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quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Falou e disse...

"Trabalhos realizados entre nós [da área médica] mostram que as demências são mais prevalentes entre os analfabetos e naqueles com baixa escolaridade. Por estimular diversas áreas cerebrais ao mesmo tempo, a leitura cria conexões mais firmes entre os neurônios dos centros que armazenam as memórias. A relação entre leitura e escolaridade não é direta. No Brasil, não são poucos os que cursaram a universidade, mas fogem dos livros como o diabo da cruz". *

* Observação do cancerologista Drauzio VARELLA, em sua coluna na revista Carta Capital, publicada em 07/12/2016, cujo título é Demência e Intelectualidade 

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Estes tempos velozes combinam com Literatura?




Em setembro de 2010 escrevi aqui sobre uma das conferências de Italo Calvino reunidas em Seis propostas para o próximo milênio*. Preciso hoje voltar às suas reflexões.

Como se sabe, naquele livro, o escritor defende "alguns valores literários que mereciam ser preservados", ainda que não tenhamos indicação alguma dos rumos a serem tomados pela Literatura nos mil anos vindouros. Os valores seriam a leveza, a rapidez, a exatidão, a visibilidade, a multiplicidade e a consistência (Calvino, todavia, faleceu antes de escrever sobre o último). Assim como na postagem de 2010, vamos nos ater apenas à rapidez.

De acordo com o autor italiano, "o século da motorização [o século XX] impôs a velocidade como um valor mensurável, cujos recordes balizam a história do progresso da máquina e do homem". E assim permanece no século XXI. A lentidão, pelo que temos visto, não combina com a lucratividade de uma economia cada vez mais dependente de um mercado financeiro voraz, interconectado, que reage a mudanças em questão de minutos. A lentidão, ao que tudo indica, também não tem a simpatia de seres humanos ansiosos e impacientes, cada vez mais dependentes de seus pequenos dispositivos eletrônicos portáteis. "Numa época em que outros media triunfam, dotados de uma velocidade espantosa e de um raio de ação extremamente extenso", ainda segundo o italiano, que formas assumirá o texto literário? Ele chega a dizer que imagina "imensas cosmologias, sagas e epopeias encerradas nas dimensões de um epigrama". Basta ler As cosmicômicas, Cidades invisíveis e, principalmente, Palomar para entender por que Calvino advoga em favor da rapidez  e da narrativa condensada, de breve duração: "[...] meu temperamento me leva a realizar-me melhor em textos curtos - minha obra se compõe em sua maior parte de short stories".

A propósito, outro mestre em narrar por meio dos escritos pouco extensos e altamente concentrados foi Jorge Luis Borges, que nunca publicou um romance. Entretanto, sua História universal da infâmia, Ficções, O livro dos seres imaginários - entre outros - atestam que o tamanho de um texto nada diz de sua qualidade. Menciono, por exemplo, o conto O espelho e a máscara (d'O livro de areia**), um primor de condensação narrativa, cujo mote é o trabalho de um poeta encarregado de enaltecer, através de sua pena, a batalha vencida por seu monarca. Após três anos de trabalho árduo do poeta (e modificações e supressões aconteceram a cada apresentação anual da peça), restou apenas uma linha: "Sem se animarem a pronunciá-la em voz alta, o poeta e o Rei a saborearam, como se fosse uma prece secreta ou uma blasfêmia", lemos no sensacional conto do escritor argentino, sem descobrir o que continha aquele único verso. "Nasce com Borges" - nos diz Calvino - "uma literatura elevada ao quadrado e ao mesmo tempo uma literatura que é como a extração da raiz quadrada de si mesma".

A rapidez não é impedimento para a existência de uma produção literária maiúscula. Contudo, entre tanta gente apressada e inquieta no mundo, não se encontram muitos leitores de Borges - e de Calvino - andando por aí.

Dentro do ônibus ou no metrô, na espera da consulta médica e, talvez, antes de pegar no sono, deitados na cama, é possível flagrar alguns indivíduos com livros nas mãos (cercados, contudo - é claro! -, por zilhões de outros movendo freneticamente os polegares sobre a tela de seus inseparáveis aparelhinhos). Na maioria das vezes, o que se lê nessas ocasiões, noto geralmente, é autoajuda e psicologia de araque, (muita) religião e esoterismo, além de títulos vinculados à indústria do cinema/entretenimento (e já vi passageiros no transporte coletivo, em pé, segurando um daqueles taludos exemplares da saga assinada por George R. R. Martin, a despeito do desconforto do veículo lotado). Obviamente, as pessoas leem o que quiserem, independentemente do que sujeitos metidos a besta (como este blogueiro) achem de seus gostos e interesses individuais. Meu ponto aqui, porém, vai em outra direção agora.

Fala-se muito em falta de tempo. Fala-se bastante também em correria: todo conhecido com quem topamos alega sempre estar numa correria dos infernos (ironicamente, nossas atuais sociedades, urbanizadas, apresentam altos índices de obesidade entre a sua população, cada vez menos disposta a correr, no sentido literal). Tanta pressa, tanta falta de tempo, tanta correria... Surge, então, o questionamento:  a opção - mais do que isso, o exercício - da escrita e da leitura literárias combinam com essa velocidade quase tirânica, inescapável, de nossa era? Antes de responder, gostaria de falar sobre três livros que li no último fim de semana.

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1) Um exemplo de que rumo a Literatura poderá tomar de agora em diante (e não quero dizer com isso que é um exemplo excelente, nem que é o rumo certo) pode ser encontrado no despretensioso livro A vida na porta da geladeira, de Alice Kuipers (Editora Martins Fontes, 2009, tradução de Rodrigo Neves). A narrativa focaliza o convívio das duas personagens centrais - mãe e filha - através dos bilhetes que cada uma deixa na porta do refrigerador durante quatro meses. Nesse intervalo de tempo, a mãe, médica, enfrenta grave complicação, enquanto a filha, uma estudante de 15-16 anos, atravessa os altos e baixos de sua pouca idade.

É possível ler A vida na porta da geladeira em menos de uma hora e meia. Como é composto por recados breves (muitos destes formados por apenas seis ou sete frases), a leitura segue ligeira e (para minha surpresa) bem agradável. No momento em que digito este texto, aposto, milhares de escritoras e escritores sem ter quem os leia devem estar ansiosos por um insight como esse de Alice Kuipers.

2) Leva-se também pouquíssimo tempo para terminar Adeus conto de fadas (Editora 7 Letras, 2006), reunião de minicontos escritos por Leonardo Brasiliense. Na orelha do livro, Marcelo Spalding observa que "o miniconto é um gênero que cresce no mundo todo, e cada vez mais a partir da internet" (onde o autor foi "descoberto" graças a seu site: www.leonardobrasiliense.com.br). O que me leva a pensar: manter um endereço na web (seja site, blog ou página/perfil em mídia social) parece ter se tornado quase indispensável para os artistas (inclusive escritores).

Voltando a Adeus conto de fadas, vencedor do Prêmio Jabuti na categoria Melhor Livro Juvenil em 2007, reproduzo abaixo um miniconto que representa bem esse livro e seu leitor-destinatário:

MULTIMIMDIA

Tô jogando Battlefield com o Marcelo na internet, teclando com a Angélica no messenger, falando com o Didi no skype, pegando o maior tédio num chat, olhando um filme de terceira na TV a cabo, ouvindo meu mp3 player... tudo ao mesmo tempo. Ah, e além disso, lendo um livro de minicontos, o que me inspirou a dar uma de escritor e escrever este aqui. O quê? Não ficou bom? Mas por quê?

3) Por fim, os Contos mínimos, de Heloísa Seixas (Editora Best Seller/Record, 2006) dizem a que vieram logo no título da antologia. A escritora reconhece que alguns de seus textos (publicados inicialmente numa revista suplementar do extinto Jornal do Brasil) nem sempre são reconhecidamente contos, mas que "atravessam uma fronteira imprecisa e têm sabor de crônica". Todas as 50 narrativas cabem em apenas duas páginas (exceção para Confete e Os ratos, acho eu). Na última delas, intitulada justamente Um conto mínimo (e uma das melhores), Heloísa Seixas fala de um acidente ocorrido com um avião japonês e escreve:

"Somos todos - não só artistas, mas todos nós - como aqueles japoneses desesperados. Vivemos tentando deixar nossas pegadas, apressados entre o início e o fim da viagem, sem saber ao certo o que acontecerá. E tudo passa num sopro, uma rajada, não dura mais do que alguns minutos diante do arco da eternidade.

A vida é um conto mínimo."

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A opção - mais do que isso, o exercício - da escrita e da leitura literárias combinam com essa velocidade quase tirânica, inescapável, de nossa era? Esse é o questionamento mantido em suspensão pelo blogueiro até agora. Necessário respondê-lo.

Diria que o tipo de Literatura pelo qual me interesso não combina com a velocidade. Não me entenda mal, eventual leitor(a): gosto também de textos curtos e rápidos. Minha opinião, porém, tem menos a ver com o tamanho das obras e mais com aquilo que estas requerem, exigem, do sujeito leitor.

Percebo, atualmente, no polo da recepção do texto literário, muita dispersão, muita superficialidade, pouca vontade de parar para pensar. A esse respeito, recomendo a leitura do pequeno e excelente artigo do professor da Fundação Getúlio Vargas, Thomaz Wood Jr., publicado na sua coluna da revista Carta Capital, em março do ano passado. Em A era da impaciência, Wood Jr. observa que estar o tempo todo envolvido com os smartphones, tablets e laptops da vida pode não ser tão bom negócio. As pessoas estão mais desatentas e apresentando menor capacidade analítica. Ele escreve:

"Não faltam exemplos: alunos lacrimejam e bocejam depois de 20 minutos de aula; leitores parecem querer textos cada vez mais curtos, fúteis e ilustrados; executivos saltam furiosamente sobre diagnósticos e análises e tomam decisões na velocidade do som; projetos são iniciados e rapidamente esquecidos; reuniões iniciam sem pauta e terminam sem rumo. Hipnotizados por tablets e smartphones, vivemos em uma sociedade assolada pelo transtorno do déficit de atenção e pela impaciência crônica".

Percebo também uma certa... preguiça mental: basta ver a quantidade de pessoas que reclamam de "textões" no Facebook ou a expressão norte-americana típica de alguns usuários de mídias sociais - tl;dr ("too long; didn't read").

Existe uma obsessão por interagir com outras pessoas o tempo todo e pouca disposição para ficar sozinho, pelo menos de vez em quando - condição que julgo essencial para alguém se tornar um leitor de verdade.

Junto a tudo isso, há o modo como cada indivíduo experimenta e vivencia a passagem do tempo. As pessoas lentas, como este blogueiro, têm grande dificuldade de entender (e se fazer entender pelas) pessoas velozes, aquelas que controlam o ritmo do mundo. Foi, aliás, um livro da psicanalista e ensaísta Maria Rita Kehl (sobre o qual já escrevi aqui e aqui) que me fez pensar nesse último ponto.

Quando tiver oportunidade, retomo essa discussão.

* CALVINO, Italo. Seis propostas para o próximo milênio: lições americanas. São Paulo: Companhia das Letras, 1990 [tradução de Ivo Barroso]

** BORGES, Jose Luis. O livro de areia. São Paulo: Companhia das Letras, 2009 [Tradução de Davi Arrigucci Jr.]

BG de Hoje

Não sou sempre a brutalidade em pessoa. Emociono-me, choro, sinto saudade e carência afetiva como qualquer outra pessoa. E ontem à noite fiquei pensando muito nessa canção. É a balada mais bonita que conheço - Is it okay if I call you mine?, composta e interpretada pelo ator PAUL McCRANE para o inesquecível filme Fama, de 1980. "And what I'm trying to say isn't really new/It's just the things that happen to me when I'm reminded of you". Chega a apertar o coração.


quarta-feira, 23 de novembro de 2011

O que significará editar livros no século XXI? (1)


No mês passado, li na revista Carta Capital* que a empresa Amazon comprou, tanto para a impressão quanto para o formato eletrônico, os direitos de publicação do livro For a song and a hundred songs, do escritor dissidente chinês Liao Yiwu. Segundo a reportagem, o contrato "é um passo importante para a editora interna da Amazon, que até agora só tinha assinado com autores do estilo autoajuda [...] ou de suspense [...]".

Ainda segundo Carta Capital, 

"ao atrair autores do calibre de Liao, a Amazon ameaça controlar todas as etapas da publicação de um best seller premium, do desenho do layout à publicação, distribuição e promoção dos títulos, deixando os editores tradicionais com cada vez menos espaço no mundo da literatura digital".

A Folha de S. Paulo**, reproduzindo matéria do New York Times, repercute situação similar: "a Amazon.com mostrou aos leitores que eles não precisam de livrarias físicas. Agora incentiva os escritores a descartar as editoras". E de acordo com Dennis Loy, representando os editores tradicionais, estes "estão apavorados e não sabem o que fazer".

Pela primeira vez, no início deste ano, as vendas dos livros digitais ultrapassaram as dos livros impressos, nos EUA. O mesmo cenário ainda não se verifica na Europa e noutras regiões do planeta, mas a pergunta, penso eu, não é inútil: o que significará editar livros no século XXI?

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Discordando da frase "livro é um produto como outro qualquer", Paulo Roberto Pires promove boa reflexão sobre o mercado editorial atual, ao fazer resenha*** da obra O dinheiro e as palavras, do experiente editor franco-americano André Schiffrin.

O resenhista diz que, segundo Schiffrin,

 "editar livros hoje [...] é atividade essencialmente parecida com o que era no século 19: no fundo das histórias e cifras de vampiros virginais, anjos apaixonados ou labradores amorosos, está o trabalho artesanal de escritores, editores e artistas gráficos. A mudança crucial acontece, lembra ele, quando o ramo deixa de ser visto como ofício para se transformar em mais um negócio ' de mídia ' - com investidores à espera de lucros pelo menos três vezes maiores do que o padrão".

Visão excessivamente idealizada e voluntarista? Talvez. Volto a André Schiffrin na próxima postagem, ao discutir uma entrevista dada por ele. Também falarei, na conclusão do assunto, de um trabalho de que gosto muito : Livros demais!, do mexicano Gabriel Zaid.

* Best sellers de qualidade, Carta Capital, São Paulo, ano 17, n. 668, p. 80-81. 19 out. 2011 [matéria assinada por Felipe Marra Mendonça]


** Amazon exclui editoras e negocia com escritores, Folha de S. Paulo, São Paulo, 18 out 2011, Caderno Mercado, p. 6

** Os editores no divã. Folha de S. Paulo, São Paulo, 9 out 2011, Caderno Ilustríssima. p. 4-5 [matéria assinada por Paulo Roberto Pires]


BG de Hoje

Para mim, a mais perfeita canção pop já gravada é Superstition, de Stevie Wonder. Mas já falei dela aqui nesta seção. Então, vamos à segunda melhor: No quarter, fantástica viagem sonora a cargo da mítica banda inglesa LED ZEPPELIN - link para o vídeo.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Meu problema com as artes plásticas (e com o conceito de arte em geral)



Deveria hoje dar prosseguimento à discussão do livro de Georges Perec mencionado na postagem anterior. Mas a leitura de uma matéria da revista Carta Capital na semana passada (Relato de um naufrágio*) mudou o planejamento.

A jornalista Leneide Duarte-Plon destacou alguns pontos de uma publicação lançada pelo ensaísta e crítico de arte francês Jean Clair. No livro L'hiver de la culture (O inverno da cultura), Clair não esconde sua aversão pelas obras e artistas inseridos no que chamamos "arte contemporânea" (para ele, esta expressão deveria sempre vir entre aspas). Na matéria, lê-se declaração pejada de reacionarismo e preconceito por parte do crítico francês:

"Em nome da democratização da arte, para observar Leonardo, Ticiano, Rembrandt, Velázquez ou Vermeer, deve-se exigir menos respeito e reverência do que os requeridos antigamente para entrar em um recinto de orações? (questionamento surgido ao descrever um visitante no Museu do Louvre "que veste short, a cueca aparecendo e uma camiseta sem mangas na qual se vê um peito peludo, cheirando a suor").

A arte "performática" e de "instalações" é atacada com dureza e a lucrativa atuação de um grupo seleto de artistas plásticos que adota práticas típicas do sistema financeiro não é deixada de lado na crítica de Jean Clair, que pergunta: "o que se pode ensinar hoje numa escola de belas artes a não ser dicas, não mais o savoir-faire de um métier, mas o saber vender de um mercado?"

A visão do ensaísta é altamente pessimista. Para ele, só se salvariam a música e a dança. E por quê?

"A razão é que há nessas disciplinas, e a palavra aí volta a ter sentido, um métier, um domínio do corpo longamente aprendido, uma técnica singular, ensinada e transmitida ano após ano. Ora, não há mais métier ou maestria nas artes plásticas".

A matéria termina com a observação de que o panorama da "arte contemporânea", segundo Clair, "sinaliza uma crise de civilização, iniciada no movimento surrealista". Na frase-resumo do crítico francês, "a arte contemporânea é o relato de um naufrágio e um desaparecimento".

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Antes de mais nada devo esclarecer que nada entendo de artes plásticas. Fiquei pensando, contudo, numa das afirmativas do crítico Jean Clair: "não há mais métier ou maestria nas artes plásticas". E arrisco dizer: está deixando de existir também nas outras manifestações artísticas.

Vejo algumas obras de arte contemporânea. E sendo franco: quase nunca consigo separar a criatividade da empulhação. Ignorância de minha parte? É provável. Mas penso ser também - e suponho que algo parecido aconteça com o(a) leitor(a) - reflexo de um estado de coisas que exige outra explicação.

Acredito na educação estética. Duvido que alguém nasça com um "gene de reconhecimento da beleza artística", cuja "ação orgânica" se dissemina, naturalmente, quando seu portador é submetido a uma sinfonia de Beethoven ou a um texto de Balzac. Arte, seja a de matriz mais popular ou a mais erudita, implica aprendizado, tanto por parte de quem faz, quanto por parte de quem apenas aprecia. Não obstante o prazer que possa proporcionar, há uma "dimensão laboriosa" do fazer/fruir artístico que não deveria ser negligenciada. Não é ocioso lembrar que arte e artífice têm o mesmo radical linguístico.

Assim sendo, como limitado espectador/fruidor de arte (em constante aprendizado, acrescento), só consigo apreciar aquilo que me parece indicar essa "dimensão laboriosa" acima referida.

É o que consigo, por exemplo, ver nos belíssimos (e famosos) quadros reproduzidos nesta postagem: o primeiro, O Retrato de Louis-François Bertin, de Jean Ingres (1780-1867), e o segundo, O Triunfo de Baco ou Os Ébrios, de Diego Velázquez (1599-1660). Essas obras exsudam estudo, trabalho, domínio e criação de técnicas. Hoje em dia, entretanto, dentro de minha pouca ilustração, deparo-me com as exibições cada vez mais cínicas - nem por isso pouco rentáveis e potencializadas pelos meios de comunicação - do pintor que não sabe pintar, do ator que não sabe interpretar, do músico que não sabe tocar, do dançarino que não sabe dançar, do escritor que não sabe escrever.

Na próxima postagem, volto ao livro A vida: modo de usar.

* Relato de um naufrágio. Carta Capital, São Paulo, Ano XVII, nº 666, 5 out. 2011, p. 78-81


BG de Hoje

Direto ao ponto: MATANZA, Eu não gosto de ninguém.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

"O coração do entendido adquire conhecimento; e o ouvido dos sábios busca conhecimento"


O título desta postagem está no livro dos Provérbios (Velho Testamento); capítulo 18, versículo 15.

Passagens bíblicas são utilizadas aqui e ali para ilustrar (e até ratificar) pontos de vista. E como as interpretações que se fazem destas são bastante amplas, cobrem uma quantidade variada de situações, ao gosto do freguês. O livro de Provérbios é um dos que mais se presta a esse uso.

No caso do versículo supracitado, claro está que o "conhecimento" referido é aquele derivado do "temor do Senhor" (no mesmo livro; cap. 1, vers. 7). Mas se olharmos para o enunciado sem a inculcação e o condicionamento religiosos, levando em conta apenas o seu "valor de face", este parecerá bem razoável; óbvio até.

Lembrei-me desse versículo, na semana passada, ao ler a entrevista (surpreendente, para mim) concedida pelo pastor Ricardo Gondim à revista Carta Capital* (disponível aqui). Mestre em Teologia pela Universidade Metodista, Gondim havia publicado em seu site um artigo bastante instigante e corajoso, intitulado Deus nos livre de um Brasil evangélico (também disponível aqui). Neste texto, o religioso fala de seu "pavor" com a hipótese de o país seguir rumo à hegemonia de credo neopentecostal. Segundo ele, "avanços numéricos de evangélicos em algumas áreas já dão uma boa ideia de como seria desastroso se acontecesse essa tal levedação radical do Brasil".

O pastor exibe preocupação com o empobrecimento cultural e artístico decorrente desse cenário: "Quem, entre puritanos, carimbaria a poesia de um ateu como Carlos Drummond de Andrade?", pergunta ele. Para Gondim, "um Brasil evangélico não teria folclore [...] Nietzsche jazeria na categoria dos hereges loucos e Derrida nunca teria uma tradução para o português".

A crítica do articulista incide sobre o conservadorismo extremo e o fundamentalismo manifestados por muitas das pessoas abrigadas sob a designação genérica de crentes. Ricardo Gondim considera que

"Levar a boa notícia não significa exportar uma cultura, criar um dialeto, forçar uma ética. Evangelizar é anunciar que todos podem continuar a costurar, compor, escrever, brincar, encenar, praticar a justiça e criar meios de solidariedade".

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Uma das razões que me levaram a ser mais franco e direto em relação a meu ateísmo (já apontei duas outras aqui) é contrapor-me às demonstrações de intolerância e a postura francamente irracionalista adotada por certos chefes de igreja, alguns deles bastante influentes (politica e economicamente, inclusive). Pessoas extremamente apegadas a valores religiosos costumam classificar o mundo ao redor (e perdão pelo lugar-comum) com base no critério preto-e-branco, ignorando (por conveniência e má-fé, em muitos casos) a extensa zona cinzenta na qual está envolta a condição humana.

Mesmo sendo ateu, julgo importante manifestações mais esclarecidas, a meu ver, provenientes de representantes do campo teísta, como observei nas declarações do pastor Gondim.

Na entrevista mencionada, ele faz uma observação destoante do pensamento "evangelista" usual:

"É incompatível a existência de um Deus controlador com a liberdade humana. Se Deus é bom e onipotente, e coisas ruins acontecem, então há algo errado com esse pressuposto. Minha resposta é que Deus não está no controle. A favela, o córrego poluído, a tragédia, a guerra, não têm nada a ver com Deus. Concordo com Simone Weil, uma judia convertida ao catolicismo durante a Segunda Guerra Mundial, quando diz que o mundo só é possível pela ausência de Deus. Vivemos como se Deus não existisse, porque só assim nos tornamos cidadãos responsáveis, nos humanizamos, lutamos pela vida, pelo bem. A visão de Deus como um pai todo-poderoso, que vai me proteger, poupar, socorrer e abrir portas é infantilizadora da vida".

Penso que seria muito melhor para a convivência em sociedade se os religiosos tivessem uma relação tão fértil e construtiva com o conhecimento (artístico, filosófico, científico...), como o demonstrado pelo pastor Gondim.

* O pastor herege. Carta Capital. São Paulo, ano 16, n. 643, 27 abr. 2011 [ entrevista realizada por Gerson Freitas Jr.]

BG de Hoje

O PREMEDITANDO O BREQUE  ou simplesmente PREMÊ, como  passou a ser chamado por alguns fãs (eu ainda prefiro o nome completo), conseguiu juntar ótimos músicos e produzir canções muito bem-humoradas ao longo da carreira. Rubens (também gravada por Cássia Eller) é uma delas.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Blog: uma chatice? (1)

A seção mais bacana da revista Carta Capital, acho eu, chama-se Blogs do Além. Assinada por Vitor Knijnik, a página traz "postagens" de gente morta (essas sim, verdadeiras celebridades), tudo feito com ótimas e engraçadas sacadas. Divirto-me lendo principalmente as informações do "Perfil". Por exemplo, este do escritor Jack Kerouak (edição de 23/02/11):

"Escritor-símbolo da Beat Generation. Se quiser saber mais sobre mim, me dê um pouco de benzedrina e um litro de gim e nunca mais paro pra te contar".

Ou este outro, descrevendo a "homepage" de Luz del Fuego (edição de 16/03/11):

"Um lugar onde a cobra vai fumar. Ou seja, esse é um ambiente aberto e sem toldo. Não quero problemas com os fiscais da prefeitura".

No texto Eu quero ter um zilhão de amigos e bem mais forte poder governar, "postado" por ninguém menos que Alexandre, o Grande (edição de 02/03/11), pode-se ler:

"Nesse momento, muitos dos lugares que estiveram sob meu poder são palcos de revoltas populares, potencializadas pelas redes sociais. Leio que comunidades rebeldes não estão organizadas em torno de grandes líderes, de bandeiras ideológicas ou religiosas. Parece que o pessoal quer mesmo é emprego, dinheiro no bolso, sinal de Wi Fi estável e uma senha fácil de decorar".

O ex-pupilo de Aristóteles sugere então, a essas localidades, a adoção da "democracia facebuquiana":

"Na democracia facebuquiana, todos seriam obrigados a aceitar como amigo todo e qualquer cidadão de seu país. Nem aquele cunhado que lhe deve dinheiro poderia ser ignorado. De tal forma que qualquer indivíduo poderia propor uma nova lei ou emenda. As votações seriam simples, no esquema curtir ou deixar de curtir. As que tivessem mais curtir obviamente seriam aprovadas".


O negócio funciona porque, junto com a criatividade de Knijnik, o leitor reconhece prontamente um tipo de organização de texto - o blog -, com suas características gráficas específicas, comicamente "desvirtuadas" e exploradas pelo colunista de Carta Capital.

Numa postagem do ano passado (ver Blogs: entre a egolatria e o rancor), defendi que o blog é um gênero textual. Boa parte dos internautas/leitores está familiarizada com sua modelagem e outros tantos usuários da Web acabam criando e mantendo seu próprio "lugar" na blogosfera.

Entretanto, tenho lido e ouvido por aí que estes sites pessoais simplificados, diários virtuais, páginas de opinião (ou qualquer outra definição que queiram dar) estão perdendo terreno para novas formas de comunicação via computador, tornando-se cada vez mais impopulares.

O que há com os blogs? Já estão obsoletos e serão substituídos pelo que se escreve no Twitter ou noutras redes sociais? Há uma "crise de leitura" na blogosfera como, supostamente (e guardando as devidas proporções) haveria na leitura de livros? Os blogueiros estão descuidando da pena, digo, do teclado? O leitor já está de saco cheio? Ler (ou escrever) postagens é uma chatice?

Retomo o assunto na próxima postagem.

BG de Hoje

Algumas (boas) cantoras-compositoras, infelizmente, são sempre acusadas de serem somente "crias" dos produtores musicais. Caso de Zélia Duncan (apenas para citar um exemplo brasileiro) e Amy Winehouse (mundialmente conhecida, claro). ALANIS MORISSETTE também carregou a pecha. Em 1995, comprei o disco Jagged Little Pill, principalmente por causa de Hand in my pocket, melodia e letra simples, que gosto de cantar em casa, sozinho. Mas a melhor do álbum, para mim, continua sendo Wake up. OBS. No vídeo abaixo, a artista canadense até se aventura a tocar guitarra no final da apresentação!