A jornalista e apresentadora de TV alemã Dunja Hayali relatou que ela e Dirk Peglow, chefe da Associação Federal dos Detetives Alemães, receberam ameaças após a grande repercussão de uma das falas do policial numa entrevista transmitida no mês passado pela TV pública ZDF, onde Hayali trabalha (veja matéria da Deutsche Welle a respeito).
"Agora há homens que não criticam o aumento da violência contra as mulheres, mas, em vez disso, expressam fantasias violentas e ameaças de violência contra meu entrevistado e contra mim", disse a jornalista noutro veículo de mídia germânico.
Qual foi a declaração dada pelo detetive que provocou as reações hostis?
Após ser perguntado por Hayali que conselho ele daria às mulheres diante do aumento de 8,5% verificado em 2025 nas ocorrências de estupro e agressões sexuais (resultando na morte da vítima em vários casos), Peglow respondeu: "Melhor não entrar num relacionamento com um homem". E acrescentou: "Se entrar, o risco é muito maior de se tornar vítima de violência física ou psicológica".
Mais tarde, procurado pelo popular tabloide Bild, o policial virou um sabonete: "Minha fala foi obviamente um exagero. Não significava um conselho a ser seguido literalmente. A maioria esmagadora dos homens não é violenta nem criminosa".
Não consigo deixar de notar como as pessoas estão perdendo a capacidade de lidar com usos indiretos (conotativos, irônicos ou metafóricos) da linguagem. A competência linguística das pessoas parece estar encurtando. A advertência e a provocação implicadas no conselho de Peglow ("vejam, homens, a que ponto suas ações brutais estão chegando") não foram captadas (o que explica, em parte, o rebuliço subsequente); muitos interpretaram-no como uma disposição de criminalização in totum dos homens, praticamente obrigando o detetive a "prestar esclarecimentos" no Bild. Mais grave ainda, esse episódio também demonstra a permanência de uma apavorante recusa, por determinados grupos e por numerosos indivíduos, em sequer falar a respeito ou abordar (muito menos enfrentar de modo efetivo) a violência contra a mulher. As ameaças que se seguiram à entrevista expõem ainda mais a amplitude do problema.
De minha parte, muito antes de cruzar com essa notícia, já estava convencido há um certo tempo de que, diante de tantas ocorrências de assassinatos, abusos sexuais, estelionatos sentimentais e outros crimes, as mulheres, para sua própria proteção, deveriam verdadeiramente evitar relacionamentos com homens (este blogueiro não é exceção; embora não tenha cometido crime, já fiz merda e nada garante que não venha a fazer de novo). Grande parte dos machos da espécie humana não é confiável. Pior, tende a cometer atrocidades. O conselho do detetive alemão - mesmo se interpretado sem a intenção provocativa - me parece bastante razoável.
Em Mulheres alteradas, a promotora de justiça Carla Penteado fala algo nesse sentido, durante uma conversa com a narradora. Ela comenta que seu irmão, estudante de medicina, após um certo tempo frequentando as aulas de anatomia, passou a vomitar com frequência, provavelmente uma forma de reação ao contato repetitivo com os cadáveres e as partes seccionadas de seus corpos. Carla então diz ¹:
"De um jeito diferente [...], eu também tive o meu momento de vomitar a morte quando passei a trabalhar com esse monte de mulheres assassinadas. Porque é impressionante: isso aqui parece uma fábrica de pão quente. Morremos em escala industrial. Só que em vez de vomitar, como meu irmão, eu não conseguia mais me relacionar com homens. Homem para mim virou um negócio meio estranho, sabe? Tipo inimigo? Agora, depois de muito tempo, estou fazendo test-drive. Testo um, testo outro. Sempre com um pé atrás. Sempre com meu porrete do lado da cama. [...] Melhor precaver".
Devido à premência de sua temática principal - ainda mais quando se constata que, no primeiro trimestre deste ano, a cada cinco horas e 25 minutos um feminicídio foi registrado no país -, pode-se ter a impressão de que o romance de Patrícia Melo acabou de chegar às livrarias, mas seu lançamento, na verdade, se deu em fins de 2019.
Trata-se de um trabalho ficcional daqueles que vão direto ao ponto. Um tanto doloroso em vários momentos. A romancista mais uma vez coloca sua literatura a serviço do destrinchamento da violência brasileira (além dos ataques dirigidos às mulheres, aborda-se também a opressão aflige as comunidades indígenas). Em participação no Paiol Literário do jornal Rascunho há poucos anos ², Melo observou:
"É muito difícil você entender o Brasil de hoje sem entender a violência. O Brasil é um país muito violento. Na Europa, quando você fala que o Brasil tem 60 mil homicídios por ano as pessoas não acreditam ³ . É uma guerra civil. A gente mata mais do que determinados países em guerra. Essa sempre foi uma questão estrutural na minha literatura. Sempre me interessei pelo fenômeno da violência. Sempre tentei entender por que o Brasil se transformou em um país tão violento. Há muitas respostas para isso. Essas respostas não são conclusivas, são muito abertas e estão em todos os livros que tenho escrito".
A narrativa de Mulheres empilhadas - conduzida por uma jovem advogada paulista que viajou até Cruzeiro do Sul (Acre) para acompanhar o julgamento de diversos casos de feminicídio - exprime-se por meio de três segmentações do texto, ordenadas diferentemente e com algumas alterações gráficas: ora enumerando casos - reais - de assassinatos de mulheres noticiados pela imprensa (como o de Tatiane Spitzner e o de Engel Sofia Pironato ) ; ora apresentando a trama que amarra todo o livro, grande parte dela estruturada em torno do crime que resulta na morte de Txupira, uma adolescente indígena; e, por fim, contando as alucinações da personagem central, após participar de rituais de ayahuasca, nas quais um grupo de guerreiras logra vingança contra os agressores masculinos. Atingida ela própria por um ato de violência de gênero, além de ter que lidar com a memória e os efeitos emocionais e psicológicos relacionados ao cruel acontecimento do passado que vitimou sua mãe, a narradora, após uma semana acompanhando os julgamentos no tribunal de Cruzeiro do Sul, conclui:
" [...] nós, mulheres, morremos como moscas. Vocês, homens, tomam porre e nos matam. Querem foder e nos matam. Descobrem nossos amantes e nos matam. São abandonados e nos matam. Arranjam uma amante e nos matam. São humilhados e nos matam. Voltam do trabalho cansados e nos matam.
E no tribunal, todos dizem que a culpa é nossa. Nós, mulheres, sabemos provocar. Sabemos infernizar. Sabemos destruir a vida de um cara. Somos infiéis. Vingativas. A culpa é nossa. Nós é que provocamos. Afinal, o que estávamos fazendo ali? Naquela festa? Àquela hora? Com aquela roupa? Por que afinal aceitamos a bebida que nos foi oferecida? Pior ainda: como não recusamos o convite de subir até aquele quarto de hotel? Com aquele brutamontes? Se não queríamos foder? E bem que fomos avisadas: não saia de casa. Muito menos à noite. Não fique bêbada. Não seja independente. Não passe daqui. Nem dali. Não trabalhe. Não vista essa saia. Nem esse decote. Mas quem disse que seguimos as regras? Vestimos minissaias. Decotes que vão até o umbigo. E shorts enfiados no cu. Abusamos. Entramos em becos escuros. Temos nossas bocetas ligadas na tomada. Extrapolamos. Trabalhamos o dia inteiro. Somos independentes. Temos amantes. Gargalhamos alto. Sustentamos a casa. Mandamos tudo para o caralho. O curioso é que não matamos. Incrível como matamos pouco. Deveríamos, dadas as estatísticas do quanto morremos, matar muito mais. Mas, por algum problema talvez glandular, talvez estrutural, talvez ético, talvez físico, preferimos não matar. E assim, acabamos jogadas num terreno baldio, como a Chirley. Por insubordinação. Somos picadas e enterradas, como Ketlen. No quintal. Por desobediência. É isso que eu vi naquela semana".
Na mesma conversa publicada no jornal Rascunho, a romancista falou a respeito de seus objetivos e intenção ao escrever o livro:
"Queria juntar essas notícias [de feminicídios e outras violências de gênero] que estão fragmentadas [nos veículos de mídia e mesmo através de relatos interpessoais] e fazer uma coisa que fosse como uma punhalada, uma facada. Tinha esse projeto estético. Pensava como iria espetar o leitor. Até na busca das palavras, queria palavras pontudas. Queria um estilo meio facada".
Ela também declarou que a tarefa acabou adquirindo um contorno político:
"Você começa a ter toda essa informação [sobre a violência contra a mulher e seus desdobramentos] nas pesquisas, então é claro que isso te pega racionalmente, emocionalmente, e se transforma em um projeto político. Em um ato de resistência. Não quis em nenhum momento ser panfletária, mas quis ser política. Quis berrar um problema na cara das pessoas. Não sei se consegui, mas minha intenção foi essa".
Penso que não haveria outra maneira de escrever um livro em torno de um tópico tão hediondo - assassinatos de mulheres, muitas vezes por motivos absolutamente vis e executados com acentuada selvageria - que não fosse obrigando o leitor a sentir-se desconfortável, berrando sobre o problema em sua cara.
Nos Agradecimentos ao final do volume, Patricia Melo revela que o romance partiu de um convite feito por suas editoras, solicitando uma história com protagonismo feminino. Ela cita diversas pessoas, com ocupações profissionais diferentes, que tiveram algum papel ou prestaram algum auxílio na realização de Mulheres empilhadas. Não se tratou, portanto, de um empreendimento oriundo apenas da imaginação da escritora. Já tendo publicado mais de uma dúzia de trabalhos (literatura e dramaturgia), além da considerável experiência como roteirista, Melo amarrou tudo satisfatoriamente, inclusive tornando possível a quem lê mover-se pela narrativa como numa história do tipo "como resolver o mistério?" (no caso, o esclarecimento das outras mortes que se seguiram ao estupro e assassinato de Txupira). NOTA: Frequentemente definida como autora de romances policiais, Patrícia Melo costuma recusar esse rótulo.
Para terminar, sugiro ao(à) eventual leitor(a) o artigo Nova descida ao inferno: Patrícia Melo e as mulheres que matam, de Ieda Maria Magri, publicado na Revista de Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, da UnB (nº 62). Trata-se de uma análise bem mais severa e profunda do que a postagem acima (afinal, a articulista, além de escritora e crítica literária, é professora da UERJ). Vale a pena.
Na próxima postagem, tratarei da obra de José J. Veiga.
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¹ MELO, Patrícia. Mulheres empilhadas. São Paulo: LeYa, 2019
² Paiol Literário do jornal Rascunho, publicado na edição 260 (dezembro de 2021). Disponível em: <https://rascunho.com.br/paiol-literario/patricia-melo/>. Acesso em: 29/04/2026. Há também o vídeo com a conversa completa no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=_TnSoEJ8-9E
³ Contudo, de acordo com dados do Ministério da Justiça, a quantidade de assassinatos, considerando todos os tipos em conjunto, tem caído; se em 2017, chegou-se a 60 mil, em 2025, foram cerca de 34 mil. De todo modo, ainda é um número bastante alto. Fica próximo ao do México, por exemplo, um país em que se registram, com alguma frequência, diversos conflitos entre cartéis de narcotraficantes e entre estes e forças de segurança ou militares. Também é maior do que o número de civis mortos em quatro anos do confronto armado decorrente da invasão da Ucrânia pela Rússia (estimativa da ONU) .
BG de Hoje
IZA pertence àquela categoria de cantoras que, aparentemente, não precisam fazer força alguma para nos arrebatar com um vozeirão impressionante. Eu digo isso desde a primeira vez que ouvi esta irretocável versão dela para I Put a Spell on You.


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