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quinta-feira, 14 de setembro de 2023

Ensaio sobre a cegueira: o horror como matéria de reflexão

 



"Vamos endoidecer de horror". - pensamento do médico, dias após a quarentena e a reclusão.

"Sentada, lúcida, a mulher do médico olhava as camas, os vultos sombrios, a palidez fixa de um rosto, um braço que se moveu a sonhar. Perguntava-se se alguma vez chegaria a cegar como eles, que razões inexplicáveis a teriam preservado até agora".

Ensaio sobre a cegueira - José Saramago


Não consigo rever Amistad, de Steven Spielberg.

Considero um dos grandes trabalhos do cineasta norte-americano, não me entenda mal, mas há aquela sequência do testemunho de Cinqué (interpretado pelo sempre ótimo Djimon Hounsou) no tribunal, descrevendo, com a ajuda do intérprete, a horripilante travessia dele e dos outros homens e mulheres escravizados, dentro do navio do qual provém o título do filme. O relato é transformado em imagens (afinal, trata-se de uma narrativa audiovisual) fortes e impactantes.

Eu chorei. Simplesmente não conseguiria assistir de novo.

Recuso-me a rever Despedida em Las Vegas. A cena em que a personagem interpretada por Elisabeth Shue é brutalizada e estuprada tornou-se, na minha opinião, num dos momentos mais atrozes do cinema. Intolerável. NOTA: No livro de John O'Brien (do qual o filme é uma adaptação), o episódio é ainda mais torturante e doloroso, dizem. Nunca o li.

Como terá sido durante a gravação? Como terá reagido a equipe presente - operadores de câmera, diretores, assistentes, além dos atores diretamente envolvidos?

Sabemos que se trata de um artifício - a violência e a crueldade foram simuladas - ; não obstante, não é possível passar por cenas como essas incólume, sem ficar agoniado ou pelo menos experimentar algum desconforto (eu não conseguiria). Estou falando do ponto de vista do espectador, mas creio que deve ter sido angustioso, em alguma medida, também para os que tornaram possíveis as cenas.

Não deve ser "de boa" representar e expor o horror.

Terminei recentemente minha segunda leitura do Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago. É um texto que provoca grande aflição (por isso demorei mais de vinte anos para decidir voltar a ele). Nos seus Cadernos de Lanzarote (reunião de diários escritos entre 1993 e 1998), o autor registrou ¹:

"Lutei, lutei muito, só eu sei quanto, contra as dúvidas, as perplexidades, os equívocos que toda a hora se me iam atravessando na história e me paralisavam. Como se isso não fosse o bastante, desesperava-me o próprio horror do que ia narrando. Enfim, acabou, já não terei de sofrer mais".

Saramago levou cerca de três anos para terminar o livro e, como se lê acima, não são apenas os que o leram que se atormentaram.

É uma narrativa alegórica, em que se tenta dizer ao leitor - registra-se nos Cadernos de Lanzarote -:

"que a vida que vivemos não se rege pela racionalidade, que estamos usando a razão contra a razão, contra a própria vida. Tentei dizer que a razão não deve separar-se nunca do respeito humano, que a solidariedade não deve ser a exceção, mas a regra. Tentei dizer que a razão está a comportar-se como uma razão cega que não sabe aonde vai nem quer sabê-lo. Tentei dizer que ainda nos falta muito caminho para tentar chegar a ser autenticamente humanos e que não seja boa a direção em que vamos".

O pessimismo do escritor elevou-se à enésima potência no Ensaio sobre a cegueira. Logo no segundo capítulo, antes mesmo do confinamento e da propagação da cegueira branca, o médico constata: "É desta massa de que somos feitos, metade de indiferença e metade de ruindade" ². O evento catastrófico em torno do qual a história se constrói faz emergir a monstruosidade latente em nós, seres humanos, assim como, em poucos dias de flagelo, volvemos ao bicho que nunca deixamos de ser. O estilo de Saramago - os parágrafos espessos e as circunvoluções em torno de uma mesma expressão ou frase - manteve-se inalterado ao contar essa história de horror, única do gênero na obra do artista português.

A abjeção a que foram condenados os cegos dentro do romance nos martiriza, mas pensamos pouco na omissão e na insensibilidade dos que continuaram a enxergar, pelo menos por um pouco mais de tempo do que os outros. "O medo cega", diz a rapariga dos óculos escuros em determinado momento e outro personagem secunda: "São palavras certas, já éramos cegos no momento em que cegamos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos". 

Já que mencionei a rapariga dos óculos escuros (é dela também a frase mais famosa do livro: "Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos"), pode-se afirmar sem hesitação que o Ensaio... deve a maior parte de sua força às personagens femininas (as mulheres, aliás, é que foram supliciadas para que todos pudessem obter comida no local de confinamento, com a aceitação covarde dos homens "bons", inclusive...). E nenhuma personagem é tão grandiosa (como criação artística, mas também no sentido moral, ético) como a mulher do médico, a testemunha ocular - literalmente - de toda aquela desgraça.

Num dos capítulos finais, lemos o seguinte: 

"As mulheres ressuscitam umas nas outras, as honradas ressuscitam nas putas, as putas nas honradas, disse a rapariga dos óculos escuros. Depois disto houve um grande silêncio, para as mulheres ficara tudo dito, os homens teriam de procurar as palavras, e de antemão sabiam que não seriam capazes de encontrá-las".

Um modo de dizer que as mulheres não se restringem (ou não deveriam se restringir) a papéis previamente delimitados ou impostos por sociedades cegas, adoecidas. 

. . . . . . . 

Comecei a postagem mencionando filmes. O(a) eventual leitor(a) certamente sabe que o Ensaio sobre a cegueira também foi adaptado para o cinema e lançado em 2008. O brasileiro Fernando Meirelles dirigiu.

Não sei se é tão dilacerante como o livro: ainda não assisti.

Será que eu aguentaria um outro enfoque para todo aquele horror do texto original?

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¹ Essa declaração e outras foram também reproduzidas em matéria publicada no jornal Estado de Minas no ano passado, assinada por Paulo Nogueira, a respeito da nova edição do Ensaio sobre a cegueira, marcando o centenário de nascimento do escritor: Saramago: personagem assumiu controle de 'Ensaio sobre a cegueira'. Disponível em: <https://www.em.com.br/app/noticia/pensar/2022/11/25/interna_pensar,1425460/saramago-personagem-assumiu-controle-de-ensaio-sobre-a-cegueira.shtml>. Acesso em: 06/09/2023

² SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1995

BG de Hoje

Os textos da seção BG não costumam ser longos: só que hoje tenho muito para falar. Na época em que a cena grunge se estabeleceu, eu fiquei muito interessado naquele som. Não só o de artistas provenientes de Seattle e redondezas, mas o de outros grupos assemelhados, que despontaram no mesmo período: por exemplo, o L7 (que veio de Los Angeles). Quando comprei o disco Bricks Are Heavy (lançado em 1992 e, comercialmente falando, o mais bem sucedido da carreira delas), ouvia sem parar. A colaboração do produtor Butch Vig ajuda a explicar o parentesco grunge. Quase duas décadas depois, busquei conhecer outras gravações da banda, levando-me ao disco anterior, Smell The Magic (de 1990), que teve Jack Endino, outro lendário produtor musical daquela cena, auxiliando nos trabalhos (Endino, vale acrescentar, foi parceiro dos Titãs em Titanomaquia). Desse álbum, Smell The Magic, destaco a canção Fast And Frightening, para mostrar como as raízes do L7 estão no punk, com um show à parte da baterista Demetra "Dee" Plakas.

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

A dependência do mal

Acho que sei por que uma pessoa religiosa com quem topei outro dia fez questão de mencionar, em tom triunfante, uma frase famosa de José Saramago. 

Numa entrevista, o escritor português dissera: "Não sou um ateu total. Todos os dias tento encontrar um sinal de Deus, mas infelizmente não encontro".

"Tá vendo?"- volveria em minha direção o crente ¹, se nossa conversa tivesse prosseguido - "Isso mostra que mesmo um ímpio obstinado como Saramago não tinha plena convicção do seu ateísmo e estava em busca de Deus". 

Bem... É preciso fazer alguns reparos.

Pelo que posso depreender de outras falas de Saramago e de sua própria obra literária, a descrença do romancista foi marcada em parte pela rejeição de qualquer teodiceia: ou seja, a recusa de explicações/argumentações que tentem conciliar os males do mundo (tanto os sofrimentos decorrentes de fenômenos naturais, quanto as dores infligidas por seres dotados de consciência) com a hipótese improbabilíssima da existência de uma divindade suprema (onipresente, onisciente, onipotente, além de misericordiosa e amorosa, características costumeiramente atribuídas ao deus dos monoteísmos abraâmicos, especialmente no cristianismo).

Não é preciso procurar muito. Uma rápida olhada nos noticiários, um passeio pelas ruas ou mesmo - quem sabe? - uma vasculhada na própria família são suficientes para mostrar que há maldade em abundância por aí e se existe uma entidade divina, com todos os atributos acima descritos, ela não dá nenhum sinal de que pretende mudar o cenário. Obviamente, para defender uma teodiceia, pode-se sempre apelar para o plano de Deus e a inescrutabilidade de seus propósitos ou alegar que os seres humanos dispõem de livre-arbítrio. Mas não quero me demorar nessas questões.

Voltando à frase do escritor. Ao dizer que não é um "ateu total", Saramago, penso eu, estava apenas afirmando que precisava de evidências melhores para acatar tal divindade (não, versículos da Bíblia e do Corão ou relatos de milagres e exorcismos não têm qualquer valor como evidência nessa circunstância). Sabe o que funcionaria como prova incontestável? O fim instantâneo do flagelo dos refugiados mundo afora, por exemplo, e a cara de Deus, gigante, aparecendo no céu do Sudão, da Síria ou do Haiti, dizendo "Ficai-vos em paz e descansados! O padecimento findou! A partir de agora, estabelecer-se-ão todas as condições socioeconômicas e culturais para o fim de vossas migrações forçadas!". Ou poderia ser a remissão total do câncer em todos os pacientes (ou, vá lá, pelo menos em todas as crianças com a doença), num estalar de dedos, seguida de uma voz tonitruante, ouvida ao redor do planeta, falando: "Curei-vos a todos!". Pronto, tiro e queda. Que ateu atrevido conseguiria colocar isso em dúvida? Suponho que um ser supremo, onipresente, onisciente, onipotente, além de misericordioso e amoroso, realizaria tais proezas sem maiores dificuldades...

A condescendência desse Deus com o mal é um dos temas mais agudos de O Evangelho segundo Jesus Cristo.

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Em 1991, quando publicado pela primeira vez - e até alguns anos depois -, o romance foi repudiado por membros do clero e outros católicos graúdos em Portugal, a ponto de pressionarem o governo da época a não indicar o autor para o Prêmio Europeu de Literatura Aristeion ². Em protesto, Saramago decidiu sair do país e morar nas Ilhas Canárias, mais especificamente em Lanzarote, onde permaneceu até a sua morte em 2010.

Um narrador ocasionalmente debochado e um Filho de Deus bem menos divino e mais humano (mesmo ainda sendo capaz de dissipar tempestades apenas com palavras e transformar água em vinho do bom) encolerizaram diversos conservadores. Nessa versão de uma das mais conhecidas narrativas mitológicas de todos os tempos, Maria ficou grávida de seu primogênito pelo mesmo processo que todas ficavam (antes do advento da inseminação artificial, pelo menos) e Jesus viveu maritalmente com uma mulher (também chamada Maria) que deixara de ser prostituta em Magdala para acompanhá-lo. Isso foi considerado blasfemo e sacrílego pelos reacionários puritanos, sempre prontos a vituperar qualquer coisa relacionada a sexo. Entretanto, não tenho dúvida de que o público de mente mais aberta certamente comoveu-se com a bonita história de amor contada e com a firmeza ética do protagonista (foi o caso deste blogueiro).

Para os objetivos da postagem de hoje, vamos enfocar o antepenúltimo capítulo do livro.

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Um espesso nevoeiro se forma sobre o mar da Galileia (que é mais propriamente um imenso lago). Após se despedir de Maria Ma(g)dalena, Jesus, ao contrário dos outros atemorizados habitantes da cidade de pescadores onde vivia, conduz um barco para o meio da bruma. "Enfim, vou saber quem sou e para o que sirvo" ³ , dissera ele à mulher.

Ao chegar no meio do lago, Deus surge a bordo. Seu filho tem muitas interrogações. Ambos conversam. Jesus fala da "Legião" que expulsou de um homem ao chegar na terra dos gadarenos, observando que Deus, melhor do que ele, sabe que não se pode prever para onde vão os demônios banidos de um corpo. Deus então replica: "E por que hei-de eu saber dos assuntos do Diabo". Ora, o Todo-Poderoso tudo sabe. "Até certo ponto, só até certo ponto". E qual seria este? "O ponto em que começa a ser interessante fazer de conta que ignoro". A certa altura, o Diabo também sobe à embarcação (na figura do Pastor com quem Jesus trabalhou durante quatro anos apascentando um imenso rebanho de ovelhas e cabras). Na forma humana com que se apresentaram, "tirando as barbas de Deus, eram como gémeos", lê-se no romance. 

Inteira-se Jesus de sua missão: cumprir o papel de mártir, "que é o que de melhor há para fazer espalhar uma crença e afervorar uma fé". Desse modo, diz Deus, "estou certíssimo de que em pouco mais de meia dúzia de séculos, embora tendo de lutar, eu e tu, com muitas contrariedades, passarei de deus dos hebreus a deus dos que chamaremos católicos, à grega", ou seja, deixando de ser adorado por um povo relativamente pequeno e passando a ser cultuado globalmente. Inteligente como é, Jesus faz a pergunta óbvia: por que é preciso o sofrimento de um mártir para atingir tal objetivo, sendo o Senhor capaz de tudo? Alega-se então um pacto inamovível entre os deuses, pois "nenhum deus gosta que venham fazer na sua casa aquilo que seria incorrecto ir ele fazer à casa dos outros". E como será o futuro após esse sacrifício? Formar-se-á uma Igreja, dita católica, "e os seus alicerces [serão] compostos de um cimento de renúncias, lágrimas, dores, torturas, de todas as mortes imagináveis hoje e outras que só no futuro serão conhecidas".

A seguir, Saramago relaciona, magistralmente, em ordem alfabética, os nomes de diversos indivíduos canonizados pelo catolicismo e que foram condenados à morte ao longo da história, expediente que ocupa quatro páginas daquela escrita compacta, própria do autor. 

Também haverá guerras em nome dessa fé ("porquanto se levantará nação contra nação, e reino contra reino[...]", como está em Mateus, cap. 24, vers. 7, e também em Marcos 13.8 e Lucas 21.10). Acrescentem-se ainda o surgimento do Islã, as Cruzadas e a Inquisição.

E aqui vem o ponto alto do romance: todo esse martírio poderia ser evitado se Deus aceitasse a proposta do Diabo - perdoá-lo por ter-se rebelado. Mas tal não acontece:

 

"Não te aceito, não te perdoo, quero-te como és, e, se possível, ainda pior do que és agora. [...] Porque este Bem que eu sou não existiria sem esse Mal que tu és, um Bem que tivesse de existir sem ti seria inconcebível, a um tal ponto que nem eu posso imaginá-lo, enfim, se tu acabas, eu acabo, para que eu seja o Bem, é necessário que tu continues a ser o Mal, se o Diabo não vive como Diabo, Deus não vive como Deus, a morte de um seria a morte do outro"


Imprescindível observar que obras como O Evangelho segundo Jesus Cristo (ou, lembrei-me agora, como A última tentação de Cristo, de Nikos Kazantzakis), apesar da resistência que enfrentaram (e que enfrentam em determinados grupos, mesmo hoje em dia), não têm por intuito serem provocações baratas e gratuitas. Através da revisitação de narrativas lendárias (o termo é empregado aqui sem intenção depreciativa) tão incrustadas na memória coletiva, o que se busca é desempenhar uma das mais nobres e cruciais funções da arte literária: refletir sobre a condição humana.

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¹ Já fiz esse esclarecimento noutras postagens, mas não custa reiterá-lo para evitar mal-entendidos: quando uso o termo crente tenho em mente o seguinte significado: "aquele que acredita em uma (ou várias) divindade(s)", em oposição ao termo descrente ou, simplesmente, ateu ("aquele que não acredita em nenhuma"). Assim, crente, neste contexto, designa todos os que acreditam em Deus, independentemente da denominação religiosa pela qual têm afinidade ou da qual fazem parte.

² O Aristeion, atribuído pela Comissão Europeia, vigorou entre 1990 e 1999. Hoje existe o Prêmio de Literatura da União Europeia (surgido em 2009), bastante diferente do Aristeion em vários aspectos. 

³ SARAMAGO, José. O Evangelho segundo Jesus Cristo. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.


BG de Hoje

Coerente com seu repertório habitual - canções compostas dentro dos diversos ritmos característicos do nordeste brasileiro -, MARIANA AYDAR (num dueto com CHICO CÉSAR) lançou este ano o single O futuro já sabia. Não dá pra resistir!


segunda-feira, 28 de maio de 2012

Dizer o indizível


Muitas pessoas (muitas mesmo, inclusive eu) têm imensa dificuldade para explicar (algo) ou explicar-se. Sem falar no quanto é complicado traduzir em palavras determinados sentimentos, sensações e emoções experimentadas, ao testemunhar, por exemplo, uma catástrofe ou, num outro extremo, fruindo uma obra de arte. Nesses casos, comunicar o que se pensa ou sente, numa forma que seja direta e imediatamente compreensível por outra pessoa, é tarefa das mais árduas.

Esse tema aparece, de certo modo, no romance As intermitências da morte*, de José Saramago, numa passagem que será crucial para mais uma das reviravoltas pelas quais passa a narrativa.

O narrador nos conta que o violoncelista - que não havia recebido a funesta "carta violeta" da morte e, portanto, não morrera na data estabelecida - disse, em conversa com outros colegas de ofício, que seu retrato musical (ou seja, uma composição que o pudesse descrever) seria um "brevíssimo estudo de chopin, opus vinte e cinco, número nove, em sol bemol maior". Para o violoncelista, "em cinquenta e oito segundos chopin havia dito tudo quanto se poderia dizer a respeito de uma pessoa a quem não podia ter conhecido".

Na volta para casa, após um ensaio, o músico, depois de alimentar a si e ao cão de estimação, toca o Opus 25, sem saber que a morte "em pessoa" o observava, mas toca "como se tivesse percebido a presença de um terceiro em sua casa, a quem, por motivos não explicados, deveria falar de si mesmo", sem "ter de fazer o longo discurso que até a vida mais simples necessita para dizer de si mesma algo que valha a pena".

E o que sucede à morte, ouvindo a execução musical?

"A morte, porém, que por dever de ofício tantas outras músicas havia escutado, com particular relevância para a marcha fúnebre do mesmo chopin ou para o adágio assai da terceira sinfonia de beethoven, teve pela primeira vez na sua longuíssima vida a percepção do que poderá chegar a ser uma perfeita convizinhança entre o que se diz e o modo por que se está dizendo. Importava-lhe pouco que aquele fosse o retrato musical do violoncelista, o mais provável é que as alegadas parecenças, tanto as efecctivas como as imaginadas, as tivesse ele fabricado na sua cabeça, o que à morte impressionava era ter-lhe parecido ouvir naqueles cinquenta e oito segundos de música uma transposição rítmica e melódica de toda e qualquer vida humana, corrente ou extraordinária, pela sua trágica brevidade, pela sua intensidade desesperada, e também por causa daquele acorde final que era como um ponto de suspensão deixado no ar, no vago, em qualquer parte, como se, irremediavelmente, alguma cousa tivesse ficado por dizer".

Talvez só a música - e mais nenhuma outra forma de arte - possa mesmo promover "essa convizinhança entre o que se diz e o modo por que se está dizendo". Quero, porém, destacar aqui o elogio fabuloso feito por Saramago à dimensão artística da existência. A peça musical, no livro, chega a impressionar até mesmo a morte. E a narrativa do escritor português - outra forma de arte - impressiona a nós, leitores.

* SARAMAGO, José. As intermitências da morte. São Paulo. Companhia das Letras, 2005

BG de Hoje

Obviamente, o Opus 25/n.9, de FRÉDÉRIC CHOPIN (nesta execução, com a pianista ucraniana VALENTINA LISITSA)

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Filosofia e morte

 
Falei de Montaigne no início da semana e acabei tendo de  voltar a ele após a leitura de um romance de José Saramago. Explico.

Em As intermitências da morte*, no terceiro capítulo, relatando o debate ocorrido na "comissão interdisciplinar" formada por religiosos e filósofos, um dos últimos afirma: "Porque a filosofia precisa tanto da morte como as religiões, se filosofamos é por saber que morreremos, monsieur de montaigne já tinha dito que filosofar é aprender a morrer".

Saramago está fazendo referência direta a um texto do ensaísta francês**, assim iniciado:

"Diz Cícero [muito provavelmente remetendo a Sócrates/Platão] que filosofar não é outra coisa senão preparar-se para a morte. Isso, talvez, porque o estudo e a contemplação tiram a alma para fora de nós, separam-na do corpo, o que, em suma, se assemelha à morte e constitui como que um aprendizado em vista dela. Ou então é porque de toda sabedoria e inteligência resulta, finalmente, que aprendemos a não ter receio de morrer".

A seguir, Montaigne estabelece inusitada relação entre o prazer e a virtude (considerando esta bom auxílio para a aceitação do fato de que vamos morrer); argumenta que, diante da inevitabilidade da morte, devemos aprender "a esperá-la de pé firme e lutar"; e acredita que a consciência do fim pode nos tornar menos servis: "meditar sobre a morte é meditar sobre a liberdade; quem aprendeu a morrer, desaprendeu de servir; nenhum mal atingirá quem na existência compreendeu que a privação da vida não é um mal; saber morrer nos exime de toda sujeição e constrangimento".

Mas o momento mais interessante do ensaio encontra-se no trecho abaixo:

"Quíron recusou a imortalidade quando Saturno, seu pai, deus do tempo e da mortalidade, lhe revelou as condições dela. Imaginai a que ponto uma vida sem fim fora menos tolerável e mais penosa para o homem do que a que lhe foi dada. Se não tivésseis a morte, vós me amaldiçoaríeis sem cessar por vos haver privado dela. Foi propositadamente que a ela juntei alguma amargura, a fim de impedir que, ante a comodidade de seu uso, não a buscásseis com excessiva avidez. Para vos trazer a essa moderação que solicito de vós, de não abreviar a vida e não tentar esquivar a morte, temperei-as pelas sensações, mais ou menos suaves, mais ou menos duras que vos podem outorgar".

A narrativa mitológica recuperada por Montaigne toca em questões profundas (até mesmo o suicídio). E, de certa forma, o romancista português tratará delas em sua narrativa. Mas este assunto fica para mais adiante.

Por enquanto, retorno ao terceiro capítulo de As intermitências da morte. Tanto os filósofos quanto os religiosos tiveram imensa dificuldade para atuarem dentro da nova realidade surgida com a "greve" da morte. Estou propenso, entretanto, a considerar que o narrador pende mais para o lado dos filósofos. Atentemos para o diálogo - cheio do humor peculiar de Saramago -  reproduzido abaixo:

"As religiões, todas elas [disse o mais velho dos filósofos pessimistas], por mais voltas que lhes dermos, não têm outra justificação para existir que não seja a morte, precisam dela como do pão para a boca. Os delegados das religiões não se deram ao incómodo de protestar. Pelo contrário, um deles, conceituado integrante do sector católico, disse, Tem razão, senhor filósofo, é para isso mesmo que nós existimos, para que as pessoas levem toda a vida com o medo pendurado ao pescoço e, chegada a sua hora, acolham a morte como uma libertação, O paraíso, Paraíso ou inferno, ou cousa nenhuma , o que se passe depois da morte importa-nos muito menos que o que geralmente se crê, a religião, senhor filósofo, é um assunto da terra, não tem nada que ver com o céu, Não foi o que nos habituaram a ouvir, Algo teríamos que dizer para tornar atractiva a mercadoria, Isso quer dizer que em realidade não acreditam na vida eterna, Fazemos de conta. Durante um minuto ninguém falou. O mais velho dos pessimistas deixou que um vago e suave sorriso se lhe espalhasse na cara e mostrou o ar de quem tinha acabado de ver coroada de êxito uma difícil experiência de laboratório".

Volto a falar do livro de Saramago na próxima semana.
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* SARAMAGO, José. As intermitências da morte. São Paulo: Companhia das Letras, 2005

** MONTAIGNE, Michel de. De como filosofar é aprender a morrer. In: __________. Ensaios: vol. 1. 2 ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília; Hucitec, 1987. p. 157-169 [tradução de Sérgio Milliet]

BG de Hoje

Vi outro dia na MTV e gostei: ROCK ROCKET, Por um rock and roll mais alcoolatra e inconsequente.