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quinta-feira, 17 de julho de 2025

Felicidade, afinal, para quê?


Felicidade, afinal, para quê? Essa pergunta ficou na minha cabeça por muitas horas após terminar a leitura de A trégua.  A história do amor tardio ali contada (tardio pelo menos para uma das personagens) me chacoalhou um pouco, forçoso admitir, embora seu desfecho não fosse difícil de antecipar. Falaria sobre outra obra hoje, mas sinto que preciso me acertar com este livro de Mario Benedetti e com a emoção que senti. 

Publicado originalmente em 1960, o romance é construído a partir do diário de Martín Santomé, ser ficcional que enfeixa as características de um tipo de protagonista bastante frequente na literatura moderna, sobretudo a partir da segunda metade do século XIX, ligado à progressiva urbanização dos espaços: o sujeito sem qualquer excepcionalidade, um funcionário sem destaque, a mediania personificada, apenas mais um na multidão.

De olho na aposentadoria que se aproxima, Santomé, viúvo há bastante tempo, pai de três filhos já adultos, acaba se apaixonando por uma mulher muito mais jovem, Laura Avellaneda, empregada recém-contratada e subordinada a ele no escritório comercial onde ambos trabalham em Montevidéu.

Antes de abrir o livro, eu tinha dois motivos para me indispor com ele. Como já escrevi aqui e noutras postagens, não costumo apreciar histórias de amor. Além disso, acho a forma  diário  um expediente meio preguiçoso dos escritores ao construir uma narrativa literária (sou obrigado a aceitar,  contudo, que um de meus livros mais diletos - A náusea, de Sartre - foi feito nesse formato). A ficção apresentada como  diário,  porém, tem a vantagem de ser conduzida por uma voz narrativa em primeira pessoa propensa à sinceridade (aquela possível dentro uma história inventada, claro) e, em  A trégua,  assim como noutras composições similares, o mecanismo de identificação/afinidade entre narrador e leitor acaba se estabelecendo muito facilmente.

O protagonista é mordaz, mas nunca cruel ou isento de compaixão. Nem por isso deixa de mostrar-se um homem de seu tempo (chegando à meia-idade no intermédio do século passado), incapaz de emergir do machismo e da homofobia - a ironia é que tem um filho gay e, pela primeira vez, está aprendendo o valor do âmbito afetivo e sentimental de uma relação para além da crua atração física pela mulher amada.

Como seria de se esperar, é uma pessoa solitária, com uma vida desinteressante e banal, tendo como única atividade o trabalho - "essa espécie de constante martelar, ou de morfina, ou de gás tóxico" ¹. Antes de Avellaneda e ele começarem seu envolvimento (que o casal passa a chamar de  Assunto ), lê-se no diário a certa altura:

"Quase todos os domingos, almoço e janto sozinho, e inevitavelmente fico melancólico, 'O que fiz da minha vida?' é uma pergunta que soa a Gardel ou a Suplemento Feminino ou a artigo do  Reader's Digest. Hoje, domingo, sinto-me além do irrisório e posso me fazer perguntas desse tipo. Em minha história particular não se operaram mudanças irracionais, guinadas insólitas e repentinas".

Santomé sempre tivera "um leve mal-estar diante do pieguismo", mas não consegue deixar de se perguntar em determinado momento: "Por que será que o verdadeiro é sempre um pouco piegas?". Esse questionamento não é respondido: ele, entretanto, a cada dia, passa a compreender que não há como (e nem há necessidade de) fugir do sentimentalismo frente a essa paixão temporã, cuja verdade aceita: "Estou numa idade em que o tempo parece e é irrecuperável. Tenho  de me agarrar desesperadamente a esta razoável ventura que veio me buscar e me encontrou".

Trata-se, como se vê, de uma época crucial na vida do personagem (e o leitor, quem sabe, pode estar também no mesmo barco):  

"Hoje, em vários momentos do dia, pensei: 'Cinquenta anos', e minha alma despencou até o chão. Fiquei diante do espelho e não pude evitar um pouco de piedade, um pouco de comiseração por este tipo enrugado, de olhos fatigados, que nunca chegou nem chegará a nada. O mais trágico não é ser medíocre, mas inconsciente dessa mediocridade; o mais trágico é ser medíocre e saber que se é assim e não se conformar com esse destino que, por outro lado (isso é o pior), é de rigorosa justiça".

A esse sujeito "meio apagado mas inteligente", sem mais expectativas do que o desencargo da pós-aposentadoria, foi dada nova chance de experimentar a felicidade: 

"Quando um indivíduo permanece muito tempo sozinho, quando se passam anos e anos sem que o diálogo vivificante e investigativo o estimule a levar essa modesta civilização da alma, que se chama lucidez, até as zonas mais intrincadas do instinto, até essas terras realmente virgens, inexploradas, dos desejos, dos sentimentos, das repulsas, quando essa solidão se transforma em rotina, ele vai perdendo inexoravelmente a capacidade de sentir-se sacudido, de sentir-se viver. Mas vem Avellaneda e faz perguntas, e, sobre as perguntas que ela me faz, eu me faço muitas mais, e então sim, agora sim, sinto-me vivo e sacudido".
Nós, os desgostosos desse mundo, porém, estamos fartos de saber que a felicidade é um colossal engodo, quaisquer que sejam os modos como se queira enxergá-la ou defini-la. Não se tem muitas oportunidades de prová-la (no sentido de experenciá-la). A plenitude desse estado emocional, então, é algo ainda mais fortuito. Isso fica bem ilustrado num dos trechos memoráveis do romance:

"Fui até a cozinha, acendi o fogareiro e coloquei água para esquentar. Lá do quarto, ela me chamou. Levantara-se assim mesmo, embrulhada na manta, e estava junto à janela, vendo chover. Eu me aproximei, também olhei como chovia, e por alguns minutos não dissemos nada. De repente, tive consciência de que aquele momento, aquela fatia da cotidianidade, era o grau máximo de bem-estar, era a Ventura. Eu nunca havia sido tão plenamente feliz como naquele momento, mas tinha a aguda sensação de que nunca mais voltaria a sê-lo, pelo menos naquele grau, com aquela intensidade. O ápice é assim, claro que é assim. Além disso, tenho certeza de que o ápice é só um segundo, um breve segundo, um clarão instantâneo, e não há direito a prorrogações".

Aprendemos rapidamente (nós, os desgostosos) a dispensar a felicidade, a não contar com a felicidade. Não é só pelo fato de que ela tende a durar pouquíssimo. É principalmente por que ela pode nos ser tomada a qualquer momento, sem alertas ou avisos prévios. 

Devemos continuar sem mais nada além de nossas rotinas incolores e vazias, às quais estamos tão acostumados. 

_________________ 

¹ Todas as citações de A trégua aqui reproduzidas foram extraídas da edição publicada em 2007 pela Objetiva, com tradução de Joana Angelica D'Avila Melo.

 

BG de Hoje

Repito: histórias de amor não costumam me atrair. Ano retrasado, no entanto, numa das minhas (muitas) noites de insônia, decidi assistir à série Wolf Like Me (disponível no Amazon Prime). Não estava muito interessado, a princípio, mas fui sendo fisgado progressivamente. Resultado: adorei a primeira temporada (não tenho como avaliar a segunda porque ainda estou na metade). Embora o sobrenatural exerça papel essencial na trama, a série trata sobretudo dos laços que podem surgir entre um casal formado por indivíduos angustiados, após sofrerem perdas amorosas pesadas. É um tanto sentimentaloide? Sim. Mas deu certo como entretenimento. Além disso, a produção fez um ótimo trabalho na trilha sonora. O maior exemplo foi o uso de Fortress, uma das melhores canções do QUEENS OF THE STONE AGE em momentos significativos.

terça-feira, 21 de janeiro de 2025

Cem anos de solidão : a série e o livro (I)

Registrei uma vez aqui no blog - não estou bem certo onde - que só escrevo sobre livros dos quais gosto ou sobre aqueles que tiveram papel determinante na minha trajetória de leitor. Bem, pelo menos na maioria dos casos. Um critério bem mixuruca, obviamente, mas é assim que a banda toca no  Besta Quadrada , o único lugar em que posso experimentar uma sensaçãozinha de autonomia. Há uma imensidão de textos a serem lidos, o tempo de que disponho não é infinito e, ano após ano, o meu entusiasmo pelas coisas em geral vem decrescendo. É preciso, pois, fazer escolhas.

Assim sendo, como foi difícil escrever a postagem atual!

A chegada de uma adaptação do  Cem anos de solidão  na Netflix me fez relê-lo algumas semanas atrás: não me lembrava da última vez que o fiz. Foi difícil, simplesmente, porque não gosto desse romance. Além disso, Gabriel García Márquez não é um escritor de minha particular estima; com exceção de Relato de um náufrago  e, por razões diferentes, Crônica de uma morte anunciada, sua obra me interessa bem pouco.

Acontece, porém, que estamos falando do Cem anos de solidão , um livro não só amado por um montão de gente mundo afora, particularmente na América Latina e Caribe, mas também reputado como uma grandiosa façanha literária: Pablo Neruda, por exemplo, considerava-o a maior revelação em língua espanhola desde o  Dom Quixote. Então, às favas com meu critério ordinário.

Para começar a conversa, devo dizer que achei a adaptação da Netflix muito boa e isso me surpreendeu. Parte das produções da empresa sempre me pareceram pasteurizadas demais e não foi o caso dessa, embora os roteiristas tenham recorrido aqui e ali a alguns recursos um tanto gastos da teledramaturgia - afinal, uma companhia de streaming tão grande nunca deixará a preocupação com os índices de audiência de lado e precisa atrair o maior número possível de espectadores.

Os principais méritos, a meu ver, estão nas movimentações de câmera e na concepção cenográfica tanto de Macondo quanto a da casa da família Buendía (acompanhar, a cada episódio, as mudanças na arquitetura do imaginário povoado/município e, sobretudo, na residência foi muito prazeroso). O trabalho dos atores também merece ser destacado: Susana Morales Cañas (que interpreta Úrsula Iguarán,  enquanto jovem) e Janer Villarreal (que interpreta o Arcadio adulto, o filho de José Arcadio e Pilar Ternera) são meus preferidos. A narração em  off  - recurso geralmente não muito apreciado em trabalhos audiovisuais - ficou na medida certa.

Cem anos de solidão, como se sabe, é daqueles romances profusos, conjugando diversas historietas ramificadas, casando muito bem com o formato seriado (se fizessem um filme a partir da narrativa literária, é bastante provável que não daria certo, mesmo que tivesse, sei lá, quatro horas de duração). Entretanto, concordo com Rodrigo García Barcha, cineasta e um dos filhos de García Márquez, que a série "é uma experiência diferente e deve ser apreciada pelo que é, sem comparar constantemente com o livro. Para mim, são projetos-irmãos que se complementam". 

Às vezes, porém, a comparação é incontornável. Penso, por exemplo, num dos momentos mais marcantes (pelo menos para mim) : a morte de José Arcadio - não o patriarca, mas seu filho primogênito de mesmo nome - e como a fatídica notícia chegou à sua mãe. Reproduzo o trecho abaixo ¹:

"Uma tarde de setembro, diante da ameaça de uma tempestade, [José Arcadio] voltou para casa mais cedo que de costume. Cumprimentou Rebeca na copa, amarrou os cachorros no quintal, pendurou os coelhos na cozinha, para salgá-los mais tarde, e foi para o quarto trocar de roupa. Rebeca declarou depois que quando o marido entrou no quarto, ela se fechou no banheiro e não percebeu nada. Era uma versão difícil de acreditar, mas não havia outra mais verossímil, e ninguém pôde conceber um motivo para que Rebeca assassinasse o homem que a tinha feito feliz. Este foi talvez o único mistério que nunca se esclareceu em Macondo. Logo que José Arcadio fechou a porta do quarto, o estampido de um tiro retumbou na casa. Um fio de sangue passou por debaixo da porta, atravessou a sala, saiu para a rua, seguiu reto pelas calçadas irregulares, desceu degraus e subiu pequenos muros, passou de largo pela Rua dos Turcos, dobrou uma esquina à direita e outra à esquerda, virou em ângulo reto diante da casa dos Buendía, passou por debaixo da porta fechada, atravessou a sala de visitas colado às paredes para não manchar os tapetes, continuou pela outra sala, evitou em curva aberta a mesa da copa, avançou pela varanda das begônias e passou sem ser visto por debaixo da cadeira de Amaranta, que dava uma aula de Aritmética a Aureliano José, e se meteu pela despensa e apareceu na cozinha onde Úrsula se dispunha a partir trinta e seis ovos para o pão. 
- Ave Maria Puríssima! - gritou Úrsula.

Seguiu o fio de sangue em sentido contrário, e em busca da sua origem atravessou a despensa, passou pela varanda das begônias onde Aureliano José cantava que três e três são seis mais três são nove, e atravessou a copa e as salas e seguiu em linha reta pela rua, e em seguida dobrou à direita e depois à esquerda até a Rua dos Turcos, sem se lembrar que ainda trazia vestidos o avental de cozinha e as chinelas caseiras, e saiu para a praça e se meteu pela porta de uma casa onde não havia estado nunca, e empurrou a porta do quarto e quase se sufocou com o cheiro de pólvora queimada e encontrou José Arcadio caído de bruços no chão, sobre as polainas que acabava de tirar, e viu a fonte original do fio de sangue que já havia deixado de fluir do seu ouvido direito. Não encontraram nenhuma ferida no seu corpo nem puderam localizar a arma"

Estou convencido de que o percurso do fio de sangue não se tornará, visualmente falando, uma das sequências memoráveis da série; isso me desagradou um pouco, para ser sincero. Penso também que a pungência do relato escrito foi perdida, ainda que a voz em off  tenha repetido quase textualmente essas frases do livro: "Era uma versão difícil de acreditar, mas não havia outra mais verossímil, e ninguém pôde conceber um motivo para que Rebeca assassinasse o homem que a tinha feito feliz. Este foi talvez o único mistério que nunca se esclareceu em Macondo".  No episódio televisivo, Úrsula não gritou  "Ave Maria Puríssima!"  e, ao chegar à  "a casa onde não havia estado nunca", encontrou o filho caído de costas e não de bruços.

OK, OK, pode ser apenas um descabido excesso de rigor ou um purismo artístico bobo da minha parte, mas, ao cabo, o que estou querendo ressaltar nada mais é do que um fenômeno conhecido por todos nós: a impossibilidade de um trabalho audiovisual reproduzir fielmente um trabalho literário.

A primeira temporada encerrou-se com a morte do fundador de Macondo (a chuva de flores amarelas ficou muito bonita) e o avanço da tropa de Aureliano para recuperar o controle da localidade. A segunda temporada provavelmente mostrará o crescimento e a queda da cidade, após a passagem da Companhia Bananeira (não dá para esquecer aquela célebre frase do Coronel Buendía:    "Olhem a  confusão  em que  nos metemos só por termos convidado um americano para comer banana" ). Curioso para ver como será o retrato da alucinada e insuportável carola Fernanda del Carpio e como mostrarão o paulatino crescimento da amargura e do rancor inesgotáveis de Amaranta.

Nada mais a fazer senão aguardar.

_______________

¹ MÁRQUEZ, Gabriel García. Cem anos de solidão. Rio de Janeiro: O Globo; São Paulo: Folha de S. Paulo, 2003 [Tradução de Eliane Zagury]. Essa é, atualmente, a única edição do livro que tenho em casa, para acesso rápido e direto.

BG de Hoje

ZIZI POSSI nunca fez uma aparição nesta seção do blog. Um vacilo sem tamanho da minha parte, pois é das minhas intérpretes favoritas. A cantora tem uma sólida formação musical: é pianista e cursou regência e composição na UFBA. Mas, besta quadrada que sou, só fui saber disso há poucos anos, assistindo sua participação no célebre Ensaio (TV Cultura) e no bom programa do Charles Gavin no Canal Brasil,  O Som do Vinil  (tudo disponível no Youtube). Poderia ter se tornado concertista ou seguido carreira acadêmica. Felizmente, preferiu não nos privar de sua lindíssima voz. Escolho  É a vida que diz, do disco Asa Morena, o álbum que a fez conhecida nacionalmente. Gosto demais dessa canção, uma das muitas resultantes da parceria entre os irmãos Marina Lima e Antonio Cicero, falecido recentemente (um terceiro autor - Pisca - também assina a composição). A própria Marina a gravou, mas a versão de Zizi Possi é excelente.

quinta-feira, 29 de agosto de 2024

A violência e o sexo

"Assim como Sade, ele podia conceber que o amor não existisse e que o sexo viesse do mesmo desejo que leva o homem a matar. Mas, assim como o amor burguês era insustentável a longo prazo (e o fim do sexo no casamento lhe parecia uma prova cabal), também o prazer do assassinato não podia sobreviver aos segundos do gozo. Ele estava entre a cruz e a caldeirinha".

O narrador, em Simpatia pelo demônio, de Bernardo Carvalho

 

 

Somente no último mês de julho consegui assistir a série Killing Eve.

Sempre soube do burburinho em torno da produção britânica, mas, na época (2019, acho), eu não era assinante do streaming que a exibia aqui no Brasil (Globoplay). Quando o programa chegou à Netflix, a coisa ficou mais fácil. 

Estou entre os espectadores que vibraram com as duas sensacionais primeiras temporadas e que depois se decepcionaram com as duas últimas, sobretudo aquele episódio final horrível (terá sido um efeito da pandemia?).

As belíssimas locações, os cenários, os personagens atrativos (pelo menos o foram nas duas primeiras temporadas), os toques de humor desconcertantes e mórbidos, as performances das atrizes principais (particularmente Jodie Comer), entre outros ingredientes, explicam o interesse que a série despertou. Entretanto, gostaria de ressaltar um outro aspecto de Killing Eve. 

Óbvio que a violência é um componente importante nas histórias ali contadas - afinal, uma das protagonistas é uma psicopata cuja profissão é justamente matar pessoas. O sexo, entretanto, é um outro elemento muito bem explorado, mesmo que quase não haja cenas representando o ato.

A começar por Villanelle, constantemente reclamando de tédio. Ser bem paga, vestir-se esplendorosamente bem, viajar por importantes cidades europeias - além do êxtase que devia experimentar na execução dos assassinatos -, tudo isso mostra-se insuficiente para aplacar seu fastio. Como costuma acontecer com os psicopatas, os outros seres humanos são para ela apenas objetos ou peças às vezes úteis para alcançar certas finalidades (entre estas, a satisfação sexual), exceção para Konstantin e, claro, Eve Polastri, pelos quais demonstra emoções diferentes. É na tensão, inclusive erótica, entre ela e Eve que acontecem alguns dos momentos mais marcantes da série. 

A propensão para o sexo, no princípio, não parece ser um traço acentuado em Eve, mas isso vai mudar, à medida que, por meio de avanços e recuos, as coisas se intensificam na sua busca por Villanelle. Ela também ficará mais violenta: a mulher que atira na cabeça de um dos líderes dos "12" na última temporada difere daquela analista do MI5/MI6 dos primeiros episódios, brilhante mas meio desajeitada, observando fotos e relatórios dentro de um escritório mixuruca. E o espectador concorda com a criminosa quando ela diz a certa altura que Eve só se tornou uma pessoa mais interessante por causa dela, Villanelle.

E o que dizer da personagem Carolyn Martens (ótima atuação de Fiona Shaw), com amantes que ocuparam (e ocupam) cargos na diplomacia e nas agências de inteligência estrangeiras, aos quais ela poderá recorrer - ou usar - se necessário?

Estava marginalmente pensando nisso - não tem muito a ver, eu sei - enquanto lia Simpatia pelo demônio, romance de Bernardo Carvalho publicado em 2016 pela Companhia das Letras.

No mesmo ano de lançamento, o escritor deu uma curta entrevista para o Correio Braziliense. Quando perguntado se era possível dizer que o livro é sobre as relações de domínio, afirmou:

"Toda relação amorosa tem um pouco a questão do poder. Em toda questão sexual e afetiva, querendo ou não, o poder está embutido. Nas relações sexuais, sobretudo nas fantasias sexuais, a coisa do poder está muito presente, da pessoa que se submete e da outra que domina, isso faz parte das perversões, das taras".

Nunca pesquisei a respeito, mas suponho que a associação entre sexo e poder deve ser o tema central de diversos textos, ficcionais ou não, assim como a associação entre sexo e violência (pois o poder muitas vezes se manifesta violentamente).

Em Simpatia pelo demônio, são contadas duas histórias, vividas pelo mesmo personagem (o Rato) : a tentativa do pagamento de um resgate numa zona de guerra em algum lugar do Oriente Médio e um relacionamento amoroso que culmina na derrocada de um dos sujeitos. 

Carvalho é conhecido por conjugar diferentes vozes narrativas em alguns de seus livros. Neste romance, contudo, temos, aparentemente, um único narrador em terceira pessoa. Digo aparentemente  porque há uma certa mudança de registro quando se olha para determinadas partes da narrativa. Na primeira (A agência humanitária) e na última (O resgate), em que a ação predomina, o leitor depara-se com um narrador mais convencional, direto. Nas três partes intermediárias (sobretudo em Perdeu), o tom adotado me pareceu ligeiramente mais zombeteiro (sem ser cômico, porém) e o foco passa a ser o sofrimento e a desilusão do Rato após conhecer e se apaixonar pelo - assim alcunhado - chihuahua. A marca, digamos, cosmopolita do autor permanece, situando os acontecimentos em diferentes lugares do planeta: Berlim, Rio de Janeiro, Nova York, uma região não especificada do Oriente Médio...

No livro, o protagonista acabou seguindo, em seu malogrado caso,  

"o manual do homem de meia-idade que, inconformado com a decadência natural, termina por se adiantar à morte, achando que está renovando um contrato com a vida. Tendo reduzido a vida a uma série de desilusões, só lhe resta um remédio para voltar a viver: nascer de novo, se apaixonar de novo, mas com a intensidade de um inocente - pela primeira vez, o que é impossível"

Acaba ficando a mercê de um parceiro mais jovem (o chihuahua), narcisista e maldoso, acostumado a manipular seus amantes. O Rato trabalhava em uma agência humanitária que atuava em áreas de conflito armado pelo mundo. Escrevera uma tese de doutorado em que se debruçava sobre as causas da violência. Nada disso conseguiu salvá-lo de um relacionamento altamente destrutivo: "O Rato havia se preparado profissionalmente para as guerras, mas era um amador nas questões amorosas [...] A valentia na guerra encobria uma vulnerabilidade íntima e irremediavelmente imatura. Corria menos riscos na guerra do que na vida amorosa".

Em um trecho do livro, o narrador nos diz que, durante uma viagem de cerca de dois anos, algo aconteceu ao personagem central, ainda jovem, que o levou "a buscar a violência e a combatê-la de perto". Não nos é revelado o que aconteceu nesse período. A motivação estava mais ligada a "uma fuga e um desvio do que lhe era insuportável" do que qualquer outra justificativa. Para o Rato, "era mais fácil combater o mal onde ele já se encontrava definido e circunscrito", como nas diversas zonas de guerra espalhadas pelo globo. Mas o que fazer quando o mal nos chega de forma insidiosa, em alguém que (falsamente) não oferece perigo e que (pelo menos na superfície) parece ter afeição por nós?

Ainda que não figure entre os meus favoritos na obra de Bernardo Carvalho, Simpatia pelo demônio está muito longe de ser um livro que se lê apenas para desenfadar-se. Penso em trazê-lo de volta aqui assim que eu der conta de outras leituras proteladas.

BG de Hoje 

O heavy metal (um gênero de que gosto, aliás) costuma ser muito repetitivo, não conseguindo escapar de certos clichês (mas, para ser franco, que vertente não é assim dentro da indústria musical?). De vez em quando, porém, aparecem grupos com um tipo de approach que, se não significa algo totalmente distinto do som habitual, pelo menos traz algum frescor. Foi o caso da banda nova-iorquina HELMET, que lá na década de 1990, explodiu com o disco Meantime, com destaque para a excelente faixa Unsung

sexta-feira, 12 de abril de 2024

Luxo e inércia


É, voltei a escrever.

Permaneço péssimo, mas não quero falar disso.


Há algumas semanas soube que o Greg News acabou - para usar um irritante termo da moda, foi "descontinuado" pela HBO. 

Pena. Era uma atração televisiva muito acima da média.

Seu mérito não estava na originalidade - claramente tratava-se de uma versão nacional do Last Week Tonight (John Oliver pelo menos continua na grade da emissora norte-americana). A fusão de humor e jornalismo é algo que muitos já vêm fazendo há algum tempo, com bons resultados (destaco, além do citado John Oliver, o pioneiro Daily Show, que eu só comecei a acompanhar no período ancorado por Trevor Noah). O programa apresentado por Gregório Duvivier apareceu como um anteparo, na época em que tinha mesmo que aparecer, quando parte significativa da sociedade brasileira mergulhou de cabeça num reacionarismo obscurantista de viés religioso (particularmente evangélico), permitindo a ascensão de elementos da extrema direita e de gangsters da política, num período em que os fluxos de informação/comunicação já estavam irreversivelmente contaminados por aquilo que recebeu o nome genérico de fake news. Além disso, o artista carioca é um ótimo ator/comediante e a redação/produção do programa costumava acertar na maior parte das vezes ¹.

Na última temporada, um dos episódios que mais apreciei foi o intitulado Luxo. Assisti de novo outro dia. E me veio a vontade de abordá-lo aqui.

"Os bilionários de hoje em dia" - diz o apresentador em determinado momento do programa - "encontraram uma forma de dar a quase todo mundo a sensação de que o luxo pode ser acessível ou, no mínimo, emulável. Logo, é melhor tentar atingi-lo do que cortar a cabeça de quem tem acesso a ele".

O destino que os revolucionários franceses deram a membros da nobreza no final do século XVIII havia sido mencionado momentos antes. Por outro lado, como também mostrado no programa, os ultraprivilegiados da atualidade, ao que parece, não correm qualquer risco de serem guilhotinados. Muito pelo contrário.

Destaca-se então o megabilionário Bernard Arnault,  um dos homens mais ricos do planeta. Mostra-se um trecho de entrevista em que o nababo afirma que seu maior objetivo é fazer com que a "desejabilidade" das marcas das quais é proprietário persista por décadas. Duvivier assinala que esta é "a característica central do mercado de luxo".

"Ele não está anunciando qualidade, nem dedicação do artesão, nem tradição,[nem]expressão artística. Ele está oferecendo desejabilidade. Ou seja, o que você compra num produto de luxo não é algo que você deseja. É algo que outras pessoas desejam, mas não podem ter".

Só uma parte ínfima (ínfima mesmo) dos seres humanos tem acesso a tudo que a grana pode comprar. A imensa maioria da população mundial dá duro para "só" conseguir botar comida na mesa e se abrigar dignamente sob um teto. Isso sem mencionar a outra enorme quantidade de pessoas que simplesmente não sabe se terá alimentação suficiente no outro dia.

Entretanto - e não me canso de ficar espantado com isso -, vejo vários homens e mulheres, pobres como eu (alguns até menos remediados), que julgam estar mais próximos dos ricaços, em relação ao status socioeconômico e ao "estilo de vida", do que de indivíduos ainda mais despossuídos. Ingenuamente, pensam ser apenas uma questão de esforço pessoal: basta trabalharem e se dedicarem muito que um dia estarão com a burra cheia, como se dizia em priscas eras, quando é muito mais provável testemunharem um processo de empobrecimento individual e familiar.

Uma dupla de alemães barbudos do século XIX formulou num de seus escritos algo mais ou menos assim: as ideias da classe dominante são, em cada época, as ideias dominantes dentro da sociedade com um todo. Este postulado marxiano (ou marxista, nunca sei direito como usar esses dois adjetivos) ajuda a explicar por que os verdadeiros controladores do capital (ou seja, grandes proprietários dos meios de produção de bens e serviços ou, como é cada vez mais preponderante desde o final do século XX, grandes especuladores das bolsas de valores, banqueiros, a cúpula dos fundos de investimento e outros rentistas de mesmo calibre) têm seus princípios e interesses defendidos por tantas pessoas que são invariavelmente prejudicadas quando estes princípios e interesses prevalecem (e que nunca, NUNCA, chegarão nem perto de entrar no clube desses verdadeiros controladores do capital).

Como não poderia deixar de ser, as mídias (redes) sociais e seus influencers têm um destacado papel nisso tudo, contribuindo para nos adestrar a "admirar jato [particular, feito para transportar uns poucos ricaços com um custo ambiental pesado] como se fosse símbolo de sucesso, e não de desprezo pelo resto da humanidade".

Voltemos a Bernard Arnault. 

Uma pessoa comum, com renda pouco significativa, muito dificilmente poderá comprar um colar de ouro branco e diamantes da Bulgari ou uma bolsa Louis Vuitton - duas marcas de propriedade do bilionário francês. Mas talvez consiga adquirir um perfume mais em conta da Sephora - outra marca de Arnault - para fazer inveja naquele parente que veio fazer uma visita. O consumo conspícuo (ou pelo menos uma microrrepresentação dele) parece agora estar atravessando todas as classes sociais. Os direitos trabalhistas estão sendo pulverizados, a instabilidade e a precariedade de grande parte das ocupações remuneradas hoje existentes são gritantes, poucos trabalhadores conseguem adquirir um imóvel próprio, mas é possível fingir ser bem sucedido com um frasquinho Christian Dior no armário. "Quando a ilusão de luxo é democratizada, a gente perde a capacidade de odiar o luxo obsceno de verdade", bem observa Duvivier.

É tarefa das mais árduas (e arriscadas) desmontar a armadilha ideológica do capitalismo, armadilha esta que faz os indivíduos subjugados pelo poder econômico ficarem ao lado daqueles que os estão subjugando.

Há alguns anos, li um artigo do sociólogo Michael Löwy, disponível no Blog da Editora Boitempo ² , intitulado O capitalismo como religião. Trata-se de comentários feitos a partir de várias anotações reunidas, sob o mesmo título do artigo, em algumas páginas até então inéditas de Walter Benjamin. 

Em suas observações, o pensador alemão não perde de vista o célebre A ética protestante e o espírito do capitalismo, publicado por Max Weber em 1904/05: "demonstrar a estrutura religiosa do capitalismo - isto é, demonstrar que ele é não somente uma formação condicionada pela religião, como pensa Weber, mas um fenômeno essencialmente religioso - nos levará ainda hoje pelos meandros de uma polêmica universal desmedida".

A estrutura religiosa do capitalismo, de acordo com Benjamin, fundamenta-se no culto. O culto é permanente. O culto produz culpa.

"Portanto" - escreve Löwy -, "as práticas utilitárias do capitalismo - investimento do capital, especulações, operações financeiras, manobras bolsistas, compra e venda de mercadorias - são equivalentes a um culto religioso. O capitalismo não exige a adesão a um credo, a uma doutrina ou a uma 'teologia', o que conta são as ações, que representam, por sua dinâmica social, práticas cultuais".

Qual seria o objeto ou a entidade a se adorar nesse culto? O dinheiro seria a resposta mais evidente (e o articulista aponta uma citação que talvez viesse a ser empregada por Benjamin em sua versão final do texto, na qual há a comparação entre o dinheiro e a figura divina). Mas este blogueiro prefere indicar o Mercado, esse termo que a imprensa corporativa hegemônica usa e abusa para criticar determinadas posições que governantes podem tomar mas que desagradariam a classe dominante: "o mercado reagiu mal à declaração do presidente"; "a fala da ministra assustou o mercado". Essas mesmas empresas de mídia, para tentar gerar um clima de otimismo, às vezes também soltam frases do tipo "o mercado está animado com os recentes índices da bolsa" ou "o governo deixou o mercado satisfeito com os cortes no orçamento", como se isso significasse um grande benefício para a maioria da população e não mais oportunidades de enriquecimento para grupos bem restritos. 

Divindade absoluta e infalível, há um temor, disseminado em toda a sociedade, dos humores do Mercado...

Dissemos acima que o culto também é permanente. Michael Löwy comenta:

"Sem descanso, sem trégua e sem piedade: a ideia de Weber é retomada por Benjamin, quase literalmente [...]. Portanto, na religião capitalista, cada dia vê a mobilização da 'pompa sagrada', isto é, os rituais na bolsa ou na fábrica, enquanto os adoradores seguem, com angústia e uma 'extrema tensão', a subida ou a descida das cotações das ações'. [...] As práticas capitalistas não conhecem pausa, elas dominam a vida dos indivíduos da manhã à noite, da primavera ao inverno, do berço ao túmulo. Como bem observa Burkhardt Lindner, o fragmento [escrito por Walter Benjamin] empresta de Weber o conceito do capitalismo como sistema dinâmico, em expansão global, impossível de deter e do qual não podemos escapar".

Por fim, a culpa. Aqui não há expiação: é preciso fazer a culpa "entrar à força na consciência". Vale uma breve digressão semântica (que está no artigo de Löwy).

Em alemão, a palavra schuld pode significar tanto "dívida" quanto "culpa". 

"Benjamin evoca, nesse contexto o que chama de 'ambiguidade da palavra Schuld' [...]. Segundo Burkhard Lindner, a perspectiva histórica do fragmento baseia-se na premissa de que não podemos separar, no sistema da religião capitalista, a 'culpa mítica' da dívida econômica.

Encontramos em Max Weber dois raciocínios análogos, que também jogam com os dois sentidos de 'dever': para o burguês puritano, 'o que consagramos a fins 'pessoais' é 'roubado' do serviço à glória de Deus'; tornamo-nos assim ao mesmo tempo culpados e 'endividados' em relação à Deus. 'A ideia de que o homem tem 'deveres' para com as posses que lhe foram confiadas e às quais ele está subordinado como um intendente devotado (...) pesa sobre sua vida com todo o seu peso gélido. Quanto mais aumentam as posses, mais pesado torna-se o sentimento de responsabilidade (...) que o obriga, para a glória de Deus (...) a aumentá-las por meio de um trabalho sem descanso'. A expressão de Benjamin 'fazer a culpa entrar à força na consciência' corresponde bem às práticas puritanas/capitalistas analisadas por Weber".

Sob a ótica capitalista, os pobres são os únicos culpados por sua situação difícil (não se esforçaram o suficiente, não sabem economizar ou investir, etc.). A vontade de Deus determina o lugar de cada um, do mesmo modo que a vontade do mercado. O resultado desse processo de culpabilização é o desespero.

"De Weber a Benjamin nos encontramos em um mesmo campo semântico, que descreve a lógica impiedosa do sistema capitalista. Mas por que ele é produtor de desespero?

Sendo a 'culpa' dos humanos, seu endividamento para com o capital, perpétuo e crescente, nenhuma esperança de expiação é permitida. O capitalista deve constantemente aumentar e ampliar seu capital, sob pena de desaparecer diante de seus concorrentes, e o pobre deve para pagar suas dívidas.

Segundo a religião do capital, a única salvação reside na intensificação do sistema, na expansão capitalista, no acúmulo de mercadorias, mas isso só faz agravar o desespero. É o que parece sugerir Benjamin com a fórmula que faz do desespero um estado religioso do mundo 'do qual se deveria esperar a salvação'".

. . . . . .  .

 

A concentração de renda é um fenômeno inegável. As indecentes disparidades entre os mais ricos e os mais pobres não são difíceis de se constatar. Poucos milhares injetando rios de dinheiro nas coisas mais fúteis e supérfluas enquanto milhões mal conseguem sobreviver com um mínimo de dignidade.

Mas por que, a meu ver, há tão pouca indignação com tal estado de coisas? Pior, por que não vemos grandes movimentos de massa cheios de raiva - sim, raiva - contra essa desigualdade nojenta? Por que a maior parte de nós adotou a inércia como comportamento padrão em relação às mudanças sociais que deveriam acontecer?

A sede por ostentação - que parece estar atingindo a todos, seja o bilionário que não trabalha, seja o assalariado que precisa se virar para manter o cartão de crédito em dia - e a concepção quase religiosa do capitalismo que perpassa a sociedade (e sabe-se como é difícil contestar e vencer uma religião) talvez sejam bons pontos de partida para entender essa inércia.

Vou tentar me aprofundar nessas questões assim que for possível e produzir um outro texto.

. . . . . . . 

Creio que o(a) eventual leitor(a) tomou conhecimento da gravíssima colisão, ocorrida em 31 de março deste ano, que resultou na morte de um motorista de aplicativo em São Paulo, após seu carro ser atingido violentamente por outro veículo, um Porsche (cujo valor ultrapassava um milhão de reais). Requereu-se a prisão preventiva do condutor que dirigia o Porsche, mas a Justiça de São Paulo negou a requisição (pelo menos até a data em que esta postagem foi publicada). O cara segue em liberdade, sem qualquer aborrecimento e, sabendo como são as coisas nesse fosso de desigualdade chamado Brasil, temo que ele não passará nem um dia na cadeia.

O jornalista Leonardo Sakamoto escreveu no UOL um excelente artigo sobre esse caso: Com assassinato e fuga, Porsche vira licença para rico matar em São Paulo.

Escreve Sakamoto: "O caso se desenha como o puro suco de Brasil. Imagine se ao invés de um herdeiro dirigindo um Porsche fosse um rapaz pobre, negro retinto, em um glorioso Fiat Uno que matasse alguém tirando um racha no Capão Redondo? Se a mãe do mancebo aparecesse e dissesse que iria levar o filho para botar um curativo [como fez a mãe do playboy do Porsche] seria fuzilada pelos agentes de segurança só com o olhar.

[...]

Sim, a tradicional carteirada foi substituída pela ostentação de riqueza".

Não existe enraizamento do conceito de cidadania. Não existe a aceitação e o respeito ao preceito de que todos são iguais perante à lei.

"[...] a desigualdade dificulta que as pessoas vejam a si mesmas e as outras pessoas como iguais e merecedoras da mesma consideração. Leva à percepção de que o poder público existe para servir aos mais abonados e controlar os mais pobres.

Ou seja, para usar a polícia e a política a fim de proteger os privilégios do primeiro grupo, usando a violência contra o segundo, se necessário for. Com o tempo, a desigualdade leva à descrença nas instituições. O que ajuda a explicar o momento que vivemos hoje.

A desigualdade social, que seria motivo de vergonha em qualquer lugar civilizado,  aqui é razão de orgulho. O importante para uma parte da população, tanto a que está no topo quanto a que sonha em estar lá, não é reduzir a diferença, mas garantir que ela seja devidamente glamourizada e a ascenção social, mitificada. Assim o indivíduo passa a não desejar justiça social coletiva, mas um lugar ao sol para si mesmo.

Ou seja, o desejo não é um país em que os donos de Porsche obedecem às mesmas regras que os donos de Uno. O desejo é ter um Porsche".

 

Mais tarde vou encher a cara e tentar dormir o máximo que conseguir.

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¹ Como escrevi acima, o grupo de redatores/produtores fazia um ótimo trabalho, mas não acertava sempre. Pisaram na bola, por exemplo, no episódio que tinha como tema central a psicanálise e noutro, intitulado Filhos. Talvez escreva sobre isso noutra oportunidade.

² LÖWY, Michael. O capitalismo como religião. Blog da Boitempo, São Paulo, 8 de ago. de 2013. Disponível em <https://blogdaboitempo.com.br/2013/08/08/o-capitalismo-como-religiao/>. Acesso em 06/03/2024

BG de Hoje

Eu gosto muito dessa faixa: Steambreather, da banda norte-americana MASTODON. As transições de uma seção musical para outra são excelentes. "I wonder who I am/Reflections offer nothing/I wonder where I stand/I'm afraid of myself": tenho cantarolado isso direto.
 

quinta-feira, 20 de julho de 2023

Barb e os tiozões do rock

Não aguento mais ouvir Sultans of Swing. Ou Smoke on the Water. Ou Another Brick in the Wall.

Hotel California, então, me faz querer sair correndo em desespero.

Eu já curti o som do Dire Straits. Não tenho nada contra o Deep Purple. Pink Floyd está entre as minhas 20 bandas preferidas. E embora não tenha interesse nos Eagles, reconheço que o maior hit deles, apesar de hoje me dar nos nervos, é uma grande canção.

Também não é por causa da alegação frouxa "isso é música velha!" (a ideia de que criações artísticas teriam um prazo de validade me parece sem cabimento). 

Minha ojeriza é pela repetição, ad nauseam, dessas e outras faixas por tiozões do rock nos mais diferentes locais e ocasiões.

Não me entenda mal: eu já fui e ainda me comporto, ocasionalmente (é difícil abandonar velhos hábitos), como um tiozão do rock. Não seria honesto cuspir no prato em que já comi (e ainda como, às vezes) sem admitir isso primeiro.

Gosto de rock (está até no esboço biográfico). A maioria dos vinis e CDs que já comprei nesta minha vidinha inútil é de artistas pertencentes a essa vertente musical. Se o(a) eventual leitor(a) for conferir minhas playlists no Youtube Music Premium (não aguentava mais as "travadas" de execução do Spotify), verá que a maioria das faixas é pauleira (sempre gostei dessa gíria ultrapassada: pauleira). 

Mas, desde que comecei a escutar música de forma realmente atenta e dedicada, o rock - seus subgêneros e derivações - nunca monopolizou, ainda bem, minha curiosidade e meu interesse.

Acho que preciso falar um pouco do convívio familiar, de quando eu era garoto até o início da adolescência. O(a) eventual leitor(a) há de me perdoar a fatuidade.

Além de meus pais, morava com três irmãs e dois irmãos - elas e eles mais velhos do que eu, cada um com suas preferências. Apesar de sermos pobres, sempre era possível comprar um disco ou outro, uma fita cassete ou outra. Além disso, as rádios, décadas atrás, davam preferência à programação musical, ao invés do jornalismo ou a falação ininterrupta de hoje (felizmente, estações evangélicas/de igreja eram raríssimas). Em casa ouvíamos variados gêneros: MPB sofisticada e música brega, samba e ritmos regionais, a black music norte-americana dos anos 1960-70, compositores clássicos (Debussy, Händel, etc.). Uma tarde de vitrola podia começar com Bob Dylan, passar por Burt Bacharach e Milton Nascimento e terminar com Dilermando Reis. Também se ouvia Janis Joplin, Beatles, Creedance Clearwater Revival, Queen... Uns 65% do meu gosto musical devo à minha família.

A predileção pelo rock só se deu comigo por volta dos 17-18 anos, quando comecei a ouvir muito Van Halen, Titãs (antes da fase caça-níquel total), Barão Vermelho e Rolling Stones, buscando uma certa "independência" auditiva. Pouco tempo depois, os discos Facelift (Alice In Chains), Nevermind (Nirvana), Badmotorfinger (Soundgarden) e Ten (Pearl Jam) foram lançados. A cena grunge ganhou o mundo. E eu mergulhei de cabeça...

Muitos tiozões do rock só escutaram, só escutam e só escutarão rock. Geralmente, as mesmíssimas bandas e as mesmíssimas canções.

Apesar da chatice, esse não é o maior problema, porém.

À medida que o tempo passa, a intransigência, uma propensão autoritária, começam a despontar em muitos dessa patota (eu e minhas gírias fósseis...). Esse aspecto é muito bem representado pela rainha Barb, personagem do divertido filme de animação Trolls 2 (Trolls World Tour - direção de Walt Dohrn e David P. Smith, 2020).

Para ela, só o rock deve ser escutado no mundo dos trolls e, para tanto, ataca os outros reinos. Sua primeira aparição em cena é muito elucidativa (aqui cabe um elogio à atriz e comediante Rachel Bloom, que dá voz à personagem). Não tem nenhum espaço para negociação: as guitarras de seus comandados falam alto e acossam os que não estão com Barb. NOTA: Para ser justo, o filme mostrará que a imposição e a tentativa de homogeneizar o gosto musical não é algo exclusivo dos roqueiros; não se espere, contudo, muita profundidade: afinal, trata-se de um produto de entretenimento voltado sobretudo para o público infantil e do qual se espera determinado retorno mercadológico.

E o que se toca nessa cena? 

Rock You Like a Hurricane, gravada originalmente pelos Scorpions em 1984! Banda e canção típicas de tiozões do rock...

Barb finalmente chega a seu objetivo, ganhando o poder de transformar outros trolls em zumbis headbangers. Mas, mesmo antes da resolução do conflito com a protagonista Poppy, um de seus súditos demonstra não estar 100% favorável à ideia de um mundo regido unicamente pelo rock (aliás, o pai de Barb - cuja voz, ironicamente, é a de Ozzy Osbourne - já não parecia muito entusiasmado com todo esse plano de dominação). Diz o baterista Riff (e eu ri bastante nessa parte): "If we all look the same, act the same, dress the same, how will anyone know we're cool or something? [Se todos nós parecermos o mesmo, agirmos do mesmo jeito, vestirmos do mesmo jeito, como alguém saberá que somos legais e tal?]"

Desde a sua origem - por volta dos anos 1950 -  e no decorrer das décadas ulteriores, o rock esteve associado à rebeldia e à vanguarda. As coisas mudaram nos últimos tempos, entretanto.

Não é mais contraditório que muitos fãs (e artistas) do gênero sejam retrógrados, intransigentes e propensos ao autoritarismo. E que acabem deslocando esse posicionamento em relação a seu "cardápio" musical para outras esferas da vida.

O tiozão do rock é, em muitos casos, também um tiozão conservador e fechado em preconceitos. Infelizmente.

Pode-se mudar a mentalidade reaça? Por que não? Só que é preciso abrir a cabeça, como diz o João Gordo (Ratos de Porão), falando de sua própria experiência (confira aqui).


BG de Hoje

Mesmo se você assistir a Trolls 2 e não gostar (ao contrário de mim, que adorei), acho difícil não apontar Born To Die como a melhor canção ali - ou, pelo menos, a mais surpreendente, se pensarmos que está na trilha sonora de um filme feito principalmente para crianças. Resultado dessa inusitada parceria entre Justin Timberlake e o cantor country Chris Stapleton (que rendeu o hit Say Someyhing), Born To Die é ainda mais apreciável pela linda interpretação da KELLY CLARKSON.

quinta-feira, 7 de julho de 2022

Não me leve a mal, mas vou torcer pelo herói


                      

A melhor maneira de definir um herói ou uma heroína, penso eu, é observar seu(s) mais significativo(s) feito(s). Com o perdão pela tautologia, um herói ou uma heroína caracterizam-se essencialmente como realizadores de um ou mais atos heroicos. Se estivermos de acordo nesse ponto, devemos nos perguntar então: o que confere heroicidade a um ato?

Creio que a maioria das pessoas dirá que um ato heroico deve denotar bravura, coragem. Uma ação dessa natureza também carrega um forte componente moral: sua finalidade é ajudar ou salvar outra(s) pessoa(s), ficando o bem-estar ou a segurança do agente em segundo plano. NOTA: Algo que me enerva profundamente é o exagero retórico típico de muitas pessoas (entre elas, jornalistas) chamando de herói um atleta que, sei lá, fez X pontos numa partida ou marcou um gol na decisão de um campeonato. É o mesmo exagero retórico que fala em time de guerreiros. Diabos me carreguem! É esporte! Não é questão de vida ou morte - ou, pelo menos, não deveria ser.

Meu intuito, ao destacar o ato e não o indivíduo que o executa, é afirmar a grande improbabilidade de alguém ser herói full time. Como se sabe, a palavra herói vem da Antiguidade e na mitologia greco-romana designava alguns semideuses, ou seja, criaturas com capacidades extraordinárias, únicas, acima do que um simples humano - um "mero mortal" - pode fazer. Essas habilidades, em geral, diziam respeito à destreza em combate ou à força física. Com o passar do tempo, o conceito de herói incorporou sentidos relacionados ao caráter dos sujeitos assim nomeados: além de corajosos e bons de briga, supostamente honrados e decentes. Ora, que homem ou mulher normal consegue ser tudo isso integralmente, em todas as fases de sua vida?

Essas questões voltaram à minha mente semanas atrás, quando reli (pela enésima vez) A hora e vez de Augusto Matraga, narrativa que fecha o Sagarana, um dos meus livros de cabeceira. De cafajeste a redentor, o protagonista dessa novela de Guimarães Rosa é, em minha opinião, a grande figura  heroica da literatura brasileira. Relembremos como se dá a transformação do personagem.

"Duro, doido e sem detença, como um bicho grande do mato" ¹, segundo a esposa Dionóra - que foge dele para viver com outro -, Nhô Augusto é um mandachuva de roça em franca e rápida decadência. Após mais um de seus rompantes, um coronel adversário aproveita a oportunidade para ir à forra. Nhô Augusto é espancado, marcado a ferro. Tentando fugir dos capangas que queriam matá-lo, salta em uma ribanceira profunda. Gravemente ferido, quase morto, é resgatado e cuidado por um casal de pobres e velhos lavradores, Quitéria e Serapião. Aconselhado por um padre, desiste dos planos de vingança, envergonha-se do passado vil e violento  e passa a demostrar uma fé poderosa: "- Eu vou p'ra o céu, e vou mesmo, por bem ou por mal... E a minha vez há de chegar... P'ra o céu eu vou, nem que seja a porrete!..."

Mudando-se pra outro lugarejo mais distante acompanhado pelos campônios que o salvaram, fugindo da vida antiga, o personagem converte-se num trabalhador braçal incansável, "meio doido e meio santo", abstêmio e reservado. Contudo, passados alguns anos, "pouco a pouco, devagarinho, imperceptível, alguma cousa pegou a querer voltar para ele, a crescer-lhe do fundo para fora, sorrateira como a chegada do tempo das águas, que vinha vindo paralela". Por coincidência - ou por um lance do destino -, chega ao vilarejo justamente nessa época uma quadrilha de jagunços liderados pelo "homem mais afamado dos dois sertões do rio: célebre do Jequitinhonha à Serra das Araras, da beira do Jequitaí à barra do Verde Grande, do Rio Gavião até nos Montes Claros, de Carinhanha até Paracatu; maior do que Antônio Dó ou Indalécio; o arranca-toco, o treme-terra, o come-brasa, o pega-à-unha, o fecha-treta, o tira-prosa, o parte-ferro, o rompe-racha, o rompe-e-arrasa: Seu Joãozinho Bem-Bem".

O povoado se assusta, mas Nhô Augusto é pura euforia. Faz questão de receber todo o bando em seu pedacinho de terra, oferecendo o que de melhor conseguiu arrecadar na vizinhança. O líder da jagunçada aprova o bom tratamento dado a seus homens; já havia simpatizado com o anfitrião antes, só de tê-lo visto caminhando na estradinha. No dia seguinte, preparando-se para partir, Joãozinho Bem-Bem diz: " - Mano velho, o senhor gosta de brigar, e entende. Está se vendo que não viveu sempre aqui nesta grota, capinando roça e cortando lenha...". Convida-o para integrar o "seu povo". Nhô Augusto resiste à tentação, porém. 

Tempos depois, decide ir-se embora, vagar pelo sertão, sentindo-se menos opresso pelos hábitos severos que adotara na "nova vida". Viajando montado num jumento, acaba reencontrando Joãozinho Bem-Bem e sua hoste, dentro  da casa de um fazendeiro aliado do bandido, no arraial do Rala-Coco, próximo àquele de onde o protagonista dessa história fugira. 

Chegamos ao clímax de A hora e vez de Augusto Matraga.

O chefe dos jagunços - seguindo "regras" da jagunçagem - precisa vingar a morte de um de seus sequazes, baleado "à traição" por um habitante do arraial, em fuga a essa altura. Para tanto, irá matar um dos filhos de um velho sertanejo (irmãos do rapaz em fuga) e permitir que os outros bandoleiros estuprem as filhas dele. O velho, chorando ajoelhado, implora piedade. Joãozinho Bem-Bem nega. Desamparado, mas dessa vez com fúria, o lavrador vocifera:

"- Pois então, satanás, eu chamo a força de Deus p'ra ajudar a minha fraqueza no ferro da tua força maldita!..."

Nhô Augusto estava no mesmo recinto, sentado num selim velho, presenciando toda a cena, de posse das armas do recém-assassinado jagunço, que lhe foram oferecidas pelo próprio Joãozinho Bem-Bem, num segundo convite para que ele se juntasse ao bando.

Após um momento de silêncio, fala:

"- Não faz isso, meu amigo seu Joãozinho Bem-Bem, que o desgraçado do velho está pedindo em nome de Nosso Senhor e da Virgem Maria! E o que vocês estão querendo fazer em casa dele é coisa que nem Deus não manda e nem o diabo não faz!"

O narrador prossegue:

"Nhô Augusto tinha falado; e a sua mão esquerda acariciava a lâmina da lapiana, enquanto a direita pousava, despreocupada, no pescoço da carabina. Dera tom calmo às palavras, mas puxava forte respiração soprosa, que quase o levantava do selim e o punha no assento outra vez. Os olhos cresciam, todo ele crescia, como um touro que acha os vaqueiros excessivamente abundantes e cisma de ficar sozinho no meio do curral".
O que se segue é uma luta sangrenta entre Nhô Augusto e alguns jagunços, culminando num duelo final, à ponta de faca e no meio da rua, entre o protagonista e o líder dos facínoras. Joãozinho Bem-Bem é morto, mas Nhô Augusto - agora Augusto Matraga ² - também morrerá, em razão dos muitos ferimentos. Enquanto tentava achar um padre para acudir, o povo do Rala-Coco dizia: "Foi Deus que mandou esse homem do jumento, por mór de salvar as famílias da gente!..."

O antropólogo Roberto DaMatta, num ensaio ³ em que classifica o personagem de Guimarães Rosa como um renunciador (alguém que representa uma "saída da 'ordem'", isto é, alguém que se livra das amarras e da fixidez das hierarquias sociais), observou que, mesmo havendo identificações entre este e Joãozinho Bem-Bem (sujeitos violentos e discricionários em suas ações, próximos do poder no Brasil rural representado na obra do escritor mineiro), a intervenção de Nhô Augusto (convertido em Augusto Matraga, ao salvar a família do velho sertanejo) "o transforma em representante do Bem, em oposição ao representante do Mal". Não há nada de simplismo maniqueísta em tal afirmação. Parágrafos acima, escrevi sobre a improbabilidade de alguém ser herói o tempo todo e preferi enfatizar o(s) ato(s) e não o indivíduo que o(s) praticou. Pessoas têm falhas e vícios, o que contrasta com a noção mais corriqueira do que seja um herói. Por isso, a ação é fundamental, determinante, mesmo em se tratando de um ser ficcional.

Nhô Augusto foi um rematado patife em grande parte de sua vida. Quando chegou a hora derradeira, entretanto, realizou um ato heroico admirável. Praticou o bem diante de um mal presente e imediato.

Penso, por exemplo, em outras figuras heroicas - dessa vez, pinçadas no mundo real: o pastor norte-americano Martin Luther King Jr, a ativista paquistanesa Malala Yousafzai, o jornalista australiano Julian Assange. Ainda que sejam pessoas humanamente imperfeitas, praticaram atos que demandavam grande coragem, visando ajudar outras pessoas (e todos os três colocaram suas próprias vidas em risco, sendo que o primeiro foi assassinado).
 
Mas há quem busque também pelo herói impecável.
 
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O episódio inicial da primeira temporada da série Reacher (disponível na Amazon Prime, estrelada pelo ator Alan Ritchson) não perde tempo com firulas. De cara, o espectador já tem um perfil completo do protagonista, não importando se não tenha lido nenhum dos livros de Lee Child (criador do personagem) ou assistido aos dois filmes em que Tom Cruise o interpretou antes. Neste episódio, nas primeiras cenas em que aparece, intimida - sem dizer uma única palavra ou fazer qualquer gesto - um sujeito que xingava e ameaçava de agressão a companheira.

Jack Reacher é um cara bonito, alto, forte, bom de briga e muito sagaz (vários dos leitores de Child elogiaram a escolha do ator que o interpreta pois se encaixaria na descrição contida nos livros). Faz tudo o que se espera do personagem central neste tipo de produto de entretenimento: investiga e desvenda um grande esquema criminoso, mata os caras maus, defende pessoas em perigo. Há uma cena no quinto episódio que acho muito prazerosa de assistir. Ao ver que o carro de uma mulher com quem estava envolvido (uma policial) foi pichado com a palavra "whore", ele vai tirar satisfações com o filho mimado do ricaço da cidadezinha onde estava. Poucas vezes vi um tapa na cara tão bem dado.

A atração da Amazon Prime não se preocupa em fugir dos clichês; o herói ali retratado também não tem nada de inovador ou surpreendente - e quem já viu (num filme ou seriado) um ex-militar dos EUA, hétero e branco, salvando o dia, já viu todos. Ainda assim, considero um programa de TV muito bom (não que eu dê muita bola para isso, mas o agregador de resenhas Rotten Tomatoes registra 90% de opiniões favoráveis a Reacher). Será que nós (falo dos espectadores saturados com os produtos televisivos norte-americanos) viramos um público tão pouco exigente?
 
Minha resposta será simples - talvez até simplória. Paciência; é o que tem pra hoje.
 
Grande parte (talvez a maioria) das iniquidades do mundo não é e não será punida. Fraudadores e sonegadores continuam ganhando muito dinheiro com falcatruas; bilionários continuam explorando pessoas; políticos e agentes públicos continuam prevaricando. Bullies seguem oprimindo; predadores sexuais seguem atacando; racistas seguem propagando ódio; assassinos seguem espalhando terror. Acho risíveis afirmações de que há mais pessoas boas do que pessoas más no planeta ou o otimismo de intelectuais como Steven Pinker. Atos perversos costumam provocar danos de grande alcance e longa duração, mesmo que vivamos no "melhor dos mundos possíveis".

É aí que entra a ficção.

É satisfatório e recompensador ver ou ler - pelo menos na ficção - que o cara mau levou o que merecia.

Cheguei a um ponto em que me contento com pouco. Por isso, sempre torço para os heróis em narrativas inventadas.

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¹ ROSA, João Guimarães. A hora e vez de Augusto Matraga. In: _________. Sagarana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001 (p. 363-413). Todas as citações do texto de Rosa presentes nesta postagem foram retiradas dessa edição.

² Importante mencionar que, no texto, João Guimarães Rosa não explica o que significa a alcunha Matraga, nem como ela foi adicionada à figura de Augusto Esteves.

³ DaMATTA, Roberto. Augusto Matraga e a hora da renúncia. In: __________. Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. 6 ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1997. p. 303-334

BG de Hoje

Como alguns outros grupos de heavy metal, o AVENGED SEVENFOLD foi abrandando sua música ao longo dos mais de 20 anos de existência da banda (não vejo nada de errado nisso, diga-se de passagem). A desaceleração nos instrumentos é nítida, bem como a aproximação com o rock pesado mais tradicional. Um exemplo disso é a canção que dá título a um dos últimos trabalhos de estúdio do grupo, lançado há quase dez anos. A sonoridade e a temática de Hail To The King quase derrapam na breguice de alguns representantes dessa vertente musical (penso, por exemplo, no burlesco Manowar), mas, ao cabo, é uma faixa que se ouve com satisfação.


quinta-feira, 24 de março de 2022

"A vida é muito curta..." Tá falando sério?



Outro dia estava me lembrando daquele filme Cova Rasa, lançado em 1994.

Posso dizer que foi o primeiro trabalho do diretor britânico Danny Boyle a chamar atenção, antes de Trainspotting.

Um trio de roommates tem um método um pouco cruel (mas nem por isso menos interessante) para escolher quem pode ser o novo morador do apartamento em que residem. Os interessados são submetidos a uma espécie de entrevista com perguntas absurdas e incômodas. Ocasionalmente, inclui-se algum tipo de zombaria física. O trio se regala. Dá a eles uma sensação de superioridade. Ver-se-á no decorrer do filme, entretanto, que não eram tão espertos nem tão legais quanto se achavam.
 
De todo modo, acabo sendo favorável ao sistema de seleção de Alex, Juliet e David (os personagens centrais do filme) porque parte do princípio de que seria insuportável dividir a mesma moradia com indivíduos não compatíveis, ainda que paguem em dia e sejam pessoas cordatas.

Também uso um método (nada cruel) para não ter que me engajar em conversas com gente aporrinhante. Há anos, conservo o hábito de beber sozinho. Nos bares, contudo, sempre aparece alguém que gosta de puxar papo. Respondo com os "pois é" e os "é mesmo?" de praxe, benditas expressões para fingir interesse quando não há interesse algum no que o outro está dizendo. Se a falação não dá sinais de desfecho, vejo-me obrigado a  tentar conduzir a "conversa" para um tema que me agrada: música pop ¹. E dou um jeito de saber a opinião do(a) interlocutor(a) sobre os Beatles. Não que eu seja um beatlemaníaco, longe disso: "os quatro de Liverpool" não estão nem entre as minhas 30 bandas preferidas. Mas é preciso admitir o pioneirismo e a inventividade desses caras e como eles (junto com George Martin, claro) ajudaram a moldar muito do que se entende por música pop até hoje.

Se a pessoa fala que não gosta dos Beatles - ou pior, não gosta de música pop -, sei que não devo perder meu tempo e trato logo de ir embora. Ou troco de lugar dentro do botequim. Reconheço que estou incorrendo no lugar-comum do "o mundo se divide entre pessoas X e pessoas Y", mas aquele que não faz distinções desse tipo atire a primeira pedra (e ao usar esse lance da primeira pedra, mostro que adoro os lugares-comuns)

No último sábado, enquanto lavava roupa, ouvia uma coletânea dos Fab Four. Ao chegar numa das canções de que mais gosto - We Can Work It Out - encasquetei com os versos "Life is very short, and there's no time/for fussing and fighting, my friend". Já escutei essa faixa inúmeras vezes, por que só agora o (leve) desconforto?

Acho que tudo começou há algumas semanas, quando assisti o anúncio de um creme dental metido a besta. Como já escrevi aqui e em outras postagens, a publicidade e o discurso publicitário em geral me provocam uma grande ojeriza. "A vida é muito curta para cerveja quente, para café frio, para não celebrar, para sorvete derretido, para 'sem gelo, por favor' ", lê-se durante o comercial. No arremate, "a vida é muito curta para (ter) dentes sensíveis". Comecei a pensar em várias frases babosas que já ouvi ou li com essa mesma introdução: "a vida é muito curta para amar em silêncio"; "a vida é muito curta para permanecer magoado com alguém pelo resto da vida"; "a vida é muito curta para ficar se remoendo e reclamando de tudo"; "life is too short for regrets"; "life is too short to wait". E por aí vai...

Pra início de conversa, não me parece acurado presumir que a vida - assim, sem maiores particularizações e contextualizações - seja curta. 
 
Estaria de pleno acordo se se dissesse que a vida é frágil, instável e cercada de incalculáveis vulnerabilidades por todos os lados.

Mas o que diabos significa dizer que a vida é curta?

15 a 28 dias - esse é o tempo médio de vida de uma mosca. Na minha opinião, é uma vida curtíssima. Jimi Hendrix morreu algumas semanas antes de completar 28 anos. Viveu pouco? Estou certo de que teve uma existência imensamente mais proveitosa do que a minha, sendo eu quase um cinquentenário.
 
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Ninguém nega que a expectativa de vida dos seres humanos ampliou-se ao longo da história, em razão de avanços na medicina, na fabricação de remédios e vacinas, na alimentação, no saneamento e na produção de itens de higienização, etc. (embora, ainda hoje, milhões planeta afora não tenham acesso a vários desses benefícios). Além disso, mesmo que quadrilhas de criminosos brutais não tenham deixado de existir, foi graças ao aperfeiçoamento das leis e da aplicação da justiça (embora cheia de falhas), bem como à monopolização legítima do uso da força física pelo Estado, que um grande número de indivíduos pode escapar da morte decorrente de ataques de hordas itinerantes de facínoras, como era comum na Antiguidade, no medievo e até mesmo no início da era moderna ².
 
Muito mais pessoas hoje têm chance de alcançar 70, 80, 90 anos de idade.

Caramba, isso não é suficiente!?
 
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Matutemos um pouco nas hiperbólicas ideias de imortalidade e eternidade, abordadas há tempos pelas mitologias, pela arte e pelas religiões, ansiadas por tanta gente no passado e no presente.

Quando se olha mais a fundo e de forma realmente honesta, existir para sempre - ou nunca morrer - não seria, como se costuma pensar, verdadeiramente aprazível. Quer estejamos falando de um ponto de vista biológico/físico, quer falemos de um ponto de vista "incorpóreo"/sobrenatural, o ser humano que fosse/se tornasse eterno ou imortal experimentaria nalgum momento, penso eu, uma saciedade ou uma saturação diante da existência que o levaria até desejar sua própria dissipação. 

Os dois episódios finais de The Good Place (já escrevi sobre a série aqui) ilustram o que quero dizer - se o(a) eventual leitor(a) tem interesse em assistir, lamento o spoiler. 
 
Na chegada ao Lugar Bom, Chidi e Eleonor constataram que a ausência da perspectiva da morte transformou os que estavam naquele ambiente supostamente perfeito em "zumbis de felicidade". Decidiram então criar um portal: quem já estivesse satisfeito (ou cansado) de viver para sempre bastava passar por ele e sua existência acabaria. Dos personagens centrais, o mais descerebrado, Jason Mendoza, é o primeiro a desistir da eternidade (decorridos alguns Jeremy Bearimy) e resolve fazer a travessia.

E nem precisamos conjecturar um quimérico "paraíso" no "outro mundo". Bem aqui, neste abjeto planetinha Terra, conseguimos encontrar, até entre aqueles indivíduos beneficiados com uma imensidão de privilégios, rodeados por comodidades e luxos (estou falando, claro, dos ricaços), vários a sentir uma falta de apetência para viver, provocada, em geral, pelo tédio de obter (quase) tudo o que queriam. 

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Falemos agora dos que não são privilegiados, não têm vida cômoda, nem luxuosa (a maioria da população mundial, diga-se de passagem).
 
Imaginemos uma pessoa. Chamemo-la Joana. 
 
Pois bem. Joana nasceu em uma família pobre, numa área rural, sem muitas oportunidades educacionais. Começou a trabalhar cedo. Adolescente, foi para uma cidade maior, tornando-se empregada doméstica, profissão que manteve por 20 anos. Depois virou operária na indústria, realizando a mesma tarefa repetitiva por outras duas décadas. Poderia tentar se manter com o que receberia como aposentada, mas não conseguiria evitar os apertos financeiros. Quase sexagenária, volta a ser empregada doméstica. Quando fez 63, morreu de uma doença cardiovascular. Não descrevi aqui as dificuldades que Joana teve que enfrentar no decorrer de sua existência: mãe solo com dois filhos, sem direitos trabalhistas e com horários escorchantes no tempo de doméstica, pagando aluguel, dependendo do péssimo transporte coletivo, sem boas opções de lazer e cultura, sem contar com redes de proteção social, etc. Não obstante, ela talvez tenha sido feliz. Este, entretanto, não é meu ponto. Minha questão é: essa vida difícil foi curta? Será que Joana - na improvável hipótese de que tenha sido feliz - desejaria o prolongamento dessa mesmíssima vida por mais, sei lá, outros 63 anos? Acho que não...  
 
Vou abrir o jogo: acredito que 99,9% das coisas desse mundo (o termo aqui não se refere apenas a objetos) estão relacionadas a dinheiro - seu bom ou mau uso, sua boa ou má distribuição. Entre os bilhões de indivíduos que não têm grana e são obrigados a vender sua força de trabalho em ocupações árduas, desgastantes, repetitivas ou frustrantes apenas para sobreviver, acredito que bem poucos gostariam de ter sua vida prolongada dentro dessas mesmas condições.
 
No ótimo filme A qualquer custo (Hell Or High Water - direção de David Mackenzie, 2016), quando finalmente Toby (Chris Pine) e Marcus (Jeff Bridges, impecável no papel de velho policial sabichão) se encontram, o primeiro diz:

"I've been poor my whole life. So were my parents, their before them. It's like a disease passing from generation to generation, becomes a sickness, that's what it is. Infects every person you know, but not my boys. Not anymore. This is theirs now". [Eu fui pobre a minha vida inteira. Assim como meus pais e os deles antes. É como uma enfermidade passando de geração para geração, vira uma doença, isso é o que é. Infecta cada pessoa que você conhece, mas não meus meninos. Não mais. Isso é deles agora].

Ele se refere à fazendola semiabandonada que pertencia à falecida mãe. Os filhos dele vão herdá-la, mas agora não mais um campo estéril, com algumas vacas esquálidas, e sim uma área de exploração de petróleo. O imóvel, por causa de dívidas, seria tomado pelo banco. A solução para o problema arranjada por Toby e seu desajustado e violento irmão, Tanner, foi roubar agências da própria instituição financeira que se apropriaria do terreno. Não tenho dúvida de que está aí um dos motivos por que esse faroeste ambientado nos EUA pós-2008 (ou seja, pós-crise da bolha imobiliária) agradou parte do público: torcemos para os ladrões pois eles representam uma vingança contra os malditos bancos.

Como escreveu Eduardo Galeano (já citado aqui), "Dívidas: isto é o que tem quem nada tem; e uma patinha presa nessa ratoeira há de ter qualquer pessoa ou país que pertença a este mundo". Este blogueiro encontra-se no mesmo barco furado. Não me lembro qual foi a última vez que estive com as contas em dia. Mas, claro, como martelam em nossa cabeça os adoradores do deus Mercado (o que inclui, além dos controladores do capital grosso, uma grande parte dos publicitários e dos políticos, segmentos da mídia/entretenimento e, mais recentemente, coaches e digital influencers), a culpa é exclusivamente minha, pois não tenho "educação financeira". O sistema que explora até a nossa alma não tem nada a ver com isso...

Cheios de dívidas e no limite da saúde física e mental, muitos assalariados de baixa renda, trabalhadores informais e precários, gente que vive de biscate, aqueles e aquelas que não podem atender a determinados caprichos (fazer "uma viagem de descoberta interior" ou escolher "trabalhar com aquilo que gosta", já que a vida é curta, né?), gente que não pode ter o luxo de ligar o foda-se, essas pessoas talvez não estejam interessadas em estender seu tempo de existência, pois não há alternativas a não ser continuar na corrida de ratos - a esse propósito, recomendo vivamente o curta de animação Happiness, de Steve Cutts (a imagem no alto desta postagem foi extraída dele).
 
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Há muitos filmes na minha cabeça hoje. 
 

Entendo perfeitamente a atitude da personagem de Charlize Theron em A estrada (The Road - direção de John Hillcoat, 2009). Por que continuar existindo naquele mundo calamitoso, horrível e ainda cultivar a ilusão de criar uma família? É como ela diz antes de decidir partir para dentro da escuridão pavorosa, hedionda: "Eu não quero apenas sobreviver". Naquele cenário de barbárie e privação extremas - e o filme, a meu ver, acertou ao ser mais desolador ainda do que o excelente livro de Cormac McCarthy -, a melhor alternativa é morrer. Ainda assim, seu companheiro persistirá junto com o filho pequeno. 
 
Por que, fico me perguntando. Por quê?

Discordando da opinião da maioria (opinião que talvez seja resultado da inculcação religiosa), considero suicidar-se um dos gestos mais corajosos que alguém pode executar. Provavelmente por isso ainda não fiz uma segunda tentativa: não tenho a bravura necessária. Provavelmente também resta em mim aquele nocivo "amor gorduroso da vida", característica do Falstaff de Shakespeare, segundo o belíssimo poema de Álvaro de Campos/Fernando Pessoa.

Gostaria que as pessoas pudessem deixar de viver, quando entendessem que já não suportam mais estar vivas. E tanto melhor se pudessem contar com a ajuda do Estado ou de terceiros, sem tabus ou recriminações moralistas e carolas. Considero esse direito de escolha e a assistência que poderia ser prestada avanços civilizatórios. Concordo plenamente com a personagem Gloria Beatty, do livro Mas não se mata cavalo?, de Horace McCoy (já abordado no blog numa postagem de 2014):

" - Uma coisa que me intriga é que todo mundo se preocupa tanto com viver e tão pouco com morrer. Por que é que todos esses cientistas bambas sempre andam por aí tentando prolongar a vida em vez de achar um jeito agradável de acabar com ela? Deve haver um mundão de gente como eu neste mundo... gente que quer morrer mas que não tem coragem..."
 
No ano passado, em meio ao bombardeamento de notícias horrorosas que recebemos todos os dias, não pude deixar de ficar abalado e ao mesmo tempo indignado com o fato de que uma mulher poderia ser condenada a um considerável tempo de prisão por ter furtado dois refrigerantes, um saquinho de refresco em pó e dois pacotes de miojo, na tentativa de alimentar a si e aos filhos.

Em uma entrevista, após ser solta por um habeas corpus concedido pelo STJ ³, ela disse que seu grande sonho "era ser gente". Não duvido que muitos dos tais cidadãos-de-bem-conservadores-e-cristãos apontaram o dedo para a pobre mulher e esbravejaram: "Mas também é uma drogada desocupada que vive na rua! Teve o que mereceu!". Digo a você, eventual leitor(a): já não aguento mais o cada-um-por-si deste mundo, a burrice generalizada, a acumulação indecente de dinheiro, a proximidade do colapso ambiental.

Acho que já vivi demais. 
 
Está insuportável.

Preciso dar o passo final. Que me venha a coragem.

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¹ Já expliquei este ponto anteriormente, mas o faço agora, de novo, pois julgo importante. Quando uso a expressão música pop, estou me referindo a tudo aquilo que não é música clássica nem erudita. Em termos simples: música pop é aquilo que toca no rádio, aquilo que era feito para vender discos (e hoje é feito para gerar downloads ou acessos/visualizações). Não importa a vertente (rock, reggae, dance, metal, o chamado sertanejo, blues, country, o pop em si mesmo - quando considerado como um gênero à parte -, tecno/eletrônico, jazz, aquilo que denominamos MPB, aquilo que toca nos chamados bailes funk, etc.): se não é erudito nem clássico e foi feito com objetivos mercadológicos (o que não significa necessariamente um vício de origem), coloco tudo no gigantesco balaio da música pop. Obviamente, dentro dessa vastidão, há coisas que gosto e coisas que detesto.
 
² Para fazer todas essas afirmações (um tanto forçadas e peremptórias, admito), estou deliberadamente considerando a trajetória humana "somente" a partir do processo de sedentarização possibilitado pela agricultura e o surgimento das condições para o nascimento das primeiras civilizações.  

³ Como um caso desses vai parar no STJ? Que judiciário é esse? Como os juízes das instâncias inferiores não tiveram a compreensão e a sensibilidade adequadas para lidar com isso?
 

BG de Hoje

Adoro o riff de guitarra desta canção: Summer Romance (Anti-Gravity), gravada pelo INCUBUS e lançada em 1997. Alguns comentaristas de música já observaram - e eu concordo - que o Incubus, em muitos momentos, parece um epígono do Faith No More (esta sim uma das minhas bandas preferidas).