Seria possível encontrar algum traço de virtude no personagem Sargento Getúlio?
Estou me referindo à sua índole, a despeito de se tratar de um ser ficcional - dos mais memoráveis, diga-se de passagem, da literatura brasileira produzida a partir da segunda metade do século passado, em minha opinião.
Eticamente falando, trata-se de um sujeito abominável. Não seria exagerado chamá-lo de monstro.
Portanto, para responder a pergunta acima será necessário antes examinar as noções de virtude que comumente aceitamos.
Consultando o Dicionário Básico de Filosofia, de Japiassú e Marcondes ¹, encontramos três acepções: 1) "qualidade ou característica de algo, uma força ou potência que pertence à natureza de algo"; 2) "qualidade positiva que faz com que [o indivíduo] aja de forma a fazer o bem para si e para os outros" (cita-se a diferença de concepção existente entre Platão e Aristóteles, pois o primeiro considerava-a uma faculdade inata e o segundo, um atributo que pode ser adquirido); 3) "a força da alma ou do caráter", na filosofia moderna.
Sobre essa ultima acepção, o verbete acrescenta: "Nesse sentido moral, [a virtude] designa uma disposição moral para o bem: 'A virtude é a força de resolução que o homem revela na realização de seu dever' (Kant). As virtudes designam formas particulares dessa disposição para o bem: a coragem, a justiça, a lealdade".
As definições acima não estão muito distantes das que se encontram nos dicionários convencionais e nem batem de frente com nosso entendimento usual. A partir delas, concedemos que agir com virtude, agir virtuosamente, é praticar o bem. Contudo, nenhum leitor de Sargento Getúlio hesitaria em apontar a crueldade como uma das principais características do personagem-narrador. Teria cabimento, então, falarmos de virtude numa discussão sobre esse livro?
É, parece que não. Mas pretendo continuar insistindo, pensando sobretudo na primeira acepção reproduzida parágrafos acima - "qualidade ou característica de algo, uma força ou potência que pertence à natureza de algo".
No prólogo, composto por duas frases apenas, João Ubaldo Ribeiro escreveu ²:
"Nesta história, o Sargento Getúlio leva um preso de Paulo Afonso a Barra dos Coqueiros.É uma históra de aretê".
O termo aretê (ou, noutros textos, areté : a grafia em grego é ἀρετή) costuma ser traduzido como virtude, principalmente nas versões em língua portuguesa da obra de Aristóteles, se eu não estiver enganado. Seria essa a interpretação definitiva do vocábulo?
No artigo Os conceitos de nobreza, riqueza e valor em Homero ³, Adriana Santos Tabosa, (hoje professora na Universidade Estadual de Feira de Santana) faz as seguintes observações:
"Segundo W. Jaeger, o conceito de areté não pode ser interpretado simplesmente como virtude. O sentido de virtude não comporta a ideia de areté dos antigos gregos. O sentido de areté para os antigos gregos compreendia, sobretudo, uma força, uma capacidade. O vigor e a saúde são a areté do corpo. A sagacidade e percepção são a areté do espírito. Não é possível conciliar estas concepções com o sentido usual de virtude. A segunda acepção de areté significa respeito e prestígio. Em seu sentido original, o termo designava um valor objetivo naquele que qualificava, uma força que lhe era própria, que constituía a sua perfeição. Areté, ainda segundo Jaeger, é o atributo próprio da nobreza. O homem comum não possui areté. Se o escravo pertencesse a uma família de estirpe, Zeus tirava-lhe metade de sua areté. Os antigos gregos consideravam a destreza e a força a base de qualquer posição dominante. Nobreza e areté eram inseparáveis. O termo em grego aristocratía é originário da mesma raiz de areté ".
Espero que o(a) eventual leitor(a) tenha notado que o sentido de areté como sendo "uma força, uma capacidade" vai ao encontro da noção de virtude ressaltada por mim anteriormente como sendo "uma força ou potência que pertence à natureza de algo". Nesse caso, então, poder-se-ia tratar de um força, uma capacidade, uma potência, não necessariamente benévola.
Em determinado momento da sua longa falação, Getúlio proclama:
"Olhe, eu sou um homem diferente, mas não diferente do jeito que você pensa, mas eu sou diferente porque me sinto diferente, é uma coisa. Posso dizer uma coisa que pensei lá no padre, mas escute calada [a fala é direcionada para Luzinete, com quem se envolvera noutro tempo e em cuja moradia ele estava nesse momento da narrativa], porque, se der risada, eu lhe dou uma porrada: eu sou Getúlio Santos Bezerra e meu pai era brabo e meu avô era brabo e no sertão daqui não tem ninguém mais brabo do que eu. E eu dou murro na testa do carneiro que aparecer e o carneiro morre. E tem mais coisas, mas eu não digo agora. Essas coisas eu acho que não se fala, talvez. Hum, não adianta. Eu sou eu. Meu nome é um verso: Getúlio Santos Bezerra, e de vez em quando eu penso que, não tendo ninguém melhor do que eu, tudo que pode me acontecer é melhor do que os outros. Hum. Não sei, acho que eu penso demais, não adianta".
E acrescenta:
"Não tem ninguém por trás de mim, essas alturas. Mas sendo eu mais do que qualquer coisa, porque eu sou eu e fui criado assim, pode acontecer tudo, que esse traste eu levo para Aracaju arrastado. Eu disse que levava, e levo e tiro de eito tudo, estou lhe dizendo. Depois pode ser o que for, não é preciso cascavilhar esse Sergipe inteiro atrás de mim, que eu estou livre e homem e quero ver, porque o pior que pode me acontecer é eu morrer e isso não é o pior. Pior é ser pataqueiro em qualquer engenho. Pior é não ser ninguém, mas lá no padre eu vi, quando conversei com os homens e Amaro estava com aquela ferramenta apontada dentro da igreja, eu vi o que é que eu sou, e eu sou eu, e por isso que eu vou levar esse animal e ninguém me empata, que se me empata eu destruo".
O personagem enxerga a si mesmo como uma bizarria, uma singularidade ( "eu sou um homem diferente" ; "eu sou eu"; "ninguém melhor do que eu" ). Em certo sentido, um aristoi (grosso modo, alguém "melhor do que os outros"), mesmo que não passe de um jagunço/capanga, pé-rapado que usa a farda da Polícia Militar sergipana, simples peão no duro jogo político de seu meio e de sua época. Para Getúlio, duas coisas importam mais do que tudo: destacar-se como alguém destemido e cumprir a missão dada (nesse caso, entregar o preso, custe o que custar), uma vez que empenhou a palavra diante do chefe, Acrísio Antunes:
"Tinha minha missão, isso tinha. E fiz. Tinha minha vida, isso também, e vivi, e se me perguntasse quer viver uma vida comprida amofinado ou quer viver uma vida curta de macho, o que era que eu respondia? Eu respondia: quero viver uma vida curta de macho, sendo eu e mais eu e respeitado nesse mundo e quando eu morrer se alembrem de mim assim: morreu o Dragão. Que trouxe mortandade para os inimigos, que não traiu nem amunhecou, que não teve melhor do que ele e que sangrou quem quis sangrar".
Se não é possível para Getúlio ombrear-se em tudo com os heróis das epopeias homéricas, pode-se ao menos reconhecer nele o mesmo desejo de uma vida breve mas glorificada por suas pelejas, lembrada mesmo após a morte (Aquiles, na Ilíada, não ansiava por outra coisa).
Chegamos ao ponto de controvérsia desta postagem.
Quero lembrar ao(à) eventual leitor(a) que estamos falando de uma criação literária.
Getúlio é extremamente violento, desapiedado, sem remorsos (assassinou à faca a própria companheira grávida porque não queria "ser corno"). Um bronco incapaz de debelar a própria ignorância (já ciente de que, por ordem, deveria libertar o preso, mas decidido a não fazê-lo, dispara: "O que eu não entendo eu não gosto, me canso [...] Não gosto que o mundo mude, me dá uma agonia, fico sem saber o que fazer" ). Mas é forçoso reconhecer nele determinação (alguns talvez prefiram falar em teimosia), além de coragem e um esquisito senso do dever. Tudo isso compõe a sua aretê.
Acabei de escrever "esquisito senso do dever", mas não estou tão seguro assim de toda essa esquisitice.
Bem, se estivermos pensando no dever dentro de um concepção kantiana, como o grande fundamento da ação moral - "age somente de acordo com aquela máxima, pela qual possas ao mesmo tempo querer que ela se torne uma lei universal" / "age como se a máxima de tua ação devesse tornar-se mediante tua vontade a lei universal da natureza" ⁴ -, o personagem em discussão passa longe. Muito longe.
Porém, quando levamos em conta códigos arcaicos vigentes em áreas interioranas do Brasil onde o coronelismo ainda grassava (convém mencionar que a história de Sargento Getúlio ambienta-se na década de 1950), baseados na palavra dada e na fidelidade canina de alguns sicários para com seus chefes (certamente Acrísio Antunes livrou Getúlio da cadeia e ainda colocou-o no serviço policial), o termo dever, um dos sinônimos de obrigação, não soa tão estapafúrdio assim.
E, não há como negar, é a pequena odisseia no cumprimento desse dever que proporciona a matéria narrada dessa novela/romance.
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¹ VIRTUDE. In: JAPIASSÚ, Hilton; MARCONDES, Danilo. Dicionário básico de filosofia. 4 ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2006. p. 278.
² RIBEIRO, João Ubaldo. Sargento Getúlio. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2021.
³ TABOSA, Adriana Santos. Os conceitos de nobreza, riqueza e valor em Homero. Hypnos, São Paulo, n, 26, 1º semestre 2011, p. 160-169. Disponível em: <https://hypnos.org.br/index.php/hypnos/article/view/230> Acesso em: 21/04/2026
⁴ Essas citações de Immanuel Kant foram extraídas do livro Textos básicos de filosofia, de Danilo Marcondes (Jorge Zahar Ed, 2007, 5ª edição)
BG de Hoje
Daria tudo para ver a reação de alguém que fez parte do PINK FLOYD (particularmente a de David Gilmour) assistindo ao vídeo abaixo! Esta interpretação de Have a Cigar, pelo grupo norte-americano THE MAIN SQUEEZE, é de cair o queixo! Na primeira vez que vi, admito, meus olhos ficaram cheios de lágrimas (não estou mentindo). Acrescentou-se à canção um pouco mais de groove, mas não houve um afastamento radical da versão original. Tudo perfeitamente azeitado. O solo final tocado pelo guitarrista Maximillian Newman, entretanto, transformou essa apresentação numa coisa de outro planeta. A esse respeito, reproduzo aqui um dos comentários feitos lá no Youtube: "I’ve watched this cover a billion times over the last few years. I can’t tell you how, but I almost cry everytime during the guitar solo. You think it’s gonna end then the energy just picks up even harder than before. Freakin sick".

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