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domingo, 28 de agosto de 2022

Absortos na vida


Momento num café, de Manuel Bandeira, é um de meus poemas prediletos. Foi reproduzido aqui no blog anteriormente, há quase dez anos.

É uma composição descritiva. 

Na pequena cena, alguns fregueses de um café tiram seus chapéus (o texto foi publicado na década de 1930, quando o chapéu era um acessório quase obrigatório) como sinal de respeito a um cortejo fúnebre que passa. Um dos homens, entretanto, não o faz "maquinalmente", escreve Bandeira, mas sim por meio de um "gesto largo e demorado/olhando o esquife longamente", porque ele sabia que "a vida é uma agitação feroz e sem finalidade/que a vida é traição/e saudava a matéria que passava/liberta para sempre da alma extinta".

Se o(a) eventual leitor(a) já leu outras postagens deste Besta Quadrada certamente notou que é exatamente assim que vejo a vida - uma agitação feroz e sem finalidade. Entretanto, é dos outros fregueses do café que gostaria de falar hoje.

Por que tiraram o chapéu maquinalmente, ou seja, de forma desatenta, apenas seguindo as convenções e a etiqueta social da época? 

Porque "estavam todos voltados para a vida/absortos na vida/confiantes na vida".

Os absortos na vida são numerosos. Creio que são a maioria dos seres humanos. 

Acredito que diversas passagens de A náusea referem-se justamente a indivíduos assim. Explicarei.

Primeiro romance de Jean-Paul Sartre, publicado originalmente em 1938, A náusea (livro que tenho lido desde o final da adolescência e sobre o qual já falei em postagem de set/2014) lança mão de um velho estratagema literário: o do relato encontrado "em meio a outros registros" e transformado em publicação por certos "editores". No caso, o diário de um historiador e pesquisador chamado Antoine Roquentin, escrito quando este esmiuçava a vida de um nobre menos aquilatado, envolvido com atos de espionagem, morto na segunda década do século XIX.

Boa parte do que está no diário é resultado de observações feitas por Roquentin quando se encontrava dentro de cafés na cidade fictícia de Boeville (inspirada provavelmente numa cidade francesa real, Le Havre). É um homem solitário. "Nunca falo com ninguém; não recebo nada, não dou nada", anota ele ¹.  O que procura em estabelecimentos justamente desse tipo?

Tentar se proteger.

"As coisas não vão bem!" - registra Roquentin em certo dia - "Não vão bem de modo algum: estou com ela, com a sujeira, com a Náusea. E dessa vez é diferente: me veio num café. Até agora os cafés eram meu único refúgio, porque estão cheios de gente e são bem iluminados: já não haverá nem isso; quando me sentir encurralado em meu quarto, já não saberei aonde ir".

Porém, estar entre outras pessoas não significa necessariamente ligar-se a essas mesmas pessoas: "Estou só em meio a essas vozes alegres e sensatas. Todos esses sujeitos passam o tempo se explicando, reconhecendo com satisfação que têm as mesmas opiniões. Deus meu, que importância dão a pensar todos juntos as mesmas coisas!"

É duro (e nauseante) dar-se conta do quanto há de contingente e arbitrário na existência, divisando todas as implicações dessa constatação. Para livrar-se do peso, para não ter que encarar continuamente o insuportável absurdo, entra-se em tavernas, bares ou cafés - "bem perto das pessoas", mas "na superfície da solidão" -, pois a aparência de algo que faça sentido ou tenha propósito no existir depende da proximidade dos outros.

Note-se, entretanto, que bem poucos sentem essa náusea (ou, melhor dizendo, bem poucos falam a respeito dela, exteriorizam-na). A maioria dos indivíduos é de absortos na vida, com os quais Roquentin (e, se posso dizer, também este blogueiro) mal consegue relacionar-se:

"Como me sinto longe deles [...]. Parece-me que pertenço a uma outra espécie. Eles estão saindo dos escritórios, depois de seu dia de trabalho, olham para as casas e para as praças com ar satisfeito, pensam que essa é a sua cidade, uma 'bela urbe burguesa'. Não têm medo, sentem-se em casa. Nunca viram senão a água domada que corre das torneiras, a luz que jorra das lâmpadas quando se aperta o interruptor, as árvores mestiças, bastardas, sustentadas por espeques. Eles comprovam, cem vezes por dia, que tudo se faz por mecanismos, que o mundo obedece a leis fixas e imutáveis. Os corpos abandonados no vazio caem todos na mesma velocidade, o jardim público é fechado todos os dias às dezesseis horas no inverno e às dezoito horas no verão, o chumbo funde a 335°, o último bonde sai da prefeitura às vinte e três e cinco. Eles são sossegados, um pouco taciturnos, pensam no Amanhã, isto é, simplesmente um novo hoje; as cidades dispõem apenas de um único dia que retorna igualzinho todas as manhãs. Só o enfeitam um pouco aos domingos. Que imbecis! Repugna-me pensar que vou rever seus rostos espessos e tranquilos. Eles legislam, escrevem romances populistas, casam-se, cometem a extrema tolice de fazer filhos".

___________

¹ SARTRE, Jean-Paul. A náusea. 12 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005. [Tradução de Rita Braga]. Todas as citações do texto de Sartre incluídas nesta postagem foram extraídas da edição referenciada.


BG de Hoje

Procuro não ser nostálgico. Odeio a frase "no meu tempo é que era bom". Existe um apego por certas canções brasileiras dos anos 1980 - época da explosão comercial do rock nacional - que eu acho insuportável. Não consigo ouvir muitas faixas daquela época justamente por causa dessa nostalgia chata. Uma das exceções é Até quando esperar, um petardo da PLEBE RUDE que sempre me pego escutando, atento e com prazer. Se a pergunta "Com tanta riqueza por aí/onde é que está/cadê sua fração?" fazia todo sentido há quase 40 anos, o que dizer agora, com a indecente concentração de renda testemunhada nos dias atuais?


domingo, 14 de fevereiro de 2016

Falou e disse...

"Sei muito bem que não quero fazer nada: fazer alguma coisa é criar existência - e já há existência suficiente sem isso"*.

* SARTRE, Jean-Paul. A náusea. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. p. 251 [Tradução de Rita Braga]


segunda-feira, 22 de setembro de 2014

A náusea: romance da contingência



" 'Mas por que', pensei, 'por que tantas existências, já que todas se parecem?'. Para que tantas árvores, todas iguais? Tantas existências fracassadas e obstinadamente recomeçadas e novamente fracassadas - como os esforços desajeitados de um inseto caído de costas? (Eu era um desses esforços)".


do personagem-narrador Roquentin, em A náusea, de Jean-Paul Sartre

 
Não é segredo que se compreende melhor a filosofia de Jean-Paul Sartre através da leitura de sua ficção e de seu teatro, pois seus textos propriamente filosóficos, na minha opinião, costumam ser difíceis (excetuando, talvez, os ensaios A imaginação e Que é a literatura?, além do opúsculo O existencialismo é um humanismo).

A problemática da existência e a indeterminação que caracteriza a condição humana são, naturalmente, tematizadas nas centenas de páginas da principal obra filosófica do autor - O ser e o nada (originalmente publicada em 1943); contudo, a argumentação de Sartre nesse tratado é, frequentemente, de uma aridez intimidadora. Por sua vez,  o romance A náusea (lançado antes, em 1938) é composto pelos mesmos temas, sendo, contudo, muito mais agradável de se ler.

Devo confessar, entretanto, que não atinei para a profundidade da reflexão proposta por A náusea quando o li pela primeira vez, há quase 25 anos. Estava no fim da adolescência, confuso, num dos piores momentos de minha vida. Não compreendi que o ritmo lento da narrativa era intencional e artisticamente relevante. Ainda assim, de alguma forma, o livro deixou-me um tanto perturbado. Já tinha ouvido, não sei quando nem onde, a máxima "A existência precede a essência" - que o filósofo francês amplificou por meio de seus escritos, mas não compreendia seu significado. Busquei interpretá-la através do que encontrei no romance sartreano e não tive êxito. Felizmente, voltei ao livro diversas outras vezes (inclusive no último fim de semana, para escrever esta postagem) e hoje entendo-o melhor, além de me sentir afetivamente ligado a ele.

Foi através de A náusea que compreendi plenamente o que é a contingência e como esta é um elemento preponderante na realidade que nos cerca.

Antoine Roquentin, o personagem-narrador do livro, registra no seu diário a certa altura*:

"O essencial é a contingência. O que quero dizer é que, por definição, a existência não é a necessidade. Existir é simplesmente estar presente; os entes aparecem, deixam que os encontremos, mas nunca podemos deduzi-los. Creio que há pessoas que compreenderam isso. Só que tentaram superar essa contingência inventando um ser necessário e causa de si próprio. Ora, nenhum ser necessário pode explicar a existência: a contingência não é uma ilusão, uma aparência que se pode dissipar; é o absoluto, por conseguinte a gratuidade perfeita. Tudo é gratuito: esse jardim, essa cidade e eu próprio. Quando ocorre que nos apercebamos disso, sentimos o estômago embrulhar, e tudo se põe a flutuar [...]: é isso a Náusea [...]"

E mais à frente, ele acrescentará:

"Agora eu sabia: as coisas são inteiramente o que parecem - e por trás delas... não existe nada".

O que Roquentin quer dizer ao leitor (e, provavelmente, o autor também o quer, através do personagem) é que não há uma "realidade além da realidade" ou um desígnio (externo a nós), predeterminação ou destino a conduzir as vidas dos indivíduos. Uma existência simplesmente existe, aparece, dá-se a ver. Não é necessária; é contingente, gratuita. E farão parte da condição humana as tentativas de prover essas existências (caso surjam sob a forma de vidas individuais) de significado e de sentido, porque estes não nos foram dados de antemão. Mas, como se pode perceber, bastando olhar para dentro de si, trata-se de tarefa nada simples. Porque essa atribuição de significado e sentido precisa ser feita a todo instante por meio das ações que se escolhe fazer - ou deixar de fazer (lê-se em O existencialismo é um humanismo**: "Um homem embrenha-se na sua vida, desenha o seu retrato, e para lá desse retrato não há nada". E logo adiante, Sartre arremata: "O que queremos dizer é que um homem nada mais é do que uma série de empreendimentos, que ele é a soma, a organização, o conjunto das relações que constituem estes empreendimentos").

Há ainda outro aspecto sobre o qual gostaria de falar. As obras literárias que mais tocam os leitores muitas vezes extraem seu poder de atração do sentimento de identificação que nutrimos por determinados personagens. Angústia, de Graciliano Ramos,  por exemplo, é um de meus livros prediletos (como já escrevi aqui) porque, entre outras razões, olho para o personagem Luís da Silva como um espelho. Os demônios e Os irmãos Karamazov, de Dostoiévski, também são mais significativos para mim por causa de, respectivamente, Kirílov e Ivan Karamazov.

Voltando ao livro de Sartre. Antoine Roquentin, apesar de ser um historiador culto e um ocioso da classe média (ele próprio registrou em seu diário: "Não tenho problemas, tenho dinheiro, fruto de rendas, não tenho patrão [...]"), relata sentimentos - desespero, angústia, desamparo - em nada diferentes dos meus (pobre-diabo que sou). Já senti - e sinto frequentemente - a misantropia de Roquentin (o excerto abaixo expressa tão bem o que penso a respeito dos indivíduos em geral!):

"Eles são sossegados, um pouco taciturnos, pensam no Amanhã, isto é, simplesmente um novo hoje; as cidades dispõem apenas de um único dia que retorna igualzinho todas as manhãs. Só o enfeitam um pouco aos domingos. Que imbecis! Repugna-me pensar que vou rever seus rostos espessos e tranquilos. Eles legislam, escrevem romances populistas, casam-se, cometem a extrema tolice de fazer filhos"

Grandes obras literárias também nos deixam lições. De A náusea, extraí esta: "Todo ente nasce sem razão, se prolonga por fraqueza e morre por acaso". Essa frase nunca abandonou meu pensamento.
___________
* SARTRE, Jean-Paul. A náusea. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. [Tradução de Rita Braga]

** ________. O existencialismo é um humanismo. São Paulo: Abril Cultural, 1978 [Tradução de Vergílio Ferreira] (Coleção Os pensadores)

BG de Hoje

Como diria o filósofo Kafunga (ex-goleiro e comentarista de futebol), hoje é sem coré-coré: PANTERA, Domination.


segunda-feira, 20 de maio de 2013

Erostrato



Em determinado momento do conto Erostrato*, de Jean-Paul Sartre, o personagem-narrador diz: "eu também, um dia, no fim de minha vida obscura, explodiria e iluminaria o mundo com uma chama violenta e fugaz como um clarão de magnésio".

O nome dele é Paul Hilbert. Trata-se de um insignificante funcionário, sexualmente frustrado, que tem medo dos outros e considera-se fraco. Como se vê, um cara igual a milhões mundo afora (inclusive, igual a este blogueiro). Entretanto, julga-se superior aos demais homens, pelo menos ao observá-los da sacada de um sexto-andar: "uma superioridade de posição, nada mais; estou colocado acima do humano que existe em mim e o contemplo".

Hilbert odeia as outras pessoas - mal suporta a proximidade física delas - e acredita ter razões sérias para isso. Quais seriam? Não ficam claras ao longo da narrativa. Mas ele nos diz que é fácil imaginá-las. Por quê? Deixo a pergunta em suspensão.

O personagem-narrador sente-se diferente dos outros indivíduos, todos potenciais opositores:

"Sabia que eles eram meus inimigos, mas eles não o sabiam. Amavam-se uns aos outros, ajudavam-se; e me teriam ajudado, ocasionalmente, porque acreditavam que eu era semelhante a eles. Mas se pudessem adivinhar a mais ínfima parcela da verdade teriam me batido".

Ao comprar um revólver, "tudo começou a ir melhor". E noites depois, veio-lhe a singela "ideia de atirar em homens". Não queria fazer nada de forma irrefletida. Treinou um pouco e buscou fazer transparecer sua decisão, de forma velada.

Hilbert excitava-se tremendamente com a perspectiva de descarregar seu revólver nos outros. Simular em pensamento a situação "era uma brincadeira muito enervante; minhas mãos tremiam; por fim, eu me via obrigado a tomar um conhaque no Dreher para me refazer". Seu ato futuro lhe parecia uma obra de arte: "Encarado de certo ângulo é atroz, mas, por outro lado, dá ao instante que passa uma força e uma beleza consideráveis". O massacre se tornaria um "mineral resplandecente".

Numa carta destinada a 102 escritores franceses - o momento mais sensacional do conto - Hilbert, numa comparação com os destinatários, vê, entre estes e o remetente, apenas "uma pequena diferença de gosto". E reclama, demonstrando que mesmo um sujeito abjeto e perturbado como ele tenta dar algum significado para a existência: "Mas tudo passa como se tivésseis a graça e eu não. Sou livre para gostar ou não de lagosta à americana, mas, se não gosto dos homens, sou um miserável e não posso encontrar lugar ao sol. Monopolizaram o sentido da vida".

Por acaso, fica conhecendo o caso de Eróstrato, habitante de Éfeso, que, no século IV a. C., pôs em chamas o templo de Ártemis, no mesmo dia do nascimento de Alexandre Magno. Com isso, Eróstrato quis entrar para a história. Preso, foi condenado à tortura e seu nome foi proibido de ser pronunciado a partir de então, sob pena de morte a quem o fizesse. Hilbert fica encorajado: "Havia mais de dois mil anos que ele estava morto e sua ação ainda brilhava, como um diamante negro".

O resultado do "crime-obra-de-arte" do personagem-narrador nada tem de grandioso e termina de modo infame. Mas o que me interessa no momento é a resposta que gostaria de dar à pergunta formulada anteriormente (por que seria fácil para nós, leitores do conto de Sartre, imaginar as "razões sérias" que levam Hilbert a odiar as outras pessoas?).

Seria complicado formular explicitamente essas razões, mas algo menos evasivo pode ser dito. Vários de nós, que gostamos de nos ver como "gente de bem" ou com "alma de humanistas", experimentamos, com maior ou menor intensidade, a mesmíssima sensação de ódio em relação a outras pessoas, mesmo que estes indivíduos não nos tenham feito, direta ou indiretamente, qualquer malefício. Faça um breve exame de consciência. Não é fácil sentir esse ódio? Se temos ou não desejo ou intenção de matar os outros, aí já é outra conversa.

Na próxima postagem, começo a falar do livro O tempo e o cão, de Maria Rita Kehl.
__________
* SARTRE, Jean-Paul. Erostrato. In: ____________. O muro. 20 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005. p. 65-83 [tradução de H. Âlcantara Silveira].

BG de Hoje

Ao contrário do personagem do conto de Sartre, a canção do BG fala justamente da proximidade afetiva entre as pessoas: a belíssima Pai e mãe, de GILBERTO GIL.


terça-feira, 26 de junho de 2012

O "esconderijo" dos acadêmicos ou Culpa e vida intelectual (III)




"Digamos que ele [o intelectual] se caracteriza por não ter o mandato de ninguém e por não ter recebido seu estatuto de nenhuma autoridade. É, enquanto tal, não o produto de alguma decisão - como são os médicos, os professores, etc. enquanto agentes do poder - mas o monstruoso produto de sociedades monstruosas".

Jean-Paul Sartre - Em defesa dos intelectuais*


Duvido que Sartre se importasse com o sentimento de culpa (principalmente no sentido cristão do termo). Mesmo assim, creio que intelectuais  - não todos, é claro - costumam sentir-se culpados (Sartre diria que eles experimentam um "mal-estar"). Donde ou como surge esse sentimento?

Bem, não é habitual que intelectuais integrem o proletariado; ou já nasceram num ambiente burguês (ainda que pequeno-burguês**)  ou ascenderam a este por meio mesmo de suas atividades no campo da cultura formalizada, escolarizada. Não fazer parte do proletariado - em que predominam as atividades alienadas e alienantes - acaba sendo um privilégio. E esse privilégio é, talvez, vivenciado com culpa.

Horácio González*** considera que "[...] o intelectual vive a contradição de origem com o 'não-trabalho'. Cada um a toma de forma diferente. Alguns com remorso, outros com orgulho, alguns sem temor de [ser] 'punidos por seu aristocratismo', outros com a tentação de abandonar tudo à espreita de algum surto populista". 

Pensemos apenas nos que sentem remorso: por que o sentem? Porque suspeitam que aquilo que fazem - seja lá o que for - não pode ser considerado propriamente um trabalho...

Mas o sentimento de culpa talvez seja decorrente da maneira como o intelectual lida com as instâncias de poder.

"A força do intelectual" - escreve González - "é seu relativo distanciamento das lutas sociais diretas. Mas essa é também a fonte de sua debilidade. Se ele pode ser crível porque, ao nos falar do poder, o faz desprendido de paixões imediatas e afastado de práticas pouco enaltecedoras, isso mesmo é o que também o faz inocente, inócuo e, por vezes, até falaz. As contradições entre suas problemáticas teóricas e a realidade que diz desejar servir motivam sempre diversas respostas. Ou se expõe ao isolamento na torre de marfim [...] ou deve viver de contínuas 'autocríticas' [...]".

Tanto o isolamento quanto as repetidas autocríticas enfraquecem o intelectual e suas manifestações - no geral calcadas em valores transcendentes ou, pelo menos, não atreladas a particularismos casuístas - perante o restante da sociedade. E por não terem "mandato de ninguém", atualmente, a maioria dos intelectuais prega no deserto.

Se poucos querem ouvi-los, onde então se "entocam" esses "técnicos do saber****? Falo disso na próxima postagem, retornando ao artigo de Hans Ulrich Gumbrecht que motivou esta série de postagens.
__________
* SARTRE, Jean-Paul. Em defesa dos intelectuais. São Paulo: Ática, 1994 [tradução de Sérgio Goes de Paula]

** As palavas proletariado e burguês  estão meio "fora de moda", mas foram aqui mencionadas porque estão em acordo com a terminologia usada por J. P. Sartre, de fortíssima inspiração marxista. O pensador francês argumenta que o intelectual deve contestar os princípios da classe dominante mas, ao mesmo tempo, este não deixa de ser "um pequeno-burguês que se liberta", sendo "todo o tempo solicitado a formar os pensamentos de sua classe".

*** GONZÁLEZ, Horácio. O que são intelectuais. 2 ed. São Paulo: Brasiliense, 1981 [Coleção Primeiros Passos]

**** A expressão é de Sartre

BG de Hoje 

Sempre fui mais adepto da crueza do que da elaboração, quando o assunto é rock. Mas se ouço algo excepcional, como o som do ARCADE FIRE, tenho que "rever meus conceitos". No vídeo versão ao vivo de My body is a cage. 

terça-feira, 19 de junho de 2012

O "esconderijo" dos acadêmicos ou Culpa e vida intelectual (II)



Ao final da postagem anterior deixei no ar as seguintes questões - por que falar em contradição? E por que falar em culpa? - na tentativa de entender melhor o que vem a ser um intelectual.

Para achar uma resposta satisfatória e dar prosseguimento à discussão, "convido" Jean-Paul Sartre, um dos últimos pensadores que lograram conferir ao intelectual uma imagem de atuação pública reconhecida.

Num de seus ensaios mais famosos* (produto de conferências realizadas em 1965), o filósofo francês parte das censuras e das críticas mais difundidas sobre os intelectuais e encontra nestas um ponto comum:

" [...]  o intelectual é alguém que se mete no que não é da sua conta  e que pretende contestar o conjunto das verdades recebidas, e das condutas que nelas se inspiram, em nome de uma concepção global do homem e da sociedade - concepção hoje em dia impossível, portanto abstrata e falsa, já que as sociedades de crescimento se definem pela extrema diversificação dos modos de vida, das funções sociais, dos problemas concretos".

Sartre, problematizando essa visão, busca apontar os limites e as falhas de um modelo educacional tecnicista, hegemônico na atualidade  (e cujo ponto culminante é a superespecialização em cada campo do conhecimento) : sua intenção é recuperar a importância da formação dita humanista e, desse modo, "salvar" o papel dos intelectuais nas sociedades contemporâneas.

Esse papel, contudo, está imerso em contradições. Diz o filósofo francês:
 
"Ele  [o intelectual]  é 'humanista' desde a infância: isso significa que o fizeram acreditar que todos os homens eram iguais. Ora, quando ele se vê, toma consciência de ser, em si mesmo, a prova da desigualdade das condições humanas. Ele possui um poder social que decorre de seu saber vertido a uma prática. Mas ele chegou a esse saber - filho de funcionário, de alto assalariado ou de representante das profissões liberais - enquanto herdeiro: a cultura já estava em sua família antes de ele nascer - nascer em sua família ou nascer na cultura é a mesma coisa. E, se ele se origina das classes trabalhadoras, só pôde ter sucesso pela única razão de que um sistema de seleção complexo e  jamais justo  eliminou a maior parte de seus camaradas. De qualquer maneira, ele é possuidor de um privilégio injustificado, mesmo - e, num certo sentido, sobretudo - se venceu brilhantemente todas as provas. Esse privilégio - ou monopólio do saber - está em radical contradição com o igualitarismo humanitário. Em outros termos, a ele deveria renunciar. Mas, como ele  é  esse privilégio, não pode renunciar a ele sem se abolir, o que contradiz o instinto de vida tão profundamente enraizado na maior parte dos homens".

Ao introduzir o componente classe social em sua análise, Jean-Paul Sartre nos lembra que a cultura (e, nesse contexto, pode-se entender o termo no mesmo sentido de conhecimento formalizado)  não está imune aos condicionamentos econômicos. Condicionamentos estes que geram desigualdades entre os seres humanos - das quais a própria existência dos intelectuais é prova, pois seu acesso aos bens culturais é  "jamais justo". Uma tomada de consciência dessa natureza pode gerar, no indivíduo em que esta surge, um pesado sentimento de culpa, em bom número de casos...

Que fazer, então? Continuo na próxima postagem.
__________
* SARTRE, Jean-Paul. Em defesa dos intelectuais. São Paulo: Ática, 1994 [tradução de Sérgio Goes de Paula]

BG de Hoje

Quando estou prestes a encerrar mais um dia de trabalho, um pouco cansado e meio desanimado (é o caso agora), penso apenas no momento em que estiver lá em casa. Chegando, vou abrir uma lata de cerveja e ouvir canções pra recuperar as forças. Uma dessas é a linda  Red Hill Mining Town,  do U2. 

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Dinheiro (1)

Pedir dinheiro está, sem dúvida alguma, entre os atos mais desagradáveis e vexatórios que existem. Tal situação só não se torna mais humilhante se dispomos da cara-de-pau, por exemplo, de um Custódio, personagem do conto O empréstimo*, de Machado de Assis. "Esse Custódio nascera com a vocação da riqueza, sem a vocação do trabalho", informa-nos o narrador. O clima é de humor, mas não deixa de causar certo desconforto em quem lê a progressiva redução no valor do empréstimo - que implica a diminuição moral da personagem - até chegar a uma quantia ínfima. Insistente, de posse pelo menos do "jantar certo", Custódio, ao final da história, "apertava amorosamente os cinco mil-réis, resíduo de uma grande ambição, que ainda há pouco saíra contra o sol, num ímpeto de águia, e ora batia modestamente as asas de frango rasteiro."

Acaba sendo também engraçada - apesar de desesperadora - a cena em que Dimitri Karamazov suplica 3.000 rublos à Sra. Khokhlakova, para restituí-los à sua ex-noiva, e assim recuperar parte de sua honra. Sem poder verbalizar adequadamente seu pedido, já que era interrompido a todo instante pela tagarelice da mulher, o mais velho d'Os Irmãos Karamazov** recebe o despropositado conselho para ir trabalhar nas minas de ouro da Sibéria. Dostoiévski conduz a cena contrapondo, por meio do diálogo, a intensa agonia de Dimitri à cômica incompreensão da Sra. Khokhlakova.

Em A Idade da Razão***, Jean-Paul Sartre nos apresenta o pior tipo de pedido de empréstimo que pode ser feito: aquele que ocorre entre parentes; no caso, entre irmãos. O professor de filosofia Mathieu Delarue procura o irmão, Jacques, para que este lhe conceda 4.000 francos, a fim de poder pagar por um aborto, já que a namorada de Mathieu, Marcelle, estava grávida e, aparentemente, nenhum dos dois desejava que a gravidez prosseguisse. No romance, o professor de filosofia defende que o valor mais importante é a liberdade. Só que nessa passagem, pode-se perceber que essa liberdade tem diversos condicionantes, entre eles, possuir ou não dinheiro. Jacques chega a ser irônico diante das convicções de Mathieu: " - E há pior, você, que cospe na família, você se aproveita do parentesco para dar facadas. Sim, porque afinal não virias a mim se eu não fosse teu irmão." Nem preciso dizer que Jacques recusa o empréstimo, convicto de que faz um favor ao parente.

Mas é no comovente conto O pedido****, de Rubem Fonseca, que essa relação entre quem pode emprestar e quem necessita pedir é retratada de forma mais humanamente triste. Entre as duas personagens - Joaquim Gonçalves e Amadeu Santos - havia um desentendimento surgido por motivo banal e que será suficiente para que um decida acabrunhar ainda mais o outro, ambos homens já idosos. O empréstimo é recusado, por causa de uma pergunta inofensiva. Assim Fonseca termina o excelente conto:

"Eu não sabia... disse Amadeu tristemente. Antes um filho morto, ele pensou. E uma lágrima seca, feita quase somente de sal, escorregou do seu olho, uma lágrima pelo filho dele e pelo filho de Joaquim.
Quando viu a lágrima brilhante escorrendo lentamente pela face de Amadeu, Joaquim calou-se constrangido. Lentamente Amadeu levantou-se e, antes de sair caminhando com dificuldade, disse, adeus.
Joaquim ficou sentado um instante curto. Eu não sou essa pessoa, ele pensou envergonhado com a sua mesquinhez, e correu em direção à porta da rua gritando, Amadeu! Volta, eu te dou o dinheiro, volta!
Mas ao chegar à rua, ela estava deserta. Joaquim ainda gritou o nome do amigo algumas vezes, enquanto escorriam pelo seu rosto lágrimas abundantes e úmidas de homem gordo e forte."

Poucas coisas distanciam tanto um ser humano do outro quanto a quantidade de dinheiro que se tem ou que não se tem.

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* ASSIS, Machado de. Papéis avulsos. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2005

** DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Os Irmãos Karamazov. (trad. Natália Nunes e Oscar Mendes). São Paulo: Abril Cultural, 1970 (Coleção Os imortais da literatura universal)

*** SARTRE, Jean-Paul. A Idade da Razão. (trad. Sérgio Milliet) São Paulo: Abril Cultural, 1979

**** FONSECA, Rubem. Contos reunidos. São Paulo: Companhia das Letras, 1994