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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Quatro poemas de José Paulo Paes

Um pouco hesitante, torno a escrever neste blog, após quatro meses de inatividade. A ideia inicial era recomeçar com um tópico sobre o qual venho refletindo há bastante tempo (deixei alguma coisa registrada a esse respeito na última postagem em 2014): o suicídio. Porém, vou preferir hoje falar de quatro poemas de um de meus autores preferidos - José Paulo Paes - cuja aproximação temática entre os textos muito me interessa.

Vamos ao primeiro poema, Ivan Ilitch, 1958*:

"Trrrim, bocejo,
Roupão, chinelos,
Gilete, escova,
Água, sabão,
Café com pão,
Chapéu, gravata,
Beijo, automóvel,
Adeus, adeus.

Gente, trânsito,
Sol, bom-dia,
Escritório, 
Relatório,
Telefones,
Almoço, arroto,
Contas, desgosto,
Adeus, adeus.

Clube, vento,
Grana, tênis,
Ducha, alento,
Bar, escândalos,
Pedro, Paulo,
Mulher de Pedro,
Mulher de Paulo,
Adeus, adeus.

Lar, esposa,
Filhos, pijama,
Janta, living,
Jornal, cismares,
Tricô, vagares,
Hiato, ausências,
Bocejo, escada,
Adeus, adeus.

Quarto, cama,
Glândulas. êxtase,
Dois em um,
Dois em nada,
Dever cumprido, 
Luz apagada,
Adeus, adeus.

Horas, dias,
Meses, anos,
Cãs, enganos,
Desenganos,
Vácuo, náusea,
Indiferença,
Cipreste, olvido
Há Deus? adeus".

É evidente que o título do poema faz referência à clássica novela A morte de Ivan Ilitch, do escritor russo Liev (ou Leon) Tolstói - mas, digamos, "ambientada" agora no final dos anos 1950 e não mais na metade do século XIX. O poema e a novela constroem-se sobre um dos questionamentos mais antigos dirigidos pela humanidade a si própria: tem a vida algum sentido?

Em A morte de Ivan Ilitch, a narrativa se inicia no velório do protagonista, passando, a seguir, para o relato de sua juventude e velhice, nada excepcionais ambas. Em Ivan Ilitch, 1958, por sua vez, os versos finais de cada estrofe indicam ao leitor que alguém também se despede da vida e rememora sua existência saturada de hábitos comuns, gestos e objetos banais. Ambos os textos me fazem pensar num arrependimento profundo.

O segundo poema é Declaração de bens:

"meu deus
minha pátria
minha família

minha casa
meu clube
meu carro

minha mulher
minha escova de dentes
meus calos

minha vida
meu câncer
meus vermes"

"Do mundo nada se leva", diz a sabedoria popular, com sua habitual falta de poesia. De todo modo, não me parece ser outra coisa o que diz José Paulo Paes nessa composição. Assemelha-se a Ivan Ilitch, 1958 por deixar entrever a vanidade - inerente a muitos de nossos esforços, convicções e realizações - da qual, rotineiramente, não nos apercebemos.

O terceiro texto é o soneto em heptassílabos Sísifo:


"hoje agora me decido
depois de amanhã hesito
o dia detém meu passo
a noite cala meu grito.

deuses onde? céu existe?
céu existe? deuses onde?
um eco que faz perguntas
um espelho que responde

e eu sísifo tardotriste
a tilintar as correntes
de dilemas renitentes

lá me vou sem vez nem voz
rolar a pedra dos mudos
pela montanha dos sós".

A figura mitológica que empresta seu nome ao poema também serviu de mote para um instigante ensaio de Albert Camus** (livro a ser discutido no blog mais adiante). Para o escritor franco-argelino, Sísifo é o "herói absurdo". Sua tragédia nos diz algo significativo precisamente no momento em que ele regressa do alto do monte para mais uma vez empurrar a pedra que acabara de rolar: "Sísifo, proletário dos deuses, impotente e revoltado, conhece toda a extensão de sua miserável condição: pensa nela durante a descida", escreve Camus. Encontrará ele algum sentido para a sua vida?

Por fim,

"PISA: A TORRE

em vão te inclinas pedagogicamente
o mundo jamais compreenderá a obliquidade dos bêbados ou o mergulho dos suicidas"


Tai algo que desejaria compreender. Ou ao menos refletir a respeito. Tentarei fazer isso a partir da próxima semana.
__________
* PAES, José Paulo. Poesia completa. São Paulo: Companhia das Letras, 2006

** CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. 9 ed. Rio de Janeiro: Record, 2012 [ Tradução de Ari Roitman e Paulina Watch]

BG de Hoje

LENY ANDRADE não é das minhas intérpretes preferidas. Mas outro dia, numa das pouquíssimas emissoras de rádio de boa qualidade aqui de BH (a Rádio UFMG Educativa), ouvi essa versão de Muito obrigado, do Djavan, em que a cantora está acompanhada pelo violonista Romero Lubambo. Sensacional!

terça-feira, 19 de novembro de 2013

"Gracilianas" (IIIb) - Angústia


"Trancado num quarto, sapecando as pestanas em cima de um livro, como sou vaidoso e como sou besta! Caminhei tanto; e o que fiz foi mastigar papel impresso. Idiota".

Luis da Silva, personagem-narrador de Angústia - Graciliano Ramos

 
 
No ensaio O pobre diabo no romance brasileiro* (citado na postagem anterior), José Paulo Paes, entre outros expedientes, vale-se do clássico estudo A teoria do romance, de Georg Lukács, para analisar "o mais humilde dos papéis ficcionais", qual seja, o pobre diabo, tal como o Luis da Silva, de Angústia**.

Em seu trabalho, Lukács considera que o "herói problemático" surge nos romances modernos e estes podem ser divididos em duas categorias: o romance de formação, típico do período romântico, no qual há um herói disposto a modificar a realidade social, levando em conta seus íntimos ideais; e o romance da desilusão, que conta com um herói (ou melhor, anti-herói) descrente de qualquer ideal, acomodado ao status quo e imerso nas suas frustrações particulares.

Para Paes, "é fácil ver que o romance de pobre diabo está tão longe das esperanças, ainda que utópicas, do romance de formação, quanto perto está da desesperança do romance da desilusão. Melhor dizendo: representa a forma mais externada, mais radical deste último".

Luis da Silva é, em dúvida, um desiludido. É também um sujeito mesquinho e rancoroso. Um dos personagens de nossa Literatura com quem mais me identifiquei até hoje. Acerto de contas do escritor consigo mesmo? É possível defender tal interpretação. Prefiro, contudo, considerar o anti-herói de Angústia como um "monstro revoltado" - lançando mão da expressão usada por Otto Maria Carpeaux. Mas não é um monstro revolucionário (a despeito das convicções políticas do escritor à época), uma vez que, resignado, atola-se no conformismo.

. . . . . . .

Antes de encerrar, gostaria de destacar outro ponto que me interessa muito em Angústia: o desencanto com que a relação amorosa é tratada; melhor dizendo, no modo como se narra o encontro homem-mulher. Note, por exemplo, a lembrança residual do envolvimento do narrador com Marina:

"De todo aquele romance as particularidades que melhor guardei na memória foram os montes de cisco, a água empapando a terra, o cheiro dos monturos, urubus nos galhos da mangueira farejando ratos em decomposição".

Esse desencanto tornar-se-á mais explícito no encontro do protagonista com uma prostituta pobre e doente. Após pagar uma refeição simples para a mulher, Luis a acompanha até um "quartinho sujo". Fica sabendo que ela está "na vida" há quatro anos: "Quatro anos. E ali estava aquela carcaça comida pelo treponema. Panos caídos no chão, o irrigador com permanganato. Na mesinha de cabeceira, essências ordinárias disfarçavam um cheiro forte de esperma".

Os dois não fazem sexo, mas ao ir embora, Luis entrega dez mil-réis à prostituta, que recusa. Ele então diz:

"Não me faça cometer um desatino. A senhora é relógio para trabalhar de graça? A senhora tem obrigação de andar nua diante de mim? Duas horas de chateação, de conversa mole! A senhora é relógio? A senhora não é relógio".

Dignidade vale dez mil réis? Dignidade vale quanto?

Dias depois, descobre que "a mulher da Rua da Lama, a que eu encontrara uma noite no Helvética, andava caipora, no hospital, com doença do mundo".

Angústia é um livro de desalento. Estranhamente, contudo, sempre saio dele mais fortalecido, a cada nova leitura.

Na próxima postagem, falarei do São Bernardo.
__________
* PAES, José Paulo. O pobre diabo no romance brasileiro. In: ________. A aventura literária: ensaios sobre ficção e ficções. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p. 39-61

** RAMOS, Graciliano. Angústia. 32 ed. Rio de Janeiro: Record, 1986


BG de Hoje

Esta foi a primeira canção que ouvi do METALLICA, há bastante tempo, na casa de um ex-colega de escola: Fade To Black. A cada dia percebo que gosto muito das músicas desesperadas...

terça-feira, 12 de novembro de 2013

"Gracilianas" (IIIa) - Angústia


Referindo-se à obra de Graciliano Ramos, Otto Maria Carpeaux observou que

"Toda literatura pessimista encontra uma resistência fanática: leitores e críticos não gostam disso. Sentem vagamente que arte e pessimismo se contradizem. Mas em vez de estudarem esteticamente a possível contradição, entrincheiram-se em regiões fora da arte, na filosofia, na ética, para bombardear o romancista com censuras de 'pouca generosidade' ou de niilismo insaudável. Não admito preconceitos. O pessimismo não é nem uma moral nem uma filosofia. É um estado de alma".

Parece ser este o estado de alma predominante em quase toda a obra de Graciliano Ramos. E tal pessimismo é ainda mais perceptível naquele que considero o melhor livro do artista alagoano: Angústia*.

Escrito em primeira pessoa, Angústia depende inteiramente do que nos conta o personagem-narrador Luis da Silva. Sob esse aspecto, portanto, assemelha-se a São Bernardo. A diferença está nas personalidades dos protagonistas. Paulo Honório é um homem de ação decidido; não são seus "estados mentais", digamos assim, que traduzem a força do romance e sim seus atos. Por outro lado, em Angústia, o mais fundamental para o leitor é saber o que se passa na consciência do atormentado Luis da Silva. Mas, afinal, quem é esse sujeito?

Um "molambo que a cidade puiu demais e sujou", ele nos diz no início do livro. Empregado numa "ocupação estúpida e quinhentos mil-reis de ordenado", chega a manifestar algum inconformismo: "Não sou um rato, não quero ser um rato". Mas acaba assumindo-se como um "percevejo social", que se ressente dos "sujeitos remediados que me desprezam porque sou um pobre-diabo".

O termo pobre-diabo, a propósito, lembra-me um ótimo ensaio escrito por José Paulo Paes, intitulado justamente O pobre diabo no romance brasileiro**. Neste artigo, Paes analisa esse tipo de personagem a partir da sua presença em pelo menos quatro livros: Os ratos (Dionélio Machado), O Coruja (Aluísio Azevedo), Recordações do escrivão Isaías Caminha (Lima Barreto) e, naturalmente, o de Graciliano Ramos. O ensaísta busca estabelecer um conceito (de inspiração socioeconômica):

"Embora o pobre diabo se situe por definição num dos estratos inferiores da pirâmide social - sua pobreza o condena a eles - não pode pertencer nem ao proletariado nem ao lumpemproletariado". Acaba sendo um "patético pequeno-burguês quase sempre alistado nas hostes do funcionalismo público mais mal pago, vive a beira do naufrágio econômico que ameaça atirá-lo a todo instante à porta da fábrica ou ao desamparo da sarjeta, onde terá de abandonar os restos do seu orgulho de classe".


Uma abordagem bastante adequada para compreender o Luis da Silva de Angústia. Tentarei ampliá-la um pouquinho mais na próxima postagem.
__________
* RAMOS, Graciliano. Angústia. 32 ed. Rio de Janeiro: Record, 1986

** PAES, José Paulo. O pobre diabo no romance brasileiro. In: ________. A aventura literária: ensaios sobre ficção e ficções. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p. 39-61

BG de Hoje

Essa canção me intrigava muito quando eu era garoto. E até hoje me impressiona. Mal necessário, na interpretação de NEY MATOGROSSO.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Falou e disse...



SEM BARRA*

Enquanto a formiga
carrega comida
para o formigueiro,
a cigarra canta,
canta o dia inteiro.

A formiga é só trabalho.
A cigarra é só cantiga.

Mas sem a cantiga
da cigarra
que distrai da fadiga,
seria uma barra
o trabalho da formiga!


* PAES, José Paulo. Olha o bicho. 11 ed. São Paulo: Ática, 2005


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Poesia: questão de tudo ou nada? (14)

"conciso?    com siso
 prolixo?     pro lixo"

José Paulo Paes, em Poética (A poesia está morta mas juro que não fui eu - 1988)




A epígrafe do livro Resíduo*, publicado em 1980 foi, segundo o autor, retirada d' O castelo, de Franz Kafka: "contra piadas não há argumentos". Recuperando o "espírito" inicial do Modernismo brasileiro (sobretudo nos primeiros trabalhos de Oswald de Andrade, Carlos Drummond e Murilo Mendes), José Paulo Paes colige, em Resíduo, diversos poemas-piadas, a maioria deles demonstrando concisão e economia verbais admiráveis. Vejamos dois exemplos:



"BRINDE NO DIA DAS MÃES

à tua"

e

"LAR

espaço que separa
o volkswagen
da televisão"

 
Mas meu preferido é Neopaulística:

"pelo mesmo tietê
onde outrora viajavam
bandeirantes heris

só viajam agora
os dejetos: bandeira
de seus filhos fabris"

. . . . . . 

Em A poesia está morta mas juro que não fui eu**, de 1988, as principais características de José Paulo Paes mais uma vez avultam - concisão, economia, poder de síntese e o senso de humor. Dividido em quatro seções (Olho no umbigo, Livro dos provérbios, Geográfica pessoal e Desistórias), A poesia está morta... é, em minha opinião, o melhor livro deste poeta.

Intelectual autodidata, Paes filtrou toda a sua cultura em textos compreensíveis e atraentes para o leitor comum. Observemos alguns deles:

"DA INFÂNCIA DE ROBERT MALTHUS

mamãe se é assim então é só matar todas as cegonhas!"

ou

"EPITÁFIO PARA UM SOCIÓLOGO

deus tem agora
um sério concorrente"

E o meu predileto em toda a sua obra, cujo sentimento - destoante da maioria de seus textos - é mais melancólico:

"PISA: A TORRE

em vão te inclinas pedagogicamente

o mundo jamais compreenderá a obliquidade dos bêbados
ou o mergulho dos suicidas"

Haveria mais para dizer, mas deixarei para outros momentos desta série, quando estiver discutindo outros autores.
__________
* e ** Ambos os livros estão reunidos em: PAES, José Paulo. Poesia completa. São Paulo: Companhia das Letras, 2008

BG de Hoje

Acho que seria muito difícil dar errado: unir três ótimos músicos (Tim Commerford, Brad Wilk e Tom Morello, do Rage Against the Machine) a Chris Cornell (ex-Soundgarden), um dos melhores cantores de rock de todos os tempos (em minha opinião, claro). E, de fato, o AUDIOSLAVE fez bonito em sua curta trajetória, principalmente no disco homônimo lançado em 2002, um dos álbuns que mais toca no meu CD-player. É nele que se ouve essa "porrada": Light My Way.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

O que foi que fiz? Gostaria de saber...


O texto que havia aqui antes partia de uma linda definição de José Paulo Paes sobre o fazer poético. Eu a citei verbatim e depois fiz uma breve análise de um de seus poemas. Deixei dois links na postagem: um para o Jornal de Poesia (que só muito tempo depois vi não ser o link certo) e outro, para o YouTube, contendo a interpretação de Mônica Salmaso para a canção Vingança. 

Hoje (06/01/2023), fui avisado que a postagem original descumpria as diretrizes da comunidade. Não sei em que sentido; não me foi explicado. É a primeira vez que isso acontece comigo em cerca de 15 anos escrevendo em blogs nesta plataforma, falando principalmente de Literatura. 

Por isso excluí o texto original em sua totalidade (é pena, porque gostava dele).

Enfim, mais um dos muitos dissabores desta tão (errônea e temerosamente) incensada era digital.


terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Poesia: questão de tudo ou nada? (12)

Quando pensei nesta extensa série de postagens sobre poesia (ver Poesia: questão de tudo ou nada? (1)), um de meus objetivos era "esclarecer qual a concepção de poesia e de fazer poético que mais me interessa e da qual me valho no momento de avaliar escritos e escritores". Pois bem, o modo como José Paulo Paes enxerga seu ofício aproxima-se - e muito - da concepção que valorizo. Por esse motivo, achei melhor hoje - e na próxima atualização - apresentar alguns dos pontos de vista e opiniões desse poeta antes de ir diretamente a seus versos.

Numa autobiografia destinada ao público juvenil (Quem, eu?: um poeta como outro qualquer*), Paes comenta um sonho que teve e no qual se desenha o ambiente familiar de sua infância em Taquaritinga (SP). O sonho serviu de base para um poema ulteriormente publicado (A casa). No entanto, ele faz questão de ressaltar:

"[Os sonhos] às vezes trazem-nos sugestões que são como que embriões de futuros poemas. Mas é a lucidez da técnica e da experiência do poeta - técnica e experiência cuja aquisição exige anos de leitura e de aplicação quase diária ao ofício de escrever - que irá desenvolver as sugestões oníricas em poemas acabados e compreensíveis. Enquanto o sonho é pessoal e só comove ou impressiona quem o sonhou, o poema tem de comover e impressionar, se não todas as pessoas que o leem, pelo menos aquelas cuja sensibilidade foi aprimorada pela leitura regular de poesia".

Há muita coisa importante no excerto acima destacado.

Primeiramente, Paes minimiza a ideia do fazer poético como uma espécie de "arrebatamento", quando o poeta é invadido pela inspiração pura e, praticamente em transe, escreve seu texto. Não nego que isso seja possível e até acontece amiúde; só não acho que os resultados, nessas circunstâncias, sejam interessantes como Literatura. José Paulo Paes defende o exercício da poesia como uma atividade regular e contínua, tanto por parte de quem escreve quanto por parte de quem lê.

Em seguida, ele nunca deixa de considerar a figura do leitor. Não tem a arrogância, nem a falsa autossuficiência daqueles que dizem "escrever apenas para si mesmos".

A esse respeito, gostaria de destacar o trecho de uma entrevista dada por Paes ao também poeta Carlos Felipe Moisés**, na década de 1980 (disponível na íntegra aqui). Falando sobre a tendência contemporânea de uma poesia mais fechada em si mesma, da qual procura se afastar, José Paulo Paes declara: "[...] De modo que eu sempre tive em mente o leitor e procurei, na medida do possível, chegar a um grau, não digo de clareza, mas de acessibilidade que pudesse atrair para a poesia o leitor não-poeta".

Anteriormente, ele já havia dito,  quando indagado: "para quem escrever?", que:

"[...] Qualquer poeta que se preze sempre aspirará a ter como leitor o não-poeta, alguém que ele possa trazer para o mundo da poesia, integrando esse mundo no espaço da vida cotidiana".

Numa época em que todo mundo minimamente interessado em Literatura se acha poeta, mas, estranhamente, pouquíssimos são leitores habituais de poesia, essas declarações são um exemplo de lucidez e integridade artísticas.

* PAES, José Paulo. Quem eu?: um poeta como outro qualquer. São Paulo: Atual, 1996

** Meia palavra inteira. Disponível em <http://www.revista.agulha.nom.br/cfmo01.html> Acesso em 20/01/2012

BG de Hoje

Segundo James Murphy, o faz-tudo do LCD SOUNDSYSTEM, o grupo encerrou as atividades. Uma pena. Exceção ao Prodigy e a alguns trabalhos do Moby, nunca antes tinha ouvido música eletrônica com tanto prazer. Um exemplo:  All I want, uma das minhas preferidas. (link para vídeo)

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Poesia: questão de tudo ou nada? (11)



"Não sei palavras dúbias. Meu sermão
Chama ao lobo verdugo e ao cordeiro irmão.


Com duas mãos fraternas, cumplicio
A ilha prometida à proa do navio.


A posse é-me aventura sem sentido.
Só compreendo o pão se dividido.


Não brinco de juiz, não me disfarço em réu.
Aceito meu inferno, mas falo do meu céu".


José Paulo Paes, em Poética (1958)

 
 
Antes de iniciar uma conversa em torno da poesia de José Paulo Paes, gostaria de lamentar aquilo que considero um grave defeito na edição de sua Poesia completa*.

Quando comprei o livro fiquei muito decepcionado por não encontrar nenhum de seus trabalhos voltados para o público infantil. Nem Olha o bicho, nem Poemas para brincar, nem Vejam como eu sei escrever (este último, o meu preferido). Essas e outras obras para crianças não integram a Poesia completa de José Paulo Paes. Então, que "poesia completa" é esta?

Suponho que o motivo para excluir os trabalhos citados deve estar relacionado a um provável preconceito em relação à Literatura Infantil, considerada "coisa menor" ou de valor estético/artístico questionável. Se esse é o caso, é pena. Paes, em minha opinião, escreveu alguns de seus melhores textos pensando justamente num leitor-criança.

. . . . . .

No livro Epigramas, publicado em 1958, podem ser observadas algumas características do fazer poético de José Paulo Paes. O título da publicação, aliás, reforça isso, já que a escrita epigramática - breve, direta, com mordacidade - acompanhará o trabalho desse poeta até o fim de sua vida. Atentemos, por exemplo, no poema que está no início desta postagem e neste outro abaixo, A uns políticos:

"Depois de nós, o dilúvio.
Entrementes, de Javé
Poupada, fulge Sodoma,
Capital de nossa fé.

Mas se a chuva acontecer
(Há tempo de sobra até),
Adeus, que somos marujos
Da equipagem de Noé.

O poeta concatena, no texto anterior, dois quartetos de versos heptassílabos, de ritmo bem simples, valendo-se de episódios bíblicos bastante populares, para criticar as atitudes nada cidadãs de certa "classe profissional" deveras malquista neste país.

A poesia de José Paulo Paes é econômica e sem hermetismos, mesmo nos textos mais surrealistas do primeiro de seus livros (O aluno, publicado em 1947). Essa economia e essa clareza, entretanto, não significam superficialidade. Falo disso na próxima atualização.
___________
* PAES, José Paulo. Poesia completa. São Paulo: Companhia das Letras, 2008

BG de Hoje

Taí uma canção contagiante: The ballad of John and Yoko (THE BEATLES). Ritmo e arranjo instrumental sensacionais. Um refrão que brinca com o lado negativo do fato de ser um popstar (e ainda remete àquela polêmica frase "somos mais famosos - ou populares - do que Jesus Cristo"): "Christ, you know it ain't easy/ you know how hard it can be/The way things are going, they're going to crucify me" (link para o vídeo)

terça-feira, 11 de agosto de 2009

E foram ficando pelo caminho...


No último fim de semana encontrei-me, no Bar do Vinícius (chapa de muitos anos), com alguns bons amigos para bebermos e comemorarmos (ou lamentarmos) meu aniversário. Contraditoriamente, fiquei a ruminar certos pensamentos ruins depois. Isso tem sido comum, para mal dos meus pecados.

Durante algum tempo, eu me preocupava sinceramente com o afastamento (voluntário ou não) das pessoas com quem convivi e por quem acabei criando afeição. Eu procurava telefonar, visitar, convidar para festas e outros programas. Hoje isso já não me importa tanto.

Lembrei-me também de um poema muito bonito de José Paulo Paes*:

BALADA DO BELAS-ARTES

Sobre o mármore das mesas
 
do Café Belas-Artes

os problemas se resolviam
como em passe de mágica.

Não que as leis do real 
se abolissem de todo
 
mas ali dentro Curitiba

era quase Paris 

O verso vinha fácil
 
o conto tinha graça
 
a música se compunha

o quadro se pintava 

Doía muito menos
 
a dor-de-cotovelo

nem chegava a incomodar 
a falta de dinheiro


Para o sedento havia 
um copo de água fresca,
 
média, pão e manteiga
 
consolavam o faminto
 

Não se desfazia nunca

a roda de amigos; 
o tempo congelava-se

no seu melhor minuto 

Um dia foi fechado
 
o Café Belas-Artes
 
e os amigos não acharam
 
outro lugar de encontro
 

Talvez porque já não tivessem

(adeus Paris adeus) 
mais razão de encontrar-se

mais nada a se dizer"

Amizades... Duram apenas se há razões para encontro, se há algo a dizer? Então, do que são feitas? Meus amigos vão ficando pelo caminho...

Mas, quem sabe, posso ainda dizer, como Carlos Drummond de Andrade**, ao derradeiro que restar:

"Meu amigo, vamos sofrer,
vamos beber, vamos ler jornal, 
vamos dizer que a vida é ruim,

meu amigo, vamos sofrer.

[...]

Meu amigo, vamos cantar, 
vamos chorar de mansinho

e ouvir muita vitrola, 
depois embriagados vamos

beber mais outros sequestros 
(o olhar obsceno e a mão idiota)
 
depois vomitar e cair

e dormir"

* PAES, José Paulo. Prosas seguidas de odes mínimas. São Paulo: Companhia das Letras, 1992

** ANDRADE, Carlos Drummond de. Convite triste. In: _____. Sentimento do Mundo. 13 ed. Rio de Janeiro: Record, 2001 [Este poema, na verdade, faz parte do livro Brejo das Almas, que foi incorporado à edição aqui referida]