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domingo, 15 de janeiro de 2023

Cada dia mais doente de Brasil

A expressão "doente de Brasil", pelo que se sabe, apareceu em julho de 2019, cunhada pelo psiquiatra Fernando Tenório. A postagem no Facebook em que o médico usou o termo viralizou, inspirando, por exemplo, uma coluna da jornalista e escritora Eliane Brum, publicada na (extinta) edição brasileira do jornal El País em agosto daquele mesmo ano. Brum relatou como a chegada de Bolsonaro ao poder há quatro anos, associada aos nossos graves problemas sociais (como o desemprego ou a precariedade das ocupações que segmentos de trabalhadores conseguem encontrar), afetou negativamente a saúde mental de parte da população. "País que ultrapassou a possibilidade das metáforas, a toxicidade do Brasil abrange todas as acepções", escreve ela.

O autora aponta que esse adoecimento tem a ver também com "a destruição da palavra como mediadora" - não custa lembrar que o (agora) ex-presidente é um mentiroso em série e seus apoiadores usam e abusam do expediente das notícias falsas e das teorias conspiratórias. O sujeito não está mais à frente do poder executivo federal, mas as ações ultrajantes de muitos de seus sequazes (e daqueles que o usaram como títere, ou seja, membros das famigeradas forças armadas brasileiras) poluíram de vez o espaço público. "É preciso dizer: não vai ficar mais fácil. Não estamos mais lutando pela democracia. Estamos lutando pela civilização", lê-se ao final da coluna.

Partindo da mesma expressão, a revista piauí publicou em novembro de 2019 a matéria Doentes de Brasil: conversas sobre traumas políticos. A repórter Julia Sena acompanhou seções de uma roda de conversa organizada pelas psicólogas Simone Villas Bôas e Marcela Lima no Rio de Janeiro. Villas Bôas afirma que o termo "diz respeito a todos que se sentem prejudicados pela atual configuração social e política" e Lima acrescenta que "o discurso de ódio do bolsonarismo fere a subjetividade daqueles que não compactuam dele. Quem apoia esse discurso já está adoecido".

Talvez o(a) eventual leitor(a) esteja se perguntando: "Pra que falar disso agora? A eleição já passou e um novo presidente assumiu. Não é hora de seguir em frente?". Não dá pra fazer isso. Há um golpismo latente, com forte penetração entre os militares e forças de segurança (polícia federal e polícias estaduais). Há muitos indivíduos fanatizados e agressivos, membros de uma seita, cujos exemplos mais em evidência foram os "patriotas" acampados em frente a quartéis e aqueles que depredaram o plenário do STF, o Palácio do Planalto e o Congresso no dia 8 de janeiro. É esse caldo de cultura, junto com outras marcas da nossa política e da nossa sociedade, que me fazem também um doente de Brasil.

Entre as marcas que mencionei acima, uma das mais perversas é o racismo estrutural, que leva a situações como a que Hislla Ramalho discute em seu texto publicado dias atrás no Portal Geledés. Pela forte concordância com seu teor, vou reproduzi-lo aqui na íntegra. NOTA: É óbvio que havia pardos e pretos entre os bolsonaristas que vandalizaram as sedes dos Três Poderes, mas basta observar as imagens daquele dia para constatar que a grande maioria era branca (ou assim percebida, levando-se em conta o peculiar colorismo brasileiro).


A Branquitude pode tudo? Uma breve reflexão sobre a consolidação do nazifascismo no Brasil,
por Hislla Ramalho


O atentado contra a democracia, contra o resultado das urnas (2 e 31 de outubro de 2022), realizado no dia 08 de janeiro de 2023 em Brasília por terroristas, mostra ao Brasil e ao mundo que não se pode compactuar ou se calar diante da construção fascista-nazista que vinha/vem ocorrendo contra o Estado Democrático de Direito há pelo menos 5 anos. Depois do impeachment em 2016, já podíamos ouvir expressões e xingamentos contra os três poderes. Esses discursos tomaram força nas redes e na mídia, à medida que um governo antidemocrático estava no poder, inflando ataques visando enfraquecer as bases democráticas e, consequentemente, agir contra a Constituição Cidadã de 1988.

Considerei o dia 08 de janeiro de 2023 um dia de consolidação, de ápice; um dia de ver explicitamente a manifestação física do fascismo no Brasil. Entre quebra de patrimônio, quebra dos prédios representantes dos três poderes, palavras de ordem contra o presidente e outros agentes públicos, os terroristas foram escoltados, acompanhados, para fazer tais violações pelo próprio poder de força do Estado brasileiro – a polícia. Ao ver as terríveis cenas, duas perguntas me ocorreram: e se fossem pessoas negras que estivessem ali? A branquitude nazifascista pode fazer tudo?

A primeira questão me traz à memória os vários casos acontecidos que envolvem esta força abusando de seu poder e matando o povo preto, seja por “confundir” uma sombrinha com um fuzil ou por suspeitar que um cantor seja um bandido, dentre vários outros casos que sabemos; há um genocídio negro no Brasil,
 instaurado por necropolíticas, epistemicídios, prisões em massa, chacinas e assassinatos da população negra. Sueli Carneiro também denunciou utilizando dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública. São Evaldos, Genivaldos, Rodrigos, Adalbertos, Kathlens, Ágathas etc. Sendo assim, é gritante a diferença do tratamento dado pela polícia à branquitude nazifascista e à população negra. Nós morremos por muito menos, por menos, por nada, por existir.

Se fossem pessoas negras, indígenas, estudantes, professores, dentre outras e outros que estivessem ali e não fazendo metade do que foi feito - diga-se depredado, violado neste dia (08/01/2022) -, a punição, o tratamento, seriam outros; teríamos bombas de gás lacrimogênio, surras de cassetetes, balas de borracha ou pior, dentre outras formas de “contenção”. Diante do infeliz acontecido e da rápida discussão aqui feita a pergunta sobre a branquitude nazifascista entra em evidência. Eles podem fazer tudo?

A questão surge como uma maneira de chamar atenção para quais serão as providências tomadas daqui em diante, como será tratado judicialmente cada indivíduo terrorista que agiu de má fé contra o Estado Democrático de Direto. Se dentro de determinada situação pessoas negras não têm direto a um tribunal ou corte por serem executadas e julgadas no instante do acontecimento, a branquitude tem essa garantia, e pelo menos judicialmente aguardamos as punições cabíveis.



BG de Hoje 

Distopia, um dos mais recentes singles do PLANET HEMP, foi lançado ano passado, quebrando um jejum de mais de duas décadas da banda, em matéria de canções novas. Com participação do CRIOLO, a faixa não desagrada antigos fãs (como este blogueiro).

domingo, 16 de setembro de 2018

O deslocamento de Lima Barreto (II)


"Além do mais, Lima foi daquelas testemunhas que suportam a solidão de uma responsabilidade e, ao mesmo tempo, assumem a responsabilidade de estar num lugar, no seu caso, muitas vezes repleto de solidão".


Lilia Moritz Schwarcz - Lima Barreto: triste visionário



Grande parte dos manuais e livros didáticos de Literatura classifica Lima Barreto como escritor pré-modernista (bem, falo dos manuais e livros didáticos do meu tempo de aluno do 2º Grau; pode ser diferente hoje em dia, no Ensino Médio). É assim, por exemplo, no título que tenho em mãos neste momento: Língua & Literatura, de Maria da Conceição Castro (volume 3, editora Saraiva), cuja primeira edição é de 1993. Curioso ver que a autora afirma ter sido Lima Barreto "valorizado pelos modernistas da Semana de 22 pela sua capacidade de introduzir na obra literária fatos, situações e linguagem do cotidiano". Há controvérsias, como se verá adiante.

Antes, vale refletir um pouco se o termo Pré-Modernismo é apropriado como designação de um período literário específico.

O prefixo pré-, junto com a acepção de anterioridade, carrega muitas vezes o sentido de "preparatório para algo que virá" - é o caso, por exemplo, em palavras como pré-universitário. O que um curso pré-universitário tenciona é aprontar seus frequentadores para que, futuramente, sejam admitidos ou sintam-se melhor aclimatados numa universidade. 

Pré- também costuma denotar uma espécie de quase. Quando se usava dizer pré-escola, queria-se designar um estabelecimento que é quase uma escola, mas ainda não é. Nesse sentido, a pré-escola seria considerada menos importante do que a escola propriamente dita, pois a primeira só existiria em função da segunda. NOTA: A partir da segunda metade dos anos 1990, o termo pré-escola vai desaparecendo e sendo substituído pelo termo (mais adequado) educação infantil, pois amplia-se a compreensão de que o trabalho com crianças menores de seis anos não é menos educativo do que outros realizados noutras etapas.

Creio que essas acepções do prefixo nos ajudam a entender por que o termo Pré-Modernismo é uma classificação ruim.

Em primeiro lugar, pode nos induzir a considerar o Modernismo como um estágio evolutivo "natural" e superior da produção literária nacional, um ideal estético que se desejava atingir previamente. Aqueles que escreviam antes do advento da Semana de Arte Moderna de 1922 estariam apenas "preparando o terreno" para os que viriam depois - estes, sim, autores inovadores e de talento... Em segundo, denominar um período como pré-modernista acaba, inadvertidamente, esvaziando de importância esse mesmo período, visto somente como um quase (já que a "meta ideal" não teria sido ainda alcançada).

Dito isso, quero deixar registrado que não me oponho às tradicionais classificações de períodos literários para fins didáticos. São válidas e úteis em muitas ocasiões. Mas não nessa.

Voltemos, contudo, ao primeiro parágrafo da postagem de hoje. Teria sido Lima Barreto realmente valorizado pela turma que organizou a Semana de 22?

Em Lima Barreto: triste visionário (Ed. Companhia das Letras, 2017), biografia sobre a qual comecei a escrever na postagem anterior, Lilia Moritz Schwarcz observa que, embora "a nova agenda modernista [tivesse] pontos em comum com aquela de Lima", um episódio "marcaria a sorte" deste com o grupo paulista liderado por Mario e Oswald de Andrade.

Sérgio Buarque de Holanda, colaborador da revista Klaxon, um dos veículos de divulgação dos modernistas de São Paulo, entregou um exemplar da publicação para o escritor carioca. Era comum Lima Barreto tratar de novos autores nas muitas crônicas que produzia para a imprensa do Rio de Janeiro. No caso da Klaxon, nota Schwarcz, ele "reagiu de pronto, revelando seu célebre escárnio. Avaliou que a publicação devia muito ao futurismo italiano e, quem sabe, implicou com 'os rapazes', a quem provavelmente julgou burgueses e muito paulistas".

Ela acrescenta:

"História de 'se' não existe. Ou seja, se Lima tivesse juntado dois mais dois; se tivesse sido capaz de superar sua primeira opinião sobre a capa modernista da publicação dos paulistas; se tivesse conseguido reconhecer nas novas gerações anseios semelhantes, ou ao menos afinados, aos que ele descrevera em seu 'manifesto' de 1921 - intitulado 'O destino da literatura' -, talvez a história fosse outra. Mas não houve tempo, e o que ocorreu lembrou o estrondo e as consequências de uma trombada. 
Lima achou que os 'moços de São Paulo' tinham jeito de bovaristas [nesse contexto, encantados com o que vem do exterior, em detrimento do que se faz no próprio país] e que andavam animados demais com as ideias de Marinetti [o "pai" do Futurismo]. Já eles, na resposta divulgada no número seguinte da publicação, fizeram pouco-caso das avaliações do 'herbolário carioca'. Pensaram que só podia ser coisa de gente da capital [até 1960, o Rio de Janeiro foi o distrito federal]. Se 1922 deu a impressão de que iria se abrir como um ano de encontro, foi ano de fim".

De fato, não houve tempo para desfazer mal-entendidos e aparar arestas. Lima Barreto morreu justamente em 1922 (com apenas 41 anos) e não pôde ler, por exemplo, o Macunaíma, de Mario de Andrade (lançado em 1928), livro em que, acredito, ele identificaria um parentesco com sua concepção de fazer literário. Além do mais, a rusga surgida após o escarnecimento da Klaxon indispôs os modernistas de 22 para com uma obra em muitos aspectos próxima das intenções "anti-academicistas" defendidas pelo grupo de São Paulo.

O que foi dito até agora só reforça o deslocamento de Lima Barreto sobre o qual estamos falando desde a última postagem. Esse deslocamento ocorria tanto no plano pessoal (como espero ter demonstrado no texto anterior), quanto na sua dimensão pública de escritor e intelectual. O autor de Recordações do escrivão Isaías Caminha, mesmo depois de morto, também demorou a encontrar um lugar dentro da crítica e da história literária, em parte por causa do desentendimento mútuo entre ele e os modernistas de 22. A esse respeito, Lilia Schwarcz escreve:

"Lima também passava a ser assumido pela crítica como um autor 'entre': entre gerações, entre gêneros, entre grupos [...]. Se não se adequava aos padrões das gerações que imediatamente lhe antecederam, nem aos daquelas com as quais convivia , tampouco parecia coadunar-se com o estilo das novas vogas literárias, que faziam barulho entre os jovens paulistanos. O autor de Policarpo Quaresma considerava 'os moços de São Paulo' adeptos demais das vogas futuristas e legítimos representantes das novas elites burguesas e industriais. Já os modernistas paulistanos, ao menos nesse primeiro momento, reservavam a Lima o mesmo tipo de aversão que guardavam com relação ao grosso da produção literária que vinha do Rio de Janeiro, e o julgavam conservador demais. Um regressista que não admitia a entrada dos novos costumes, vogas artísticas e literárias ou hábitos urbanos".

Naquele Brasil da Primeira República, "Lima gostava de se definir como 'outro' - afirma a biógrafa -; "outro no jornalismo, outro em suas preferências políticas, outro ainda (e sobretudo) quando se referia ao funcionalismo público". Deslocado, "outro", avesso às pompas que cercavam muitos outros escritores de seu tempo, pobre, alinhado ao anarquismo e ao socialismo (num país em que a desigualdade faz parte do DNA da sociedade), negro (num país extremamente racista, poucas décadas após a Abolição), alcoólatra, duas vezes internado num hospício, o escritor, contudo, não parou de batalhar com os recursos que tinha, mesmo sem acreditar em si. Ou, talvez, acreditasse. No capítulo 11 (Fazendo crônicas, contos e virando Triste fim de Policarpo Quaresma), Lilia Moritz Schwarcz  assinala que:

"Com a publicação de Triste fim, a figura literária de Lima seria ainda mais lapidada. Ele era então caracterizado, e também gostava de se definir desta maneira, como um escritor boêmio, frequentador de botequins, realista por gosto, avesso ao jornalismo burguês e aos formalismos da literatura. Seus problemas na Politécnica [abandonou o curso de Engenharia] viravam virtudes, seu ir e vir nos subúrbios uma forma de existência. A despeito de tanta contraposição, Lima jamais negava seu sonho de viver das letras. Tanto que na mesma entrevista [concedida ao jornal A Época, em 1916], assim resumia sua 'missão': 'O fim da minha vida é as letras. Eu não peço delas senão aquilo que elas me podem dar: Glória! [...] Não quero ser deputado, não quero ser senador, não quero ser mais nada senão literato. Não peço às letras conquistas fáceis [...] peço-lhes coisa sólida e duradoura [...] Eu abandonei tudo por elas; e a minha esperança é que elas me vão dar muita coisa. É o que me faz viver mergulhado nos meus desgostos, nas minhas mágoas [...] Vamos beber cerveja' ".

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Antes de terminar a postagem, não posso deixar de reconhecer o trabalho monumental feito por Lilia Moritz Schwarcz em Lima Barreto: triste visionário. É um livro de mais de 600 páginas, ressaltando diversos aspectos não só da vida e da obra do escritor, mas também do contexto sócio-histórico. A experiência da biógrafa como historiadora e antropóloga foi vital aqui. E mesmo que a profusão de notas possa retardar o ritmo da leitura em alguns momentos (para o leitor que vai conferi-las pelo menos em parte, como este blogueiro), o ganho informativo é tremendo.

Schwarcz também não se furtou a apresentar o lado antipático do biografado (como sua aversão ao feminismo ou o senso de superioridade evocado diante das outras pessoas de seu meio social, menos cultas do que ele), bem como salientou as ambiguidades que marcaram a sua trajetória pessoal e pública. Vale destacar o reconhecimento da autora ao trabalho de Francisco de Assis Barbosa, que, na década de 1950, não só produziu uma importante biografia, como foi fundamental para renovar o interesse pela obra do escritor, num esforço que incluiu o lançamento de inéditos e a republicação de diversos livros de Lima Barreto.

Na próxima postagem, falarei de um dos meus romances prediletos: O deserto dos tártaros, de Dino Buzzati


BG de Hoje

É meio complicado classificar, de primeira, o tipo de música feita pelo CRIOLO. Isso que é legal no som dele. Tem rap? Principalmente, claro. Mas também tem samba. E uma faixa singularíssima como Bogotá, com sua levada que remete o ouvinte a outras vertentes rítmicas latino-americanas.


segunda-feira, 24 de abril de 2017

"É só televisão....". Que mal tem?



Atacar a televisão é um exercício fácil. Reclamar da (má) qualidade habitual de sua programação, da idiotização que promove ("a televisão me deixou burro, muito burro demais", cantavam os Titãs em priscas eras), está ao alcance de qualquer um. Reconhecer seu poder de manipulação não é novidade. Mas é exatamente isso que me disponho a fazer na postagem de hoje: remexer temas batidos.

Por que diabos então perderia meu tempo lendo este texto desenxabido? - com justiça, é o que pode estar se perguntando o(a) eventual leitor(a). Bem, talvez porque, diferentemente da maioria dos detratores da TV, este blogueiro gosta de assisti-la e não tem vergonha de admiti-lo - mas isso não quer dizer que seja incapaz de criticá-la.

Nós, os militantes da leitura e do livro, é preciso assumir, frequentemente lançamos nossas mais duras invectivas contra o entretenimento televisivo, considerando-o o mais deletério inimigo da cultura literária. Esses ataques, porém, deixam transparecer, não raro, um certo esnobismo hipócrita. É como se o analista escorraçasse essa "distração da gentalha ignara" em público, mas, escondidinho em casa, desse as suas zapeadas, buscando um pouco do divertimento que acabara de condenar.

As transmissões regulares de TV começaram nos anos 1930 (duas décadas depois, chegou a vez do Brasil). Ou seja, pode-se dizer que uma parte significativa dos seres humanos hoje vivos no planeta está acostumada com os televisores - e o conteúdo veiculado por estes - desde que era criancinha. Lembro-me perfeitamente do primeiro aparelho em cores adquirido em nossa família no início dos anos 1980: foi um deslumbramento, aquilo era considerado uma conquista, um símbolo de status (atualmente, encontramos a toda hora carcaças desses dispositivos sordidamente descartadas nas esquinas das grandes cidades). Indivíduos com a minha idade consumiram fervorosamente, na infância, "os enlatados USA/de 9 às 6", como cantava o Renato Russo em Geração Coca-Cola. Minha imaginação é até hoje povoada pelas tiradas do Pernalonga, a trágica e não recompensada obstinação do Coiote na perseguição ao Papa-Léguas, a divertida incompetência do Agente 86, a vida luxuosa do Casal 20 (desvendar crimes era o de menos...), a superficialidade estampada nos rostinhos bonitos das Panteras. O fato de ter assistido muita, muita TV na infância e início da adolescência (seria falsidade de minha parte negar) teve um peso enorme na minha formação cultural - para o bem e para o mal. Não me tornei um completo imbecil ao chegar na maturidade (bem, pelo menos eu acho que não). Felizmente, fui cercado de anteparos para a inundação televisiva: cresci em meio a bons leitores (duas irmãs e um irmão mais velho), estudei numa boa escola no ensino fundamental. Há "antídoto" para o "mal" da televisão,

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Neste fim de semana prolongado, assistir DVDs foi meu principal passatempo. Entre os filmes escolhidos, revi um que adoro: Quiz Show (1994 - direção de Robert Redford).

Baseado no escândalo (real) envolvendo a corporação televisiva NBC em uma fraude ocorrida num popular programa de perguntas e respostas que foi ao ar na segunda metade dos anos 1950, o filme tem três personagens centrais: Richard Goodwin, um advogado e investigador do Congresso americano (similar a um procurador, aqui do Brasil, para falar de um emprego da moda); Herbert Stempel (atuação magnífica de John Turturro), cidadão nada carismático, morador da periferia de Nova York, judeu e vencedor do Twenty-One, a atração de maior audiência da televisão norte-americana da época; e Charles Van Doren, (interpretado por Ralph Fiennes), um bem-apessoado e culto professor universitário, cuja família é composta por intelectuais e literatos.

Disposto a tentar a sorte num programa similar mas menos badalado que o Twenty-One, Van Doren acaba sendo notado pelos produtores. Percebendo de imediato o chamariz de audiência que eram a beleza e o sobrenome prestigioso do professor universitário, eles propõem a Van Doren participar da atração principal. A conversa entre eles é bem reveladora de como é o mundo da TV em matéria de negócios.

O contestante faz uma rápida descrição de sua vida profissional e pessoal. Os produtores, então, querem saber quanto ele ganhava como professor na Universidade Columbia. Diante do pequeno valor informado, eles perguntam:

" - Sabe quanto ganha o palhaço Bozo?
- Bem, nem todos podem ser o palhaço Bozo. [retruca Van Doren]
- Não estou questionando sua escolha profissional, de modo algum. Estou questionando os valores da sociedade que paga alguém como você [tão pouco]. Planeja ter uma família, professor?
- Espero que sim.
- Como pode sustentar uma família [ganhando tão pouco por semana]? Olhe a crise educacional neste país.
- Bem, sim, eu concordo. É um problema nacional.
- Pelo que sei, você veio tentar o jogo Tic-Tac-Dough.
- Bem, meus amigos dizem que tenho uma cabeça boa pra esse tipo de coisa. Eles me empurraram...
- O que acha de participar do Twenty-One? [...] Você é jovem, elegante, vem de uma família proeminente. As crianças vão querer ser como o Charles Van Doren". (Um dos produtores acrescenta: "Se você fosse um garoto, iria querer ser um judeu irritante, com um corte de cabelo horrível?", referindo-se, claro, a Herbert Stempel, o vencedor do Twenty-One, mal-acabado e antipático, que não estava mais agradando ao patrocinador e deveria ser retirado do programa). O professor diz, então, que, quando criança, queria ser Joe DiMaggio - o astro do beisebol, bastante feio, mas que ainda assim casou-se com a maior estrela de cinema da época, Marilyn Monroe. Para ser ainda mais persuasivo, o outro produtor dispara: "É disso que esse país precisa: um Joe DiMaggio intelectual. Com mulher, dinheiro e muito mais, mas com cérebro ao invés de um taco e uma bola".

É óbvio que ninguém na TV estava preocupado com a crise educacional ou estava querendo colocar pessoas inteligentes em sua programação: a única coisa que interessava era melhorar os índices de audiência. Stempel não era mais vendável; por outro lado, havia muito a explorar em Van Doren. Ambos eram apenas instrumentos para ganhar dinheiro. Cumprido seu papel, podiam ser descartados. Quiz Show é uma ótima história por mostrar como vários dos aspectos negativos da televisão apontados hoje - como, por exemplo, seu constante pouco-caso com a lisura e a sua imensa capacidade de manipulação - acompanham este veículo de comunicação de massa desde seus primórdios e não são um expediente recente. O personagem Richard Goodwin, ao final de sua investigação, percebe, desiludido, que não conseguiu incriminar nenhum dos indivíduos poderosos à frente desse negócio lucrativo.

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O princípio organizador, estruturante da TV comercial, o seu centro axiológico, é o índice de audiência. O sociólogo Pierre Bourdieu - num livro ¹ ao qual voltarei noutra postagem, quando for discutir o papel canalha desempenhado pelo jornalismo corporativo brasileiro nos últimos tempos - acredita que a "mentalidade-índice-de-audiência" é o imperativo no meio televisivo. Essa mentalidade estabelece o que merece ganhar evidência e o que deve ser dispensado por não "gerar interesse". Todos os envolvidos com a televisão são pressionados pelo índice de audiência. E, claro, isso produz consequências sobre tudo o que se faz e pode ser feito na TV - e, como se verifica facilmente, muitas vezes isso extrapola o campo do entretenimento de massa e "contamina" outras áreas da cultura. Como observa Bourdieu,

"Por meio do índice de audiência, é a lógica do comercial que se impõe às produções culturais. Ora, é importante saber que, historicamente, todas as produções culturais que considero - e não sou o único, espero - que certo número de pessoas considera como as produções mais elevadas da humanidade, a matemática, a poesia, a literatura, a filosofia, todas essas coisas foram produzidas contra o equivalente do índice de audiência, contra a lógica do comercial. Ver reintroduzir-se essa mentalidade-índice-de-audiência até entre os editores de vanguarda, até nas instituições científicas, que se põem a fazer marketing, é muito preocupante porque isso pode colocar em questão as condições mesmas da produção de obras que podem parecer esotéricas, porque não vão ao encontro das expectativas de seu público, mas que, com o tempo, são capazes de criar seu público".

Antes de prosseguir, preciso ser bem honesto com o(a) eventual leitor(a). Em nenhum momento de minha vida achei que a televisão deveria desempenhar um papel instrutivo ou educacional, em sentido estrito. TV é entretenimento. Se quero aguçar meu pensamento, refletir sobre o mundo, abro um livro, vou a um teatro, museu, ou ouço boa música. Quando chego em casa, porém, de saco cheio do meu trabalho inútil e sem sentido, só desejo comer alguma coisa, deitar no sofá e mergulhar em algumas horas de passatempo escapista - que, no meu caso caso, pode ser uma partida de basquete/vôlei/tênis ou alguns episódios de Os Simpsons (por que iria querer aumentar minha irritação e frustração pensando e aprendendo mais sobre esse mundo de merda através de um programa "educativo"?). Sou capaz de apostar que até o intelectual mais consciencioso do planeta recorre, de forma ocasional ou regular, a algum tipo de estupefaciente: podem ser as drogas propriamente ditas (entre estas o álcool, do qual também me valho com frequência) ou até mesmo os delírios religiosos, místicos, proporcionados por cultos e crenças no sobrenatural (estes, todavia, dispenso). Penso que a programação televisiva também pode desempenhar essa mesma função de entorpecente. Mas se é só isso, a TV não passa de uma fonte de alienação e conformismo, certo? Bem...

Reitero o que disse acima: TV é entretenimento. Quando esta tem a pretensão de ser explicitamente educativa, geralmente temos programas que não agradam a ninguém. Contudo - e isso me parece óbvio -, nem todas as formas de entretenimento são iguais. Nem tudo o que a televisão produz é puro lixo.

Tá maluco?!? E a TV aberta brasileira? - protesta o(a) eventual leitor(a).

Sem grana pra pagar todo o pacote da NET, cortaram-me os canais por assinatura (mantive apenas a internet e o telefone): será assim pelos próximos três longos meses. E tenho que admitir: é desesperador voltar ao mundinho da Globo, SBT, Band... Como ainda se suporta ver Sílvio Santos jogando dinheiro nas pessoas, José Luiz Datena e congêneres simulando indignação na frente das câmeras enquanto expõem acriticamente e com gozo a tragédia urbana brasileira, as telenovelas repetindo o mesmo formato narrativo e estético de 50 anos atrás? E a quantidade sufocante de programação religiosa? Um horror! NOTA: Convém dizer que a TV paga também está cheia dos seus horrores próprios. O que não falta por lá são coisas como Keeping up with The Kardashians,  Dance Moms ou Escola para maridos.

É curioso notar que a melhor programação do sinal aberto está na TV Brasil (que, acertadamente, deixou de se chamar TVE, ou TV educativa, como era conhecida). Samba na Gamboa, Estação Plural, Sr. Brasil, Café Filosófico, Manos e Minas (estes três últimos produzidos pela TV Cultura de São Paulo), Alto-falante e Diverso (ambos, pela Rede Minas) são ilhas de bom entretenimento em meio a tanta porcaria. A má qualidade predominante na televisão nos remete sempre àquele velho enigma: a programação é ruim porque é isso que o público deseja assistir (como alegam as empresas do setor) ou o público consome essa merda apenas porque as corporações de mídia só oferecem isso?

De todo modo - e mesmo com a premência da internet hoje em dia -, não é possível desconsiderar o poder exercido pela televisão, ainda mais num país com o nosso handicap educacional. Atentemos para essa passagem do livro de Pierre Bourdieu:

" 'Com bons sentimentos, dizia Gide, faz-se má literatura', mas com bons sentimentos, 'faz-se índice de audiência'. Seria preciso refletir sobre o moralismo das pessoas de televisão: frequentemente cínicas, proferem palavras de um conformismo moral absolutamente prodigioso. Nossos apresentadores de jornais televisivos, nossos animadores de debate, nossos comentaristas esportivos tornam-se pequenos diretores de consciência que se fazem, sem ter de forçar muito, porta-vozes de uma moral tipicamente pequeno-burguesa, que dizem 'o que se deve pensar' sobre o que chamam 'os problemas da sociedade', [...] A mesma coisa é verdade no domínio da arte e da literatura: os mais conhecidos dos programas ditos literários servem - e de maneira cada vez mais servil - aos valores estabelecidos, ao conformismo e o academicismo, aos valores do mercado".

Nunca tivemos por aqui, pelo que sei, os "programas ditos literários", aos quais se refere o sociólogo francês, mas, para que a análise permaneça válida, podemos substituí-los por algumas das (raras) tentativas de entretenimento não apelativas produzidas pelos canais comerciais brasileiros ao longo do tempo (penso, por exemplo, na adaptação do Sítio do Picapau Amarelo, da Globo, ou no programa Era uma vez uma História, que estreia esta semana na Band). Se, por um lado, acho que TV deve ser exclusivamente entretenimento - e entretenimento não quer dizer, necessariamente, coisa ruim -, esforço-me, por outro lado, para não ser engambelado pela conversa fiada desses "pequenos diretores de consciência" .

No filme Quiz Show, há uma cena em que Charles Van Doren procura explicar para o pai seu envolvimento na fraude investigada pelo Congresso norte-americano. Diz que era "só televisão", algo supostamente inofensivo, usando a mesma fala de seus produtores, tentando convencer a si mesmo de que não havia nada de errado com sua conduta. Gostar de televisão, penso eu, não é pecado, nem uma falha de caráter. Mas não sejamos ingênuos e digamos "é só televisão" quando constatarmos algo pernicioso ou degradante nela - e, como todos estamos carecas de saber, há muita coisa perniciosa e degradante na TV.

Não se pode esquecer nunca que o entretenimento televisivo - por mais que se goste dele - está a serviço, quase todo o tempo, dos valores de mercado, como pontua Bourdieu.

Não é recomendável ficar o tempo todo preso à "tirania" da TV. Um "antídoto" para isso é alargar nossas referências culturais, lendo cada vez mais, em quantidade e profundidade, aproximando-se de manifestações artísticas com as quais não estamos habituados, fugindo da mesmice.

__________
¹ BOURDIEU, Pierre. Sobre a televisão. Rio de Janeiro: Zahar, 1997 [Tradução de Maria Lúcia Machado]

BG de Hoje

Alô, Aécio Neves, João Doria, Luciano Huck (e todos aqueles que estão - ou estiveram - do lado desses indivíduos): "Meninos mimados não podem reger a nação". Ouçam o recado do CRIOLO nesse sambão de primeira: Menino mimado.