulo, jornal em que o poeta carioca foi colunista quinzenal. NOTA: Alguns textos dessa coluna, tratando de variados temas, podem ser recuperados no blog Acontecimentos, listado entre as recomendações aqui da casa.

Em Poesia e filosofia, mais uma vez, Cicero procura estabelecer a diferença essencial entre os dois discursos:

“Se o poema não quer ser um pensamento sobre objeto algum, mas quer ser um objeto do pensamento, a filosofia quer ser o pensamento da totalidade dos objetos, sem ser objeto de pensamento algum: a não ser do próprio pensamento filosófico, isto é, da filosofia mesma”.

Os poemas podem falar,

“por exemplo, sobre uma pedra que havia no meio do caminho. Mas eles não são, no fundo, feitos para falar sobre pedras ou sobre coisa alguma. Ao contrário: como os quadros, eles são feitos para que nós pensemos sobre eles, e para que pensemos a partir deles com todas as nossas faculdades, e até com nossos corpos”.

O discurso filosófico, por sua vez, tem seu valor reconhecido a partir do que consegue falar “sobre as coisas [os objetos], mesmo quando a coisa de que fala seja a própria filosofia”.

No poema, tal como diante de um quadro, serão solicitados “de nós a imaginação, a memória, o intelecto, a emoção, a cultura, a sensibilidade, talvez até o humor. Todas essas coisas brincarão umas com as outras no nosso espírito”, sendo essa a “função” de toda obra de arte. E isso só acontece plenamente diante do objeto artístico que é o poema se ele permanece inalterado, tal como foi composto. Num texto filosófico, por outro lado, pode-se reproduzir o seu conteúdo em outro texto, usando outras palavras e ele não terá deixado de cumprir sua “função”.

E o que dizer da análise crítica que nasce tanto da recepção/leitura da poesia quanto da recepção/leitura da filosofia?

O articulista escreve:

“Os discursos sobre um texto poético se multiplicam justamente porque o que ele diz não pode ser separado das palavras com que diz, de modo que todas as demais palavras com as quais tentamos exprimi-lo ou explicá-lo resultam sempre insuficientes. Já os discursos – eles mesmos filosóficos – sobre um texto filosófico se multiplicam porque o que este tenciona dizer não é inteiramente expresso pelas palavras com que o diz, de modo que sempre pode e deve ser expresso e explicado melhor por outras palavras”.

Na próxima postagem, as tentativas de conceituação da poesia por Antonio Cicero e uma breve análise de um de seus poemas de que mais gosto, Canção da alma caiada.

P.S. Além dos artigos acima citados, sugiro também ao(à) leitor(a) estes outros textos de Antonio Cicero,  alguns disponíveis no blog Acontecimentos. Não estão relacionados especificamente a esta postagem, mas refletem pontos de vista e argumentos que retomarei, mais adiante, na série.

1)      A poesia escrita:
2)      O que é poesia?:
4)      As vanguardas e a tradição:
5)      O sentido da vanguarda:
6)      Ainda a vanguarda:
7)      A busca no novo:
8)      O desejo do contemporâneo:
10)   A autonomia da arte:
11)   A poesia é um segredo dos deuses?

* CICERO, Antonio. Poesia: Epos e Muthos. In: PUCHEU, Alberto (Org.). Poesia e filosofia: por poetas-filósofos em atuação no Brasil. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1998, p. 51-93


 ** CICERO, Antonio. Poesia e filosofia. Folha de S. Paulo, São Paulo, 02 jun. 2007. Caderno Ilustrada, p. 11


BG de Hoje


De todas as bandas picaretas que já existiram na história do rock, o KISS, disparado, é o grupo mais bacana. Pirotecnia excessiva e "bobajadas" de figurino e cenário (nos shows e nos video-clipes), músicos de qualidade duvidosa (para dizer o mínimo) e um monte de bugigangas com a marca dos caras (de cuecas a automóveis) não os impediram de gravar uma ou outra boa canção, como Calling Dr. Love, que me lembra o início de minha adolescência.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Poesia: questão de tudo ou nada? (8)


 

"declaro não serem os versos que escrevo obras
de arte mas bases, paredes e donaires
de templos construídos com mãos e com sobras
de paixões, mergulhos, fodas, livros, viagens"

Antonio Cicero, no poema Templo

 
 
Estou retomando a série de postagens sobre poesia; nas próximas, destacarei Antonio Cicero.

Como (quase) todos os leitores do poeta e filósofo carioca, cheguei a seus escritos através da música popular, uma vez que o autor é também letrista - e dos bons (aliás, ainda nesta série, falarei das relações poeta-letrista e poema-letra de música, de modo geral).

Os versos iniciais de Virgem (transformado em canção por Marina Lima) são marcantes - a despeito da simplicidade - , numa composição que fala da insignificância dos indivíduos e das relações criadas (e a findar) entre eles, frente à concretude do mundo: "As coisas não precisam de você:/ Quem disse que eu tinha que precisar?". Vejo em Água Perrier (musicado por Adriana Calcanhoto) uma beleza e uma concisão tremendas: "Adoro esse olhar blasé/que não só já viu quase tudo/mas acha tudo tão déjà vu mesmo antes de ver". Os dois textos estão reunidos no livro Guardar*, publicado em 1996.

Por ora, leiamos o soneto Dita:

"Qualquer poema bom provém do amor
narcíseo. Sei bem do que estou falando
e os faço eu mesmo pondo à orelha a flor
da pele das palavras, mesmo quando

assino os heterônimos famosos:
Catulo, Caetano, Safo ou Fernando.
Falo por todos. Somos fabulosos
por sermos enquanto nos desejando.

Beijando o espelho d'água da linguagem,
jamais tivemos mesmo outra mensagem,
jamais adivinhando se a arte imita

a vida ou se a incita ou se é bobagem:
desejarmo-nos é a nossa desdita,
pedindo-nos demais que seja dita".

Penso que o "amor narcíseo" de que fala o poeta e do qual, segundo ele, os bons poemas provêm, não se refere tanto à satisfação egocêntrica, mas à busca por reconhecer-se, "fabuloso", no "espelho d'água da linguagem". E qual a imagem refletida a satisfazê-lo? A dos "heterônimos famosos:/Catulo, Caetano, Safo ou Fernando". O poeta fala por eles porque é, antes de tudo, um leitor deles.

Na próxima postagem discuto a relação entre a poesia e a Filosofia, de acordo com Antonio Cicero.
___________
* CICERO, Antonio. Guardar: poemas escolhidos. Rio de Janeiro: Record, 1996

Conheça também o site do artista: http://www2.uol.com.br/antoniocicero/

BG de Hoje

Aproveitando, no BG, ADRIANA CALCANHOTO, cantando Inverno, música composta a partir de poema homônimo de Antonio Cicero, no qual se encontram os belíssimos versos: "Lá mesmo esqueci/que o destino/sempre me quis só/no deserto sem saudades, sem remorsos, só/sem amarras, barco embriagado ao mar".


terça-feira, 8 de setembro de 2009

Ao pé da letra


Já faz algum tempo que li um pequeno (porém, ótimo) artigo escrito pelo poeta Fabrício Carpinejar e publicado na sessão Superpolêmica, da revista Superinteressante. O nome do texto é Por que não se lê poesia* (também disponível aqui). Nele, Carpinejar tenta encontrar as razões para o fraco interesse das pessoas em adquirir livros dedicados ao gênero. Em determinado momento, ele pergunta:


"Por que poesia virou mercadoria que todo mundo tem para vender mas ninguém quer comprar? Como foi que os leitores perderam o interesse pela poesia? Desconfio que a resposta esteja no fato de que os próprios poetas tenham perdido o interesse pelos leitores. A poesia como exercício de linguagem, fria, escrita para agradar os professores de semiótica, torna-se cada vez mais distante dos interesses dos leitores. Enquanto a poesia narrava uma história, era capaz de ser atraente, compreensível e proporcionar entretenimento, os poetas eram populares. E isso não era sinônimo de sentimentalismo barato, como o ato de despejar emoções no papel sem uma preocupação com a estrutura. O poeta era o equivalente a um músico, que tocava palavras como cordas de um violão".

E, logo depois, vem uma curiosa constatação: "Não é à toa que foi na melhor MPB que os jovens continuaram procurando versos que não encontram na chamada poesia contemporânea". Como se vê, Carpinejar atribui às letras das canções um valor positivo, no que se refere à sua aproximação com o texto poético.

Outro poeta, Antonio Cicero (este, também letrista), em outro artigo - Letra de canção e poesia** (também disponível no blog Acontecimentos, do mesmo autor) procura saber "se a letra, separada da canção, constitui um poema escrito". 

Para Cicero, é inadequado inquirir se a letra de uma canção é o mesmo que um poema:

"Desde que as vanguardas mostraram que não se pode determinar a priori quais são as formas lícitas para a poesia, qualquer coisa pode ser um poema. Se um poeta escreve letras soltas na página e diz que é um poema, quem provará o contrário?"

Sendo assim, "a verdadeira questão parece ser se uma letra de canção é um bom poema".

Antonio Cicero afirma que o "o poema é um objeto autotélico, isto é, ele tem o seu fim em si próprio. [...] O poema se realiza quando é lido: e ele pode ser lido em voz baixa, interna, aural". A letra de canção, por sua vez,
"é heterotélica, isto é, ela não tem o seu fim em si própria. Para que a julguemos boa, é necessário e suficiente que ela contribua para que a obra lítero-musical de que faz parte seja boa. Em outras palavras, se uma letra de canção servir para fazer uma boa canção ela é boa, ainda que seja ilegível".

Pessoalmente, acredito que existam letras que podem ser lidas independentemente da interpretação musical e serem "tomadas" como legítimos poemas.

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* CARPINEJAR, Fabrício. Por que não se lê poesia?. Superinteressante. São Paulo, n. 172. p. 98, jan. 2002

** CICERO, Antonio. Letra de canção e poesia. Folha de S. Paulo, São Paulo, 16 jun. 2007. Caderno Ilustrada, p. 11