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quinta-feira, 30 de março de 2023

Sobre proibições, alterações de livros e a ilusão do bom senso

Um das consequências mais aflitivas de meu prolongado estado de depressão é a perda de ânimo e entusiasmo para atividades que, para mim, eram vitais.

De uns tempos pra cá, tenho lido cada vez menos textos literários. Já perdi a conta dos livros dos quais desisti após percorrer umas poucas dezenas de páginas. 

Não tem a ver com a qualidade dos escritos. É que, nalguns dias, a aridez em mim machuca muito; noutros, sou tomado por uma raiva difícil de dissipar. Como ler literatura nessas condições?

Falta apetite, a curiosidade se foi. Não há concentração. Uma sensação de cansaço imensa.

Não peço nada de mais. Queria apenas minha regularidade de volta. 

Porque ler obras literárias também é não sucumbir de vez - antes da morte propriamente dita - nestas sociedades de merda em que vivemos.

Olho para o que vem acontecendo nos últimos anos nos EUA. Um dos efeitos da chamada guerra cultural, a proibição da aquisição e circulação de determinados livros em escolas e bibliotecas em estados como Texas, Pensilvânia e Flórida, almejada por associações e grupos ultraconservadores e legitimada por políticos e governantes locais, demonstra que o emburrecimento tornou-se um elemento essencial da paisagem política de nossos dias, junto com o fanatismo. Não se trata só de preconceito e intolerância, o que já seria terrível. Trata-se do orgulho da própria ignorância (ignorância aqui como sinônimo de incivilidade). Quase todos os títulos proibidos por esses indivíduos são considerados "afrontas aos valores" deles ou são tidos por eles como "divisivos". Isso inclui publicações mais recentes, não tão conhecidas, apresentando personagens LGBTQIA+, com temática de gênero ou racial (espantei-me quando soube que o afetuoso Hair Love, feito para crianças, está entre os proscritos), mas livros já consagrados pela crítica, como Lord of the Flies (O Senhor das Moscas) e The Handmaid's Tale (O conto da aia), vivem em risco permanente em alguns distritos.

Por outro lado, certas ações presumivelmente progressistas no setor das publicações literárias também têm me deixado de cabelo em pé. Falo, claro, das alterações/modificações (ou atualizações, como já li em alguns artigos) realizadas pelas editoras em obras de escritores já falecidos, como Roald Dahl, Ian Fleming, Agatha Christie e Monteiro Lobato, para citar um brasileiro (cuja revisão está sendo dirigida pela bisneta do escritor, Cleo). A justificativa mais comum apresentada é que certas palavras e caracterizações usadas por esses autores em seus textos ofendem determinados gupos/tipos de pessoas, não se coadunando com a sensibilidade de hoje em dia. Não tenho dúvida de que Fleming e Christie tinham uma visão eurocêntrica, preconceituosa em relação a outros povos e etnias; estou convicto de que Lobato era racista; e Dahl tinha gosto pelo insulto. Há trechos problemáticos e tóxicos (para usar um adjetivo da moda) no que escreveram esses artistas? Certamente. Mas será o melhor caminho alterar o que escreveram? Os leitores e os mediadores de leitura seriam assim tão incautos a ponto de necessitar desse "resguardo"? Não seria melhor discutirmos (e até polemizarmos com) o conteúdo desses textos à luz do zeitgeist atual ao invés de "corrigi-los"? Ou, caso não seja possível, simplesmente afirmar a repulsa pelo texto (ou por partes deste) e escolher outro(a) escritor(a), mais do agrado do(a) leitor(a), sem necessidade de dar uma "maquiada" na coisa? Oponho-me a esse programa de sanitização da arte, de assepsia da escrita literária. Não é obrigação de um texto literário - nem de qualquer obra de arte -  acomodar-se às suscetibilidades do público, por mais que aquele texto nos fira de alguma forma (falo de escritos artisticamente genuínos, pois, sabemos, pode-se disfarçar o discurso de ódio sob a aparência de um texto literário). Felizmente, alguns editores se recusam a fazer tais alterações.

Ainda sobre o ponto levantado acima, creio haver também uma motivação puramente capitalista. Seria, obviamente, danoso para a imagem de determinados produtos associá-los ao racismo, à gordofobia ou ao capacitismo, por exemplo. Não devemos nos esquecer que Fleming criou o agente 007; algumas histórias de Christie ainda têm apelo junto ao público (como é o caso das recentes adaptações cinematográficas de Assassinato no Expresso do Oriente e Morte sobre o Nilo). Lobato idealizou O Sítio do Picapau Amarelo, marca que está estampada em várias mercadorias Brasil afora; e Dahl, autor de Matilda e A fantástica fábrica de chocolate, tem um alcance planetário junto ao público infantil (eu, por exemplo, adoro seu livro Os pestes). Como seria possível vender tudo isso com a pecha de CANCELADO carimbada em cima?

Talvez não tivéssemos de lidar com a proibição e nem a alteração de livros se houvesse mais bom senso entre as pessoas...

A frase idiota que acabei de escrever - já sabia que era idiota no momento em que a digitava - é na verdade uma espicaçada no(a) eventual leitor(a) e em mim mesmo. 

Tirando os assumidamente inconsequentes e os indivíduos diagnosticados com sérios problemas mentais, as pessoas, no geral, costumam achar que são bastante sensatas. Porém, sempre me lembro de uma frase (pra variar) certeira de Millôr Fernandes ¹ : "A melhor maneira de demonstrar que você é um homem de extraordinário bom senso é não acreditar nisso".

Você sabe: nós, humanos, não costumamos lidar bem com as divergências. Por isso, temos a tendência de reconhecer como pessoas razoáveis, como pessoas com quem se pode entrar em acordo, apenas aquelas que compartilham ideias e crenças parecidas com as que já tínhamos. Assim, tendemos a achar que falta bom senso aos outros, mas não a nós. Além disso, tanto a proibição dos livros quanto as alterações dos textos originais partem de supostas boas intenções - e sabemos que o inferno está apinhado delas.

Claro, há os líderes e políticos de extrema direita que usam a proibição dos livros para empurrar sua agenda fascista, mas muitas outras pessoas que defendem esse procedimento nem são tão reacionárias assim: acreditam piamente que estão "protegendo as criancinhas". Entre os que defendem as atualizações dos textos de determinados autores, há aqueles que acreditam que é possível construir um mundo melhor corrigindo expressões desagradáveis em filmes e livros publicados há décadas e à revelia de seus autores (que já estão mortos).  

Em setembro de 2010, fiz uma postagem sobre um artigo do sociólogo/filósofo polonês Zygmunt Bauman, que discutia uma questão que vai e volta sempre: os livros estariam condenados a desaparecer diante de tantas tecnologias de comunicação/informação/entretenimento disponíveis na atualidade ²? A última frase daquele artigo me parece bem apropriada para o tema que discuti acima: "Para tornar os livros mais adaptados à sociedade em que vivemos, estejamos vigilantes para evitar que a sociedade se torne inadaptada aos livros".

A leitura em geral - mas, em particular, a leitura literária - depende, para ser fecunda, de imersão e de abertura. Imersão para aprofundar-se nos sentidos dos versos ou no enredo, nos personagens, nos conceitos e valores que subjazem uma história contada. Abertura para aceitar a diversidade de perspectivas e a diversidade de formas de se colocar no mundo (e expressar isso por meio de palavras em poemas e narrativas ficcionais).

Infelizmente, tudo o que nossas sociedades atuais fazem é desfavorecer a imersão e obstruir a abertura.

. . . . . . .

Não tem a ver com a discussão de hoje, mas tenho que tocar no assunto porque a repugnância tomou conta de mim. No úiltimo domingo, fiquei estarrecido ao ver pela TV as imagens de um sujeito, torcedor do Internacional de Porto Alegre, com uma criança pequena no colo (não devia ter mais do que cinco anos de idade), entrar em campo para agredir jogadores do time do Caxias (que havia acabado de eliminar o Internacional numa disputa de pênaltis, válida pela semifinal do Campeonato Gaúcho).

A cena é repugnante em vários aspectos: a agressão por motivo completamente fútil; a exposição da criança ao risco de sofrer violência; a covardia de usar uma menininha como escudo (pois essa era a real intenção do sujeito, não tenho dúvida).

Como de praxe, no Brasil, nada aconteceu. O sujeito foi embora para casa depois do jogo, sem sofrer consequências (talvez seja banido do estádio futuramente, mas e daí?). O clube, Internacional, não terá nenhum prejuízo ou punição rigorosa (talvez uns jogos sem torcida e fica por isso mesmo). A imprensa, que vive de alimentar rivalidades bobas, infantis, e trata simples eventos esportivos como "batalhas épicas", simula a indignação de sempre e, assim que a poeira baixar, volta tudo a ser como antes.

OK, eu odeio futebol e pode ser por isso também que estou tomado de exasperação. Penso, contudo, que aquela cena torpe no domingo, ao final daquele jogo, é uma das mais eloquentes representações dessa desgraça chamada Brasil.

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¹ FERNANDES, Millôr. Millôr definitivo: a bíblia do caos. Porto Alegre: L& PM, 2002

² BAUMAN, Zygmunt. O livro no diálogo global entre culturas. In: PORTELLA, Eduardo (Org.). Reflexões sobre os caminhos do livro. São Paulo: UNESCO/Moderna, 2003. p. 15-33.


BG de Hoje

É muito comum que o frontman de uma banda acabe atraindo toda a atenção para si e ofusque os outros membros, sobretudo se for um cantor excepcional. Sem dúvida, é o caso do grupo ucraniano JINJER e sua vocalista - neste caso, uma frontwoman - Tatiana Shmailyuk. No entanto, nunca deixo de notar como são precisos e tecnicamente apurados os outros três integrantes. Isso pode ser visto em várias canções da banda, como Teacher, Teacher ou Perennial, mas é particularmente perceptível na faixa mais conhecida deles, a belíssima Pisces, que tem alguns dos versos mais bonitos que já vi numa composição de metal:

"Pisces swimming through the river
All their life against the stream
Searching for a hook to catch on
And see their sun beam

Then suffocate in painful tortures
On cutting tables of callous men
Under a knife of handsome butchers emeralds are ripped away
Emeralds are ripped away
Emeralds are ripped away
Emeralds are ripped away"

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

"Quem tá na merda não filosofa"



O aforismo usado no título desta postagem é a "moral" que encerra Os perigos da filosofia, o último texto do impagável volume Fábulas fabulosas*, de Millôr Fernandes, publicado em 1973, se não me engano.

A primeira vez que li esse livro, lembro bem, foi aos 14 anos. Havia sido aluno de uma ótima professora de Língua Portuguesa na sétima série (chamava-se Cleone). Durante uma de suas aulas, ela fez uma leitura comentada tão vibrante e divertida de A morte da tartaruga - outro dos textos de Fábulas fabulosas - que fiquei tremendamente desejoso de conhecer todo o conjunto. Uma de minhas irmãs mais velhas tinha um exemplar em casa. Já estava familiarizado com os desenhos e charges de Millôr Fernandes através de seus trabalhos para a imprensa, mas não muito em relação à sua escrita. Confesso não ter compreendido integralmente várias daquelas fábulas irreverentes e insólitas, dadas minha juventude abobada e a reduzida bagagem pessoal de leituras naquela época. Gostei, contudo. Anos mais tarde comprei um exemplar próprio (já tive uns três até hoje), tornando-se um dos itens mais estimados em minha pequena biblioteca doméstica.

Pois bem. Em Os perigos da filosofia, uma narrativa de apenas duas páginas, quatro rapazes e um professor estão agrupados em um local sobre o qual nada sabemos no início da história. O professor propõe um joguete de raciocínio como passatempo. Soluções insatisfatórias são apresentadas pelos rapazes até que o último jovem dá uma resposta excelente. O desfecho, entretanto, coloca-os numa tremenda enrascada (para saber mais, leia o texto do Millôr, ora essa!).

A chave para alcançar o humor da fábula e entender seu final está na palavra aparelho, usada no texto. Num país como o nosso, em que o estudo de História (como, de resto, o estudo de todas as outras matérias do currículo escolar) é negligenciado, muitos talvez não saibam que aparelho, ainda mais em 1973, na Ditadura (e quando Fábulas fabulosas foi publicado, até onde sei), designava algo um pouco diferente de seu sentido comum. Uma ajudinha do Houaiss: "local (apartamento, casa, etc.) usado por grupo político clandestino para suas reuniões nos anos de regime ditatorial".

Estudantes e professores de Filosofia (como supomos ser o caso daqueles personagens) costumavam, no imaginário de certas pessoas, assumir a feição de indivíduos contestadores, propensos a se envolver em protestos e revoltas políticas; daí seria um pulo para a participação deles em organizações clandestinas (e, de fato, confirmando esse imaginário, isso ocorreu no Brasil com muitos indivíduos durante a resistência ao regime militar). Além disso, até hoje, os interessados em Filosofia (assim como os interessados nas ditas ciências humanas) costumam ser rotulados** como sendo de esquerda - o que, para uma galera mal-informada, assustadiça e reacionária, significa vagabundos-perigosos-querendo-implantar-a-ditadura-do-proletariado-a-todo-custo e blá, blá, blá... Estar o tempo todo sob a investigação e ameaça da polícia no passado (e mesmo no presente, quando muitos movimentos sociais e manifestações correm o risco de ser tratados como terrorismo!) - o que os obrigava a se esconderem nos aparelhos - ajuda a entender o estar na merda da "moral" da fábula.

Mas a frase "quem tá na merda não filosofa" - e que frase legal! - pode ser interpretada de outra forma, pensando agora noutras situações.

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Desde a Antiguidade, na Grécia - ou seja, desde o nascimento da Filosofia, tal como tradicionalmente a entendemos*** -, o ato de filosofar e o ato de contemplar sempre estiveram associados quando se pensa na figura do filósofo. E a palavra contemplação, com frequência, opõe-se à ação. Um dos estereótipos do filósofo -  bem diferente daquele que esboçamos acima -  é o de alguém isolado do mundo, cercado apenas por livros ou outros "estimulantes" do pensamento, murmurando de si para si ou contemplando (no sentido de refletir detidamente acerca de um tema) algo que não nos é dado perceber de imediato; as únicas vezes em que esse sujeito age é quando passa para o papel o resultado de suas lucubrações. Essa imagem um tanto caricatural - mas partilhada por algumas pessoas - reforça a oposição entre a ação e a contemplação que, supostamente, existiria dentro do filósofo. Não percamos o fio da meada.

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Tenho vontade de rir - para não gritar de raiva - todas as vezes em que ouço/leio alguém afirmando: "é preciso trabalhar naquilo de que se gosta". Como se a massa de indivíduos que vende sua força de trabalho no mercado tivesse várias opções para escolha! A imensa maioria dos(as) trabalhadores(as) do mundo é compelida a deslocar-se em meio a um trânsito opressivo, a suportar durante horas e horas rotinas de trabalho sem nenhuma circunstância prazerosa (não raro, sem sentido e, nalguns casos, degradantes), a lidar com outros seres humanos rudes, hostis ou, na melhor das hipóteses, simplesmente burros, tudo isso não porque gostam, é óbvio: esses(as) trabalhadores(as) fazem-no unicamente porque precisam sobreviver. Não é necessário dizer o quanto essa condição exaure - mental e fisicamente - os que dela não podem escapar (como este blogueiro e penso também ser o caso do(a) eventual leitor(a)). Tantas vezes engolidos pelo monstro voraz do trabalho e com o espírito avizinhando-se do esgotamento com o passar do tempo, como seria possível  a eles e elas a contemplação (no sentido de refletir detidamente acerca de um tema, por exemplo, a sua própria condição de sujeito explorado e alienado)?

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A crença na superfluidade da reflexão filosófica é tão antiga quanto a existência da Filosofia. E persiste ao longo das eras: uma mostra disso é a famigerada proposta de reforma do ensino médio apresentada recentemente pelo governo golpista de Michel Temer retirando essa e outras disciplinas - essenciais ao meu ver - da grade curricular. Proclamar que a Filosofia é inútil - assim como a Arte, incluída aí a Literatura - não se restringe apenas aos indivíduos com baixa escolaridade e aos políticos a serviço do embrutecimento: é fácil encontrar dentro do ambiente universitário quem execre todas essas outras dimensões do saber humano. Se tal desapreço pode ser verificado entre aqueles que dispõem de um certo capital cultural, o que dizer do enorme contingente de pessoas cercadas exclusivamente pela indústria do entretenimento? O pensamento de natureza filosófica, nesse caso, nem sequer é cogitado dentro do horizonte de suas preocupações - sempre prementes - com a sobrevivência.

Imbecilizadas pela massificação e sugadas pelo universo do trabalho alienante - em boa parte dos casos, não por sua vontade - essas pessoas, para piorar, desconhecem o que seja o ócio.

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Quando foi a última vez que o(a) eventual leitor(a) parou para pensar? A quem é dado - num mundo erigido sobre a desigualdade social - o direito de subtrair-se às exigências do trabalho para poder contemplar (no sentido de refletir detidamente acerca de um tema, por exemplo, que raio de vidinha miserável é essa na qual estamos encalacrados)? Por que o ócio - vital, penso eu, para uma vida verdadeiramente humana - é privilégio de poucos?

Nós, trabalhadores, estamos na merda. Como filosofar em tal estado?

Entretanto, ainda que nossa margem de escolha seja reduzidíssima, pode-se ao menos insistir. O otimismo não faz parte do universo deste blogueiro; ainda assim, digo que entre as poucas chances de sairmos da latrina, a despeito do mundo do trabalho que nos rouba a possibilidade de contemplação (no sentido de refletir detidamente acerca de um tema, por exemplo, como conferir dignidade à nossa existência), é tentar parar para pensar.  

Quem tá na merda não filosofa, mas não teria nada a perder se escolhesse fazê-lo, uma vez que já perdeu quase tudo.
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* FERNANDES, Millôr. Fábulas fabulosas. 12 ed. Rio de Janeiro: Nórdica, 1991

** Esclareço mais uma vez que me considero um sujeito de esquerda. Mas é um grande erro pressupor que os interessados em Filosofia e nas chamadas Humanidades tenham uma "inclinação natural" para se posicionar contra o conservadorismo e o pensamento reacionário. 

*** Há quem defenda, com bons argumentos, que a reflexão filosófica não foi uma exclusividade da Hélade, como se tivesse ocorrido uma espécie de "milagre grego". Como não é objetivo deste texto discutir essa questão, deixo-a para outra oportunidade.

BG de Hoje

Quem tá na merda não filosofa... Mas preciso tentar, pra não sucumbir de vez ao desespero. Pensei, para o BG de hoje, algo que misturasse pessimismo e positividade. Fico com a parte pessimista, como não seria diferente. Canta a banda NOCAUTE (que tem uma pegada meio Planet Hemp e BNegão) na vigorosa faixa Men's, que eu gosto pra caralho: "Ultimamente eu tenho andado preocupado/É que o bicho tá pegando pro meu lado".



terça-feira, 16 de setembro de 2014

"Como disse o Millôr..."


Semanas atrás, a 12ª edição da FLIP (Feira Literária Internacional de Parati) - talvez o evento do gênero com maior visibilidade hoje no Brasil - homenageou Millôr Fernandes (falecido em 2012).

O autor carioca foi um multimídia avant la lettre e é difícil destacar qual era sua principal atividade (Dramaturgo? Tradutor? Cartunista? Poeta? E outras mais...). Entretanto, não há dúvida de que ele será lembrado com um dos maiores humoristas do país, com uma produção de textos e desenhos sempre muito alta. Às vezes, seu trabalho é marcado pela sofisticação; noutras, pela simplicidade (e nem por isso menos engraçado, como nesta pequena biografia*):

"Millôr nasceu. Aos 13 anos de idade, já estava. O que não invalida. No entanto, sua atuação teatral, até onde se sabe dos livros publicados, foi constatado sem qualquer dúvida. Ao concluir seu Mestrado, percebeu logo. Um dia, depois de um longo programa de televisão, foi que. Amigos e pessoas vagamente interessadas, naturalmente. Onde e como, mas talvez, Millôr jamais, no caso. Ao ser agraciado disse, e não foi à toa. Entre os tradutores brasileiros. E tanto em 1960 quanto em 1978. Mas nem todo mundo concorda. O resto, diz ele. Ou seja, hoje em dia, como ninguém ignora".

A obra de Millôr Fernandes teve sempre grande alcance, chegando a "um público abrangente, [mas] sem perder a erudição", como observou o diretor geral da FLIP, Mauro Munhoz. Numa das mesas do evento (O guru do Méier), seus participantes - os jornalistas Hugo Sukman e Sérgio Augusto, ao lado dos cartunistas Claudius e Cássio Loredano - ressaltaram a insubmissão do artista a credos partidários ou ideológicos de ocasião. Loredano lembrou ainda uma frase antológica (e aparentemente nonsense) de Millôr: "Não gosto da direita porque ela é de direita e não gosto da esquerda porque ela é de direita".

E por falar em frases... É frequente em diversas ocasiões, ao presenciar um acontecimento ou envolver-me nalguma situação, falar "como disse o Millôr..." e emendar uma frase do artista, concernente àquele episódio. E estou certo de que muitas pessoas Brasil afora fazem o mesmo. Millôr Fernandes foi o mais genial autor de ditos curtos e epigramas da cultura brasileira, anos-luz à frente de Apparício Torelly (o "Barão de Itararé), Nelson Rodrigues ou Sérgio Porto (o "Stanislaw Ponte Preta"). Quando, em 1994, foi lançado Millôr definitivo: a bíblia do caos**, os admiradores do escritor regalaram-se com a publicação, reunindo 5142 pequenas joias do humorista. Eis algumas das que mais gosto:

"Bota na tua cabecinha que amanhã pode acontecer uma grande desgraça. O dia de hoje vai ficar muito melhor". 
"As coisas nem sempre são tão ruins quanto parecem. Mas quase sempre são". 
"Quantas vezes eu já fui agredido por bêbados em minha vida? Muitas. Mas poucas em relação ao número de vezes em que fui agredido por semi-ideias, por tolices ditas pomposamente, por ideologias malmastigadas e filosofias maldigeridas. Assim a pergunta é pertinente - quem é mais perigoso: o cara que bebe mal ou o cara que lê mal?" 
"Um pessimista é o único que está preparado para ser otimista quando seu pessimismo der certo". 
"Só conheço uma forma infalível de planejamento familiar - a prosperidade". 
"O cinismo é o máximo da sofisticação filosófica. Só ele se aproxima da verdade". 
"Caras brilhantes fazem frases brilhantes e idiotas as repetem. Não vá repetir essa pros seus amigos". 
"A hipocrisia já é um progresso ético" 
"Sou humanista: Isso não significa ser bonzinho ou acreditar que o homem é bonzão. Significa apenas que aceito o homem como é - medroso, primário, invejoso, incapaz, acertando por acaso e errando por vaidade e ignorância: meu irmão", 
"Se a ocasião faz o ladrão, a falta de oportunidade faz a honestidade?" 
"Eu jamais suportaria como amigo um cara que me dissesse 10% do que eu digo a mim mesmo em certas madrugadas de insônia".
E outras duas, provenientes de outras fontes:

"O mundo é cheio de idiotas. Felizmente estão sentados nas outras mesas" (durante uma conversa com Tom Jobim, num bar no Rio de Janeiro) 
"Quem está na merda não filosofa (moral que encerra a fábula Os perigos da filosofia)

Noutra das mesas da FLIP (O estilo Millôr), Reinaldo (ex-integrante do Casseta & Planeta) contou que começou "lendo Millôr na idade em que os garotos hoje lêem Harry Potter, ele era onipresente. Tinha O Cruzeiro em qualquer sala de espera, e eu já tinha aprendido que naquela revista tinha duas páginas de Millôr, que eu sempre procurava”. Lembrei-me então de duas experiências pessoais que marcaram meu contato com a obra desse autor. Era ainda criança quando tentava entender os cartuns publicados por Millôr na revista Veja, disponível em nossa casa graças a uma assinatura paga por meu irmão mais velho. Depois, aos 13 anos, numa inesquecível atividade escolar promovida por uma professora de português muito dedicada, senti grande prazer com a leitura de A morte da tartaruga. Felizmente, uma de minhas irmãs possuía o livro Fábulas fabulosas, no qual esse texto fora publicado originalmente, e pude lê-lo por inteiro. Daí em diante, sempre me mantive próximo da obra de Millôr Fernandes.

Link para o site da 12ª edição da FLIP: http://www.flip.org.br/

Caso o(a) leitor(a) tenha interesse, link para uma entrevista muito boa concedida por Millôr ao programa Roda Viva (TV Cultura) em 1989: http://tvcultura.cmais.com.br/millor


* Pode ser encontrada numa das "orelhas' do livro 100 fábulas fabulosas (Editora Best Seller, 2011, 7ª edição). Mas há também uma "autobiografia de mim mesmo à maneira de mim próprio", também engraçadíssima, e com alguns trechos incluídos na apresentação das Novas fábulas fabulosas (Editora Nórdica, 1997, 5ª edição).

** O exemplar que atualmente possuo desse livro é uma edição de bolso mais recente da L&PM.

BG de Hoje

Domingo passado, estava tomando cerveja num bar agradavelmente decadente em bairro próximo à minha residência. O dono trocava, vez ou outra, os discos (de vinil) que compunham a "trilha sonora" da birosca. E um destes foi Do fundo do nosso quintal (do grupo FUNDO DE QUINTAL), um álbum que, em outras épocas, ouvi até cansar, principalmente por causa de Eu não quero mais, um samba de partido-alto, contagiante e bem humorado, como há muito não se encontra por aí.


quinta-feira, 14 de junho de 2012

O "esconderijo" dos acadêmicos ou Culpa e vida intelectual (I)



"Pro homem da rua, intelectual é uma coisa bastante longínqua, incompreensível, e, claro, meio bicha".

Millôr Fernandes - Millôr definitivo: a bíblia do caos


Estava relendo anteontem um pequeno artigo (de que gosto muito) escrito por Hans Ulrich Gumbrecht*, no qual o autor faz a seguinte pergunta:

" Mas o que podem fazer os intelectuais, que fim podem dar as sociedades à escória de seus intelectuais, se deles ninguém mais aceita a pretensão de desvendar a verdade em geral, de um lado, e, de outro, se eles perderam a chance de adquirir a competência mais específica para a verdade exigida no presente?"

Em seu texto, Gumbrecht, professor universitário nos EUA, propõe-se uma "tarefa" - definir  qual ou especular sobre a função social dos intelectuais -  "tarefa" empreendida, é bom que se diga, por diversas outras pessoas antes dele, nos meios acadêmicos e mesmo na imprensa. Na sua tentativa, nada rigorosa e nem "profunda" (ainda bem, é bom que se diga mais uma vez), ele faz observações muito interessantes. Falarei delas no fim desta série de postagens. Antes, outra pergunta, para melhor levar a discussão: o que é um intelectual?

Num livro cujo objetivo é justamente responder tal questionamento**, Horácio González, após apresentar uma tipologia com diversos representantes dessa categoria de indivíduos, sustenta que

    "[...] o intelectual é a mais frágil ação que se desenvolve na sociedade, precisamente porque não pode evitar transmitir suas contradições. E também porque desvenda a culpa de um afastamento das crenças comuns, o desejo de abolir as fontes de coerção, enquanto diz deter os instrumentos conceituais para pensar um mundo novo. Culpa, desejos e instrumentos flutuam com diferentes pesos e tons na consciência do intelectual. Fazem a consciência do intelectual".

Por que falar em contradição? E por que falar em culpa? Volto ao assunto na próxima semana, incluindo  Jean-Paul Sartre na discussão.
__________
* GUMBRECHT, Hans Ulrich. Intelectuais como catalisadores de complexidade. Folha de S. Paulo, São Paulo, 24 mai. 2001, Caderno Mais!, p.18-19

** GONZÁLEZ, Horácio. O que são intelectuais. 2 ed. São Paulo: Brasiliense, 1981 [Coleção Primeiros Passos]

BG de Hoje

Às vezes ouço certas bandas de rock e penso: por que tanta frescura para fazer aquilo que é básico? Com o QUEENS OF THE STONE AGE não tenho com que me preocupar: é "pau na máquina"! Um exemplo: escute How To Handle A Rope.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Degustador de refrescos artificiais em pó


"O pouco que a gente sabe bota na vitrine. E o montão que ignora esconde no porão"

Millôr Fernandes

 
 
Embora deteste futebol, nunca deixo de ler a coluna jornalística de Tostão, ex-jogador do Cruzeiro e da Seleção Brasileira, e que se tornou médico após encerrar a carreira de atleta.

Em novembro passado*, o craque escreveu:

"O futebol no mundo deveria ser interrompido em alguns períodos para as pessoas refletirem, desconstruírem muitos de seus conceitos, perceberem as besteiras que disseram e que fizeram para daí construírem novas maneiras de ver a vida e o futebol".

A proposta de Tostão parece trivial. Mas não é.

Sou cada vez mais antissocial porque, entre outros aborrecimentos, o futebol é assunto que invade - pior ainda, domina -, de modo implacável, as conversas em reuniões de amigos e conhecidos. Saber se foi pênalti ou não, se o árbitro é bem ou mal intencionado, se o jogador Y ou o treinador X serão empenhados ou preguiçosos, constituirá, daí em diante, o centro do "debate". O mais impressionante - ou ridículo, ou lamentável, sei lá - é ver na TV sujeitos com ares de profundos especialistas discutindo as mesmíssimas coisas, como se aquilo fosse vital para nossa existência...

Isso não acontece à toa. O futebol é, provavelmente, a forma de entretenimento mais popular do planeta. Movimenta consideráveis somas de dinheiro e ocupa espaço gigantesco nos veículos de comunicação. Millôr Fernandes - novamente!** - adicionou complemento a uma frase (slogan da esquerda nos anos 1970) que não me canso de citar: "o futebol é o ópio do povo e o narcotráfico da mídia".

A maioria das pessoas (pelo menos no Brasil) julga saber alguma coisa sobre futebol. Mas pergunto: o que há para saber?

Como esse esporte é praticado de janeiro a dezembro, todos os anos, nunca se para de falar sobre ele. Platitudes e mais platitudes vão se sedimentando e alimentam os lugares-comuns e clichês da monocultura esportiva do futebol. Dá pra imaginar todo esse universo ludopédico deixando de funcionar por certo tempo, como na utópica proposta de Tostão?

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A meu favor, só posso dizer que o blog Besta Quadrada é periodicamente interrompido para que seu autor reflita sobre as besteiras que escreve amiúde. Quem por ventura lê este espaço merece respeito e consideração, creio eu, e não tem tempo a perder.

Quase todo mundo acha que sabe bastante sobre certos assuntos ou temas (e alguns sabem mesmo!); entretanto, convenientemente, ocultam sua ignorância sobre todo o resto. Aqui, tratando de Literatura na maioria das postagens, até eu corro o risco de passar a impressão de "sacar do barato" (que gíria mais antiquada...). É possível que saiba alguma coisa, mas é ínfimo. Cultivo apenas uma imagem. E sendo direto: uma imagem que, "se colar", obviamente me apetece, pois acho que ninguém gosta de ser visto como ignorante.

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Fiquei, então, pensando: o que é que eu sei? Há alguma atividade, produção ou área, sobre a qual eu possa emitir opiniões válidas, confiáveis, certeiras? Escarafunchei o cérebro, a alma e acabei descobrindo. Ah, suprema sensação é encontrar em si mesmo um dom especial! Sou um degustador de refrescos artificiais em pó, com larga experiência e apurada formação!

Desde o popularíssimo Q-Refresco ao blasonado Clight, passando pelo tradicional Ki-Suco, o reverenciado Tang, o versátil Fresh, o eficaz Frisco (meu predileto), o econômico Tornado e outros de menor fama, sou capaz de reconhecer tonalidades, aromas, adstringências específicas num rápido e breve exame. Desenvolvi métodos próprios de preparo e variações criativas nas maneiras de servir. Suponho haver outros indivíduos (raros, penso eu) com igual talento, mas desde já divulgo aqui minhas credenciais.

P. S. Aos fabricantes dessas delícias artificialmente saborosas, desejosos de contar com meus préstimos, informo que estou à inteira disposição, inclusive cedendo o espaço para publicidade. Basta enviar e-mail destacando, principalmente, os aspectos financeiros da negociação, pois estou no vermelho.
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* TOSTÃO. Desconstrução. Folha de S. Paulo, São Paulo, 24 nov. 2010.  Caderno Esporte, p.5

** FERNANDES, Millôr. Millôr definitivo: a bíblia do caos. Porto Alegre: L & PM, 2002 (a epígrafe da postagem também foi extraída dessa obra)

Na próxima semana, os temas habituais deste espaço. Até breve!

BG de Hoje

Tá certo: Angus Young é um espetáculo à parte. Mas sempre que ouço AC/DC, fico ainda mais admirado com o trabalho de Malcom Young, o irmão mais velho. A simplicidade sonora característica do grupo não seria possível sem a base rítmica da guitarra desse músico, compositor presente em todas as grandes canções gravadas pela banda. E, no vídeo abaixo, uma das minhas prediletas: Problem child (há, primeiro, a apresentação feita por um camarada desconhecido; depois é que o bicho pega... Ah, ainda com Bon Scott no vocal e o baixista já era o Cliff Williams)

domingo, 12 de dezembro de 2010

Facebook: entre a "bagaça" e o "papo-cabeça"



"Olha, quando um cara acha tudo muito bom, ele é que não presta".
Millôr Fernandes

"Nunca conheci quem tivesse levado porrada
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo".

Fernando Pessoa/Álvaro de Campos no Poema em linha reta


As chamadas redes sociais (sites de relacionamento) vieram para ficar (goste-se ou não delas). Algumas, nada populares (Sonico, Hi-5 e outras), provavelmente serão desativadas num futuro próximo ou incorporadas a outras. Veja o caso do MySpace: há pouco firmou parceria com o Facebook, uma vez que vem perdendo usuários globalmente. E por falar em Facebook, que "lugar" interessante para observar o comportamento das pessoas, através dos perfis que lá mantêm.

Em setembro, Contardo Calligaris* (colunista que, ao lado de Tostão, não posso deixar de ler) relatou o que ocorre com sua (dele) amiga. Ao chegar em casa, ela abre o laptop na cama para curtir sua fossa vendo a felicidade dos conhecidos exposta no Facebook:

"Minha amiga - escreve Calligaris - , em suma, sente-se excluída da felicidade geral da nação facebookiana: só ela não foi promovida, não encontrou um namorado fabuloso, não mudou de casa, não ganhou nesta rodada da loto. É mesmo um bom jeito de aprofundar e curtir a fossa: a sensação de um privilégio negativo, pelo qual nós seríamos os únicos a sofrer, enquanto o resto do mundo se diverte".

Mas a amiga acaba se dando conta de que sua página não é diferente das outras: também exibe fotos felizes e notas amenas e alegrinhas e quem passasse por lá acharia que ela tem uma vida ótima. Calligaris, então, nos lembra que a infelicidade nem sempre é um problema:

"Por exemplo, a infelicidade é uma das motivações essenciais; sem ela nos empurrando, provavelmente, ficaríamos parados no tempo, no espaço e na vida. Ou ainda, a infelicidade é indissociável da razão e da memória, pois a razão nos repete que a significação de nossa existência só pode ser ilusória e a memória não para de fazer comparações desvantajosas entre o que alcançamos e o que desejávamos inicialmente".

No Facebook todo mundo tenta parecer feliz e de bem com a vida, mesmo que, na realidade, não seja bem assim. Todo mundo é "engraçadinho" e virtuoso, além, é claro, daqueles carentes virtuais (já falei deles aqui) que entopem a rede com futilidades e, no fundo, querem apenas gritar: "Ei, estou aqui! Lembrem-se de mim! Eu sou legal". Por que tantos querem impingir aos outros essa imagem de "felicidade total"? Calligaris dá uma magistral resposta:

"[...] somos cronicamente dependentes do olhar dos outros. Consequência: para ter certeza de que sou feliz, preciso constatar que os outros enxergam minha felicidade. Nada grave, mas isso leva a algo mais chato: a prova de minha felicidade é a inveja dos outros. O resultado dessa necessidade de parecermos felizes é que a felicidade é este paradoxo: uma grande impostura da qual receamos não fazer parte e que, por isso mesmo, não conseguimos denunciar".

Não quero dar uma de "fodão". Que fique claro o seguinte: também estou no Facebook para me divertir a maior parte do tempo. E  se, de vez em quando, tento incluir alguma coisa mais "papo-cabeça" é porque tenho o péssimo (e inútil) hábito de me levar a sério - mais uma imagem (possivelmente falsa e certamente patética) que tento apresentar aos outros. Mas nem por isso deixo de me incomodar com o excesso de "bagaça" que encontro diariamente naquela rede social.

P. S. Vale a pena também ler o que escreveu Adelaide Amorim, alguns meses atrás, sobre o Facebook (clique aqui).
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* CALLIGARIS, Contardo. Felicidade nas telas. Folha de S. Paulo, São Paulo, 23 set. 2010, p. 11 (Caderno Ilustrada)


BG de Hoje

O LED ZEPPELIN talvez seja o grupo de rock com mais álbuns incluídos nas listas dos melhores ou dos maiores discos do gênero em todos os tempos. Nada mais justo, penso eu. Porém, Houses Of The Holy (1973) dificilmente entra nessas relações. Álbum variegado, flerta com ritmos e levadas incomuns ao som que até então caracterizava a banda. Qualquer dia dedico uma postagem exclusiva para esse trabalho. Por enquanto, vai aqui Over The Hills And Far Away, canção marcante de Houses Of The Holy.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

O verdadeiro fenômeno


lnfelizmente, nesse nosso Brasilzão, vivemos a estúpida monocultura esportiva do futebol. E já dizia o Millôr Fernandes: "o futebol é o ópio do povo e o narcotráfico da mídia". Prefere-se falar da vida privada de jogadores já em fim de carreira, como Ronaldo, vulgo Fenômeno, a divulgar e incentivar a prática de outros esportes.

O resultado é um país populoso, economicamente superior a muitos outros, mas cujos habitantes, em geral, desconhecem a atividade física que não seja aquela feita para impressionar (ou enganar) pretendentes e que se realiza nas "academias" de ginástica espalhadas pelas esquinas. Esse mesmo país acalenta o sonho de ser potência olímpica, veja você...

Fenômeno, pra mim, é Serena Williams. A tenista norte-americana venceu pela quinta vez (quinta vez!) o Aberto da Austrália, um dos mais importantes torneios do mundo. Tornou-se a sexta maior ganhadora da história dos quatro campeonatos que formam o Grand Slam.

Debateu-se tal façanha nas mesas-redondas esportivas? Não, preferiu-se, por exemplo, falar da egotrip de um jogador do Flamengo... Pra frente, Brasil!

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Diferentes modos de sermos estúpidos (2)


"A melhor maneira de demonstrar que você é um homem de extraordinário bom senso é não acreditar nisso"
Millôr Fernandes - Millôr Definitivo

 
 
Certa vez li um artigo do economista Paulo Nogueira Batista Jr.*, no qual ele se dava conta do avassalador "triunfo dos idiotas". Para Batista Jr. :

"Em certo momento da história mundial, [...] o idiota despertou para um fato básico: a sua avassaladora superioridade numérica. Começou então a perder suas antigas inibições. Surgiu, triunfante, o fenômeno na sua forma moderna - o idiota sem o menor vestígio de superego".

O idiota ocupa os mais variados postos: "pode ser banqueiro, empresário, estrela de televisão, economista, sociólogo e até (Deus nos perdoe) artista". Basta ter "um profundo desprezo pela inteligência do público".

É bem provável que eu faça parte dessa massa de idiotas mencionada pelo articulista. Isso não vem ao caso agora. Há um fato cultural e histórico cuja contribuição foi enorme para a atual supremacia dos imbecis - e é isso o que nos interessa mais de perto.

Como um sem-número de outras pessoas, também acredito que as sociedades humanas não conseguiram criar nenhum outro regime político melhor do que a democracia. Essa crença, contudo, não me impede de apontar suas limitações e, mais do que isso, constatar que uma decisão tomada por uma maioria nem sempre é uma decisão sábia: pode ser, aliás, perfeitamente idiota. Isso deveria ser óbvio (mas não é) : muitas vezes uma maioria adota medidas ineficientes e estúpidas. A democracia, a despeito de todos os seus benefícios, ampliou o alcance da ação dos idiotas.

Pulando para outro assunto.

No artigo Proibir ou compreender** Gilberto Dupas considera que "as sociedades contemporâneas resolveram adotar o 'politicamente correto' como sua nova ética, ainda que temperada com razoável hipocrisia". Embora não tenha restrições ao que Dupas chama de "politicamente correto", concordo inteiramente com ele quando, mais à frente, criticando a caça às bruxas que se tornou a restrição ao direito dos fumantes, afirma que
"No caso do fumo e das drogas, o que parece estar em questão é que pessoas possam exibir publicamente seu prazer, ainda que de forma autodestrutiva. O filósofo esloveno Slavoj Zizek - usando conceito lacaniano - acha que ' a imagem do vizinho que goza demais ' nos é intolerável".

"A imagem do vizinho que goza demais"... Por que estou tão preocupado com o ato de fumar - considerado estúpido por milhões de cidadãos - se nem fumante sou? Porque o mesmo ódio (hipocritamente moralista, a despeito da justificativa médico-sanitária), hoje dirigido a quem fuma, pode, em pouco tempo, voltar-se para mim e outros que adoram tomar porres e mais porres - comportamento igualmente tido como estúpido por outros milhões de indivíduos!

As pessoas têm diferentes concepções de vida, códigos morais (importantes apenas para elas mesmas) e crenças (algumas delas, totalmente fundamentalistas). E aquele que - por fumar demais, por beber demais, por transar demais, por comer demais, por divertir-se demais, por ser diferente demais - acabe destoando desses rígidos modos de ser e estar no mundo precisa imediatamente se "enquadrar".

Eu? Tô fora!

Mais na próxima postagem.
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* BATISTA Jr., Paulo Nogueira. O triunfo dos idiotas. Folha de S. Paulo, São Paulo, 24 mai. 2001, Caderno Dinheiro, p. 2

** DUPAS, Gilberto. Proibir ou compreender. Folha de S. Paulo, São Paulo, 24 abr. 2007. Caderno Brasil, p. 3. Esse texto, para ser franco, parece ter sido encomendado por algum lobista da indústria do tabaco. Ainda assim, acho um bom artigo.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Eu, o bronco

"Só o especialista, no meio dos que o ouvem, sabe que daquilo também não entende nada"

Millôr Fernandes - Millôr Definitivo

 
 
 
Falaria, nessa postagem, sobre Um copo de cólera, novela de Raduan Nassar. Fica para a próxima. Porque no sábado passado li uma breve resenha* sobre O inominável, livro de Samuel Beckett, elaborada por Adriano Schwartz (e nas "letrinhas miúdas" da matéria fez-se questão de frisar que ele é professor de Literatura na USP), e achei que era imperativo escrever sobre o que está implícito nela.

O resenhista afirma que a obra em questão "dinamita de vez todas as convenções do romance: não há personagens, enredo, progressão temporal, ambiente, representação; apenas uma voz que fala, fala e fala, sabe-se lá de onde, sem nenhuma motivação". Ele ainda adverte, tentando fazer graça no final: "cuidado, portanto, com a avaliação abaixo [considerou o livro "ótimo"]: este não é um bom presente para o Dia dos Namorados ou para o amigo secreto da firma".

Bem, eu nunca li Samuel Beckett. Como também nunca li James Joyce (a não ser Dublinenses - o que não vale nada, já que é considerada sua "obra menor"). E ambos - além de serem irlandeses - são considerados os grandes revolucionários da Literatura do século XX. Ah, e também não li J. M. Coetzee, vencedor do Nobel e tido como "discípulo" de Beckett. Mas pode ser que um dia eu consiga chegar a esses autores. Vontade não falta. O assunto aqui, porém, é outro.

Não são poucas as vezes, diante de um texto - seja ele uma narrativa ficcional, um poema ou um estudo crítico - em que paro no meio do fluxo de leitura e me pergunto: E agora, José? Sendo direto: não estou entendendo nada daquilo, aquilo não me provoca nenhum sentimento, a não ser o desalento com minha própria estupidez. E me sinto estranho - e diminuído - porque, supostamente, eu deveria ao menos não "boiar" no meio da barafunda, já que passei, bem ou mal, por um curso de Letras, e esse aprendizado, aliado ao rudimento de cultura literária de que eu dispunha anteriormente é o que me garante a sobrevivência. E, afinal de contas, uma parte generosa - beeeem generosa - de meus dias é dedicada à leitura.

E o que dizer, então, daqueles zilhões de pessoas, que tem dezenas de outras preocupações na vida, diante de textos como este que foi objeto da resenha e que os obrigarão a verdadeiros contorcionismos mentais que nem indivíduos "razoavelmente" treinados conseguem executar? Agora, por que diabos quereriam ler algo do tipo não saberia dizer... E, talvez, nem deveriam tentar fazê-lo, uma vez que se pode argumentar (com alguma razão) que o resenhista visava um grupo bem seleto de indivíduos...

Num dos livros que mudou a minha vida**, Bernard Mouralis faz a seguinte afirmação:

"A cultura literária e artística constitui, pois, como se pode ver, um código que permite a cada um distinguir-se e fazer-se distinguir. Este código não preencherá verdadeiramente a sua função no seio da sociedade senão com a condição de ocorrer no conjunto das classes que a compõem. É pois necessário que todos aceitem utilizá-lo para medir ou fazerem-se medir".

Foi a partir do trabalho de Mouralis (e outros) que comecei a questionar essa ideia de que o conhecimento literário era coisa de "inciados", baseado numa espécie de "sensibilidade superior" que alguns têm e outros, não. Comecei também a pensar que as funções do conhecimento literário na sociedade deveriam ser outras que não aquela discutida, analisada e brilhantemente criticada por Mouralis. Ainda mais num país como o nosso, cuja história da escolarização foi tão acidentada.

Este texto, um tanto confuso, reconheço, não deseja atacar Beckett (quem sou eu!), muito menos Schwartz. Só quer deixar esta pergunta: você que me lê e eu podemos ser considerados assim tão burros por não apreender (ou "sentir", como querem alguns) esse "modernismo extremo" (para usar uma expressão do resenhista) de algumas obras consideradas o nec plus ultra da Literatura?

Eu, bronco, não arrisco uma resposta.
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* Samuel Beckett desafia o romance. Folha de S. Paulo. 6 jun. 2009. p - 9 (Caderno Ilustrada)

** MOURALIS, Bernard. As contraliteraturas. Coimbra: Almedina, 1982

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Dinheiro (2)



Acordei com a cabeça estourando. Ressaca. Das brabas. Ligo o aparelho de som, as caixas voltadas para a porta do banheiro, onde entro debaixo da água fria (qualquer dia desses dou minha receita de terapia musical para curar males provocados por excesso de bebida). Money Changes Everything, berrada pela voz estridente de Cyndi Lauper. Meu lado ultrapop está em alta ultimamente; comprei até um Greatest Hits do Billy Idol!

A canção - e não pergunte o porquê da associação - me remete aos Irmãos Karamazov*, livro que mencionei na postagem anterior. Eu citara a cena em que Dimitri Karamazov tenta obter 3.000 rublos com a Sra. Khokhlakhova, sem sucesso. Esse dinheiro serviria para que Dimitri pagasse uma dívida que tinha com a ex-noiva, Katarina Ivanovna.

Em alguns romances de Dostoiévski - como, por exemplo, Humilhados e Ofendidos ou Crime e Castigo - sempre me impressionou o grande número de referências feitas a quantias precisas de dinheiro, copeques e rublos citados frequentemente nos diálogos e nas palavras dos diversos narradores. Penso que isso não acontecia à toa.

Sabe-se que o escritor russo passou por grandes dificuldades financeiras durante quase toda a sua vida, chegando a mudar-se do próprio país para escapar dos credores. Dostoiévski, do mesmo modo que Balzac (e Graciliano Ramos, no Brasil), trouxe o dinheiro - esse elemento que já foi considerado incompatível com a "grandeza" e a "pureza" da arte literária - para dentro de seus livros, dando mais consistência e força a suas personagens.

É evidente que um livro como os Irmãos Karamazov é muito mais do que uma obra que tem como um de seus temas o dinheiro. A escrita do romancista é de uma profundidade filosófica poucas vezes vista. De acordo com Bóris Schnaiderman**,

"Dostoiévski é o escritor-filósofo por excelência. A grande força de sua obra consiste em ter dado intensidade dramática e ficcional a ideias. Em seus livros, elas deixam de ser abstratas e passam a ser algo vivo, carnal, de presença imediata. Trouxe, assim, uma grande contribuição à filosofia, o que é um caso singular na literatura. Exerceu influência sobretudo sobre Nietzsche e os existencialistas."


Mas, ainda assim, o dinheiro (e aquilo que ele proporciona) é parte central da trama, a ponto dos citados 3.000 rublos ocuparem boa parte da narrativa, sendo inclusive a possível motivação para o crime que marca o romance.

Permita-me uma digressão: é bastante comum que as pessoas evitem falar de dinheiro, alegando, hipocritamente, que isso é "deselegante" ou que denota "falta de educação". Como mal tenho onde cair morto, falo de dinheiro sempre que posso, sem nenhum constrangimento. Digo mais: sem ele, a vida em sociedade é simplesmente insuportável; há pouquíssimas possibilidades de vivenciar experiências felizes sem esse recurso. Como escreveu Millôr Fernandes***,

"O dinheiro é tudo. Ele é a fonte de todo o bem. Faz dentes mais claros, olho mais azul, amplia a dignidade individual, aumenta a popularidade, produz amor e paz espiritual e, quando tudo falha, paga o psicanalista."


Dostoiévski, é óbvio, se vivo fosse, não ouviria a Cyndi Lauper e execraria, caso lesse, a redução forçada de sua obra que empreendi nessa postagem. Mas acredito que ele, apesar de sua religiosidade intensa, não hesitaria em concordar que "money changes everything".

Acho que a bebedeira de ontem ainda não passou....

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* DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Os Irmãos Karamazov (trad. Natália Nunes e Oscar Mendes). São Paulo: Abril Cultural, 1970 (Coleção Os imortais da literatura universal)

** Entrevista dada a José Geraldo Couto e publicada na Folha de S. Paulo (Caderno Mais!), 6 mai. 2001

*** FERNANDES, Millôr. Millôr definitivo: a bíblia do caos. Porto Alegre: L & PM, 2002