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sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Histórias, narrativas e discursos (I)

"Mas as histórias, mesmo as melhores e mais verídicas, não podem nos salvar de nossa loucura. As histórias não podem nos proteger do sofrimento e do erro, de catástrofes naturais ou humanas, de nossa própria cobiça suicida. O máximo que podem é, por vezes e por razões impossíveis de prever, fazer com que percebamos essa loucura e essa cobiça e voltemos um olhar vigilante para nossas tecnologias cada vez mais perfeitas. As histórias podem nos oferecer consolo para nosso sofrimento e nomes para nossa experiência. As histórias podem nos dizer quem somos, o que são essas ampulhetas pelas quais passamos, como podem nos ajudar a imaginar um futuro em que, sem finais felizes e confortáveis, possamos continuar vivos e juntos nesta terra tão devastada".

 Alberto Manguel - A cidade das palavras 

 

Costumava contar histórias no trabalho.

Isso terminou em 2019.

A prefeitura do município - a empregadora - extinguiu o cargo que eu ocupava e criou um outro, praticamente me obrigando a ir cumprir tarefas num setor cujas incumbências em quase nada se assemelham às funções que vinha exercendo há mais de 20 anos. Toda uma experiência de prestação de serviço depreciada por uma decisão administrativa, a meu ver, discutível... 

Fazer o quê?

Nunca fui um contador de histórias especialmente talentoso, mas também não era dos piores. Comecei no ano 2000, animado por um Curso de Formação de Mediadores de Leitura, da Fundação Abrinq (mencionei-o aqui).

Pode ser um purismo desnecessário, mas penso que se deve fazer uma distinção. Em certas ocasiões, não me preocupava nem um pouco em reproduzir ipsis litteris o texto-base: achava melhor incluir variações ou "cacos", para me aproximar da espontaneidade da fala. Os contos infantis Tampinha (de Angela Lago) e Rumpelstiltskin (compilado pelos Irmãos Grimm), entre vários outros, eram alguns dos que cabiam melhor na estratégia. Nesse caso, então, preferia dizer que estava contando uma história. Noutros momentos, pensava que o mais acertado era oferecer os textos-base sem alterações. Tratava-se de uma leitura direta (com uns toques teatrais) dos livros que continham as histórias. Este admirável mundo louco (Ruth Rocha), Os pestes (Roald Dahl) e A fogueira (Jack London) são algumas das muitas que já apresentei dessa forma (a última teve recepção surpreendentemente positiva em turmas da educação de jovens e adultos com as quais trabalhei). Nessas vezes, gostava de dizer que estava narrando uma história.

Tanto o contar quanto o narrar histórias têm seus préstimos. Creio que ambas as ações contribuem para um aprendizado da escuta - essa faculdade tão rara de se achar em pessoas de qualquer idade. Além disso, falando especificamente do narrar, estou entre aqueles que acredita ser fundamental ler textos em voz alta para outras pessoas, sobretudo para aquelas que não têm uma grande bagagem literária e não percebem como o ritmo da leitura, as inflexões na voz (mesmo aquela "voz interna" que muitos de nós empregamos quando lemos silenciosamente) ou a observação correta da pontuação são muito relevantes para o entendimento daquilo que se comunica por escrito.

Não faço ideia de como se deu o processo que levou os humanos, lá no Paleolítico, a iniciarem o desenvolvimento de algo tão magnífico como a linguagem verbal articulada. E o que considero ainda mais prodigioso: como foi que evoluíram a ponto de serem capazes não só de comunicar necessidades imediatas e dar orientações práticas, mas de expressar abstrações e criar metáforas, imaginar personagens e enredos, usar as palavras para jogar com as noções de passado e de futuro apenas pelo prazer de contar histórias e compor ficções?

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Dos mitos cosmogônicos às fanfics, da epopeia de Gilgamesh às teorias da conspiração, do Dom Quixote aos RPGs (role-playing games), o fato é que os agrupamentos humanos sempre demandaram histórias.

Aedos, rapsodos, menestréis, trovadores, griots, poetas, romancistas, dramaturgos, roteiristas. Seja na forma oral ou usando o cálamo, a pena, a caneta, o teclado, sempre haverá pessoas dispostas a difundir narrativas nascidas da fabulação e da invencionice.

Mas os sentidos de termos como história e narrativa parecem-me um pouco amesquinhados hoje em dia, tal como os vejo sendo usados no meio empresarial, no marketing, no jornalismo e na política profissional/institucional.

Pretendo explicar isso melhor na próxima postagem e também sugerir que passemos a falar mais a palavra discurso no dia-a-dia.

BG de Hoje

Posso estar puto, triste, mas basta eu ouvir Colors, do BLACK PUMAS, e o mundo deixa de ser a desgraça que é (pelo menos nos minutos que dura a canção). Eric Burton canta demais e o Adrian Quesada... bem, escutem o solo dele no vídeo abaixo. Há poucas semanas, o projeto PLAYING FOR CHANGE também fez sua versão de Colors, com participação não só de Burton e Quesada, mas também do Slash.

 


segunda-feira, 1 de outubro de 2018

A "hora milagrosa" nunca chegará



Já ouviu falar do Forte Bastiani, eventual leitor(a)?

Trata-se de uma "grande fortaleza, exemplo típico de engenharia militar, que guarda a única passagem entre o deserto dos tártaros e as encostas meridionais da cadeia de montanhas escarpada e ininterrupta que marca a fronteira entre os estados do Norte e os do Sul de um país sem nome", de acordo com o Dicionário de lugares imaginários, de Alberto Manguel e Gianni Guadalupi (Editora Companhia das Letras, 2003)

O Forte Bastiani, entretanto, tem um alcance simbólico bem maior - pelo menos na visão deste blogueiro e de outros milhares de leitores devotos deste livro sublime chamado O deserto dos tártaros (sobre o qual, aliás, já escrevi anteriormente, de forma breve, aqui no blog).

Já que mencionei Alberto Manguel poucas linhas acima, devo dizer que o ensaísta argentino-canadense é um desses leitores devotos do romance de Dino Buzzati, publicado pela primeira vez em 1940.

O forte, escreveu Manguel em Os livros e os dias ¹,  é "um lugar que parece impossível de deixar, mas também impossível de alcançar, tão ancorado em sua própria rotina que nada que venha do exterior pode atingi-lo".

Rotina... Até certa idade, pouca ou nenhuma atenção damos a essa palavra; não refletimos sobre o real significado dela, suas implicações. Como disse, só até certa idade. À medida que se envelhece, a maior parte de nós - cuja vida se resume a subsistir dentro das condições que nos são apresentadas e nada além disso - passa a compreender que uma porcentagem grande de nosso "ser no mundo" não passa de um amontoado de hábitos. Há um capítulo magistral em O deserto dos tártaros (o décimo), em que o narrador vai enumerando as "míseras coisas" que foram suficientes para amoldar o protagonista, tenente Giovanni Drogo, "ao monótono ritmo do serviço" ². Buzzati, habilidosamente, repete a palavra hábito(s) entre as primeiras frases de seis parágrafos seguidos no capítulo X, levando o leitor a captar o "torpor" no qual se encontrava Drogo, já impregnado com "o amor doméstico pelos muros cotidianos", em apenas quatro meses de trabalho no forte. O militar, sonhando com atos guerreiros e heroicos, reduz-se a um burocrata.

Se o(a) eventual leitor(a) me permitir, desejo fazer uma digressão.

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Escrito na forma de diário, Os livros e os dias revela um pouco do que sentia Alberto Manguel no momento do registro, além de mostrar que nossas leituras são sempre influenciadas pelo contexto circundante, pelo momento histórico em que se está vivendo. Por exemplo, na parte referente a O deserto dos tártaros, Manguel encontrava-se em St. John's, cidade da ilha de Newfoundland (Canadá), entre o finalzinho de 2002 e as primeiras semanas de fevereiro de 2003. O mundo estava apreensivo com a possibilidade da invasão do Iraque por tropas norte-americanas e britânicas - o que acabou acontecendo daí a um mês. Por isso, o ensaísta anota: "A guerra iminente não tem nada de heroico; sabemos que os motivos que conduzem as forças anglo-americanas são menos humanitários que financeiros", acrescentando logo em seguida:

"Na história de Buzzati, por outro lado, o trágico sentimento de absurdo que subjuga o leitor brota em grande parte da completa futilidade da empresa heroica. Nenhuma razão humanitária ou financeira pode ser invocada. A fronteira não apresenta nenhum problema, o deserto dos tártaros não viu nenhum tártaro até onde a memória alcança, os heróis nunca têm a chance de ser heroicos".

E então Manguel cita um trecho do segundo capítulo, quando Drogo, encaminhando-se, muito jovem ainda, para servir no forte Bastiani pela primeira vez, conversa com o capitão Ortiz, a quem encontrara por acaso na estrada:

"- Então o forte nunca serviu para nada? 
- Para nada - disse o capitão".

Eu também, nessa minha última leitura de O deserto dos tártaros, acabei influenciado pela conjuntura à qual estou sujeito.

No Brasil (e acredito que em vários outros países), membros das forças armadas, embora sejam agentes públicos, sobem nas tamancas quando comparados a outros servidores do Estado, a despeito do fato de que os vencimentos dos primeiros sejam pagos pelo erário, assim como acontece com os salários dos últimos. Um melindre que acarreta problemas, como estamos carecas de saber... Das funções atribuídas às forças armadas, a mais notória é defender a pátria, usualmente interpretado como proteger a nação de investidas provenientes de inimigos/agressores externos. Entretanto, quando não há necessidade dessa defesa, quando não se veem os invasores no horizonte,  quando os tártaros não vêm, o que esperar dos militares? Como devem se comportar?

A associação entre herói e soldado é, a meu ver, bastante discutível. Digo isso não só pelos vários crimes de guerra cometidos ao longo da história, mas porque a própria ideia de guerra em si não me predispõe a vinculá-la, automaticamente, ao heroísmo ³. De todo modo, soldados existem para guerrear. Mas vejamos a situação nas dezenas de nações pelo mundo afora que - felizmente, aliás - não têm invasores (refiro-me a outros exércitos) para combater. O Brasil, por exemplo. Seus militares, sobretudo oficiais, não acabam se convertendo em meros burocratas, aferrolhados a regulamentos, códigos e regras incompreensíveis para os "paisanos", tal como os personagens dentro do forte Bastiani? Há uma passagem no capítulo XIV de O desertos dos tártaros que vai bem ao encontro do que estou querendo dizer.

O comandante do forte, coronel Filimore, acaba de saber que a movimentação ocorrida no outro lado da fronteira é apenas um trabalho topográfico da parte do reino do Norte e não uma ameaça como chegaram a crer alguns de seus subordinados (e ele mesmo quase foi tomado pela esperança de entrar em combate, agir como guerreiro e tornar-se "herói"). Leiamos o último parágrafo do capítulo XIV:

"A mosca esvoaçava pela sala, a bandeira em cima do telhado do forte se afrouxara, o coronel falava em disciplina e regulamentos, na planície do norte avançavam fileiras de soldados, não mais inimigos ávidos de batalha, mas soldados inócuos como eles, não impelidos ao extermínio, porém enviados numa operação cadastral, e seus fuzis estavam descarregados, as adagas, sem fio. Pela planície do norte abaixo alastra-se aquele inofensivo simulacro de exército, e no forte tudo se estagna de novo no ritmo dos dias de sempre".

Penso que muitos militares (e aqui tenho em mente sobretudo o caso brasileiro) nunca encontraram (e nunca encontrarão) "inimigos ávidos de batalha". São "soldados inócuos". Por isso - e este é o grande perigo - podem acabar inventando adversários dentro do próprio país. E já que, na visão deles, trata-se de oponentes propensos à beligerância, precisam ser exterminados, pois é o que as forças armadas fazem: entram em guerra com o inimigo, buscando aniquilá-lo. Já foi assim durante a ditadura militar iniciada com o golpe de 1964. E nada garante que, a depender do resultado das eleições neste domingo (e seus desdobramentos), não volte a ser. Quem serão agora os indivíduos e grupos tachados como inimigos? Membros da sociedade civil - cidadãos e cidadãs cujas visões de mundo e ideário sejam distintos do que apregoa o mandatário de plantão - correm risco? Confesso que tenho muito receio e não estou tranquilo.

Voltemos, porém, à discussão do romance de Dino Buzzati.

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Há um personagem secundário em O deserto dos tártaros que nunca me sai da cabeça, malgrado sua insignificância. Falo do alfaiate Prosdocimo.

Ele é cheio de si, dá-se muita importância, mas vive nos porões do forte, esquecido. Afirma estar lá apenas em "caráter ab-so-lu-ta-men-te pro-vi-só-rio". E já faz 15 anos...

Prosdocimo representa, penso eu, a tendência negativa que muitos têm para se acomodar (sendo este blogueiro um desses muitos). O personagem aparece pela primeira vez no capítulo VII. Trabalha numa oficina, acompanhado de um velhinho (seu irmão) e mais três ajudantes (que riem dele disfarçadamente). Giovanni Drogo procura-o para encomendar uma capa. Ambos iniciam uma conversa, mas logo o alfaiate do regimento é chamado e sai. Nesse momento, o velhinho se aproxima de Drogo e faz um alerta: não fique no forte, saia enquanto é tempo, não faça como os outros, a esperar um evento que nunca acontece.

É quando o (então) jovem protagonista começa a dar-se conta de uma das maiores ilusões a vigorar no forte Bastiani: a esperança de cumprir um destino heroico.

Reproduzo a seguir os cinco últimos parágrafos do capítulo VII. Peço paciência ao(à) eventual leitor(a) - valerá a pena; a prosa de Dino Buzzati é muito bonita:

"Agora Drogo finalmente entendia. Fitava as sombras múltiplas dos uniformes pendurados, que tremulavam conforme oscilavam as luzes, e pensou que naquele exato momento o coronel, no recôndito de seu gabinete, abrira a janela para o norte. Estava certo: numa hora tão triste como aquela, pela escuridão e pelo outono, o comandante do forte olhava para o setentrião, para as voragens do vale. 
Do deserto do norte devia chegar a sorte, a aventura, a hora milagrosa, que, pelo menos uma vez, cabe a cada um. Para essa vaga eventualidade, que parecia tornar-se cada vez mais incerta com o tempo, os homens consumiam ali a melhor parte das suas vidas. 
Não haviam se adaptado à existência comum, as alegrias das pessoas comuns, ao destino medíocre; lado a lado, viviam com a mesma esperança, sem nunca mencioná-la, porque não se davam conta ou simplesmente porque eram soldados, com o pudor ciumento do próprio íntimo. 
Até Tronk, talvez. Tronk [o sargento-mor] seguia os itens do regulamento, a disciplina matemática, o orgulho da responsabilidade escrupulosa, e se iludia imaginando que aquilo lhe bastava. Mas se lhe tivessem dito: será sempre assim enquanto viver, tudo igual até o fim, também ele teria acordado. Impossível, teria dito. Alguma coisa diferente ainda deverá acontecer, alguma coisa de realmente digno, de que se possa dizer: agora, mesmo que tenha acabado, paciência. 
Drogo compreendera o fácil segredo deles, e com alívio pensou estar fora disso, espectador não contaminado. Dentro de quatro meses, graças a Deus, ele os deixaria para sempre. Os obscuros fascínios da velha construção tinham-se dissolvido, ridículos. Assim pensava. Mas por que o velhinho continuava a fitá-lo com aquela expressão ambígua? Por que Drogo sentia o desejo de assobiar um pouco, de tomar vinho, de sair ao ar livre? Quem sabe para demonstrar a si mesmo que estava realmente livre e tranquilo?"

Essa "hora  milagrosa, que, pelo menos uma vez, cabe a cada um" é raríssima, quase nunca surge. Mas a maioria de nós - pelo menos quando somos jovens - não consegue abandonar a crença de que algo grande nos aguarda, ainda que sejamos constituídos de pura mediocridade.

A esperança na "hora milagrosa" perdura, contudo. Segue-se com ela durante anos Até que, tardiamente, constata-se a fuga do tempo. E nada aconteceu. Os tártaros não vieram. Não se fez outra coisa além de aguardar. O que se ganhou com a espera?

O deserto dos tártaros pertence à categoria das narrativas que se escolhe ler pela vida inteira. Tenho certeza de que voltarei constantemente a esse livro. Saiba desde já o(a) eventual leitor(a) que tenho ainda muito a dizer sobre ele. Não faltará ocasião, espero.

Na próxima postagem, pretendo discutir o fenômeno do anti-intelectualismo, partindo, desabusadamente, do pensamento de Jean-Jacques Rousseau.

___________
¹ MANGUEL, Alberto. Os livros e os dias: um ano de leituras prazerosas. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. [Tradução de José Geraldo Couto]

² BUZZATI, Dino. O deserto dos tártaros. 6 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2017 [Tradução de Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas]

³ Não estou alegando que não possa haver qualquer traço de heroísmo durante conflitos armados; a própria resistência ao fascismo e ao nazismo durante a 2ª Guerra Mundial é algo imensamente valoroso. O que estou dizendo é que a associação entre a figura do soldado e a figura do herói não é nem dada de antemão, nem imediata e muito menos óbvia per se.

BG de Hoje

Não sei por que até hoje nunca falei desta canção aqui no blog. Rocket Man foi lançada em 1972 (tem, portanto, a minha idade). Muitos críticos de música pop consideram-na uma das melhores composições de todos os tempos (eu concordo com essa avaliação). Na época do lançamento, ELTON JOHN contava com uma banda excelente. É a mesma que fez a gravação em estúdio, até onde sei, participando ativamente da elaboração dos arranjos (destaco o violão, o coro durante o refrão, a bateria suave - mas que se faz notar - e, claro, o piano do cantor-compositor britânico). Rocket Man também me fascina pela letra - triste e irônica ao mesmo tempo - falando de um sujeito que trabalha no espaço sideral (e que tipo de serviço poderia ser mais emocionante?), mas cumpre sua tarefa rotineiramente, sem qualquer sentimento especial, a não ser a saudade da esposa. Bernie Taupin, parceiro antigo de John, disse certa vez que, ao escrever a letra, foi inspirado, entre outras fontes, por um conto de Ray Bradbury, o autor de ficção científica mais poético que conheço. Abaixo, um vídeo lindo, dirigido por um cineasta iraniano (Majid Adin) e por um animador irlandês (Stephen McNaily), no qual a canção serve de trilha sonora para narrar o drama de um refugiado. Incluí também no BG uma versão feita pela desconhecida cantora Carol Kay, encontrada por acaso no Youtube, só voz e teclado, mas que achei muito bonita.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Falou e disse...


"Talvez os grandes personagens literários sejam aqueles que sempre escapam à nossa compreensão plena. O intolerável Lear trazendo seus cem camaradas à casa da filha, o apaixonado Dante, obcecado por uma mocinha que encontrou brevemente, o desgraçado Dom Quixote, surrado e apedrejado por persistir em suas ilusões - por que eles nos comovem até as lágrimas, por que eles nos acompanham, por que nos sugerem que esta vida faz sentido no final das contas, a despeito de tudo? Eles não oferecem razão alguma; apenas pedem que acreditemos, reconheçamos, afirmemos sua existência 'sob juramento' ".*

*  MANGUEL, Alberto. Os livros e os dias: um ano de leituras prazerosas. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. p. 155

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Existem as tais "próprias palavras"?


"E se cito os outros é para melhor dizer de mim"

Michel de Montaigne - Da educação das crianças

 
 
Desde garoto, espantava-me quando, na escola, um professor me pedia que explicasse ou escrevesse alguma coisa usando "minhas próprias palavras". Mas há palavras próprias? Palavras inéditas? Únicas? Totalmente originais? Como costumam brincar os linguistas que estudam a Análise do Discurso: falamos ou somos falados?

Voltei a pensar nisso ao ler um ensaio escrito por Michel de Montaigne. Em Pedantismo*, o pensador francês começa sua reflexão tentando descobrir por que os professores em geral têm péssima reputação. E se pergunta: "Mas como pode ocorrer que uma alma enriquecida de tantos conhecimentos não se torne mais viva e esperta, e que um cérebro vulgar e grosseiro armazene, sem se apurar, as obras e juízos dos maiores espíritos que o mundo produziu?"

Mais à frente o ensaísta julga achar uma resposta: "[...] creio ser preferível dizer que o mal provém da maneira por que tratam a ciência [...]. Em verdade, os cuidados e despesas de nossos pais visam apenas encher-nos a cabeça de ciência: de bom-senso e virtude não se fala [...]. Indagamos sempre se o indivíduo sabe grego e latim, se escreve em verso ou prosa, mas perguntar se se tornou melhor e se seu espírito se desenvolveu - o que de fato importa - não nos passa pela mente".

Ou seja, para o filósofo, de nada adianta o acúmulo de erudição, decorrente de uma cultura livresca, se este não favorecer a formação do caráter ("Só nos esforçamos por guarnecer a memória, deixando de lado, e vazios, juízo e consciência", escreve ele mais à frente). Trata-se de confiar menos no saber alheio e mais em nossa própria capacidade de discernimento.

É de se notar, entretanto, que o próprio Montaigne não se cansa de citar "palavras de outros", sobretudo Cícero, Sêneca e Plutarco, para corroborar ou ilustrar seus argumentos. Afirma ele, num outro ensaio (Da educação das crianças**): "[...] acontece-me, não raro, encontrar por acaso nos bons autores os mesmos assuntos que procuro comentar, como vem me suceder com Plutarco acerca da força da imaginação: e ao reconhecer-me diante deles tão fraco e insignificante, tão pesado e sem vida, tenho piedade de mim mesmo, e desdém. Todavia sinto prazer em verificar que minhas opiniões têm a honra de ir ao encontro das deles, às vezes, e, embora de longe, sigo-lhes as pegadas".

Assim sendo, deixando de lado a questão meio boba da "formação de caráter", pergunto: que mal há em se investir numa cultura mais livresca?

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Num belíssimo texto, lido há alguns anos*** (e que já discuti aqui, ao falar do papel das citações), Alberto Manguel afirma que "citar é continuar uma conversa do passado e dar contexto ao presente; citar é fazer uso da Biblioteca de Babel; citar é refletir sobre o que foi dito antes, pois, se não o fizermos, falamos no vácuo, onde a voz humana não faz som". E lembra que, para Walter Benjamin, "escrever história é citá-la".

Manguel, em diversos de seus trabalhos, não cessa de defender - escrevendo de diferentes modos - o seguinte ponto de vista: a leitura desempenha papel considerável na definição de nossa própria identidade. Desse modo, não há incompatibilidade entre viver e ler.

Em Um história da leitura****, por exemplo, ele registra:  "Por mais que os leitores se apropriem de um livro, no final, livro e leitor tornam-se uma só coisa. O mundo, que é um livro, é devorado por um leitor, que é uma letra no texto do mundo; assim, cria-se uma metáfora circular para a infinitude da leitura. Somos o que lemos".

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Um professor, obviamente, quando solicita ao aluno que escreva usando "suas próprias palavras", deseja  tão somente que este não repita ipsis litteris o que outros tenham escrito sobre o assunto avaliado. Seu objetivo é verificar o quanto o estudante "absorveu" dos textos que lhe foram indicados ou medir qual o nível de conhecimento prévio que este possui a respeito do tema em questão. Assim, a pergunta colocada no título da postagem carrega uma intençãozinha maldosa...

Num sentido mais estrito, contudo, não faz sentido falar em "palavras próprias". As línguas humanas são um constante intercâmbio de formas de expressão linguística, consensuais e convencionais, sem as quais a comunicação seria bastante difícil, até mesmo impossível. Felizmente, alguns indivíduos conseguem compor novos arranjos dessas expressões, ampliando ou aumentando a significação delas. Por vezes, até criam outras, novas e inusitadas, que passam a ser incorporadas ao falar que se partilha. E um dos modos mais sublimes de ter acesso a essas re-criações é através da cultura livresca, aparentemente, tão menosprezada por Montaigne.
____________
* MONTAIGNE, Michel de. Pedantismo. In: ________. Ensaios, vol. 1. 2 ed. Brasília, Editora Universidade de Brasília: Hucitec, 1987. p. 201-210

** MONTAIGNE, Michel de. Da educação das crianças. In: ________. Ensaios, vol. 1. 2 ed. Brasília, Editora Universidade de Brasília: Hucitec, 1987. 211-238

*** MANGUEL, Alberto. O destino da leitura na era da web. Veja, São Paulo, n. 1681, 27 dez. 2000. Disponível em http://veja.abril.com.br/especiais/perspectivas/p_100a.html Acesso em 06 mai. 2012

**** MANGUEL, Alberto. Uma história da leitura. 2 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2010


BG de Hoje

Péssimo dia cá na escola. Acho que o trabalho em unidades de educação básica torna-se ainda mais desagradável nem tanto pelos baixos salários ou pelas pífias condições de trabalho. É mais pela sensação de frustração que se sente ao ver que os esforços feitos não resultarão em nada significativo. Foi aí que me lembrei dos versos de uma canção do LULU SANTOS (Já é):

"Sei lá...
Tem dias que a gente olha pra si
E se pergunta se é mesmo isso aí
Que a gente achou que ia ser
Quando a gente crescer"

Definitivamente, não era isso que eu achava...

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

A fantasia etnográfica das "Viagens de Gulliver" (3)


Um dos livros de que mais gosto em minha modestíssima biblioteca particular é o Dicionário de lugares imaginários*, de Alberto Manguel e Gianni Guadalupi. Não preciso dizer que todos os lugares visitados por Lemuel Gulliver  nas suas famosas Viagens** são verbetes da publicação, com acompanhamento de mapas e ilustrações inclusive (o esquema descritivo da ilha voadora de Laputa é ótimo). Sobre a ilha de Balnibarbi, por exemplo, o Dicionário nos informa que sua pobreza "é responsável, em larga medida, pelos assim chamados projetistas".

Esses projetistas (e seus trabalhos) merecem comentário. Chegaram a Balnibarbi após viverem cinco meses em Laputa (a ilha voadora), área nobre do reino, onde só são valorizadas a astronomia, a matemática teórica e a música. Como relata Gulliver, as pessoas


"[...]voltaram com tinturas superficialíssimas de matemática, mas cheias de espíritos voláteis, adquiridos naquela região aérea: essas pessoas, ao regressarem, principiaram a desagradar-se do governo de todas as coisas do continente, e entraram a projetar a remodelação de todas as artes, ciências, línguas e ofícios".

Os projetistas fundaram academias em todas as cidades importantes do reino, entre elas a capital, Lagado. Só que havia um inconveniente: "nenhum desses projetos atingiu ainda a perfeição; e, neste entretempo, andam os campos todos miseravelmente arruinados, as casas caindo aos pedaços e o povo sem comida e sem roupa".

É clara aqui a crítica de Jonathan Swift ao academicismo deslumbrado, divorciado dos problemas reais.

Em minha opinião, as duas passagens mais engraçadas das Viagens de Gulliver estão nos capítulos V e VI da Parte III, quando se visita a academia de Lagado.

Nessa instituição havia um arquiteto que começava a construir casas pelo teto, justificando "com o exemplo de dois prudentes insetos, a abelha e a aranha"; outro projetista intentava "extrair raios de sol dos pepinos"; um terceiro projeto consistia "em abreviar o discurso, transformando os polissílabos em monossílabos e pondo de parte verbos e particípios; porque, na verdade, todas as coisas imagináveis são apenas substantivos".

A "obsessão escatológica" de Swift, comentada na última postagem, faz-se presente mais uma vez. O "sábio mais antigo da academia", imundo e mau cheiroso, tinha como objetivo

"reconverter o excremento humano nos alimentos originais, separando-lhe as diversas partes, renovando a coloração que recebe da vesícula biliar, extinguindo-lhe o cheiro e retirando-lhe os restos de saliva. Recebia da sociedade uma ração semanal, a saber, um vaso cheio de imundície humana, do tamanho de um barril de Bristol".


No campo da ciência política, a coisa não era muito diferente. Um professor de Lagado desenvolveu um estudo para descobrir conspirações contra o governo:

"Aconselhava aos grandes estadistas que examinassem a dieta de todas as pessoas suspeitas: as suas horas de comer; o lado sobre o qual se deitavam na cama; a mão com que limpavam a bunda; que lhes estudassem acuradamente os excrementos, de cuja cor, cheiro, gosto, consistência, fase digestiva, poderiam deduzir-lhes os pensamentos e desígnios. Porque os homens nunca se mostram mais sérios, reflexivos e compenetrados do que sentados na privada, o que ele próprio verificara depois de reiterados experimentos; pois nessas circunstâncias, quando costumava, apenas por experiência, meditar na melhor maneira de assassinar o rei, as fezes lhe saíam esverdeadas, mas muito diferentes quando só pensava em organizar uma sedição ou pôr fogo na metrópole".

Tinha intenção de discutir o interessantíssimo método de criação e educação de crianças desenvolvido em Lilipute, a visita dos mortos ilustres em Glubbdubdrib, além da severa avaliação dos seres humanos por meio dos "yahoos", feita por  Swift, quando descreve a estadia de Gulliver no País do Houyhnhnms. Mas como o texto muito se alongou, deixo para outra ocasião.

Na próxima postagem, começo a falar dos poemas de José Paulo Paes.

___________
* MANGUEL, Alberto; GUADALUPI, Gianni. Dicionário de lugares imaginários. São Paulo: Companhia das Letras, 2003 [tradução de Pedro Maia Soares]


**  SWIFT, Jonathan. Viagens de Gulliver. São Paulo: Abril Cultural, 1979 [tradução de Octavio Mendes Cajado] 

BG de Hoje

RITA LEEZÉLIA DUNCAN foram muito hábeis ao compor a canção Pagu, questionando as imagens - simplistas ou preconceituosas - coladas às mulheres. Ironicamente, entretanto, Adriane Galisteu utilizava essa música na abertura de um de seus malsucedidos e desimportantes programas televisivos. Não entendeu que Pagu não foi feita para mulheres como ela.


quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Dom Quixote e o sonho do leitor (3)



Antes de falar sobre o romance de Cervantes  (mais especificamente, sobre um de seus capítulos), gostaria de mencionar algumas observações sobre o ato de ler, recentemente ditas por Alberto Manguel, ensaísta argentino (radicado no Canadá), por quem tenho muita admiração.

Em entrevista concedida à revista Língua Portuguesa*  (disponível aqui), ao ser perguntado se "ler de fato nos melhora", ele responde por meio de um caso pessoal:

"Fiz o secundário no Colégio Nacional de Buenos Aires, em meio à ditadura. Foi um professor de literatura de lá que me inspirou a escrever. Ele me fez descobrir a função humanizante da literatura, que a ficção é uma mentira que conta a verdade e a experiência dos personagens é, no fundo, a nossa experiência. Veja, os alunos desse colégio fizeram forte oposição aos militares. Pouco depois eu saí do país, mas soube que muitos de meus colegas foram denunciados, torturados e mortos. Uns vinte anos depois, voltei à Argentina para uma festa de ex-colegas. E descobri, chocado, que aquele professor era o informante dos torturadores. Ler em si mesmo não é mais que uma atividade essencial. Mas o valor do ato está dado pelo uso que fazemos da leitura".

E Manguel, prossegue, mais à frente:

"Minha primeira reação foi rechaçar a literatura associada àquele professor. Mas percebi que a literatura é uma forma de manter a atenção entre duas margen [...]há leituras que permitem fazer uso da memória da experiência do mundo. Nesse caso, ler melhora nossa maneira de atuar".

"A ficção é uma mentira que conta a verdade".  "Ler melhora nossa maneira de atuar". Gostaria que o(a) leitor(a) mantivesse essas duas ideias em seu espírito enquanto acompanha minha exposição.

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O capítulo XXII do Dom Quixote **  (Da liberdade que Dom Quixote deu a muitos desditados, que iam levados contra sua vontade onde eles por si não quereriam ir) é marcado pelo humor burlesco. Mas não só isso.

Vai o fidalgo da Mancha pela estrada, acompanhado de Sancho Pança, quando surge uma guarnição militar levando condenados a remar nas galés. Dom Quixote quer saber de cada um "a causa da sua desgraça". Os presos vão informando, a maioria deles fazendo chacota (um dos guardas já antecipara a Dom Quixote que "essa gente põe gosto em fazer e assoalhar velhacarias"). Após ouvir os relatos, o cavaleiro andante toma uma decisão fora do comum: resolve libertar todos os galeotes, "porque dura coisa lhe parece o fazerem-se escravos indivíduos que Deus e a natureza fizeram livres".  Após uma refrega, todos são soltos e seu libertador exige que os libertados relatem o ocorrido perante a Senhora Dulcinéia del Toboso. Obviamente, os agora fugitivos se recusam e enchem Dom Quixote e Sancho Pança de pedradas.

Acho esse capítulo engraçadíssimo, principalmente ao ler o modo como os presos se expressavam e a ingenuidade com que o cavaleiro os ouvia. Entretanto, há também aqui o reconhecimento da liberdade como um valor supremo e uma crítica, ainda que discreta, às autoridades que se colocam muito distantes das pessoas sobre as quais seu poder recai.

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Nunca existiu Dom Quixote (em carne e osso, quero dizer). E se algo não tem concretude física, para muita gente, não passa de bobagem. Ou não passa de mentira. Mas, para mim, há verdade nas coisas que diz e faz o Cavaleiro da Triste Figura - e também seu escudeiro, como não?. Tendo sido um leitor contumaz das novelas fantasiosas que apreciava, Dom Quixote tornou-se, mesmo amalucado, uma "pessoa" que agia da melhor forma possível em relação aos outros.

É este também o meu sonho de leitor
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* A leitura do mundo. Revista Língua Portuguesa, São Paulo, n. 63, p. 10-14, jan. 2011 (Editora segmento) [Entrevista concedida a Luiz Costa Pereira Júnior]

** CERVANTES DE SAAVEDRA, Miguel de. Dom Quixote de la Mancha. São Paulo: Abril Cultural, 1981 [tradução dos Viscondes de Castilho e Azevedo: notas de José Maria Castro Calvo, traduzidas por Fernando Nunes Rodrigues]


BG de Hoje

Na postagem anterior, indiquei um guitarrista de rock  (o maior deles, aliás)  tocando blues. Falo de outro hoje: Jack White, dos WHITE STRIPES, arrebentando em  Ball and Biscuit.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Procura-se (2)


"Tenho sonhado às vezes que, quando chegar o Dia do Juízo e os grandes conquistadores, advogados e estadistas forem receber suas recompensas - suas coroas, lauréis, nomes gravados indelevelmente em mármore imperecível - , o Todo Poderoso irá se voltar para Pedro e dirá, não sem certa inveja quando nos vir chegando com nossos livros embaixo do braço: 'Veja, esses não precisam de recompensa. Não temos nada para lhes dar. Eles amaram a leitura' ".

Virginia Woolf, How should one read book

 
 
 
Peço, por gentileza, a leitura atenta deste trecho de Uma história da leitura*, de Alberto Manguel:

"Sentada diante de mim no metrô de Toronto, uma mulher está lendo a edição Penguin de Labirintos, de Borges. Eu quero chamá-la, quero acenar-lhe, sinalizar que também sou daquela religião. Ela cuja face esqueci, cujas roupas mal notei, jovem ou velha, não sei dizer, está mais próxima de mim, pelo mero ato de segurar aquele determinado livro nas mãos, do que muitas outras pessoas que vejo diariamente".

Tal sensação já foi experimentada por qualquer leitor de verdade. Não exageraria, entretanto, como faz Manguel, ao dizer que integramos uma religião. Talvez uma seita, quem sabe?...

Decidi permanecer na blogosfera porque acredito ser necessário insistir na procura desse(a) "próximo(a)".

Estou certo de que há apreciadores de Literatura espalhados por aí; desejo encontrar esses irmãos de armas. Melhor dizendo, irmãos de livros.

Iluminado pela beleza de certos versos ou fascinado pela engenhosidade de um ensaio bem escrito, não ligarei para nenhum dos "contatos" da agenda de telefones, pois sei que nenhum deles quererá compartilhar essa emoção comigo. Ao terminar um romance fabuloso, não existirá ao menos um parceiro de copo junto ao qual relembrarei certos personagens, passagens inesquecíveis, alguns felizes arrebatamentos. Com franqueza, entre parentes, colegas, amigos e conhecidos, pessoas que encontro em casa, no trabalho, nos bares, não há sequer um leitor.

Mas peço não confundir o que aqui vai escrito com a descrição lamurienta de um estado de solidão ou isolamento.

Falando sobre a invenção dos óculos, objetos a serem lembrados quando se quer contar uma história da leitura, Alberto Manguel escreveu:

"No final do século XV, os óculos já eram suficientemente conhecidos para simbolizar não somente o prestígio da leitura, mas também seus excessos. A maioria dos leitores, naquele tempo como agora, passou em algum momento pela humilhação de ouvir que sua ocupação é repreensível [...] Preguiçoso, débil, pretensioso, pedante, elitista - estes são alguns dos epítetos que acabaram associados ao intelectual distraído, ao leitor míope, ao rato de biblioteca, ao nerd. Enterrado nos livros, isolado do mundo dos fatos, do mundo de carne e osso, sentindo-se superior aos não familiarizados com as palavras preservadas entre capas poeirentas, o leitor de óculos que pretendia saber o que Deus, em sua infinita sabedoria, havia escondido, era considerado um louco, e os óculos tornaram-se emblemas da arrogância intelectual".

Talvez meus óculos e meus gestos - como manter este blog - simbolizem tudo isso. Contudo, posso e faço questão de afirmar que hoje, profundamente, sou um leitor de Literatura.

E espero que você também seja.
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* MANGUEL, Alberto. Um história da leitura. São Paulo: Companhia das Letras, 1997 [ tradução de Pedro Maia Soares]

BG de Hoje

O MOTÖRHEAD, obviamente, não inventou o rock "pauleira" (como gosto de dizer, usando uma gíria bem fora de moda...). Mas ajudou a dar forma a todo o negócio. Abaixo, a clássica Love me like a reptile.

sábado, 23 de abril de 2011

Procura-se (1)


"Todos esses são leitores, e seus gestos, sua arte, o prazer, a responsabilidade e o poder que derivam da leitura, tudo tem muito em comum comigo.
Não estou sozinho".

Alberto Manguel

 
Num espirituoso apontamento feito nos idos de 1970*, Mario Quintana prognosticou:

"2005

Com a decadência da arte da leitura, daqui a trinta anos os nossos romancistas serão reeditados exclusivamente em histórias de quadrinhos...
A grande consolação é que jamais poderão fazer uma coisa dessas com os poetas.
A poesia é irredutível".

Dois pontos: 1) Quintana chama de arte o ato de ler; 2) A permanência dos longos textos em prosa tem futuro incerto. Será? Dúvidas à parte, o poeta gaúcho, habilmente, puxa brasa para sua sardinha...

Meses atrás, reli um magnífico trabalho de Alberto Manguel** e só então compreendendi o quanto suas observações dão alento à sobrevida deste blog. Escreve ele:

"Os leitores são maltratados em pátios de escolas e em vestiários tanto quanto nas repartições do governo e nas prisões. Em quase toda parte, a comunidade de leitores tem uma reputação ambígua que advém de sua autoridade adquirida e de seu poder percebido. Algo na relação entre um leitor e um livro é reconhecido como sábio e frutífero, mas é também visto como desdenhosamente exclusivo e excludente, talvez porque a imagem de um indivíduo enroscado num canto, aparentemente esquecido dos grunhidos do mundo, sugerisse privacidade impenetrável, olhos egoístas e ação dissimulada singular ('saia e vá viver!' dizia minha mãe quando me via lendo, como se minha atividade silenciosa contradissesse seu sentido do que significava estar vivo). O medo popular do que um leitor possa fazer entre as páginas de um livro é semelhante ao medo intemporal que os homens têm do que as mulheres possam fazer em lugares secretos de seus corpos, e do que as bruxas e os alquimistas possam fazer em segredo, atrás de portas trancadas. O marfim, de acordo com Virgílio, é o material de que é feito o Portal dos Sonhos Falsos; segundo Sainte-Beuve, é também o material de que é feita a torre do leitor".

Nesse momento dirijo-me a você, leitor(a) - no sentido pleno do termo -; particularmente, ao(à) leitor(a) de Literatura. Desde o advento da escrita, formamos uma contraditória confrariazinha: numas vezes considerada elitista; noutras, simplesmente ignorada. Prestigiosa em certos tempos; noutros, desprezada.

Busquemo-nos. É o que proponho.
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* QUINTANA, Mario. A vaca e o hipogrifo. 3 ed. São Paulo: Globo, 2006

** MANGUEL, Alberto. Um história da leitura. São Paulo: Companhia das Letras, 1997 [tradução de Pedro Maia Soares]

BG de Hoje

Isso é que é uma boa letra de música popular: ZECA PAGODINHO, SPC:

"Precisei de roupa nova
Mas sem prova de salário
Combinamos: eu pagava,
Você fez o crediário.
Nosso caso foi pra cova
E a roupa pro armário.


E depois você quis manchar meu nome
dentro do meu metier
Mexeu com a moral de um homem
Vou me vingar de você:


Eu vou sujar seu nome no SPC!"

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

"O que quer que um outro disser bem é meu"

A frase que intitula esta postagem é de Sêneca. Naturalmente, levando em consideração seu sentido, passa agora também a ser minha. Nada mais adequado para este blog no qual as citações brotam amiúde.

Sobre elas, Luis Fernando Verissimo* escreveu: "são uma espécie de testemunho insuspeito que a gente invoca para reforçar - ou pelo menos, para tornar mais respeitáveis - nossos argumentos". E passa então, comicamente, a discorrer sobre as citações falsas (o que há de mais saboroso nessa sua crônica):

"É difícil provar que uma citação não é verdadeira. Por isso você está livre pra inventar à vontade, sem limites. A não ser, é claro, os limites da honestidade. Mas estes andam muito elásticos ultimamente. Quem arriscará passar por ignorante, desafiando a legitimidade de uma citação? Basta que elas soem autênticas".

Você pode, assim, simular um saber que está longe de possuir, dotando o que escreve de uma aura profunda e inteligente. E pode ficar ainda melhor, sugere o humorista gaúcho:

"Para estar mais seguro, faça o seguinte: invente a citação e invente o seu autor. Escreva por exemplo: 'Na imortal frase de Raspail de Grunyére, na famosa carta que escreveu da prisão para Dindonet, 'les oiseaux, etc'. O etc. dá a entender que todos, claro, conhecem a frase a que você se refere e seria maçante repeti-la".

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Com intenção completamente distinta daquela manifestada por Verissimo, o ensaísta argentino Alberto Manguel (em artigo já mencionado aqui) também fala a respeito do ato de citar**. Lembrando dos movimentos urbanos de protesto, iniciados a partir do maio de 1968, que repudiavam o conservadorismo, ele faz a seguinte observação:

"Nas revoltas estudantis que sacudiram o mundo ao final da década de 60, uma das palavras de ordem, berradas aos professores da Universidade de Heidelberg foi  ' Her wird nicht zitiert! ' ' Nada de citações aqui! '.

Mas Manguel aponta o quanto essa reivindicação era equivocada:

"Os estudantes exigiam pensamento original, esquecendo que citar é continuar uma conversa do passado e dar contexto ao presente; citar é fazer uso da Biblioteca de Babel, citar é refletir sobre o que foi dito antes, pois, se não o fizermos, falamos no vácuo, onde a voz humana não faz som".

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Não me sinto nem um pouco incomodado em incluir, profusamente, longos trechos de outros textos, que acabam suplantando a "parte que me cabe nesse latifúndio". Como já disse Borges, "Que outros se jactem das páginas que escreveram; a mim me orgulham as que tenha lido".

E preciso confessar: há uma certa dose de vaidade em tornar públicas minhas leituras... Dane-se! Estou muito longe de ser santo...

P. S. E para que não recebam a pecha de falsas, as citações apresentadas nas postagens do blog são extraídas das referências incluídas nas notas, presentes ao final de quase todas as atualizações (como essas duas, logo abaixo).
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* VERISSIMO, Luis Fernando. Citações. In: ___________. O rei do rock. 4 ed. São Paulo: Globo, 1999

** MANGUEL, Alberto. O destino da leitura na era da web. Veja, São Paulo, n. 1681, 27 dez. 2000. Disponível em http://veja.abril.com.br/especiais/perspectivas/p_100a.html Acesso em 19 out. 2010

BG de Hoje

CAETANO VELOSO, acho eu, compôs poucos sambas "típicos" na sua longa carreira. Alguns deles são muito bons, como Gema. No vídeo abaixo, vemos TERESA CRISTINA acompanhada do músico baiano.

sábado, 11 de setembro de 2010

Milagres



"Cada leitor achou encantos com os quais assegurou a posse de uma página que, por magia, aparece como se nunca tivesse sido lida, fresca e imaculada, com todas as leituras anteriores agora incorporadas aos próprios átomos do texto. A história da leitura é, em certo sentido, a história desses encantos".
Alberto Manguel

 
 
Logo no primeiro parágrafo do conto Fatalidade*, de João Guimarães Rosa, o narrador nos apresenta uma personagem ("Meu Amigo") cujas atividades revelam curioso ecletismo ("de vasto saber e pensar, poeta, professor, ex-sargento de cavalaria e delegado de polícia"). Talvez, por causa dessa variedade de ocupações, a personagem tenha um opinião tão pouco otimista com relação ao viver em comunidade: "A vida de um ser humano, entre outros seres humanos, é impossível. O que vemos, é apenas milagre; salvo melhor raciocínio".

Cada vez mais misantropo, não me soam despropositadas essas palavras. Entretanto, é o caso de perguntar: haveria um modo de tornar a existência mais suportável dentro de um grupo social? Arriscaria dizer que sim: por meio da leitura.

No final do ano 2000, numa edição especial da revista Veja, li um lindo artigo escrito pelo ensaísta e romancista argentino (radicado no Canadá) Alberto Manguel**. Intitulado O destino da leitura na era da Web (disponível aqui), o texto exibe as "vantagens" do livro, numa época em que os meios digitais/virtuais vêm se afirmando como os principais instrumentos de comunicação interpessoal, entretenimento, armazenagem e difusão de informações para centenas de milhões de pessoas, de forma inédita na história.

 
Concentrando-se na leitura literária (o ensaio começa falando do clássico romance Robinson Crusoe, de Daniel Defoe), Manguel ressalta esta  incongruência de nossa civilização: "Pode-se viver numa sociedade baseada no livro e, ainda assim, não ler, ou viver numa em que o livro seja mero enfeite e ser, no sentido mais profundo e verdadeiro da palavra, um leitor". Para o ensaísta, apesar da imensa quantidade de material escrito que nos cerca, "não somos uma sociedade letrada". E prossegue:

"Aceitamos o livro como um dado comum, mesmo antiquado. O ato de ler, outrora considerado útil e prestigioso, quando não perigoso e subversivo, agora recebe condescendência como passatempo, lento passatempo que não tem eficiência nem contribui para o bem comum".

A rede mundial de computadores é vista, pelo escritor, de forma crítica, como um espaço sem historicidade, propícia à autoalienação e ausência de reflexão aprofundada. Mas, como afirma Manguel,

"Não é o caso de culpar a Internet por nossa falta de interesse em explorar o passado, nem pela preocupação superficial com o mundo em que vivemos. Sua virtude, com eu disse, está na rapidez e na quantidade da informação; não pode dar concentração e profundidade".

Essa função cabe aos livros.

"Estou convencido de que a leitura continua e sobreviverá, desde que persistamos em aplicar palavras ao mundo que nos cerca. Tanta coisa recebeu nome, tanta coisa continuará a receber que, com toda a nossa insensatez, não desistiremos desse pequeno milagre que nos permite um vago entendimento mútuo. Os livros talvez não alterem nosso sofrimento, talvez não nos protejam do mal, talvez não nos digam o que é bom ou belo, e, certamente, não nos resguardam do fado comum da sepultura. Mas livros nos dão a possibilidade de tais coisas, a oportunidade da mudança, a eventualidade de iluminação. Talvez não haja um livro, bem escrito como seja, que possa remover uma gota de dor da tragédia de Kosovo, mas talvez também não se ache um só livro mal escrito quanto seja, que não enseje uma epifania a seu leitor".

Do excerto acima - sem dúvida o mais belo em todo esse maravilhoso ensaio de Alberto Manguel - desejaria destacar este trecho: "não desistiremos desse pequeno milagre que nos permite um vago entendimento mútuo". E talvez seja possível compreender melhor a pergunta formulada no início da postagem.

Para tornar a vida em comum mais suportável - uma vez que os interesses, as perspectivas, as afeições individuais são tantas vezes inconciliáveis - só mesmo através desse "pequeno milagre" que às vezes ocorre quando lemos bons livros.

Na próxima, Italo Calvino.
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* ROSA, João Guimarães. Primeiras estórias. Rio de Janeiro: MEDIAfashion, 2008

** Este texto de A. Manguel, com tradução e título diferentes (A biblioteca de Robinson), além de alguns poucos acréscimos, também pode ser encontrado no mesmo livro que contém o artigo de Z. Bauman citado na postagem anterior: PORTELLA, Eduardo. Reflexões sobre os caminhos do livro. São Paulo: UNESCO/Moderna, 2003


BG de Hoje

"But my dreams/ They aren't as empty/As my conscience seems to be", canta Roger Daltrey, nesse belo poema-canção escrito por Pete Townshend: Behind Blue Eyes. No vídeo abaixo, THE WHO ao vivo.