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quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Livros de autorreconciliação: O deserto dos tártaros

Dois romances marcantes do século passado, publicados com uma diferença de quatro décadas entre um e outro, conectam-se a um célebre poema do grego Konstantinos Kaváfis ¹.  À espera dos bárbaros  (no idioma original e em caracteres latinos,  Periménontas toủs Varvárous )  é de 1904. Faço notar desde já que, a despeito da conexão, esses dois romances estão longe de manifestar o tom irônico que perpassa todo o poema.

Reproduzo abaixo a conhecida tradução feita por José Paulo Paes ²: 

  

À ESPERA DOS BÁRBAROS


O que esperamos na ágora reunidos?

      É que os bárbaros chegam hoje.

Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?

      É que os bárbaros chegam hoje.
      Que leis hão de fazer os senadores?
      Os bárbaros que chegam as farão.

Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?

      É que os bárbaros chegam hoje.
      O nosso imperador conta saudar
      o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe
      um pergaminho no qual estão escritos
      muitos nomes e títulos.

Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
de ouro e prata finamente cravejados?

      É que os bárbaros chegam hoje,
      tais coisas os deslumbram.

Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?

      É que os bárbaros chegam hoje
      e aborrecem arengas, eloquências.

Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?

      Porque é já noite, os bárbaros não vêm
      e gente recém-chegada das fronteiras
      diz que não há mais bárbaros.

Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.

 

J. M. Coetzee é o autor de um dos romances aludidos no início da postagem (já escrevi brevemente sobre ele aqui). Seu livro apareceu em 1980, sendo homônimo do poema de Kaváfis. É principalmente uma história sobre o poder exercido com disciplinada violência e perversidade. 

O outro texto a que fiz menção acima, também relacionado ao poema, veio a público em 1940.  O deserto dos tártaros,  de Dino Buzzati, serviu de inspiração para  À espera dos bárbaros,  de Coetzee. 

É do trabalho do escritor italiano que trataremos hoje (abordei-o anteriormente, por falar nisso, aqui e aqui).

. . . . . . .

No ensaio  Quatro esperas  (segunda parte do livro  O discurso e a cidade ), Antonio Candido reforça o entendimento a que chegamos todos os leitores da obra-prima de Buzzati: essa narrativa  "pertence à lista dos romances do desencanto" .  

O personagem central de  O deserto dos tártaros  é Giovanni Drogo, jovem que acaba de obter o posto de tenente. O rapaz é designado para prestar serviço no forte Bastiani, localizado num ponto remoto, fronteiriço a outro Estado (o  Reino do Norte ). Inicialmente disposto a permanecer na instalação militar apenas durante os poucos meses tidos como necessários para cumprir certas formalidades, Drogo acaba conformando-se com os ritos burocráticos do lugar, habituando-se às suas características e rotinas, sempre aguardando uma  hora milagrosa  que por fim forneça a ele a grande meta de sua vida. Durante a leitura, acompanhamos a progressiva desilusão e resignação do protagonista, ao finalmente se dar conta de que, com a sucessão dos dias e contrariamente às aspirações da juventude, não há nada de especial à sua espera e que ele não passa de  "um homem comum, a quem por direito não cabe senão um destino medíocre" ³.

A  fuga do tempo  é um dos grandes temas da narrativa:  "O tempo entretanto corria, marcando cada vez mais precipitadamente a vida com sua batida silenciosa, não se pode parar um segundo sequer, nem mesmo para olhar para trás. 'Pare, pare!', se desejaria gritar, mas vê-se que é inútil. Tudo se esvai, os homens, as estações, as nuvens; e não adianta agarrar-se às pedras, resistir no topo de algum escolho, os dedos cansados se abrem, os braços se afrouxam, inertes, acaba-se arrastado pelo rio, que parece lento, mas não para nunca".  Um fluxo ininterrupto, fora do controle humano, levando ao envelhecimento, ao cansaço e à fraqueza. A imagem fluvial aparece algumas vezes no texto de Buzzati:  " [...]  o rio da vida jogara-o agora para um lado, para os sorvedouros periféricos, embora no fundo ele não tivesse nem cinquenta anos".

Os inimigos que poderiam atacar o forte Bastiani - e imprimir um propósito maior na existência insossa do militar - só chegarão muitos anos mais tarde, quando Drogo mal se sustentava de pé. Tal como no poema de Kaváfis, os bárbaros não chegaram (pelo menos não da maneira pela qual ansiara o protagonista) e não trouxeram nenhuma solução.

Seguindo a inexpressiva vida de Giovanni Drogo, o leitor pode extrair a seguinte lição (sim, creio ser correto usar esse termo, talvez antiquado ou fora de lugar - lição): "o sentido da vida de cada um está na capacidade de resistir, de enfrentar o destino (totalmente 'absurdo') sem pensar no testemunho dos outros, nem no cenário dos atos, mas no modo de ser", como bem condensou Antonio Candido.

Nesta minha última releitura de  O deserto dos tártaros,  entretanto, fiquei a pensar mais detidamente nas sinas de dois personagens secundários - o soldado Lazzari e o tenente Angustina - e nas lições que também encerram.

. . . . . . . 

A monotonia do forte Bastiani não se alterava. Os homens passavam muito tempo olhando para a planície desolada e sem movimento. Entretanto, no capítulo XII, um cavalo é avistado por aqueles que estavam de guarda no Reduto Novo (uma guarnição mais afastada do corpo principal do forte), acontecimento suficiente para agitar um pouco a instalação. Há uma indecisão sobre qual atitude tomar, até que o soldado Giuseppe Lazzari, pensando ser o seu próprio cavalo que teria escapado, decide por conta própria ir buscar o animal.

Sem muito tempo de serviço, o soldado não cuidou que seria necessário informar a senha (que ele não sabia) para retornar ao Reduto. Mesmo sendo reconhecido pelo sentinela Moretto, acabou sendo alvejado e morto por este, a poucos metros da entrada, devido a rigidez do regulamento, constantemente reforçado pelo sargento Tronk, um caxias intransigente e obtuso, que observava a sentinela com olhar severo e desapiedado quando este apontava o fuzil para o incauto Lazzari.

O soldado foi morto por um apego ridículo à norma. Ele conhecia o atirador; eram amigos. Moretto foi impelido a fazer o que a regra determinava. Seu superior poderia simplesmente deixar passar, permitir o retorno de Lazzari sem a obrigação de dizer uma maldita senha - uma formalidade desnecessária, naquela circunstância -, mas não o fez. Esse episódio me faz pensar na insensibilidade e na indiferença como marcas de determinadas organizações dentro da sociedade, ancoradas em regulamentos que as eximem de fazer o que é moralmente certo.

Um pouco mais à frente, no capítulo XV, narra-se a expedição de um grupamento enviado para estabelecer uma área de fronteira ainda não oficialmente definida, uma vez que  os do Norte  fariam o mesmo, como já haviam se entendido os governantes dos dois Estados. Os oficiais no comando da tarefa eram o capitão Monti e o tenente Angustina.

Pietro Angustina era considerado esnobe e não demonstrava ter muito interesse pelos outros colegas de farda (talvez porque os considerasse inferiores). Apesar de não apresentar um bom quadro de saúde, insistia em permanecer no forte, mesmo tendo a possibilidade de ser transferido e voltar à cidade. De certo modo, ele também desejava sua  hora milagrosa.  Na partida da expedição, ao invés de proteger os pés com um calçado mais rústico adequado para o longo e acidentado percurso (como fizeram os soldados e o robusto capitão Monti), calçava botas elegantes.

Foram penosas, para Angustina, a caminhada e a pequena escalada no local da delimitação de fronteira. Monti forçava o ritmo do grupamento principalmente para espezinhar o outro oficial, com quem antipatizava. Ainda assim,  os do Norte  chegaram antes ao topo do terreno que ambos os exércitos almejavam. Começava a nevar fortemente, junto com a chegada da noite. Enervado, o capitão queria logo empreender a descida para fazer um contorno. O tenente ponderou que seria indigno, pois  os do Norte  já haviam realizado a "conquista". É nessa hora que Angustina propõe um jogo de cartas, um dos mais belos momentos do romance de Buzzati, no qual se mostra toda a força alegórica da narrativa, bem como seu sentido existencialista profundo. Chamo atenção para este trecho:

"Havia, numa sala do forte, um velho quadro representando o fim do príncipe Sebastião. Mortalmente ferido, o príncipe Sebastião jazia no coração da floresta, apoiando as costas num tronco, com a cabeça um pouco largada para um lado, a capa recaindo em harmoniosas pregas; nada havia na imagem da desagradável crueldade física da morte; e olhando-se para ele não era de admirar que o pintor tivesse conservado toda a sua nobreza e extrema elegância.

Agora Angustina, ah, não que estivesse pensando nisso, assemelhava-se ao príncipe Sebastião, ferido no coração da floresta; Angustina não tinha como ele a brilhante armadura, nem a seus pés jazia o elmo ensanguentado nem a espada partida; não apoiava as costas num tronco, mas numa dura pedra; nem o derradeiro raio de sol iluminava-lhe a fronte, mas apenas uma fraca lanterna. No entanto, parecia-se muito com ele, idêntica a posição dos membros, idêntico o drapejo da capa, idêntica a expressão de cansaço definitivo.

Então, naquele momento, comparados a Angustina, apesar de serem bem mais vigorosos e ousados, o capitão, o sargento e todos os demais soldados pareciam rudes camponeses. Monti sentiu, embora parecesse inverossímil, nascer dentro de si uma admiração invejosa. [...]"

Num lugar onde o heroísmo guerreiro não se materializava, Angustina conseguiu demonstrar bravura de uma outra forma, lidando de frente com a morte em meio a um jogo de cartas, ainda que postiço, numa noite tempestuosa de neve. A coragem e o senso de dignidade mostram-se em episódios inesperados da vida.

. . . . . . . 

Mais do que o habitual, sinto-me doente nos últimos meses. Mental e emocionalmente, sobretudo. Em períodos assim, costumo retornar a livros que costumam me fazer muito bem. São livros que busco para tentar me reconciliar comigo mesmo. Este magnífico de trabalho de Buzzati é um deles. Devo falar de outro assim na próxima atualização.

___________________ 

¹ Encontro muitas vezes a grafia  Konstantinos Kaváfis  em textos em português relacionados a esse  autor. Mas também já vi  Constantino(s) Cavafis  ou Cavafe. Em material de língua inglesa, é comum encontrar a grafia  Constantine P. Cavafy  ou simplesmente  C. P. Cavafy.

² Infelizmente não tenho em mãos o livro Poemas, da Editora Nova Fronteira, no qual Paes publicou mais de 70 textos de Kavafis traduzidos (incluindo  À espera dos bárbaros ). Reproduzi o poema nesta postagem valendo-me de um breve artigo da professora Walnice Nogueira Galvão, disponível aqui: <https://jornalggn.com.br/cultura/a-espera-dos-barbaros-por-walnice-nogueira-galvao/>.   Acesso em 28/09/2026.

³ Todas as citações de O deserto dos tártaros incluídas nesta postagem são oriundas da tradução feita por Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade para a Editora Nova Fronteira (Rio de Janeiro, 2017, 6ª edição) 

 

BG de Hoje

Nos últimos dois meses, tenho ouvido este petardo dilacerante sempre que posso:  Blow Up The Outside World, do SOUNDGARDEN. Poucas canções têm conseguido me ajudar a suportar os dias de merda que ainda estão por vir.