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sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Chupar laranja, (tomar) aspirina, catar feijão


Voltei a trabalhar numa biblioteca escolar. Quase seis anos se passaram e me deparo, nesse retorno, com as mesmíssimas situações problemáticas que eu acreditava terem ficado para trás. Bem, pelo menos está mais fácil agora reaproximar-me da literatura infantil e infantojuvenil depois de um longo hiato. Uns dias atrás, fui percorrer as prateleiras de poesia e fiquei contente ao achar o livro  Dia brinquedo,  de Fernando Paixão (Ed. Abril, 2009, com ilustrações de Suppa). Numa oportunidade anterior, noutra escola pública, eu havia selecionado três poemas deste livro para apresentá-los (junto com outros, de poetas diferentes) a um conjunto de turmas, num minissarau. Naquela ocasião, a coisa saiu melhor do que o esperado, tendo em vista as dificuldades de se obter adesão e envolvimento nas ações ligadas à literatura, por incrível que pareça, dentro de determinadas unidades escolares.

Um dos poemas selecionados tinha sido este:

 

ENCONTRO DAS FRUTAS
 
Na fruteira nova
alta luz da tarde
as laranjas têm bunda
brilha o batom das maçãs.
 
Trinta e nove uvas
de mãozinhas dadas
dão boas risadas
da cara feia do abacaxi.

 

"Funciona" muito bem com vários estudantes do início do Fundamental, as imagens ocorrendo-lhes rapidamente, achando graça nos traseiros das laranjas e se perguntando como seria ter um rosto de abacaxi.

Há uma disponibilidade muito maior de temas e assuntos aos quais recorrer nos poemas endereçados às crianças do que nos outros, destinados aos leitores mais experimentados. Pode-se imaginar, por exemplo, um diálogo de amor entre um garfo e uma colher (como se vê nesse mesmo livro de Fernando Paixão citado acima) ou compor uma cena em que uma vaca entra num bar e pede refrigerante com canudinho (lembrei-me agora de um dos muitos textos engraçados do Sérgio Caparelli), sem se preocupar se isso vai ou não comprometer a imagem de poeta sério que muitos temem colocar em risco. E Fernando Paixão é um poeta sério, lido por adultos meticulosos, professor da USP e tal, mas que fez questão de colocar nas páginas centrais do seu  Dia Brinquedo :  "O poeta escreve poesia para ser criança todo dia".  

A menção de nádegas cítricas me fez lembrar de um poema bem fraquinho de Drummond ¹, do qual praticamente ninguém fala, mas que acho bem divertido, em sua peculiaridade :

 

CHUPAR LARANJA 
 
A laranja, prazer dourado.
A laranja, prazer redondo.
A laranja, prazer fechado.
A laranja, prazer de faca.
 
Ou canivete. Cada golpe
anuncia: já se aproxima
o íntimo prazer da laranja,
que se dá sem sacrifício.
 
A laranja não se espedace,
para mais intenso prazer.
A laranja fique redonda,
mesmo sem casca, esfera nívea.

Então corte rápido a lâmina
um dos polos; a mão aperte,
e a boca sorverá, sensual,
a líquida alma da laranja.
 
Quem foi que, anônimo, inventou
o prazer de chupar laranja
em forma global de mamucha?
Gerações antigas sorriem
neste mestrado de volúpia.

 

Chupar laranja  integra  Boitempo,  conjunto de poemas de teor memorialista, ligados à meninice e a adolescência, publicado originalmente em 1968. Assim como vários dos textos ali reunidos, seus versos derivam da evocação de um ato simples, ligado à vida doméstica.

Durante muitos anos, eventual leitor(a), principalmente na infância, fiz pouca questão da laranja. Fruta trivial, da mesma categoria da banana e do mamão - todas sem qualquer mirabolância. Hoje, envelhecido, praguejo se não encontro alguma para saborear depois de um bom almoço em casa, sendo justamente a sua modéstia e despojamento o que passou a me agradar.

Levei um certo tempo para desenvolver a habilidade de descascar laranjas (só de lembrar os "machucados" que, no passar da lâmina, deixei em muitas delas, fico irritado, inclusive por uma questão estética, pois alcançar a "esfera nívea", quase homogênea, deveria ser o objetivo). Agora, com orgulho, posso arvorar-me um perito e, apesar da invencível desorganização e do caos permanente em minha moradia, guardo em local especial há anos uma faca jeitosa exclusivamente para o descascamento (por isso assimilo tão bem o verso "A laranja, prazer de faca"  ). 

O eu lírico presume que o  corte em "dois polos"  é o modo padrão de consumo da fruta. Entretanto, vê-se bastante mundo afora o  corte em xis ou cruz   (sem necessidade de tirar a casca, aliás) e até a  separação por gomos  (procedimento supérfluo e trabalhoso, devo dizer), tal qual uma tangerina que perdeu a vocação. A  "forma global de mamucha"  não é, portanto, planetária (a propósito, que palavra deliciosa é  mamucha , indisfarçavelmente mineira e com os dois pés no arcaico!).

Não recriminaria quem achasse insólito a laranja ser o tópico central de um poema (que não visava o público infantil) elaborado por um dos bambas da nossa poesia. Estranhamento parecido talvez se repita numa outra composição cujo tema principal, desta vez, é um fármaco ²:

 

NUM MONUMENTO À ASPIRINA
 
Claramente: o mais prático dos sóis,
o sol de um comprimido de aspirina:
de emprego fácil, portátil e barato,
compacto de sol na lápide sucinta.
Principalmente porque, sol artificial,
que nada limita a funcionar de dia,
que a noite não expulsa, cada noite,
sol imune às leis de meteorologia,
a toda hora em que se necessita dele
levanta e vem (sempre num claro dia):
acende, para secar a aniagem da alma,
quará-la, em linhos de um meio dia. 
 
Convergem: a aparência e os efeitos
da lente do comprimido de aspirina:
o acabamento esmerado desse cristal,
polido a esmeril e repolido a lima,
prefigura o clima onde ele faz viver
e o cartesiano de tudo nesse clima.
De outro lado, porque lente interna,
de uso interno, por detrás da retina,
não serve exclusivamente para o olho
a lente, ou o comprimido de aspirina:
ela reenfoca, para o corpo inteiro,
o borroso de ao redor, e o reafina.


O autor, desta feita, é João Cabral de Melo Neto e o texto em questão é bem mais conhecido do que o anterior. Faz parte de  A educação pela pedra,  lançado em 1966.

Uma nota biográfica vem a calhar. O poeta pernambucano sofreu por décadas com uma enxaqueca crônica. Em entrevista, afirmou ter consumido, durante muitos anos, cerca de seis comprimidos de aspirina diariamente. O medicamento tornou-se parte da sua vida - uma homenagem, portanto, não soaria despropositada. Em se tratando da poética cabralina, contudo, não devemos esquecer como o autor gostava de tornar matéria de poesia aquilo que ordinariamente não é considerado poético, evitando vocábulos por demais polissêmicos, preterindo a abstração e valorizando a concretude. Frente a um comprimido de aspirina, pouco pode fazer o subjetivismo.

Para encerrar essa mirada de poemas, busquemos mais um de Melo Neto ³,  célebre, também extraído de  A educação pela pedra :

 

CATAR FEIJÃO
 
Catar feijão se limita com escrever:
jogam-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na da folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.
 
Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que sempre entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá a frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a com o risco.


A quem ocorreria a comparação entre o prosaico ato de catar feijão e o ato de escrever (no caso, escrever literatura)? Está demonstrado que eles  se limitam  (ou seja, fazem fronteira um com o outro, são próximos embora não idênticos). Quem escreve distingue, precisa separar e depois suprimir "o leve e oco", a "palha e eco" - ou, às vezes, incorporar conscientemente a  pedra, indesejada no preparo do feijão, mas bem-vinda na escrita,  se esta atende a necessidade do artista de desafiar o leitor. Para João Cabral, o poema é sobretudo resultado de um empenho do pensar: o derramamento da inspiração é secundário na hora de compô-lo.

Esse é um dos textos cabralinos em que a sonoridade combinada das palavras contribui imensamente para sua beleza: "jogam-se os grãos na água do alguidar" ;  "e jogar fora o leve e oco, palha e eco" ;  "obstrui a leitura fluviante, flutual/ açula a atenção, isca-a com o risco".  Justamente num autor que,  aparentemente,  não dava muita bola para esses efeitos...

 

Na próxima postagem, continuarei no terreno do verso, falando do último livro de poemas de Affonso Romano de Sant'Anna que veio a público antes de seu falecimento.

_________________ 

¹ ANDRADE, Carlos Drummond de. Chupar laranja. In: ____________. Boitempo I. 4 ed. Rio de Janeiro: Record, 1998. p. 78-79 

² MELO NETO, João Cabral de. Num monumento à aspirina. In: ___________. A educação pela pedra e depois. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997. p. 32

³ MELO NETO, João Cabral de. Catar feijão. In:___________. A educação pela pedra e depois. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997. p. 16-17  

BG de Hoje

Não tenho dados para confirmar, mas o Rio de Janeiro é provavelmente o município mais cantado do Brasil. É compreensível: além da antiguidade e da importância ao longo da história, muitos de seus moradores e visitantes frequentes amam de paixão aquele lugar (pessoalmente, tenho muita antipatia  pela  cidade maravilhosa  , além de muito pavor - opinião que não vale quase nada pois só estive por lá uma única vez,  num breve período). Rio 40 graus, composição de FERNANDA ABREU, FAUSTO FAWCETT e Laufer, lançada em 1992, é um breviário poético e musical da cidade como nenhum outro já feito, admiravelmente sintetizado na expressão "purgatório da beleza e do caos". 

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Falou e disse...

"O ato do poema é um ato íntimo, solitário, que se passa sem testemunhas. Nos poetas daquela família para quem a composição é procura, existe como que o pudor de se referir aos momentos em que, diante do papel em branco, exerciam sua força. Porque eles sabem de que é feita essa força - é feita de mil fracassos, de truques que ninguém deve saber, de concessões ao fácil, de soluções insatisfatórias, de aceitação resignada do pouco que se é capaz de conseguir e de renúncia ao que, de partida, se desejou conseguir."

MELO NETO, João Cabral. Poesia e composição. In: ________. Prosa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997. p. 51

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Quatro poemas de João Cabral de Melo Neto



Segundo o crítico literário Antonio Carlos Secchin*, o poeta João Cabral de Melo Neto, ao longo de sua produção, sustentou que,

"quando se diz a palavra 'mesa' ou a palavra 'microfone', todos sabem do que se trata. Mas se alguém pronuncia 'beleza', 'amor' ou 'saudade', cada indivíduo vai entendê-las de um modo particular, obstruindo, pela polissemia, a dimensão univocamente compartilhável a que o poeta aspira. Encontramos na obra de João Cabral um predomínio inconteste de substantivos concretos sobre os abstratos. Outro dado interessante é que ele nega a existência de palavras que sejam a priori 'poéticas', pois isso implicaria a demissão do próprio poeta, reduzido a coletar ingredientes previamente preparados para adicionar à receita do texto. João Cabral sustenta que o poético é um efeito sintático, obtido no corpo a corpo com as palavras, e introduz na poesia brasileira vocábulos que ninguém ousava utilizar: cabra, ovo de galinha, aranha, gasolina, todos eles signos prosaicos, 'vulgares'. E abre uma confessa exceção: nunca conseguiu incluir 'charuto' em sua obra, considerando-o o termo menos aproveitável da língua portuguesa".

O poeta pernambucano, sabemos, nunca teve em alta conta a inspiração como força motriz da poesia. Sua poética - radicalmente antilírica, antirromântica - propugnou pelo esforço daquele que escreve em conter excessos de subjetividade, de modo a sofrear também a vaguidão de sentido do poema. Por isso o aspecto mais importante na obra de João Cabral é - para usar uma palavra cara ao artista - sua arquitetura, resultante do trabalho rigoroso de (re)elaboração do texto, uma vez que o poético, para ele, é um efeito antes sintático do que léxico, como bem observa Secchin no excerto acima.

Antes de prosseguir, gostaria de fazer uma breve revelação particular. Foi a leitura atenta dos poemas cabralinos que me curaram da poetice. Poetice é como chamo aquela pueril vontade de escrever poesia - afinal, qualquer um consegue sapecar uns versinhos por aí, não é mesmo? - vontade que acomete muitos indivíduos por volta do final da adolescência, mas estertora, felizmente, nos primeiros anos de vida adulta, quando o mero poeteiro percebe que o buraco é mais embaixo, graças ao contato sistemático ou, pelo menos, regular com os textos produzidos por poetas de verdade. Ler com atenção João Cabral de Melo Neto conduziu minha apreciação crítica de poesia para um horizonte no qual as composições furrecas que joguei no papel um dia não passavam de fumaça tóxica.

Observemos agora um dos quatro poemas selecionados para a postagem de hoje, todos publicados originalmente em 1975, no livro Museu de tudo**, um momento mais "flexível" - mas nem por isso menos valioso - dentro da granítica e vertebrada obra de João Cabral.

                MEIOS DE TRANSPORTE

§ O câncer é aquele ônibus
  que ninguém quer mas com que se conta;
  não se corre atrás dele,
  mas quando ele passa se toma;

  que ninguém quer mas sabe;
  e que um dia ao sair-se do sono,
  lá está, semi-surpresa,
  quase pontual, no seu ponto.

§ Sem pontos de parada,
  solto nas ruas como um táxi,
  sem o esperar, querer,
  sem ter por que, se toma o enfarte:

 táxi que, de repente,
 ao lado de quem não se pensava,
 para, no meio-fio,
 toma, quem não o vira ou chamara.

Dividido em duas partes, o poema não faz mistério nas imagens/metáforas que estabelece: câncer=ônibus - enfarte=táxi, formas corriqueiras de ser transportado para a morte. Note-se desde já quão pouco "poéticas" são as palavras-chaves escolhidas pelo autor (quantos incluiriam num escrito que se quer poético a palavra câncer, evitada até mesmo nas conversas cotidianas, por temor supersticioso?). Note-se também a ausência de adjetivos (exceto pontual, qualificativo, convenhamos, nada abstrato) entre as mais de 80 palavras usadas no poema. Passemos a outro texto, mas tendo em mente tudo o que estamos discutindo até agora.

            W. H. AUDEN
            (1905 - 1973)

Se morre da morte que ela quer.
É ela que escolhe seu estilo,
sem cogitar se a coisa que mata
rima com sua morte ou faz sentido.
Mas ela certo te respeitava,
de muito ler reler teus livros,
pois matou-te com a guilhotina,
fuzil limpo, do ataque cardíaco.

Uma vez mais, ocorrem pouquíssimos adjetivos, apenas no último verso - limpo, cardíaco (sendo que o segundo seria quase inevitável, dada a expressão da qual faz parte). Trata-se de um poema de circunstância, como vários que se encontram em Museu de tudo, homenageando (ou servindo de epitáfio a) Wystan Hugh Auden, poeta britânico radicado nos EUA, falecido dois anos antes da publicação desse livro de Cabral. O(a) eventual leitor(a) terá constatado a essa altura, observando os números de versos e tamanho das estrofes, a obsessão do autor pelo 4 e seus múltiplos: Meios de transporte compõe-se de 4 quadras, totalizando 16 versos; W. H. Auden, estrofe única de 8 versos.

"Às vezes" - diz Antonio Carlos Secchin - "um poema de Cabral ocupa uma única longa estrofe, aparentemente desobrigada do 4. Mas, se computarmos o total de versos chegaremos a 16, 32, 64... De 4 em 4 sempre ocorre uma espécie de insulamento de sentido, como se o poeta precisasse exatamente dessa medida para elaborar um pensamento". É mais um expediente previamente pensado, de cálculo, para conter o excesso de subjetividade, de modo que o esforço de construção, o artesanato do poema, ocupe o primeiro plano. Não escapou, claro, ao(à) eventual leitor(a) que os textos vistos até agora tematizam a morte e os males do corpo. Acrescentemos mais outro:

O ESPELHO PARTIDO

            1.

A morte pôs ponto final
à árvore solta do jornal-
romance pelo autor previsto
como câncer não como quisto.

Como câncer: signo da vida
que multiplica e é destrutiva,
câncer que leva outro mais dentro,
o câncer do câncer, o tempo.

             2.

Marques Rebelo compreendeu
na criação as leis do câncer:
a tensão do que se faz, entre
fazer e desfazer, pró e anti.

E não só nesse esgalhamento
com que ele se faz destruindo,
mas ao redestilar, do câncer,
o ácido de um sim negativo.

O Espelho Partido é um outro poema de circunstância, cujo título alude à trilogia escrita pelo romancista carioca Marques Rebelo e publicada entre 1959 e 1968. Tem também feição de necrológio; assim como W. H. Auden, Rebelo faleceu em 1973. Interessa-nos aqui, especificamente, a incisiva metáfora do poder corrosivo do tempo: "câncer que leva outro mais dentro/o câncer do câncer, o tempo". NOTA: Não custa lembrar rapidamente de outro texto no Museu de tudo (Duplicidade do tempo) em que esse poder é também metaforizado: "O níquel, o alumínio, o estanho/ e outros assépticos elementos,/ ao fim se corrompem: o tempo/injeta em cada um seu veneno".".

Tal como no primeiro poema lido nesta postagem o mesmo vocábulo "não-poético" ajuda a compor poesia de alta qualidade, entendida, já sabemos, sempre como um efeito sintático, ou seja, proveniente do plano das relações estabelecidas entre as palavras na estrutura conferida ao texto; não que o significado evocado por elas seja irrelevante, apenas que o valor artístico/estético do poema não depende disso.

Mais um (o último):

ANÚNCIO PARA COMÉSTICO

Nada há contra o tempo.
O homem tudo o que pode
é fechar-se ao espaço
redondo que o envolve;
jogar fora o espaço,
o fora, ele sim pode,
assim numa Cartuxa
que do ao redor o isole.
Mas o tempo é de dentro;
dentro dele faz-se, escorre,
e esse escorrer interno
não há nada que o corte.
Às vezes o ".........."
por certo tempo o encobre:
não o tempo ele próprio,
mas sim o corpo que ele morde,
já que o expressar do tempo
é roer o que percorre.

Essa sagaz reflexão sobre a impossibilidade de vencer/fugir do tempo (e, portanto, de sua corrosão, ou seja, o envelhecimento e, por conseguinte, a morte) diz logo o que se propõe a dizer, sem qualquer linguagem cifrada. Mais uma vez recorro a Antonio Carlos Secchin:

"A obra do poeta é clara, de claridade, porque é solar, meridiana, invadida de luz por todos os lados, e é também clara, de clareza, porque não propõe charadas. Não se cogita de 'isso quer dizer o quê? qual a mensagem escondida?'. Tudo está ali, à flor da página, à flor do texto. Mas o claro, quando excessivo, ofusca. Então, nos desnorteamos frente ao poema, não por ele ser hermético, mas por refugarmos diante de sua clareza. É ostensivamente visível o jogo proposto, e nós, caçadores de profundezas mirabolantes, perdemos a chance de topar com um tesouro que está na superfície da folha, sem aspirar a mistério algum".

O leitor pode, talvez, não ter claro em mente, por exemplo, a que o termo Cartuxa se refere (nesse caso, metonímia para monastério fechado; trata-se da ordem religiosa medieval, extremamente austera, fundada por São Bruno), mas todo o restante do poema não carrega qualquer intenção enigmática. Ah, e revela também um lado pouco ressaltado na obra de João Cabral: seu peculiaríssimo senso de humor.

João Cabral de Melo Neto - é inevitável - sempre será lembrado por Morte e vida severina. E não é mal que isso aconteça. O poeta, entretanto, tem muito, muito mais a oferecer. Essa postagem foi um modo de convidar o(a) eventual leitor(a) a frequentar essa poesia precisa, tantas vezes seca, quase sempre lúcida e bela a seu modo.

___________
* SECCHIN, Antonio Carlos. João Cabral: do fonema ao livro. In: _______. Escritos sobre poesia e alguma ficção. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2003, p. 73-86

** MELO NETO, João Cabral de. Museu de tudo. In: ______. A educação pela pedra e depois. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997. p. 41-91

BG de Hoje

Soube que os PIXIES voltaram a se apresentar e tocar juntos. Boa notícia, mas nem tanto: soube também que não se trata da formação original. A baixista Kim Deal não está a bordo (seriam as famosas "diferenças criativas"?). De todo modo, mesmo não sendo um som sempre palatável, gosto de Pixies e escolho como BG uma das melhores canções da banda, uma das poucas cantadas por Deal (que também a compôs, junto com o controlador Black Francis): Gigantic.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

O ato de escrever: vaidade, autoafirmação ou compartilhamento de saber? (2)



"A vaidade está de tal forma arraigada no coração do homem que um soldado, um criado, um cozinheiro, um malandro, se gaba e pode ter seus admiradores; e os próprios filósofos pretendem o mesmo. E os que escrevem contra isso querem a glória de escrever bem, e os que os leem querem ter a glória de os ter lido; e eu, que escrevo isto, talvez tenha essa vontade, e talvez os que me lerem..."

 Pascal - Pensamentos*


"Portanto, é possível distribuir minha solidão, torná-la meio de conhecimento".
Carlos Drummond de Andrade, no poema América**


Comecemos falando do poema*** de João Cabral de Melo Neto citado na postagem anterior, cujos dois primeiros versos compõem uma pergunta que o poeta tentará responder com o próprio texto: "Por que é o mesmo o pudor/ de escrever e defecar?"


Escrever, neste caso, refere-se à escrita literária (mais precisamente, à produção do poema). Este é um dos textos que, a meu ver, melhor se ajustam à concepção cabralina do fazer poético. E este fazer, para João Cabral, nada tem de especialmente sublime ou inefável. Daí a magistral comparação entre o momento da geração/elaboração do texto literário (algo supostamente elevado, enobrecedor) com a cagada (aqui no sentido literal, necessidade fisiológica culturalmente associada àquilo que é reles, sórdido).

Na segunda estrofe, João Cabral nos diz que "escrever é estar no extremo/ de si mesmo [...]" ; é estar completamente nu. Daí o pudor. Mas atenção: essa vergonha aparece apenas porque o escritor/poeta não quer que outras pessoas "vejam/ o que deve haver de esgar,/ de tiques, de gestos falhos,/ de pouco espetacular/ na torta visão de uma alma/ no pleno estertor de criar". Essas reações - mais uma vez a comparação - assemelham-se às que acontecem quando estamos sentados nos vasos sanitários. E vale lembrar que alguns escritores/poetas (que, na minha opinião, são os piores) gostam de alardear que sua escrita provém, não da atividade assídua, rotineira, mas  de um "dom" singular.

No último grupamento de versos, o autor dá-se conta de um paradoxo: "o pudor de fazer/ é impudor de publicar". Deve ser por isso que há tanta merda em prosa e verso jogada na web (sendo este blog amostra inequívoca de matéria excrementícia) ... Tenciono, porém, falar de outro assunto a partir de agora.

. . . . . .

Sempre desconfio de quem não reconhece em si próprio a vaidade. Blaise Pascal (já citado na epígrafe deste texto), um dos filósofos que melhor refletiu sobre essa característica humana (e não vou me deter aqui sobre as razões que o levaram a isso), afirmara:

"Curiosidade não é senão vaidade. O mais das vezes, não se quer aprender senão para falar do que se sabe. Não viajaríamos por mar, só pelo prazer de ver, se não quiséssemos dizer algo a respeito e não esperássemos comunicar nossas impressões".

Partindo dessa passagem, e pensando no ato de escrever para além da atividade artística/ profissional, gostaria de discutir com o(a) leitor(a) o que podemos intuir hoje em dia sobre esse ato, com o advento dos blogs e, principalmente, das chamadas redes sociais, esses novos espaços da escrita, cada vez mais populares, influentes e despudorados, em certo sentido (principalmente as redes), levando em consideração o que esses "lugares" podem representar em termos de exibição vaidosa, necessidade de autoafirmação e desejo de compartilhamento de algum saber.

. . . . . .

Marcelo Coelho, recentemente, na sua (ótima) coluna da Folha de S. Paulo**** (disponível aqui), ao comentar sobre as futilidades que infestam o Facebook (e preciso admitir: "contribuo" com um bocado delas), disse ficar "aflito de ver as pessoas postando de 15 em 15 minutos, durante toda a extensão do dia. A falta do que fazer nunca deu tanto trabalho".

Admitindo sua rabugice, Coelho, no entanto, acaba vendo uma função para a rede social: seria uma "função fática", quando o que se quer é apenas enviar sinais de existência, do tipo "olha, eu tô aqui!". E percebendo que a "utilidade" do Facebook (e por consequência, parte significativa da sua lucratividade) está também ligada à ferramenta curtir, faz uma observação com a qual concordo plenamente: "Reparei que não existe, entretanto, a ferramenta oposta. O ' não curti ', que sem dúvida eu empregaria com relativa frequência, não está previsto".

E isso talvez seja bom: evitam-se brigas, que seriam ainda mais banais do que as próprias postagens.

Com tudo isso quero dizer o seguinte: na minha avaliação, o Facebook (como outros "serviços" na web, inclusive a blogosfera) é, para muitas pessoas, apenas um espaço de exibicionismo vaidoso. Entretanto, cabe perguntar: quem não é vaidoso? O problema, penso eu, é que essa rede social e os blogs (assim como o Twitter ou o Orkut) podem nos mostrar como determinadas pessoas são superficiais e a gente não percebia... Mas, pensando bem,  isso pode até ser útil: não tenho problema nenhum em "deletar" da minha lista de contatos (e também do meu convívio fora da web) pessoas que me encham o saco com seu narcisismo.

Porém, reconheço que, para muita gente, esses "serviços" criados na/pela rede mundial de computadores ajudam no caminho da autoafirmação de alguns indivíduos, como já pude comprovar com conhecidos próximos a mim, cuja aceitação de si mesmos está se tornando menos traumática.

Não seria o caso, por fim, de especular, de modo otimista (embora eu seja cronicamente pessimista), que estejamos plasmando talvez uma nova forma de gerar conhecimento, compartilhando, através desses "serviços", novas formas de saber? Quero lembrar o verso de Drummond citado na segunda epígrafe desse texto: "portanto, é possível distribuir minha solidão, torná-la meio de conhecimento".

O que pensa o(a) leitor(a) dessas lucubrações?

P.S. Vale muito também ler o que escreveu Rachel Nunes (clique aqui) a respeito das ideias de Marshall McLuhan, difundidas pelo clássico livro O Meio é a Mensagem, e que, de certo modo, se relaciona com o que discuti acima.

__________
* PASCAL, Blaise. Pensamentos. 2 ed. São Paulo: Abril Cultural, 1979 [tradução de Sérgio Milliet] (Coleção Os pensadores)

** ANDRADE, Carlos Drummond de. América. In: A rosa do povo. 40 ed. Rio de Janeiro: Record, 2008, p. 150-155

*** MELO NETO, João Cabral de. Exceção: Bernanos, que se dizia escritor de sala de jantar. In: A educação pela pedra e depois. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, p. 90-91 [Este poema integra o livro Museu de Tudo, publicado originalmente em 1974]

***** COELHO, Marcelo. Curti (não curti) isso. Folha de S. Paulo, São Paulo, 10 ago. 2011, Caderno Ilustrada, p. 12


BG de Hoje

Os recentes "protestos" ou "desordens" (os termos variam de acordo com a posição ideológica do observador) ocorridos em Londres lembraram-me uma famosa canção do CLASH (misturando punk e reggae), The guns of Brixton (aliás, um dos distritos colocados em polvorosa nesses dias). Claro que o momento histórico era distinto deste e a banda não falava exatamente da mesma coisa, mas mesmo assim quis incluir este BG.




sábado, 13 de agosto de 2011

O ato de escrever: vaidade, autoafirmação ou compartilhamento de saber? (1)


Num de seus melhores escritos* (apenas em minha opinião, claro), o poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto fez extraordinária reflexão sobre o ato de escrever. Por enquanto, apenas reproduzo o poema; falarei dele (e de um assunto relacionado) mais adiante.

EXCEÇÃO: BERNANOS, QUE SE DIZIA ESCRITOR DE SALA DE JANTAR

Por que é o mesmo o pudor
de escrever e defecar?
Não há o pudor de comer,
de beber, de incorporar,
e em geral tem mas pudor
quem pede do que quem dá.
Então por que quem escreve,
se escrever é afinal dar,
evita gente por perto
e procura se isolar?

Escrever é estar no extremo
de si mesmo, e quem está
assim se exercendo nessa
nudez, a mais nua que há,
tem pudor de que outros vejam
o que deve haver de esgar,
de tiques, de gestos falhos,
de pouco espetacular
na torta visão de uma alma
no pleno estertor de criar.

(Mas no pudor do escritor
o mais curioso está
em que o pudor de fazer
é impudor de publicar:
com o feito, o pudor se faz
se exibir, se demonstrar,
mesmo nos que não fazendo
profissão de confessar,
não fazem para se expor
mas dar a ver o que há.)

Convido o(a) leitor(a) a refletir junto comigo nesta e na próxima postagem.
__________
* MELO NETO, João Cabral de. Exceção: Bernanos, que se dizia escritor de sala de jantar. In: A educação pela pedra e depois. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, p. 90-91 [Esse poema integra o livro Museu de Tudo, publicado originalmente em 1974)

BG de Hoje

No chamado movimento grunge, por razões óbvias, sempre gostei mais dos grupos que não se distanciavam do heavy metal tradicional. Caso do SOUNDGARDEN (e do Alice in Chains, minha banda predileta, claro). Além do mais, o quarteto contava com o guitarrista "zen" Kim Thayil e o excepcional cantor Chris Cornell. Em Blow up the outside world (canção feita sob medida para os permanentemente-putos-com-a-vida, como é o meu caso), Cornell escreveu uma das suas melhores letras. OBS: Abaixo, competente versão ao vivo.


quinta-feira, 17 de março de 2011

Poesia: questão de tudo ou nada? (7)

 
Já passou da hora de "vencermos" o ensaio de Octavio Paz* (disponível aqui). Aos quatro últimos excertos escolhidos, pois. Observações pessoais, sob forma de notas, mais adiante, tal como na última postagem.

8) "Ser ambivalente, a palavra poética é plenamente o que é - ritmo, cor, significado - e, ainda assim, é outra coisa: imagem. A poesia converte a pedra, a cor, a palavra e o som em imagens. [...] o fato de serem imagens, e o estranho poder de suscitarem no ouvinte ou no espectador constelações de imagens transformam em poemas todas as obras de arte".

9) "Portanto, a leitura de um só poema nos revelará, com maior certeza do que qualquer investigação histórica ou filológica, o que é a poesia".

10) "E não apenas a história nos faz ler com olhos diferentes um mesmo texto. Para alguns o poema é a experiência do abandono; para outros, do rigor [...] Cada leitor procura algo no poema. E não é insólito que o encontre: já o trazia dentro de si".

11) "Há uma característica comum a todos os poemas, sem a qual nunca seriam poesia: a participação. Cada vez que o leitor revive realmente o poema, atinge um estado que podemos, na verdade, chamar de poético. A experiência pode adotar esta ou aquela forma, mas é sempre um ir além de si, um romper os muros temporais, para ser outro. Tal como a criação poética, se dá na história, é história e, ao mesmo tempo, nega a história [...] Revive uma imagem, nega a sucessão, retorna no tempo. O poema é mediação: graças a ele, o tempo original, pai dos tempos, encarna-se num momento. A sucessão se converte em presente puro, manancial que se alimenta a si próprio e transmuta o homem. A leitura do poema mostra grande semelhança com a criação poética. O poeta cria imagens; o poema faz do leitor imagem; poesia".

. . . . . .

  • Num de seus mais belos poemas** (em minha opinião, claro), João Cabral de Melo Neto nos dá essa "constelação de imagens" de que fala Octavio Paz, partindo do número quatro - símbolo de exatidão para o poeta:
 
"O número quatro feito coisa
ou coisa pelo quatro quadrada,
seja espaço, quadrúpede, mesa
está racional em suas patas;
está plantada, à margem e acima
de tudo o que tentar abalá-la,
imóvel ao vento, terremotos,
no mar maré, ou no mar ressaca.
Só o tempo que ama o ímpar instável
pode contra essa coisa ao passá-la
mas a roda, criatura do tempo,
é uma coisa em quatro, desgastada".

Muitos dos que hoje se intitulam poetas estão longe de insuflarem no leitor tal sugestão imagética...
  • A leitura de um bom poema nos ensina mais sobre a poesia do que os pesados estudos críticos e/ou analíticos. Como estudioso de Literatura, obviamente, não concordo por inteiro com essa opinião. Ainda assim, o que dizer da leitura de centenas de bons poemas (sem recorrer aos pesados estudos críticos)ao longo de toda uma vida, como o fez Octavio Paz? Não há outra "alternativa": é preciso ler efetivamente os textos!
  • Eu sou do lado do rigor...
  • No excerto nº 11, o escritor mexicano menciona um dos mais fantásticos sentimentos que alguém pode experimentar durante a fruição estética: a sensação de sair de si. Sábias e belas palavras: "Cada vez que o leitor revive realmente o poema, atinge um estado que podemos, na verdade, chamar de poético. A experiência pode adotar esta ou aquela forma, mas é sempre um ir além de si, um romper os muros temporais, para ser outro".
______________
* PAZ, Octavio. Poesia e Poema. In: __________. O arco e a lira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992. p. 15-31 [tradução de Olga Savary]

** MELO NETO, João Cabral de. O número quatro. In: _________. A educação pela pedra e depois. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997 [o poema em questão faz parte do livro Museu de tudo, publicado pela primeira vez em 1974]

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Convido o(a) leitor(a) para, nas próximas postagens, refletirmos juntos sobre a blogosfera e o ato de "blogar" (a série sobre poesia será retomada mais à frente, quando falarei sobre Antonio Cicero). Até a semana que vem.

BG de Hoje

O NIRVANA sempre teve um pé no punk. Pouca gente discorda disso, penso eu. E essa "ligação umbilical" fica mais evidente ainda em canções maravilhosas como Breed.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Fazer o inútil


O trabalho docente foi sempre estigmatizado por uma certa concepção de gratuidade. Para muitos - e, infelizmente, isto não é tão raro quanto se pensa - esta atividade sequer deveria ser remunerada. Daí usar-se com frequência a expressão "dar aulas" (advogados, por exemplo, recebem "honorários"). Aliás, não custa lembrar que o termo pedagogo designava, na Antiguidade, o escravo que conduzia as crianças até os preceptores.

A desvalorização do trabalho docente ao longo da história humana chegou, com particular intensidade, ao cotidiano da nossa sociedade globalizada, chamada, curiosamente, de "sociedade da Informação" ou "do Conhecimento". Com o desprezo que se tem pelos profissionais do ensino, cabe perguntar: de qual informação e de qual conhecimento estamos falando?

Ainda mais bizarro é constatar que, dentro das próprias instituições escolares, várias são as educadoras e os educadores colocados em situação ainda mais incômoda: refiro-me às promotoras e aos promotores da leitura, particularmente literária.

Mas o espanto dura pouco. O pensamento hegemônico no meio educacional - justamente porque provém da cultura dominante - é que não se pode perder tempo com inutilidades (leia-se "com o que não gera lucro ou outra funcionalidade primária). Literatura é inútil. Ponto final.

Recupero, contudo, a palavra gratuidade exposta no início da postagem, procurando redimir seu significado. Aquilo que é gratuito pode ser também aquilo que é desinteressado.

Várias são as belas histórias gregas. Uma das mais fascinantes é o mito de Prometeu. A obtenção do fogo junto aos deuses e sua ulterior distribuição - espontânea - aos humanos é a mais nobre alegoria para descrever o ofício de milhares de professoras e professores mundo afora, diariamente, disseminando conhecimento.

A elas e eles - e principalmente aos que se dedicam à promoção da leitura literária - faço questão de homenagear com este poema de João Cabral de Melo Neto*:

"Fazer o que seja é inútil.
Não fazer nada é inútil.
Mas entre fazer e não fazer
mais vale o inútil do fazer.
Mas não fazer para esquecer
que é inútil: nunca o esquecer.
Mas fazer o inútil sabendo
que ele é inútil, e bem sabendo
que é inútil e que seu sentido
não será sequer pressentido,
fazer: porque ele é mais difícil
do que não fazer, e dificil-
mente se poderá dizer
com mais desdém, ou então dizer
mais direto ao leitor Ninguém
que o feito o foi para ninguém".
 
_______________
* MELO NETO, João Cabral. O artista inconfessável. In: A educação pela pedra e depois. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997.
(O poema faz parte do livro Museu de tudo, publicado originalmente em 1975)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Folha de árvore, folha de livro


Umberto Eco, há alguns anos, escreveu* que

"Até agora, os livros representam o modo mais barato, flexível e prático de transportar informação a um custo muito baixo. A comunicação por computador viaja à nossa frente; os livros viajam conosco e na nossa velocidade. Se somos náufragos numa ilha deserta, onde não temos a opção de ligar um computador na tomada, um livro ainda é um instrumento de muita valia [...] Livros pertencem a essa classe de instrumentos, que, uma vez inventados, não foram aprimorados, porque já estão bons o bastante, como o martelo, a faca, a colher ou a tesoura."

Apesar disso, a permanência do livro, como registro físico mais típico e simbólico do conhecimento humano acumulado, tem sido colocada em dúvida frequentemente, seja nas declarações de indivíduos com algum saber especializado, seja nas opiniões de senso comum.

Ao livro é garantida alguma perenidade? Penso que sim. Como observaram as professoras Ivete Walty e Maria Zilda Cury**:

"O livro manuseado por nós é, pois, um espaço que convida à descoberta, ao desafio da produção do conhecimento. Enquanto registramos, de inúmeras maneiras, as ideias que aí circulam, ele também recebe nossas marcas impostas pelo manuseio, traços, muitas vezes, de nossa relação afetiva: folhas gastas por repetidas leituras, anotações feitas nas margens revelando nossa forma de ler."

Sobre esse objeto tão característico de nossa cultura João Cabral de Melo Neto escreveu um de seus poemas mais bonitos***: Para a feira do livro, texto que integra o essencial A educação pela pedra (1966).

Em duas estrofes, compostas, cada uma, por doze versos, Melo Neto conjuga a dimensão material com as características mais subjetivas do livro, que acabam por torná-lo tão precioso àqueles que o valorizam.

No primeiro grupo de versos, o poeta apresenta-nos, arriscaria dizer, uma memória orgânica, natural do impresso:

"Folheada, a folha de um livro retoma
o lânguido e vegetal da folha folha,
e um livro se folheia ou se desfolha
como sob o vento a árvore que o doa;"

Mesmo a palavra (no caso, a linguagem) é naturalizada:

"folheada, a folha de um livro repete
fricativas e labiais de ventos antigos,
e nada finge vento em folha de árvore

melhor que vento em folha de livro."

Na segunda parte do poema, emocionante, o objeto é humanizado: modesto, paciente, severo são qualificativos que lhe são atribuídos. E Melo Neto ainda nos relembra que, mesmo com toda a sua força simbólica, como conjunto de signos a ser interpretado, o livro obriga o leitor a comportar-se ativamente diante dele; o livro "exige que lhe extraiam, o interroguem;/ e jamais exala: fechado, mesmo aberto."
 
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* ECO, Umberto. Muito além da Internet. Folha de S. Paulo, São Paulo, 14 dez. 2003. Caderno Mais! p. 4-11

** WALTY, Ivete L. C. ; CURY, Maria Zilda F. Livro: objeto de desejo. Presença pedagógica, Belo Horizonte, v.2, n.12, p. 15-25, nov./dez. 1996

*** MELO NETO, João Cabral. A educação pela pedra e depois. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997