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sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Biela (I)

Mikhail Bakhtin, teorizando a relação do autor com a personagem *, defende que

" [...]  o autor acentua cada particularidade da sua personagem, cada traço seu, cada acontecimento e cada ato de sua vida, os seus pensamentos e sentimentos, da mesma forma como na vida nós respondemos axiologicamente a cada manifestação daqueles que nos rodeiam ; na vida, porém, essas respostas são de natureza dispersa, são precisamente respostas a manifestações particulares e não ao todo do homem, a ele inteiro [...]".

Ou seja, na vida comportamo-nos em relação ao outro sempre levando em consideração os contextos específicos de convivência, que variam no tempo histórico. Não é possível (ainda que se deseje fazê-lo) enfeixar o  outro num único invólucro imediatamente reconhecível - mesmo que, provisória e precariamente, qualifiquemos alguém como sendo irritadiço, compreensivo,  esnobe, etc. "Já na obra de arte" - escreve Bakhtin - " a resposta do autor às manifestações isoladas da personagem se baseiam numa resposta única ao todo da personagem, cujas manifestações particulares são todas importantes para caracterizar esse todo como elemento da obra".

Segundo o pensador russo, "a luta do artista por uma imagem definida da personagem é, em um grau considerável, uma luta dele consigo mesmo".

Julgo importante fazer essas considerações preliminares porque tenciono discutir a composição de uma personagem criada por Autran Dourado, na novela  Uma vida em segredo. Biela, protagonista da narrativa, é o único eixo que sustenta todo esse extraordinário livro.
Dourado conseguiu criar personagens memoráveis em outros de seus trabalhos - como, por exemplo, os membros da família Honório Cota, no romance Ópera dos mortos, do qual falarei noutra oportunidade - mas a Biela de  Uma vida em segredo demonstra um  acabamento  (no sentido estético, literário) notável dentro da Literatura Brasileira.

Trato disso na próxima semana.
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* BAKHTIN, Mikhail. O autor e a personagem. In: ____________. Estética da criação verbal. 4 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003. p. 3-20 [ tradução de Paulo Bezerra ]


BG de Hoje

Na minha opinião,  Little Wing  é a mais bela composição de JIMI HENDRIX, considerado, com acerto, o melhor guitarrista de todos os tempos. Mas STEVIE RAY VAUGHAN toca essa canção maravilhosamente, quase tão bem como a lenda Hendrix.


domingo, 7 de agosto de 2011

Dom Quixote e o sonho do leitor (2)



Hoje trato do capítulo III da Segunda Parte d'O engenhoso fidalgo Dom Quixote de la Mancha *,  intitulado Do ridículo arrazoado que houve entre Dom Quixote, Sancho Pança e o Bacharel Sansão Carrasco.

Antes, dois esclarecimentos:

1) O escritor, como se sabe,  valeu-se  de  um "estratagema"  para  dar corpo a  seu romance, tal como foi inicialmente pensado:  atribuiu ele a autoria do texto "original" a um tal Cide Hamete Benengeli, obscuro sábio mouro. Desse modo, Cervantes seria apenas  o "recontador" da história, eximindo-se do que por ventura fosse considerado disparate por parte do público.

2)  Dom Quixote,  no mesmo ano de sua publicação (1605), foi reeditado seis vezes e traduzido para outros idiomas com uma rapidez incomum na época. O sucesso estrondoso motivou o aparecimento de uma segunda parte falsa. Só em 1615 Cervantes lançaria sua própria continuação das aventuras do Cavaleiro da Triste Figura e seu escudeiro falador. Essa sequência, portanto, foi produzida sob condições especialíssimas: o livro ao qual se ligava era comentado e conhecido e isso se refletiu na Segunda Parte.

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Apesar da vetustez de que se revestem as obras clássicas, Dom Quixote não deixa de ser um livro engraçado, sobretudo nas passagens em que o protagonista e Sancho Pança se estrepam clamorosamente. Na conversa com Sansão Carrasco, os personagens procuram saber que façanhas foram contadas no livro a respeito deles e quais destas se destacam:

"Nisso - respondeu o bacharel - há diferentes opiniões, como há diversos gostos: uns preferem a aventura dos moinhos de vento que a Vossa Mercê lhe pareceram briareus e gigantes; outros a das azenhas; este a descrição dos dois exércitos, que depois se viu serem dois rebanhos de carneiros; aquele encarece a do morto que levavam a enterrar a Segóvia; diz um que a todos se avantaja a da liberdade dos galeotes; outro, que nenhuma iguala a dos dois gigantes beneditinos, com a pendência do valoroso biscainho".

NOTA: Na próxima (e última) postagem desta série escreverei sobre a "aventura da liberdade dos galeotes"  (capítulo XXII, da "Primeira Parte"), que acho sensacional.

Sancho e Quixote dão-se conta, então, que não só os "altos", mas principalmente os "baixos" decorrentes de suas ações foram "registrados" sem condescendência por Cide Hamete Benengeli.

Peço atenção para este trecho, por gentileza:

" - Com tudo isso - respondeu o bacharel -, dizem alguns que leram a história que folgariam se se tivessem esquecido os autores de algumas da infinitas pauladas que em diferentes recontos deram no Senhor Dom Quixote. 
 - E a verdade da história? - perguntou Sancho. 
- Poderiam deixá-las [as pauladas] em silêncio por equidade - notou Dom Quixote -, pois as ações que não mudam nem alteram o fundo verdadeiro da história, não há motivo para se escreverem, logo que redundem em menosprezo do protagonista. À fé que não foi tão pio Enéias como Virgílio o pinta, nem tão prudente Ulisses como refere Homero. 
- Assim é - redarguiu Sansão -, mas uma coisa é escrever como poeta, e outra como historiador: o poeta pode contar ou cantar as coisas não como foram, mas como deviam ser, e o historiador há de escrevê-las, não como deveriam ser, mas como foram, sem acrescentar nem tirar à verdade a mínima coisa. 
- Pois se esse senhor mouro anda a dizer verdades - disse Sancho - é, bem certo que entre as pauladas que apanhou meu amo se contem as minhas também, porque nunca a Sua Mercê lhe tomaram a medida das costas que ma não tomassem a mim de todo o corpo: mas não há que maravilhar-me, pois como diz o mesmo senhor meu, da dor da cabeça hão de participar os membros".

Cide Hamete Benengeli não seria um poeta mas um historiador. E, segundo pensa o bacharel Carrasco, está por isso mesmo mais próximo da "verdade". No entanto, nesse "ridículo arrazoado" (como o denomina Cervantes), estamos diante de três interlocutores que não são, eles próprios, "verdadeiros": são seres ficcionais saídos da cabeça de Cervantes, que brinca com este conceito tão solene - a  verdade -, dentro das possibilidades que as convenções literárias de seu tempo lhe ofereciam. E é importante destacar que, não à toa, é Sancho Pança quem faz o alerta sobre "a verdade da história".

Encerro o assunto na próxima semana.
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* CERVANTES DE SAAVEDRA, Miguel de. Dom Quixote de la Mancha. São Paulo: Abril Cultural, 1981 [tradução dos Viscondes de Castilho e Azevedo: notas de José Maria Castro Calvo, traduzidas por Fernando Nuno Rodrigues]

BG de Hoje

Poucos são os que discordam desta afirmação: JIMI HENDRIX foi o maior guitarrista da história. E penso não ser necessário buscar sua genialidade nas estripulias psicodélicas que gravou; basta ouvir um blues maravilhosamente tocado, como é o caso de  Red House .