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quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Falou e disse...

 (Sobre os ateus)

"E aqui está o ponto, acerca de mim mesmo e de meus copensadores. A nossa crença não é um credo. Nossos princípios não são uma fé. Não nos baseamos unicamente na ciência e na razão, porque estas são fatores necessários mas não suficientes, mas desconfiamos de qualquer coisa que contradiga a ciência ou afronte a razão. Podemos diferir em muita coisa, mas o que respeitamos é a livre inquirição, a mente aberta, e a busca das ideias por elas mesmas. Não sustentamos nossas convicções de forma dogmática: [...] Não somos imunes à sedução do prodígio, do mistério e da reverência: temos música, arte e literatura, e achamos que os dilemas éticos sérios são mais bem tratados por Shakespeare e Tolstói, Schiller e Dostoiévski e George Eliot do que nos contos de moralidade míticos dos livros sagrados. A literatura, e não a escritura, sustém a mente e - já que não há outra metáfora - também a alma. Não acreditamos em céu ou inferno, todavia nenhuma estatística jamais concluirá que sem essas lisonjas ou ameaças cometemos mais crimes de cobiça ou violência que os fiéis. (Na verdade, se fosse possível fazer algum dia uma pesquisa estatística apropriada, estou seguro de que a evidência indicaria exatamente o contrário.) Nós aceitamos o fato de viver apenas uma vez, a não ser por meio dos nossos filhos, para os quais ficamos felizes em observar que devemos abrir caminho e dar espaço. Nós especulamos que é no mínimo possível que, uma vez que as pessoas aceitem o fato de suas vidas breves e árduas, elas possam se comportar melhor umas em relação às outras, e não pior. Acreditamos com certeza que uma vida ética pode ser vivida sem religião. E sabemos como fato que o corolário também vale - a religião tem levado inúmeras pessoas não só a se conduzir pior que outras, mas a lhes conceder permissão para se comportar de maneiras capazes de franzir a testa de uma dona de bordel ou de um responsável por limpeza étnica". *

* HITCHENS, Christopher. Deus não é grande: como a religião envenena tudo. 2 ed. São Paulo: Globo Livros, 2016. p. 18-21 [Tradução de George Schlesinger]

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Religião: um outro nome para controle e busca de poder (e um risco para a democracia)


[Postagem atualizada em 04/07/2020]

Um dos personagens mais odiosos de todos os filmes a que já assisti é a Mrs. Carmody, de O nevoeiro (The Mist - direção de Frank Darabont, 2007), baseado no conto homônimo de Stephen King ¹. Uma parte de minha ojeriza por Mrs. Carmody deve-se, claro, ao magnífico desempenho da (pouco badalada) atriz Marcia Gay Harden (vale mencionar que em 2001 ela já havia sido premiada com um Oscar de coadjuvante por sua atuação em Pollock e indicada a outro, na mesma categoria, por seu papel em Sobre meninos e lobos, de 2003). Mais uma vez, aquela regra não-escrita do cinema e da dramaturgia prevaleceu: quando possível, o papel de vilão/vilã deve sempre ser dado ao/à melhor ator/atriz do elenco.

A outra parte - maior - de minha antipatia provém, contudo, daquilo que a personagem é: uma delirante e hidrófoba religiosa fanática.

Na narrativa escrita por King, a Sra. Carmody, dona de uma lojinha cheia de animais empalhados e objetos excêntricos, mistura seu fanatismo religioso ao curandeirismo e é descrita, sem qualquer sutileza, como uma bruxa (inclusive na aparência estereotipada):

"À claridade mortiça e lúgubre, ela parecia uma bruxa naquelas berrantes calças amarelas, na espalhafatosa blusa, com os braços pesados de chacoalhantes pulseiras de quinquilharia - cobre, casco de tartaruga, adamantina - e sua enorme bolsa. Seu rosto enrugado aparecia sulcado por fortes linhas verticais. O crespo cabelo grisalho se achatava sobre o couro cabeludo, amarrado por três prendedores e torcido na nuca. Sua boca era uma corda franzida".

No filme, a personagem tornou-se uma mulher de meia-idade, com vestes discretas - mas manteve a inseparável bolsa a tiracolo. Não há diferença significativa, contudo, entre as falas de Carmody no conto e na adaptação cinematográfica. E - o que mais importa para esta postagem - tanto o filme quanto o texto original conseguiram evidenciar bem os efeitos políticos causados por uma tal presença.

Uma fortíssima tempestade atinge uma região interiorana do estado do Maine. Após a tormenta, surge um insondável nevoeiro. Pessoas vão a um supermercado local em busca de suprimentos. E lá permanecem, aterrorizadas, pois da bruma misteriosa surgem criaturas horripilantes. Essa é a sinopse da história escrita por Stephen King em 1976, que afirmou gostar "do quê de filme B do conto".

Não bastasse toda a adversidade decorrente do aparecimento de seres medonhos vindos de outra dimensão, o grupo refugiado no supermercado ainda se depara com Mrs. Carmody...

"Não existe defesa contra a vontade de Deus!" - grita ela, em determinado momento - "Isto estava para vir. Eu vi os sinais. Aqui há gente que eu avisei, porém ninguém é mais cego do que aqueles que não querem ver."

É quando outro personagem, Mike Hatlen, vereador da cidade, intervém: "Afinal, o que quer dizer? O que você propõe?"

Ao que a religiosa tresloucada replica: "Propor? Propor? Ora estou propondo que se prepare para encontrar o seu Deus, Michael Hatlen - virou-se e olhou para todos nós - Preparem-se para o encontro com seu Deus!" 

Essa breve cena é particularmente significativa (está também no filme, com pequenas alterações). Mike Hatlen (como boa parte de nós, suficientemente habituado à convivência democrática contemporânea) acredita que, para resolver os problemas dentro de uma coletividade, o melhor método é apresentar propostas e discuti-las - mesmo que os problemas possuam tentáculos monstruosos. Mrs. Carmody, por sua vez, está pouco se lixando para os ritos democráticos. Mais do que isso: ela encarna a própria antipolítica.

. . . . . . .

Em Deus não é grande: como a religião envenena tudo ², o jornalista e ensaísta Christopher Hitchens observou que

"O nível de intensidade flutua de acordo com o momento e o lugar, mas pode-se afirmar como verdade que a religião não se contenta, e no longo prazo não pode se contentar, com suas próprias alegações maravilhosas e sublimes garantias. Ela precisa tentar interferir na vida dos descrentes, ou hereges, ou adeptos de outros credos. Ela pode falar sobre a bem-aventurança do mundo vindouro, mas quer poder neste mundo aqui. E é de esperar que seja assim. Afinal, ela é totalmente criada pelo homem. E não tem a confiança sequer nas suas diversas pregações para permitir a coexistência entre diferentes credos [ou a coexistência com a ausência de credo, acrescento eu]".

Convido o(a) eventual leitor(a) a fazer uma reflexão simples junto comigo. Suponhamos que se acredite numa divindade com todos os predicados geralmente atribuídos ao deus abraâmico - onipotência, onipresença, onisciência. Suponhamos também que se acredite que essa divindade recompensa o bom agir do fiel, ainda que seja após a morte, e pune as más condutas (sem contar que a divindade pode, se for de sua vontade, interceder de pronto, a qualquer momento, diretamente, produzindo um milagre). Aceitando, portanto, essas "alegações maravilhosas e sublimes garantias", por que o crente ³ deveria se preocupar com infiéis ou com aqueles não tão fiéis assim? Basta que prossiga no bom agir e a divindade (repito: onipotente, onipresente, onisciente, que premia o bem, pune o mal e ainda realiza milagres vez ou outra) irá favorecê-lo. Pode-se seguir em paz e, principalmente, deixar os outros em paz, não?

Não.

Porque, sendo uma invenção humana (portanto, sujeita a erros), a religião não consegue mais ser tão persuasiva (já não são tantos os países onde esta possa ser imposta à força); mostra dificuldade para disfarçar suas (muitas) incongruências e contradições, cada vez mais gritantes à medida que suas justificações, promessas e supostas recompensas são confrontadas por uma outra práxis e por outros discursos (principalmente o científico), cujas explicações e soluções para os problemas reais a nossa volta costumam ser melhores do que as fornecidas pela prédica religiosa. Escusado dizer que a ciência também tem seus limites e comete sua própria cota de equívocos (mas que tipo de ser humano, em pleno século XXI, está disposto a negá-la in totum e tomar decisões sem qualquer lastro científico?). Dizendo de outro modo: a religião apresenta rachaduras em sua hegemonia; seu poder se enfraquece. E, por esse motivo, muitos de seus adeptos reagem, constrangendo e forçando o restante da sociedade a continuar conformado aos seus ditames, à sua cosmovisão. Então, já não se trata de enaltecer os bem-aventurados, mas de dominação e controle, seja por meio da jihad islâmica, seja repetindo sem parar "a Bíblia diz".

Antes de prosseguir, convém esclarecer a que estou me referindo quando uso o termo religião.

Chamo de religião não só os sistemas religiosos propriamente ditos, com suas doutrinas, rituais, locais de culto etc., mas também toda e qualquer crença em forças divinas, criadoras intencionais de tudo o que existe e preocupadas com a conduta dos indivíduos, merecendo por isso algum tipo de reverência, quando não adoração, louvor e obediência (ou temor). Também classifico como sendo de caráter religioso aquelas convicções baseadas na sensação de que existiria uma "energia" ou "princípio ordenador" inacessível ao escrutínio racional mas alcançável, talvez, através da contemplação mística ou outro meio "espiritual". Noutras palavras, o sujeito pode não seguir um sistema religioso ou frequentar uma igreja específica, mas se ele acredita num "ser superior", numa entidade sobrenatural responsável pelo arranjo do universo, essa crença (poupando, a meu ver, uma dispensável questão terminológica) deve ser chamada, simplesmente, de religiosa.  NOTA (1): Desde já este blogueiro declara que, a despeito de seu ateísmo, defende intransigentemente o direito das pessoas acreditarem naquilo que quiserem. A problemática surge, porém, quando, dentro de um regime democrático e numa república ciente de seu dever para com a laicidade do Estado, certo ideário religioso faz de tudo para impor-se, como estamos vendo acontecer neste momento, no Brasil. Esse ponto será retomado mais adiante.

Na sua coluna no jornal Folha de S. Paulo, publicada no último 23 de novembro, Vladimir Safatle não coloca panos quentes ao tratar da relação entre religião e política: "Nunca é demais lembrar como a democracia ocidental nasceu, entre outros, por meio do combate à religião". Segundo o filósofo e professor da USP, a democracia ocidental

"foi impulsionada pela criação de um espaço político no interior do qual a justificação do poder não seria mais alimentada por qualquer forma de crença em escolhas divinas, na qual o amparo produzido pelo discurso religioso não desempenharia mais papel nos modos de produção da coesão social. A democracia moderna, como gostava de acreditar Max Weber, seria assim solidária de um processo de desencantamento do mundo vindo da perda do poder unificador dos mitos teológico-religiosos na fundamentação das esferas sociais de valores (cultura, arte, política, economia, ciência, entre outros). Hoje, não é difícil perceber como esse projeto nunca foi completamente realizado. Há várias formas de regressão social periódica a assombrar o que conhecemos até hoje por democracia e uma delas é a regressão religiosa fundamentalista, independentemente de ela ocorrer na Turquia muçulmana, na Polônia católica ou no Brasil com seus evangélicos”.

Para o colunista, vários países (entre estes, o Brasil) falharam em "dar, a largas parcelas da população, algum sentido substantivo para a experiência de serem cidadãs e cidadãos de um estado laico". Esse contingente enorme de pessoas, ao contrário, ficou perdido entre a violência estatal e a exploração econômica. Tal cenário de desalento foi o terreno fértil para a proliferação religiosa de viés mais retrógrado. Na conclusão de seu texto, intitulado República fundamentalista, Safatle escreve:

"No começo dos anos 1970, o psicanalista Jacques Lacan podia dizer: ‘vocês ainda não têm ideia do que será o retorno da religião’. Ele podia dar declarações dessa natureza por perceber como a política moderna mobilizava os mesmos afetos do discurso religioso, como o desejo de amparo e a produção contínua do medo. Contra a religião, só haveria uma saída, mas ela não seria utilizada pelo discurso político. Pois, do ponto de vista da circulação dos afetos, só se quebra a força da religião pela afirmação do desamparo, ou seja, por meio da afirmação da recusa a todo amparo vindo de um Outro, como se do desamparo pudesse nascer uma certa coragem cuja consequência política maior seria a produção de sujeitos que não querem mais ser governados. Sujeitos que sabem que sua ausência de lugar natural não é uma falha que deve ser superada, mas uma condição para a produtividade da liberdade. Sujeitos que afirmam a contingência de sua existência e de seus caminhos. Mas sempre haverá um poder político a se alimentar dos nossos afetos mais regressivos e amedrontados”.

Voltemos rapidamente a O nevoeiro, de Stephen King.

À certa altura, após tantas horas de horror dentro e fora do supermercado, o narrador da história nota como um dos personagens tem o semblante envelhecido e infeliz.

"Ocorreu-me que a maioria de nós devia ter tal aparência. Menos a Sra. Carmody. Ela parecia de algum modo mais jovem e revitalizada. Era como se ela tivesse se encontrado... Aliás, era como se já tivesse conseguido. Como se... estivesse alimentado-se daquilo".

Aquela situação, cheia de pânico e medo, beneficiava justamente o fanatismo e o desvario religiosos. Outros dentro do estabelecimento passaram a dar ouvidos à Sra. Carmody (para eles, tornara-se impossível a "afirmação do desamparo", como diria Safatle). É quando o narrador pensa: "Bastava tornar aquela gente a única e maior força política no supermercado [e ficaria impossível dividir o mesmo espaço]. A ideia de que o maior e único grupo em nosso fechado sistema estava ouvindo sua arenga sobre os abismos do inferno e os sete frascos sendo abertos [referência ao livro do Apocalipse, cap. 15; vers. 7] produzia em mim uma terrível sensação de claustrofobia".

Para a religião (sobretudo para as igrejas e para os sistemas religiosos organizados), não basta a fé como escolha pessoal e direito individual. Mais cedo ou mais tarde - principalmente em períodos e lugares em que o medo e a aflição passam a ser preponderantes entre a população -, a religião buscará controlar e coagir todo o corpo social, tentando fazer com que seus despautérios (no caso do conto de Stephen King, sacrifícios humanos para acalmar a ira de Deus, representada pelos monstros do nevoeiro, como acreditava a Sra. Carmody) tornem-se as normas gerais.

OK, OK, O nevoeiro é uma narrativa ficcional, uma fantasia de terror, e (pelo menos no Ocidente) não temos visto por aí nenhuma liderança religiosa fazendo exigências como as da Sra. Carmody.

Pensemos, contudo, no incansável movimento criacionista nos EUA, pressionando para que a história mítica do Gênesis divida, no ambiente escolar, o mesmo espaço com a teoria da evolução por seleção natural (e, portanto, tenham a mesma validade explicativa). Ou na defesa da segregação (e mesmo perseguição) de determinadas pessoas (LGBTQs, por exemplo) porque "a Bíblia os condena". Ou, falando especificamente do nosso país, consideremos o possível retrocesso da legislação, representado pelo projeto de lei que visa a criação do Estatuto do Nascituro (defendido pela futura ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos), que passaria a considerar criminosas as mulheres que decidissem interromper uma gravidez decorrente de um estupro, além de não resguardar outras tantas do risco de morrerem durante o parto. NOTA (2): O caso dos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres (entre estes, o direito ao aborto) é um tema particularmente elucidativo do quanto a mentalidade religiosa costuma ser prejudicial para as democracias. Por ser um assunto que necessita ser abordado detidamente, deixarei-o para uma postagem a ser publicada mais adiante. 

As religiões estão sempre a postos para impor o modo como todos devem agir e pensar (e não só os seus seguidores). Talvez o(a) eventual leitor(a) não considere os exemplos citados no parágrafo anterior suficientemente absurdos. Mas julgo não estar sendo receoso em excesso quando digo que a absurdez poderá, rapidamente, chegar a níveis ainda mais insuportáveis para muitos de nós (e não falo só dos ateus). Basta tornar essa gente a única e maior força política (vide as teocracias espalhadas pelo mundo, em especial nos países muçulmanos).

E já que mencionamos o Brasil, convém refletir um pouco sobre a situação com a qual temos de lidar por aqui.

. . . . . . .

Um bom retrato do atual cenário político, contaminado pela hipertrofia religiosa, está no livro Em nome de quem? A bancada evangélica e seu projeto de poder, de Andrea Dip .

Publicado este ano, Em nome de quem? é resultado de uma extensa reportagem (a autora integra a equipe da Agência Pública), acrescida de entrevistas e depoimentos. E foi num destes, o do professor e psicanalista Marco Fernandes, que encontrei uma boa explicação para o crescimento e a força das igrejas neopentecostais entre a população de baixa renda:

"O Pentecostalismo surge na favela" - diz ele - "e já nasce com uma tecnologia religiosa que funciona para as classes populares. As pessoas encontram ali um pronto-socorro de saúde mental. Quantas vezes eu ouvi: 'Ah, eu estava mal, entrei na igrejinha da esquina e melhorei!' [Na sociedade atual] Você não tem espaço para ser acolhido, para ter um suporte, escuta, alegria, beleza. E mais: a vida está tão caótica, precarizada, que é impossível as pessoas não terem desejo de ter uma ordem na vida. Algo que centralize, que organize, que ordene. Evidentemente, com isso vem um pacote de conservadorismos. Mas eu costumo dizer que essas igrejas instituem um 'micro-Estado precário de bem-estar social' ".

Embora, a meu ver, esses "pronto-socorros de saúde mental" acabarão, no médio e longo prazos, comprometendo a capacidade de pensar dos indivíduos e a "ordem" defendida pela fé costuma ser tão ou mais hipócrita e ilusória do que outros modelos de "ordem", consigo ver claramente como ir à(s) igreja(s) evangélica(s) local(is) - bem mais "dinâmica(s)", sem aquele ritmo fossilizado do catolicismo - torna-se quase irresistível para o pobre. E isto é crucial: os frequentadores desses espaços, de fato (como a maioria das pessoas, crentes ou não, deve-se admitir), buscam alguém que os escute (e não serei maldoso dizendo que, para isso, basta que eles não se esqueçam de colocar o dinheiro na sacolinha...)

Fernandes também

"acredita que outros fatores entrem nessa equação, como a falta de espaços de cultura e lazer nas comunidades: 'Certa vez, uma amiga disse que a irmã passou a frequentar a Igreja Universal perto da casa delas. Indignada, ela foi perguntar à irmã por que estava indo naquele lugar; disse que eram pilantras, enganavam as pessoas, tiravam dinheiro do povo. A irmã então respondeu: você acha que não sei disso? Mas aqui, aos domingos, não tem nada para fazer. Eu não aguento mais ficar em casa assistindo ao Faustão. Na igreja, eu encontro gente, canto, faço amizade, é uma festa! Lá ainda tem as irmãs que olham meu filho, eu vou mesmo!' Você imagina a quantidade de gente que vai pela primeira vez à igreja por causa disso?"

Contudo, o trabalho desses estabelecimentos e de seus líderes e acólitos não se restringe a fornecer (questionáveis) apoio e entretenimento espirituais.

"No Congresso Nacional brasileiro" - escreve Andrea Dip -, "a tendência seguiu esse aumento [de evangélicos entre a população]: a antropóloga da UFF Christina Vital diz que existem hoje entre oitenta e noventa parlamentares evangélicos vinculados à FPE [Frente Parlamentar Evangélica] (o número varia devido aos suplentes), mais do que o dobro de quando foi criada em 2003. O número de pastores candidatos também cresceu: 'Nós tivemos uma situação singular nesse pleito, com 40% mais pastores se candidatando em 2014', aponta".

Quando atualizamos pelo menos um desses dados (uma vez que o livro foi publicado antes do resultado das eleições deste ano), vemos que a defasagem é insignificante: após outubro, a Frente Parlamentar Evangélica chegou a 91 integrantes (a chamada Bancada Evangélica ou Bancada da Bíblia é ainda mais numerosa, pois inclui outros deputados e senadores não vinculados formalmente à FPE, mas que quase sempre defendem a mesma agenda). Isso sem mencionar o grande número de vereadores em centenas de municípios, além de titulares do executivo (bem como seus secretários/ministros), alçados aos respectivos cargos públicos graças, parcial ou inteiramente, a ostensiva exibição de suas crenças religiosas (genuínas ou postiças, vale acrescentar) percebidas como "as corretas" pelo eleitorado que as compartilha.  Não tenho dúvida de que se trata de um projeto de poder.

Alguém pode perguntar: Mas qual o problema de haver representantes desse segmento religioso na política institucional, já que, afinal de contas, de acordo com dados do último censo do IBGE, os evangélicos são quase 1/4 da população brasileira? Foram eleitos democraticamente, não seriam legítimos?

Apresento, então, duas objeções à atuação dessa categoria de políticos: o menosprezo deles em relação ao princípio da laicidade do Estado e a incapacidade deles de compreender que a democracia, se autêntica, deve procurar conjugar, da melhor forma possível, os interesses da maioria com as reivindicações das minorias.

O princípio do Estado laico é basilar para o regime democrático (clique aqui para uma definição bem didática do conceito de Estado laico). Muitas pessoas religiosas não entendem que só a defesa desse princípio proporciona a liberdade de credo religioso para todos (e, claro, a liberdade de não ter credo algum). Se a laicidade fosse levada a sério por aqui, praticantes do candomblé e umbandistas, por exemplo, poderiam ser atendidos com respeito pelas autoridades policiais quando fossem denunciar a destruição de seus terreiros e de seus objetos sagrados por parte de bandidos alegadamente evangélicos. Caso o Estado brasileiro prezasse a laicidade, o incitamento ao ódio pelas religiões de matriz africana promovidos frequentemente nos programas religiosos evangélicos que inundam a TV aberta seria coibido, por exemplo. Por falar nisso, os canais de TV, bem como as estações de rádio, são concessões públicas e, pelo menos em parte, deveriam atender os interesses da população. Em que sentido as várias horas diárias de proselitismo evangélico em algumas emissoras atendem a esses interesses? A democracia também sofre um abalo tremendo quando a pauta religiosa, ignorando o dever do agente público com a manutenção da laicidade, atenta contra direitos individuais. Portanto, sem meias-palavras, oponho-me a presença de indivíduos que, no legislativo e no executivo, concedem maior importância às suas crenças religiosas particulares do que ao princípio do Estado laico.

O entendimento de que uma democracia digna desse nome não pode permitir o atropelamento de demandas das minorias em razão da suposta vontade da maioria é outro preceito fundamental para relações políticas civilizadas (a esse respeito, recomendo a leitura do ótimo artigo da professora Maíra Zapater). Mas a quase totalidade dos parlamentares alinhados na Bancada da Bíblia não dão a mínima para isso. Sua visão arraigadamente fundamentalista inviabiliza até mesmo o simples debate de propostas. E fico me perguntando onde vamos parar.

Na introdução de Em nome de quem?, a jornalista Andrea Dip observa que uma onda reacionária vem se alastrando pelo mundo, ameaçando "direitos, pensamento crítico e pluralidade de ideias", com os discursos de ódio sendo despudoradamente despejados no espaço público. Para Dip, essa onda reacionária adquire "características próprias" no Brasil:

"Uma delas vem da aproximação entre uma direita orgulhosa de si e a Igreja Evangélica, unidas pelo medo de um inimigo que vem para 'destruir a família tradicional', os 'valores cristãos', o status quo e que, por vezes, sem lastro na realidade, toma rosto no comunismo, no feminismo, no movimento negro, na comunidade LGBTQ e em qualquer participação social que peça por igualdade de direitos e por discussão mais profunda sobre seus papéis na sociedade".
Numa democracia saudável, devemos nos esforçar pelo entendimento, pela tentativa de construção de pactos e do estabelecimento de acordos. Mas se o reacionarismo avançar, é preciso contra-atacar. Sem pestanejar. Por mais conformista e frouxo que seja, não estou disposto a aceitar quietamente as ações cada vez mais escancaradas de controle e dominação política efetuadas por religiosos, até porque, caso seu projeto de poder seja bem-sucedido, pode colocar em risco o tipo de existência que defendo.

É como aquela frase vista por aí em alguns muros e perfis das mídias sociais: "Se fere minha existência, serei resistência".
__________
¹ KING, Stephen. O nevoeiro. In: ___________. Tripulação de esqueletos. 2 ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013. p. 20-167

² HITCHENS, Chistopher. Deus não é grande: como a religião envenena tudo. 2 ed. São Paulo: Globo Livros, 2016 [Tradução de George Schlesinger]

³ Mais uma vez, reproduzo aqui a mesma explicação dada em outras postagens, para evitar mal-entendidos:  quando uso o termo crente tenho em mente o seguinte significado: "aquele que acredita  em uma (ou várias) divindade(s)", em oposição ao termo descrente ou, simplesmente, ateu ("aquele que não acredita em nenhuma"). Assim, crente, neste contexto, designa todos os que acreditam em Deus, independentemente da denominação religiosa pela qual têm afinidade ou da qual fazem parte.

DIP, Andrea. Em nome de quem? A bancada evangélica e seu projeto de poder. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018.

BG de Hoje

Os veteranos do FAITH NO MORE provando por que nunca deixaram de ser uma das bandas mais bacanas das últimas três décadas: Separation Anxiety.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

"Porque a sabedoria serve de defesa..."



Em fevereiro deste ano, Vilma Trujillo, 25 anos de idade e mãe de dois filhos, foi amarrada e jogada numa fogueira. Isso aconteceu em El Cortezal, no norte da Nicarágua. Ela morreu com 80% do corpo queimado. Um grupo de fiéis da igreja Visão Celestial das Assembleias de Deus cometeu o crime, liderados por um pastor evangélico chamado Juan Rocha e por ordem da diaconisa Esneyda Orozco. Rocha negou ter atirado a vítima no fogo. Disse que ela caiu lá quando "o espírito do demônio saiu do corpo dela".

Vilma Trujillo frequentava essa igreja. Por causa de um incidente no qual, alega-se, Vilma teria usado um facão ameaçadoramente, os outros membros acreditaram ser um caso de possessão. O marido da vítima, sem envolvimento com o crime, achava que a esposa tinha sido alvo de "bruxaria". Grupos que lutam pelos direitos das mulheres na Nicarágua consideraram esse horrendo episódio um exemplo de misoginia e fanatismo (confira a notícia da BBC sobre esse caso).

Noutra parte do mundo, em Banda Aceh (Indonésia), dois homens receberam como punição 83 vergastadas (além de dois meses na cadeia) apenas porque, de forma consensual, fizeram sexo um com o outro. Vizinhos invadiram o apartamento onde eles estavam, filmaram-nos através de celulares e postaram nas mídias sociais. A execução do castigo, ocorrida há menos de duas semanas, foi pública e em frente a uma mesquita da cidade. Uma turba compareceu para assistir a flagelação imposta, que também seria aplicada a outros quatro casais (heterossexuais, dessa vez) por manterem relações extraconjugais, o que também contraria a lei islâmica local (confira a matéria da CNN sobre esse caso).

Como se vê, tudo isso aconteceu não na Idade Média, mas neste século XXI, nesta autoproclamada "era da informação e do conhecimento". Nos dois casos, como em milhares de outros mundo afora, a torpeza busca justificação na religião. Estarrece saber que o açoitamento impingido aos dois jovens indonésios foi executado pelo poder público; revolta saber que uma mulher foi assassinada barbaramente pelo fanatismo resultante da manipulação exercida por indivíduos supostamente a serviço de uma potestade sobrenatural altamente improvável.

Todo esse fervor religioso punitivo, carregado de ignorância e violência, verificado no vilarejo da América Central e na cidade asiática, não surgiu espontaneamente. Convém notar que tanto a Indonésia quanto a Nicarágua não são nações conhecidas pelo seu estágio de desenvolvimento econômico, nem pelo bem-estar proporcionado a seus habitantes ou muito menos pela excelência de seu sistema educacional. Pelo contrário. Entre os 188 países nos quais o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) é medido, a Indonésia ocupa a 113ª colocação, enquanto a Nicarágua está em 124º lugar (o Brasil, terra da desigualdade, onde poucos têm demais e muitos têm quase nada, é o 79º). Em qualquer fonte que se consulte - Fundo Monetário Internacional, Banco Mundial, ONU -, vê-se que tanto Indonésia quanto Nicarágua não estão entre os 100 países com maior renda per capita. E, de acordo com os dados do PISA (Programme for International Student Assessment), a Indonésia (junto com o Brasil, vale dizer) figura entre as 10 nações mais mal avaliadas (a Nicarágua não está incluída entre os 72 países analisados por essa entidade).

Áreas pobres (sejam estas pequenos logradouros ou até mesmo países inteiros), negligenciadas pelo Estado, cuja população recebeu (e continua recebendo) educação formal precária (isso quando recebe), são ambiente propício para que os indivíduos se apeguem ferrenhamente ao sobrenatural e mantenham crenças delirantes. Não preciso dizer que um ambiente assim atrai todo tipo de aproveitador e vigarista.

. . . . . . .

"As pessoas vão à igreja pelos mesmos motivos que vão à taverna: para estupefazerem-se, para esquecerem-se de sua miséria, para imaginarem-se, de algum modo, livres e felizes. Não há nada tão estúpido como a inteligência orgulhosa de si mesma".

Quem disse isso foi o pensador anarquista Mikhail Bakunin. Concordo com ele. A taverna (que podemos chamar simplesmente de "bar", sem prejuízo de sentido) é o lugar "onde tantos iguais se reúnem contando mentiras pra poder suportar", como escreveu Aldir Blanc na letra de O rancho da goiabada, uma das muitas parcerias geniais com João Bosco. Por sua vez, a igreja, sem fornecer evidência alguma do que promete, precisa o tempo todo reiterar que há algum tipo de recompensa reservada ao fiel (mormente, no pós-morte) e que, portanto, essa vida terrena, mundana e ordinária, pouco ou nada significa e deve-se sempre esperar pela bem-aventurança do paraíso (pensando bem, a chamada "teologia da prosperidade" fala o tempo todo de prêmios ainda nessa vida).

Para Bakunin, a igreja e o bar (ou a taverna, se preferir) são lugares de conformismo e autoilusão. Não são a melhor saída quando se trata de encarar a realidade, sobretudo se for o caso de querer mudá-la.

Não sem uma tremenda carga de vergonha, este blogueiro deve confessar que é dado a frequentar bares (justamente para escapar da realidade de vez em quando por meio da embriaguez), embora hoje um pouco menos - por causa da idade e das agruras financeiras. Há diversas biroscas espalhadas no bairro em que moro. É um lugar pobre. E, como sabemos, cachaça é uma mercadoria sempre procurada nas periferias.

Pobre também é o bairro onde trabalho atualmente (certos eufemismos me dão nos nervos; por isso prefiro usar o adjetivo pobre mesmo e não a locução "com alta vulnerabilidade social"). Lá também há muitos botequins. Suspeito, todavia, que o número de igrejas seja ainda maior. Apenas na avenida principal - e apenas no trecho que percorro dentro do ônibus até desembarcar - contei 14 unidades, duas católicas e as demais evangélicas. Pelo menos quatro dessas nunca vi de portas abertas (pode ser que tenham encerrado as atividades). É razoável supor que existam outras mais espalhadas em ruas e vias secundárias (é também o caso de especular: será que os crentes ¹ moradores desse bairro, como os de vários outros bairros similares pelo Brasil, nunca se perguntam: "com tantas casas de oração, devotadas à adoração do ser supremo, por que essa região não recebe maior proteção e auxílio divinos, pelo menos do ponto de vista socioeconômico e da segurança pública?").

Das igrejas evangélicas existentes lá apenas uma, das que vi, é "franquia" de uma "grande rede": há uma unidade da Igreja Mundial do Poder de Deus (aquela mesma, liderada por aquele "apóstolo" que chora na TV e, com a cara mais lavada do mundo, pede doações de R$ 1.000,00, além de vender meias e tijolinhos ungidos a R$153,00 e R$200,00, respectivamente). Os outros locais de culto são, digamos, mais autônomos e simples, mas não menos barulhentos, como se pode facilmente perceber ao passar em frente a eles. Todos esses estabelecimentos têm em comum o mesmo tipo de público ²: pessoas pobres, humildes, iletradas, extremamente crédulas ou desejosas de se livrar de uma situação de angústia/abuso - prato cheio para trapaceiros que agem em nome de Deus.

Mas os problemas do mundo real exigem soluções do mundo real, por mais que a fala da religião e da crença no sobrenatural soe consoladora e agradável aos ouvidos. A cachaça também alivia e entorpece o desespero, mas não resolve nada, como constato toda vez, desgostosamente, na ressaca da manhã seguinte.

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Em 1999, o físico (e ganhador do prêmio Nobel) Steven Weinberg disse, numa conferência da Associação Americana para o Progresso da Ciência: "Religion is an insult to human dignity. With or without it you would have good people doing good things and evil people doing evil things. But for good people to do evil things, that takes religion" [A religião é um insulto à dignidade humana. Com ou sem ela, você teria pessoas boas fazendo coisas boas e pessoas más fazendo coisas más. Mas para pessoas boas fazerem coisas más, é necessário religião].

Mais tarde, num artigo baseado nessa conferência (disponível aqui), Weinberg modificou um pouco o que disse anteriormente, mas a essência permaneceu a mesma: "With or without religion, good people can behave well and bad people can do evil; but for good people to do evil - that takes religion" [Com ou sem religião, pessoas boas podem se comportar bem e pessoas más podem fazer o mal; mas para que pessoas boas façam o mal - é necessário religião].

Quando alguém acredita estar agindo em nome de Deus (ou Jesus, ou Alá, etc.) será muito difícil (talvez até impossível) convencê-lo de que algumas de suas ações não estão promovendo bem algum; pelo contrário, seriam maléficas. Em abril passado um estudante paquistanês foi torturado e morto dentro de uma universidade daquele país simplesmente por ter colocado no Facebook um conteúdo considerado ofensivo ao Islã. Aposto que os assassinos julgavam-se muçulmanos corretos e zelosos. Arrisco dizer também que muitos dos soldados de infantaria, lutando nas Cruzadas em nome da cristandade (e beneficiando exclusivamente seus suseranos), acreditavam realmente estar protegendo a "Terra Santa" quando matavam seus "inimigos" de outra religião. Mas não é apenas gente crédula e simplória que é levada a praticar o mal quando pensa estar "combatendo o bom combate". Pessoas religiosas inteligentes - às vezes com altos níveis de escolaridade, mas, paradoxalmente, dogmáticas e obscurantistas ao extremo - frequentemente recorrem à sua fé (algo particular, pessoal, que deveria dizer respeito apenas ao indivíduo) para impedir mudanças e avanços sociais, bem como colocar entraves indesejáveis à prática científica. E mesmo quando não agem pessoalmente, permitem que outros o façam com seu beneplácito.

Existe, no Congresso brasileiro, uma proposta de emenda constitucional (PEC 29/2015), de autoria do senador Magno Malta (integrante da popularmente conhecida Bancada da Bíblia), intencionando alterar o artigo 5º da Constituição Federal e fazendo com que o direito à vida seja inviolável desde a concepção. Como observou Lola Aronovich em seu blog, caso essa PEC seja aprovada, na prática ela

"Significa principalmente que qualquer intervenção para interromper a gravidez será vista como crime. Adeus pílula do dia seguinte, adeus aos três únicos casos em que o aborto é permitido no Brasil (quando a gravidez decorre de um estupro, quando apresenta risco de vida à gestante, e em casos de fetos com anencefalia), adeus aborto legal.
O Brasil já é um dos países mais restritivos do mundo em relação ao aborto, o que faz com que milhares de mulheres morram todos os anos, em consequência do aborto clandestino.
 
Se a PEC 29/2015 passar, abre as portas para que o país entre na lista das nações mais atrasadas, aquelas que proíbem o aborto em todos os casos. E automaticamente coloca as mulheres que sofrem aborto natural como suspeitas.
Tem mais: uma vez aprovada esta PEC, o 'direito à vida' pode ser usado para barrar outras coisinhas também, como inseminação artificial (em que montes de embriões excedentários são descartados) e pesquisas com células tronco embrionárias".
Esse mesmo senador e outros parlamentares da Bancada da Bíblia são também agressivos defensores do movimento denominado "Escola Sem Partido", cujo objetivo é impedir a discussão, dentro das instituições de ensino, de assuntos ligados às questões de gênero e à diversidade sexual, à temática étnico-racial, bem como impedir professoras e professores de falar de temas considerados, pelo movimento, como sendo "doutrinação ideológica" (acertadamente, os opositores do "Escola Sem Partido" - como este blogueiro - chamam essa sandice de "Escola da Mordaça"). Ações como essas, não tenho dúvida, revelam que as religiões e suas organizações, além de desprezarem o princípio republicano da laicidade, não abrirão mão da sua ânsia de controle e poder.

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O biólogo Richard Dawkins, em seu famoso livro Deus, um delírio ³, observa que

"A religião fundamentalista está determinada a arruinar a educação científica de inúmeros milhares de mentes jovens, inocentes e bem-intencionadas. A religião não fundamentalista, 'sensata', pode não estar fazendo isso. Mas está tornando o mundo seguro para o fundamentalismo ao ensinar a crianças, desde muito cedo, que a fé inquestionável é uma virtude".

Por que a religião e a crença no sobrenatural não podem ser objeto de crítica quando tudo o mais, nas sociedades democráticas, é passível de questionamento? Por que deve-se ter uma especial deferência com instituições, práticas e credos perfeitamente dispensáveis para o bem-estar de uma parte significativa dos seres humanos (e isso não se restringe apenas aos ateus)?

Todos estamos de acordo que as pessoas têm o direito de acreditar no que quiserem, participar das cerimônias e seguir a liturgia que mais lhes aprouver. Entretanto não somos todos obrigados a manifestar uma circunspecção mais rigorosa ou um respeito mais ostensivo (leia-se aceitação sem crítica) pelos credos e ritos religiosos do que o recomendado pela convivência civilizada. Reitero: a fé é algo pessoal, diz respeito apenas ao indivíduo que a professa - para o restante das pessoas, não aderentes à religião em questão (ou a qualquer religião, caso dos ateus), sua relevância é ínfima.

Viveríamos, penso eu, num mundo menos embrutecido se todos os crentes (no sentido amplo, veja nota no fim da postagem) fossem do tipo sensato. Contudo, figuras como Marco Feliciano, Silas Malafaia, Edir Macedo, extremistas muçulmanos, judeus ortodoxos radicais - ou seja, os reconhecidamente imoderados - são numerosos e muito influentes. Não tenho dúvida de que o sustentáculo dos fundamentalistas, em última análise, acaba sendo, infelizmente, a religião dita sensata. Ao ser costumeiramente refratária à crítica e ao questionamento, a fé muitas vezes enseja a intolerância, a prostração da reflexão e uma visão de mundo simplista e maniqueísta.

Religiões, penso eu, estão muito longe de ser inofensivas. Concordo com o ensaísta Christopher Hitchens quando este escreve que

"Muitas religiões agora se apresentam diante de nós com sorrisinhos insinuantes e mãos estendidas, como um comerciante pegajoso num bazar. Oferecem consolo, solidariedade e elevação, competindo como estão num mercado. Mas nós temos o direito de lembrar como se comportaram barbaramente quando eram fortes e faziam ofertas que as pessoas não podiam recusar [o autor tem em mente aqui, claro, o atual cenário verificado na Europa ocidental; na América Latina e noutras partes do mundo, para nossa miséria, religiões ainda são bastante atuantes politicamente]. E se por acaso nos esquecemos de como era isso, basta olhar os Estados e as sociedades onde o clero ainda tem o poder de ditar seus termos. Os patéticos vestígios podem ainda ser vistos, em sociedades modernas, nos esforços feitos pela religião para assegurar o controle sobre a educação, ou de se eximir de impostos, ou de adotar leis que proíbem as pessoas de insultar a onipresente e onisciente divindade, ou mesmo seu profeta".

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O título desta postagem foi retirado do Eclesiastes (capítulo 7, versículo 12): "Porque a sabedoria serve de defesa, como de defesa serve o dinheiro; mas a excelência da sabedoria é que ela preserva a vida de quem a possui". Como já escrevi aqui no blog noutra ocasião,  na Bíblia é possível encontrar, sendo um livro tão extenso e muitas vezes incoerente, passagens que ilustram e sancionam qualquer afirmativa que se queira fazer. O próprio livro de Eclesiastes enaltece a sabedoria - "[...] a sabedoria é mais excelente que a estultícia, quanto a luz é mais excelente do que as trevas" ou "A sabedoria fortalece ao sábio mais do que dez governadores que haja na cidade" - para, noutros versículos, considerá-la apenas como vaidade e recomendar que o indivíduo não seja demasiadamente sábio...

De todo modo - e embora não tenha pela Bíblia nenhum apreço ou consideração especial além do interesse literário - não acho nada mal a recomendação de que a sabedoria é uma forma de defesa. Defesa contra aproveitadores, hipócritas, fanáticos e canalhas de toda espécie, muitos dos quais estão confortavelmente domiciliados na religião e na crença no sobrenatural.

Contra eles, precisamos tentar ser, antes de tudo, sábios e não religiosos.

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¹ Sempre é bom reiterar: quando uso o termo crente tenho em mente o seguinte significado: "aquele que acredita numa divindade", em oposição ao termo descrente ou, simplesmente, ateu ("aquele que não acredita em nenhuma"). Assim, crente, neste contexto, designa todos os que acreditam em Deus, independentemente da denominação religiosa pela qual têm afinidade  ou da qual fazem parte.

² Mas essas características não são exclusividade apenas dos evangélicos - ou, mais especificamente, dos neopentecostais.

³ DAWKINS, Richard. Deus, um delírio. São Paulo: Companhia das Letras, 2007 [Tradução de Fernanda Ravagnani]

HITCHENS, Christopher. Deus não é grande: como a religião envenena tudo. 2 ed. São Paulo: Globo, 2016 [Tradução de George Schlesinger]

BG de Hoje

Um dos discos mais marcantes da história recente do rock - OK Computer, do RADIOHEAD - completa 20 anos de lançamento. É um álbum que leva um certo tempo pra ser verdadeiramente apreciado (pelo menos comigo foi assim). Minhas faixas prediletas hoje são Lucky (que inclusive já foi BG noutra postagem) e Let down, mas foi por causa de Karma Police (junto com seu clipe fascinantemente estranho) que comprei o CD em 1997.