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segunda-feira, 11 de agosto de 2025

Ano 117 d. F (II)



Kidults. 

A primeira vez que vi essa palavra foi na capa de uma edição do (saudoso) caderno  Mais!  da Folha de S. Paulo, décadas atrás. Não cheguei a ler o texto principal, mas a perspectiva era crítica, acho eu, pelo que pude perceber no lead do artigo e nas ilustrações, demonstrando preocupação com o fenômeno dos  adultos-crianças.

Corta pra 2025. Entro no Google e a visão geral da IA do buscador me dá o seguinte resumo:
 

" 'Kidults' é um termo usado para descrever adultos cujos interesses ou atividades são frequentemente associados à infância, como colecionar brinquedos, jogar videogames ou assistir a desenhos animados. Esse fenômeno tem crescido e impactado diversos setores, como o mercado de brinquedos e jogos. 

O que são Kidults?

São adultos que mantêm interesses e atividades tradicionalmente consideradas infantis, como colecionar brinquedos, jogar videogames, assistir a desenhos animados ou filmes de super-heróis, e participar de eventos geek e de cultura pop.

A nostalgia desempenha um papel importante, com muitos kidults buscando reviver momentos felizes da infância através de itens colecionáveis ou atividades relacionadas.

O termo pode ser visto de duas formas: algumas fontes o usam para descrever adultos que agem de maneira infantil, evitando responsabilidades, enquanto outras o usam para descrever adultos que buscam ativamente manter a alegria e o lado lúdico da infância, usando esses interesses como forma de escapismo ou para trazer mais diversão para suas vidas".

Na sequência, menciona como esse comportamento influencia o consumo de determinados produtos.

Algum tempo atrás, assisti a esta esquete do Saturday Night Live  que me fez rir um bocado:

   

Tudo fica mais engraçado quando se lê os comentários do vídeo no Youtube, com um monte de perfis choramingando que a franquia Star Wars  agora é  woke  (e por isso ruim, na visão do comentarista), reclamando que a venda de brinquedos desse tipo caiu porque o verdadeiro fã está sendo desrespeitado pela Disney, etc., demonstrando que os adultos-crianças ficam nervosinhos com muita facilidade...

Fiquei sabendo que a empresa chinesa Pop Mart, fabricante dos bonecos Labubu, viu seus lucros subirem cerca de 200% de um ano para o outro. Tal como os bebês reborn (e assim foi anteriormente com os Funko Pops), uma porcentagem significativa do público interessado nos monstrinhos é de adultos. 

Sobre esse último ponto: Bebês reborn, Labubus, Funko Pops são (ou foram)  trends, usando a terminologia atual calcada nas mídias sociais. Quem não quer ficar de fora (e tem dinheiro pra gastar) segue. Um comportamento assim não seria possível sem o estabelecimento da sociedade de massa.  

Imersos na sociedade de massa (ou de massas) há tanto tempo, raramente tomamos real consciência das implicações psicossociais negativas desse tipo de existência transcorrida em meio a enormes agrupamentos de pessoas.

Nesta postagem, dando sequência à anterior, continuarei a tratar do livro  Admirável mundo novo, um texto que também buscou refletir sobre a sociedade de massa (entre outras coisas), concentrando-me numa das disfunções relacionadas a esse fenômeno: o consumismo.

. . . . . . .

No capítulo dezessete de Admirável mundo novo, Mustafá Mond, um dos poderosos Administradores do Estado Mundial (e meu personagem predileto na narrativa), diz o seguinte ¹: "Mas a civilização industrial somente é possível quando não há desprendimento. É necessário o gozo até os limites impostos pela higiene e pelas leis econômicas. Sem isso, as rodas cessariam de girar".

Convém dizer que os principais argumentos do livro (afinal, estamos falando de um romance com intento filosófico) estão mais claramente expostos no antepenúltimo e no penúltimo capítulos, por meio do sensacional diálogo entre John, o Selvagem, e Mustafá Mond. John repele um mundo que interdita as emoções autênticas, não deixa espaço para a liberdade individual, sufoca as expressões artísticas digamos "elevadas" (nesse caso, representadas pela obra de Shakespeare) e prescinde das religiões tais como as conhecemos. Mond, por sua vez, vai mostrar que não se precisa de nada disso para atingir os objetivos do Estado Mundial: a manutenção de um corpo social estável e feliz. Portanto, Deus, arte, indivíduos que pensam por si mesmos e emoções genuínas são coisas desnecessárias.

Pela maneira como o romance é construído, percebe-se que o narrador tenciona levar o leitor a endossar a exaltação do Selvagem e a se distanciar da fleuma utilitarista do Administrador. Aceitarei, por ora, esse arranjo. Voltemos, porém, à declaração de Mond: será mesmo que as engrenagens da civilização industrial deixariam de funcionar se a abnegação (uma outra palavra para  desprendimento) fosse amplamente disseminada?

Diversas foram as maneiras encontradas pelo Estado Mundial para assegurar que  todos amem a servidão. Uma delas é criar mecanismos para diminuir o intervalo de tempo entre "a consciência de um desejo e a sua satisfação", como diz o Administrador a um grupo de aprendizes no capítulo três. Ele está se referindo sobretudo às relações sexuais (com indisfarçável moralismo, as condutas sexuais chamadas de  promíscuas  no livro são a norma naquele futuro imaginado), mas o Estado Mundial também se ancora num modelo de vida orientado para o consumo permanente: em complementariedade, a divisão por castas e o condicionamento psicológico fazem com que cada indivíduo naquela sociedade aceite o seu quinhão sem reclamar. 

Pensemos agora no sistema econômico preponderante na atualidade. Não é difícil constatar o quanto nossa capacidade de gastar ou de adquirir produtos é uma das principais definidoras de nosso estar no mundo. Se há algo que irmana as pessoas no planeta é o fato de praticamente todos sermos consumidores, variando "apenas" o poder aquisitivo dos indivíduos. Muitos de nós valem-se do consumo como compensação emocional. Noutros casos, consumir torna-se uma meta em si mesma. Ter ou não acesso (pago) a determinados serviços, marcas, conteúdos, mercadorias e  lifestyles  determina nosso lugar social. Chegamos talvez a um ponto em que não sabemos mais como - ou se queremos - deixar de ser tais criaturinhas consumidoras. Estamos atolados nessa ordem socioeconômica (seria exagero dizer nessa  servidão?) e não se vê muitos esforços significativos para escaparmos dela. Como agravante, adultos infantilizados, por vezes resignada, noutras vezes prazerosamente engajados (como os colecionadores de brinquedo) nas ininterruptas cadeias de consumo são uma realidade já há bastante tempo. As rodas não param de girar. A diferença para o Estado Mundial é que não há castas e não sofremos o condicionamento psicológico mencionado no livro.

Hmm... Não falo das castas, mas há muito a se dizer sobre o condicionamento psicológico hoje em dia.

Huxley compôs seu texto no período entreguerras. A  propaganda  (em uma de suas acepções mais antigas, ou seja, o uso de técnicas de comunicação voltadas para a inculcar mensagens político-ideológicas) corria solta nessa época. Embora a hipnopedia não tenha se convertido em realidade e o poder do condicionamento pavloviano seja superdimensionado em Admirável mundo novo, o autor, contudo, não estava errado em indicar o quanto os seres humanos poderiam ser manipulados psicologicamente para agirem de acordo com propósitos determinados. Atualmente, sabe-se que cientistas e acadêmicos "emprestam" seus conhecimentos para grandes empresas, entre elas as chamadas Big Techs, com intuito de garantir que usuários/clientes destas ajam de tal ou qual modo, prevendo reações e estimulando atitudes específicas (o caso do Laboratório de Tecnologia Persuasiva de Stanford talvez seja o mais conhecido). Além disso, a ubíqua publicidade e o marketing contemporâneos são bastante sofisticados e eficientes quando se trata de gerar convencimento e aceitação do  status quo, sem falar que a propaganda passou a ser veiculada de diferentes maneiras, diluída noutras formas de narrativa, sendo uma delas o cinema (a poderosa indústria hollywoodiana faz o que sempre fez há quase  um século e não me deixa mentir). NOTA: Falei em  adultos infantilizados  e acaba de me ocorrer o seguinte: já reparou como as plataformas digitais e empresas de mídia - hoje, transnacionais - estão sempre tentando nos empurrar entretenimento goela abaixo?  Não menos importante, a educação formal e o trabalho, incapazes de promover real emancipação, também têm sua parte no "adestramento".

O panorama imaginado pelo escritor britânico, isto é, a consolidação de um gigantesco Estado dominador supranacional, olhando para o hoje, não se verifica. Pelo contrário, o imenso poder do capital financeiro em poucas mãos privadas e as megacorporações é que dão as cartas na maior parte do tempo. Entretanto, estamos apenas no ano 117 d. F (depois de Ford). O que poderá acontecer nos próximos 500 anos, uma vez que a história contada no romance se passa em 632 d. F (isto é, no ano 2540 do calendário gregoriano)?

. . . . . . .  

Gostaria de retomar um ponto mencionado, mas não desenvolvido acima. Afirmei que o leitor do Admirável mundo novo, graças à intercessão do narrador, inclina-se para o lado de John, o Selvagem, e não para o de Mustafá Mond. Em minhas últimas leituras, devo admitir, porém, que o ponto de vista do Administrador Mundial me parece cada vez menos estapafúrdio.

Vou reproduzir abaixo um trecho de que gosto muito:

"- [Diz John a Mustafá] Mas eu gosto dos inconvenientes.
- Nós, não. Preferimos fazer as coisas confortavelmente.
- Mas eu não quero conforto. Quero Deus, quero a poesia, quero o perigo autêntico, quero a liberdade, quero a bondade. Quero o pecado.
- Em suma - disse Mustafá Mond -, o senhor reclama o direito de ser infeliz.
- Pois bem, seja - retrucou o Selvagem em tom de desafio. - Eu reclamo o direito de ser infeliz.
- Sem falar no direito de ficar velho, feio e impotente; no direito de ter sífilis e câncer; no direito de não ter quase nada que comer; no direito de ter piolhos; no direito de viver com a apreensão constante do que poderá acontecer amanhã; no direito de contrair a febre tifoide; no direito de ser torturado por dores indizíveis de toda espécie.
Houve um longo silêncio.
- Eu os reclamo todos - disse finalmente o Selvagem.
Mustafá Mond deu de ombros.
- À vontade - respondeu"

Nesse trecho, sempre me lembro que o Selvagem, mesmo rejeitando a conformação do Estado Mundial, não foi preso ou executado. Simplesmente escolheu viver como uma espécie de eremita num lugar desabitado (não muito distante de Londres, aliás), o que lhe foi permitido. Mesmo Bernard Marx e Helmholtz Watson, tidos como heréticos dissidentes, foram apenas banidos para locais onde encontrariam pessoas que pensavam como eles. 

Admirável mundo novo  descreve uma comunidade global em que praticamente tudo é controlado. Sem dúvida, um regime totalitário. Brutal, contudo? Não estou certo.

Isso vai soar inadvertido, eu sei, mas, pessoalmente, acho que a tão propalada liberdade individual perde muito do seu valor quando as pessoas se encontram cercadas por insegurança, insalubridade e miséria. Quer dizer então que valeria a pena sacrificar a liberdade em troca da estabilidade social? Se for para que o maior número possível de pessoas tenha acesso a uma vida mais igualitária e com menos privações materiais, talvez sim. NOTA: Apesar de repetir que todos os seres humanos são física e quimicamente iguais e ter no seu lema a ideia de uma concentração harmônica de pessoas, o Estado Mundial não é igualitário, uma vez que necessita das castas para existir.  Lamento revelar-me menos humanista e mais antidemocrático do que costumo me mostrar em várias das postagens já publicadas aqui, mas creio que seria pior fugir do questionamento do que cair no conceito do(a) eventual leitor(a).

____________________

¹HUXLEY, Aldous. Admirável mundo novo. 22 ed. São Paulo: Globo, 2014. [Tradução de Lino Vallandro e Vidal Serrano]. Todas as passagens do livro citadas nesta postagem foram extraídas dessa tradução.

 

BG de Hoje

Billy Gorgan disse, bastante tempo depois do lançamento do álbum Siamese Dream (1993), que a canção  Soma  foi composta após o término de uma relação amorosa particularmente importante para ele. O musicista também confirmou que o miraculoso remédio do Admirável mundo novo  inspirou o título (embora isso não esteja tão evidente na letra). De todo modo, achei bacana colocar essa faixa dos SMASHING PUMPKINS no BG de hoje, extraída de um dos discos mais marcantes dos anos 1990.

domingo, 27 de julho de 2025

Ano 117 d. F (I)

[ Atualizado em 28/07/2025 ] 

Talvez este não seja o melhor momento para voltar ao Admirável mundo novo. Digo isso porque as ciências não parecem estar gozando de um apreço significativo e generalizado nos últimos tempos (ou esse montão de gente por aí dizendo que a Terra é plana, dando de ombros para a emergência climática, consultando astrólogos e duvidando da eficácia da vacinação retrata uma história de sucesso em termos de letramento científico?). Os alertas contidos no livro de Aldous Huxley são melhor apreciados, penso eu, quando as proposições das ciências estão com crédito em alta. Numa época, entretanto, em que pessoas dão atenção (e dinheiro) a  coaches  "quânticos" (que ofertam, entre outras coisas, "alteração de células corporais através do pensamento, sentimentos, emoções e comportamentos", segundo um instituto voltado para essa "terapia"), a narrativa literária pode já não ter muito a oferecer como crítica aos excessos do cientificismo. 

Se não estiver contando errado, essa deve ser a 11ª (ou 12ª?) vez que percorro esse texto. É um dos volumes basilares na minha formação de leitor, mas admito que a satisfação de décadas atrás foi deixando de se repetir nas últimas leituras. Há uma emanação moralista e reacionária naquelas páginas que, hoje, não consigo mais aceitar como um problema menor da composição. 

Sendo assim, além da crítica ao cientificismo (e não à ciência, bem entendido), por qual outro motivo valeria a pena retornar mais uma vez ao célebre romance distópico publicado pela primeira vez em 1932?

. . . . . . .  

Apesar de algumas marcas óbvias - por exemplo, nomes de personagens (Bernard Marx, Helmholtz Watson, etc.), determinados episódios, como a cerimônia do Orgião-Espadão (Orgy-Porgy, no original, um trocadilho com a cantiga infantil inglesa Georgie Porgie ), além do próprio título -, levei muito tempo para me dar conta do quão longe chegava o conteúdo satírico na escrita do Admirável mundo novo (não é à toa que este blog se chama Besta Quadrada...). Huxley quis, deliberadamente, fazer troça com H. G. Wells e o otimismo dele em relação ao futuro da humanidade, manifestado em alguns de seus livros, principalmente  Deuses Humanos (algo que só muito tempo depois das primeiras leituras vim a saber). Creio que seria proveitoso dispor de algumas informações biográficas para compreender melhor tudo isso (sobretudo porque acho que Huxley deve ter achado graça em alguns momentos durante o processo de elaboração da obra), mas infelizmente não há como obtê-las no momento. Estou querendo dizer que a intenção satírica me leva a especular sobre a possibilidade de o escritor estar apenas se divertindo em algumas passagens.  De qualquer forma, trata-se de um romance de ideias, em que o autor certamente quer conduzir seu leitor para determinadas conclusões e, no todo, não estava brincando em serviço.

A amplitude de uma obra de ficção científica depende, em grande parte, do quanto suas "previsões" se mostram corretas. No prefácio ao livro publicado anos depois do lançamento, impactado pelo uso de bombas atômicas na Segunda Guerra Mundial, o romancista admite que não deu atenção suficiente para o poder da fissão nuclear, embora essa não seja sua única falha em termos de imaginação do futuro. Por outro lado, com acerto, ele intuiu que o controle social conseguiria ser muito eficiente se empregasse técnicas e estratégias direcionadas para a pisque, valendo-se de tecnologia avançada, resultando em indivíduos que "amam a servidão". Mesmo assim, oportuno observar, o controle social em nossos dias ainda depende da violência e da coerção física em inúmeros casos, bem diferente do estável sistema de castas futurista (o Estado Mundial) apresentado no livro, no qual o descontentamento pode ser facilmente suprimido por meio de um fármaco. Nesse aspecto, a crítica que Huxley fez a George Orwell numa carta a respeito de  1984, afirmando que a política de  botina na cara  não parecia ter muito futuro no longo prazo, não se mostrou acertada, pelo menos até o presente momento histórico.

É fato que Huxley temia o totalitarismo. Por essa razão, muitos identificam no Admirável mundo novo tão somente uma condenação implacável direcionada ao fascismo (que, sabemos, desembocaria na monstruosidade de Hitler), bem como ao regime vigente no chamado  socialismo/comunismo real  de feitio soviético (o ficcionista britânico talvez preferisse o termo bolchevismo ), tendo Stálin no comando. Não digo que essa interpretação é equivocada. Uma análise um pouquinho mais atenta, contudo, permite-nos ver que não se trata apenas disso.

Observemos um excerto do capítulo três - uma das falas do Diretor do Centro de Incubação e Condicionamento de Londres ¹:

"- É estranho [...], é estranho pensar que, mesmo no tempo de Nosso Ford, a maioria dos jogos não tivesse mais acessórios que uma ou duas bolas, alguns bastões e talvez um pedaço de rede. Imaginem que tolice permitir que as pessoas se dedicassem a jogos complicados que não contribuíam em nada para aumentar o consumo. Atualmente, os Administradores não aprovam nenhum jogo novo, salvo se demonstrar que ele necessita, pelo menos, de tantos acessórios quanto o mais complicado dos jogos existentes".

Aumentar o consumo... Referências à necessidade de consumir aparecem noutros momentos da narrativa. No capítulo onze, por exemplo, Linda - uma pessoa criada no Estado Mundial, mas que foi deixada para trás numa reserva formada por uma população à parte desta organização social -, mesmo após tantos anos de fora, não se livrou do condicionamento para o consumo. Diz ela em determinado momento "Além disso, nunca foi direito remendar roupa. É atirar fora quando estiverem estragadas e comprar novas. 'Quanto mais se remenda, menos se aproveita' [um ensinamento incutido por meio de sucessivas repetições através de um processo chamado hipnopedia]. Não é verdade? Remendar é antissocial".

O fenômeno da  sociedade de massa  inquietava muitos intelectuais na primeira metade do século passado, atraindo pensadores politicamente tão diferentes quanto Ortega Y Gasset e Adorno e Horkheimer (posteriormente, a partir dos anos 1950, a questão apareceria também na obra de Hannah Arendt). O autor de  Admirável mundo novo  também estava, a seu modo, refletindo e se questionando a esse respeito. Num mundo cada vez mais populoso, os conflitos serão ainda mais destrutivos? Haverá ocupações e lugar para todos? Como fica a questão da ordem, do exercício da autoridade e do poder? E o risco da anulação do indivíduo, cada vez mais indistinto no mundaréu de gente? Nesse cenário, como atender a liberdade de cada um? Como fica a questão da autonomia de pensamento, da criatividade pessoal e da inspiração artística? 

De acordo com a ficção de Huxley, a humanidade do futuro (gigantesca massa de pessoas) reforçará a segurança e a estabilidade em detrimento da independência de pensamento e da liberdade individual. O "detalhe" é que, para sustentar essa segurança e essa estabilidade, uma das condições deve ser o consumo contínuo, praticado por seres humanos infantilizados. É esse ponto - seres humanos infantilizados impelidos ao consumo constante - um dos poucos tópicos que fazem o livro aqui debatido uma criação ainda dialogante com os nossos tempos.

Concluo a discussão na próxima postagem.

 _______________ 

¹ HUXLEY, Aldous. Admirável mundo novo. 22 ed. São Paulo: Globo, 2014 [Tradução de Lino Vallandro e Vidal Serrano).

BG de Hoje

A frase "É pra isso que eu pago internet" não deve ser usada em vão. Dito isso, os Tiny Desk Concerts (da NPR norte-americana) estão entre aquele monte de iniciativas pelas quais agradecemos a existência da web. É tão bom poder ver artistas que se admira apresentando-se dentro do formato proposto ali, bastando uns poucos cliques e pressionar de teclas! Recentemente, a banda nova-iorquina LIVING COLOUR, uma das minhas prediletas em todos os tempos, apareceu por lá. Sensacional! Entre as canções tocadas, Love Rears Its Ugly Head  teve tudo a ver com o espaço, principalmente pela execução ainda mais  jazzy  do que a gravação original (a partir de 12m5s). 

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Neuromancer (III)


Havia dito na segunda postagem desta série que o tema circulação de dados e informações como setor vital da economia e da vida sociocultural seria tratado no fechamento da análise de   Neuromancer *. Mas preferi agora abordar outra questão que surge no capítulo 21.

Nesse capítulo (provavelmente o mais curto do livro, em que se explica o título da obra), Case, o protagonista, está retido, mentalmente, numa espécie de limbo virtual, criado por uma IA ( Inteligência Artificial) . E enquanto permanece lá, o corpo de Case no "mundo real" indica que ele está morto, pois o eletrencefalógrafo ao qual está ligado exibe uma linha plana durante 5 minutos. Escapa desse confinamento graças a um expediente simples: fones são colocados no seu ouvido orgânico e o som da música - o dub habitual de Zion - penetra no limbo virtual, orientando o personagem.

E por que falar desse capítulo em particular? Porque nele está condensado uma das principais questões de Neuromancer (e também uma das principais do gênero ficção científica): o que é a realidade?

A IA que retém Case - e que aparece a ele na forma de um menino brasileiro de 13 anos - diz em determinado momento: "Para invocar um demônio é preciso saber  o nome dele. Os homens já sonharam isso, mas agora é real, em outro sentido. Um sentido que conhece bem, Case. O seu negócio é saber os nomes dos programas longos e formais, aqueles nomes que seus donos tentam esconder. Os nomes reais".

Por ser um hacker (ou cracker, como queiram), cabe ao herói do livro tentar controlar esses novos "demônios", agora encarnados em códigos informáticos. "Demônios" que a cada dia definem momentos de nossas vidas, desde o terminal eletrônico no banco da esquina aos incríveis simuladores empregados em áreas tão distintas quanto as hard sciences e o entretenimento. Nesses tempos de hiperconectividade já não conseguimos definir o termo realidade rápida, inequívoca e peremptoriamente. E olha que - para usar uma expressão do Carlos Heitor Cony -  ainda estamos na era da "Internet lascada"...

Por fim, destaco outra fala da IA no mesmo capítulo. Tentando convencer Case a permanecer definitivamente naquela "realidade virtual", o menino diz: "Fique. Se a sua mulher [referindo-se à personagem Linda Lee, morta no "mundo real"] é um fantasma, ela não sabe disso. E você também não saberá". Essa passagem me remete ao traidor Cypher, no filme Matrix (discutido aqui), que escolheu a ilusão da mega-simulação virtual ao desagradável  e cruento plano da realidade.

Poderia também escrever a respeito da relação corpo-mente (a ideia de mente flerta, há milênios, com a - problemática - noção de alma), algo muito interessante em Neuromancer, mas fica para outra oportunidade.

Na próxima atualização, falo de um poema de Ferreira Gullar.
___________
* GIBSON, William. Neuromancer. São Paulo: Aleph, 2003

BG de Hoje

Ando sentindo uma tremenda dor-de-cotovelo. Para ajudar a dissipar essa sensação desagradável, tenho ouvido os bons e velhos SMITHS. E eu acho simplesmente fenomenais estes versos de There is a light that never goes out: " And if a double-decker bus / crashes into us / to die by your side / such a heavenly way to die / And if a ten-ton truck / kills the both of us / to die by your side / well, the pleasure and the privilege is mine" [tradução aproximada: "E se um ônibus de dois andares / batesse em nós / morrer a seu lado / que jeito celestial de morrer / E se um caminhão de dez toneladas / matasse a ambos / morrer a seu lado / bem, o prazer e o privilégio seriam meus"].

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Para além do humano ou Vida e morte na era digital



"O futuro, ao que parece, está sendo inventado por uma equipe de crianças crescidas com doutorado"

Michio Kaku


Encerraria hoje a série de postagens sobre Neuromancer. Farei isso mais adiante. É que li recentemente dois artigos muito bons e que, de certo modo, estão relacionados com o assunto das últimas postagens.

Em Tecnolatria antropofágica *, Alexandre Quaresma faz oportuna crítica ao oba-oba que costuma caracterizar a relação das pessoas com as bugigangas eletrônicas de última geração e alerta para algo óbvio, mas frequentemente esquecido: "Desenvolvimento material - seja científico, seja tecnológico - não significa, necessariamente, desenvolvimento humano [...]"

O articulista, claro, reconhece que a criação e adição de novas tecnologias é parte inseparável da história e da trajetória humana. Menciona, contudo, um outro aspecto da tecnização  progressiva da vida do homo sapiens, acentuada na pós-modernidade:

"[...] essa mesma tecnização ameaça transformar os integrantes desta humanidade em algo que não seria mais humano no verdadeiro sentido do termo, pois estaríamos prestes a investir pesado em técnicas bionanotecnocientíficas tão brutais e impactantes (clonagem, adição de próteses maquínicas ao corpo, manipulação genética, implantes neurais, transgenia, entre outras tantas) , que estas técnicas seriam de fato reestruturadas no que tange degenerações ontogenéticas e até filogenéticas, práticas e também simbólicas do que consideramos hoje um humano".


Para o autor, passamos a mitificar a ciência e as tecnologias produzidas a partir de suas atividades. Essa mitificação leva, frequentemente, a avaliações ingênuas e superficiais :

"Não há um só assunto relativo a projeções de cenários futuros para a humanidade que não possa ser resolvido - dizem os tecnólatras - com o auxílio luxuoso dela (Tecnociência). O que estes obnubilados parecem esquecer é que a maioria dos problemas (ambientais e sociais, axiológicos e também culturais) que enfrentamos na atualidade se originaram deste mesmo processo de tecnização exacerbado que em tudo interfere, altera e reconfigura".

Quaresma aponta para o desafio ético a se desenhar e pergunta: "Teremos a sabedoria e o discernimento necessários e suficientes para, neste contexto complexo e multifacetado, arbitrar sobre o que seriam atos dignos ou indignos para a nossa própria humanidade e também para o planeta em termos de Ciência e Tecnologia?"

Por sua vez, João de Fernandes Teixeira, em A imortalidade digital ** cita uma previsão feita pelo norte-americano Ray Kurzweil: "antes do final deste século, poderemos fazer o download do nosso cérebro na Internet". Marvin Minsky é outro que acredita na "possibilidade de preservação do  software  de cérebros humanos por tempo indeterminado através de uma criogênese digital". NOTA: Há um personagem em Neuromancer - McCoy Pauley, o Linha Plana - que é "um constructo, um cartucho ROM substituindo os talentos, obsessões e até os reflexos do joelho de um homem morto". Essas ideias - associadas a avanços medicinais e biotecnológicos - induzem alguns a falar em imortalidade (ou, pelo menos, num prolongamento da duração da vida sem precedentes). O que leva Teixeira a formular algumas questões: "Nossos corpos se tornarão biônicos, mas o que ocorrerá com nossas mentes? Será que nosso psiquismo está preparado para suportar os gostos e desgostos pelos quais passaremos numa vida que pode durar 200 anos? Será que os chips implantados no cérebro poderão expandir áreas específicas da memória e suprimir outras?"

E como estamos no terreno da pura especulação, também dou meu pitaco: chegará o dia em que o corpo, apenas carnal, se tornará obsoleto?

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Já que venho falando de ficção científica nas últimas semanas aproveito para mencionar a matéria publicada na edição de março deste ano da (sempre ótima) revista Ciência Hoje das Crianças ***. Mesmo sendo voltada para o público infantil, há logo na abertura do texto uma apropriada conceituação do gênero e tem a ver com o que discuti ao escrever sobre Ray Bradbury (clique aqui).

"O termo ficção científica (ou FC) refere-se às histórias em que acontecem situações fora do comum, mas que - preste atenção agora! - são explicadas pela ciência. Ou, pelo menos, deveriam ser, já que muitas vezes os autores criam essas situações com base em possibilidades reais. Eles podem falar, por exemplo, de uma tecnologia ainda não disponível, um vírus desconhecido ou uma guerra que não aconteceu. O importante é que, por mais imaginativas que sejam as histórias, a explicação por trás delas sempre deve estar ligada às leis que regem nosso universo e não à magia ou ao sobrenatural. Nesse caso, trata-se de fantasia e não de ficção científica, mesmo que o cenário seja o futuro de uma galáxia situada a anos-luz da Terra".
__________
* QUARESMA, Alexandre. Tecnolatria antropofágica. Sociologia, São Paulo, ano IV, n. 40, jun/jul. 2012, p. 22-25 [Editora Escala]

** TEIXEIRA, João de Fernandes. A imortalidade digital.  Filosofia Ciência & Vida, São Paulo, ano VI, n. 72, jul. 2012, p. 52-53 [Editora Escala]

*** MEREGE, Ana Lúcia. Histórias inventadas com um pezinho na realidade. Ciência Hoje das Crianças, Rio de Janeiro, ano 25, n. 232, mar. 2012, p. 2-6

BG de Hoje

Eu fico sempre encantado com a simplicidade e a beleza na execução deste clássico do samba (composto por Silas de Oliveira e  Joaquim Harindo). Meu drama, interpretado por RENATO BRAZ.


quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Neuromancer (II)



Como já observei noutra oportunidade (clique aqui), uma das maneiras de se avaliar uma produção de ficção científica é tentar verificar o que se tornou (ou pode, no curto prazo, se tornar) "realidade" nas "previsões" feitas pela narrativa

Falemos então de certas "previsões" contidas em Neuromancer *, de William Gibson.

Algumas das megacorporações citadas no livro são japonesas (até a máfia torna-se multinacional, com a Yakuza absorvendo suas similares italiana e chinesa!). Nisso o romance reflete bem o que se poderia deduzir desde o final dos anos 1970 e durante a década seguinte, quando as empresas japonesas cresciam de forma gigantesca. O capitalismo é ardiloso, porém. Mitsubishi, Sony, Toyota são imensas, é verdade, mas conglomerados norte-americanos e europeus reagiram no final do milênio passado. Isso sem falar na China. Mas quem imaginaria, em 1984, o cenário hoje existente no país asiático?

Gibson, contudo, acerta em cheio na abordagem de temas como biotecnologia, engenharia genética e cirurgia plástica. Vejamos, por exemplo, os dispositivos denominados microsofts.

O microsoft é - citando nota do tradutor do livro - "um pequeno chip que é inserido numa tomada biotecnológica atrás da orelha para conectar o cérebro do usuário e dotá-lo de alguma habilidade ou conhecimento que ele não tenha, como, por exemplo, falar idiomas estrangeiros. Essa tomada também serve para fazer cópias back-up da memória humana".

(A empresa criada por Bill Gates existe na ficção de Neuromancer, mas foi incorporada, claro, por uma empresa japonesa)

Estamos, é verdade, longe de um dispositivo desse tipo, mas não deixa de ser uma sacada genial do autor, ao vislumbrar essa possibilidade fantástica na relação homem-máquina.

A percepção de que a circulação de dados e informações se tornará um setor vital da economia e da vida sociocultural, como hoje se verifica, naturalmente é o grande trunfo da narrativa de William Gibson. Mas falarei disso depois, no fechamento desta série de postagens.


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Escrevi sobre Ray Bradbury recentemente, mas não mencionei o pequeno artigo de Braulio Tavares, em homenagem ao escritor norte-americano, publicado na revista Metáfora** do mês passado (só comprei a edição anteontem). Vale conferir. Tavares ressalta o estilo poético do autor d'As crônicas marcianas e conta um episódio curioso: "Quando Mikhail Gorbachev visitou os EUA e foi recebido por Reagan na Casa Branca, os únicos convidados cujo nome ele indicou pessoalmente foram Ray Bradbury e Isaac Asimov, com a explicação: 'São os autores norte-americanos mais conhecidos e amados na URSS, e os favoritos da minha filha'. A ficção científica tem esse espírito eliminador de fronteiras geográficas e políticas".

__________
* GIBSON, William. Neuromancer. 3 ed. São Paulo: Aleph, 2003 [ tradução de Alex Antunes ]

** O poeta da ficção científica. Metáfora. São Paulo, ano I, n. 10, jul. 2012, p. 18-19

BG de Hoje

Toda vez que ouço esta canção me vem à cabeça sempre a lembrança de um sonho bom: Fuga nº II, com Os MUTANTES.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Neuromancer (I)






"A Matrix teve a sua origem nos primitivos jogos eletrônicos - disse a voz gravada -, nos primeiros programas gráficos e nas experiências militares com conectores cranianos [...] - O cyberespaço. Uma alucinação consensual vivida diariamente por bilhões de operadores autorizados, em todas as nações, por crianças aprendendo altos conceitos matemáticos... Uma representação gráfica de dados abstraídos dos bancos de dados de todos os computadores do sistema humano. Uma complexidade impensável. Linhas de luz abrangendo o não-espaço da mente, nebulosas e constelações infindáveis de dados. Como marés de luzes de cidade..."

William Gibson - Neuromancer

 
Como diversos outros leitores, suponho, cheguei a Neuromancer *, livro publicado originalmente em 1984, graças à trilogia cinematográfica Matrix, iniciada em 1999, e dirigida pelos irmãos Wachowski. A relação entre as duas obras é evidente - daí o questionamento: tratar-se-ia de plágio, citação ou homenagem? -, mas não discutirei esse aspecto por ora.

Gibson conseguiu antecipar, há quase 30 anos, a imensa participação, influência e poder da informática e da cibernética sobre a vida humana como hoje presenciamos. Tal como Isaac Asimov, cunhou um termo que ultrapassou o campo da Literatura para fazer parte de um vocabulário conhecido em outras áreas: ciberespaço (Asimov popularizou o termo robótica **). E os cenários em que a narrativa se desenrola são exemplos sinistros do que hoje chamamos de globalização.

O herói (ou anti-herói) Case, hacker dependente de drogas e desencantado é, contudo, um personagem instigante, assim como  sua  parceira,  Molly, a "samurai das ruas".

Outro clássico da ficção científica. Assunto que continua nas próximas postagens.
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* GIBSON, William.  Neuromancer . 3 ed. São Paulo: Aleph, 2003 [  tradução de Alex Antunes ]

** Importante dizer que a palavra robot já era conhecida e utilizada mundo afora desde o surgimento da peça R. U. R, do escritor tcheco Karel Capek, publicada nos anos 1920.
 
BG de Hoje

CHICO SCIENCE & NAÇÃO ZUMBI representaram uma pequena revolução no rock brasileiro. Os "caranguejos com cérebro" produziram música da mais alta qualidade. A Nação Zumbi, do excepcional guitarrista Lúcio Maia, ainda segue trabalhando, mas sem a mesma intensidade de seu início (Chico Science, infelizmente, está morto). No BG, uma porrada, com cara de "carta de intenções"  ( Da lama ao caos ):  " E , com o bucho mais cheio , / comecei a pensar / que eu me organizando , posso desorganizar ; / que eu desorganizando, posso me organizar ".

terça-feira, 31 de julho de 2012

Ornamentação, terror e uma dose de "bobagem" em Marte

[Atualizada em 06/05/2022]

 
Ray Bradbury, no terreno da ficção científica, posiciona-se em lugar bem diferente daquele ocupado por Isaac Asimov (sobre quem escrevi nas duas postagens anteriores).

A diferença está sobretudo na maneira de narrar. Observemos o primeiro parágrafo de Terceira expedição, uma d 'As crônicas marcianas *:

"A nave chegou do espaço. Veio das estrelas e das velocidades incríveis, dos movimentos brilhantes e dos vazios do espaço. Era uma nave nova;  tinha fogo nas entranhas e homens em suas células de metal. E se movia com um silêncio limpo, fogoso e quente. Era tripulada por dezessete homens, incluindo um capitão. A multidão no campo de lançamento de Ohio tinha gritado e agitado os braços, e o foguete soltara enormes flores da cor do fogo, partindo às pressas em direção ao espaço, na terceira viagem à Marte!"

E este outro trecho, em Os colonizadores, no mesmo livro:

"Os homens da Terra chegaram de Marte.
Foram para lá porque tinham medo ou não, porque eram felizes ou não. Porque se sentiam como Peregrinos ou não. Cada um tinha seu motivo. Estavam deixando para trás más esposas, empregos ruins ou cidades ruins; foram até lá para encontrar algo, abandonar algo, conseguir algo, desencavar algo, enterrar algo ou deixar de lado algo. Chegavam com sonhos pequenos ou sonhos grandes, ou com sonho nenhum".

Bradbury (que faleceu este ano, no mês de junho) procura a frase mais expressiva, sem, contudo, dispensar o ornato. Essa preocupação ornamental não esvazia a prosa do escritor norte-americano: ao contrário, confere a ela uma toque de beleza, beirando às vezes, porém, a pieguice e o kitsch (é oportuno notar que o autor era leitor de - e também escrevia para - revistas pulp fiction).

Há também o recurso ao terror, especialmente bem trabalhado em A terceira expedição e Usher II. Essa última narrativa, a propósito, é uma macabra homenagem à Literatura Fantástica. Há também nesse conto, alguns elementos que serão ampliados e desenvolvidos em Fahrenheit 451, romance magistral de Bradbury publicado em 1953.

A dose de "bobagem" fica por conta do lado "científico" d'As crônicas marcianas. Diferentemente de Isaac Asimov, que era bioquímico, com bom conhecimento das ciências naturais, Ray Bradbury foi "apenas" um talentoso autodidata e poeta. Por isso, muitas vezes o leitor precisa dar um desconto ainda maior quando o escritor escorrega ao tratar da atmosfera de Marte ou ao conceber o modo como as viagens espaciais seriam realizadas, por exemplo. E ter em mente, muitas vezes, a intenção humorística do escritor em determinados contos (As cidades silenciosas, é claramente um destes) e notar o traço de entretenimento que caracteriza a maioria dos textos da coletânea. NOTA: É curioso o que ocorre na ficção científica: trata-se de ficção, logo, invenção, fantasia. Mas para um bom número de leitores (meu caso), a fantasia precisa de alguma proximidade com o discurso científico, logo, pretensamente mais próximo do real, senão o texto  sci-fi  não "funciona" convenientemente.

Transformadas num livro em 1950 (coincidentemente, o mesmo ano de publicação de Eu, robô, de Asimov),  As crônicas marcianas  surgiram antes da chegada do ser humano à Lua e elaboradas em meio ao pavor decorrente de uma possível guerra nuclear que pudesse devastar nosso planeta. Esse medo está presente nalgumas narrativas, assim como a crítica preciosa ao comportamento destrutivo da humanidade, como se lê em Os gafanhotos ("Os foguetes chegavam como gafanhotos, em enxames, formando nuvens de fumaça rosada. E dos foguetes corriam homens com marretas nas mãos, para modelar aquele mundo estranho até um formato conhecido, eliminando toda a estranheza, a boca cheia de pregos, parecidos a animais carnívoros com dentes de aço  [...]).

Apesar da postura místico-religiosa adotada em ... E a lua continua brilhando - que não me agrada - tenho que reconhecer: trata-se de um clássico da ficção científica.  
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* BRADBURY, Ray.  As crônicas marcianas.  São Paulo: Globo, 2005 [Tradução de Ana Ban]

BG de Hoje

98% da música pop atual originou-se da música produzida por negros dezenas de anos atrás. Jazz, Soul, Blues, Reggae, Dance, Funk (além do Rap, obviamente). E também o Rock, ora essa! Mas, ao longo do tempo, o gênero foi sendo dominado pelos brancos, principalmente nas suas vertentes mais pesadas, como é o caso do heavy metal. Entre as poucas bandas dentro deste segmento formadas exclusivamente por negros está o competentíssimo LIVING COLOUR. No vídeo, uma canção (do primeiro disco do grupo, em 1988) cuja letra diz muito sobre este blogueiro: Middle Man.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

"O melhor dos seres humanos"


O título desta postagem foi retirado do conto Evidência, outra das excelentes histórias do livro Eu, robô, de Isaac Asimov*. Faz parte de uma declaração da personagem Susan Calvin. Ela diz: " [...] você não pode diferenciar entre um robô e o melhor dos seres humanos".

Mas em que ela se baseia para fazer tal afirmação? Nas famosas "três leis da Robótica" ** , invenção genial do escritor norte-americano (nascido na Rússia) e que sustentam todas as nove narrativas das quais o livro se compõe.

Susan Calvin, que gostava mais dos robôs do que dos seres humanos, explica:

" [...] se parar para pensar nelas, as três leis da Robótica são os princípios essenciais que guiam muitos dos sistemas éticos do mundo. É claro que todo ser humano deve ter um instinto de autopreservação. Esta é a lei número três para um robô. Igualmente, todo "bom" ser humano, com uma consciência social e um senso de responsabilidade, vai seguir a autoridade adequada ; ele ouvirá o que diz seu médico, seu chefe, seu governo, seu psicólogo, seu companheiro, ele obedecerá as leis e seguirá as regras, seguindo os costumes, mesmo quando isso interferir no seu conforto ou na sua segurança. Esta é a lei número dois para um robô. E do mesmo modo, todo "bom" ser humano deve amar aos outros como a si mesmo, protegendo seus companheiros, arriscando sua vida para salvar as vidas de outros. Esta é a lei número um para um robô. Resumindo: se Byerley [personagem central da narrativa] seguir todas as leis da robótica, ele poderá ser um robô, mas também poderá ser apenas um homem muito bom".

Vale ressaltar que Isaac Asimov propôs as três leis por não concordar com aquilo que chamava de "síndrome de Frankenstein", isto é, "a crença de que robôs e seres artificiais seriam uma ameaça à humanidade" ***.

Por essa razão, detestei o filme Eu, robô, estrelado por Will Smith (I, robot - direção de Alex Proyas, 2004). Há uma distorção da concepção de Asimov. Além do mais, a personagem da Dra. Susan Calvin (no filme, interpretada pela belíssima atriz Bridget Moynahan) tem papel secundário - completamente diferente do livro.

Se você que está lendo esta postagem só conhece o filme, recomendo a leitura desse livro essencial na história da ficção científica.

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* ASIMOV, Isaac. Eu, robô.  Rio de Janeiro: Ediouro, 2004 [tradução de Jorge Luiz Calife]

** As três leis da Robótica são:
" Primeira Lei: um robô não pode ferir um ser humano ou, através da inação, permitir que um ser humano seja ferido.
Segunda Lei: um robô deve obedecer às ordens dadas por seres humanos exceto se tais ordens entrarem em conflito com a Primeira Lei.
Terceira Lei: um robô deve proteger sua própria existência desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou a Segunda Lei ".

*** De acordo com o prefácio de Jorge Luiz Calife para a edição de Eu, robô mencionada acima.

BG de Hoje

Outro dia estava lendo uma breve nota sobre Lars Ulrich, o baterista do METALLICA. O músico dizia que "regrediu". Será? Bem, Ulrich não é mais um garoto e talvez não tenha mais a mesma velocidade e energia de antes. Mas ainda o considero um ótimo baterista. Confira em Disposable Heroes, canção do discaço Master of Puppets (1986), numa apresentação registrada há três anos.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Religião robótica


Um dos melhores contos de Eu, robô * - clássico da ficção científica escrito por Isaac Asimov em 1950 - chama-se Razão.

É uma narrativa bem-humorada na qual QT-1, robô montado para controlar uma Estação Solar e curioso em relação à sua existência, conclui ter sido escolhido pelo "Mestre" (na verdade, o Conversor de Energia da estação) para ser seu profeta.

O que torna o conto ainda mais fascinante é o modo como o robô chegou a tal conclusão.

QT-1 é um racionalista puro (em determinado momento um dos personagens humanos da narrativa, Gregory Powell, diz: "Por Júpiter, um robô Descartes!"). Para se ter uma ideia, quando questionado a respeito das evidências percebidas através dos telescópios que observava, QT-1 reage: "Desde quando a evidência de seus sentidos compara-se à luz clara do raciocínio rígido?". O robô não tem dúvida de que a cadeia de raciocínios que o levou ao "Mestre" é a correta.

Asimov faz questão de ressaltar essa estranha armadilha da lógica. "Você pode provar o que quiser através do frio raciocínio lógico, desde que escolha os postulados adequados", observa o personagem Powell, e acrescenta: "Postulados são baseados em conjecturas e aceitos pela fé. Nada no universo poderá abalá-los".

Importante observar que a palavra fé, utilizada no excerto acima citado, não foi uma boa escolha (por parte do autor ou, talvez, do tradutor - não sei dizer); melhor teria sido crença, menos carregada de conotação religiosa. E Isaac Asimov não tinha nenhuma simpatia pelas religiões. Daí o lado irônico da narrativa.

Uma das passagens mais divertidas do conto se dá quando QT-1, "olhando para cima devotamente", afirma que "existem coisas que não devem ser investigadas por nós". O profeta robótico, mesmo considerando-se um "ser racional, capaz de deduzir a Verdade a partir das Causas" - mas que não considera os livros "uma fonte válida de informações"  - adota a mesma postura obscurantista e anti-intelectualista da maioria dos adeptos das religiões humanas.
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* ASIMOV, Isaac. Eu, robô.  Rio de Janeiro: Ediouro, 2004 [tradução de Jorge Luiz Calife]

BG de Hoje

Um clipe infantilmente sádico. Mas eu acho muito engraçado. Ah, e a canção também é ótima: Drunk girls, com o LCD SOUNDSYSTEM

quinta-feira, 31 de maio de 2012

30 anos de Blade Runner



Não me lembro bem, mas creio ter sido um de meus irmãos (faz tempo...) que me recomendou o filme Blade Runner, o caçador de androides (Blade Runner, 1982 - direção de Ridley Scott).

Assisti pela primeira vez numa distante madrugada televisiva. Acho que tinha uns 13 ou 14 anos na época. E, por isso, Blade Runner representou um aprendizado: a partir dali começava a me tornar um espectador menos ingênuo. Sem exagero, foi uma obra que contribuiu para meu amadurecimento.

O cult movie de Ridley Scott completa, em 2012, 30 anos desde sua estreia nos cinemas (aliás, eu só o assisti numa tela grande em 1989, durante retrospectiva dos 10 melhores filmes daquela década, no cine Humberto Mauro, dentro do Palácio das Artes aqui de BH). Passado esse tempo, cabe perguntar: a obra ainda tem algo a nos dizer? Penso que sim.

Uma das maneiras de se avaliar uma produção de ficção científica é tentar verificar o que se tornou (ou pode, no curto prazo, se tornar) "realidade" nas "previsões" feitas pela narrativa. Nesse quesito, Blade Runner acertou em cheio ao retratar uma megalópole (no caso, Los Angeles, no ano de 2019) apinhada de gente, com ruas sombrias e tristes, mas habitada por pessoas das mais diversas nacionalidades, numa miscelânea de idiomas e comportamentos. Isso é bem similar ao que se pode encontrar em boa parte dos centros urbanos mundo afora. Contudo, mesmo antecipando o avanço da engenharia genética, não estamos nem perto de testemunhar o aparecimento de androides tais como os que são personagens do filme.

Ontem revi o filme em DVD (versão do diretor) e constatei que as perguntas contidas em Blade Runner não deixaram de ser importantes pra mim: afinal, o que define um ser humano? O que pode justificar nosso viver (se é que este precisa de alguma justificativa)?

O policial Gaff - esplendidamente interpretado por Edward James Olmos - numa da últimas cenas do filme diz: "It's too bad she won't live. But than again, who does? [É pena que ela não viverá. Mas quem vive?]. Ele está se referindo à Rachael, androide possuidora de uma memória falsa e que também deveria ser "retirada" (ou seja, executada). Só que essa fala do personagem vai mais além e acaba por recuperar a questão - velha, mas inescapável para a humanidade -  proposta pelo filme: qual o significado (ou o sentido, como queiram) de nossa existência?

Blade Runner, nem preciso dizer, é uma das minhas obras prediletas.

BG de Hoje

A trilha sonora do filme, composta por VANGELIS, também acabou virando cult. Gosto muito do tema final.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Dor


Dias atrás, mau humorado (meu "estado de espírito" habitual) e bêbado, desagradei as pessoas com quem conversava num bar que frequento bastante. Não me lembro direito do assunto: só sei que a conversa enveredou para aquele ponto chato no qual as pessoas começam a exaltar suas "virtudes" pessoais, mentindo e autoelogiando-se. Foi quando eu disse, não sei por que: as únicas coisas com que devemos nos preocupar são o dinheiro e a dor física, o resto é conversa fiada. O clima ficou pesado. Não estava nem aí.

No outro dia, sóbrio, tentei encontrar a razão de ter dito aquilo. Suponho ter achado. Antes, porém, falemos de dois romances distintos, mas nos quais a violência tem papel destacado.

Em À espera dos bárbaros *, "fábula" escrita por J. M. Coetzee, o magistrado, personagem protagonista da narrativa, após conversa com o coronel Joll, experimentado torturador, conclui: " a dor é a verdade; tudo o mais está sujeito a dúvida".

Por sua vez, em 1984 **, distopia célebre elaborada por George Orwell, lê-se o pensamento desesperado de Winston Smith, submetido à intensa tortura a partir do final da narrativa:

"Nunca, por nenhuma razão, se poderia desejar que a dor aumentasse. Da dor, só se podia desejar uma coisa, que parasse. Nada no mundo era tão horrível como a dor física. Em face da dor não há heróis, não há heróis, ele pensou e tornou a pensar, torcendo-se no chão, segurando à toa o braço esquerdo invalidado".

No livro de Coetzee, a vida tranquila do magistrado que narra o romance é inteiramente transformada pela chegada de militares brutais, para os quais a tortura e os castigos físicos eram expedientes legítimos. Na obra de Orwell, Winston Smith experimenta todos os tipos de sofrimento físico perpetrados pelo poder oficial. Nos dois casos, qualquer oposição ou resistência é baldada: não se pode vencer a dor física.

São textos impactantes, cada um a seu modo; duas belas construções literárias, não obstante a tristeza e a desesperança que emanam delas.

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Pode-se encher a existência de sentimentalidades, convivências, convicções e valores. São ilusões que todos cultivamos, em maior ou menor grau. No fundo, a maioria dos seres humanos (inclusive este blogueiro, é óbvio) só se preocupa , egoisticamente, em arrumar dinheiro e evitar a dor física. Eis a condição humana resumida, penso eu. É cru e grosseiro, reconheço. Nem por isso, fácil de se conseguir. Muito pelo contrário.
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* COETZEE, J. M.. À espera dos bárbaros. São Paulo: Companhia das Letras, 2006 [tradução de José Rubens Siqueira ]
* * ORWELL, George. 1984. 16 ed. São Paulo: Ed. Nacional, 1983 [tradução de Wilson Velloso]

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Diferentes modos de sermos estúpidos (1)


Alguns livros provocam um grande impacto em nossas vidas, chegando mesmo a mudar o modo como víamos o mundo antes da leitura deles. No meu caso, Admirável mundo novo, de Aldous Huxley*, desempenhou esse papel essencial, junto com outras obras, muitos anos atrás. Em uma de suas mais marcantes cenas - o diálogo entre John (o Selvagem) e o Administrador Mundial Mustafá Mond - lemos o seguinte trecho, no final do capítulo 18

" - Mas eu gosto dos inconvenientes. 
- Nós, não. Preferimos fazer as coisas confortavelmente.
- Mas eu não quero conforto. Quero Deus, quero a poesia, quero o perigo autêntico, quero a liberdade, quero a bondade. Quero o pecado. 
- Em suma - disse Mustafá Mond - o senhor reclama o direito de ser infeliz.
- Pois bem, seja - retrucou o Selvagem em tom de desafio - Eu reclamo o direito de ser infeliz.
- Sem falar no direito de ficar velho, feio e impotente; no direito de ter sífilis e câncer; no direito de não ter quase nada que comer; no direito de ter piolhos; no direito de viver com a apreensão constante do que poderá acontecer amanhã; no direito de contrair a febre tifóide; no direito de ser torturado por dores indizíveis de toda espécie.
Houve um longo silêncio. 
- Eu os reclamo todos - disse finalmente o Selvagem
Mustafá Mond encolheu os ombros.
- À vontade - respondeu."

Em  Admirável mundo novo, como se sabe, as consequências do progresso científico e tecnológico são mostradas por um prisma um tanto sinistro. E, apesar de não ter tantas restrições assim ao modo de pensar de Mustafá Mond, sou obrigado a reconhecer que a sociedade futurista lá mostrada é assustadora, com sua estrutura rigorosamente planejada de castas, sua eugenia, sua aversão às manifestações artísticas, num estado totalitário em que "todos amam a servidão". Mesmo considerando-me um sujeito apegado à racionalidade, acuso o golpe toda vez que releio o romance. Além disso, o livro demonstra o quanto existe de infantilidade e covardia na postura adotada por tantas pessoas ao evitar, a todo custo, o contato com aquilo que consideram fonte de desprazer e desgosto, mas que é sempre humano, demasiada e inevitavelmente humano.

Mudando de assunto, mas não completamente.

O cantor e compositor Zeca Baleiro, poucas semanas atrás, na seção Última Palavra, da revista Istoé**, expôs um interessante ponto de vista a respeito de uma lei contra o fumo em vigor em São Paulo. O nome do artigo não poderia ser melhor: Admirável mundo limpo. Escreve o artista maranhense:
"A questão é: por trás dessa e de outras leis, no bojo dessa cruzada pela assepsia pública, parece haver um desejo inconsciente (ou não!) da humanidade de sanear, de limpar o mundo de tudo que é torto, sujo, do que sugere desordem, desarmonia, como se o mundo pudesse algum dia ser um lugar plenamente limpo e confortável, livre de contágios e impurezas. Quando digo 'limpar o mundo', isso inclui desde fumantes até carros velhos, pessoas pobres, gente malvestida, atitudes 'inadequadas' e falas politicamente incorretas".

Por fim, Baleiro observa "que a vida é suja e para limpá-la, criamos leis que nos protejam das ameaças, que nos blindem dos perigos, da doença, da contaminação". Como se fosse possível escapar das pequenas e grandes "armadilhas" que nos são preparadas pela natureza e pela condição humana...


Voltarei ao tema nas próximas postagens.

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* HUXLEY, Aldous. Admirável mundo novo. 26 ed. São Paulo: Globo, 2000 [tradução de Vidal de Oliveira e Lino Valandro]

** BALEIRO, Zeca. Admirável mundo limpo. Istoé, São Paulo. Ano 32, n. 2075, p. 122, ago. 2009