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segunda-feira, 17 de agosto de 2026

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 "O reacionário é uma figura política radical que segue à risca a lógica que o nome aponta - ele vai reagir. Vive obcecado pelo propósito de executar uma ação destrutiva, violenta e robusta contra os perigos que ameaçam uma sociedade como consequência da manifesta tendência da vida moderna à democratização. Sua capacidade de mobilização é alta no ambiente político de uma comunidade em que cada indivíduo está por sua própria conta, não confia no outro e se apega exclusivamente aos pequenos núcleos de natureza privada, como os familiares ou religiosos. Nenhuma democracia resiste por muito tempo à perda generalizada do sentimento de confiança interpessoal e, nessa circunstância, o reacionarismo adquire uma potência de engajamento e mobilização surpreendente graças, sobretudo, ao uso de retórica e à moldagem de um conjunto de argumentos com aparência lógica fortíssima - mas fictícia". *

* STARLING, Heloisa Murgel. Brasil, país do passado. In: STARLING, Heloisa M.; LAGO, Miguel; BIGNOTTO, Newton. Linguagem da destruição: a democracia brasileira em crise. São Paulo: Companhia das Letras, 2022. p. 70-119 (o excerto acima está nas páginas 76-77) 

sexta-feira, 13 de março de 2026

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 "O capitalismo acelera diante de crises porque é um sistema cuja racionalidade está baseada na maximização de interesses individuais, acrescido da ilusão de que tal maximização produziria ao final a riqueza comum. Ou seja, cada um trabalha para si, tentando vencer o outro em uma relação constante de concorrência. Se todo mundo trabalhar para si mesmo, tentando sempre vencer concorrentes, o progresso acontecerá e a riqueza comum será produzida.

Isso é o que costuma se chamar de 'mão invisível do mercado'. Mas seria o caso de lembrar que o capitalismo nunca foi concorrencial, essa é só uma das falácias que ele procura naturalizar. O capitalismo sempre foi monopolista, seu livre-comércio sempre foi defendido quando o comerciante mais forte, quando os países de capitalismo mais agressivo, tinham certeza de que conseguiriam impor seus interesses aos demais.

Mas gostaria de insistir em outro ponto, a saber, do ponto de vista dos interesses individuais, não há razão alguma para eu não aproveitar crises e intensificar minha extração de lucro, assim como minha constituição de monopólios. Por que eu deveria me preocupar com o estado do meio ambiente em cinquenta anos se em cinquenta anos estarei morto? Utilizar a maximização de interesses individuais como padrão de validade equivale a implodir o tempo social organizando toda racionalidade do processo de produção a partir da maximização dos interesses do presente. E de nada adianta imaginar que tais exigências do presente seriam limitadas pelo 'estado do mundo que deixarei aos meus filhos'. Certamente, não será do amor do capitalista por seus filhos e filhas que podemos esperar alguma forma de freio de emergência contra o aprofundamento das crises". *

* Vladimir SAFATLE, na introdução da nova edição de seu livro  A esquerda que não teme dizer seu nome.  Ainda não comprei um exemplar (está na lista de títulos que, espero, terei condições de começar a adquirir a partir de junho), mas esse texto foi reproduzido no site A Terra é redonda,  disponível aqui. 

domingo, 16 de novembro de 2025

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 "Não existe racismo de negros contra brancos ou, como gostam de chamar, o tão famigerado racismo reverso. Racismo é um sistema de opressão e, para haver racismo, deve haver relações de poder. Negros não possuem poder institucional para ser racistas. A população negra sofre um histórico de opressão e violência que a exclui.

Para haver racismo reverso, precisaria ter existido navios branqueiros, escravização por mais de trezentos anos da população branca, negação de direitos a ela. Brancos são mortos por serem brancos? São seguidos por seguranças em lojas? Qual é a cor da maioria dos atores e apresentadores de TV? Dos diretores de novela? Da maioria dos universitários? Quem detém os meios de produção? Há uma hegemonia branca criada pelo racismo que confere privilégios sociais a um grupo em detrimento do outro.

[...]

Não se pode confundir racismo com preconceito e má educação. É errado xingar alguém, mas para haver racismo deve haver relação de poder, e a população negra não está no poder. Acreditar em racismo reverso é mais um modo de mascarar o racismo perverso com que vivemos. É a mesma coisa que acreditar em unicórnios, com o diferencial de que se está causando mal e perpetuando a desigualdade". *

* RIBEIRO, Djamila. Falar em racismo reverso é como acreditar em unicórnios. In:__________. Quem tem medo do feminismo negro?. São Paulo: Companhia das Letras, 2018. p. 41-43 

P.S.: No texto de onde o excerto acima foi extraído, a autora recomenda um vídeo do comediante Aamer Rahman no qual ele dá uma explicação humorística sobre como seria possível estabelecer o racismo reverso. Quando eu tinha um perfil no Facebook, vi na minha timeline esse trecho da apresentação de Rahman algumas vezes. Sempre vale a pena. 

domingo, 24 de agosto de 2025

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 "A ficção narrativa proporciona uma selva controlada, uma oportunidade de ser e de se tornar o Outro. O estrangeiro. Com empatia, clareza e o risco de uma autoinvestigação". *

 

 

* MORRISON, Toni. Narrar o outro. In: ________. A origem dos outros : seis ensaios sobre racismo e literatura. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 121 [Tradução de Fernanda Abreu]


sábado, 7 de junho de 2025

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"Ficar sozinha na corda bamba do desconhecimento da juventude é vivenciar a beleza excruciante da liberdade total e a ameaça de eterna indecisão. Poucos - se é que alguém - sobrevivem à adolescência. A maioria se rende à pressão vaga e assassina da conformidade adulta. Fica mais fácil morrer e evitar conflitos do que travar uma batalha constante com as forças superiores da maturidade.

Até recentemente, cada geração achava mais conveniente alegar culpa da acusação de ser jovem e ignorante, mais fácil aceitar a punição imposta pela geração mais velha (que tinha confessado o mesmo crime poucos anos antes). A ordem para crescer imediatamente era mais suportável do que o horror sem face do propósito oscilante que era a juventude.

As horas alegres em que os jovens se rebelavam contra o sol poente tinham que abrir caminho para os períodos de vinte e quatro horas chamados 'dias', que tinham nome e número.

A mulher negra é agredida nos anos jovens por todas essas forças comuns da natureza ao mesmo tempo em que fica presa no fogo cruzado triplo do preconceito masculino, do ódio branco ilógico e da falta de poder negro.

O fato de que a mulher negra americana adulta surge como uma personagem formidável costuma ser visto com surpresa, aversão e até beligerância. Raramente é aceito como resultado inevitável da luta vencida por sobreviventes que merece respeito, se não aceitação entusiasmada"  *

* ANGELOU, Maya. Eu sei por que o pássaro canta na gaiola. Bauru: Astral Cultural, 2018. p. 311-312 [Tradução de Regiane Winarski]

quinta-feira, 15 de maio de 2025

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 "Como num círculo vicioso, havia sempre um momento em que o pensamento civilizatório sucumbia a um processo entrópico, bombardeado em seus pontos mais frágeis, em suas dúvidas e contradições, e já não conseguia reagir às crises. Nesse momento, a violência tomava a dianteira como única resposta possível. E, para defender a fragilidade da nação, passavam a recorrer a expedientes típicos de regimes fascistas. O mesmo raciocínio podia ser aplicado a situações mais simples, circunscritas a universos particulares que serviam de microcosmos. O fundamental,  em todo caso, é que havia sempre um momento em que a razão fraquejava e desmoronava, bombardeada por todos os lados no que tinha de mais acabado: a dúvida, a reflexão, a hesitação. Nesses momentos críticos, a razão deixava de dar conta das contradições que trazia em si e que tinham se tornado cada vez mais visíveis e evidentes conforme ela também  se aprimorava e se afastava da barbárie, até ficar totalmente vulnerável ao oportunismo da brutalidade e às investidas das imposturas, dos sofismas e da burrice, como um corpo indefeso de tão puro. Na barbárie, não há dúvida nem hesitação, segue-se o caminho mais curto". *

* Um dos pontos da tese do Rato, protagonista do romance Simpatia pelo demônio, de Bernardo CARVALHO (Editora Companhia das Letras, 2016 - p. 31-32)

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

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 "I eventually chose freedom over unrealisable justice, after being detained for years and facing 175-year sentence with no effective remedy (...) I am not free today because the system worked. I am free today after years of incarceration because I pled guilty to journalism". *  **

* [Tradução aproximada] "Acabei por escolher a liberdade em vez de uma irrealizável justiça, depois de ficar detido por anos e encarar [a possibilidade de] uma sentença  de 175 anos sem um recurso efetivo (...) Não estou livre hoje porque o sistema funcionou. Estou livre hoje depois de anos de encarceramento porque me declarei culpado por fazer jornalismo"

** Fala de Julian ASSANGE em seu primeiro pronunciamento público após sair da prisão, reproduzida em matéria do jornal The Guardian, publicada em 01/10/2024. Ainda fico pasmado com a quantidade de pessoas que não consegue ver o quão tirânicas são muitas das ações dos EUA pelo mundo afora, independentemente das alternâncias entre os chefes da Casa Branca. E é horripilante saber que o processo contra o fundador do WikiLeaks não está entre as piores.

quinta-feira, 7 de novembro de 2024

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"No Brasil, mistura nunca foi sinal de igualdade. Mas isso sempre foi vendido como imagem ideológica de Estado.
[...] Basta ver que no Brasil a população negra não é uma minoria como nos Estados Unidos. É uma maioria, mas uma maioria minorizada na representação política, social, econômica e cultural também". *

 

* Declaração da antropóloga e historiadora Lilia Moritz SCHWARCZ dada em entrevista publicada pela Deutsche Welle, em 21/10/2024. Disponível em <https://www.dw.com/pt-br/no-brasil-mistura-nunca-foi-sinal-de-igualdade/a-70554195>. Acesso em 23/10/2024

sexta-feira, 3 de maio de 2024

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"Alguém já disse que a única coisa que cresce indefinidamente é o câncer. E os urbanistas, aqueles que amam as cidades, que gostam de lamber os muros da cidade, devem ficar horrorizados quando digo que as cidades estão crescendo como um tumor no corpo da Terra. Como vamos curar a Terra com essa praga das cidades expandindo-se de maneira inconsequente e indiferente ao fato de estarem plasmando o corpo da Terra dessa matéria manipulada por nós, o asfalto, as lajes, o piso e todas essas coisas que querem nos isolar do corpo da Terra, como se estivéssemos produzindo um nojo da Terra, isolados da terra? Talvez seja por isso que alguns idiotas estão querendo arrumar um foguete e ir para Marte, estabelecer-se em Marte, porque o nojo da Terra já se desenvolveu a ponto de essas pessoas não suportarem mais a atmosfera terrestre e quererem viver em outro planeta. Vi uma planta de uma espécie de assentamento em Marte, uma coisa totalmente futurista , 'super-hiper', sugerida como um equipamento capaz de se autorregular com o clima. Obviamente caberão meia dúzia de pessoas, enquanto o resto morrerá em algum lugar por aqui onde a vida não vale nada, e que se dane o planeta Terra". *

 

* KRENAK, Ailton. Saiam desse pesadelo de concreto! In: Habitar o Antropoceno/ organizado por Gabriela Moulin, Renata Marquez, Roberto Andrés e Wellington Cançado. Belo Horizonte: BDMG Cultural/Cosmópolis, 2022. p. 216-217

quarta-feira, 30 de agosto de 2023

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 "[...] Certas associações hoje são fáceis - e isso são vantagens que vieram com a era digital. Mas não quer dizer que vá fazer com que a lógica solidária ou colaborativa suplante a lógica acumulativa. [...] Então a lógica da remuneração do capital vai prevalecer e seguir o curso que as coisas vêm seguindo. O que quero dizer é: não é a tecnologia que muda a sociedade. Nunca foi. A sociedade, ou os movimentos sociais ou as relações sociais, é o que dão sentido social e histórico para a tecnologia, e não o contrário. Você pode falar de uma razão da técnica, e existe sentido nisso. Podemos até dizer que a técnica é uma língua (tudo com certas relativizações), mas a técnica por si estabelece mais diferenças, mais concentração e vira o modo próprio que se identifica profundamente com a natureza do capital, e não com uma natureza solidária ou o que se quer que se queira". *

* Afirmações do jornalista e professor da ECA-USP Eugênio BUCCI, publicadas em entrevista reproduzida no livro Cultura digital.br, organizado por Rodrigo Savazoni e Sergio Cohn (Editora Beco do Azougue, 2009). A entrevista de Bucci faz parte da seção Comunicação digital e as afirmações estão nas páginas 206 e 207.

quarta-feira, 12 de abril de 2023

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                    "podem ficar com a realidade
                esse baixo astral 
                     em que tudo entra pelo cano
 
                     eu quero viver de verdade 
               eu fico com o cinema americano"  *


 * LEMINSKI, Paulo. Podem ficar com a realidade. In: _________. Melhores poemas de Paulo Leminski [Seleção de Fred Góes e Álvaro Martins]. 6 ed. São Paulo: Global, 2002. p. 125

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

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 "Uma mulher pode - pasmem! - não desejar nenhum filho. Ou pode se achar imatura demais para ser mãe naquele momento de sua vida, mas planejar ter filhos mais tarde. Ou, o que tantas vezes ocorre, saber que a pobreza não lhe permite alimentar e cuidar bem dos filhos que já teve, por isso não saberia o que fazer com mais um. O machão carola que condena o aborto com frequência é o mesmo que abandonou mulher e filhos e desaparece para não ter que conceder a pensão prevista em lei.

A única conclusão possível depois dessas considerações [feitas pela autora nos parágrafos anteriores do texto do qual foi extraída esta citação] é a de que a criminalização do aborto reproduz, ainda que para muitos de forma inconsciente, antiquíssimos preconceitos contra a liberdade sexual da mulher. A falsa defesa dos 'direitos do embrião' e as acusações às mulheres que recorrem ao aborto não é o último, mas um dos mais hipócritas refúgios dos canalhas". *

* KEHL, Maria Rita. Hipocrisia. A Terra é redonda (website). Artigo publicado em 13/07/2022. Disponível em <https://aterraeredonda.com.br/hipocrisia/> . Acesso em: 18/07/2022

quarta-feira, 27 de abril de 2022

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"As próximas gerações e já esta geração são gerações de base matemática, mesmo que não tenham formação. Somos regidos por números e fórmulas. Nossa realidade é forjada pela matemática. Mas precisamos mais do que nunca entender o solo social em que a matemática se dá. Então as ciências humanas e sociais têm que se distanciar da matemática para entender efetivamente o que está se passando. Estamos num momento de crise das ciências sociais porque o momento áureo foi um momento de produção de ideias no século 19, na passagem da filosofia para a sociologia, economia, antropologia. As ciências que se fragmentaram, mas o que elas efetivamente produzem são ideias. E nós estamos numa crise de produção de ideias". *

 

* Resposta do professor, pesquisador, sociólogo, jornalista e escritor Muniz SODRÉ quando perguntado se num mundo regido por algoritmos, vale a pena estudar as ciências humanas ou deveríamos nos focar em matemática e outras ciências exatas. A declaração faz parte de uma entrevista publicada na edição de março/2022 da revista Educação (Na época dos algoritmos, escola só faz sentido com vínculo e paixão, diz Muniz Sodré, disponível aqui).

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

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"Well, I come from—as you said, I grew up in the hood. And so, when we think about these communities that we care about, the communities that have been so-called devastated by drugs of abuse, I believed that narrative for a long time. In fact, I’ve been studying drugs for about 23 years; for about 20 of those years, I believed that drugs were the problems in the community. But when I started to look more carefully, started looking at the evidence more carefully, it became clear to me that drugs weren’t the problem. The problem was poverty, drug policy, lack of jobs—a wide range of things. And drugs were just one sort of component that didn’t contribute as much as we had said they have.

[...]

People get addicted for a wide range of reasons. Some people have co-occurring or other psychiatric illnesses that contribute to their drug addiction. Other people get addicted because that’s the best option available to them; other people because they had limited skills in terms of responsibility skills. People become addicted for a wide range of reasons. If we were really concerned about drug addiction, we would be trying to figure out precisely why each individual became addicted. But that’s not what we’re really interested in. We are interested, in this society, of vilifying a drug. In that way, we don’t have to deal with the complex issues for why people really become addicted". *  **


* Afirmações do psicólogo e neurocientista estadunidense Carl HART, feitas durante entrevista para a organização jornalística Democracy Now!, publicada em 06/01/2014 ("Drugs aren't the problem", disponível aqui). Li essas afirmações há alguns anos e desde então constato como nossas sociedades disfuncionais lidam mal com a questão das drogas (lícitas ou ilícitas), sobretudo em relação às parcelas mais pobres da população. Ao invés de se olhar para o consumo abusivo de drogas como assunto de saúde pública, muitas vezes ligado a problemas sociais e econômicos ou à ausência de ações preventivas eficazes por parte do Estado, prefere-se adotar uma postura moralista, com repressão violenta aos usuários (àqueles que consomem substâncias consideradas ilegais, pois há muita complacência com o álcool, mesmo quando se sabe o quanto ele é danoso - a propósito, eu sou alcoólatra). Isso tudo sem falar no temor de se discutir franca e abertamente a possibilidade de descriminalização de alguns (ou, quem sabe, de todos os) entorpecentes e na insistência com a malsucedida "guerra às drogas" (que é, na verdade, uma guerra aos pobres). Sugiro também ao(à) eventual leitor(a) o documentário Crack: cocaína, corrupção e conspiração, no catálogo da Netflix. 

** [Tradução aproximada: "Bem, eu vim - como você disse, eu cresci na periferia. E assim, quando nós pensamos nessas comunidades com as quais nos importamos, as comunidades que têm sido chamadas de devastadas por drogas de abuso, eu acreditei nessa narrativa por um longo tempo. Na verdade, eu venho estudando drogas por cerca de 23 anos, por cerca de 20 desses anos, eu acreditei que as drogas eram os problemas na comunidade. Mas quando eu comecei a olhar mais cuidadosamente, comecei a olhar as evidências mais cuidadosamente, tornou-se claro para mim que as drogas não eram o problema. O problema era pobreza, a política de drogas, a falta de empregos - uma amplidão de coisas. E drogas eram apenas um componente que não contribuía tanto quanto nós dizíamos.

[...]

Pessoas ficam viciadas por uma amplidão de motivos. Algumas pessoas têm doenças psiquiátricas ou outras concomitantes que contribuem para seu vício em drogas. Outras pessoas ficam viciadas porque essa é a melhor opção disponível para elas: outras porque são limitadas em termos de capacidade de ser responsáveis. As pessoas se tornam viciadas por uma amplidão de motivos. Se nós estivéssemos realmente preocupados com o vício em drogas, nós estaríamos tentando descobrir precisamente por que cada indivíduo se tornou viciado. Mas não é nisso que estamos realmente interessados. Estamos, nessa sociedade, interessados em maldizer uma droga. Desse modo, não temos que lidar com questões complexas de por que as pessoas realmente se tornam viciadas".]


sábado, 23 de outubro de 2021

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 "A pluralidade humana, condição básica da ação e do discurso, tem o duplo aspecto da igualdade e da distinção. Se não fossem iguais, os homens não poderiam compreender uns aos outros e os que vieram antes deles, nem fazer planos para o futuro, nem prever as necessidades daqueles que virão depois deles. Se não fossem distintos, sendo cada ser humano distinto de qualquer outro que é, foi ou será, não precisariam do discurso nem da ação para se fazerem compreender. Sinais e sons seriam suficientes para a comunicação imediata de necessidades e carências idênticas.

A distinção humana não é idêntica à alteridade - à curiosa qualidade da alteritas, comum a tudo que existe e que, por conseguinte, para a filosofia medieval, é uma das quatro características básicas e universais do Ser, transcendendo toda qualidade particular. A alteridade é, sem dúvida, aspecto importante da pluralidade, a razão pela qual todas as nossas definições são distinções, pela qual não podemos dizer o que uma coisa é sem distingui-la de outra. Em sua forma mais abstrata, a alteridade está presente somente na mera multiplicação de objetos inorgânicos, ao passo que toda vida orgânica já exibe variações e distinções, inclusive entre indivíduos da mesma espécie. Só o homem, porém, é capaz de exprimir essa distinção e distinguir-se, e só ele é capaz de comunicar a si próprio e não apenas comunicar alguma coisa - como sede, fome, afeto, hostilidade ou medo. No homem, a alteridade, que ele partilha com tudo o que existe, e a distinção, que ele partilha com tudo o que vive, tornam-se unicidade, e a pluralidade humana é a paradoxal pluralidade de seres únicos".  *

* ARENDT, Hannah. A condição humana. 11 ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2013. p. 219-220 [Tradução de Roberto Raposo e revisão técnica de Adriano Correia]

quinta-feira, 3 de junho de 2021

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"Se não tivéssemos declarado boas as artes e inventado essa espécie de culto do não-verdadeiro: a compreensão da universal inverdade e mendacidade, que agora nos é dada pela ciência - a compreensão da ilusão e do erro como uma condição da existência que conhece e que sente -, não teria podido ser tolerada. [...] Nem sempre proibimos nosso olho de arredondar, de fingir até o fim: e então não é mais a eterna imperfeição que portamos sobre o rio do vir-a-ser - então pensamos portar uma deusa e somos orgulhosos e infantis nessa prestação de serviço. Como fenômeno estético, a existência é sempre, para nós suportável ainda, e pela arte foi-nos dado olho e mão e antes de tudo a boa consciência para, de nós próprios, podermos fazer um tal fenômeno. Temos de descansar temporariamente de nós, olhando-nos de longe e de cima e, de uma distância artística, rindo sobre nós ou chorando sobre nós: temos de descobrir o herói, assim como o parvo, que reside em nossa paixão do conhecimento, temos de alegrar-nos vez por outra com nossa tolice, para podermos continuar alegres com nossa sabedoria! E precisamente porque nós, no último fundamento, somos homens pesados e sérios e somos mais pesos do que homens, nada nos faz mais bem do que a carapuça de pícaro: nós precisamos usá-la diante de nós próprios - precisamos usar de toda arte altiva, flutuante, dançante, zombeteira, pueril e bem-aventurada, para não perdermos aquela liberdade sobre as coisas que nosso ideal exige de nós". *

 

* NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. A Gaia Ciência. In: _______________. Obras incompletas. 2 ed. São Paulo: Abril Cultural, 1978. p. 197-198 [Tradução e notas de Rubens Rodrigues Torres Filho] (Coleção Os pensadores)

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

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"Que prazer deve ter sentido Copérnico quando entendeu que o ajuste fino e as órbitas fechadas do esquema de Ptolomeu se deviam apenas ao fato de vermos o sistema solar a partir de uma Terra em movimento! Ainda falha, a teoria copernicana não se encaixava com os dados a não ser acrescentando complicadores esquisitos. E como Kepler, então, com seus dotes matemáticos, deve ter gostado de substituir a confusão copernicana pelo movimento elíptico, obedecendo às suas três leis!

Assim o mundo opera sobre nós como uma máquina pedagógica, dando momentos de satisfação como reforço positivo a nossas boas ideias. Depois de séculos, aprendemos quais são os tipos possíveis de entendimento e como podemos chegar a eles. Aprendemos a abandonar a busca de certeza, porque os entendimentos que nos deixam felizes nunca são certos. Aprendemos a fazer experimentos, sem nos preocupar com a artificialidade de nossas montagens. Desenvolvemos um senso estético que nos fornece pistas sobre as teorias que funcionarão, o que aumenta ainda mais o nosso prazer quando elas realmente funcionam. Nossos entendimentos são acumulativos. Não é algo planejado, é imprevisível, mas leva ao conhecimento confiável e nos dá alegria ao longo do caminho". *

* WEINBERG, Steven. Para explicar o mundo: a descoberta da ciência moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. p. 317-318 [Tradução de Denise Bottmann]

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

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 (Sobre os ateus)

"E aqui está o ponto, acerca de mim mesmo e de meus copensadores. A nossa crença não é um credo. Nossos princípios não são uma fé. Não nos baseamos unicamente na ciência e na razão, porque estas são fatores necessários mas não suficientes, mas desconfiamos de qualquer coisa que contradiga a ciência ou afronte a razão. Podemos diferir em muita coisa, mas o que respeitamos é a livre inquirição, a mente aberta, e a busca das ideias por elas mesmas. Não sustentamos nossas convicções de forma dogmática: [...] Não somos imunes à sedução do prodígio, do mistério e da reverência: temos música, arte e literatura, e achamos que os dilemas éticos sérios são mais bem tratados por Shakespeare e Tolstói, Schiller e Dostoiévski e George Eliot do que nos contos de moralidade míticos dos livros sagrados. A literatura, e não a escritura, sustém a mente e - já que não há outra metáfora - também a alma. Não acreditamos em céu ou inferno, todavia nenhuma estatística jamais concluirá que sem essas lisonjas ou ameaças cometemos mais crimes de cobiça ou violência que os fiéis. (Na verdade, se fosse possível fazer algum dia uma pesquisa estatística apropriada, estou seguro de que a evidência indicaria exatamente o contrário.) Nós aceitamos o fato de viver apenas uma vez, a não ser por meio dos nossos filhos, para os quais ficamos felizes em observar que devemos abrir caminho e dar espaço. Nós especulamos que é no mínimo possível que, uma vez que as pessoas aceitem o fato de suas vidas breves e árduas, elas possam se comportar melhor umas em relação às outras, e não pior. Acreditamos com certeza que uma vida ética pode ser vivida sem religião. E sabemos como fato que o corolário também vale - a religião tem levado inúmeras pessoas não só a se conduzir pior que outras, mas a lhes conceder permissão para se comportar de maneiras capazes de franzir a testa de uma dona de bordel ou de um responsável por limpeza étnica". *

* HITCHENS, Christopher. Deus não é grande: como a religião envenena tudo. 2 ed. São Paulo: Globo Livros, 2016. p. 18-21 [Tradução de George Schlesinger]

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Falou e disse...

"Não há que se falar em democracia – na ideia de democracia com uma ampla participação popular nas decisões políticas, nos rumos de um país, de uma comunidade – se não há igualdade racial.

A desigualdade racial sempre foi e será um constrangimento a qualquer projeto verdadeiro de democracia que vá além da mera formalidade. Quando há uma desigualdade racial gritante, que se manifesta na desigualdade econômica que atinge as pessoas negras, no tratamento institucional, na violência policial, no encarceramento em massa, na ausência de representatividade política e social, tudo isso vai gerando fissuras no discurso ideológico que diz que vivemos em democracia".

Afirmações feitas pelo professor, jurista e filósofo do direito Silvio ALMEIDA, publicadas em entrevista ao jornal Nexo (Não dá para falar de democracia sem falar da questão racial), em 01/06/2020, disponível aqui.

PS: Por mais que iniciativas individuais sejam necessárias na luta contra a discriminação e o preconceito raciais, é preciso compreender que o racismo é um fenômeno estruturante de nossas sociedades, cuja complexidade exige ações de outra magnitude para ser suprimido definitivamente. A esse respeito, vale a pena ouvir o que diz o próprio Silvio Almeida no vídeo abaixo, explicando o que é racismo estrutural (particularmente esclarecedor a partir do terceiro minuto de exibição).

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Falou e disse...

"Se eu gritasse ninguém poderia fazer mais nada por mim; enquanto, se eu nunca revelar a minha carência, ninguém se assustará comigo e me ajudarão sem saber; mas só enquanto eu não assustar ninguém por ter saído dos regulamentos. Mas se souberem, assustam-se, nós que guardamos o grito em segredo inviolável. Se eu der o grito de alarme de estar viva, em mudez e dureza me arrastarão pois arrastam os que saem para fora do mundo possível, o ser excepcional é arrastado, o ser gritante".*

* LISPECTOR, Clarice. A paixão segundo G. H. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. p. 62-63