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segunda-feira, 8 de julho de 2013

O sublime e o corriqueiro



Graças a um dos melhores professores de quem já tive a felicidade de ser aluno, Murilo Marcondes de Moura, aproximei-me da poesia de outro Murilo - no caso, o Mendes - sem ficar com o pé atrás. Como se sabe, após a morte do pintor Ismael Nery, seu amigo, o poeta mineiro converte-se de vez ao catolicismo. Seu texto poderia se tornar tão chato quanto o de Jorge de Lima, mas felizmente não foi o que aconteceu. Foi o professor Murilo quem me auxiliou a olhar para a obra do escritor deixando o preconceito religioso de lado.

Falemos agora de um de seus melhores poemas: Jandira* (que pode ser encontrado na íntegra aqui).

O leitor é fisgado desde o verso inicial - "O mundo começava nos seios de Jandira". É um poema fortemente imagético, algo a se esperar de um artista tão tocado pelo surrealismo:

"[...]
 E surgiram sereias da garganta de Jandira:
 O ar inteirinho ficou rodeado de sons
 Mais palpáveis do que pássaros.
 E as antenas das mãos de Jandira
 Captavam objetos animados, inanimados,
 Dominavam a rosa, o peixe, a máquina.
 E os mortos acordavam nos caminhos visíveis do ar
 Quando Jandira penteava a cabeleira..."

Ou, de maneira mais sintética:

"[...]
 E sua boca era um disco vermelho
 Tal qual um sol mirim
 [...]"

E por meio da sua "ginofilia extrema" (a expressão é de José Guilherme Merquior), o poeta imprime um erotismo nada velado a seus versos, algo que me surpreendia por imaginá-lo, antes de conhecer mais profundamente sua poesia, um tremendo carola:

"[...]
 Os namorados passavam, cheiravam os seios de Jandira
 E eram precipitados nas delícias do inferno
 [...]"

Ou

"[...]
 E Jandira se casou
 E seu corpo inaugurou uma vida nova,
 Apareceram ritmos que estavam de reserva,
 Combinações de movimento entre as ancas e os seios".

Foi através de uma das aulas dadas pelo professor Murilo Marcondes de Moura que atentei para a pretensão mítica deste poema, revelando uma das características mais singulares desse poeta tão intenso: a "constante incorporação do eterno ao contingente", nas palavras de Manuel Bandeira**.

E repare: Jandira, surgida do caos e engendrando o mundo, quase divina, é a mesma a fazer as famílias tropeçarem nas conversas e um padre esquecer o sinal da cruz durante a missa. Para aumentar o prosaísmo, seu marido morre na epidemia da gripe espanhola... O sublime e o corriqueiro casam-se perfeitamente no texto do poeta: seu surrealismo se manteve "à margem dessa ' maldição ' semiótica, a obscuridade visceral da criação moderna", como notou Merquior.

É pena Murilo Mendes ser lembrado, principalmente nos círculos escolares, apenas por sua História do Brasil (a propósito, um ótimo livro), mas O visionário e A poesia em pânico, por exemplo, são também excelentes.
___________
* MENDES, Murilo. Jandira. In: ________________. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p. 202-204 [Este poema integra o livro O visionário, publicado pela primeira vez em 1941] OBS: As citações de José Guilherme Merquior incluídas nesta postagem foram extraídas dos texto Notas para uma Muriloscopia, integrante dessa edição das obras completas.

** BANDEIRA, Manuel. Apresentação da poesia brasileira. In: _____________. Seleta de prosa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997

BG de Hoje

TIM MAIA, a despeito de seu trabalho como compositor, foi também um grande intérprete. Escolhi Lábios de mel para o BG, mas poderia ter optado por outras do disco Reencontro, de 1979. Esse álbum, comprado por uma de minhas irmãs mais velhas, não saia do toca-discos da nossa antiga casa.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

"Todos têm a vidinha deles" (1)

Há um poema de Murilo Mendes* de que gosto muito. Abaixo reproduzo-o na íntegra:


NOTURNO RESUMIDO

A noite suspende na bruta mão que trabalhou no circo das idades anteriores
as casas que o pessoal dorme comportadinho
atravessado na cama
comprada no turco a prestações.


A lua e os manifestos de arte moderna
brigam no poema em branco.

A vizinha sestrosa da janela em frente

tem na vida um camarada

que se atirou de um quinto andar.
Todos têm a vidinha deles.


As namoradas não namoram mais

porque nós agora somos civilizados,
an
damos no automóvel gostoso pensando no cubismo.

A noite é uma soma de sambas

que eu ando ouvindo há muitos anos.

O tinteiro caindo me suja os dedos

e me aborrece tanto:
não posso escrever a obra-prima que todos esperam do meu talento.

Publicado no livro de estreia do poeta mineiro (Poemas, 1930), Noturno resumido traz, explicitamente, as marcas de seu pertencimento - ou melhor, sua filiação - ao movimento modernista que acabara de ser deflagrado. Mas não é isso que pretendo discutir. Quero me deter num único verso: "Todos têm a vidinha deles".

Na obra de onde este poema foi extraído, há diversos outros textos que retratam ambientes comuns da vida privada, como, por exemplo, Perspectiva da sala de jantar ("A filha do modesto funcionário público/ dá um bruto interesse à natureza morta/ da sala pobre no subúrbio".) Ao fazer isso, qual fora o objetivo do poeta? Acredito que Murilo Mendes intentava nos lembrar que as vidas das pessoas - da imensa maioria delas, inclusive a minha, de vários conhecidos, amigos e parentes - é absolutamente banal, comum (aliás, o verso Todos têm a vidinha deles é de uma trivialidade atroz, se lido fora do contexto em que se originou).

E aproveito agora este poema para falar de algo que me incomoda profundamente: a projeção e a hipertrofia de vidas privadas (mesmo que estas nada tenham de extraordinário), fenômeno explícito hoje em dia e exacerbado pelas tecnologias de comunicação e informação.

No final do ano passado, li um artigo do escritor norte-americano Jonathan Franzen (Amor sem pudor**) em que surgem certeiras observações sobre o fenômeno acima mencionado. Ao referir-se ao uso de celulares nos espaços públicos, com gente falando aos berros em seus aparelhos (a noção de espaço público nunca mais será a mesma), Franzen escreve:

"O componente celular de minha irritação é simples e direto. Simplesmente não quero - enquanto estou comprando meias [...] ou na fila para comprar um ingresso e me ocupando de meus pensamentos pessoais ou tentando ler um romance num avião quando o embarque ainda não foi encerrado - ser arrastado em minha imaginação para o mundo pegajoso da vida doméstica de algum ser humano próximo.

A própria essência do que é tão desagradável no celular como fenômeno social é que ele possibilita e incentiva o ato de impor o pessoal e individual ao público e comunal.

E não existe declaração de mais alto calibre que 'eu te amo' - não há nada pior que um indivíduo possa impor a um espaço público comum [quando grita essa frase num celular]. Mesmo 'vá à merda, imbecil!' é menos invasivo, na medida em que é o tipo de coisa que as pessoas iradas às vezes gritam em público e que pode igualmente bem ser dirigido a um estranho".


Claro que há exposições da vida privada igualmente irritantes além do uso do celular. Mas isso fica para a próxima postagem.
____________________
* MENDES, Murilo. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1997

** FRANZEN, Jonathan. Amor sem pudor. Folha de S. Paulo, São Paulo, 16 nov. 2008. Caderno Mais!, p. 4-6.