sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Livros para autorreconciliação (II): O Senhor das Moscas



"É preciso mais coragem para examinar os cantos sombrios da própria alma 
do que para um soldado lutar no campo de batalha".

                                                                                                W. B. Yeats

 

Na introdução de um de seus textos na coluna que mantinha no jornal  Nexo  há alguns anos, a historiadora e antropóloga Lilia M. Schwarcz reclamou do problema que é conviver com um certo tipo de pessoa tóxica, aquela "que contamina a tudo com sua negatividade". Gente assim  "desautoriza, humilha, assedia e torna a vida de quem está ao lado um grande inferno". Tem mais:  "pessoas com esse tipo de atitude costumam complicar não apenas suas próprias existências, como também daquelas que a circundam". Ainda segundo Schwarcz,  "a postura não funciona, entretanto, como filosofia geral de vida ou gesto premeditado, independente do contexto em que se apresenta. Penso, inclusive, que não é necessário insistir nesse tema, uma vez que me parece existir um consenso nesse sentido. Negatividade tóxica não traz nada de bom". 

A ênfase da coluna, contudo, está no incômodo de Schwarcz com o outro lado dessa moeda: a  positividade tóxica.  Assim como eu, ela nunca gostou  "de frases prontas e animadas, que não passam de chavões quando usadas indiscriminadamente. Do tipo: 'Seja positivo!', 'Olhe pelo lado bom!' 'Supere isso', 'Vá em frente'…".  Ou seja, as expressões que caracterizam os discursos motivacionais, uma das maiores pragas da contemporaneidade. 

Se olharmos com atenção o mundo ao redor, é possível chegarmos à conclusão de que "o poço anda bem cheio para que adotemos o 'modo positividade a todo custo'. Simplesmente desconsiderar e fazer pouco de sentimentos negativos próprios e dos outros, sem nem ao menos permitir que se entre em contato com eles, não pode ser boa saída".

O blogueiro que vos escreve pode até não estar diligentemente propagando a negatividade tóxica (afinal, restrinjo minhas interações com outros seres humanos ao mínimo possível), mas certamente é um pessimista em tempo integral. Esse tipo de postura diante da existência, na opinião de muitos, também não é nada desejável. Cabe a pergunta, porém: observando as condições socioeonômicas  em que vivem grandes parcelas da população mundial, além de verificar o estado em que se encontra o meio ambiente do qual todos dependemos, existe justificativa para crenças otimistas  não mais que comedidas? Aliás, gostaria de lembrar que, a despeito da vacuidade  de quase todos os seus enunciados (úteis, no entanto, para o ajustamento do indivíduo ao credo neoliberal e à aceitação conformada de sua posição no vale-tudo do capitalismo tardio), a positividade tóxica acaba sendo uma forma de otimismo.

Estou tentando dizer, no final das contas, que arvorar-se otimista não é essa Brastemp toda não.

E quanto à prosa literária? Nesse universo, predominariam as obras alicerçadas na positividade e na esperança ou as que acentuam, durante a maior parte da narrativa, a torpeza, a crueldade e o sofrimento que também permeiam as vivências humanas? O que gera mais histórias: o otimismo ou o pessimismo?

Dada a astronômica quantidade de livros produzidos, creio não ser possível responder essas perguntas. Seja como for, minha inclinação, como deve estar claro a essa altura, é para a ficção que se constrói a partir da angústia, da fúria, do infortúnio.

O Senhor das Moscas  (anteriormente discutido no blog aqui e aqui) foi (e ainda é) uma das grandes histórias pessimistas que me marcaram intensamente.

Em nações de língua inglesa (principalmente na Grã-Bretanha, Austrália e Estados Unidos), o romance acabou adquirindo, para muitos, a pecha de  livro-que-se-lê-na-escola. Abordado com frequência no ensino médio desses países, reduziu-se, involuntariamente, a um instrumento didático. NOTA: É,  mutatis mutandis,  o que acontece aqui no Brasil com alguns de nossos clássicos (posso citar, apenas como exemplo, o  Macunaíma ). Nessa perspectiva, o texto acaba se transformando num requisito para a realização de tarefas escolares e sua relevância, como obra de arte, passa despercebida.

Uma das recriminações mais dirigidas a  O Senhor das Moscas  incide diretamente sobre uma das ideias centrais do romance. Ao especular que as crianças isoladas na ilha após a queda do avião seriam incapazes de cooperarem entre si e logo se lançariam na selvageria, sob o império da força bruta, devido à ausência de instâncias moralizadoras e sem os aparatos civilizacionais com os quais se acostumaram, o autor estaria errado. Aponta-se que, do ponto de vista antropológico e sociológico,  O Senhor das Moscas  é bastante falho. Num artigo que li há poucos dias, havia a afirmação de que o livro é uma mentira (ora, ora, que conclusão fantástica: descobre-se que uma NARRATIVA FICCIONAL É INVENÇÃO, com cenários, figuras e situações imaginárias ...). Ainda sobre esse ponto, o historiador neerlandês Rutger Bregman (cujas declarações públicas sobre desigualdade social costumam me interessar) bate de frente com a visão negativa dos humanos retratada no texto de Golding. Numa entrevista para a MSNBC em 2022, ele recordou a história (real) dos seis adolescentes de Tonga que foram parar numa ilha desabitada, entre junho de 1965 e setembro de 1966, após o barco em que navegavam ter ficado à deriva devido a uma tempestade. Ao contrário dos meninos em  O Senhor das Moscas,  os jovens tonganeses ajudaram-se mutuamente e mantiveram uma convivência amigável (Bregman deu destaque a esse caso em seu livro  Humanidade: uma história otimista do homem,  que ainda não li). 

O que posso dizer a esse respeito?

Golding era um professor de Inglês atuando na educação básica. Embora tenha estudado em Oxford, sua formação não lhe forneceu um conhecimento amplo na área das Ciências Sociais. Penso que seria equivocado da parte da crítica exigir,  de um trabalho artístico/imaginativo, correção acadêmica estrita no campo da antropologia. Uma de suas intenções era produzir uma variante cáustica de livros de aventura em ilhas remotas (que sempre foram bastante populares), especialmente o etnocêntrico  A Ilha de Coral.  Ele estava convencido da incapacidade humana de controlar e superar seus ímpetos primitivos de violência e agressão e quis manifestar tal convicção na sua escrita. A participação na Segunda Guerra Mundial (inclusive do Dia D)  consolidou seu juízo sobre a propensão humana para a barbárie. William Golding - que se considerava um  monstro  - não desconhecia o mal também dentro de si: aos 18 anos tentou estuprar uma amiga e lidou com o alcoolismo severo a maior parte de sua vida, suportando uma depressão profunda de longa duração.  

Ainda que o escritor destaque o pior dos humanos, enxergando-os com pouca benevolência, suas recriminações não são irrealistas. Pergunto a você, eventual leitor(a): podemos, como espécie, até ser gregários e auxiliarmo-nos em determinadas circunstâncias, mas você vai dormir sossegadamente deixando suas portas e janelas destrancadas? E como ter fé na humanidade quando sabemos das atrocidades no Sudão e em Gaza?

O Senhor das Moscas  é todo recheado com personagens-símbolos. Devido ao tom de desconsolo da narração e à predominante atmosfera de aflição a partir de determinado momento, aqueles que retratam a força e a violência (Jack e Roger) seriam os mais apropriados para se verificar o esforço de Golding na demonstração de seus argumentos principais. Na postagem de hoje, porém, gostaria de me deter noutra figura.

Simon, para alguns analistas e resenhistas do romance, seria uma reminiscência de Jesus Cristo. Existe fundamento para essa avaliação, quando lembramos alguns aspectos da vida do  Filho de Deus  tal como seus adoradores costumam concebê-la: o garoto está sempre disposto a ajudar, principalmente os mais fracos (no caso, as crianças menores), fica parte do tempo isolado com seus pensamentos (como que  retirado no deserto ) e morre de forma injusta e violenta por um bando fora de si, incapaz de ouvir a comunicação importante que ele tinha para fazer a todos. O texto, como sabemos, abriga alusões e temas bíblicos às vezes bastante patentes, a começar pelo título:  Senhor das Moscas  é a tradução popularizada do nome cananita  Baal-zebub  - que, com o tempo, virou  Beelzebub,  depois  Beelzebul,  chegando ao português atual como  Belzebu. Ainda que não tenha sido um cristão devotado, Golding se considerava um homem religioso. Não custa lembrar também que a ideia de pecado original - ou seja, os seres humanos carregam dentro de si a semente da transgressão e da perversidade - é parte significativa da "tese" na qual a história se sustenta.

Contudo, não vou me embrenhar por esse caminho. Para mim, basta saber que Simon, a despeito de seu comportamento meio  místico, é o único que aparenta refletir antes de sair agindo às cegas dentro da narrativa, o único que se esforça por tentar atingir algum entendimento,  mínimo que seja, antes de ser contaminado pela agitação e o medo circundantes. Mesmo Piggy (Porquinho), o personagem que simboliza a inteligência, não se porta assim em todas as ocasiões. NOTA 2: Para reforçar o pessimismo da história, tanto Piggy quanto Simon - a inteligência e o ânimo de buscar alguma compreensão - morrem brutalmente.

É Simon, no capítulo 5, que lança a conjectura de que o mal e o perigo que todos temiam talvez não fossem um bicho de carne e osso vagando pela ilha, mas sim o impulso bestial latente dentro dos seres humanos. Conjectura que se mostra acertada a seguir, no capítulo 8, quando ele "conversa" com o Senhor das Moscas (a cabeça de porco fincada na estaca pelos caçadores comandados por Jack) ¹: 

"- Que engraçado achar que o Bicho é algo que podem caçar e matar! - disse a cabeça. Por um instante, a floresta e todos os outros lugares indistintos ecoaram com a paródia de uma gargalhada. - Você sabe, não é? Sou parte de você? Quase, quase, quase! Sou a razão por que ninguém pode ir embora? Por que as coisas são o que são?".

A partir de seu assassinato - uma espécie de martírio, mas sem a entrega sacrificial -, não há mais expiação para as crianças da ilha. 

Diante do oficial da marinha britânica surgido na praia (um  deus ex machina  sobre o qual valeria a pena tratar noutra postagem), Ralph, o líder que não conseguiu impedir a ruína apesar de seu carisma,  finalmente  "chorou pelo fim da inocência, pela escuridão do coração humano" e pela morte de Piggy.

Já não era mais possível, para ele e para nenhum daqueles garotos, chorar por Simon. Indelevelmente marcados pelo mal.

. . . . . . . 

Como havia explicado na postagem anterior, estou recorrendo à releitura de determinadas criações literárias que conseguem me revigorar de alguma forma e me ajudam a não virar o leitor meia-boca que temo tanto. Elas ajudam, acredito, a vencer essa prostração na qual mergulhei de uns oito meses pra cá. Daí falar em livros para  autorreconciliação.  Foi assim com  O deserto dos tártaros  e também com o livro do qual acabamos de falar. 

_______________

¹ GOLDING, William. O Senhor da Moscas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006 [Tradução de Geraldo Galvão Ferraz] 

 

BG de Hoje

Sempre achei uma das coisas mais bacanas no funcionamento do FAR FROM ALASKA o trabalho do Rafael Brasil. Com os pedais e outros recursos que não sei descrever (porque, infelizmente, não sou musicista), ele reproduz tanto a sonoridade da guitarra quanto a do baixo no mesmo instrumento (algo parecido com o que faz o Mike Kerr, do Royal Blood). Todo o meu respeito a essa versão que fizeram de  Iron Lion Zion  (BOB MARLEY) há alguns anos, com a Emmily Barreto entregando tudo nos vocais, como sempre.

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Livros para autorreconciliação (I): O deserto dos tártaros

Dois romances marcantes do século passado, publicados com uma diferença de quatro décadas entre um e outro, conectam-se a um célebre poema do grego Konstantinos Kaváfis ¹.  À espera dos bárbaros  (no idioma original e em caracteres latinos,  Periménontas toủs Varvárous )  é de 1904. Faço notar desde já que, a despeito da conexão, esses dois romances estão longe de manifestar o tom irônico que perpassa todo o poema.

Reproduzo abaixo a conhecida tradução feita por José Paulo Paes ²: 

  

À ESPERA DOS BÁRBAROS


O que esperamos na ágora reunidos?

      É que os bárbaros chegam hoje.

Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?

      É que os bárbaros chegam hoje.
      Que leis hão de fazer os senadores?
      Os bárbaros que chegam as farão.

Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?

      É que os bárbaros chegam hoje.
      O nosso imperador conta saudar
      o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe
      um pergaminho no qual estão escritos
      muitos nomes e títulos.

Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
de ouro e prata finamente cravejados?

      É que os bárbaros chegam hoje,
      tais coisas os deslumbram.

Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?

      É que os bárbaros chegam hoje
      e aborrecem arengas, eloquências.

Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?

      Porque é já noite, os bárbaros não vêm
      e gente recém-chegada das fronteiras
      diz que não há mais bárbaros.

Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.

 

J. M. Coetzee é o autor de um dos romances aludidos no início da postagem (já escrevi brevemente sobre ele aqui). Seu livro apareceu em 1980, sendo homônimo do poema de Kaváfis. É principalmente uma história sobre o poder exercido com disciplinada violência e perversidade. 

O outro texto a que fiz menção acima, também relacionado ao poema, veio a público em 1940.  O deserto dos tártaros,  de Dino Buzzati, serviu de inspiração para  À espera dos bárbaros,  de Coetzee. 

É do trabalho do escritor italiano que trataremos hoje (abordei-o anteriormente, por falar nisso, aqui e aqui).

. . . . . . .

No ensaio  Quatro esperas  (segunda parte do livro  O discurso e a cidade ), Antonio Candido reforça o entendimento a que chegamos todos os leitores da obra-prima de Buzzati: essa narrativa  "pertence à lista dos romances do desencanto" .  

O personagem central de  O deserto dos tártaros  é Giovanni Drogo, jovem que acaba de obter o posto de tenente. O rapaz é designado para prestar serviço no forte Bastiani, localizado num ponto remoto, fronteiriço a outro Estado (o  Reino do Norte ). Inicialmente disposto a permanecer na instalação militar apenas durante os poucos meses tidos como necessários para cumprir certas formalidades, Drogo acaba conformando-se com os ritos burocráticos do lugar, habituando-se às suas características e rotinas, sempre aguardando uma  hora milagrosa  que por fim forneça a ele a grande meta de sua vida. Durante a leitura, acompanhamos a progressiva desilusão e resignação do protagonista, ao finalmente se dar conta de que, com a sucessão dos dias e contrariamente às aspirações da juventude, não há nada de especial à sua espera e que ele não passa de  "um homem comum, a quem por direito não cabe senão um destino medíocre" ³.

A  fuga do tempo  é um dos grandes temas da narrativa:  "O tempo entretanto corria, marcando cada vez mais precipitadamente a vida com sua batida silenciosa, não se pode parar um segundo sequer, nem mesmo para olhar para trás. 'Pare, pare!', se desejaria gritar, mas vê-se que é inútil. Tudo se esvai, os homens, as estações, as nuvens; e não adianta agarrar-se às pedras, resistir no topo de algum escolho, os dedos cansados se abrem, os braços se afrouxam, inertes, acaba-se arrastado pelo rio, que parece lento, mas não para nunca".  Um fluxo ininterrupto, fora do controle humano, levando ao envelhecimento, ao cansaço e à fraqueza. A metáfora fluvial aparece algumas vezes no texto de Buzzati:  " [...]  o rio da vida jogara-o agora para um lado, para os sorvedouros periféricos, embora no fundo ele não tivesse nem cinquenta anos".

Os inimigos que poderiam atacar o forte Bastiani - e imprimir um propósito maior na existência insossa do militar - só chegarão muitos anos mais tarde, quando Drogo mal se sustentava de pé. Tal como no poema de Kaváfis, os bárbaros não chegaram (pelo menos não da maneira pela qual ansiara o protagonista) e não trouxeram nenhuma solução.

Seguindo a inexpressiva vida de Giovanni Drogo, o leitor pode extrair a seguinte lição (sim, creio ser correto usar esse termo, talvez antiquado ou fora de lugar - lição): "o sentido da vida de cada um está na capacidade de resistir, de enfrentar o destino (totalmente 'absurdo') sem pensar no testemunho dos outros, nem no cenário dos atos, mas no modo de ser", como bem condensou Antonio Candido.

Nesta minha última releitura de  O deserto dos tártaros,  entretanto, fiquei a pensar mais detidamente na sina de dois personagens secundários - o soldado Lazzari e o tenente Angustina - e nas lições que também encerram.

. . . . . . . 

A monotonia do forte Bastiani não se alterava. Os homens passavam muito tempo olhando para a planície desolada e sem movimento. Entretanto, no capítulo XII, um cavalo é avistado por aqueles que estavam de guarda no Reduto Novo (uma guarnição mais afastada do corpo principal do forte), acontecimento suficiente para agitar um pouco a instalação. Há uma indecisão sobre qual atitude tomar, até que o soldado Giuseppe Lazzari, pensando ser o seu próprio cavalo que teria escapado, decide por conta própria ir buscar o animal.

Sem muito tempo de serviço, o soldado não cuidou que seria necessário informar a senha (que ele não sabia) para retornar ao Reduto. Mesmo sendo reconhecido pelo sentinela Moretto, acabou sendo alvejado e morto por este, a poucos metros da entrada, devido a rigidez do regulamento, constantemente reforçado pelo sargento Tronk, um caxias intransigente e obtuso, que observava a sentinela com olhar severo e desapiedado quando este apontava o fuzil para o incauto Lazzari.

O soldado foi morto por uma submissão ridícula à norma. Ele conhecia o atirador; eram amigos. Moretto foi impelido a fazer o que a regra determinava. Seu superior poderia simplesmente deixar passar, permitir o retorno de Lazzari sem a obrigação de dizer uma maldita senha - uma formalidade desnecessária, naquela circunstância -, mas não o fez. Esse episódio me faz pensar na insensibilidade e na indiferença como marcas de determinadas organizações dentro da sociedade, ancoradas em regulamentos que as eximem de fazer o que é moralmente certo.

Um pouco mais à frente, no capítulo XV, narra-se a expedição de um grupamento enviado para estabelecer uma área de fronteira ainda não oficialmente definida, uma vez que  os do Norte  fariam o mesmo, como já haviam se entendido os governantes dos dois Estados. Os oficiais no comando da tarefa eram o capitão Monti e o tenente Angustina.

Pietro Angustina era considerado esnobe e não demonstrava ter muito interesse pelos outros colegas de farda (talvez porque os considerasse inferiores). Apesar de não apresentar um bom quadro de saúde, insistia em permanecer no forte, mesmo tendo a possibilidade de ser transferido e voltar à cidade. De certo modo, ele também desejava sua  hora milagrosa.  Na partida da expedição, ao invés de proteger os pés com um calçado mais rústico adequado para o longo e acidentado percurso (como fizeram os soldados e o robusto capitão Monti), calçava botas elegantes.

Foram penosas, para Angustina, a caminhada e a pequena escalada no local da delimitação de fronteira. Monti forçava o ritmo do grupamento principalmente para espezinhar o outro oficial, com quem antipatizava. Ainda assim,  os do Norte  chegaram antes ao topo do terreno que ambos os exércitos almejavam. Começava a nevar fortemente, junto com a chegada da noite. Enervado, o capitão queria logo empreender a descida para fazer um contorno. O tenente ponderou que seria indigno, pois  os do Norte  já haviam realizado a "conquista". É nessa hora que Angustina propõe um jogo de cartas, um dos mais belos momentos do romance de Buzzati, no qual se mostra toda a força alegórica da narrativa, bem como seu sentido existencialista profundo. Chamo atenção para este trecho:

"Havia, numa sala do forte, um velho quadro representando o fim do príncipe Sebastião. Mortalmente ferido, o príncipe Sebastião jazia no coração da floresta, apoiando as costas num tronco, com a cabeça um pouco largada para um lado, a capa recaindo em harmoniosas pregas; nada havia na imagem da desagradável crueldade física da morte; e olhando-se para ele não era de admirar que o pintor tivesse conservado toda a sua nobreza e extrema elegância.

Agora Angustina, ah, não que estivesse pensando nisso, assemelhava-se ao príncipe Sebastião, ferido no coração da floresta; Angustina não tinha como ele a brilhante armadura, nem a seus pés jazia o elmo ensanguentado nem a espada partida; não apoiava as costas num tronco, mas numa dura pedra; nem o derradeiro raio de sol iluminava-lhe a fronte, mas apenas uma fraca lanterna. No entanto, parecia-se muito com ele, idêntica a posição dos membros, idêntico o drapejo da capa, idêntica a expressão de cansaço definitivo.

Então, naquele momento, comparados a Angustina, apesar de serem bem mais vigorosos e ousados, o capitão, o sargento e todos os demais soldados pareciam rudes camponeses. Monti sentiu, embora parecesse inverossímil, nascer dentro de si uma admiração invejosa. [...]"

Num lugar onde o heroísmo guerreiro não se materializava, Angustina conseguiu demonstrar bravura de uma outra forma, lidando de frente com a morte em meio a um jogo de cartas, ainda que postiço, numa noite tempestuosa de neve. A coragem e o senso de dignidade mostram-se em episódios inesperados e, no caso desse personagem, emanadas de um sujeito a princípio desagradável.

. . . . . . . 

Mais do que o habitual, sinto-me doente nos últimos meses. Mental e emocionalmente, sobretudo. Em períodos assim, retorno a certos livros que me absorvem completamente; livros que busco para tentar me reconciliar comigo mesmo e retomar minha condição de leitor verdadeiro. O magnífico trabalho de Buzzati é um deles. Devo falar de outro que tem uma importância parecida com a desse na próxima atualização.

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¹ Encontro muitas vezes a grafia  Konstantinos Kaváfis  em textos em português relacionados a esse  autor. Mas também já vi  Constantino(s) Cavafis  ou Cavafe. Em material de língua inglesa, é comum encontrar a grafia  Constantine P. Cavafy  ou simplesmente  C. P. Cavafy.

² Infelizmente não tenho em mãos o livro Poemas, da Editora Nova Fronteira, no qual Paes publicou mais de 70 textos de Kavafis traduzidos (incluindo  À espera dos bárbaros ). Reproduzi o poema nesta postagem valendo-me de um breve artigo da professora Walnice Nogueira Galvão, disponível aqui: <https://jornalggn.com.br/cultura/a-espera-dos-barbaros-por-walnice-nogueira-galvao/>.   Acesso em 28/09/2026.

³ Todas as citações de O deserto dos tártaros incluídas nesta postagem são oriundas da tradução feita por Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade para a Editora Nova Fronteira (Rio de Janeiro, 2017, 6ª edição) 

 

BG de Hoje

Nos últimos dois meses, tenho ouvido este petardo dilacerante sempre que posso:  Blow Up The Outside World, do SOUNDGARDEN. Poucas canções têm conseguido me ajudar a suportar os dias de merda que ainda estão por vir.