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domingo, 16 de setembro de 2018

O deslocamento de Lima Barreto (II)


"Além do mais, Lima foi daquelas testemunhas que suportam a solidão de uma responsabilidade e, ao mesmo tempo, assumem a responsabilidade de estar num lugar, no seu caso, muitas vezes repleto de solidão".


Lilia Moritz Schwarcz - Lima Barreto: triste visionário



Grande parte dos manuais e livros didáticos de Literatura classifica Lima Barreto como escritor pré-modernista (bem, falo dos manuais e livros didáticos do meu tempo de aluno do 2º Grau; pode ser diferente hoje em dia, no Ensino Médio). É assim, por exemplo, no título que tenho em mãos neste momento: Língua & Literatura, de Maria da Conceição Castro (volume 3, editora Saraiva), cuja primeira edição é de 1993. Curioso ver que a autora afirma ter sido Lima Barreto "valorizado pelos modernistas da Semana de 22 pela sua capacidade de introduzir na obra literária fatos, situações e linguagem do cotidiano". Há controvérsias, como se verá adiante.

Antes, vale refletir um pouco se o termo Pré-Modernismo é apropriado como designação de um período literário específico.

O prefixo pré-, junto com a acepção de anterioridade, carrega muitas vezes o sentido de "preparatório para algo que virá" - é o caso, por exemplo, em palavras como pré-universitário. O que um curso pré-universitário tenciona é aprontar seus frequentadores para que, futuramente, sejam admitidos ou sintam-se melhor aclimatados numa universidade. 

Pré- também costuma denotar uma espécie de quase. Quando se usava dizer pré-escola, queria-se designar um estabelecimento que é quase uma escola, mas ainda não é. Nesse sentido, a pré-escola seria considerada menos importante do que a escola propriamente dita, pois a primeira só existiria em função da segunda. NOTA: A partir da segunda metade dos anos 1990, o termo pré-escola vai desaparecendo e sendo substituído pelo termo (mais adequado) educação infantil, pois amplia-se a compreensão de que o trabalho com crianças menores de seis anos não é menos educativo do que outros realizados noutras etapas.

Creio que essas acepções do prefixo nos ajudam a entender por que o termo Pré-Modernismo é uma classificação ruim.

Em primeiro lugar, pode nos induzir a considerar o Modernismo como um estágio evolutivo "natural" e superior da produção literária nacional, um ideal estético que se desejava atingir previamente. Aqueles que escreviam antes do advento da Semana de Arte Moderna de 1922 estariam apenas "preparando o terreno" para os que viriam depois - estes, sim, autores inovadores e de talento... Em segundo, denominar um período como pré-modernista acaba, inadvertidamente, esvaziando de importância esse mesmo período, visto somente como um quase (já que a "meta ideal" não teria sido ainda alcançada).

Dito isso, quero deixar registrado que não me oponho às tradicionais classificações de períodos literários para fins didáticos. São válidas e úteis em muitas ocasiões. Mas não nessa.

Voltemos, contudo, ao primeiro parágrafo da postagem de hoje. Teria sido Lima Barreto realmente valorizado pela turma que organizou a Semana de 22?

Em Lima Barreto: triste visionário (Ed. Companhia das Letras, 2017), biografia sobre a qual comecei a escrever na postagem anterior, Lilia Moritz Schwarcz observa que, embora "a nova agenda modernista [tivesse] pontos em comum com aquela de Lima", um episódio "marcaria a sorte" deste com o grupo paulista liderado por Mario e Oswald de Andrade.

Sérgio Buarque de Holanda, colaborador da revista Klaxon, um dos veículos de divulgação dos modernistas de São Paulo, entregou um exemplar da publicação para o escritor carioca. Era comum Lima Barreto tratar de novos autores nas muitas crônicas que produzia para a imprensa do Rio de Janeiro. No caso da Klaxon, nota Schwarcz, ele "reagiu de pronto, revelando seu célebre escárnio. Avaliou que a publicação devia muito ao futurismo italiano e, quem sabe, implicou com 'os rapazes', a quem provavelmente julgou burgueses e muito paulistas".

Ela acrescenta:

"História de 'se' não existe. Ou seja, se Lima tivesse juntado dois mais dois; se tivesse sido capaz de superar sua primeira opinião sobre a capa modernista da publicação dos paulistas; se tivesse conseguido reconhecer nas novas gerações anseios semelhantes, ou ao menos afinados, aos que ele descrevera em seu 'manifesto' de 1921 - intitulado 'O destino da literatura' -, talvez a história fosse outra. Mas não houve tempo, e o que ocorreu lembrou o estrondo e as consequências de uma trombada. 
Lima achou que os 'moços de São Paulo' tinham jeito de bovaristas [nesse contexto, encantados com o que vem do exterior, em detrimento do que se faz no próprio país] e que andavam animados demais com as ideias de Marinetti [o "pai" do Futurismo]. Já eles, na resposta divulgada no número seguinte da publicação, fizeram pouco-caso das avaliações do 'herbolário carioca'. Pensaram que só podia ser coisa de gente da capital [até 1960, o Rio de Janeiro foi o distrito federal]. Se 1922 deu a impressão de que iria se abrir como um ano de encontro, foi ano de fim".

De fato, não houve tempo para desfazer mal-entendidos e aparar arestas. Lima Barreto morreu justamente em 1922 (com apenas 41 anos) e não pôde ler, por exemplo, o Macunaíma, de Mario de Andrade (lançado em 1928), livro em que, acredito, ele identificaria um parentesco com sua concepção de fazer literário. Além do mais, a rusga surgida após o escarnecimento da Klaxon indispôs os modernistas de 22 para com uma obra em muitos aspectos próxima das intenções "anti-academicistas" defendidas pelo grupo de São Paulo.

O que foi dito até agora só reforça o deslocamento de Lima Barreto sobre o qual estamos falando desde a última postagem. Esse deslocamento ocorria tanto no plano pessoal (como espero ter demonstrado no texto anterior), quanto na sua dimensão pública de escritor e intelectual. O autor de Recordações do escrivão Isaías Caminha, mesmo depois de morto, também demorou a encontrar um lugar dentro da crítica e da história literária, em parte por causa do desentendimento mútuo entre ele e os modernistas de 22. A esse respeito, Lilia Schwarcz escreve:

"Lima também passava a ser assumido pela crítica como um autor 'entre': entre gerações, entre gêneros, entre grupos [...]. Se não se adequava aos padrões das gerações que imediatamente lhe antecederam, nem aos daquelas com as quais convivia , tampouco parecia coadunar-se com o estilo das novas vogas literárias, que faziam barulho entre os jovens paulistanos. O autor de Policarpo Quaresma considerava 'os moços de São Paulo' adeptos demais das vogas futuristas e legítimos representantes das novas elites burguesas e industriais. Já os modernistas paulistanos, ao menos nesse primeiro momento, reservavam a Lima o mesmo tipo de aversão que guardavam com relação ao grosso da produção literária que vinha do Rio de Janeiro, e o julgavam conservador demais. Um regressista que não admitia a entrada dos novos costumes, vogas artísticas e literárias ou hábitos urbanos".

Naquele Brasil da Primeira República, "Lima gostava de se definir como 'outro' - afirma a biógrafa -; "outro no jornalismo, outro em suas preferências políticas, outro ainda (e sobretudo) quando se referia ao funcionalismo público". Deslocado, "outro", avesso às pompas que cercavam muitos outros escritores de seu tempo, pobre, alinhado ao anarquismo e ao socialismo (num país em que a desigualdade faz parte do DNA da sociedade), negro (num país extremamente racista, poucas décadas após a Abolição), alcoólatra, duas vezes internado num hospício, o escritor, contudo, não parou de batalhar com os recursos que tinha, mesmo sem acreditar em si. Ou, talvez, acreditasse. No capítulo 11 (Fazendo crônicas, contos e virando Triste fim de Policarpo Quaresma), Lilia Moritz Schwarcz  assinala que:

"Com a publicação de Triste fim, a figura literária de Lima seria ainda mais lapidada. Ele era então caracterizado, e também gostava de se definir desta maneira, como um escritor boêmio, frequentador de botequins, realista por gosto, avesso ao jornalismo burguês e aos formalismos da literatura. Seus problemas na Politécnica [abandonou o curso de Engenharia] viravam virtudes, seu ir e vir nos subúrbios uma forma de existência. A despeito de tanta contraposição, Lima jamais negava seu sonho de viver das letras. Tanto que na mesma entrevista [concedida ao jornal A Época, em 1916], assim resumia sua 'missão': 'O fim da minha vida é as letras. Eu não peço delas senão aquilo que elas me podem dar: Glória! [...] Não quero ser deputado, não quero ser senador, não quero ser mais nada senão literato. Não peço às letras conquistas fáceis [...] peço-lhes coisa sólida e duradoura [...] Eu abandonei tudo por elas; e a minha esperança é que elas me vão dar muita coisa. É o que me faz viver mergulhado nos meus desgostos, nas minhas mágoas [...] Vamos beber cerveja' ".

. . . . . . .

Antes de terminar a postagem, não posso deixar de reconhecer o trabalho monumental feito por Lilia Moritz Schwarcz em Lima Barreto: triste visionário. É um livro de mais de 600 páginas, ressaltando diversos aspectos não só da vida e da obra do escritor, mas também do contexto sócio-histórico. A experiência da biógrafa como historiadora e antropóloga foi vital aqui. E mesmo que a profusão de notas possa retardar o ritmo da leitura em alguns momentos (para o leitor que vai conferi-las pelo menos em parte, como este blogueiro), o ganho informativo é tremendo.

Schwarcz também não se furtou a apresentar o lado antipático do biografado (como sua aversão ao feminismo ou o senso de superioridade evocado diante das outras pessoas de seu meio social, menos cultas do que ele), bem como salientou as ambiguidades que marcaram a sua trajetória pessoal e pública. Vale destacar o reconhecimento da autora ao trabalho de Francisco de Assis Barbosa, que, na década de 1950, não só produziu uma importante biografia, como foi fundamental para renovar o interesse pela obra do escritor, num esforço que incluiu o lançamento de inéditos e a republicação de diversos livros de Lima Barreto.

Na próxima postagem, falarei de um dos meus romances prediletos: O deserto dos tártaros, de Dino Buzzati


BG de Hoje

É meio complicado classificar, de primeira, o tipo de música feita pelo CRIOLO. Isso que é legal no som dele. Tem rap? Principalmente, claro. Mas também tem samba. E uma faixa singularíssima como Bogotá, com sua levada que remete o ouvinte a outras vertentes rítmicas latino-americanas.


sábado, 1 de setembro de 2018

O deslocamento de Lima Barreto (I)


Certas expressões viram moda num curto período de tempo. Passam a ser exaustiva e irritantemente repetidas. E tornam-se, por fim, clichês vazios.

A despeito do que acabei de escrever, vou usar uma dessas expressões. Porque ela, acho, não me soará oca ou desgastada - pelo menos, não nesse caso.

Lima Barreto me representa.

Vai além de nossa comum afrodescendência.

A vida de Lima Barreto foi marcada pelo deslocamento. Essa sensação é bastante familiar para mim. Ele era também alcoólatra - outra característica que compartilhamos.

Na volumosa biografia do escritor carioca lançada no ano passado ¹, Lilia Moritz Schwarcz escreveu:

"Ante os infortúnios, [Lima Barreto] bebia. Bebia por medo, pela falta de amigos, por não encontrar a rapariga certa, para fugir da 'desgraça doméstica', por causa de seu emprego. E bebia porque bebia, porque gostava de beber.

[...]

E justificava o vício: para não se aborrecer, para não ter de enfrentar o descompasso entre suas 'aptidões' e 'boas qualidades', assim como para poder lidar [com] (ou esquecer [de]) seus 'poderosos defeitos' e frustrações. Bebia chope, uísque, cachaça, para afastar o abismo que devia enxergar entre si e os amigos, os colegas de repartição, as mulheres, a família, os vizinhos.

[...]

Por essas e por outras, Lima se sentia e parecia cada vez mais deslocado. A roupa sempre manchada, o sapato desgastado, e placas de suor que lhe marcavam a camisa e colavam o cabelo à cabeça. Sofria com o tédio da repartição, com sua vida literária que não decolava, e com sua situação pessoal: poucos amigos, sem namoradas, e com a família que ele precisava prover. A bebida, para Lima, transformava-se ao mesmo tempo numa espécie de evasão para a sua profissão, que o entediava, e daquele mundo que insistia em não dar certo".

Destacar o alcoolismo do escritor não é tratar de tema supérfluo, nem cometer qualquer tipo de indiscrição perversa: é apresentar um fato relevante na vida de Lima Barreto, cujo impacto ultrapassou a esfera das relações pessoais, atingindo sua obra e a recepção crítica desta. Como qualquer outro ser humano, o autor de Triste fim de Policarpo Quaresma carregava suas inseguranças e (muitos) fracassos. E quando penso que se trata de uma pessoa negra, neto de uma escravizada, buscando, com as poucas armas de que dispunha, reconhecimento literário no início do século passado neste país (que foi, ainda é e, ao que tudo indica, sempre será) arcaico, racista e excludente, digo em pensamento: "É isso aí, Lima, beba. Só nos resta beber..."

"Pode-se dizer" - também escreveu a biógrafa - "que Lima se sentia 'estrangeiro' onde quer que estivesse" Como isso me é igualmente familiar! Schwarcz prossegue:

"Em primeiro lugar, seu grau de formação levava-o a se apartar dos vizinhos de Todos os Santos. O escritor gostava de reconhecer sua educação e dela se gabar, e assim guardava certa quilometragem dos personagens que tão bem descrevia. Em segundo lugar, na sua roda de amigos boêmios conservava uma separação cautelar, ainda mais quando se tratava de 'socializar com as moças'. Conhecia demais aquilo que chamava de 'limitações' trazidas pela cor que estampava em sua pele, ou ao menos mantinha esse tipo de obstáculo bem delineado quando tentava medir-se ou medir os outros".

O(A) eventual leitor(a) talvez se lembre de duas passagens do romance citado linhas acima ². A primeira encontra-se no capítulo 3. Numa pequena reunião festiva, alguns conhecidos de Policarpo Quaresma falam a respeito do major, motivados pela repercussão daquele desastroso requerimento escrito em tupi. A seguir, um trecho do diálogo:

"- Quem é? - perguntou Florêncio.
 - Aquele vizinho, empregado do arsenal, não conhece?
- Um baixo, de pince-nez?
- Esse mesmo - confirmou Caldas.
- Nem se podia esperar outra coisa - disse o doutor Florêncio - Aqueles livros, aquela mania de leitura...
- Pra que ele lia tanto? - indagou Caldas.
- Telha de menos - disse Florêncio.
Genelício atalhou com autoridade:
- Ele não era formado, para que meter-se em livros?
- É verdade - fez Florêncio.
- Isso de livros é bom para os sábios, para os doutores - observou Sigismundo.
- Devia até ser proibido - disse Genelício - a quem não possuísse um título acadêmico ter livros. Evitam-se assim essas desgraças [ele se refere à "loucura" de Quaresma]"

Na outra passagem, logo no capítulo seguinte, Policarpo volta pra casa abatido, após ser suspenso e levar uma descompostura do chefe (mais uma vez, consequência do requerimento em tupi despachado por engano). No bonde, encontra-se com o amigo Ricardo Coração dos Outros. Outro trecho de diálogo:

"- O major, hoje, parece que tem uma ideia, um pensamento muito forte.
- Tenho, filho, não de hoje, mas de há muito tempo.
- É bom pensar, sonhar consola.
- Consola, talvez; mas faz-nos também diferentes dos outros, cava abismos entre os homens..."

Os interessados na obra desse escritor sabem que muitos de seus personagens funcionam como disfarces do próprio autor, inteira ou parcialmente. Policarpo Quaresma - enquanto funcionário público medíocre de baixo escalão, leitor inveterado (mas sem diploma) e sujeito intelectualizado de forma diletante e errática - é Lima Barreto. E este blogueiro se identifica tanto com isso tudo...


Noutro trecho da biografia, Lilia Schwarcz reproduz uma passagem bem significativa do diário íntimo do autor:

"Novamente no seu Diário, em 1908, o sentimento de deslocamento manifesta-se: 'Mas de tudo isso, o que mais me amola é sentir que não sou inteligente. Mulato, desorganizado, incompreensível e incompreendido, era a única coisa que me encheria de satisfação, ser inteligente, muito e muito! A humanidade vive da inteligência, pela inteligência e para a inteligência, e eu, inteligente, entraria por força na humanidade, isto é, na grande Humanidade de que quero fazer parte [...] Abate-me também não ter amigos e ir perdendo os poucos que tinha. Santos está se afastando; Ribeiro e J. Luís também. Eram os melhores. Carneiro (o Otávio), o egoísta e frio Otávio, está fazendo a sua alta vida, a sua reputação, o seu halo grandioso, e é preciso não me preocupar mais. Eu esperava isso tudo; mas não pensei que fosse tão cedo. Resta-me o Pausílipo, este é o único que se parece comigo e que tem o meu fundo, que ele desconhece por completo [...] Eu fico só, só com os meus irmãos e o meu orgulho e as minhas falhas' ".

Não consigo deixar de ficar pasmado com a ingenuidade de Lima Barreto ao acreditar que "a humanidade vive da/pela/para a inteligência" (bem, era o início do século XX, o socialismo parecia alcançável, as duas grandes guerras mundiais ainda não tinham acontecido e mesmo o capitalismo, baseado fortemente na indústria e comércio - pois mal engatinhava a irrefreável especulação financeira transnacional -, apontava uma confiança otimista no engenho humano). O escritor, porém, não cria nele mesmo. Mas como crer, se não havia recompensa alguma?

Na próxima postagem, falo de um outro aspecto do deslocamento de Lima Barreto: a sua inadequação ao sistema literário então vigente.
__________
¹ SCHWARCZ, Lilia Moritz. Lima Barreto: triste visionário. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

² BARRETO, Lima. Triste fim de Policarpo Quaresma. 21 ª ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 1998, 


BG de Hoje

Trata-se de uma gravação impecável. Tudo soa perfeito. As harmonizações vocais (a principal característica do MPB 4), o arranjo de Luiz Carlos Ramos, o violão de sete cordas imponente, a cuíca discretíssima, a entrada gloriosa do surdo. Mas o ingrediente principal está no tamborim excepcionalmente bem tocado. Não se pode deixar de mencionar a letra do Paulo César Pinheiro para a linda melodia do Miltinho. É por essas e outras que Cicatrizes é uma das faixas de disco mais bonitas que já ouvi.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

"Alma de bandido tímido" (II)


Em 1955, o crítico literário Eugênio Gomes assim se expressou a respeito do escritor Lima Barreto*: "Seus extravasamentos de ressentido não obedeciam a nenhuma conveniência, certamente por efeito de uma neurose exacerbada após a alucinação de seu pai e, mais tarde, pela dipsomania, tão responsável por seus desregramentos de vida". E a coisa fica pior:

"O fato é que Lima Barreto atraiu para si o inconsciente coletivo da gente de cor, em sua época, quando, entretanto, muitos outros mestiços de talento ocupavam posições de relevo na sociedade, nas letras e na alta política do país. De outro modo não se compreende que tivesse dado tão exageradas proporções a uma luta de competições que, embora cruel e inumana a certos aspectos, só podia abater os fracos e inaptos".

A antipatia (diria até a animosidade) do crítico para com o autor de O homem que sabia javanês é patente. Mas não é aí que está o problema de sua análise (afinal, a crítica literária profissional não é feita - ou pelo menos não deveria ser feita - apenas com os livros e autores ou autoras dos quais se gosta). A posição de Eugênio Gomes é baseada, primeiro, num psicologismo um tanto capenga. E, na sequência, o crítico demonstra total desconhecimento dos mecanismos de "filtragem" social (leia-se exclusão) operantes na sociedade brasileira, impedindo a ascensão de determinados grupos sociais (como a população negra) a muitos postos e "posições de relevo", mesmo em se tratando de "mestiços de talento".

Por outro lado, só para efeito de comparação, vejamos como Eugênio Gomes se refere a outro escritor - Coelho Neto - na mesma ocasião:

"Dotado de extraordinária imaginação e de grande força criadora, naturalmente eloquente e podendo servir-se, ao correr da pena, de um inexcedível vocabulário (calculado mais ou menos em vinte mil palavras), Coelho Neto pode ser considerado, no domínio da prosa, um escritor dos mais completos, devendo seus romances e crônicas, contos e críticas, e mesmo suas peças de teatro, ser colocadas entre os melhores dos nossos melhores autores".

Agora em 2016, percebemos o quanto tal posicionamento é revelador da falta de visão do crítico, pois ainda lemos Lima Barreto (os que são leitores de verdade, naturalmente) em nossos dias, cientes de sua importância. Alguém aí, entretanto, saberia mencionar ao menos o título de um livro qualquer de Coelho Neto (não vale olhar no Google, hein)?

Eugênio Gomes assemelha-se um pouco ao Floc, personagem de Recordações do escritor Isaías Caminha**. Segundo o narrador, a crítica de Floc "não obedecia a nenhum sistema, não seguia escola alguma. As suas regras estéticas eram as suas relações com o autor, as recomendações recebidas, os títulos universitários, o nascimento e a condição social" (não custa lembrar que o escritor tão incensado por Eugênio Gomes - embasbacado com o vocabulário de "mais ou menos vinte mil palavras" de Coelho Neto - foi deputado federal e presidiu a Academia Brasileira de Letras).

Lima Barreto não gostava de Coelho Neto. Tanto que o satirizou implacavelmente em seu romance de estreia, na figura de Veiga Filho, um sujeito que teve a desfaçatez de escrever um texto elogioso à própria obra para ser publicado no jornal como se o enaltecimento partisse de outrem. Claro que este não foi o caso do panegírico feito por Eugênio Gomes a Coelho Neto, mencionado acima. Ainda assim, observamos nele o exemplo significativo de um modelo de crítica literária que se distancia dos estudos de caráter universitário/acadêmico, sustentados por um substrato teórico, forma atual assumida pela crítica literária mais rigorosa. Importante dizer que esses estudos (de circulação não muito ampla, reduzida ao intramuros das universidades) coexistem com a crítica puramente subjetivista, bem mais difundida entre o público em geral, cuja permanência pode ser atestada facilmente no jornalismo ou em centenas de milhares de páginas espalhadas na web***.

. . . . . . .

Costumo considerar Lima Barreto um de meus heróis. Entretanto, não se deve esquecer que ele foi, antes de mais nada, um ser humano falho, contraditório muitas vezes. Noutras ocasiões, revelando algo de si nada admirável.

A tese de doutorado Letras militantes: história, política e literatura em Lima Barreto**** apesar de reconhecer os méritos do escritor, buscou não mitificá-lo. O pesquisador Denilson Botelho não omitiu a dualidade vivida pelo artista. O indivíduo que “jamais renegará as suas origens”, morador do subúrbio e funcionário público de salário parco, é também aquele que, ao insistir e lutar por sua participação nos meios mais intelectualizados,

“chegará mesmo a expressar desprezo e ódio pela gente simples com a qual convive. Embora seja ao lado dela que sempre colocará a sua literatura militante, admite não suportar a convivência com boa parte dessa camada mais pobre da população. Age, desta forma, como um intelectual que pensa num projeto para as classes populares, das quais não faz parte”.

Para corroborar o que diz, o pesquisador reproduz em sua tese trechos do Diário íntimo***** do escritor (só publicado em 1953, 21 anos após a morte deste). A certa altura, Lima Barreto anota:

“Eu tenho muita simpatia pela gente pobre do Brasil, especialmente pelos de cor, mas não me é possível transformar essa simpatia literária, artística, por assim dizer, em vida comum com eles, pelo menos com os que vivo, que, sem reconhecerem a minha superioridade, absolutamente não têm por mim nenhum respeito e nenhum amor que lhes fizesse obedecer cegamente”

A confissão é dura, indigna, mas também dolorosa (nesse caso) para quem a faz. Logo adiante, o escritor dá-se conta da gravidade da declaração e registra :

"Se essas notas forem algum dia lidas, o que eu não espero, há de ser difícil explicar esse sentimento doloroso que eu tenho de minha casa, do desacordo profundo entre mim e ela; é de tal forma nuançoso a razão de ser disso que para bem ser compreendido exigiria uma autobiografia, que nunca farei. Há cousas que, sentidas em nós, não podemos dizer. A minha melancolia, a mobilidade do meu espírito, o ceticismo que me corrói [...] nasceu da minha adolescência feita neste sentimento da minha vergonha doméstica, que também deu nascimento a minha única grande falta [...] Aqui bem alto declaro que, se a morte me surpreender, não permitindo que as inutilize [refere-se às notas do diário], peço a quem se servir delas que se sirva com o máximo cuidado e discrição, porque mesmo no túmulo eu poderia ter vergonha".

Apesar da sua "grande falta" (indicadora de seu lado preconceituoso), o autor ao menos tem consciência do quanto ela é vergonhosa. Por isso, prefiro pensar como o professor Antônio Arnoni Prado:

"Ler os livros de Lima Barreto é de alguma forma participar do drama do intelectual sitiado. Mais talvez do que isso, é um exercício de consciência histórica que conta com a vantagem, como poucas vezes noutro escritor brasileiro, de um difícil testemunho: constatar como a vida, e nesta a opressão e o fracasso, se converte em literatura".

. . . . . . .

Deixei de responder a uma pergunta na postagem anterior. Lima Barreto disse, numa crônica, possuir a "alma de bandido tímido". Eu lembrei que os bandidos, além de ousados, são geralmente violentos. Mas e quando se trata de um “bandido tímido”? (essa era a pergunta não respondida).

Pois bem. Vamos dar uma olhada num excerto de Recordações do escrivão Isaías Caminha:

"Imbecis! pensei eu. Idiotas que vão pela vida sem examinar, vivendo quase por obrigação, acorrentados às suas misérias como galerianos à calceta! Gente miserável que dá sanção aos deputados, que os respeita e prestigia! Por que não lhes examinam as ações, o que fazem e para que servem? Se o fizessem... Ah! se o fizessem! Que surpresa! Riem-se, enquanto do suor, da resignação de vocês, das privações de todos tiram ócios de nababo e uma vida de sultão... Veio-me um assomo de ódio, de raiva má, assassina e destruidora; um baixo desejo de matar, de matar muita gente, para ter assim o critério da minha existência de fato".

Esse impulso violento do narrador-personagem surpreende o leitor, acostumado à maneiras educadas do pacato Isaías Caminha e este logo trata de retornar tudo ao estado anterior: "Depois dessa violenta sensação na minha natureza, invadiu-me uma grande covardia e um pavor sem nome. Fiquei amedrontado em face das cordas, das roldanas, dos contrapesos da sociedade; senti-os insuperáveis e destinados a esmagar-me, reduzir-me ao mínimo, a achatar-me completamente".

Porém, um esbarrão recebido dentro do bonde - "episódio insignificante", como ele mesmo reconhece - reacende em seu espírito o "desejo feroz de reivindicação. Senti-me humilhado, esmagado, enfraquecido por uma vida de estudo, servir de joguete, de irrisão, a esses poderosos todos por aí. Hoje que sou um tanto letrado sei que Stendhal dissera que são esses momentos que fazem os Robespierres. O nome não me veio à memória, mas foi isso que eu desejei chegar a ser um dia".

Sabemos que Isaías Caminha é o disfarce do autor Lima Barreto. As ações diretas - em que muitas vezes se necessita ser violento - não são de seu feitio, embora, mais ao final do romance, depois de "deitar por terra" um colega de profissão que o insultara de modo racista, ele tenha escrito (acertadamente, a meu ver): "no mundo é preciso o emprego da violência, do murro, do soco, para impedir que os maus e os covardes não nos esmaguem de todo". 

Lima Barreto, um escritor politizado, próximo do anarquismo e do socialismo, enxergava com nitidez "as cordas, roldanas e contrapesos da sociedade" que esmagavam os mais pobres. Não sejamos ingênuos: não é possível mudar esse estado de coisas somente esperando a boa vontade "desses poderosos todos por aí"; a ação revolucionária - portanto, a ação violenta - é a alternativa restante (e legítima) àqueles historicamente alijados do poder e do conforto material (este último, aliás, quase sempre decorrente da exploração econômica).

Contudo, Lima Barreto tinha a "alma de bandido tímido". Não recorreria à força física para tentar mudar a estrutura social brasileira, cheia de desigualdade e exclusão (mesmo sabedor de que uma revolução de fato deve trazer consigo, inerentemente, o seu quinhão de violência). A contribuição que imaginou acrescentar na luta contra a opressão se realizou na escrita, tentando tirar o leitor da passividade e da resignação, levando-o a pensar e problematizar suas condições de vida.

E isso não é pouco.
__________
* Esta avaliação crítica de Eugênio Gomes encontra-se no volume 4 (Era Realista/Era de Transição) da vetusta coleção A Literatura no Brasil, dirigida por Afrânio Coutinho. A edição consultada para essa postagem foi a sétima (revista e atualizada), publicada pela Editora Global em 2004.

** BARRETO, Lima. Recordações do escrivão Isaías Caminha. São Paulo: Ática, 1984

*** Embora tenha citado as opiniões de Eugênio Gomes com o propósito de mostrar o que penso ser falho nelas, não me oponho à crítica literária subjetivista in totum. Não é proveitoso para a Literatura, penso eu, ser discutida exclusivamente dentro do rigor acadêmico. E mais uma vez, não custa repetir: o blog Besta Quadrada não é um espaço de crítica literária; apenas comunica impressões de leitura de seu autor.

**** BOTELHO, Denilson. Letras militantes: história, política e literatura em Lima Barreto. 2001. Tese (Doutorado em História) - Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2001. Disponível em <http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?code=vtls000232427 >. Acesso em: 04/04/2016

***** O Diário íntimo, assim como toda obra de Lima Barreto está em domínio público. O livro pode ser obtido aqui <http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2078 >. Acesso em 11/04/2016


BG de Hoje

Monólogo ao pé do ouvido/Banditismo por uma questão de classe é a faixa que abre o seminal álbum Da lama ao caos, de CHICO SCIENCE & NAÇÃO ZUMBI. O Monólogo... tem jeitão de manifesto (embora o disco contenha um manifesto propriamente dito - Caranguejos com cérebro - escrito no encarte). No Monólogo... há algumas saudações: a Zapata, Lampião, Antônio Conselheiro, aos Panteras Negras... Tratados como meros bandidos pelo status quo, as ações desses indivíduos tinham significado político (maior e mais profundo em determinados casos do que em outros, convém dizer). Se há "banditismo por pura maldade", também há o "banditismo por necessidade" e o "banditismo por uma questão de classe". Ah, e tudo isso sem falar na extraordinária guitarra tocada por esse monstro chamado Lúcio Maia.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

"Alma de bandido tímido" (I)



"Malditos são todos aqueles que dizem verdades incômodas. E Lima Barreto incomodava como ainda incomoda. O escritor que silencia já nasceu morto. O escritor que não incomoda acaba refestelado em cadeiras acadêmicas, glorificadas por outro extinto imortal. O escritor, enfim, bem comportado, toma chá às quintas-feiras. Lima Barreto tomava cachaça todos os dias. Às vezes, era obrigado a parar: tirava férias no hospício"


Helcio Pereira da Silva -Lima Barreto: escritor maldito




Numa crônica publicada em 1915*, no extinto jornal Correio da noite, Lima Barreto reclamava das características do (então) novo prédio da Biblioteca Nacional, cheio de "suntuosidades desnecessárias". Segundo ele, "o Estado tem curiosas concepções, e esta, de abrigar uma casa de instrução, destinada aos pobres-diabos, em um palácio intimidador, é das mais curiosas". Na sua opinião, "a velha biblioteca era melhor, mais acessível, mais acolhedora, e não tinha a empáfia da atual".

A preocupação do escritor é que "os mal vestidos, os tristes, os que não tem livros caros" dificilmente fariam uso de um espaço assim. É de se notar a agudeza do olhar de Lima Barreto: uma biblioteca pública (e esse é o caso da Biblioteca Nacional) deveria ser receptiva a qualquer um, principalmente aquelas pessoas que não têm condições de comprar livros (sobretudo nas primeiras décadas do século passado, quando esta mercadoria quase nunca chegava à mão do pobre). A pompa do prédio - quando o mais importante deveria ser a sua funcionalidade - constrange o visitante que não dispõe de boas roupas (o escritor, com ironia, diz: "Ninguém compreende que se subam as escadas de Versalhes senão de calção, espadim e meias de seda"). Uma biblioteca, a despeito de suas especificidades, é "uma casa de instrução", ou seja, um espaço para o aprendizado e o incremento cultural. Entretanto, vivemos num país onde a casca rutilante vale mais do que a polpa - que não é tão vistosa, é verdade, mas fundamental para a nutrição e sustentação do organismo...

Menciono essa crônica porque nela aparece uma breve definição (posteriormente bem conhecida) que Lima Barreto fez de si mesmo: "A minha alma é de bandido tímido". Os bandidos são geralmente ousados; não se vexariam de entrar num palácio mesmo que seu vestuário fosse considerado inapropriado para o local. O homem de letras, por seu turno, era ressabiado, inibido. Bandidos também empregam a violência – ocasional ou habitualmente. Mas e quando se trata de um “bandido tímido”?

Antes de responder a pergunta, tentemos compreender um pouco mais o autor.

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No volume dedicado a Lima Barreto na (boa e velha) coleção Literatura Comentada**, Antônio Arnoni Prado afirma que, no caso do autor de Recordações do escrivão Isaías Caminha,

“[...] fica difícil simbolizar os limites entre o intelectual profundamente consciente das questões políticas e sociais de seu tempo e o estilista que insistia em não ter estilo algum; entre o repórter extremamente impiedoso e mordaz, que atacava de frente o lado grotesco dos homens, e o mulato oprimido que chorava às escondidas na solidão de seu quarto, enchendo as páginas do diário de angústia, vergonha e ressentimentos”.

A sinceridade – ainda que filtrada pela construção literária – era um valor para Lima Barreto e a despeito da injusta pecha de desleixado (que o acompanhou durante anos, até mesmo após a morte), encontra-se

“em seus textos a moderna atitude do narrador que se recusava a ver o mundo de cima, a salvo das ameaças. Na sua 'alma de bandido tímido', a obra não preexistia ao processo que a originava, assim como não dependia mais de um estado de ser especial e singular para gerá-la. Ela acontecia aqui e agora, banalizada no tempo e no espaço do leitor, no curso das pequenas coisas apanhadas na rua, no acaso que se organizava, depois, em testemunho”, ainda de acordo com Arnoni Prado.

“Reabilitado” pela crítica literária a partir dos anos 1960, o escritor nunca dissociou a literatura da política e atreveu-se “a falar em nome do oprimido com a mesma ferocidade do opressor”. Mais que isso: “soube ver na burguesia legiferante a força reacionária que, no Brasil, impedia as reformas inadiáveis que os novos tempos exigiam. Desmascarou também a sua aliança com os plutocratas e latifundiários da aristocracia rural [...]”.

Basta observar a maneira de agir de nossos parlamentares no Congresso Nacional para ver como ele ainda hoje tem razão, iniciado o século XXI.

Como, porém, tentar mudar a dura realidade decorrente de nossos problemas sociais? Denunciá-los através da escrita é um modo; tornar o leitor da obra literária consciente da natureza destes, outro. Mas seria isso suficiente? A considerar os grandes traços excludentes de nossa estrutura social, a resposta é, obviamente, não.

Há outra resposta faltando, relativa à pergunta deixada em aberto lá no terceiro parágrafo. Por exigir um pouco mais de discussão, prometo-a para a próxima postagem.
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* A crônica intitula-se A Biblioteca e foi posteriormente incluída no livro Marginália, lançado em 1953 (31 anos após a morte do autor). Como a obra de Lima Barreto encontra-se hoje em domínio público, o livro pode ser encontrado em <http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1862> (Acesso em 15/04/16)

** PRADO, Antônio Arnoni. Uma literatura do povo para o povo. In: BARRETO, Lima. Lima Barreto. São Paulo: Abril, 1980. p. 100-104 (Coleção Literatura Comentada)

BG de Hoje

O Brasil, felizmente, tem uma boa tradição de canções cuja marca é seu conteúdo político. Pode-se dizer, sem dúvida, que é o caso de O ronco da cuíca, de JOÃO BOSCO e ALDIR BLANC. Composição primorosa, que entra diretamente na veia.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

A acerba (e atualíssima) crítica de Lima Barreto à imprensa brasileira



A certa altura do romance Recordações do escrivão Isaías Caminha, cuja elaboração se deu durante a primeira década do século passado, encontramos o personagem Plínio de Andrade. Vivendo modestamente como professor de História Natural em colégios do Rio de Janeiro, o jovem negro escrevia panfletos "em que a sua irritação lhe congestionava a frase indignada"*. Orgulhoso e inteligente, possivelmente anarquista e simpático ao socialismo, era odiado pelos donos dos grandes jornais da (então) capital do Brasil por causa das pequenas contrariedades que lhes causava em virtude de suas críticas. Acabaria morrendo durante uma revolta popular. Não sem antes nos apresentar sua visão da imprensa hegemônica de seu tempo:

"São grandes empresas, propriedade de venturosos donos, destinados a lhes dar o domínio sobre as massas, em cuja linguagem falam, e a cuja inferioridade mental vão ao encontro, conduzindo os governos, os caracteres para os seus desejos inferiores, para os seus atrozes lucros burgueses... Não é fácil a um indivíduo qualquer, pobre, cheio de grandes ideias, fundar um que os combata... Há necessidade de dinheiro; são precisos, portanto, capitalistas que determinem e imponham o que se deve fazer num jornal..."

Plínio de Andrade compara os donos de jornal a "piratas" e suas organizações detêm "um poder vago, sutil, impessoal, que só poucas inteligências podem colher-lhe a força". Não é difícil durante a leitura da obra notar que Plínio de Andrade tem muito em comum com o próprio Isaías Caminha**, que, por sua vez, é o disfarce adotado por Lima Barreto na condução da história.

No essencial capítulo VIII, das Recordações..., Isaías vai à redação de O Globo (nome fictício para O Correio da Manhã), o mais influente periódico do Rio de Janeiro, falar com o jornalista Gregoróvitch, de quem espera auxílio para obter um emprego (a situação era desesperadora e qualquer trabalho seria aceito). Enquanto aguarda, o personagem-narrador pinta, satiricamente, um quadro do jornalismo por lá praticado, usando e abusando da descrição caricatural. E conclui ao final do capítulo:

"Naquela hora, presenciando tudo aquilo, eu senti que tinha travado conhecimento com um engenhoso aparelho de aparições e eclipses, espécie complicada de tablado de mágica e espelho de prestidigitador, provocando ilusões, fantasmagorias, ressurgimentos, glorificações e apoteoses com pedacinhos de chumbo, uma máquina Marinoni [impressora industrial rotativa que marcou época] e a estupidez das multidões.
Era a Imprensa, a Onipotente Imprensa, o quarto poder fora da Constituição! [aqui Barreto remete a Balzac]"

O livro foi lançado em 1909. Seu ataque à imprensa hegemônica brasileira, porém, permanece válido para o momento atual, sob vários aspectos.
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Durante muito tempo, Recordações do escrivão Isaías Caminha foi menosprezado pela crítica literária, considerado grosseiro, desleixado, um mero roman à clef furioso e cheio de rancor. Curioso é que o próprio autor tinha consciência dos "defeitos" do texto. Em carta enviada a um amigo, ele reconhece se tratar de "um livro desigual, propositalmente mal feito, brutal por vezes, mas sincero sempre". Convém mencionar que em 1909 Lima Barreto tinha outro trabalho já terminado na gaveta (Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá, só lançado em 1919), mas preferiu publicar primeiro a história de Isaías Caminha porque queria "escandalizar e desagradar". Prossegue ele, na carta:

"Espero que esse primeiro movimento, muito natural, seja seguido de um outro de reflexão com que vocês considerem bem que não foi só o escândalo, o egotismo e a charge que pus ali [...] Hás de ver que a tela que manchei tenciona dizer aquilo que os simples fatos não dizem, segundo o nosso Taine, de modo a esclarecê-los melhor, dar-lhes importância, em virtude do poder da forma literária, agitá-los, porque são importantes para o nosso destino".

Essa menção a Hippolyte Taine me lembra a conferência O destino da Literatura, escrita 13 anos após as Recordações... (já discuti essa conferência aqui). Naquela ocasião, Lima Barreto, partindo das ideias do historiador e crítico literário francês, defendia que "a Beleza [...] é a manifestação, por meio dos elementos artísticos e literários, do caráter essencial de uma ideia mais completamente do que ela se acha expressa nos fatos reais".

E recorrendo também ao pensamento de outro crítico literário francês, Ferdinand Brunetière, considerava que

"a importância da obra literária que se quer bela sem desprezar os atributos externos da perfeição de forma, de estilo, de correção gramatical, de ritmo vocabular, de jogo e equilíbrio das partes em vista de um fim, de obter unidade na variedade; uma tal importância, dizia eu, deve residir na exteriorização de um certo e determinado pensamento de interesse humano, que fale do problema angustioso do nosso destino em face do Infinito e do Mistério que nos cerca, e aluda às questões de nossa conduta na vida".

Para Lima Barreto, mais do que apuro formal, a Literatura deveria ter uma missão***. "Jamais conceberia a arte literária como forma de diletantismo. Nunca encarou a literatura como passatempo. Nunca faria 'arte pela arte'. Para ele, a literatura tinha função social, tinha de ser militante"****

Num dos estudos mais recentes que conheço sobre o autor de Recordações do escrivão Isaías Caminha - a tese de doutorado Letras militantes: história, política e literatura em Lima Barreto***** - , Denilson Botelho afirma que:

"A todo instante, a pena com que [Lima Barreto] escreve seus romances, contos, crônicas, artigos, cartas e diários, revela uma crença inesgotável na função social da literatura. Nessas variadas modalidades de sua escrita está presente a concepção de literatura como arte engajada e militante. Seu anarquismo, socialismo, provocações e implicâncias pessoais só podem ser compreendidos enquanto elementos de sua concepção de literatura. Para cumprir a sua missão literária, Lima Barreto compra brigas, faz provocações, coleciona implicâncias, flerta com o anarquismo e propõe o socialismo, mas tudo porque esta é a sua vocação: uma literatura destinada a contribuir para a compreensão dos acontecimentos do presente e, por que não, do passado, a fim de ajudar o leitor a construir uma sociedade mais justa e igualitária".

Ainda de acordo com o pesquisador, "sua obra é impregnada por esse objetivo de instrumentalizar, no plano das ideias e pela palavra escrita, um povo desde sempre excluído social e politicamente".

Portanto, o romance de estreia do escritor carioca não é apenas a expressão de seu ressentimento pessoal. O que ele deseja é sacudir, segundo suas próprias palavras, "a indiferença da nossa gente pelas cousas do espírito". Daí a "sinceridade da minha [dele] revolta que vem bem do Amor e não do Ódio, como podem supor".

E a escolha da imprensa hegemônica como um dos alvos de sua indignação nos parece certeira.

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As maiores empresas de jornalismo/mídia brasileiras compõem um oligopólio que, há décadas, dita o rumo da comunicação de massa no país (clique aqui). O modo de atuar dessas organizações reflete diretamente as inclinações e interesses pessoais de seus donos, pois são, desde a sua fundação, controladas pelas mesmas famílias. Os funcionários - ou seja, os jornalistas - quase sempre apenas corroboram e ratificam as opiniões (e intenções) dos proprietários (patrões deles). Essa relação de subserviência e sabujice compromete a credibilidade dessas empresas desde o nascedouro.

Em Recordações do escrivão Isaías Caminha, numa das muitas aparições de Ricardo Loberant (diretor-proprietário  de O Globo), ficamos sabendo que "aquele jornal, que era sua propriedade, recebia também a sua inspiração. Nenhum de seus redatores tinha uma personalidade suficientemente forte para resistir ao ascendente da sua". Na redação do jornal "era assim: escrevia-se, mediante ordem do diretor, hoje contra e amanhã a favor". Os outros periódicos de grande circulação não se diferenciavam: "guiados pelas mesmas leis, obedecendo quase a um único critério, todos eles se parecem; e, lido um, estão lidos todos".

Os próprios jornalistas desses veículos não dão mostras de se importar com a vassalagem prestada a seus patrões; ao contrário, julgavam-se importantes e indispensáveis para o aprimoramento da inteligência nacional: "o pensamento comum dos empregados em jornais é que eles constituem, formam o pensamento do nosso país, e não só formam, mas 'são a mais alta representação dele' ".

E pensar que a obra de Lima Barreto foi escrita no início do século passado! Em nossos dias, quando se percebe a tendenciosidade demonstrada pelo oligopólio midiático brasileiro no noticiário político, sua baixa qualidade investigativa ou a arrogância vaidosa de seus colunistas e comentaristas, vemos que as palavras do escritor carioca condizem perfeitamente com o momento atual.

Na próxima postagem, prossigo falando de Lima Barreto.
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* BARRETO, Lima. Recordações do escrivão Isaías Caminha. São Paulo: Ática, 1984 (Série Bom Livro)

** Segundo Francisco de Assis Barbosa, autor da única biografia disponível de Lima Barreto, Plínio de Andrade representa Lima Barreto, da mesma maneira que, no romance, Veiga Filho representa o escritor Coelho Neto e Raul Gusmão, João do Rio.

*** Expressão consagrada para se referir à obra de Lima Barreto desde o fundamental estudo de Nicolau Sevcenko, Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República.

**** MAGNONI, Maria Salete; BLAITT, Alexandre. Lima Barreto. In: SANTOS, Ynaê Lopes dos (et al). Rebeldes Brasileiros: homens e mulheres que desafiaram o poder. São Paulo: Casa Amarela, 2000. v. 1. p. 354-367

***** BOTELHO, Denilson. Letras militantes: história, política e literatura em Lima Barreto. 2001. Tese (Doutorado em História) - Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2001. Disponível em <http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?code=vtls000232427 >. Acesso em: 04/04/2016

BG de Hoje

Adorei a concepção e direção do DVD ao vivo da cantora/compositora CÉU, lançado em 2014.  Clima de bailão de periferia (ou das antigas rádios AM) e um repertório de primeira, incluindo canções feitas por outros artistas, como Mil e uma noites de amor, de Pepeu Gomes, que ficou ótima na voz dela.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

"[...] revolução silenciosa chamada literatura"

Em conferência* que não chegou a proferir, Lima Barreto expõe, de maneira intensamente apaixonada, qual seria, para ele, a função da Literatura (disponível aqui). Em determinado trecho, o autor menciona Crime e Castigo, de F. Dostoiévski e se pergunta: "onde está a beleza dessa estranha obra?". Como encontrar algo belo - ou apreciável - num livro que trata, principalmente, das lucubrações atormentadas de um paupérrimo e desesperado estudante, responsável pela morte brutal de duas pessoas? Responde Lima Barreto:

"[A beleza] Está na manifestação sem auxílio dos processos habituais do romance, do caráter saliente da ideia que não há lógica nem rigor de raciocínio que justifiquem, perante nossa consciência, o assassinato, nem mesmo quando é perpretado no mais ínfimo e repugnante dos nossos semelhantes e tem por destino facilitar a execução de um nobre ideal; e mais: no ressumar de toda a obra que quem o pratica embora obedecendo a generalizações aparentemente verdadeiras, executado que seja o crime, logo se sente outro - não é ele mesmo".

Mas apenas esse mote, esse tema, não seriam suficientes para construir um livro invulgar. Prossegue Barreto:

"É preciso que esse argumento se transforme em sentimento; e a arte, literatura salutar, tem o poder de fazê-lo, de transformar a ideia, o preceito, a regra em sentimento; e mais do que isso, torná-lo assimilável à memória, de incorporá-lo ao leitor, em auxílio de seus recursos próprios, em auxílio de sua técnica".

E acrescenta:

"É verificado por todos nós que, quando acabamos de ler um livro verdadeiramente artístico, convencemo-nos de que já havíamos sentido a sensação que o outro nos transmitiu e pensado no assunto".

Para o escritor carioca, a arte literária contribui para que não se esgarce de vez a tão precária solidariedade humana. Ele considera que

"Ela [a arte literária] sempre fez baixar das altas regiões das abstrações da Filosofia e das inacessíveis revelações da Fé, para torná-las sensíveis a todos, as verdades que interessavam e interessam a perfeição da nossa sociedade; ela explicou e explica a dor dos humildes aos poderosos e as angustiosas dúvidas destes, àqueles; ela faz compreender, uns aos outros, as almas dos homens dos mais desencontrados nascimentos, das mais dispersas épocas, das mais divergentes raças, ela se apieda tanto do criminoso, do vagabundo, quanto de Napoleão prisioneiro ou de Maria Antonieta subindo à guilhotina; ela, não cansada de ligar as nossas almas, umas às outras, ainda nos liga à árvore, à flor, ao cão, ao rio, ao mar e à estrela inacessível; ela nos faz compreender o Universo, a Terra, Deus e o Mistério que nos cerca, para o qual abre perspectivas infinitas de sonhos e altos desejos".

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O título desta postagem foi extraído de um pequeno artigo escrito pelo filósofo francês Jacques Rancière** e que analisa também Crime e Castigo.

Dostoiévski é, segundo o filósofo, um representante exemplar "dessa revolução silenciosa chamada literatura". E como se dá essa revolução?

Com Dostoiévski (tal como Balzac, Proust, Faulkner, Italo Svevo, Virginia Woolf, entre tantos outros) houve uma equivalência entre a ordem e a desordem, entre a razão e a desrazão, entre o ser ativo e o ser passivo, nessa complexidade partilhada pela humanidade e que chamamos simplesmente de vida, de acordo com Rancière. Para ele, as intrigas de Crime e Castigo (e de centenas de outras narrativas literárias) indicam

"[...] essa nova maneira de praticar a arte da escrita que se chama literatura e que se manifesta na igualdade dos episódios importantes ou ' insignificantes ', sonhados ou reais, num ritmo feito de estiramentos indefinidos ou de acelerações fulminantes".

Um personagem excepcional como Raskólnikov é movido "apenas por intensidades nômades", por "febres, impulsos e acasos", nos lembra o filósofo. Entretanto, no mundo contemporâneo, não somos todos um pouco assim?

Se há alguma função política e/ou revolucionária na Literatura - e acredito que há - esta reside na sua capacidade de concentrar, num conjunto de palavras pré-ordenadas e organizadas, altas doses de sensações, sentimentos e emoções, das quais podemos nos valer, experimentando outros modos de viver e pensar, diferentes do ordinário a que estamos acostumados.
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* BARRETO, Lima. O Destino da Literatura. In: _____________. Lima Barreto. 2 ed. São Paulo: Nova Cultural, 1988 (seleção de textos, notas, estudos biográfico, histórico e crítico por Antônio Arnoni Prado) [Coleção Literatura Comentada]

** RANCIÈRE, Jacques. De um Dostoiévski a outro. Folha de S. Paulo, São Paulo, 6 mai. 2001, Caderno Mais!, p. 10-11

BG de Hoje

Acho essa versão acústica (a gravação original é da banda The Knife) simples e lindíssima: JOSÉ GONZÁLEZ, Heartbeats.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Nocautes (3)

O HOMEM QUE SABIA JAVANÊS - Lima Barreto



Antes de mais nada, quero dizer que considero Lima Barreto - um dos "heróis" deste blog - muito mais romancista que contista. Sem entrar em detalhes, não consigo apreciar suas histórias curtas ainda que as leia com frequência. Uma das exceções é O homem que sabia javanês *.

Até aí, nada de mais. A maioria das antologias do tipo "os melhores contos..." inclui essa narrativa do escritor carioca. Seria quase "natural" que eu a destacasse. Só que a pergunta a ser feita é: por que se costuma considerar esse texto fora-de-série? Humildemente - vá lá, nem tão humildemente assim - vou tentar responder.

O homem que sabia javanês é notável, sobretudo, por sua engenhosa organização (apesar de ser muito simples) e por sua "brasilidade".

Como se sabe, o conto se estrutura a partir de uma relaxada conversa entre dois amigos, Castelo e Castro, tomando cerveja numa confeitaria. Dessa forma, Lima Barreto não precisara preocupar-se com aquela linguagem rebuscada e tão artificial que ainda caracterizava a Literatura Brasileira do período e que era admirada pelos críticos da época, a maioria deles bastante dura com o escritor. A narrativa ganhou em leveza e velocidade. As observações de Castro são poucas ao longo do relato de Castelo mas permitem ao narrador "retocar" os trechos que por ventura estivessem desalinhados.

Além disso, O homem que sabia javanês é brasileiríssimo. Aqui, permita-me uma digressão.

Está claro, pelo menos para mim, que um bom texto de Literatura Brasileira não precisa falar do Brasil e de suas características "sócio-político-econômico-culturais" todo o tempo. Aliás, nas vezes em que o nacionalismo patriótico ou o engajamento denuncista sufocaram a arte os resultados foram terríveis. Por outro lado, sempre se pode argumentar que há certos elementos presentes em alguns de nossos melhores textos que não se encontram naqueles provenientes de outras nacionalidades. Esses elementos são difíceis de precisar e indicar porque não se resumem a aspectos lexicais e/ou idiomáticos. No conto de que estamos falando, logo em seu início, podemos ler o seguinte trecho:

" - Cansa-se; mas não é disso que me admiro. O que me admira é que tenhas corrido tantas aventuras aqui, neste Brasil imbecil e burocrático".

Lima Barreto conhecia bem "este Brasil imbecil e burocrático". Um Brasil marcado pelas relações clientelistas, do arrivismo sem escrúpulos, o país do "jeitinho", o país da malandragem, da ausência de critérios justos para a promoção no serviço público, dos títulos acadêmicos e saberes formalizados sem relevância social e/ou utilidade pública.

Sem cair de cabeça em nenhuma dessas mazelas, o conto, todavia, fala de todas.

A boa Literatura de um país serve também para que seus leitores se reconheçam. E eu me reconheço em Lima Barreto.

* BARRETO, Lima. Contos reunidos. Rio de Janeiro: Garnier, 1990

VALE A PENA

Vale a pena conferir a edição voltada para o público infanto-juvenil de O homem que sabia javanês, realizada pela Cosac & Naif. A elegância da publicação e as ilustrações de Odilon Moraes valorizam - e muito - o texto excepcional de Lima Barreto.

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E embora saiba que o assunto já foi muito debatido na Internet e na mídia em geral - o incidente envolvendo uma aluna da Uniban, agredida por uma multidão animalesca de estudantes da instituição - ainda não li melhor análise do que a de Contardo Calligaris publicada na Folha de S. Paulo do dia 05/11/2009 com o título A turba da Uniban.