Mas o que o romancista norte-americano William Faulkner tem a ver com isso? Ora, numa época de domínio extremo da visualidade, como fica a Literatura, esta arte essencialmente feita de palavras (levando em conta que, como nos impinge o lugar-comum, mil delas não valem sequer uma imagem)? Antes de prosseguir a discussão, leiamos este trecho do livro Santuário*, de Faulkner (é um pouco longo, peço boa vontade).
"Temple tirou os sapatos, colocou-os na cama e enfiou-se sob a colcha. Tommy ouviu o ranger do colchão. Ela não se deitou imediatamente. Ficou sentada, ereta, imóvel, o chapéu licenciosamente colocado. Depois puxou para perto da cabeça o cantil, o vestido e os sapatos, endireitou o impermeável sobre as pernas e deitou-se, puxando a colcha. Sentou-se novamente, tirou o chapéu e sacudiu os cabelos. Colocou o chapéu ao lado dos outros objetos e preparou-se para tornar a deitar-se. Fez nova pausa. Abriu o impermeável, tirando de um dos bolsos um porta-pó. Mirando-se no espelhinho, espalhou os cabelos, afofando-os com os dedos. Empoou o rosto, guardou o porta-pó, olhou de novo o relógio e abotoou o impermeável. Colocou as roupas, uma a uma, sob a colcha, deitou-se e puxou a colcha até o queixo. As vozes tinham-se calado por momentos. No silêncio, Tommy podia ouvir o leve e persistente ruído da palha do colchão onde Temple se deitara, de mãos cruzadas no peito, pernas estendidas e decentemente unidas, como efígie nalgum túmulo antigo".
O excerto acima está no capítulo 8, um dos precedentes ao evento brutal que marca o livro inteiro. Por que o narrador de Faulkner preocupa-se tanto em descrever, em pormenores, a maneira como a adolescente Temple movimentava-se ou dispunha seus objetos? Tenho uma interpretação.
O objetivo aqui é duplo: primeiro o narrador procura transmitir, mesmo com crueldade, a atmosfera entremeada de tensão, violência e medo que perpassa a narrativa; segundo, manter o leitor em terreno pouco confortável, mesmo com prolixidade, para que o suspense e o horror não se percam.
Umberto Eco observou certa vez** que
"[...] as pessoas em geral acreditam que a diferença entre literatura popular e literatura erudita reside no fato de que esta última é repleta de longas descrições, enquanto aquela primeira vai direto ao assunto".
Obviamente - e Eco deixa isso claro em seu livro - esta diferença é simplista e equivocada. Só para efeito de ilustração, conheço pessoas que dizem achar Machado de Assis "difícil" porque ele é muito descritivo... Justamente Machado de Assis, um dos escritores mais concisos de nossa Literatura e que, raramente, lançava mão de longas descrições... Mas voltemos ao nosso assunto.
O narrador de Faulkner é detalhista e descritivo porque isso atende ao plano do livro Santuário. Muito provavelmente sua organização - capítulos pequenos e com alguns deles sem conexões diretas entre si - não seria possível, assim como os efeitos que provoca no leitor não se dariam, caso o autor adotasse outra estratégia.
Os detalhes, nesta como em outras narrativas, são tudo. E, sem necessidade de recursos visuais, só se extrai a expressividade deles graças às palavras, habilmente arranjadas.
* FAULKNER, William. Santuário. São Paulo: Abril Cultural, 1980 [Tradução de Lígia Junqueira Caiuby]
** ECO, Umberto. Seis passeios pelos bosques da ficção. São Paulo: Companhia das Letras, 1994 [Tradução de Hildegard Feist]