"A melhor maneira de demonstrar que você é um homem de extraordinário bom senso é não acreditar nisso"
Millôr Fernandes - Millôr Definitivo
Millôr Fernandes - Millôr Definitivo
Certa vez li um artigo do economista Paulo Nogueira Batista Jr.*, no qual ele se dava conta do avassalador "triunfo dos idiotas". Para Batista Jr. :
O idiota ocupa os mais variados postos: "pode ser banqueiro, empresário, estrela de televisão, economista, sociólogo e até (Deus nos perdoe) artista". Basta ter "um profundo desprezo pela inteligência do público".
É bem provável que eu faça parte dessa massa de idiotas mencionada pelo articulista. Isso não vem ao caso agora. Há um fato cultural e histórico cuja contribuição foi enorme para a atual supremacia dos imbecis - e é isso o que nos interessa mais de perto.
Como um sem-número de outras pessoas, também acredito que as sociedades humanas não conseguiram criar nenhum outro regime político melhor do que a democracia. Essa crença, contudo, não me impede de apontar suas limitações e, mais do que isso, constatar que uma decisão tomada por uma maioria nem sempre é uma decisão sábia: pode ser, aliás, perfeitamente idiota. Isso deveria ser óbvio (mas não é) : muitas vezes uma maioria adota medidas ineficientes e estúpidas. A democracia, a despeito de todos os seus benefícios, ampliou o alcance da ação dos idiotas.
Pulando para outro assunto.
No artigo Proibir ou compreender** Gilberto Dupas considera que "as sociedades contemporâneas resolveram adotar o 'politicamente correto' como sua nova ética, ainda que temperada com razoável hipocrisia". Embora não tenha restrições ao que Dupas chama de "politicamente correto", concordo inteiramente com ele quando, mais à frente, criticando a caça às bruxas que se tornou a restrição ao direito dos fumantes, afirma que
"A imagem do vizinho que goza demais"... Por que estou tão preocupado com o ato de fumar - considerado estúpido por milhões de cidadãos - se nem fumante sou? Porque o mesmo ódio (hipocritamente moralista, a despeito da justificativa médico-sanitária), hoje dirigido a quem fuma, pode, em pouco tempo, voltar-se para mim e outros que adoram tomar porres e mais porres - comportamento igualmente tido como estúpido por outros milhões de indivíduos!
As pessoas têm diferentes concepções de vida, códigos morais (importantes apenas para elas mesmas) e crenças (algumas delas, totalmente fundamentalistas). E aquele que - por fumar demais, por beber demais, por transar demais, por comer demais, por divertir-se demais, por ser diferente demais - acabe destoando desses rígidos modos de ser e estar no mundo precisa imediatamente se "enquadrar".
Eu? Tô fora!
Mais na próxima postagem.
__________
* BATISTA Jr., Paulo Nogueira. O triunfo dos idiotas. Folha de S. Paulo, São Paulo, 24 mai. 2001, Caderno Dinheiro, p. 2
** DUPAS, Gilberto. Proibir ou compreender. Folha de S. Paulo, São Paulo, 24 abr. 2007. Caderno Brasil, p. 3. Esse texto, para ser franco, parece ter sido encomendado por um lobista da indústria do tabaco. Ainda assim, acho um bom artigo.
"Em certo momento da história mundial, [...] o idiota despertou para um fato básico: a sua avassaladora superioridade numérica. Começou então a perder suas antigas inibições. Surgiu, triunfante, o fenômeno na sua forma moderna - o idiota sem o menor vestígio de superego".
O idiota ocupa os mais variados postos: "pode ser banqueiro, empresário, estrela de televisão, economista, sociólogo e até (Deus nos perdoe) artista". Basta ter "um profundo desprezo pela inteligência do público".
É bem provável que eu faça parte dessa massa de idiotas mencionada pelo articulista. Isso não vem ao caso agora. Há um fato cultural e histórico cuja contribuição foi enorme para a atual supremacia dos imbecis - e é isso o que nos interessa mais de perto.
Como um sem-número de outras pessoas, também acredito que as sociedades humanas não conseguiram criar nenhum outro regime político melhor do que a democracia. Essa crença, contudo, não me impede de apontar suas limitações e, mais do que isso, constatar que uma decisão tomada por uma maioria nem sempre é uma decisão sábia: pode ser, aliás, perfeitamente idiota. Isso deveria ser óbvio (mas não é) : muitas vezes uma maioria adota medidas ineficientes e estúpidas. A democracia, a despeito de todos os seus benefícios, ampliou o alcance da ação dos idiotas.
Pulando para outro assunto.
No artigo Proibir ou compreender** Gilberto Dupas considera que "as sociedades contemporâneas resolveram adotar o 'politicamente correto' como sua nova ética, ainda que temperada com razoável hipocrisia". Embora não tenha restrições ao que Dupas chama de "politicamente correto", concordo inteiramente com ele quando, mais à frente, criticando a caça às bruxas que se tornou a restrição ao direito dos fumantes, afirma que
"No caso do fumo e das drogas, o que parece estar em questão é que pessoas possam exibir publicamente seu prazer, ainda que de forma autodestrutiva. O filósofo esloveno Slavoj Zizek - usando conceito lacaniano - acha que ' a imagem do vizinho que goza demais ' nos é intolerável".
"A imagem do vizinho que goza demais"... Por que estou tão preocupado com o ato de fumar - considerado estúpido por milhões de cidadãos - se nem fumante sou? Porque o mesmo ódio (hipocritamente moralista, a despeito da justificativa médico-sanitária), hoje dirigido a quem fuma, pode, em pouco tempo, voltar-se para mim e outros que adoram tomar porres e mais porres - comportamento igualmente tido como estúpido por outros milhões de indivíduos!
As pessoas têm diferentes concepções de vida, códigos morais (importantes apenas para elas mesmas) e crenças (algumas delas, totalmente fundamentalistas). E aquele que - por fumar demais, por beber demais, por transar demais, por comer demais, por divertir-se demais, por ser diferente demais - acabe destoando desses rígidos modos de ser e estar no mundo precisa imediatamente se "enquadrar".
Eu? Tô fora!
Mais na próxima postagem.
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* BATISTA Jr., Paulo Nogueira. O triunfo dos idiotas. Folha de S. Paulo, São Paulo, 24 mai. 2001, Caderno Dinheiro, p. 2
** DUPAS, Gilberto. Proibir ou compreender. Folha de S. Paulo, São Paulo, 24 abr. 2007. Caderno Brasil, p. 3. Esse texto, para ser franco, parece ter sido encomendado por um lobista da indústria do tabaco. Ainda assim, acho um bom artigo.