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sábado, 1 de dezembro de 2018

Entrevistas com escritores


No pequeno texto que serve de prefácio a um livro organizado por Fabrício Marques - Dez conversas: diálogos com poetas contemporâneos ¹ -, Joca Reiners Terron notou que:

"Em uma de suas numerosas blagues o escritor guatemalteco Augusto Monterroso defendeu a entrevista como o único gênero inventado pela Modernidade. Uma provocação, sem dúvida, mas com inquestionável e verdadeiro sentido. Afinal, o que seria da moderna compreensão do singular ofício de escritor sem as legendárias entrevistas publicadas por George Plimpton na não menos mítica Paris Review? Com um meticuloso sistema de perguntas procurando deslindar preocupações estéticas e técnicas de alguns dos maiores autores do século vinte, os múltiplos entrevistadores daquela publicação estabeleceram um padrão incontornável para entrevistas com escritores, um sistema de investigação digno de 'agentes do FBI', como salientou Malcom Cowley na introdução à primeira coletânea de entrevistados pela revista".

Entrevistas tornaram-se peças-chave para um melhor entendimento de diversos fenômenos, inclusive a criação literária, como observa Terron no excerto acima. Pessoalmente, procuro ler o maior número possível delas, sobretudo quando se trata de escritores/escritoras, leitura essa facilitada tremendamente, claro, pela internet. E mesmo antes da popularização da web buscava por este tipo de trabalho jornalístico onde pudesse encontrá-lo. E, acredite ou não, eventual leitor(a), uma das melhores fontes foi a Playboy. Lembro particularmente de três entrevistados, escritores, cujo teor da conversa publicada na revista criada por Hugh Hefner me interessou bastante: Luis Fernando Veríssimo, Isabel Allende e José Saramago (o romancista português, por exemplo, confirmou que maioria dos seus livros nasceu primeiro do título imaginado).

Joca Reiners Terron também tem razão ao apontar a Paris Review como a publicação que fixou o modus faciendi das entrevistas com escritores(as). Direcionadas mais para a feitura da obra do que para a vida particular dos(as) autores(as), as matérias da Paris Review tornaram-se valiosos recursos para os estudos literários (este blogueiro mesmo recorreu a uma delas na elaboração de uma postagem, dois anos atrás, sobre a escritora norte-americana Toni Morrison).

E por falar na Paris Review, li há pouco 17 entrevistas publicadas por lá reunidas num livro essencial, que completou 30 anos de lançamento em 2018 ².

Destaco três delas:

✰ William Faulkner (1897-1962)

A entrevista do escritor norte-americano ocorreu em 1956. Apesar de não ser rude nas respostas, não escondia que detestava falar de sua própria obra (ou de si). A certa altura, ele disse:

"Minha obra tem que me agradar, e, se o faz, não preciso falar a respeito dela com ninguém. Se não me agrada, falar disso não vai melhorar coisa alguma, já que a única coisa que pode melhorar é trabalhar nela um pouco mais. Não sou um literato, apenas um escritor. Não sinto prazer algum em falar a respeito do meu trabalho".

Eis que estamos, mais uma vez, diante daquela velha questão:  A) o artista deve criar visando apenas sua satisfação/sentimento pessoal de realização, sem se preocupar com as possíveis reações/opiniões de outrem; ou B) deve levar em conta o leitor/espectador/ouvinte em potencial (isto é, as possíveis expectativas deste, até mesmo sua capacidade de entendimento) durante o processo de elaboração artística? Faulkner, como é fácil averiguar, adotou A) como diretriz.

Respondendo a uma pergunta anterior, já havia afirmado que

"A única responsabilidade do escritor é para com sua arte. Será inteiramente desapiedado se for um bom escritor. Tem um sonho. Isso o angustia tanto que ele tem que se livrar dele. Não tem paz até então. O resto vai por água abaixo: honra, orgulho, decência, segurança, felicidade, tudo, para que o livro seja escrito. Se um escritor tiver que roubar a sua mãe, não hesitará [...]"

O artista - "uma criatura arrastada por demônios", segundo William Faulkner -, enquanto individualidade, "não tem importância. Só o que ele cria é importante, já que não há nada de novo a ser dito", considerava ele, acrescentando: "Shakespeare, Balzac, Homero, todos escreveram a respeito das mesmas coisas, e, se tivessem vivido mais mil ou dois mil anos, os editores não teriam precisado de mais ninguém desde então".

Em duas passagens da conversa, o romancista, surpreendentemente, afirma ter descoberto (pelo menos no início da carreira) que escrever era "divertido", embora um romance em particular - O som e a fúria (já postei sobre ele aqui) - tenha sido o trabalho que lhe causou "mais dor e angústia", tendo sido reescrito cinco vezes, em épocas diferentes.

O entrevistado é execravelmente machista ao fazer a seguinte comparação: "O sucesso é feminino e como uma mulher; se você se curva diante dela, ela passa por cima de você. Então o jeito de tratá-la é dar-lhe as costas da mão. Aí, talvez, ela venha a rastejar".

Mas consegue ser espirituoso e até engraçado quando diz: "Saiba que, se eu reencarnasse, gostaria de voltar como um urubu. Ninguém o odeia ou inveja nem o quer ou precisa dele. Ele nunca se vê importunado ou em perigo, e pode comer qualquer coisa".

Não poderia deixar de mencionar sua crítica à rotina de trabalho regular e semicompulsório que caracteriza nossas sociedades (crítica, aliás, com a qual concordo inteiramente):

"Sou um vagabundo e um andarilho por temperamento. Não desejo o dinheiro tanto assim a ponto de trabalhar por ele. Na minha opinião, é uma vergonha que a única coisa que um homem pode fazer oito horas por dia, dia após dia, é trabalhar. Não se pode comer oito horas por dia, nem beber oito horas por dia, nem fazer amor oito horas - tudo o que se pode fazer durante oito horas é trabalhar. É esse o motivo pelo qual o homem torna, a si e a todos os demais, infelizes e miseráveis".



✰ Jorge Luis Borges (1899-1986)

A entrevista do contista e poeta argentino é aquela com mais sinais de espontaneidade (convém informar que na Paris Review, após a primeira gravação/registro da conversa, ela geralmente passa por uma revisão feita pelo próprio entrevistado). Concedida em 1966, quando o autor d'O livro de areia era diretor da Biblioteca Nacional, em Buenos Aires, a entrevista foi interrompida três vezes pela secretária de Borges, avisando que um certo Sr. Campbell o aguardava. Sua reação é bem-humorada.

Assim como Faulkner, Jorge Luis Borges acreditava que "as coisas que são ditas em literatura são sempre as mesmas": o importante é "a maneira como são ditas". Diferentemente do norte-americano, contudo, Borges não mantinha o potencial leitor fora da sua equação. "As pessoas devem ser capazes de ler fluentemente, mesmo que você esteja escrevendo metafísica ou filosofia, ou o que quer que seja", disse ele.

No começo de sua carreira, o escritor "achava que tudo tinha de ser definido e que nenhum volteio de frase comum deveria ser usado. Eu nunca teria dito: 'Fulaninho de Tal entrou e sentou', porque isso era simples e fácil demais. Achava que tinha que descobrir alguma forma extravagante de dizer isso". Entretanto, mudou à medida que amadurecia:

"Agora percebo que essas coisas são geralmente aborrecimentos para o leitor. Mas penso que toda a raiz do problema está no fato de que, quando um escritor é jovem, ele de algum modo sente que o que vai dizer é bastante tolo, óbvio ou lugar comum, e então tenta ocultá-lo sob uma ornamentação barroca, por trás de palavras tiradas dos escritores do século XVII; ou, senão, se ele se empenha em ser moderno, então faz o contrário: fica inventando palavras o tempo todo, ou aludindo a aviões, trens ou o telégrafo e o telefone porque está se esforçando ao máximo para ser moderno. Depois, à medida que o tempo passa, sente-se que as ideias que se tem, boas ou más, devem ser expressas claramente, porque, se você tem uma ideia, tem que tentar passar essa ideia ou essa emoção ou essa atmosfera para a mente do leitor"

Tendo em vista o efeito que o texto busca produzir no leitor, Borges acreditava que o escritor "deveria ser julgado pelo prazer que proporciona e pelas emoções que se obtém. Quanto a ideias [políticas], afinal de contas não é muito importante se um escritor tem esta ou aquela opinião política, porque uma obra se sairá bem apesar delas [...]". Essa observação é sob medida para o próprio entrevistado (já postei aqui sobre os tenebrosos posicionamentos sociopolíticos de Borges).

Essa consideração pelo leitor, contudo, em nada diminui a qualidade e a sofisticação do contista argentino (basta ler algumas de suas narrativas para constatá-lo). Sua literatura é sempre cheia de citações, comentários implícitos, menções a outros textos. Tudo fazendo parte de um jogo nem sempre percebido por quem o lê. A esse respeito, Borges disse que "a maior parte dessas alusões e referências são postas lá [na sua obra] simplesmente como uma espécie de brincadeira íntima". E completou: "Uma brincadeira que não precisa ser necessariamente compartilhada com outras pessoas. Quero dizer, se elas a compartilham, tanto melhor; mas, se não, não me importo nem um pouco com isso".



✰ Nadine Gordimer (1923-2014)

Muito por iniciativa da própria escritora sul-africana, a entrevista da autora de O falecido mundo burguês tornou-se a mais "pessoal" do livro inteiro, na qual se falou muito de sua vida familiar e doméstica. A conversa começou a ser registrada no outono de 1979 (nos EUA) e retomada na primavera de 1980 (no Reino Unido) .

Geralmente classificada como escritora política, Gordimer disse:

"Eu não sou por natureza uma criatura política, e mesmo agora há muitas coisas que não gosto na política e nos políticos - embora admire tremendamente pessoas que são politicamente ativas - há tanto mentir para si mesmo, auto-ilusão, tem que haver - você não se torna um bom ativista político a menos que possa fingir que os calos não estão ali".

Para ela, escrever é uma das "maneiras de amarrar a experiência". Escrever é

"tentar entender a vida. Você trabalha a sua vida inteira e talvez tenha conseguido entender um pedaço bem pequeninho [...] Penso que isso é o que a literatura é, penso que isso é o que a pintura é. É procurar esse fio de ordem e lógica na desordem, e o caráter de incrível desperdício e maravilhosa prodigalidade da vida. O que todos os artistas estão tentando fazer é compreender a vida"

Sobre o modo como pensa a estrutura de seus livros, Nadine Gordimer respondeu:

"Para mim, outra vez, muito pouco da construção é objetivamente concebido. Ela é orgânica, instintiva e subconsciente. Não sei lhe dizer como cheguei a ela. Embora, a cada livro, eu atravesse um longo período em que sei o que quero fazer mas me sinto refreada, confusa e abatida, porque não sei, antes de escrever, como vou fazer, e sempre receio não ser capaz de fazê-lo".

A cada texto, é preciso encontrar a forma narrativa mais eficaz, às vezes até adotando um estilo não experimentado antes. É arriscado:

"É claro que você corre um risco tremendo com esse estilo narrativo, e quando consegue ser bem-sucedido, creio que é o ideal. Quando não, é claro, você irrita o leitor ou deixa confuso. Pessoalmente, como leitora, não me importo de ficar confusa. Talvez o(a) escritor(a) não saiba das consequências implícitas em seus livros, porque há uma escolha de explicações; e como leitora, eu aprecio isso. Para mim, é uma parte fundamental do excitante negócio de ler um livro, de ser instigada, e ter uma mente própria para pensar. E então, como escritora, tomo a liberdade de fazer isso"

Na condição de leitora de literatura, aliás, Gordimer faz a seguinte observação:

"Muitos escritores dizem que não leem outros escritores, os contemporâneos. Se é verdade, é uma grande pena. Imagine se você tivesse vivido no século XIX e não tivesse lido os escritores aos quais hoje retornamos tão amorosamente, ou mesmo que você tenha vivido no século XX e não tenha lido Lawrence ou Hemingway, Virginia Woolf e assim por diante".

Para comparação, pensemos na resposta negativa de Faulkner quando perguntado se lia seus contemporâneos. Ele disse que lia apenas os livros que conheceu "quando era moço e aos quais volto como se volta aos velhos amigos". Faulkner complementou: "Já li esses livros tantas vezes que nem sempre começo na primeira página ou leio até o fim. Leio apenas uma cena ou o tocante a uma personagem, assim como você encontra e conversa com um amigo por alguns minutos". Lembro-me agora que João Ubaldo Ribeiro disse algo parecido à revista Playboy.

Voltando a Nadine Gordimer, a autora apresentou um ponto de vista inusitado: ela defende que todos os escritores são "seres andróginos":

"[...] não creio que importe nem um pouco de que sexo é o escritor, desde que sua obra seja a de um verdadeiro escritor. Penso que existe de fato tal coisa como uma 'escrita da mulher', por exemplo, uma literatura feminina; existem 'autoras' e 'poetisas'. E há homens, como Hemingway, cuja excessiva 'masculinidade' é uma parte concomitante de sua literatura. Mas com muitos dos escritores de sexo masculino que admiro, isso não importa tanto".

. . . . . . .

Antes de encerrar, gostaria de comentar uma resposta dada por Gore Vidal na sua entrevista publicada no livro de que estamos falando (a conversa ocorreu em 1974).

Perguntado se escrever era fácil e se gostava de fazê-lo, Vidal respondeu que sim, gostava de escrever, dizendo que seus romances eram escritos a mão, mas as peças de teatro e os ensaios, à máquina.

"Uma curiosidade:" - disse ele -"nunca releio um texto até terminar a primeira versão. Senão, é muito desencorajador. Também porque quando você tem a coisa toda ali na frente, pela primeira vez, já esqueceu a maior parte e vê tudo como se fosse novidade. Reescrever, no entanto, é um negócio vagaroso, penoso. Para mim, o principal prazer de ter dinheiro é poder pagar por quantas versões redatilografadas eu quiser. Quando eu era jovem e pobre, tinha que datilografar eu mesmo, por isso raramente fazia mais que duas versões. Agora, passo por quatro, cinco, seis. Quanto mais, melhor, já que o meu estilo é muito o de pensar duas vezes".

Estamos tão acostumados com os computadores pessoais (e as impressoras residenciais) que às vezes esquecemos o quanto isso facilitou a vida dos(as) escritores(as). Poder consertar e refazer um texto quantas vezes quiser antes de lançá-lo publicamente, apenas clicando/digitando aqui e ali, sem todo o trabalho mecânico de manuscrever ou datilografar, aborrecimento que sempre acompanhara os artistas e profissionais da escrita, é algo verdadeiramente transformador. Por outro lado, os pesquisadores e estudiosos de Literatura talvez, em breve, não terão à disposição as versões preliminares de algumas narrativas, nem aquelas folhas onde se podia ver as hesitações, mudanças de ideia, reformulações dos(as) criadores(as), sinalizadas pelos rabiscos, linhas sublinhadas e anotações nos cantos das páginas.
__________
¹ TERRON, Joca Reiners. A entrevista: o gênero literário da modernidade. In: OLIVEIRA, Fabrício Marques. Dez conversas: diálogos com poetas contemporâneos. Belo Horizonte: Gutenberg, 2004. 

² OS ESCRITORES: as históricas entrevistas da Paris Review. São Paulo: Companhia das Letras, 1988 (Seleção de Marcos Maffei) [Tradução de Alexandre Martins e Beth Vieira]. Um segundo volume de entrevistas foi publicado, com o mesmo título e pela mesma editora, no ano ulterior, 1989.

BG de Hoje

No somatório geral, gosto do trabalho de NANDO REIS, embora reconheça que existam altos e baixos. Sem dúvida, porém, Diariamente, gravada por MARISA MONTE e lançada no disco Mais, de 1991, é um ponto altíssimo da sua carreira. Ah, e o videoclipe feito por Fábio Yamaji conseguiu ajustar-se muito bem à encantadora simplicidade da canção.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

O som e a fúria: desafio ao leitor


Percorri 14 páginas. Parei, desconfortável. Insisti mais tarde, antes de dormir. Outras vinte páginas adiante, a mesma desoladora sensação de derrota.  "Não vou ler essa chateação" ,  disse pra mim mesmo. Entretanto, duas semanas depois recomecei, teimosamente. A fluidez de leitura não seu deu, mas pelo menos o texto - dois terços agora avançados -  já não me parecia tão desnorteante.

Foi essa a experiência inicial pela qual passei ao decidir ler  O som e a fúria,  de William Faulkner* (escritor não muito frequentado por este blog, mas cujo livro,  Santuário, já foi discutido aqui).

Imergir no decadente e doentio mundo da família Compson foi uma empreitada carregada de obstáculos; trata-se de um romance que estabelece um pacto de leitura desafiador àquele que o lê, pois caso este intente chegar às diversas camadas de significação da obra, precisa dedicar atenção total a ela. Uma das dificuldades (a mais evidente, talvez, ao primeiro contato) está na polifonia narrativa e na técnica do  stream of consciouness (ou  fluxo de consciência ) empregada pelo autor norte-americano. A propósito: trabalho de vanguarda,  O som e a fúria,  publicado em 1929, provavelmente não foi influenciado pelo  Ulisses,  de James Joyce (surgido antes na mesma década)**. Mas não é desarrazoado ver um parentesco entre ambos, como obras representativas do início do modernismo literário.

São quatro diferentes focos narrativos, correspondentes às quatro seções em que se divide o livro.

Na primeira dessas partes somos jogados dentro do confuso psiquismo de Benjamin, um deficiente mental incapaz de falar, descrito muitas páginas adiante como

" [...] um homenzarrão que parecia feito de alguma substância cujas partículas não aderissem umas às outras nem à estrutura que a sustentava. Sua pele parecia morta e lisa; hidrópico, caminhava com um passo trôpego, como se fosse um urso treinado".

A voz que se "ouve" na segunda seção pertence ao atormentado Quentin. Peço ao(à) eventual leitor(a) a consideração do excerto abaixo. Antes, porém, uma breve contextualização. Quentin entrara numa relojoaria, dando a entender que queria consertar um objeto quebrado por ele mesmo. Após conversar com o relojoeiro, ele pensa:

"Saí, fechando a porta, ouvindo os tique-taques todos. Olhei para trás, para a vitrine. Ele [o dono da loja] me observava detrás da divisória. Havia uns doze relógios na vitrine, marcando doze horas diferentes, cada um deles com a mesma convicção determinada e contraditória que o meu manifestava, mesmo sem ponteiros. Um contradizendo o outro. Eu ouvia o meu, ainda a tiquetaquear no meu bolso, muito embora ninguém o visse, muito embora mesmo se o vissem ele não pudesse dizer nada a ninguém".

Um dos pilares da ficção abalados pela escrita de Faulkner é justamente a noção de tempo. As repetições e o aspecto de fragmentação geral acentuam a investida do escritor.

Jason Compson domina a terceira parte com sua perversidade, rancor e ganância obsedantes, enquanto Dilsey, a criada da família (e, talvez, a única personagem imune à morbidez dominante na narrativa), é a figura central da última parte do livro.

Vai aqui uma sugestão a quem se dispuser a ler O som e a fúria: comece pelas duas últimas partes e só depois vá para as duas primeiras (foi o que fiz na minha segunda leitura).

A análise de uma obra assim permite muitas abordagens: por exemplo, desvelar o posicionamento às vezes ambíguo, às vezes perceptivelmente racista de algumas vozes da narrativa em relação aos personagens negros ou visualizar o retrato histórico/sociológico dos sulistas nos Estados Unidos no início do século XX. Mas, como estão além da competência atual do blogueiro, deixo para outra oportunidade.

Na próxima postagem, escreverei um pouco sobre  Macbeth,  a peça de Shakespeare da qual proveio o título do livro de Faulkner.
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Quero aproveitar para reiterar um posicionamento já manifestado noutros blogs mantidos anteriormente (e, quem sabe, algum(a) raro(a) - e valioso(a) - leitor(a) estará lembrado(a) dele?). Não se faz crítica literária aqui, apenas comunicam-se  impressões de leitura.  A crítica literária, atividade rigorosa e exigente, escapa às pretensões do  Besta Quadrada.  Não obstante, tenho como meta pessoal tornar-me, progressivamente e dentro de minhas capacidades, um leitor tão rigoroso e exigente quanto me for possível - e isso não é incompatível, penso, com os objetivos (bem mais modestos) deste blog. Por isso seria uma frivolidade deixar de ler determinada obra só porque ela me causou desprazer em algum momento ou foi (ainda que parcialmente) incompreendida (como é o caso de  O som e a fúria ). Nesse aspecto, lembro o que escreveu Umberto Eco*** a respeito da autêntica leitura crítica. Para o pensador italiano, esta não deve ser "um passeio no campo, no qual [colhem-se] quase ao acaso, aqui e ali, os ranúnculos ou pilriteiros da poesia aninhada entre o esterco dos rípios estruturais", mas sim um enfrentamento por inteiro do texto, munido de um "forte armamento teórico e uma frequentação em todos o níveis  [com que se apresenta o texto] ".

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* FAULKNER, William.  O som e a fúria.  São Paulo: Cosac Naify, 2004 [Tradução de Paulo Henriques Britto]

** Devo confessar que, entre os livros dispostos nas estantes da minha residência há bastante tempo (e para os quais ainda não consegui reunir a disposição necessária), está o acabrunhante  Ulisses.

*** ECO, Umberto. Sobre o estilo. In: __________.  Sobre a literatura.  2 ed. Rio de Janeiro: Record, 2003, p. 151-166 [Tradução de Eliana Aguiar]

BG de Hoje

Grupos de música pop hiperproduzidos costumam não ser mais lembrados após toda a badalação que cercava seu surgimento. Foi assim com o GARBAGE. A partir do segundo disco ( Version 2.0,  1998), deixou de soar interessante (bom, pelo menos a meus ouvidos). Mas o álbum epônimo, lançado em 1995, me agradou muito, sobretudo a canção  A Stroke of Luck  e seu clima  lounge.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Detalhes



Não faz muito tempo, assisti a uma matéria no Jornal da Globo que me deixou encantado. Era sobre as chamadas impressoras 3D, maquinário do qual nunca tinha ouvido falar antes. As tais impressoras são capazes de moldar objetos a partir de um desenho gerado por um programa específico. É ... Somando esta façanha aos incríveis efeitos especiais obtidos pela computação gráfica e empregados, largamente, no cinema - quando se pode realizar quase tudo, visualmente falando - temos que admitir o poder das imagens (no sentido pictórico mesmo).

Mas o que o romancista norte-americano William Faulkner tem a ver com isso? Ora, numa época de domínio extremo da visualidade, como fica a Literatura, esta arte essencialmente feita de palavras (levando em conta que, como nos impinge o lugar-comum, mil delas não valem sequer uma imagem)? Antes de prosseguir a discussão, leiamos este trecho do livro Santuário*, de Faulkner (é um pouco longo, peço boa vontade).

"Temple tirou os sapatos, colocou-os na cama e enfiou-se sob a colcha. Tommy ouviu o ranger do colchão. Ela não se deitou imediatamente. Ficou sentada, ereta, imóvel, o chapéu licenciosamente colocado. Depois puxou para perto da cabeça o cantil, o vestido e os sapatos, endireitou o impermeável sobre as pernas e deitou-se, puxando a colcha. Sentou-se novamente, tirou o chapéu e sacudiu os cabelos. Colocou o chapéu ao lado dos outros objetos e preparou-se para tornar a deitar-se. Fez nova pausa. Abriu o impermeável, tirando de um dos bolsos um porta-pó. Mirando-se no espelhinho, espalhou os cabelos, afofando-os com os dedos. Empoou o rosto, guardou o porta-pó, olhou de novo o relógio e abotoou o impermeável. Colocou as roupas, uma a uma, sob a colcha, deitou-se e puxou a colcha até o queixo. As vozes tinham-se calado por momentos. No silêncio, Tommy podia ouvir o leve e persistente ruído da palha do colchão onde Temple se deitara, de mãos cruzadas no peito, pernas estendidas e decentemente unidas, como efígie nalgum túmulo antigo".

O excerto acima está no capítulo 8, um dos precedentes ao evento brutal que marca o livro inteiro. Por que o narrador de Faulkner preocupa-se tanto em descrever, em pormenores, a maneira como a adolescente Temple movimentava-se ou dispunha seus objetos? Tenho uma interpretação.

O objetivo aqui é duplo: primeiro o narrador procura transmitir, mesmo com crueldade, a atmosfera entremeada de tensão, violência e medo que perpassa a narrativa; segundo, manter o leitor em terreno pouco confortável, mesmo com prolixidade, para que o suspense e o horror não se percam.

Umberto Eco observou certa vez** que

"[...] as pessoas em geral acreditam que a diferença entre literatura popular e literatura erudita reside no fato de que esta última é repleta de longas descrições, enquanto aquela primeira vai direto ao assunto".

Obviamente - e Eco deixa isso claro em seu livro - esta diferença é simplista e equivocada. Só para efeito de ilustração, conheço pessoas que dizem achar Machado de Assis "difícil" porque ele é muito descritivo... Justamente Machado de Assis, um dos escritores mais concisos de nossa Literatura e que, raramente, lançava mão de longas descrições... Mas voltemos ao nosso assunto.

O narrador de Faulkner é detalhista e descritivo porque isso atende ao plano do livro Santuário. Muito provavelmente sua organização - capítulos pequenos e com alguns deles sem conexões diretas entre si - não seria possível, assim como os efeitos que provoca no leitor não se dariam, caso o autor adotasse outra estratégia.

Os detalhes, nesta como em outras narrativas, são tudo. E, sem necessidade de recursos visuais, só se extrai a expressividade deles graças às palavras, habilmente arranjadas.

* FAULKNER, William. Santuário. São Paulo: Abril Cultural, 1980 [Tradução de Lígia Junqueira Caiuby]

** ECO, Umberto. Seis passeios pelos bosques da ficção. São Paulo: Companhia das Letras, 1994 [Tradução de Hildegard Feist]