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quinta-feira, 7 de julho de 2022

Não me leve a mal, mas vou torcer pelo herói


                      

A melhor maneira de definir um herói ou uma heroína, penso eu, é observar seu(s) mais significativo(s) feito(s). Com o perdão pela tautologia, um herói ou uma heroína caracterizam-se essencialmente como realizadores de um ou mais atos heroicos. Se estivermos de acordo nesse ponto, devemos nos perguntar então: o que confere heroicidade a um ato?

Creio que a maioria das pessoas dirá que um ato heroico deve denotar bravura, coragem. Uma ação dessa natureza também carrega um forte componente moral: sua finalidade é ajudar ou salvar outra(s) pessoa(s), ficando o bem-estar ou a segurança do agente em segundo plano. NOTA: Algo que me enerva profundamente é o exagero retórico típico de muitas pessoas (entre elas, jornalistas) chamando de herói um atleta que, sei lá, fez X pontos numa partida ou marcou um gol na decisão de um campeonato. É o mesmo exagero retórico que fala em time de guerreiros. Diabos me carreguem! É esporte! Não é questão de vida ou morte - ou, pelo menos, não deveria ser.

Meu intuito, ao destacar o ato e não o indivíduo que o executa, é afirmar a grande improbabilidade de alguém ser herói full time. Como se sabe, a palavra herói vem da Antiguidade e na mitologia greco-romana designava alguns semideuses, ou seja, criaturas com capacidades extraordinárias, únicas, acima do que um simples humano - um "mero mortal" - pode fazer. Essas habilidades, em geral, diziam respeito à destreza em combate ou à força física. Com o passar do tempo, o conceito de herói incorporou sentidos relacionados ao caráter dos sujeitos assim nomeados: além de corajosos e bons de briga, supostamente honrados e decentes. Ora, que homem ou mulher normal consegue ser tudo isso integralmente, em todas as fases de sua vida?

Essas questões voltaram à minha mente semanas atrás, quando reli (pela enésima vez) A hora e vez de Augusto Matraga, narrativa que fecha o Sagarana, um dos meus livros de cabeceira. De cafajeste a redentor, o protagonista dessa novela de Guimarães Rosa é, em minha opinião, a grande figura  heroica da literatura brasileira. Relembremos como se dá a transformação do personagem.

"Duro, doido e sem detença, como um bicho grande do mato" ¹, segundo a esposa Dionóra - que foge dele para viver com outro -, Nhô Augusto é um mandachuva de roça em franca e rápida decadência. Após mais um de seus rompantes, um coronel adversário aproveita a oportunidade para ir à forra. Nhô Augusto é espancado, marcado a ferro. Tentando fugir dos capangas que queriam matá-lo, salta em uma ribanceira profunda. Gravemente ferido, quase morto, é resgatado e cuidado por um casal de pobres e velhos lavradores, Quitéria e Serapião. Aconselhado por um padre, desiste dos planos de vingança, envergonha-se do passado vil e violento  e passa a demostrar uma fé poderosa: "- Eu vou p'ra o céu, e vou mesmo, por bem ou por mal... E a minha vez há de chegar... P'ra o céu eu vou, nem que seja a porrete!..."

Mudando-se pra outro lugarejo mais distante acompanhado pelos campônios que o salvaram, fugindo da vida antiga, o personagem converte-se num trabalhador braçal incansável, "meio doido e meio santo", abstêmio e reservado. Contudo, passados alguns anos, "pouco a pouco, devagarinho, imperceptível, alguma cousa pegou a querer voltar para ele, a crescer-lhe do fundo para fora, sorrateira como a chegada do tempo das águas, que vinha vindo paralela". Por coincidência - ou por um lance do destino -, chega ao vilarejo justamente nessa época uma quadrilha de jagunços liderados pelo "homem mais afamado dos dois sertões do rio: célebre do Jequitinhonha à Serra das Araras, da beira do Jequitaí à barra do Verde Grande, do Rio Gavião até nos Montes Claros, de Carinhanha até Paracatu; maior do que Antônio Dó ou Indalécio; o arranca-toco, o treme-terra, o come-brasa, o pega-à-unha, o fecha-treta, o tira-prosa, o parte-ferro, o rompe-racha, o rompe-e-arrasa: Seu Joãozinho Bem-Bem".

O povoado se assusta, mas Nhô Augusto é pura euforia. Faz questão de receber todo o bando em seu pedacinho de terra, oferecendo o que de melhor conseguiu arrecadar na vizinhança. O líder da jagunçada aprova o bom tratamento dado a seus homens; já havia simpatizado com o anfitrião antes, só de tê-lo visto caminhando na estradinha. No dia seguinte, preparando-se para partir, Joãozinho Bem-Bem diz: " - Mano velho, o senhor gosta de brigar, e entende. Está se vendo que não viveu sempre aqui nesta grota, capinando roça e cortando lenha...". Convida-o para integrar o "seu povo". Nhô Augusto resiste à tentação, porém. 

Tempos depois, decide ir-se embora, vagar pelo sertão, sentindo-se menos opresso pelos hábitos severos que adotara na "nova vida". Viajando montado num jumento, acaba reencontrando Joãozinho Bem-Bem e sua hoste, dentro  da casa de um fazendeiro aliado do bandido, no arraial do Rala-Coco, próximo àquele de onde o protagonista dessa história fugira. 

Chegamos ao clímax de A hora e vez de Augusto Matraga.

O chefe dos jagunços - seguindo "regras" da jagunçagem - precisa vingar a morte de um de seus sequazes, baleado "à traição" por um habitante do arraial, em fuga a essa altura. Para tanto, irá matar um dos filhos de um velho sertanejo (irmãos do rapaz em fuga) e permitir que os outros bandoleiros estuprem as filhas dele. O velho, chorando ajoelhado, implora piedade. Joãozinho Bem-Bem nega. Desamparado, mas dessa vez com fúria, o lavrador vocifera:

"- Pois então, satanás, eu chamo a força de Deus p'ra ajudar a minha fraqueza no ferro da tua força maldita!..."

Nhô Augusto estava no mesmo recinto, sentado num selim velho, presenciando toda a cena, de posse das armas do recém-assassinado jagunço, que lhe foram oferecidas pelo próprio Joãozinho Bem-Bem, num segundo convite para que ele se juntasse ao bando.

Após um momento de silêncio, fala:

"- Não faz isso, meu amigo seu Joãozinho Bem-Bem, que o desgraçado do velho está pedindo em nome de Nosso Senhor e da Virgem Maria! E o que vocês estão querendo fazer em casa dele é coisa que nem Deus não manda e nem o diabo não faz!"

O narrador prossegue:

"Nhô Augusto tinha falado; e a sua mão esquerda acariciava a lâmina da lapiana, enquanto a direita pousava, despreocupada, no pescoço da carabina. Dera tom calmo às palavras, mas puxava forte respiração soprosa, que quase o levantava do selim e o punha no assento outra vez. Os olhos cresciam, todo ele crescia, como um touro que acha os vaqueiros excessivamente abundantes e cisma de ficar sozinho no meio do curral".
O que se segue é uma luta sangrenta entre Nhô Augusto e alguns jagunços, culminando num duelo final, à ponta de faca e no meio da rua, entre o protagonista e o líder dos facínoras. Joãozinho Bem-Bem é morto, mas Nhô Augusto - agora Augusto Matraga ² - também morrerá, em razão dos muitos ferimentos. Enquanto tentava achar um padre para acudir, o povo do Rala-Coco dizia: "Foi Deus que mandou esse homem do jumento, por mór de salvar as famílias da gente!..."

O antropólogo Roberto DaMatta, num ensaio ³ em que classifica o personagem de Guimarães Rosa como um renunciador (alguém que representa uma "saída da 'ordem'", isto é, alguém que se livra das amarras e da fixidez das hierarquias sociais), observou que, mesmo havendo identificações entre este e Joãozinho Bem-Bem (sujeitos violentos e discricionários em suas ações, próximos do poder no Brasil rural representado na obra do escritor mineiro), a intervenção de Nhô Augusto (convertido em Augusto Matraga, ao salvar a família do velho sertanejo) "o transforma em representante do Bem, em oposição ao representante do Mal". Não há nada de simplismo maniqueísta em tal afirmação. Parágrafos acima, escrevi sobre a improbabilidade de alguém ser herói o tempo todo e preferi enfatizar o(s) ato(s) e não o indivíduo que o(s) praticou. Pessoas têm falhas e vícios, o que contrasta com a noção mais corriqueira do que seja um herói. Por isso, a ação é fundamental, determinante, mesmo em se tratando de um ser ficcional.

Nhô Augusto foi um rematado patife em grande parte de sua vida. Quando chegou a hora derradeira, entretanto, realizou um ato heroico admirável. Praticou o bem diante de um mal presente e imediato.

Penso, por exemplo, em outras figuras heroicas - dessa vez, pinçadas no mundo real: o pastor norte-americano Martin Luther King Jr, a ativista paquistanesa Malala Yousafzai, o jornalista australiano Julian Assange. Ainda que sejam pessoas humanamente imperfeitas, praticaram atos que demandavam grande coragem, visando ajudar outras pessoas (e todos os três colocaram suas próprias vidas em risco, sendo que o primeiro foi assassinado).
 
Mas há quem busque também pelo herói impecável.
 
. . . . . . . 
 
O episódio inicial da primeira temporada da série Reacher (disponível na Amazon Prime, estrelada pelo ator Alan Ritchson) não perde tempo com firulas. De cara, o espectador já tem um perfil completo do protagonista, não importando se não tenha lido nenhum dos livros de Lee Child (criador do personagem) ou assistido aos dois filmes em que Tom Cruise o interpretou antes. Neste episódio, nas primeiras cenas em que aparece, intimida - sem dizer uma única palavra ou fazer qualquer gesto - um sujeito que xingava e ameaçava de agressão a companheira.

Jack Reacher é um cara bonito, alto, forte, bom de briga e muito sagaz (vários dos leitores de Child elogiaram a escolha do ator que o interpreta pois se encaixaria na descrição contida nos livros). Faz tudo o que se espera do personagem central neste tipo de produto de entretenimento: investiga e desvenda um grande esquema criminoso, mata os caras maus, defende pessoas em perigo. Há uma cena no quinto episódio que acho muito prazerosa de assistir. Ao ver que o carro de uma mulher com quem estava envolvido (uma policial) foi pichado com a palavra "whore", ele vai tirar satisfações com o filho mimado do ricaço da cidadezinha onde estava. Poucas vezes vi um tapa na cara tão bem dado.

A atração da Amazon Prime não se preocupa em fugir dos clichês; o herói ali retratado também não tem nada de inovador ou surpreendente - e quem já viu (num filme ou seriado) um ex-militar dos EUA, hétero e branco, salvando o dia, já viu todos. Ainda assim, considero um programa de TV muito bom (não que eu dê muita bola para isso, mas o agregador de resenhas Rotten Tomatoes registra 90% de opiniões favoráveis a Reacher). Será que nós (falo dos espectadores saturados com os produtos televisivos norte-americanos) viramos um público tão pouco exigente?
 
Minha resposta será simples - talvez até simplória. Paciência; é o que tem pra hoje.
 
Grande parte (talvez a maioria) das iniquidades do mundo não é e não será punida. Fraudadores e sonegadores continuam ganhando muito dinheiro com falcatruas; bilionários continuam explorando pessoas; políticos e agentes públicos continuam prevaricando. Bullies seguem oprimindo; predadores sexuais seguem atacando; racistas seguem propagando ódio; assassinos seguem espalhando terror. Acho risíveis afirmações de que há mais pessoas boas do que pessoas más no planeta ou o otimismo de intelectuais como Steven Pinker. Atos perversos costumam provocar danos de grande alcance e longa duração, mesmo que vivamos no "melhor dos mundos possíveis".

É aí que entra a ficção.

É satisfatório e recompensador ver ou ler - pelo menos na ficção - que o cara mau levou o que merecia.

Cheguei a um ponto em que me contento com pouco. Por isso, sempre torço para os heróis em narrativas inventadas.

___________

¹ ROSA, João Guimarães. A hora e vez de Augusto Matraga. In: _________. Sagarana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001 (p. 363-413). Todas as citações do texto de Rosa presentes nesta postagem foram retiradas dessa edição.

² Importante mencionar que, no texto, João Guimarães Rosa não explica o que significa a alcunha Matraga, nem como ela foi adicionada à figura de Augusto Esteves.

³ DaMATTA, Roberto. Augusto Matraga e a hora da renúncia. In: __________. Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. 6 ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1997. p. 303-334

BG de Hoje

Como alguns outros grupos de heavy metal, o AVENGED SEVENFOLD foi abrandando sua música ao longo dos mais de 20 anos de existência da banda (não vejo nada de errado nisso, diga-se de passagem). A desaceleração nos instrumentos é nítida, bem como a aproximação com o rock pesado mais tradicional. Um exemplo disso é a canção que dá título a um dos últimos trabalhos de estúdio do grupo, lançado há quase dez anos. A sonoridade e a temática de Hail To The King quase derrapam na breguice de alguns representantes dessa vertente musical (penso, por exemplo, no burlesco Manowar), mas, ao cabo, é uma faixa que se ouve com satisfação.


sexta-feira, 21 de maio de 2021

Nem tudo precisa ser ruim o tempo todo


Um número considerável de pessoas ficou com bastante tempo livre no ano passado, decorrente da observância (mais rigorosa para alguns, mais descuidada para outros) do distanciamento social.

Uma delas era eu.
 
No trabalho, fui colocado em regime de sobreaviso, da penúltima semana de março até o último dia de agosto. Felizmente, não tive redução nem suspensão de salário, apenas não recebi o vale-refeição (fez falta, viu). 
 
Nesse ponto, tenho que admitir que estava em condição privilegiada. Todos sabemos que um sem-número de trabalhadores teve descontos pesados na remuneração, além de outra imensidão de gente que perdeu o emprego. Sem falar nos informais, impossibilitados de ganhar algum em ruas onde a circulação de pessoas já não era a mesma dos dias normais.

Nunca a proposta de uma renda básica universal pareceu tão razoável quanto nessa crise provocada pela COVID.

Falávamos, porém, do tempo livre.

Gosto de TV. E, sempre que posso, assisto sem qualquer moderação. É um passatempo relativamente barato e acessível. Além do mais, não tenho vida social (expressão menos crua que as pessoas usam para evitar dizer que não têm amigos(as) com quem sair, nem encontram parceiras(os) sexuais). Nesse aspecto, a pandemia teve pouquíssimo efeito sobre mim. Muitos não aceitaram bem ter que ficar apartados. A minha casca, entretanto, já está um bocado grossa para lamentar distanciamentos.

Embora concorde que a programação televisiva merece muito da reprovação que lhe é dirigida (sobretudo pela turma mais intelectualizada), continuo com a opinião de que a TV deve ocupar-se em oferecer apenas entretenimento. Como já escrevi aqui, não é razoável esperar que a TV tenha um papel educativo, no sentido rigoroso. Sei que isso não é aplicável a todos, mas, quando estou em busca de profundidade, leio um livro ou vou a um museu. E se intenciono ficar bem informado, sou assinante de um ótimo jornal online (Nexo) e apoio uma excelente agência de jornalismo investigativo (Agência Pública). Após um cansativo dia de trabalho, todavia, tudo que quero é o descompromisso de um blockbuster ou a agitação controlada de uma partidinha de basquete ou de vôlei.

Além disso, é injusto colocar todos os produtos de entretenimento no mesmo balaio.

Reconheço que a TV exibe muita merda (os canais abertos, principalmente, mas os pagos também têm lá o seu quinhão de lixo). O entretenimento de boa qualidade, contudo, não está tão em falta como se alardeia.

. . . . . . .

Nem de longe posso me considerar um consumidor habitual de séries. Antes de começar a assisti-las, sempre me faço a mesma pergunta: "será que estou realmente disposto a investir tempo nesse troço?". Já perdi a conta dos títulos em que empaquei, não exatamente porque não tenha gostado, mas porque me deu uma certa preguiça (por exemplo, até hoje não passei do 3º episódio da 1ª temporada de Stranger Things e - para citar uma mais recente - estaquei no meio da temporada inaugural da japonesa Alice In Borderland).

Como não costumo ter a disposição requerida para me "dedicar" a uma série, geralmente escolho o que assistir a partir do gênero. Prefiro as comédias, muito embora seja um sujeito mal-humorado. Certamente gosto de outros tipos de produção (como, por exemplo, a ótima ficção científica The Expanse, na Amazon Prime Video, ou o drama Goliath, também no mesmo serviço de streaming, e, claro, Mr. Robot, outra série dramática, minha predileta - sobre a qual já escrevi aqui -, exibida no canal Space anteriormente e hoje disponível no catálogo da Amazon ¹). No geral, porém, opto por seriados cômicos (pretendo escrever, mais para diante, uma postagem sobre isso).

E duas comédias sensacionais, cada uma a seu modo, tornaram alguns daqueles dias com fartura de tempo livre mais aprazíveis ainda. Falo de Brooklyn Nine-Nine e The Good Place.

Ambas as séries tem o dedo do talentoso roteirista e produtor Michael Schur.

Brooklyn Nine-Nine ganhou os noticiários um tempinho atrás quando os fãs se mobilizaram através das mídias sociais para tentar evitar o cancelamento do programa, que era produzido pela Fox. 
 
Funcionou. 
 
A NBC decidiu dar continuidade e mais duas temporadas foram realizadas. Este ano vai ao ar a última, com apenas 10 episódios. Na TV por assinatura, assisti algumas vezes na TBS e na TNT. Recentemente estava, no Warner. No meu período de sobreaviso pude "maratonar" com tranquilidade, pois faz parte também do catálogo da Netflix.

Por que acho a série tão boa?

Porque, sem ter que inventar moda, ela usa muito bem um dos elementos mais importantes da comédia: o ritmo. A transição de cenas é formidável. As aberturas (cold opens), às vezes, são de rolar de rir, como essa abaixo, que ficou famosa: 
 

Além disso, percebe-se o cuidado dos roteiristas com cada uma das figuras centrais (algo visto também em outro trabalho de Michael Schur que eu adoro, Parks And Recreation) e há ótimos atores. Andre Braugher (que interpreta o capitão Raymond Holt), Joe Lo Truglio (detetive Charles Boyle) e Stephanie Beatriz (detetive Rosa Diaz) são os destaques, em minha opinião. Em relação aos personagens, as que mais me divertem são a secretária Gina Linetti, uma das preferidas do público (interpretada pela comediante Chelsea Peretti), e a já citada Rosa Diaz.

Tenho certeza de que vou continuar assistindo e me divertindo com Brooklyn Nine-Nine ao longo da vida, independentemente de quantas vezes já tenha visto determinado episódio. 
 
Devo dizer, porém, que não me lembro de sentir tanto contentamento com um programa de TV quanto senti ao assistir The Good Place. 
 
Sem receio de exagerar, é das coisas mais inteligentes, engraçadas e enternecedoras que já vi.

Em 2016, o frisson em torno da atração (produzida e exibida nos EUA pela NBC) já era percebido aqui no Brasil através da web.

Quando a Netflix (detentora dos direitos de distribuição internacional do programa) incluiu a série em seu catálogo, não tive afobação nenhuma para assistir (desenvolvi esse hábito: quanto mais percebo um certo hype em torno de um filme, uma banda de música, uma série, etc., menos pressa tenho de conhecer - por isso que até hoje não comecei a ver La Casa de Papel, por exemplo, e esse também é um dos motivos por que não tenho nenhum interesse em Game Of Thrones).

No segundo mês do sobreaviso, porém, sem aperto de tempo, resolvi dar uma olhadinha descompromissada. 

Babei.

É fascinante, visualmente: cenários, figurinos, uso das cores. Os atores dão um show, com destaque para D'Arcy Carden (que interpreta Janet) e a participação de Maya Rudolph, como a impagável Juíza. Os roteiristas não se excedem nas referências à cultura pop na hora de fazer as piadas (e creio que o(a) eventual leitor(a) concorda comigo que um dos grandes males de boa parte do entretenimento contemporâneo é a profusão de gracinhas forçadas explorando a cultura pop).

Mas tem mais.
 
Por que acho a série tão boa?

Porque, sendo um grande interessado em Filosofia, nunca imaginei que este tema apareceria de forma tão destacada num seriado de TV! E que, não poucas vezes, apareceriam personagens segurando livros, lendo e falando do conteúdo desses livros! E que isso não seria chato, muito pelo contrário!

Chidi Anagonye, o professor de Filosofia Moral incumbido de tentar melhorar a si e aos outros na série (interpretado pelo ator William Jackson Harper), tem um papel fundamental em The Good Place (embora recorrentemente ouça a frase: "Everyone hates Moral Philosophy Professors"). É o meu personagem preferido, junto com Michael (Ted Danson), o demônio que acaba desejando virar um ser humano.

Embora trate de algo caro à maioria das religiões - a crença de que há vida após a morte -, a série passa ao largo da pregação religiosa. Consegue-se fazer rir a partir de concepções e experimentos filosóficos (a esse respeito, recomendo muito o 5º episódio da segunda temporada, O dilema do bonde).

Nunca imaginei que veria qualquer coisa como essa acondicionada como entretenimento.

. . . . . . .

Toda vez que me deparo com um otimista, fico tomado de perplexidade: "Como é possível ser esperançoso neste mundo de merda em que vivemos?". Toda vez que ouço alguém rir à solta, me pergunto: "Como é possível gargalhar com esse ânimo, quando se sabe que há tanta opressão e ganância por aí?". Dos muitos defeitos que tenho, um deles é raramente ser capaz de olhar a vida com positividade.
 
Criações como Brooklyn Nine-Nine e The Good Place não vão me "curar" do pessimismo crônico. Mas não nego que são um lenitivo.

Pessoas como eu precisam do humor (e também da pieguice, por que não?) de programas assim.

Tráfico de pessoas, racismo, superexploração dos recursos naturais, abuso de poder econômico, miséria e fome... A lista de desgraças existentes é imensa. Não é à toa que o cinismo hoje é visto com um comportamento "ético" aceitável. E, quando não estamos encalacrados nos expedientes de trabalho estéreis que nos restam dentro da ordem capitalista, ainda somos submetidos, nos momentos de "lazer", a produtos de entretenimento que só faltam exclamar: "Espectador, você é um idiota!" - telenovelas, programas de auditório, reality shows, overdose de mesas-redondas em torno de futebol, reprises e mais reprises de filmes ruins, etc.

De vez em quando, porém, surge algo acima da média. Algo verdadeiramente divertido, perspicaz e emocionante.

A vida é uma sucessão de infortúnios, não consigo ver de outra forma. 
 
Mas nem tudo precisa ser ruim o tempo todo.
 
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Uma última observação:  serviços de streaming, tais como Netflix, Amazon Prime Video, Disney +, HBO Max (e outros que estão para chegar), induzem a uma fruição bem parecida com a da TV tradicional. Podem ter a comodidade da escolha do melhor horário para assistir, da possibilidade de pausa ou avanço (que não são possíveis no modelo broadcast), mas costumamos consumir as atrações desses serviços de forma bem similar ao modo como estamos habituados: comodamente sentados num sofá, graças aos aparelhos de televisão modernos com conexão de internet.

Por isso, mesmo estando no streaming, não vejo problema algum de classificar tudo isso como conteúdo televisivo.

__________
¹ Gosto tanto da série que tenho em DVD (original) as três temporadas que chegaram ao Brasil. A quarta - e última -, mesmo tendo sido exibida nos EUA há quase dois anos, ninguém sabe quando poderá ser vista por aqui. Tremenda sacanagem com os espectadores.


BG de Hoje

Por falar em criações que me fazem bem, Fortune Faded, dos RED HOT CHILI PEPPERS está entre as canções que mais me dão vontade de sair pulando e dançando. Gosto demais dessa faixa! Não posso deixar de mencionar também que uma das perguntas que determinavam se alguém é fundamentalmente mau em The Good Place era: "Você já pagou para ouvir música tocada pela banda de funk rock da Califórnia Red Hot Chili Peppers?". Eu já, tenho quatro CDs deles (e já tive dois discos em vinil). Logo, meu lugar é o inferno...

domingo, 29 de novembro de 2020

O poder




Ao contrário do que comumente se pensava, no caso dos primatas, viver em grupos pode ter sido um salto evolutivo e não um processo gradual. Seja como for, a sociabilidade é uma forte característica dessa ordem de animais. De nossa espécie, em particular, pode-se dizer sem erro que a humanidade não seria o que é se não nos tivéssemos associado em comunidades, progressivamente mais complexas ao longo do tempo.

Se por um lado o aumento da complexidade das relações sociais contribuiu, junto com outros fatores, para o desenvolvimento cognitivo da espécie humana - intrinsicamente vinculado à sua sobrevivência -, por outro gerou efeitos colaterais, como as distinções baseadas na força e na intimidação, bem como a estruturação de hierarquias e a instauração de autoridades nem sempre benignas. 

Estatuíram-se assim os que mandam e os que, sem alternativa, obedecem; os senhores e os escravos; os dominadores e os dominados. 

Enfim, aqueles que dispõem de muito poder e aqueles que têm pouco ou nenhum.

Obviamente, compreendo que a vida civilizada não seria possível sem o estabelecimento de instituições de comando e controle (governos, sistemas jurídicos, órgãos de segurança pública, etc.) ¹. Entendo também que a disputa pela direção a ser tomada pelo Estado faz parte da luta política (e não é recomendável esquivar-se dessa luta: como escreveu Fernando Brant, "o medo de amar é/ não arriscar,/ esperando que façam por nós/o que é nosso dever,/ recusar o poder").

Não nos esqueçamos, porém, de que o poder, em grande parte das situações, ancora-se nalguma modalidade de violência e coerção (física ou simbólica).

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Independentemente das falhas que por ventura exiba, o filme Brightburn (2019 - direção de David Yarovesky) tem ao menos um excelente ponto de partida.

E se uma criatura similar a Kal-el/Clark Kent/Superman não tivesse seguido o virtuoso caminho de paladino do bem? - essa é a pergunta que está subentendida em toda a narrativa. 

Despretensiosa estocada na onda de filmes de super-heróis ², Brightburn mostra como o garoto Brandon Breyer, entrando na adolescência, descobre seus dons sobre-humanos e torna-se um monstro, sem perder a carinha de anjo.

Desde o tempo em que era um dedicado leitor de quadrinhos, nunca engoli aquela conversa fiada de que o elevado senso moral do sobrevivente de Krypton, bem como a sabedoria e a parcimônia nos uso de seus assombrosos poderes, deviam-se aos ensinamentos recebidos no seu lar em Smallville, sobretudo os conselhos e lições dadas pelo pai adotivo humano, Jonathan Kent. E só o princípio da suspensão voluntária da descrença aplicado em dose extra consegue explicar a aceitação dessa tremenda implausibilidade.

Falando em olhar crítico para o filão dos super-heróis, não posso deixar de mencionar a ótima série satírica The Boys, produzida pela Amazon e exibida no seu serviço de streaming, adaptação da obra em quadrinhos homônima criada em 2006 por Garth Ennis e Darick Robertson.

Homelander, um dos personagens centrais (tão dotado de poderes quanto o Superman e brilhantemente interpretado pelo ator Antony Starr), é - nada mais, nada menos - um sociopata, segundo o produtor e showrunner da série, Erick Kripke. Algo previsível, já que foi criado num laboratório, marcado por profundas lacunas emocionais e com a capacidade de estraçalhar qualquer um que o contrarie.

Não bastasse o próprio poderio individual dos super-"heróis"/super-"heroínas", em The Boys, outras forças alinham-se a essas figuras sinistras ou ajudam a sustentá-las: a indústria do entretenimento, igrejas, parte da mídia, além, é claro, de uma corporação global gigantesca, responsável, aliás, pelo surgimento de todos(as) eles(as).

Se há uma lição a ser extraída em Brightburn e The Boys (embora seja sempre meio ridículo falar em lição a se extrair) parece ser a de que todo poder corrompe.

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"Todo poder corrompe"...

Esse conhecido adágio inevitavelmente nos remete à famosa frase de John Dalberg-Acton (1834-1902): "o poder tende a corromper e o poder absoluto corrompe absolutamente, de modo que os grandes homens são quase sempre homens maus". 

É divertido notar que pessoas de direita gostam de citar esse enunciado como forma de criticar governantes e quaisquer intervenções ou mecanismos adotados por eles(as) que impliquem ampliação do controle do Estado (entenda-se poder público) - principalmente sobre a atividade econômica. Menciona-se sempre que Lord Acton foi um ardoroso defensor do livre-mercado, da liberdade individual e parte de sua obra anteviu os males do que, desde o século passado, chamamos de totalitarismo. 

Creio que ninguém em sã consciência deseja um Estado totalitário. Também tenho em mente que a liberdade individual é um valor pelo qual vale a pena se empenhar. Até aí, o aristocrata britânico e este blogueiro "esquerdopata" não discordam. Suponho, porém, que apenas uma parte pequena do pessoal de direita a que aludi acima consegue perceber a contradição entre propugnar pelo liberalismo (no campo econômico, mas não só) e conservar os privilégios oriundos da condição de nobre, já que Acton foi barão (e condenava o sufrágio universal, diga-se de passagem).

Além disso, em parte por credulidade, mas em parte também por hipocrisia, costuma-se convenientemente não admitir o inegável fato de que proprietários e executivos de megaempresas, donos e diretores de bancos, grandes investidores (em meu juízo, especuladores) das bolsas de valores e fundos de investimentos, etc. também detêm poder - muito poder! -  e vários deles subornam, corrompem, arquitetam fraudes e golpes com a mesma (e às vezes até mais) desenvoltura que agentes do Estado inescrupulosos.

Entretanto, é contra os administradores públicos em geral que os protestos e queixas das populações são lançados na imensa maioria das situações nas quais se dá abuso ou mau uso do poder.

. . . . . . .

Por fim, não poderia deixar de falar de A decapitação dos chefes ³, de Italo Calvino.

Segundo o ficcionista italiano, as quatro partes que compõem esse escrito (publicado em 1969) seriam esboços de capítulos de um livro que ele pretendia escrever no qual se apresentaria "um novo modelo de sociedade". As duas primeiras partes se passam no tempo em que vive o narrador; as duas últimas referem-se a situações e eventos ocorridos numa época mais antiga.

Ao chegar a uma cidade - a capital de um país não nomeado no texto -, o narrador descobre que naquele dia ocorreria a decapitação dos dirigentes da localidade, uma cerimônia regimental e até festiva, de certa forma. Dentro de um bar, ele ouve de um dos fregueses:

"A autoridade sobre os outros é uma coisa que só existe junto com o direito que os outros
têm de fazer você subir num palanque para ser morto, um dia não muito distante... Que autoridade teria um chefe se não vivesse cercado por essa expectativa? E se não lêssemos nos olhos dele, essa expectativa, o tempo todo que dura o seu mandato, segundo após segundo?"

Um outro habitante do lugar já havia dito: "Quando a fruta está madura é colhida, o chefe é decapitado. O senhor deixaria as frutas apodrecerem nos galhos?"

A explicação para o surgimento de norma tão insólita e implacável está nas duas últimas partes da engenhosa história de Calvino, graças à ação bem-sucedida de um movimento político intitulado Volja i Raviopravie. Os nomes de extração eslava (não só o do movimento como os dos personagens ligados a este), as menções a um czar e a uma Duma, levam o leitor a pensar, inevitavelmente, no ambiente revolucionário que marca a Rússia nas primeiras décadas do século passado. Talvez seja um modo do autor ironizar os rumos tomados pela União Soviética em sua experiência de "comunismo/socialismo real", na qual, aliás, dirigentes e governantes perpetuavam-se nos cargos. O objetivo do Volja i Raviopravie era instaurar "uma sociedade igualitária em que o poder fosse regulado pelo assassinato periódico dos chefes eletivos", pois, segundo a teoria que o guiava "cada função de comando só era admissível se exercida por quem já tivesse renunciado a gozar dos privilégios do poder e virtualmente não pudesse mais ser incluído entre os vivos".

Estaria aí a solução para evitar o aviltamento de nossas administrações? Estou só perguntando...

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¹ Ao mencionar a expressão vida civilizada, não descuido da advertência do filósofo romeno Emil Cioran: "Naquilo que concordamos denominar 'civilização' reside inegavelmente um princípio diabólico do qual o homem apenas se deu conta demasiado tarde, quando não era mais possível remediá-lo".

² Espero que o(a) eventual leitor(a) não me entenda mal. Divirto-me, como boa parte da pessoas, com filmes de super-heróis. Alguns, acho realmente bons. Porém, creio que muitos de nós concordam que o formato está ficando meio cansativo, não? Além do mais, como li em algum lugar - e fico com raiva por não lembrar onde -, há algo de errado com histórias que querem nos convencer de que sujeitos podres de ricos (Bruce Wayne, Tony Stark e - por que não - T'Challa) estão nobremente dispostos a bancar os benfeitores.

³ CALVINO, Italo. A decapitação dos chefes. In: _________. Um general na biblioteca. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 125-138 [Tradução de Rosa Freire D'Aguiar]

BG de Hoje

Entre os muitos subgêneros do rock, o punk nunca foi um dos meus prediletos. Entretanto, como negar sua poderosa influência/inspiração? Que o digam os caras da (já veterana) banda sueca THE HIVES, em canções vigorosas como Hate To Say I Told You So.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Por que assistir Mr. Robot?


Na opinião de muita gente, junto com o novo milênio, inaugurou-se a Era de Ouro das séries de TV. 


Cabe uma digressão.

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No mês passado, disse aqui que as revistas e os jornais impressos foram engolidos pela internet. Pode-se mesmo considerá-los um tipo de mídia ultrapassada, diferentemente, porém, do rádio e dos livros de papel, os quais, se dependesse de alguns apressadinhos (pós)modernosos,  também já estariam condenados à lata de lixo da obsolescência. Mas e quanto à televisão?

Os constantes engarrafamentos do tráfego nas cidades talvez sejam suficientes para demonstrar que o rádio ainda tem seu lugar no mundo da comunicação: grande parte de seus ouvintes está preso no trânsito, indo ou voltando do trabalho. O rádio também é bastante apreciado pelos milhões de indivíduos que moram sozinhos (como este blogueiro); às vezes, sintonizamos em determinada estação apenas para ouvir outra voz humana enquanto preparamos uma refeição, lavamos roupa, etc. Além disso, mesmo nos últimos tempos, quando a programação musical deixou de ser o carro-chefe das emissoras, o rádio sempre funcionou como um repositório de boas dicas e sugestões, um lugar de aprendizado inclusive. As grandes empresas do setor, claro, só reproduzem a hit parade internacional, os artistas jabazeiros e o rebotalho da massificação sonora. Mas persistem redutos interessados na qualidade e, dessa maneira, não estupidificam a audiência (nesses casos, a web é uma benção, pois possibilita iniciativas esplêndidas, como a Rádio Vozes, comandada pela incansável jornalista Patrícia Palumbo).

Os livros de papel, por sua vez, mantêm-se (pelo menos por enquanto) distantes da ameaça de extinção - chegou-se a cogitar que eles seriam rapidamente desbancados por suas versões eletrônicas. Após rápido crescimento, superando inclusive, no valor total das vendas, seus similares tradicionais em 2011, o segmento de e-books, contudo, começou a estagnar a partir de 2015. Livros de papel continuam respondendo pela maior fatia do mercado editorial (por quanto tempo, porém, não se sabe). Isso acontece porque muitos leitores (este blogueiro, inclusive) continuam a preferi-los - por variados motivos, desde o amigável formato e familiar manuseio até um certo apego fetichista e nostálgico. No caso dos livros, entretanto, é forçoso reconhecer que eles não são um produto tão desejado. Mas isso tem muito menos a ver com sua materialidade e mais com o tipo de sociedade imbecilizada na qual vivemos.

A televisão também parecia uma mídia irremediavelmente condenada, uma vez que a web - acessada através de dispositivos móveis, sempre à mão - pode fornecer uma variedade de conteúdos imensamente mais ampla que o cardápio insalubre oferecido em boa parte dos canais (tanto abertos quanto por assinatura) ¹. Talvez como estratégia para responder às baixas audiências, os executivos e produtores deixaram um pouco de lado o investimento no quanto-pior-ou-mais-degradante-melhor - ainda dominante, infelizmente, no modelo broadcast - e procuraram sofisticar os produtos exibidos, seduzindo parcelas de espectadores mais exigentes que evitavam esse veículo. Talvez também seja essa uma das explicações possíveis para o atual boom dos (bons) seriados televisivos. NOTA ²: Embora a Netflix - empresa-chave do entretenimento na atualidade - opere online, por meio de streaming, sem depender de um quadro de horários fixos (como na TV convencional), a indução ao consumo proposta por ela é do tipo televisivo tal como estamos acostumados (até porque muitos de seus clientes assistem os programas de seu catálogo em telas grandes - e não num laptop ou tablet -, pachorrentamente aboletados no sofá, horas e horas a fio, graças aos muitos aparelhos  de TV disponíveis hoje com acesso à internet).

Voltemos agora ao assunto principal da postagem.

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Entre tantas excelentes séries, o(a) eventual leitor(a) provavelmente tem alguma preferida. No caso deste blogueiro, das mais recentes, a minha favorita é, de longe, Mr. Robot.

Exibida nos EUA pela USA Network e no Brasil pelo canal pago Space, Mr. Robot, segundo matéria publicada na revista Rolling Stone em julho deste ano, "came out of nowhere to dazzle the world last summer" ("Mr. Robot apareceu do nada para fascinar o mundo no verão passado")

Sam Esmail, criador da série e diretor de todos os episódios na segunda temporada,  disse, numa entrevista para a mesma publicação, ter tentado vender seu trabalho para as grandes emissoras de TV a cabo, mas ele suspeita que "executives were put off by the show's darkness and interiority (the main character is a mentally unstable, morphine-addicted loner who often cries himself to sleep), along the fact that  - as he heard more than once - 'people on keyboards aren't interesting' " ².

É curioso que os executivos tenham dito que "pessoas num teclado não são interessantes" - afinal, muitos indivíduos nesses tempos digitais não fazem outra coisa a não ser ficar longos períodos teclando e teclando... Mas é realmente surpreendente que alguém tão perturbado como Elliot Alderson, o personagem principal, possa ser tão eletrizante. Falemos sobre isso.

Interpretado brilhantemente pelo ator Rami Malek (que, merecidamente, venceu o Emmy como melhor ator de drama em 2016, além de ser indicado ao Golden Globe de melhor ator em série dramática nos dois últimos anos), Elliot Alderson sofre de depressão, transtorno de ansiedade social (conhecida como fobia social) e transtorno dissociativo de identidade (antigamente chamada de "dupla personalidade"). Na primeira temporada, vemo-lo trabalhando numa empresa de segurança cibernética, mas para nós o que importa é sua extraordinária atuação como hacker. Nos vários episódios de Mr. Robot, sempre ouvimos a voz de Elliot em off, às vezes falando consigo mesmo, noutras com seu alter-ego ou até dirigindo-se diretamente a nós, espectadores. Entre os pontos altos da série estão os monólogos do personagem central. Dois deles já entraram para os melhores momentos da narrativa televisiva em todos os tempos, na minha opinião.

Num destes, logo no primeiro episódio da primeira temporada, Elliot é perguntado (por sua psiquiatra, Krista): "What is it about society that disappoints you so much?" ("O que há com a sociedade que te desaponta tanto?"). A resposta é sublime (embora só os espectadores, e não a terapeuta, ouçam-na):

"Oh I don't know. Is it that we collectively thought Steve Jobs was a great man even when we knew he made billions off the backs of children? Or maybe it's that it feels like all our heroes are counterfeit; the world itself's just one big hoax? Spamming each other with our burning commentary of bullshit masquerading as insight, our social media faking as intimacy. Or is it that we voted for this? Not with our rigged elections, but with our things, our property, our money. I'm not saying anything new. We all know why we do this, not because Hunger Games books make us happy but because we wanna be sedated. Because it's painful not to pretend, because we're cowards. 
Fuck Society." ³
(pode-se encontrar essa cena no Youtube: https://youtu.be/rNfzbPAD8FE)

Noutro, agora no segundo episódio da segunda temporada, Elliot detona com a religião, num desses grupos de ajuda (que não ajudam em nada):

"Is that what God does? He helps? Tell me, why didn’t God help my innocent friend who died for no reason while the guilty ran free? Okay. Fine. Forget the one-offs. How about the countless wars declared in His name? Okay. Fine. Let’s skip the random, meaningless murder for a second, shall we? How about the racist, sexist, phobia soup we’ve all been drowning in because of Him? And I’m not just talking about Jesus. I’m talking about all organized religion. Exclusive groups created to manage control. A dealer getting people hooked on the drug of hope. His followers, nothing but addicts who want their hit of bullshit to keep their dopamine of ignorance. Addicts. Afraid to believe the truth. That there’s no order. There’s no power. That all religions are just metastasizing mind worms, meant to divide us so it’s easier to rule us by the charlatans that wanna run us. All we are to them are paying fanboys of their poorly-written sci-fi franchise. If I don’t listen to my imaginary friend, why the fuck should I listen to yours? People think their worship is some key to happiness. That’s just how He owns you. Even I’m not crazy enough to believe that distortion of reality.


So fuck God. He’s not a good enough scapegoat for me". ⁴

(pode-se encontrar também essa cena no Youtube: https://youtu.be/UwDrc2YIRQo)

Há um pouco de inconformismo adolescente na série (meio ingênuo e bobo às vezes, tenho que admitir), mas não é fácil transformar em atração de TV uma história com forte mensagem anarquista e - sob certo ângulo - anticapitalista sem fazer algumas concessões ao público médio. Mr. Robot nos lembra o tempo todo que os grandes inimigos da humanidade não são aliens assustadores, zumbis asquerosos ou supervilões mutantes: neste momento, nosso planeta é ameaçado pelas megacorporações e sua voracidade interminável por lucro e poder. Além disso, a série nos dá uma representação bem realista da ação dos hackers e como somos vulneráveis em nosso uso rotineiro da web. Talvez por isso, o ex-analista da CIA/NSA, Edward Snowden, tenha elogiado a atração.

Todavia, por mais elementos sensacionais contidos na série - da trilha sonora cheia de canções legais aos roteiros inteligentes, dos enquadramentos de câmera incomuns para um programa de televisão às muitas citações cinematográficas empregadas na composição (Clube da Luta, Matrix, V de Vingança, Taxi Driver, entre outros filmes) -, Mr. Robot, mais do que as questões e problemas relacionados com a tecnologia, é brilhante por tematizar um dos grandes males contemporâneos: a solidão. Na matéria da revista Rolling Stone mencionada acima (Mr. Robot: How TV's hit hack drama keeps getting better), o jornalista Rob Sheffield escreve:

"Ultimately, Mr. Robot isn't really a fable about technology — it's about solitude, a drug that can play hideous tricks on the brain. Elliott knows there's a gap between what he thinks and what really exists out there in the world — it is the drama that happens in the no man's land between the two zones. For Elliott, computer code is a language he's mastered to insulate himself from other people, and it served him well up to a point; the question for him is whether he can get beyond that point or whether he's doomed to remain a wounded adolescent, trapped inside his own head forever. All the high-tech splendors of the modern world are just another seductive reason for him to stay home and zone out alone — which is where he gets into trouble. And the reason Mr. Robot hits home is that it's hardly just one guy's problem. There's a little Mr. Robot in everyone". ⁵

A misantropia de Elliot Anderson (a ponto de dominar os códigos da linguagem computacional para não ter que interagir com pessoas de carne e osso), sua permanente sensação de não pertencer a lugar nenhum, sua fragilidade emocional, tudo isso faz dele um sujeito facilmente encontrável nos dias atuais. Ele é o (anti) herói que mais combina com nossos tempos.


O blog entra em recesso a partir de hoje e retornará, espero, no dia 02/02/2017. Apesar de não receber retorno algum - neste ano apenas duas pessoas contataram-me por e-mail dispostas a discutir algumas das postagens e nem mesmo meus conhecidos ou familiares acompanham essa joça - o Besta Quadrada é uma das poucas coisas que ainda me dão prazer. Por isso insistirei com ele enquanto for possível. Ao(à) eventual leitor(a), desejo boas festas e um 2017 que seja pelo menos suportável. Ah, antes que me esqueça: FORA TEMER!

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¹ Se as pessoas, em geral, estão fazendo ou não um uso proveitoso do seu acesso à internet já é uma outra discussão...

² [tradução aproximada: "executivos relutaram por causa da escuridão e interioridade do programa (o personagem principal é um solitário viciado em morfina, mentalmente instável, que frequentemente chora até pegar no sono), junto com o fato de que - como ele ouviu mais de uma vez - 'pessoas num teclado não são interessantes' "]

³ [tradução aproximada: "Oh, eu não sei. [Será por que] nós, coletivamente, pensamos que Steve Jobs foi um grande homem quando nós sabemos que ele ganhou bilhões explorando [o trabalho de] crianças? Ou talvez [por que] sente-se como se todos os nossos heróis fossem falsificados; o próprio mundo é apenas uma grande farsa? Entupindo-nos uns aos outros com nossos comentários incendiários de bobagem, mascarando[-os] como introspecção, nossa mídia social passando[-se] por intimidade. Ou [será porque] nós votamos nisso? Não com nossas eleições arranjadas, mas com nossas coisas, nossa propriedade, nosso dinheiro. Não estou dizendo nada novo. Nós todos sabemos porque fazemos isso. Não porque livros como Jogos Vorazes nos fazem felizes, mas porque queremos estar sedados, porque é doloroso não fingir, porque nós somos covardes. Foda-se a sociedade".]

⁴ [tradução aproximada: "É isso que Deus faz? Ele ajuda? Diga-me, por que Deus não ajudou meu amigo inocente que morreu sem motivo enquanto o culpado escapou livre? OK. Tudo bem. Esqueça os casos isolados. E quanto as inúmeras guerras declaradas em nome Dele? OK. Tudo bem. Vamos pular o assassinato sem sentido e aleatório por um instante, podemos? Que tal toda a sopa de fobia, racismo e machismo na qual estamos nos afogando por causa Dele? E não estou falando apenas de Jesus. Estou falando sobre toda a religião organizada. Grupos exclusivos criados para manter o controle. Um traficante mantendo as pessoas fisgadas numa droga de esperança. Seus seguidores, nada mais do que viciados que querem sua dose de dopamina da ignorância. Viciados. Com medo de acreditar na verdade. Que não há ordem. Não há poder. Que todas as religiões são apenas vermes espalhando um câncer na mente, destinadas a nos dividir, pois é mais fácil para nos controlar através de charlatães que querem mandar em nós. Tudo o que somos para eles é apenas tietes pagantes da sua franquia de ficção científica mal escrita. Se eu não escuto o meu amigo imaginário, por que deveria escutar a porra do seu? As pessoas pensam que a adoração é alguma chave para a felicidade. Isso é apenas o modo como Ele torna-se seu dono. Mesmo eu não estou tão louco assim para acreditar nessa distorção da realidade. Então, Deus que se foda. Ele não é um bode expiatório bom o suficiente pra mim"]

⁵ [tradução aproximada: "Por fim, Mr. Robot não é realmente uma fábula sobre tecnologia - é sobre solidão, uma droga que pode fazer horríveis truques no cérebro. Elliot sabe que há uma distância entre o que ele pensa e o que existe lá fora no mundo - é o drama que acontece na terra de ninguém entre duas zonas. Para Elliot, o código de computador é uma linguagem que ele dominou para isolar-se das outras pessoas, e ela serviu bem a ele até certo ponto: a questão é se ele consegue ir além desse ponto ou se ele está condenado a ser um adolescente ferido, preso dentro da sua própria cabeça para sempre. Todo o esplendor high-tech do mundo moderno é apenas outro motivo para ele ficar em casa, esquecido e só - que é onde ele se encrenca. E o motivo de Mr. Robot causar tanto efeito é que isso dificilmente é problema de apenas um cara. Há um pequeno Mr. Robot em cada um".]

BG de Hoje

Aqui no blog não costumo seguir critérios para escolher os BGs. Boa parte das vezes a canção incluída não tem nada a ver com o que foi escrito na postagem: é só uma música de que gosto muito ou, por acaso, ouvi pela manhã antes de sair pro trabalho, lembrei dela por um motivo qualquer, etc. No caso de hoje, porém, Are You Lost in The World Like Me?, do MOBY, acompanhada dessa animação sensacional do STEVE CUTTS (o blog do desenhista e artista gráfico está entre os recomendados aqui da casa) é perfeita para acompanhar um texto sobre  Mr. Robot.