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segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Carolina, a favela e a Literatura (III)



Bem, encerremos esta série de postagens. E, devo dizer, tive muita satisfação em escrevê-la.

Um dos questionamentos mais comuns feitos a Quarto de despejo diz respeito à autenticidade do diário. Por exemplo: Fábio Lucas (geralmente mais arguto em outros escritos) foi um daqueles críticos literários cuja avaliação, na década seguinte ao lançamento da obra, recaiu apenas no aspecto documentário do relato*. Considerou-o "impressionante", embora repleto de "cacoetes estilísticos". Interessou, ao crítico, o fenômeno imprevisto, "que o próprio aproveitamento publicitário tornou mais relevante". E colocou a autenticidade do diário em xeque ao suspeitar do teor da "contribuição de um jornalista" (no caso, Audálio Dantas).

Por sua vez, o que diz Dantas?

Em A atualidade do mundo de Carolina**, o jornalista, responsável pela edição do texto publicado em 1960, escreve: "A repetição da rotina favelada, por mais fiel que fosse, seria exaustiva. Por isso foram feitos cortes, selecionados os trechos mais significativos". E acrescenta: "Mexi, também, na pontuação, assim como em algumas palavras cuja grafia poderia levar à incompreensão da leitura. E foi só, até a última linha". Ou seja, Audálio Dantas (na imagem à esquerda) afirma não ter realizado nenhuma alteração de monta no manuscrito recebido de Carolina Maria de Jesus. Entretanto, José Carlos Sebe Bom Meihy - pesquisador citado na postagem anterior - publicou uma outra versão da obra (em 1996), juntamente com Robert Levine, intitulada Meu estranho diário, por julgar que o trabalho editado por Dantas comprometeu o texto original. NOTA: Ainda não tive oportunidade de ler Meu estranho diário e cotejá-lo com a versão mais difundida, organizada pelo jornalista. De todo modo, o livro de Carolina estabeleceu-se no cenário cultural brasileiro, gerando recepções diferentes ao longo do tempo. Inclusive fora do país***.

Mas por que, afinal, mais do que um documento, Quarto de despejo é uma particularíssima obra de Literatura?

Não será, certamente, por trechos como este**** :

"... O céu é belo, digno de contemplar porque as nuvens vagueiam e formam paisagens deslumbrantes. As brisas suaves perpassam conduzindo os perfumes das flores. E o astro rei sempre pontual para despontar-se e recluir-se. As aves percorrem o espaço demonstrando contentamento. A noite surge as estrelas cintilantes para adornar o céu azul. Há várias coisas belas no mundo que não é possível descrever-se. Só uma coisa nos entristece: os preços, quando vamos fazer compras. Ofusca todas as belezas que existe".

É preciso reconhecer o acúmulo de imagens gastas e lugares-comuns surrados no excerto reproduzido acima (ainda que a narradora tenha o mérito de deixar clara sua insatisfação com a conjuntura econômica). Mas, menos do que um "cacoete estilístico", essa forma ("enfeitada", digamos) de escrever nos indica outra coisa, mais significativa. José Carlos S. B. Meihy*****, em relação a expressividade da escritora, notou corretamente, a meu ver, que

"Seus erros gramaticais, em contraste com a difícil explicação de seu vocabulário, representam facetas que fundem na necessidade expressiva a afetação de quem vê a literatura como poder. Isso, aliás, nunca esteve ausente da percepção de Carolina, que, mesmo sendo mulher fisicamente indefesa na favela, sabia que, por saber ler e escrever, tinha domínio dos códigos dos poderosos".

A escritora, portanto, não desconhecia que a Literatura é também um sistema (tenho em mente aqui o conceito brilhantemente formulado por Bernard Mouralis em As contraliteraturas). Sendo assim, para fazer parte desse sistema, a autora tentou simular (equivocadamente, nesse caso) o código de escrita que julgava ser o dos segmentos mais cultos da população. Porém, isso é compreensível para alguém que, como ela mesma nos relata no livro, tinha "apenas dois anos de grupo escolar".

Mas observemos agora, apenas para exemplificar a qualidade da escrita de Carolina Maria de Jesus,  estes dois outros excertos, extraídos também de Quarto de despejo:

1) "Antigamente era a macarronada o prato mais caro. Agora é o arroz e feijão que suplanta a macarronada. São os novos ricos. Passou para o lado dos fidalgos. Até vocês, feijão e arroz, nos abandona! Vocês que eram os amigos dos marginais, dos favelados, dos indigentes. Vejam só. Até o feijão nos esqueceu. Não está ao alcance dos infelizes que estão no quarto de despejo. Quem não nos despresou foi o fubá. Mas as crianças não gostam de fubá". 
2) "O gato é um sábio. Não tem amor profundo e não deixa ninguém escravisá-lo. E quando vai embora não retorna, provando que tem opinião. 
Se faço esta narração do gato é porque fiquei contente dela ter matado o rato que estava estragando os meus livros".

Essas passagens demonstram que Carolina Maria de Jesus, quando não se preocupava em escrever de modo "enfeitado", era inventiva, engenhosa ao narrar, mesmo que fosse mais "preocupada com a mensagem temática e não com o apuro formal", como assinala Meihy. Por isso, penso que talvez não seja o melhor expediente, numa análise mais aprofundada da obra dessa escritora (obviamente nem sequer esboçada neste blog), insistir em enquadrá-la nos pressupostos estéticos cristalizados da crítica literária mais formalista. Mas isso é assunto para outra oportunidade.

Na próxima semana, escreverei brevemente sobre algumas ideias expostas em A rebelião das massas, de José Ortega y Gasset.
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* LUCAS, Fábio. O caráter social da literatura brasileira. 2 ed. São Paulo: Quíron, 1976

** Texto que serve de prefácio à edição de Quarto de despejo utilizada para escrever esta série de postagens e referenciada mais abaixo.

*** Quarto de despejo foi publicado no exterior e particularmente nos EUA foi bem acolhido, recebendo o nome de Child of the dark, com sucessivas reedições.

**** JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: diário de uma favelada. 8 ed. São Paulo: Ática, 2001

***** MEIHY, José Carlos Sebe Bom. Carolina Maria de Jesus: emblema do silêncio. Revista USP, São Paulo, vol. 37, mar./mai. 1998, p. 82 - 91. Disponível em <http://www.usp.br/revistausp/37/08-josecarlos.pdf>. Acesso em 14/04/2014

BG de Hoje

Que a composição literária, na cultura brasileira, tem proximidade tremenda com a música popular, não é segredo para ninguém. E ao ficar esses dias pensando na representação da pobreza nas cidades, dentro da nossa Literatura, através da obra de Carolina Maria de Jesus, acabei por me lembrar dos RACIONAIS MC's: não só rappers, mas cronistas essenciais da vida urbana no Brasil. E uma de suas canções mais emblemáticas e emocionantes é a célebre Homem na estrada.


terça-feira, 12 de agosto de 2014

Carolina, a favela e a Literatura (II)


Escreverei sobre o valor propriamente literário, estético, do livro Quarto de despejo (como anunciei que faria hoje) na próxima semana. Julgo necessário discutir, antes, a questão a seguir.
. . . . . . .

Lendo o ensaio Carolina Maria de Jesus: emblema do silêncio*, do historiador José Carlos S. B. Meihy, surpreendi-me ao saber que foi localizada uma caixa**, muito tempo depois da morte da escritora, contendo 37 cadernos, cujas páginas escritas ultrapassavam cinco mil. De acordo com Meihy:

"O acervo encontrado trazia uma quantidade grande de poemas, contos, quatro romances e três peças de teatro. Isso, entre lições escolares dos filhos, receitas de bolos, contabilidade doméstica. Escritos todos com a letra firme, clara e corrente de Carolina, tudo em papéis velhos encontrados no lixo, guardados sem o cuidado devido".

Em vida, além de Quarto de despejo, Carolina Maria de Jesus publicou outros quatro trabalhos: Casa de Alvenaria, Provérbios, Pedaços da fome e Diário de Bitita. Mas, como bem observa José Carlos S. B. Meihy,

"A existência preciosa de quatro romances enormes [e não publicados], por outro lado, demonstra que estamos em face de um caso único da história da cultura popular nacional, onde, na favela, uma autora semi-alfabetizada produziu uma obra que, segundo o impulso inicialmente dado, seria uma promessa de renovação de nossos critérios de definição cultural".

E por que tal renovação não se deu?

Adio a resposta para ressaltar, primeiramente, que, em diversas passagens de Quarto de despejo***, é perceptível um sentimento de autoconfiança (e expectativa positiva com relação a uma possível publicação), a despeito da vida infausta (a expressão é corriqueira no livro) sob a qual se encontrava a autora. Por exemplo:

"Vocês [as outras moradoras da favela] são incultas, não pode compreender. Vou escrever um livro referente a favela. Hei de citar tudo que aqui se passa. E tudo que vocês me fazem. Eu quero escrever o livro, e vocês com estas cenas desagradáveis me fornece os argumentos".

Ou esta outra, mais direta:

"É que estou escrevendo um livro, para vendê-lo. Viso com esse dinheiro comprar um terreno para eu sair da favela".

E mais ainda:

"Tem hora que eu odeio o repórter Audálio Dantas. Se ele não prendesse o meu livro eu enviava os manuscritos para os Estados Unidos e já estava socegada". 
"- Pois é, Toninho, os editores do Brasil não imprime o que escrevo porque sou pobre e não tenho dinheiro para pagar. Por isso eu vou enviar o meu livro para os Estados Unidos. Ele deu-me varios endereços de editoras que eu devia procurar".

Carolina Maria de Jesus via a si mesma como poeta e, pelos excertos acima reproduzidos, percebe-se que também não duvidava da sua aptidão para a escrita narrativa e nem da validade de seu manuscrito no jogo editorial. Ainda assim, a obra dessa escritora não se tornou "uma promessa de renovação de nossos critérios de definição cultural". Muito em função do silêncio da crítica literária. A imprensa da época interessou-se por aquele fenômeno apenas enquanto fato "exótico"; os cadernos de cultura, no geral, limitaram-se (e até hoje assim o fazem) a consagrar o já consagrado. A crítica literária acadêmica, especializada, tinha outra "agenda" no momento em que a escritora surgia, apesar do contexto favorável da época (a despeito de se estar no período que antecedeu a ditadura militar) - ampliação do feminismo, do movimento negro e do maior interesse pela cultura popular.

Termino na próxima postagem, cumprindo a intenção manifestada no primeiro texto da série.
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* MEIHY, José Carlos Sebe Bom. Carolina Maria de Jesus: emblema do silêncio. Revista USP, São Paulo, vol. 37, mar./mai. 1998, p. 82 - 91. Disponível em  <http://www.usp.br/revistausp/37/08-josecarlos.pdf>. Acesso em 14/04/2014

** O historiador localizou a caixa junto com a família da escritora e com Robert Levine, durante a elaboração do trabalho Cinderela negra - a saga de Carolina Maria de Jesus  (escrito em parceria com Levine).

*** JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: diário de uma favelada. 8 ed. São Paulo: Ática, 2001

BG de Hoje

Repito no BG a dupla SÁ & GUARABYRA. Mas é porque fiz um exercício de autocrítica ao lembrar da canção Ziriguidum tchan. Explico: na minha modesta coleção de CDs há muito mais artistas ingleses e norte-americanos do que brasileiros. Estou longe de ser chauvinista; porém, às vezes, não me dou conta do quanto sou afetado por algo (a música pop) que me faz esquecer de olhar a meu redor e sentir-me saudavelmente brasileiro.