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quarta-feira, 29 de abril de 2026

A esquisita noção de dever em Sargento Getúlio

 

Seria possível encontrar algum traço de virtude no personagem Sargento Getúlio?

Estou me referindo à sua índole, a despeito de se tratar de um ser ficcional - dos mais memoráveis, diga-se de passagem, da literatura brasileira produzida a partir da segunda metade do século passado, em minha opinião.

Eticamente falando, trata-se de um sujeito abominável. Sem exagero, um monstro.

Portanto, para responder a pergunta acima, será necessário antes examinar as noções de  virtude  que comumente aceitamos.

Consultando o  Dicionário Básico de Filosofia,  de Japiassú e Marcondes ¹, encontramos três acepções: 1)  "qualidade ou característica de algo, uma força ou potência que pertence à natureza de algo";  2)  "qualidade positiva que faz com que  [o indivíduo]  aja de forma a fazer o bem para si e para os outros"  (cita-se a diferença de concepção existente entre Platão e Aristóteles, pois o primeiro considerava-a uma faculdade inata e o segundo, um atributo que pode ser adquirido); 3)  "a força da alma ou do caráter",  na filosofia moderna.

Sobre essa ultima acepção, o verbete acrescenta:  "Nesse sentido moral,  [a virtude]  designa uma disposição moral para o bem: 'A virtude é a força de resolução que o homem revela na realização de seu dever' (Kant). As  virtudes  designam formas particulares dessa disposição para o bem: a coragem, a justiça, a lealdade".

As definições acima não estão muito distantes das que se encontram nos dicionários convencionais e nem batem de frente com nosso entendimento usual. A partir delas, concedemos que agir com virtude, agir virtuosamente, é praticar o bem. Contudo, nenhum leitor de  Sargento Getúlio  hesitaria em apontar a crueldade como uma das principais características do personagem-narrador. Teria cabimento, então, falarmos de  virtude  numa discussão sobre esse livro?

É, parece que não. Mas pretendo continuar insistindo, pensando sobretudo na primeira acepção reproduzida parágrafos acima - "qualidade ou característica de algo, uma força ou potência que pertence à natureza de algo".

No prólogo, composto por duas frases apenas, João Ubaldo Ribeiro escreveu ²:

"Nesta história, o Sargento Getúlio leva um preso de Paulo Afonso a Barra dos Coqueiros.
É uma históra de aretê".

O termo  aretê  (ou, noutros textos,  areté : a grafia em grego é ἀρετή) costuma ser traduzido como  virtude,  principalmente nas versões em língua portuguesa da obra de Aristóteles, se eu não estiver enganado. Seria essa a interpretação definitiva do vocábulo?

No artigo  Os conceitos de nobreza, riqueza e valor em Homero ³, Adriana Santos Tabosa, (hoje professora na Universidade Estadual de Feira de Santana) faz as seguintes observações:

"Segundo W. Jaeger, o conceito de  areté  não pode ser interpretado simplesmente como virtude. O sentido de virtude não comporta a ideia de  areté  dos antigos gregos. O sentido de  areté  para os antigos gregos compreendia, sobretudo, uma força, uma capacidade. O vigor e a saúde são a  areté  do corpo. A sagacidade e percepção são a  areté  do espírito. Não é possível conciliar estas concepções com o sentido usual de virtude. A segunda acepção de  areté  significa respeito e prestígio. Em seu sentido original, o termo designava um valor objetivo naquele que qualificava, uma força que lhe era própria, que constituía a sua perfeição.  Areté,  ainda segundo Jaeger, é o atributo próprio da nobreza. O homem comum não possui  areté. Se o escravo pertencesse a uma família de estirpe, Zeus tirava-lhe metade de sua  areté. Os antigos gregos consideravam a destreza e a força a base de qualquer posição dominante. Nobreza e  areté  eram inseparáveis. O termo em grego  aristocratía  é originário da mesma raiz de  areté ".

Espero que o(a) eventual leitor(a) tenha notado que o sentido de  areté  como sendo  "uma força, uma capacidade"  vai ao encontro da noção de virtude ressaltada por mim anteriormente como podendo ser  "uma força ou potência que pertence à natureza de algo".  Nesse caso, então, poder-se-ia tratar de um força, uma capacidade, uma potência  não necessariamente benévola.

Em determinado momento da sua longa falação, Getúlio proclama:

"Olhe, eu sou um homem diferente, mas não diferente do jeito que você pensa, mas eu sou diferente porque me sinto diferente, é uma coisa. Posso dizer uma coisa que pensei lá no padre, mas escute calada [a fala é direcionada para Luzinete, com quem se envolvera noutro tempo e em cuja moradia ele estava nesse momento da narrativa], porque, se der risada, eu lhe dou uma porrada: eu sou Getúlio Santos Bezerra e meu pai era brabo e meu avô era brabo e no sertão daqui não tem ninguém mais brabo do que eu. E eu dou murro na testa do carneiro que aparecer e o carneiro morre. E tem mais coisas, mas eu não digo agora. Essas coisas eu acho que não se fala, talvez. Hum, não adianta. Eu sou eu. Meu nome é um verso: Getúlio Santos Bezerra, e de vez em quando eu penso que, não tendo ninguém melhor do que eu, tudo que pode me acontecer é melhor do que os outros. Hum. Não sei, acho que eu penso demais, não adianta".

E acrescenta:

"Não tem ninguém por trás de mim, essas alturas. Mas sendo eu mais do que qualquer coisa, porque eu sou eu e fui criado assim, pode acontecer tudo, que esse traste eu levo para Aracaju arrastado. Eu disse que levava, e levo e tiro de eito tudo, estou lhe dizendo. Depois pode ser o que for, não é preciso cascavilhar esse Sergipe inteiro atrás de mim, que eu estou livre e homem e quero ver, porque o pior que pode me acontecer é eu morrer e isso não é o pior. Pior é ser pataqueiro em qualquer engenho. Pior é não ser ninguém, mas lá no padre eu vi, quando conversei com os homens e Amaro estava com aquela ferramenta apontada dentro da igreja, eu vi o que é que eu sou, e eu sou eu, e por isso que eu vou levar esse animal e ninguém me empata, que se me empata eu destruo".

O personagem enxerga a si mesmo como uma  bizarria,  uma singularidade (  "eu sou um homem diferente" ;   "eu sou eu";  "ninguém melhor do que eu"  ). Em certo sentido, um  aristos  (grosso modo, alguém "melhor do que os outros"), mesmo que não passe de um jagunço/capanga, miserável que usa a farda da Polícia Militar sergipana, simples peão no duro jogo político de seu meio e de sua época. Para Getúlio, duas coisas importam mais do que tudo: destacar-se como alguém destemido e cumprir a missão dada (nesse caso, após tê-lo capturado, entregar o preso, custe o que custar), uma vez que empenhou a palavra diante do chefe, Acrísio Antunes:

"Tinha minha missão, isso tinha. E fiz. Tinha minha vida, isso também, e vivi, e se me perguntasse quer viver uma vida comprida amofinado ou quer viver uma vida curta de macho, o que era que eu respondia? Eu respondia: quero viver uma vida curta de macho, sendo eu  e mais eu e respeitado nesse mundo e quando eu morrer se alembrem de mim assim: morreu o Dragão. Que trouxe mortandade para os inimigos, que não traiu nem amunhecou, que não teve melhor do que ele e que sangrou quem quis sangrar".

Se não é possível para Getúlio ombrear-se em tudo com os heróis das epopeias homéricas, pode-se ao menos reconhecer nele o mesmo desejo de uma vida breve mas glorificada por suas pelejas, lembrada mesmo após a morte (Aquiles, na Ilíada, não ansiava por outra coisa). 

Chegamos ao ponto de controvérsia desta postagem. 

Quero lembrar ao(à) eventual leitor(a) que estamos falando de uma criação literária.

Getúlio é extremamente violento, desapiedado, sem remorsos (assassinou à faca a própria companheira grávida porque não queria "ser corno"). Um bronco incapaz de debelar a própria ignorância (já ciente de que, por ordem, deveria libertar o preso, mas decidido a não fazê-lo, dispara:  "O que eu não entendo eu não gosto, me canso [...]  Não gosto que o mundo mude, me dá uma agonia, fico sem saber o que fazer"  ). Mas é forçoso reconhecer nele determinação (alguns talvez prefiram falar em teimosia), além de coragem e um esquisito senso do dever. Tudo isso compõe a sua aretê.

Acabei de escrever  "esquisito  senso do dever", mas não estou tão seguro assim de toda essa esquisitice.

Bem, se estivermos pensando no  dever  dentro de um concepção kantiana, como o grande fundamento da ação moral  -  "age somente de acordo com aquela máxima, pela qual possas ao mesmo tempo querer que ela se torne uma lei universal" / "age como se a máxima de tua ação devesse tornar-se mediante tua vontade a lei universal da natureza"  ⁴  -, o personagem em discussão passa longe. Muito longe.

Porém, quando levamos em conta códigos arcaicos vigentes em áreas interioranas do Brasil onde o coronelismo ainda grassava (convém mencionar que a história de  Sargento Getúlio,   embora tenha vindo a público em 1971, ambienta-se na década de 1950), baseados na palavra dada e na fidelidade canina de alguns sicários para com seus chefes (certamente Acrísio Antunes livrou Getúlio da cadeia e ainda colocou-o no serviço policial), o termo  dever,  um dos sinônimos de  obrigação,  não soa tão estapafúrdio assim. 

E, não há como negar, é a pequena odisseia no cumprimento desse dever que proporciona a matéria narrada dessa novela/romance.

_______________

¹ VIRTUDE. In: JAPIASSÚ, Hilton; MARCONDES, Danilo. Dicionário básico de filosofia. 4 ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2006. p. 278.

² RIBEIRO, João Ubaldo. Sargento Getúlio. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2021. 

³ TABOSA, Adriana Santos. Os conceitos de nobreza, riqueza e valor em Homero. Hypnos, São Paulo, n, 26, 1º semestre 2011, p. 160-169. Disponível em: <https://hypnos.org.br/index.php/hypnos/article/view/230>   Acesso em: 21/04/2026

⁴ Essas citações de Immanuel Kant foram extraídas do livro Textos básicos de filosofia, de Danilo Marcondes (Jorge Zahar Ed, 2007, 5ª edição)

 

BG de Hoje

Daria tudo para ver a reação de alguém que fez parte do PINK FLOYD (particularmente a de David Gilmour) assistindo ao vídeo abaixo! Esta interpretação de  Have a Cigar,  pelo grupo norte-americano THE MAIN SQUEEZE, é de cair o queixo! Na primeira vez que vi, admito, meus olhos ficaram cheios de lágrimas (não estou mentindo). Acrescentou-se à canção um pouco mais de groove, mas não houve um afastamento radical da versão original. Tudo perfeitamente azeitado. O solo final tocado pelo guitarrista Maximillian Newman, entretanto, transformou essa apresentação numa coisa de outro planeta. A esse respeito, reproduzo aqui um dos comentários feitos lá no Youtube: "I’ve watched this cover a billion times over the last few years. I can’t tell you how, but I almost cry everytime during the guitar solo. You think it’s gonna end then the energy just picks up even harder than before. Freakin sick".

sábado, 16 de julho de 2016

Falou e disse...

"Na especulação é, contudo, um destino habitual da razão humana concluir o quanto antes seu edifício e apenas depois investigar se seu fundamento está bem assentado". *

* KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. São Paulo: Nova Cultural, 1999. p. 57 [Tradução de Valerio Rohden e Udo Baldur Moosburger]

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Afinal, o que é transcendental?: uma leitura de Kant





Dia desses estava cantarolando Trilhos urbanos, de Caetano Veloso. Num dos últimos versos aparece o título do disco em que a canção está contida, lançado em 1979, um dos melhores na carreira do artista baiano:

"Cinema transcendental 
trilhos urbanos Gal
cantando o balancê
como eu sei lembrar de você"


Por que Cinema transcendental? A referência ao cinema não nos parece fora de lugar; o compositor ligou-se ao universo fílmico noutros trabalhos. Já se disse muitas vezes, aliás, que a própria poética de Caetano Veloso recorre frequentemente à técnica da montagem cinematográfica (a canção da qual estamos falando é um bom exemplo). E o que se pode dizer a respeito do transcendental?

Bem, não posso afirmar peremptoriamente que o artista empregou o adjetivo no rigoroso sentido circunscrito por Immanuel Kant há mais de dois séculos. Desconfio, contudo, que o hábil letrista fez uma breve alusão, intencional, nessa direção. É uma bizantinice, admito, mas acho que vale a pena escrever sobre o assunto (quando menos, para evitar ambiguidades e equívocos terminológicos no trato com o pensamento do filósofo alemão).

Na Crítica da razão pura*, ele escreveu:

"Denomino transcendental todo conhecimento que em geral se ocupa não tanto com objetos, mas com nosso modo de conhecimento de objetos na medida em que este deve ser possível a priori. Um sistema de tais conceitos denominar-se-ia filosofia transcendental".

Farei agora um esboço (apenas um esboço, enfatizo) bem simplificado de alguns aspectos do pensamento de Kant para que possamos compreender melhor essa definição.

Antes, porém, é justo perguntar: pra que se deter na epistemologia de Kant? Não vale mais a pena procurar saber o que dizem os pensadores e cientistas contemporâneos?

Para responder a isso, recorro ao pesquisador brasileiro Daniel Omar Perez que, numa entrevista** anos atrás, disse magistralmente:

"O exercício da Filosofia é um exercício sistemático, mas não porque oferece sistemas como edifícios, mas porque se pergunta sistematicamente, porque leva o pensamento até seu próprio limite. Alguns saberes pensam os fenômenos, as coisas, os fatos. A Filosofia deve poder pensar o próprio pensamento que pensa esses fenômenos, coisas ou fatos. Kant é um filósofo porque nos obriga a nos interrogarmos radicalmente até onde o pensamento pode ser pensado. Contra uma determinada tradição filosófica, Kant mostra que o pensamento tem os limites da própria finitude a partir da qual se produz. Por isso, podemos dizer que todos os problemas que podemos formular são problemas que demandam resolução. Porém, a resolução desses problemas, nos limites daquilo que pode ser pensado, depende das condições de possibilidade de sua formulação. Essa é a pergunta sistemática que Kant encontra: a pergunta pelas condições de possibilidade".
. . . . . . .

O conhecimento transcendental, segundo Immanuel Kant, é um conhecimento apriorístico: "portanto" - escreve ele - "conhecimentos a priori entenderemos não os que ocorrem de modo independente desta ou daquela experiência, mas absolutamente independente de toda a experiência". Esses conhecimentos fazem parte do kit básico racional dos indivíduos e - importante - "nada de empírico está mesclado" a eles. O que os torna tão especiais? "Necessidade e universalidade rigorosa são, portanto, seguras características de um conhecimento a priori e também pertencem inseparavelmente uma a outra", diz o filósofo.

O que Kant buscava, por meio da filosofia transcendental, era "a ideia de uma ciência para a qual a Crítica da razão pura deverá projetar o plano completo, arquitetonicamente, isto é, a partir de princípios, com plena garantia da completude e segurança de todas as partes que perfazem este edifício".

A imagem arquitetônica reaparece em outros pontos da obra de Kant. Movido pelo mesmo anseio encontrado lá em Platão e Aristóteles, mas que também acometeu Descartes, Locke e Hume (para ficar só nestes) - qual seja, estabelecer as bases do conhecimento racional -, o filósofo alemão tencionou fixar em seu principal livro os fundamentos do edifício chamado Razão, algo imprescindível antes de se fazer qualquer outra tentativa de conhecer os objetos espalhados pelo mundo. Daí dizer-se razão pura, ou seja, não "contaminada" com as contingências da experiência. É um plano ambicioso? Of course it is! Apesar de simular modéstia, Kant sabia bem qual o alcance da tarefa que ele mesmo colocou diante de si:

"Não podemos denominá-la propriamente doutrina, mas somente crítica transcendental, pois tem como propósito não a ampliação dos próprios conhecimentos, mas apenas sua retificação, devendo fornecer a pedra de toque que decide sobre o valor ou desvalor de todos os conhecimentos a priori".

. . . . . . .

João de Fernandes Teixeira, um dos melhores colunistas da revista Filosofia Ciência e Vida, observou*** que

"Muito antes de a Psicologia existir como disciplina, Kant alertava para os perigos de se fazer uma ciência da mente. Já no século XVIII, ele indagava: como a mente poderia conhecer-se a si mesma e se seria possível conhecer sua natureza última, isto é, se a mente que podemos conhecer não seria diferente daquilo que ela de fato é. Para conhecermos a natureza da mente seria preciso ter um conhecimento transcendente; uma cadeira cósmica privilegiada da qual pudéssemos apreciar se a experiência subjetiva pode ser reduzida ao cérebro ou à Neurofisiologia, ou, inclusive, até que ponto elas se conectam. Nossa própria mente não nos dá esse ponto de vista privilegiado e, por isso, a resolução do problema mente-cérebro é cognitivamente inacessível".


Segundo Kant, nunca chegaremos à essência da realidade. Isso não é possível já que contamos apenas com os elementos a priori de nossa sensibilidade, o espaço e o tempo (“as formas da intuição sensível”, como diria o pensador alemão), combinados com as formas do entendimento (as “categorias da inteligência”) de que a razão humana dispõe. A coisa em si (o noumenon – ou númeno – kantiano) é inacessível a nós, em última instância. Os seres humanos só poderiam conhecer os objetos do mundo enquanto fenômenos, isto é, tais como são percebidos, melhor dizendo, como aparecem à nossa estrutura cognitiva em dadas condições. No excerto reproduzido logo acima, Teixeira reconhece que Kant, a despeito do estágio em que se encontrava a ciência de seu tempo, tinha consciência que o conhecimento possível aos humanos tem limites. A propósito, no trecho citado, o autor usa o adjetivo transcendente (e não transcendental, alguém reparou?). É porque o qualificativo ali foi usado nas acepções mais comuns da palavra (“algo que está/vai além da realidade ordinária”, o que leva algumas pessoas a associar o termo com o divino ou quase divino). O par transcendental - transcendente enseja certa confusão. É conveniente fazer algumas observações a respeito.

Kant usou os dois adjetivos na Crítica da razão pura. Porém, enquanto transcendental, como vimos, refere-se àquilo que antecede a experiência (uma condição de possibilidade para o conhecimento), o transcendente é aquilo que está além das experiências possíveis (opõe-se a imanente, que, segundo o filósofo, é o princípio “cuja aplicação se mantém completamente nos limites de uma experiência possível”). Mas deixarei isso de lado agora, pois, para o objetivo dessa postagem, interessa-nos mesmo é nos distanciarmos do uso popular desses termos. Frequentemente, transcendental (e sobretudo) transcendente são empregados no discurso religioso (particularmente no Budismo, Hinduísmo e Espiritismo). Sempre é bom reforçar, entretanto, que Kant não os emprega desse modo em seu livro mais destacado, obviamente.

. . . . . . .

Crítica da razão pura apresenta uma estética transcendental, seguida de uma analítica transcendental e é encerrada por uma dialética transcendental (as duas últimas formam a lógica transcendental). Todas são partes de uma “propedêutica ao sistema da razão”, de acordo com as palavras do próprio Kant. Juntas comporiam um ferramental bem útil para o saber, para o exercício do pensar.

Voltemos a Caetano Veloso. A humanidade, ao longo do tempo, vem acrescentando novos recursos e dispositivos culturais que auxiliam as tarefas do pensamento. Inimaginável na época de Immanuel Kant, o Cinema poderia ser um desses instrumentos? Como disse antes, desconfio (apenas desconfio) que o compositor baiano usou o adjetivo transcendental intencionalmente, como a aventar a possibilidade da inclusão do Cinema numa nova e pós-moderna “propedêutica ao sistema da razão”.

Ou não.

Talvez o poeta/letrista só estivesse procurando uma palavra satisfatória para rimar com Gal. Vai saber...

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* KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. São Paulo: Nova Cultural, 1999 [Tradução de Valerio Rohden e Udo Baldur Moosburger]

** A entrevista completa com Daniel Omar Perez pode ser encontrada no número 71 (junho de 2012) da revista Filosofia Ciência e Vida (Editora Escala Educacional)

*** TEIXEIRA, João de Fernandes. Kant, esse filósofo da mente. Filosofia Ciência e Vida, São Paulo, ano IV, n. 45, 2010, p. 52-53


BG de Hoje


Há muitas bandas de rock bem pretensiosas por aí. O MUSE é uma delas. Difícil de agradar na primeira vez em que se ouve, o grupo é odiado pela galera old school (consideram-no cheio de afetação). Mas já me acostumei. O som dos caras tem um jeitão meio Queen, meio Radiohead (fora que eles mantêm às vezes uma atitude auto-irônica bem bacana). A faixa United States of Eurasia (do disco The Resistence, 2009), com sua letra pacifista/humanitária, caiu no gosto dos fãs da banda, também por causa de seu arranjo orquestral. P. S. Pra falar a verdade, não gosto muito desses arranjos. Sempre me soam pomposos, um tanto inautênticos. Além do mais, fico com a impressão que os musicistas de orquestra odeiam ter que tocar com popstars (é como se fosse um rebaixamento da arte deles, sei lá).